19Mar
Coluna Dominical

Seremos gigolôs dos robôs?

– 19 de março de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Quando foram inventados os teares mecânicos em 1785, os trabalhadores protestaram alegando que aquelas geringonças iriam roubar os seus postos de trabalho. Eles estavam certos, as máquinas provocaram desemprego, aumentaram a produtividade e reduziram os custos dos produtos. Os teares e as demais máquinas da Revolução Industrial deslocaram a riqueza da atividade comercial para a atividade industrial. Com a industrialização, os trabalhadores perderam seus empregos e tiveram de se adequar aos novos tempos. Os donos das indústrias enriqueceram. Os consumidores tiveram acesso a produtos mais baratos.

Nos anos 80, quando se difundiu o uso de robôs industriais, aqueles que substituem o trabalho feito pelo homem nas indústrias, surgiram novos protestos e o resultado foi o mesmo: demissões, aumento da produtividade e dos lucros dos donos das indústrias e redução do preço dos produtos. No século XXI inicia-se um novo ciclo de substituição do trabalho do homem por máquinas. Agora são os carros que andam sozinho, impressoras 3D que serão capazes de fazer a maior parte de uma casa sem precisar dos operários da construção civil. Muitas profissões irão desaparecer. Segundo um estudo da Universidade de Oxford, a automação irá eliminar 47% dos postos de trabalho num futuro próximo. Estes processos são irreversíveis, mas o que deve ser questionado é, se quem arca com o ônus não merece parte do bônus destas inovações? Ou seja, se os robôs e a automação causam desemprego e geram riqueza, com quem esta riqueza deve ser repartida? Quem será o gigolô dos robôs? Será que este aumento de produtividade permitirá a redução da jornada de trabalho e/ou garantir uma renda mínima para todos?

A Finlândia está implantando em 2017 um projeto piloto de renda mínima universal no valor correspondente a R$ 2.000,00, independente da pessoa estar trabalhando e de ter outras fontes de renda. A proposta não foi feita pelos sindicatos, mas pelo primeiro-ministro Juha Sipila e conta com o apoio da maioria da população. Os impostos incidirão apenas sobre as rendas adicionais http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/11/1834400-finlandia-vai-testar-renda-minima-de-r-1990-para-todos-os-cidadaos.shtml. A Província de Ontário no Canadá anunciou a doação de um cheque que cobrirá o custo de vida para todos os seus cidadãos, empregados ou não. A cidade holandesa de Utrecht pretende implantar um programa semelhante ao que está sendo discutido na Finlândia.

Será que estes governantes enlouqueceram? Ou fazem isto porque têm dinheiro sobrando? Nada disto! O projeto da Finlândia elimina todos os demais auxílios sociais pagos pelo Estado. Dizem que sairá mais barato do que pagar seguro-desemprego, auxílio-moradia, auxílio para deficientes, verbas para estudantes etc. Além disto, eliminaria todo o aparato para determinar se o requerente merece tal benefício e gerenciar todo o sistema de seguridade social.

Na verdade, estas propostas não são novas, já foram defendidas em 1516 no livro Utopia de autoria de Thomas More. No Brasil foi aprovada a lei proposta pelo Senador Suplicy que institui a renda mínima, mas não foi implantada. Na Suíça, um plebiscito em 2016 derrotou a proposta de pagar R$ 9.000,00 por mês como renda mínima para toda a população. A proposta de renda mínima universal embora tenha o apoio de pessoas da esquerda e da direita, recebe críticas da esquerda e da direita. O sucesso ou fracasso destas experiências irão mostrar se este é o melhor caminho. No entanto, uma coisa é certa, o homem não tem como competir com as máquinas. Tudo o que a máquina fizer melhor e mais rápido do que o homem, deixe-a fazer! O homem tem de fazer o trabalho criativo, aquele que a máquina não consegue fazer. Pessoas criativas e inovadoras são educadas em escolas criativas e inovadoras. Portanto, as escolas e universidades que estão preparando pessoas para fazer o trabalho das máquinas, preparam futuros desempregados. No futuro, quem quiser ganhar mais do que a renda mínima ou não viver de auxílio desemprego, vai ter de ser criativo e inovador. Se o que você faz ou pretende fazer, poderá ser feito por uma máquina, abra o olho!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

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