19Jan
Coluna Dominical

Trumpada no Muro 

– 20 de janeiro de 2019

Luis Felipe Nascimento (*) 

Muro é sinônimo de medo, de separação, de preconceito, de conflito e outros significados que eu não gosto. A história mostra que os muros são mais simbólicos do que eficientes, eles escondem outros problemas. O único “The Wall” que eu gosto é o álbum do Pink Floyd. Pois em pleno século XXI a grande discussão no país mais rico do mundo é a construção de um muro na fronteira dos EUA com o México. O Presidente Trump disse ao Congresso que ele não aprova o orçamento de 2019 se não derem os 5,7 bilhões de dólares que ele quer para construir seu muro. Os democratas foram para TV e disseram que as drogas entram no país pelos portos e aeroportos. Que os terroristas chegaram de avião. Portanto, o muro é para impedir que entre a mão-de-obra barata que é apreciada por quem a contrata. O Governo contestou dizendo que 4.000 criminosos entraram pela fronteira do México. Depois de questionado pela imprensa, foram confirmados apenas 6 criminosos.

Quando você ler esta coluna, talvez o acordo já tenha ocorrido, pois esta briga que completa 30 dias neste domingo, a mais longa da história, já causou um prejuízo maior do que o valor do muro. Os democratas acenam a dar uma parte da grana. Trump diz que pode decretar estado de emergência e construir o muro sem permissão de ninguém. Comenta-se que os recursos de ajudas humanitárias poderão ser desviados para o muro. Algo deve acontecer nas próximas horas!

Para termos noção das dimensões do tal muro, vale lembrar que a fronteira dos EUA com o México tem cerca de 3.200 km, a distância de Porto Alegre a Salvador. Cerca de um terço da fronteira já tem muros e cercas. Por  exemplo, a cidade de San Diego está separada de Tijuana por um muro. Mas o muro do Trump é muito mais legal, ele vai ser furadinho para poder ver o que o povo está aprontando do outro lado, e vai ter 9 metros de altura, algo como um prédio de 3 andares.

Alguém poderá pensar: “eles são ricos, que gastem todo este dinheiro no muro”. Segundo dados do Governo Americano, em 2016 houve uma redução de 13% no número de imigrantes ilegais comparado com os dados de 2007. Neste período reduziu também o número de brasileiros ilegais. O colunista Nick Welsh do “The Independent” (p.16 da edição 10/01/2019), um jornal de Santa Bárbara, questiona: “A entrada de ilegais pela fronteira do México é mesmo uma emergência?”. Emergência, na sua opinião, são os 200.000 novos casos de viciados em medicamentos prescritos para tratar as dores (opioides) e que já levaram a morte de 400.000 pessoas entre 1999 e 2017. Emergência são os casos de diabetes, que nos últimos 10 anos passou de 20 para 30 milhões. Atualmente se gasta 327 bilhões para tratar os casos de diabetes e estima-se que em 2030 serão necessários 633 bilhões. Os custos não são apenas com a aplicação de insulina, mas com a amputação de membros dos pacientes. Faltam recursos para cuidar de uma população que está doente.

Nesta história toda, tem ainda os 800.000 funcionários públicos federais que estão sem receber salários, 350 mil estão em casa, os que trabalham em setores estratégicos como os aeroportos, são obrigados a trabalhar mesmo sem receber. Os protestos aumentam a cada dia. Muitos alegam estar doentes e estão faltando ao trabalho. O aeroporto de Miami vai fechar um terminal inteiro por falta de pessoal. De funcionários do FBI, guardas dos presídios aos técnicos da Nasa e embaixadores no exterior, todos alegam estar passando dificuldades.   

O Presidente Trump diz que o muro é o desejo dos eleitores que votaram nele. Eu tenho me questionado sobre isto. Quando a gente vota num candidato está avalizando todas as suas propostas? Analise todas as propostas de campanha apresentadas pelos candidatos em quem você votou. Você concordava com todas elas? Se o seu candidato foi eleito, ele poderá dizer que precisa cumprir a promessa de campanha para atender o seu desejo? Imagine que um candidato ao governo do Rio Grande do Sul prometa separar o Estado do restante do país e seja eleito, ele poderá fazer isto por que prometeu na campanha e foi eleito? Penso que projetos polêmicos precisam de uma discussão com toda a sociedade e não apenas se basear no fato que foram anunciados na campanha. O candidato eleito não tem carta branca para implantar tudo o que anunciou na campanha. Me parece que boa parte dos eleitores de Trump não vê o muro como uma emergência. Acho que os eleitos usam o voto dos eleitores para justificar suas ações, mas que na verdade atendem os interesses de alguns grupos que o apoiaram. Se este muro for construído, tenho certeza que os nossos filhos assistirão a sua derrubada. Aguardemos qual vai ser o desfecho de mais esta Trumpada!

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

One thought on “Trumpada no Muro 

  1. Carmenza Reply

    Apavorante acompanhar uma página da história e não ter ideia do desfecho da mesma…qualquer coisa pode acontecer, imprevista e impensada tal vez!
    Socorro!

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