05Jun
Coluna Dominical

Mãe – a gente só tem duas!

5 de junho 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

As famílias dos nossos avós eram numerosas, tinham muitos filhos. Apesar disto, a nossa avó cuidava de todos. Entre os filhos haviam disputas, conflitos, mas que eram logo superados. Os filhos mais velhos, cuidavam dos mais novos. Entre os irmãos, sempre tinha um que queria se aproveitar do irmão mais novo. Este, por sua vez, desenvolvia estratégias para se proteger dos maiores e mais fortes. Quando o irmão mais velho saía de casa, ía morar em outro lugar, havia um reacomodamento dos espaços físicos e de poder entre os irmãos que ficavam na casa. Novos papéis eram assumidos por cada um. Assim funcionavam as famílias com muitos filhos. Os filhos eram preparados para enfrentar as dificuldades da vida. Se a família tivesse algum negócio, um dos filhos deveria assumir a gestão na falta dos pais. Se o que assumisse resolvesse usar o negócio que era de todos, para o proveito próprio, geraria conflitos e quebraria o espírito de fraternidade que existia entre os irmãos. A médio e longo prazo o resultado seria a desagregação e o enfraquecimento da família, onde  todos perderiam.

Algo semelhante a família dos nossos avós ocorre na Natureza. Na casa chamada de Planeta Terra, convivem dez milhões de espécies, que também disputam e lutam pela sobrevivência. Os menores e mais fracos desenvolvem suas estratégias para se defender, seja com espinhos, com produtos químicos ou mesmo se camuflando para passarem despercebidos dos seus predadores. Os mais fortes também precisam lutar pela sobrevivência. E quando morre o animal mais forte, ou a árvore mais alta, existe uma luta entre os demais para ocupar aquele espaço e logo se reestabelece o equilíbrio. Assim funciona a Natureza, existem disputas pela vida, mas isto gera equilíbrio e fortalece o ecossistema. Os mais fortes e mais altos precisam dos insetos para garantir o “futuro da sua família”-  a sobrevivência da sua espécie. Quando se quebra este equilíbrio, quando ocorre o extermínio de uma espécie, ocorre um desastre ambiental em que todos perdem.

Assim como a mãe biológica, que nos gerou e garantiu nossa sobrevivência, pode-se dizer que a mãe Natureza também ajudou na nossa sobrevivência, pois tudo o que comemos foi fornecido por ela. Por isto não seria errado dizer que temos “duas mães”, embora a nossa relação com elas seja muito diferente. No “Dia das mães” (segundo domingo de maio) a gente lembra da nossa mãe com carinho porque reconhecemos tudo o que ela fez por nós. Lembramos da presença dela em momentos marcantes da nossa vida, do carinho que sempre recebemos, etc. No “Dia do Meio Ambiente” (5 de junho), é uma data que passa batida. Quando tomamos conhecimento, sequer lembramos de tudo o que a Mãe Natureza fez e continua fazendo por nós. Quem não lembra de momentos proporcionados pela Natureza, seja um por-de-sol lindo, uma paisagem maravilhosa, os alimentos deliciosos que ela nos entrega, os animais que nos enchem de amor, a água que bebemos, o ar que respiramos e tudo mais que garante a nossa sobrevivência. Portanto, somos filhos ingratos com a Mãe Natureza!

Na canção “Espécie Invasora” que compusemos (ver clipe em  https://www.youtube.com/watch?v=HCIZYSFd-1c), dizemos que o homo-sapiens parece uma espécie invasora, que não se sente parte do meio ambiente. O homem destrói a mata e mata as outras espécies, usa produtos poluentes e ainda se acha inteligente. Esta canção sintetiza um falso entendimento que ainda existe de que a Natureza é o supermercado da espécie humana, onde o homem pode ir lá e servir-se do que quiser para prover o conforto. E o melhor, não precisa pagar nada, pois tudo o que o homem produz, usa matéria-prima que sai da terra, da água ou do ar, e não paga por isto. A espécie humana é o filho que assumiu o poder nos negócios da família e quer fazer todos trabalharem para prover o seu conforto.

Que neste dia 5 de Junho possamos tirar uns minutinhos para refletir sobre a nossa relação com a Mãe Natureza e nos reconectarmos com a “família” que estamos inseridos – o ecossistema chamado Planeta Terra.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração  da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

28May
Coluna Dominical

Estupro – por um é “normal”, mas por mais de 30 homens horroriza o Mundo!

 

– 29 de maio 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

O estupro coletivo de uma menina de 16 anos no Rio de Janeiro, divulgado pelos autores nas redes sociais, chocou o Brasil e o Mundo. O que chocou, não foi o estupro em si, mas o fato de ter sido praticado por mais de 30 homens e por ter sido divulgado na internet. No Brasil ocorre um estupro a cada 11 minutos e no Rio Grande do Sul é um a cada 12 horas, que não saem nos jornais e que não chocam o Brasil e o Mundo. Traduzindo, um estupro feito por um (01) homem “é normal”, mas por mais de 30 homens, aí não! Aí é demais! Que horror, né!

Em Porto Alegre, estudantes já foram estupradas dentro de campus universitário, mesmo tendo cameras e guardas por todo lado. Mulheres sozinhas não podem passar de noite no meio de um parque ou por determinadas ruas pois estariam “pedindo” para ser estupradas. Usar um vestido curto ou um decote, ameniza a pena do estuprador, afinal, ela estava “provocando” o pobre indefeso estruprador.

Uma escola de Porto Alegre proibiu as meninas de usarem “shortinho”. Isto gerou protestos e chegou na mídia. As meninas usaram o slogan: “vestida ou pelada, quero ser respeitada”. Por que as pessoas, quase peladas, são respeitadas nas praias, nas piscinas e não podem ser respeitadas em outros ambientes? Quem disse que aqui pode e alí não pode? Praia é um local adequado e um parque não? Pois eu tive a oportunidade de conhecer a “área de cultura do corpo” dentro de um parque no centro da cidade de Kassel, na Alemanha, onde homens e mulheres, de todas as idades, tiram a roupa para curtir o sol e a natureza. Não passa pela cabeça de ninguém, que estas pessoas estão “provocando” os estupradores. Por outro lado, vi em Dubai, mulheres correndo e fazendo exercícios  na praia, usando burca (roupa preta tapando até o rosto). Em alguns países árabes, a mulher mostrar o cabelo é uma provocação aos homens, que no Brasil seria encarado como “pedindo para ser estuprada”. Portanto, não é o local ou a roupa que é inadequada, mas sim a cultura machista.

Soube que uma mulher foi estuprada dentro de um taxi em Porto Alegre. Uma amiga me disse que anda na rua sempre com medo, olhando para trás para ver se não vem algum homem. Ela disse que preferiria levar uma camaçada de pau, que lhe quebrassem a paulada as duas pernas e os dois braços, do que ser estuprada. Fiquei pensando nisto e tenho quase certeza de que o estuprador não teria coragem de quebrar a pauladas os braços e as pernas de uma mulher. Isto seria um crime bárbaro, mas o estupro, … isto é só um divertimento!

Uma reportagem na TV mostrou homens sendo assediados por outro homem. O fato de um homem tocar na mão do outro ao passar numa escada rolante, foi o suficiente para provocar a ira do assediado, que queria briga. Trata-se sim de uma invasão de privacidade, pois um não deu permissão para o outro acariciar a sua mão. Pena que raciocínio semelhante não seja feito em relação ao assédio às mulheres.

O estuprador não é o bandido da favela que já matou não sei quantos, ele pode ser um conhecido seu, um menino de boa família ou um homem respeitado na sociedade. Os homens costumam brincar com este tipo de crime. Existe a famosa piada do “relaxa e goza”, mas ao imaginar que isto pode ocorrer com uma filha, a reação é de “eu mato quem fizer isto!”

No dia-a-dia, quantos estrupradores são identificados e presos? Quando presos, qual é a pena que recebem? Segundo os especialistas, os dados conhecidos (1 estupro a cada 11 minutos no Brasil) revelam apenas uma parte do problema, pois muitas pessoas não registram a ocorrência dos estupros. Desconfio que, se os estupradores fossem para juri popular, tendo homens como jurados, a maioria deles seria absolvida, pois entre os homens não existe consenso sobre “o que deve ser considerado estupro”. Nas festas, é comum os adolescentes se aproveitarem de meninas embriagadas para praticarem estupros. O que acontece com estes adolescentes? E com os que atacam as meninas que estão saindo das escolas a noite? E com os homens adultos? Nada!

O Ministro da Justiça disse que o estupro da menina no Rio foi um crime contra a humanidade. Não é este o enfoque a ser dado, o crime foi praticado por homens contra uma mulher! Este tipo de crime vai continuar acontecendo enquanto a sociedade continuar aceitando argumentos como “também, ela provocou”, “quem mandou ter saído a noite sozinha”, “não deveria ter bebido”, “se arriscou a passar naquela rua”, que são utilizados para acusar a mulher e amenizar a culpa do estuprador. A sociedade e o Ministro da Justiça deveriam deixar bem claro: estupro é relação não consentida e desde 2009 (lei n. 12.015) é considerado crime hediondo!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Adminstração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

21May
Coluna Dominical

 Política Power Game – O novo jogo de estratégia

  • 22 de maio de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Considerando o sucesso do jogo “Cartola Futebol Clube”, nos próximos dias será lançado o “Política Power Game – PPG”,  um jogo de estratégia muito melhor do que Warcraft, Age of Empires ou Total War. Em Política Power Game o jogador assume o papel de um líder político, cria o seu partido, escolhe os políticos e decide as estratégias para o seu governo. Apesar de fictício, o jogo terá forte relação com a realidade, pois este jogo se assemelha com o “Cartola Futebol Clube”, em que o jogador faz o papel de Cartola (dono do seu time) e pode escolher (comprar) jogadores de futebol de qualquer time do Campeonato Nacional. A cada rodada, se os seus jogadores tiverem um bom desempenho (fizerem gols, acertarem os passes), se valorizam, mas se eles jogarem mal (erraram pênaltis, levaram cartões), perdem valor. No Política Power Game (PPG), a cada semana o jogador receberá os scouts (informações sobre o desempenho) dos políticos e verá seu partido crescer ou encolher. Vou explicar como funcionarão as regras do PPG:

  • O político infiel no partido – perde pontos. Exemplo: se você tiver no seu partido um daqueles que apoiavam a Dilma e depois se bandearam para o Temer, perderá pontos.

  • Político parente de político – ganha pontos, pois basta ele dizer: “foi papai que mandou” e as portas se abrirão. Por coincidência, três dos atuais ministros possuem sobrenome “Filho”: Mendonça Filho (MEC), Sarney Filho (Meio Ambiente) e Fernando Bezerra Filho (Minas e Energia).

  • Quem receber repreensão e se desdizer, também perde ponto. Exemplo: os Ministros da Justiça, Saúde e da Educação receberam um puxão de orelha e no dia seguinte disseram que não teriam dito o que disseram … entendeu? Pois é tanto desdito, que quando vejo uma declaração de ministro no jornal, nem leio, deixo para ler o desdito no dia seguinte.

  • Político envolvido na Lava Jato não podia ser ministro no governo Dilma, mas no governo Temer pode (são sete ministros). O Política Power Game é um jogo sério e imparcial, não aceita isto: baixará a pontuação deles, independente do governo a que pertençam!

  • Mulheres no Governo – seguindo a tendência mundial – mulheres no primeiro escalão somam pontos. Não adianta o Temer dizer que as mulheres não gostam dele, que convidou cinco mulheres para a Secretaria de Cultura e nenhuma aceitou, blá,blá. A regra é clara: Mulher no primeiro escalão, ganha pontos. Não tem mulher, perde pontos.

  • Apoiar projetos que antes criticava – perde pontos. Quem era contra a CPMF e agora votar favorável, cairá na malha fina do PPG como “político incoerente”.

  • Ministro que não possui relação com a pasta – perde ponto, mesmo que tenha ocorrido algum problemas de comunicação durante o processo de escolha destes ministros. Exemplo: dizem que o Temer pediu uma “reengenharia” no Ministério da Saúde, e os aliados indicaram um “engenheiro”. Depois ele perguntou quem entendia de cultura e alguém gritou do fundo da sala: “o Mendoncinha já foi presidente da Associação da aviCULTURA”. Pronto! O Temer ouviu a palavra “CULTURA”, e nomeou o Mendoncinha para Ministro da Educação e Cultura. No PPG estes ministros vão perder pontos!

Faça parte deste time, crie o seu partido, convide os seus amigos e desenvolva suas habilidades como estrategista político. Seja ambicioso, ousado, pois não há o que Temer. Faça agora um teste: “Se você fosse o Eduardo Cunha e estivesse sob ameaça da justiça, em que cargo você colocaria o seu advogado – Alexandre de Moraes?”

a. (  ) Assessor da Comissão de Ética da Câmara dos Deputado

b. (   ) Assessor da Presidência da Câmara dos Deputados

c.  (   ) Ministro do Justiça

Obs: Se voce marcou a alternative “c”, parabéns, você adotou a mesma estratégia de Eduardo Cunha.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com