19May
Coluna Dominical

Pobre velhinha, que nada!

– 20 de maio de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Dona Gelcy é uma “velhinha” que vive com muitas dores na coluna e nas pernas, com insuficiência renal e que cada vez que faz uma visita ao médico recebe o alerta: – “Tome cuidado, seus ossos estão muito fraquinhos e até um espirro pode quebrar uma costela”. Ao retornar para casa, mesmo depois do médico lhe dizer tudo o que ela já sabia, volta cheia de esperanças de que esse novo remédio resolverá os seus problemas! Um médico indica outro, que pede novos exames e assim ela preenche parte da sua agenda das semanas seguintes.  

Com os seus 87 anos e viúva há cinco deles, dona Gelcy mora sozinha em seu apartamento. Ou melhor, praticamente sozinha, pois o filho mais velho que mora com ela, passa o dia fora trabalhando. E nos poucos momentos que estão juntos, eles conversam, brigam e assistem filmes. Coisas de mãe e filho. Os outros dois filhos e os netos, ligam quase todos os dias e sempre que podem, filam um almoço na casa da mãe ou da vó.

O prazer desta “idosa” é fazer muita comida deliciosa e convidar os filhos, netos, bisneto, os amigos dos filhos, dos netos e quem mais aparecer, para o almoço de domingo, para o qual ela costuma preparar uma dúzia de pratos variados, sem contar os 3 tipos de sobremesa. Além disto, tem o prato especial da fulaninha que não gosta de tal coisa e o aperitivo preferido do fulaninho que adora tal petisco. Tudo preparado por ela. Estes almoços fazem a “Festa de Babette” parecer um simples buffet executivo. O seu apartamento é pequeno, mas nunca falta lugar. Tem uns que preferem comer sentados no sofá segurando o seu prato, tem os que comem e saem mais cedo, tem os chegam mais tarde, tem o bisneto que almoça em frente a TV do quarto e assim, acaba sobrando lugar na mesa. Na saída, cada um leva um potinho para o jantar. Ah! E para aproveitar a visita da nora que é médica, sempre tem uma consulta após o almoço e questionamentos do tipo: “Será que este remédio é bom mesmo?”

Estas cenas são típicas de muitas famílias brasileiras, mas o que pode ser único, é o bom humor da dona Gelcy, que apesar das suas dores, está sempre pronta para sair para um passeio ou para tomar um café com alguém. Se a convidarem para viajar, ela vai dizer que prefere ficar em sua casa, que tem médico agendado para aquela data, etc., mas no dia seguinte dirá: “Eu não queria ir, mas insistiram tanto, como que não vou ir?” e acaba viajando.  

Quando os filhos perguntam “Como a senhora está?”, a resposta mais frequente é “Estou aqui, ainda!”. Se num telefonema lhe perguntarem “O que a senhora está fazendo?”, dirá “Ora, o que uma velha de 87 anos poderá estar fazendo? Estou lendo, fazendo crochê, palavras cruzadas…”  Este aparente mau humor vai até que ela conte que foi em tal lugar, que alguém ligou, que viu a fulana no Facebook, e blá, blá, blá. E quando os filhos ou netos lhe perguntam se ela não fica triste de passar algum domingo sozinha, ela responde com toda a honestidade: “Não, porque sei que vocês estão bem!”. Ficar só, ter seu espaço, poder decidir o que fazer e onde ir, é uma conquista que ela obteve depois dos 80 e poucos anos, portanto, é preciso respeitar.

Com muitas histórias para contar, a dona Gelcy encanta as pessoas com as quais conversa, pois sempre tem algo engraçado para dizer. Ela gosta de estar no meio de gente jovem e barulhenta. Sai para tomar café com umas amigas, que poderiam ser suas netas e sempre volta feliz e cheia de novas histórias.

Vai ao mercado, ao banco, ao médico, quase sempre sozinha! Segue à risca as recomendações médicas: – “Só peça ajuda quando não conseguir fazer alguma coisa”. Certo dia foi até a ferragem e comprou uma prateleira. O balconista perguntou se ela estava sozinha e se prontificou para levar o pacote até o táxi. “Táxi, para que táxi? Me dá aqui, moro perto”. Colocou a prateleira debaixo do braço e foi para casa. De onde sai tanta força? O que faz uma pessoa superar suas dores e manter esse bom humor?

Seu vocabulário inclui expressões do tipo: “Credo, esta pobre velha…”, “Velha tem que ser limpa, cheirosa e discreta”, mas na verdade ela não se sente velha. Não usa bengala, porque é coisa de velho! Quando convidada, acompanha uma roda de violão, toma seu vinho e vai pedindo para tocarem aquela música que ela gosta. Nas festas, tem gente nova caindo de sono e de cansaço, mas a “pobre velha” continua firme e quando alguém fala em ir embora, e diz: “ainda é cedo, recém são 4 horas…da madrugada!”. Por tudo isto, diria que “Pobre velhinha, que nada!” Minha mãe é minha inspiração. Quero ser uma dona Gelcy.    

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

One thought on “Pobre velhinha, que nada!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *