22Dec
Coluna Dominical

Três coisas que não podem faltar no Natal !

– 22 de dezembro 2013:

Luis Felipe Nascimento (*)

O que não pode faltar num Natal? Para as crianças, certamente são os presentes e o Papai Noel. E para os adultos, quais seriam os itens fundamentais para fazer um bom Natal? Vocês já se perguntaram: por que o Natal é diferente de qualquer outro feriado? Na noite de Natal quase não tem assaltos, reduz o número de acidentes, são poucas as brigas e, desconfio que até o número de mortes naturais diminuam (morrem os bêbados e os deprimidos, os que estavam sozinhos, sem amigos e família). O Natal é um momento mágico, algo de diferente acontece nos nossos corações! Neste dia nos tornamos pessoas diferentes.

Nós, que somos tão críticos com as evidências científicas: questionamos se o homem foi ou não a Lua; se o cigarro causa ou não câncer; se o Planeta está ou não aquecendo; etc, etc. Somos críticos com tantas coisas, mas aceitamos a história oficial do Natal, que diz que José e Maria estavam fugindo do recenseamento que estava sendo feito por Herodes na Galiléia e, que na noite de 24 de dezembro, pernoitaram nas imediações de Belém, num presépio (local onde se recolhe o gado), quando nasceu Jesus, filho da virgem Maria e do Espírito Santo. Este dia marcou o início da nossa era, o ano zero da era cristã. Quando nos referimos a um determinado ano, estamos fazendo uma referência a “x” anos após o nascimento de Jesus. Praticamente todos os dias reconhecemos e validamos a história oficial do nascimento de Jesus.

Analisando o que dizem os evangelistas, historiadores e o próprio Papa, percebe-se que nada disto é verdade. Segundo Lucas e Mateus, Jesus teria nascido durante o reinado de Herodes, portanto ele teria nascido entre os anos 6 e 4 a.C (antes dele mesmo). Os historiadores dizem que Jesus nasceu na Galiléia, mas que os evangelistas afirmam que foi em Belém para relacionar o nascimento de Jesus com à profecia de Miqueias, que dizia que o messias esperado pelos judeus nasceria em Belém. O equívoco não foi só do lugar e do ano. Segundo os historiadores, a noite de 24 de dezembro foi escolhida para se contrapor à principal festa pagã dos romanos (Sol Invencível) data em que celebravam o solstício de inverno (a noite mais longa do ano). Como a história do nascimento de Jesus em 24 de dezembro “implacou”, no ano 354, os romanos resolveram pegar uma carona e cristianizaram a sua festa chamando-a de “Natalis Solis Invicti” (nascimento do sol invencível).

O Papa Bento XVI em seu livro “Jesus de Nazaré” afirma que no local onde Jesus nasceu não haviam animais, e que esta ideia teria sido criada pelos hebreus no século VII. Portanto, o burro e a vaca foram retirados do presépio, vão ter que sair da foto. Se os historiadores e o Papa estiverem certos, a história oficial do Natal é construção feita pelo homem, muitos anos depois do nascimento de Jesus. Quanto a existência de Jesus, mesmo os mais críticos historiadores concordam que ele existiu e dizem que, negar a sua existência seria como negar a existência dos reis e imperadores da época. Quanto aos poderes a ele atribuídos, bem isto ficam por conta da religião e da fé de cada um.

Não contentes com estas construções históricas do Natal, criamos a figura do Papai Noel, que mora no Polo Norte (versão americana) ou na Lapônica – Finlândia (versão européia). Originalmente, o São Nicolau (Papai Noel europeu) vestia os trajes de bispo, na cor castanha e, no dia 6 de dezembro (dia de São Nicolau) distribuía presentes para as crianças. Mais tarde o comércio criou a tradição de, no dia 24 de dezembro, imitar os três Reis Magos (que Bento XVI diz não serem reis e sim sábios), e dar presente para as pessoas que amamos. Se as datas fossem levadas a sério, a entrega dos presentes deveria ser no dia 6 de janeiro (Dia de Reis), dia em que os Magos do Oriente entregaram os presentes. Ora, dar presentes no dia 6 e 24 de dezembro e no dia 6 de janeiro, levaria as famílias a falência. Então foi unificado para o dia em que Jesus nasceu. Agora imagine chegar alguém na sua casa, vestido de bispo, com um saco de presentes nas costas! Não teria graça nenhuma. As crianças ficariam com medo. Precisava de mais charme, mais cores, mais fantasia. Em 1931 a Coca-Cola Company, numa ação de responsabilidade social, vestiu o Papai Noel de vermelho (por coincidência, a sua cor). Se a Pepsi-Cola tivesse tido esta ideia, hoje o Papai Noel vestiria uma tunica vermelha, calça azul e um cinturão branco. Há quem diga que, no início do século passado, existiam diferentes formas de Papai Noel, vestindo diversas cores, entre elas o vermelho. Portanto a Coca-Cola teria apenas padronizado e difundida esta imagem que temos hoje. Dizem também que a lenda do trenó puxado pelas renas voadoras vem dos povos xamânicos, da Sibéria. O termo “Papai Noel” não é uma tradução de outras línguas. Em diferentes países, ele possui nomes distintos: Santa Claus (EUA e Canadá), Nikolaus ou Weihnachtsmann (Alemanha), Viejito Pascuero (Chile), etc. Independente do nome, das roupas e das lendas, nas últimas décadas passamos a nos emocionar com este dia tão especial, que faz parar o mundo.

O Mundo? Digo, o mundo ocidental. Em 1993, eu e minha esposa passamos o Natal em Istambul/Turquia. No dia 24 de dezembro não havia em Istambul nenhum sinal de Natal nas lojas, nas ruas e ninguém sabia o que era Natal. No hostel em que estavamos hospedados, foi feita uma festa para os ocidentais, que mais parecia a uma comemoração de final de copa do mundo do que uma festa de Natal. Bebemos, comemos, cantamos, mas ninguém deu presente para ninguém e não estavamos com os nossos amigos e familiares, então, para mim, aquilo não era Natal.

Por isto, não importa se a história oficial é ou não uma construção histórica, se foi ou não a Coca-Cola que vestiu de vermelho o Papai Noel, se você acredita ou não em Deus, celebre na noite de 24 de dezembro o seu Natal. Para ter um Feliz Natal, você precisa de apenas três coisas: “presente” (qualquer coisa num pacotinho enfeitado), “comida” (não precisa ser aquela ceia maravilhosa) e “amigos/familiares” (seja uma pessoa ou toda a família). Em nenhum outro dia do ano, as pessoas comem juntas, se abraçam e dão presentes umas para as outras. Só na noite de Natal. Este sentimento pode ser sintetizado numa única palavra: “fraternidade”. Neste dia nos sentimos irmãos, somos capazes de acolher um mendigo, de cumprimentar um adversário e de seremos fraternos. Um Feliz Natal e um abraço fraterno para todos vocês.

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com