15Apr
Coluna Dominical

Síndrome do antagonismo crônico 

– 15 de abril de 2018

Lisiane Mota (*)

Vivemos historicamente de antagonismos: GRENAL, FLAFLU, Arena x MDB, PT X PSDB, PSDB X PMDB, Escravocratas x Alforristas, Homens x Mulheres, Machistas x Feministas, Pobres x Ricos, Iluminados x Iletrados, Coxinhas x Mortadelas, Iniciativa privada x Iniciativa pública, Capitalismo x Comunismo, Gosto x Não gosto, Gosto “se” x Não gosto “porque”, Loiras x Morenas, Bombados x Nerds, Magros x Gordos…a lista é sem fim, mas sempre coloca as pessoas em lados opostos.

Presos nesse loop do antagonismo fechamos os olhos ao vasto manancial de opções que se encontram nos caminhos do meio. Se a vida não é linear, eis que dá muitas voltas, os caminhos também não o são, e estão espalhados, em todas as opções desse vasto espaço entre os opostos.

Desde que o mundo é mundo o antagonismo exerce um papel fundamental aos que dele se servem, o de manter afastadas pessoas que poderiam encontrar pontos de intersecção. Enquanto aceitarmos sermos colocados em extremos, afastados do outro extremo de tal modo que não consigamos encontrar pontos em comum e de modo que não consigamos nos unir com base nesses pontos harmônicos, seguiremos sendo instrumentos da velha máxima do “dividir para conquistar”. Divididos somos mais úteis aos que efetivamente se beneficiam dos extremos.

Isso, contudo, não significa que os beneficiários desses extremos não possam se beneficiar dos caminhos do meio, mas o sentimento de insegurança e ameaça faz com que bloqueiem caminhos e sigam utilizando trilhas já conhecidas. É sempre mais fácil costear o terreno do que se arriscar mata a dentro. 

A questão de fundo é que a diferença entre os homens e os desbravadores é a disposição de lançar-se ao desconhecido. Sair de sua zona de coforto, conhecer ao desconhecido, e dar-se a conhecer. Seja na política, nas relações pessoais, o crescimento vem dos desafios e quanto mais presos ficarmos as nossas posições menos crescimento efetivo teremos. Nos tornamos pessoas melhores pelo exercício diário, e sempre difícil, de dar-se a conhecer e de realmente desejarmos conhecer e compreender o mundo do outro. Se nosso mundo não será como idealizado, precisamos compreender que ele será como for possível. Sair do estado de comodidade, pensar fora da caixa, olhar com outros olhos, são maneiras análogas de se fazer o que é fundamental para crescer, arriscar-se.

Entender que o antagonismo é inexperto, que nos afasta do mundo e nos cerceia o crescimento é o primeiro passo para entender que ele serve a qualquer outro fim que não o nosso próprio bem. Somente começaremos a sair desse antagonismo crônico e incrustado em nossos hábitos quando, como seres sociais que somos, buscarmos a proximidade, o contato e exercitarmos a empatia, desenvolvermos o ouvir mais do que o falar. Muito mais do que exercícios sociais, são exercícios políticos, sociológicos e culturais, é entender o mundo como ele de fato é, e entender-se parte desse mundo, e nele situar-se de maneira harmônica e produtiva. Entender que não somos sozinhos. Somos melhores em grupo, e somos melhores unidos, jamais antagonizados. 

(*) Lisiane Mota é representante comercial e mediadora judicial.

Contato: lisianeb@terra.com.br

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