17Feb
Coluna Dominical

Que tal morar numa Cohousing?

– 17 de fevereiro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Eu conheço dois projetos de amigas que pretendem construir em Porto Alegre condomínios para envelhecer junto com os amigos. Embora a ideia me pareça encantadora, isto não é exatamente uma “cohousing”. Então, o que é mesmo uma cohousing? O que isto tem de diferente dos condomínios que existem por aí? Por que esta forma de viver ainda  não se difundiu no Brasil?

O conceito de “Cohousing” já foi utilizado pelos nossos antepassados e foi retomado  na década de 60 na Noruega, quando Bodil Graae publicou o artigo “As crianças devem ter cem pais”, onde ele estimulava a formação de projetos comunitários de 50 famílias. Esta ideia prosperou e se formaram algumas comunidades em vários países. Hoje existem diferentes concepções, mas pode se dizer que uma típica cohousing é formada por 20 a 40 casas, cada uma com cozinha e banheiro privativo. Os espaços compartilhados oferecem uma grande cozinha, sala de jantar, lavanderias e espaços recreativos. Existe espaço ao ar livre com jardins, passarelas e estacionamento comum. Vários serviços e equipamentos são compartilhados, num formato de economia colaborativa, onde não é necessário que cada um tenha as suas ferramentas, o seu cortador de grama, etc. As atividades comunitárias oferecem eventualmente refeições compartilhadas, festas, jogos, filmes, formam-se clubes, compartilhamento de passeios, etc. Portanto, as famílias possuem vida privada e renda independente, mas planejam e gerenciam o condomínio com os vizinhos. Não existe hierarquia, as decisões são geralmente tomadas por consenso.

Uma cohousing pode ser multi-geracional ou apenas de seniores. Ela se diferencia de uma “Coliving”, onde as pessoas compartilham as cozinhas e os banheiros. Se diferencia também dos projetos de cooperativas habitacionais que existem no Brasil, onde o associativismo vai até a construção das casas, depois existe pouca interação entre os vizinhos.

Eu tive a oportunidade de visitar em Pequim, na China, as habitações tradicionais onde ainda hoje existe um muro na calçada com apenas uma porta para rua. Ao entrar, nos deparamos com um pátio quadrado cercado de pequenas casas geminadas. Não sei quais serviços são compartilhados, mas vi que no pátio brincavam crianças sob o olhar dos idosos, talvez cada uma delas tivesse “cem pais”.

Alguns projetos de cohousing tiveram um idealizador, que construiu e chamou seus amigos para viver neste local. Outros, surgiram de uma vontade coletiva, com maior participação dos envolvidos na escolha do local, desenvolvimento do projeto, etc. O projeto de um grupo de 54 pessoas, professores aposentados da Unicamp, que estão implantando a vila ConViver, me inspirou para escrever este texto e reacendeu em mim a vontade de viver uma experiência de vida comunitária com serviços compartilhados.

Por que estas experiências não se difundiram ainda no Brasil? Na minha interpretação, nós super valorizamos as nossas coisas, as nossas propriedades privadas e tememos ser roubados,  e assim nos tornamos escravos dos nossos bens. Muitas pessoas deixam de passear por não ter quem cuide da sua casa, das suas flores e dos seus pets. A geração dos nossos pais não tinha o hábito de permitir que, na sua ausência, estranhos usassem as suas casas.  Lembro de ter ouvido: “Imagine um estranho dormindo na minha cama!”. Hoje as pessoas vão além do uso do airbnb, elas estão desfrutando de serviços como os oferecidos pelo site “Mind my house” http://www.mindmyhouse.com/owners/sitter_listing/000 , em que os proprietários ao saírem em férias oferecem suas casas para que estranhos se hospedem em troca de cuidar dos animais, molhar as folhagens, etc.

Eu acredito que quanto mais desapegados nos tornarmos, mais facilmente serão viabilizados projetos de cohousing. Além de reduzir custos, de conviver com amigos e se divertir, tais projetos possibilitam ainda que, por um período, as pessoas possam trocar a sua casa com alguém de outra cohousing, permitindo assim as pessoas viajarem pelo mundo sem pagar hospedagem. Nada melhor que chegar num país e ser recebido por uma comunidade que irá lhe contar as histórias da região, lhe levar a passear e compartilhar suas experiências. Os custos de passagens podem ser reduzidos drasticamente quando comprados com antecedência e usando os períodos de baixa procura. Ou seja, não precisamos nos preocupar tanto em juntar dinheiro para garantir uma boa velhice, podemos nos integrar em projetos de baixo custo e que poderão nos oferecer uma vida saudável e divertida convivendo com pessoas que nos identificamos, ou mesmo, experimentando a convivência com pessoas estranhas e descobrindo novos mundos. Isto serve para você?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

2 thoughts on “Que tal morar numa Cohousing?

  1. Fernanda knijnik Reply

    Olá Luis Felipe

    Essa ideia do cohousing é cool, genial. Acredito q seja uma das melhores formas de ser feliz.
    E o que realmente importa a nao ser boas conexões com as pessoas, amigos, parceiros?. Ninguém faz nada sozinho.
    Tua história me lembrou a forma de viver nos Kibutz em Israel, com algumas diferenças, claro.
    A cohousing é uma grande evolução sustentável.
    Tô nessa!! Vamos pensar numa por aqui.

    1. admin Post author Reply

      Oi Fernanda, eu não conheço em detalhes os Kibutz, mas me parece que os eles são mais avançados do que as cohousing. No meu entendimento, as cohousing são a aplicação da algo que parece tão óbvio e que não fazemos, como por exemplo: compartilhar produtos e serviços com os vizinhos. Viver de forma mais harmoniosa com os vizinhos. Enfim, acho que podemos sim ter muitos projetos legais, pois tem muita gente interessada. Sou parceiro!

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