14May
Coluna Dominical

Será que isto é verdade?

– 14 de maio de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Poucos são os brasileiros que leem jornais e revistas. Quem faz isto, geralmente lê a análise que lhe agrada. Tem quem goste das análises da Veja e quem goste das análises da Carta Capital.  Entre os jovens, não são muitos os que assistem telejornais. A maioria do nosso povo se informa sobre o que acontece no mundo pelas redes sociais e pelo que o outro lhe conta: “Que absurdo, você viu o que aconteceu lá em …?” A informação transmitida pelo amigo/colega/vizinho/patrão/empregado se torna verdade. Se eu confio na pessoa que me conta, então a notícia deve ser confiável. Por isto é muito fácil alguém plantar uma notícia nas redes sociais sobre temas que interesse a muita gente: “Lula é dono do palácio que aparece nesta foto”. Pronto! Não precisa de comprovação nenhuma, os adversários de Lula vão compartilhar e logo esta informação vai chegar a milhares de pessoas. Do outro lado acontece a mesma coisa: “A mulher do Moro está roubando a merenda das crianças da APAE” e logo a notícia se espalha entre os que não gostam do juiz Sérgio Moro. Quem compartilha tais informações não está interessado em sua veracidade, quer apenas atacar a pessoa, ou a proposta, a qual se opõe. Com o objetivo de defender as propostas A, B, C, … ou para defender uma concepção de desenvolvimento para o país, criou-se uma guerra de informações, que o cidadão comum não consegue distinguir as falsas das verdadeiras. Então, como saber se a informação é verdadeira? Que medidas outros setores adotaram para tornar mais confiáveis as informações divulgadas?

Quem compra um quilo de feijão, pode ver na embalagem que o Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia atesta que aquele produto possui realmente o peso anunciado. Portanto, o consumidor não precisa pesar para saber se a informação é verdadeira, pois existe uma organização para fazer isto, chamada de terceira parte, que não atende aos interesses de quem vende nem de quem compra. Se o cidadão deseja comprar uma geladeira, pode se orientar pela Etiqueta Nacional de Conservação de Energia, conhecido como Selo Procel, de uma forma simples (letras de A até G e cores variando do verde ao vermelho), informa o quão eficiente é aquela geladeira e permite compará-la com outras marcas.

No tempo dos nossos pais, a propaganda de produtos era livre, semelhante ao que ocorre hoje nas redes sociais, cada um podia dizer o que queria e nada lhe acontecia. Hoje, uma propaganda enganosa poderá ser retirada da mídia pelo Conar – Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária, que aplica o Código Brasileiro de Autorregulação Publicitária. Existem outras ONGs que controlam a qualidade das propagandas. Foi criado um sistema de avaliação que identifica os “Sete pecados” cometidos por algumas propagandas (http://embalagemsustentavel.com.br/2009/05/04/os-7-pecados-do-greenwashing/). Estas organizações adotaram selos, códigos de autorregulamentação, critérios para qualificar a informação por meio da ação de ONGs. Será que algo semelhante funcionaria para avaliar a qualidade das informações que circulam nas grandes mídias e nas redes sociais?

Será que um dia existirá um “Inmetro das informações”? Uma organização que verifique nas informações difundidas: 1. Se são verdadeiras (no sentido de que o fato realmente ocorreu)? 2. Se a fonte está identificada? 3. Se existem provas? 4. Se a manchete está condizente com o conteúdo? 5. Se trata-se de algo ilegal, imoral ou foi praticado por adversários de quem divulga a informação? O resultado da avaliação não entraria no mérito da notícia, contudo, apontaria, usando cores e números, quais os “pecados cometidos”. Portanto, não se trataria de proibir ou censurar informações, mas de permitir que o cidadão comum possa saber o grau de confiabilidade daquela informação.

O Trump venceu as eleições mentindo nas redes sociais. Nas vésperas das eleições francesas surgiram mentiras nas redes sociais visando favorecer a candidata Marine Le Pen. O que acontecerá nas próximas eleições brasileiras? Quanta mentira e calúnia serão feitas por todos os lados? Enquanto não surge um Inmetro das informações, nós mesmos teremos que fazer este papel e responder as cinco questões listadas acima para formar uma opinião. Ou seja, não confie na informação repassada por quem você confia, esta pessoa pode estar apenas repassando o que recebeu de alguém, confiável ou não.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *