25Feb
Coluna Dominical

Paradoxo, substantivo masculino

– 25 de fevereiro de 2018

Lisiane Mota (*)

Em tempos tão políticos e permeados por posicionamentos e alegrias de Facebook, com opiniões tão fortemente divulgadas e veementemente criticadas pelos discordantes, a pergunta que ressoa internamente é: estamos efetivamente fazendo o que pregamos?

Embora o discurso que se ouça amplamente seja o da liberdade de expressão e da livre manifestação do pensamento, na prática a manifestação de ideias que não concordem com o que pensamos fica imediatamente exposta à execração pública. Não concordar derruba por terra todos os discursos de humanidade, igualdade e liberdade. Pensar diferente aniquila os limites do respeito, amizade e fraternidade. Ponto final na empatia.

Nas redes sociais tudo fica tão simples que inexiste preocupação com ofender ou magoar amigos, familiares e colegas, não importando o assunto.  O fórum pode ser público, mas muitos esquecem que no privado ficarão mágoas e ressentimentos de coisas ditas e que certamente a jamais seriam verbalizadas do mesmo modo se a oportunidade fosse ao vivo e a cores.

Amparados pelo pensamento de sermos responsáveis por fazer do mundo um lugar melhor e mais justo cometemos atrocidades que não teriam lugar no olho no olho, afinal, ninguém sofre as consequências quando não precisa conviver com elas por dizer o que quer sem respeito. Com o decorado discurso de que a doutrinação é um absurdo destilamos nossa própria doutrina ao sabor das ondas da internet. O respeito que pregamos e exigimos não é entregue. We are not walking the talk.

E assim o paradoxo fica estendido na mesa do almoço de domingo. Nesses ambientes que tem a função de congregar e reforçar laços afetivos com a família e amigos, fustigados pela coragem que emerge do mundo aparentemente sem consequências das redes sociais, sapateamos no respeito e damos de ombros para o afeto cada vez que temos a pretensão de pensar que falar é mais importante que ouvir. Cada vez que pensamos que a discordância do outro não vem do fato de seu pensamento divergir, mas de sua incapacidade de entender. E a pá de cal vem quando se decide que é preciso ensinar e explicar até que o outro entenda, ou seja, até que doutrinado por mim ele esteja.

A falta de empatia, a ausência de real respeito às diferenças, sejam elas sociais, raciais, econômicas e políticas, a falta de acolhimento efetivo dos pensamentos divergentes acaba por se revelar a grande chaga da sociedade dita globalizada. No mundo das ideias e das relações virtuais não se sente o calor dos abraços e das conversas que não acontecerão, passa despercebida a ausência de acolhimento e a falta de afeto das relações que serão descartadas justificadas pela discordância. O medo de parecer frágil e doutrinável é tão grande que se torna preferível tentar doutrinar.

Perante Sócrates, para quem “o inteligente é aquele que sabe que não sabe nada”, o paradigma da alegria e do bom-samaritanismo de fachada sobre o que efetivamente fazemos ou não, se encerra na máxima: “Não quero ter razão, quero é ser feliz!”

(*) Lisiane Mota é representante comercial e mediadora judicial.

Contato: lisianeb@terra.com.br

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *