30Dec
Coluna Dominical

Só conhece a primavera quem resistiu ao inverno

– 30 de dezembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Se o Planeta Terra girasse em torno do seu eixo, sem inclinação, cada dia teria 12 horas de luz e 12 horas de escuridão e não haveriam as quatro estações. Quando o Planeta Terra se formou não havia nele nenhuma forma de vida, e a sua vida ficou tão monótona que ele resolveu tirar um cochilo, saiu do seu eixo e passou a fazer a sua órbita meio inclinado. Resultado, surgiram as estações! Na Primavera, as árvores ficam floridas, se preparando para formar os frutos. Quando chega o verão, elas já estão cheias de frutos, mas eles ainda não estão prontos. Até que chega o outono e as árvores oferecem seus frutos, que são a embalagem da semente que dará origem a uma nova árvore. As folhas e os frutos que caem se transformam em alimentos para a própria árvore, que se fortifica e se prepara para enfrentar as dificuldades da próxima estação. No inverno, as árvores estão sequinhas, adormecem para sobreviver ao frio e aos dias com pouco sol. Elas sabem que se resistirem ao Inverno, terão uma nova Primavera, e um novo ciclo se iniciará.

Fazendo uma analogia com a nossa vida, podemos dizer que também passamos pelas quatro estações. Acredito que a vida não é uma linha reta, mas que ela funciona em ciclos. Desde que nascemos estamos em constantes transformações. O corpo se desenvolve, atinge o seu ápice e depois de um longo período de estabilidade, ele começa a dar sinais de envelhecimento até a falência dos órgãos. Mas, ao longo deste ciclo, o corpo poderá adoecer e depois se recuperar. A vida alterna momentos bons e ruins e vai criando os ciclos de curto prazo. O nosso desenvolvimento intelectual passa por ciclos semelhantes. Depois de uma fase de alto rendimento vamos perdendo a rapidez de raciocínio. Talvez o desenvolvimento emocional e o espiritual tenham um comportamento um tanto diferente, pois o seu ápice poderá ocorrer na última fase da vida.

Os ciclos da vida se materializam no tempo, e para medir o tempo chamamos cada período de 365 dias de um ano, que é um ciclo curto dentro do ciclo longo da vida. A diferença do dia 31 de dezembro para o 1 de janeiro depende do olhar de cada um. Poderá ser apenas mais dia, onde nada de diferente irá ocorrer, ou poderá ser o início de um novo ciclo. Eu sou dos que acreditam que o primeiro de janeiro é o início de um novo ciclo e uma oportunidade para renovar esperanças. Como diz Mário Cortella, esperança vem do verbo esperançar, que pode significar “buscar” ou “esperar”. Vejo o primeiro de janeiro como o início de uma nova busca para fazer coisas boas acontecerem. Adoro iniciar um novo ciclo, mas confesso que tenho dificuldades para me desapegar do anterior, para fechar um ciclo. Tenho a tentação de querer viver o futuro e o passado ao mesmo tempo.  

O ano de 2018 foi um ano de muitos rompimentos, de conflitos e crises. Quero crer que tenha sido o fim de um inverno, e que 2019 será o início de uma primavera. Desejo que esta primavera permita a todos o desenvolvimento do que existe de melhor em cada um de nós. Que a nossa esperança nos leve a buscar a realização dos sonhos e que as nossas atitudes criem as condições para que os sonhos floresçam. Em 2019 sejamos gratos à vida, pois cada dia vivido é um presente que recebemos.

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com 

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