24Mar
Coluna Dominical

Uma outra empresa é possível ?

– 24 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

As organizações são divididas entre as públicas (primeiro setor), as privadas (segundo setor) e as sem fins lucrativos (terceiro setor). As do primeiro setor vivem dos impostos que arrecadam. As do segundo setor do lucro da venda dos seus produtos e serviços e as do terceiro setor, das doações que recebem para cumprir a sua função social. Nas últimas décadas surgiu um tipo de organização híbrida, que foi chamada de “Setor 2,5”, pois são organizações privadas que trabalham para resolver problemas sociais, tendo lucro com isto. As organizações do Setor 2,5 têm modos distintos de operar. Em algumas, os seus donos/idealizadores são remunerados pelo seu trabalho, mas todo o lucro é reinvestido no próprio negócio, enquanto em outras, o lucro é destinado aos donos do negócio. O que diferencia uma organização do Setor 2,5 de outra do segundo setor é que ela já nasce com o objetivo de resolver um problema social.

Entre as organizações do segundo setor, existem as que se destacam por fazerem parte das melhores empresas para se trabalhar, por possuírem selos e por constarem nos rankings de empresas com responsabilidade social, negócios de impacto positivo, etc. Mas, existem algumas poucas organizações com fins lucrativos que vão além disto tudo, elas são diferentes porque elas não seguem o comportamento esperado de uma empresa que visa lucro. Por exemplo: Por que uma empresa “desestimularia” os clientes a comprar seus produtos? Por que razões uma empresa privada deixaria de vender um produto altamente lucrativo para um cliente que lhe paga em dia? Por que uma empresa mostraria no seu website os seus custos e informaria o lucro que tem em cada produto? Por que uma empresa daria prioridade para um candidato que não é o mais habilitado para a função que está sendo contratado? Isto não contradiz a lógica dos negócios?

Pois bem, eu estou pesquisando estas “Empresas Diferentes” e analisando as razões para este tipo de comportamento. Relato a seguir alguns exemplos que explicitam o que estou falando.

Patagônia– produz vestuário e equipamentos para esportes ao ar livre, com mais de 1500 colaboradores e um faturamento ao redor de 1 bilhão de dólares em 2018, está localizada em Ventura, na Califórnia. Ela doa 10% do seu lucro para grupos que promovem a proteção ambiental e vem adquirindo áreas no sul da Argentina e no Alasca para transformá-las em parques nacionais. Lançou a campanha “celebre as coisas que você já tem”, onde mostra na etiqueta de uma jaqueta o nome das várias crianças que já a utilizaram. A Empresa fabrica produtos duráveis, com preços mais elevados, procura reduzir o impacto da sua produção e, ao fim da vida útil, os produtos serão reciclados. Se o cliente desejar comprar uma nova mochila porque a sua estragou, o vendedor lhe dirá: por que comprar uma nova se nós podemos consertar a sua?

Mercur– A Empresa co-cria e desenvolve com as pessoas produtos nas áreas de saúde e educação, possui 650 colaboradores e está localizada em Santa Cruz do Sul, RS. Ela deixou de vender um produto altamente rentável por não se identificar com os valores do cliente.  A Empresa abriu mão de usar personagens dos desenhos animados no material escolar por considerar que isto motivava o comportamento consumista das crianças e não contribuía para a sua aprendizagem. Em sua caminhada a Mercur busca constantemente refletir os seus valores através do seu comprometimento.

Insecta Shoes– com um time enxuto de aproximadamente 15 pessoas, a marca de moda sustentável terceiriza a produção de calçados ecológicos e veganos no sul do Brasil. A partir de materiais como garrafas PET recicladas, algodão reciclado, borracha reaproveitada, peças de roupas usadas, tecidos de reuso e resíduos de produção que seriam jogados fora, a Insecta os transforma em sapatos novos. Seu modelo de negócio visa estimular brasilidade, feminismo, sustentabilidade e para cada produto, detalha o custo. Em “Entenda nosso preço”, no seu website, a empresa mostra o percentual e explica cada item da composição do preço daquele produto. Segunda a Insecta ser consciente pode ser divertido. 

ThoughtWorks– uma multinacional americana na área de Tecnologia de Informações que atua em mais de 40 países. Tem a diversidade como um dos seus pontos fortes, pois acredita que pessoas diferentes encontram soluções diferentes para cada problema. Nos seus processos de seleção, prioriza os chamados excluídos do setor: comunidades LGBT, negros, portadores de necessidades especiais, etc. Ao selecionar alguém para a vaga de programador, mais importante do que o conhecimento em programação, valoriza a paixão do candidato pela programação. Diz que a parte técnica a empresa ensina, mas os valores e a paixão o candidato tem que trazer de casa.

Em resumo, não importa o país, o ramo de atividade ou o tamanho da empresa, encontramos empresas que atuam de forma diferenciada. Todas buscam viabilizar economicamente suas estratégias pois são empresas do segundo setor e precisam do lucro para sobreviver. Na sua opinião, as ações deste tipo de empresa são apenas estratégias de marketing para lucrar mais? Ou o que as move são seus valores morais e éticos, sendo elas capazes de abrir mão da possibilidade de elevar seus lucros quando uma estratégia se chocar com seus valores?

Esta pesquisa pretende investigar umas 20 empresas. Estou trabalhando com o apoio de muitos amigos e gostaria de receber suas sugestões e críticas. Se você tem algo a dizer sobre estas empresas ou indicação de outras, por favor entre em contato comigo. Agradeço a todos que estão colaborando com este projeto. Meu objetivo é verificar se é possível uma empresa ter honestidade nos seus propósitos, ser transparente, preservar o meio ambiente, gerar prosperidade a todos com quem interage e ainda assim, ser lucrativa.

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

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