09Dec
Coluna Dominical

Solitude em Santa Bárbara

– 9 de dezembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

O ser humano vive em bando, pois nos faz bem estar junto com a família e com os amigos. Esta “dependência” é o que nos salva do completo isolamento.  Mas, o estar junto e o ocupar todo o nosso tempo com atividades, se tornou um vício, fomos esquecendo que a nossa melhor companhia, somos nós mesmos. O precisar ficar com alguém por medo de ficar só é um sinal de insegurança. Portanto, ao mesmo tempo que vivemos em sociedade, que somos interdependentes, faz muito bem termos momentos de solitude. Importante ressaltar que solitude é o ato voluntário de ficar só por algum tempo, enquanto a solidão é o desejo não atendido de companhia. A solitude seria o lado bom da solidão. Eu nunca havia ficado tanto tempo sozinho, está sendo um período difícil, mas estou aprendendo a gostar da minha companhia. Acho que vivo mais solitude do que solidão. Quando estamos bem com a gente mesmo, as relações com os outros fluem de forma muito mais leve. Não precisamos da atenção o tempo todo e nem fazemos cobranças aos outros. Nos tornamos pessoas melhores para nós e para os outros, pois na solitude nos abastecemos de nós mesmos.

Minhas melhores companhias neste período foram a “música”, o “sol” e o “afeto” da família e dos amigos. Aprendi que dá para induzir os sentimentos escolhendo as músicas adequadas. Antes de dormir e ao levantar, gosto de ouvir música clássica. Deixo aqui o link de uma das minhas preferidas (Beethoven – https://music.youtube.com/watch?v=bNsfqumtc9A). Se quero me alegrar, escolho Rita Lee, um forró pé de serra, ou outras canções com ritmos vibrantes. O sol é também um grande companheiro! Quem poderia se entristecer em baixo de tanta luz e energia? Talvez por isto que a ensolarada Califórnia faça este povo ser mais feliz do que populações que vivem em regiões com pouco sol.

Por fim, o afeto é o que conforta o coração, não importa a distância de onde ele venha. Como diz o Amyr Klink: “Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudades, mas não estará só”. Meu amigo Senna resolveu fazer selfiescom outros amigos queridos e me enviar as fotos. Fui assim colecionando estas relíquias que me fizeram tanto bem. Uma gravação de áudio ou uma conversa pelo WhatsApp é um afago na alma. Já o Sr.Peixoto, quando me vê online no WhatsApp me liga e já diz: “se não pode falar, desliga. Só passei aqui para bater um papinho com o amigo”. Vários outros amigos têm me dado um suporte, que tem sido fundamental. Tudo isto tem um valor enorme, são carinhos e lembranças que levarei comigo para o resto da vida.

A diferença de fuso horário me fez conhecer detalhes da vida de vários amigos. Descobri que a melhor hora para falar com a Angela é por volta das 02:00 h da madrugada do Brasil, 20h em Santa Bárbara, hora que ela está trabalhando e que a família já foi dormir. A Lisi, que está com gêmeos recém-nascidos, lê e responde as minhas mensagens na madrugada, pois sempre tem um deles acordado nestas horas. Outro amigo me confessou que dorme 3 a 4 horas por noite, e responder mensagens na madrugada faz parte da sua rotina. Entre outras curiosidades: uma amiga me passou os horários que ela dorme e pediu para não enviar mensagens durante suas horas de sono. Agora estamos com uma diferença de fuso de 6 horas. Quando estou indo dormir, já tem gente levantando aí no Brasil e já começo a receber mensagens. Tem ainda os amigos que estão no exterior, com fusos maiores ainda. Algumas vezes tomo café as 7 horas da manhã com o meu amigo Alfredo, antes dele deixar a universidade na Itália, pois está 9 horas na minha frente.

Compartilho tudo isto para dizer que, na próxima semana, estou indo ao Brasil, com autorização da CAPES, e pretendo curtir muito a família e os amigos, poder dar e receber os abraços que são tão difíceis aqui. Retorno no início de janeiro para completar minha pesquisa até agosto de 2019. Estou com baixo nível de oxitocina, o hormônio que é ativado pelos abraços afetuosos. Certamente não poderei encontrar com todos como eu desejaria, mas fico feliz em continuarmos conectados de uma forma ou de outra. Beijos a todos.

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com

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