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27Apr
Coluna Dominical

Dia da Terra – 50 anos cuidando da nossa casa

– 28 de abril de 2019

Luis Felipe Nascimento (*) 

No dia do aniversário de uma pessoa querida costumamos felicitá-la e desejar saúde e felicidades. No dia 22 de abril, no Dia do “aniversário” da Terra, ocorrem mobilizações pelo mundo todo para desejar saúde, felicidade e harmonia ao Planeta. Mas por que dia 22 de abril? Como surgiu esta data? Esta semana vivi três dias de celebração deste aniversário no local onde nasceu o Dia da Terra. Quero compartilhar com vocês um pouco da história e mostrar como se pode fazer do limão uma limonada. 

Em 28 de janeiro de 1969 apareceu uma mancha de petróleo na costa de Santa Bárbara. A empresa Union Oil tinha economizado na construção de uma plataforma de petróleo, o que levou a um vazamento equivalente a 4,5 piscinas olímpicas de petróleo, espalhados por cerca de 50 km. Os estudantes de Santa Bárbara iniciaram seus protestos e criaram a “Get Oil Out!”, pressionando o Governo a parar com a exploração de petróleo na região. Eles não atingiram o seu objetivo, mas deram início a um movimento mundial de conscientização ambiental. 

A repercussão do vazamento de petróleo trouxe o Presidente Nixon à Santa Bárbara, e ele classificou o então maior derramamento de petróleo dos EUA de “incidente de Santa Bárbara”. Outros políticos também visitaram a região, entre eles o Senador de Wisconsin Gaylord Nelson, que já possuía engajamento com questões ambientais. Naquela época estavam ocorrendo mobilizações contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos civis. Ao retornar desta visita o Senador teve a ideia de fazer uma mobilização em defesa do meio ambiente e propôs o “Dia da Terra”, que ocorreu em 22 de abril de 1970. Antes disto já existiam movimentos ambientalistas, mas o Dia da Terra foi um catalisador e conseguiu mobilizar ativistas, liberais e conservadores. Um grito que foi ouvido pelos quatro cantos do Planeta. Os americanos passaram a questionar a poluição como um “mal necessário” para o desenvolvimento. Naquele 22 de abril de 1970 ocorreram mobilizações em mais de 1500 campus universitários e mais de 10 mil escolas, envolvendo cerca de 20 milhões de americanos. As notícias na mídia sobre as questões ambientais se quadruplicaram e no final de 1970 Nixon criou a Agência de Proteção Ambiental (EPA). Dois anos depois foi realizada a primeira Conferência da ONU para discutir questões ambientais em Estocolmo. Em 2009 a ONU reconheceu o dia 22 de abril como o Dia Internacional do Planeta da Terra. 

Nesta semana ocorreram em Santa Bárbara manifestações com shows, palestras e muitas atividades para relembrar os 50 anos do chamado “incidente” do derramamento de petróleo nas suas praias. O Dia da Terra se transformou num movimento internacional “sem dono”, uma festa sem conotação política ou religiosa, que foca na defesa da nossa casa. Como disse o astrônomo Carl Sagan: “Olhe para este ponto. Isso é aqui. Isso é a nossa casa. Isso é nós. Nesta casa estão todos que você ama, todo mundo que você conhece, todo mundo que você tenha ouvido falar, cada ser humano que já se foi. Isto é o Planeta Terra.”

Fazendo uma analogia com os cuidados que temos com a nossa saúde, imagine uma situação trágica em que uma pessoa que você ama morre durante um tratamento médico e depois você descobre que o médico/hospital economizou no tratamento, não utilizando todos os recursos disponíveis para salvar a vida desta pessoa. Você chamaria isto de “incidente”? Toda vez que ocorrem fatos como o derramamento de petróleo em Santa Bárbara porque não foram utilizados os melhores recursos disponíveis, trata-se de crime ambiental e uma agressão a todos nós que moramos e dependemos desta casa chamada Planeta Terra. 

O vazamento de óleo em Santa Barbara resultou na conscientização da população e no desenvolvimento de tecnologias para minimizar os impactos ambientais. A Califórnia fez do limão uma limonada e se transformou numa das regiões mais avançadas nas questões ambientais do mundo. Falando nisto, que lições aprendemos com os crimes ambientais cometidos em Mariana e em Brumadinho?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com