11Sep
Coluna Dominical

Somos todos manipulados

– 11 de setembro de 2016

(*) Luis Felipe Nascimento

Certamente alguma vez na vida você já se sentiu engando por alguém. Nestas ocasiões, nem sempre a gente percebe na hora, as vezes demora um tempo para “cair a ficha”. Portanto, algo que hoje nos parece normal, poderá ser percebido no futuro como uma manipulação. Não percebemos as manipulações porque estamos envolvidos por algum sentimento, seja de amor ou de raiva, ou por algo que não nos deixa ver com clareza. Em outras situações, somos manipulados por especialistas que sabem como nos enganar. Trago aqui alguns exemplos que considero manipulações.

  • Mercado – Você compra um produto ou serviço e depois se frusta por ele não corresponder a sua expectativa. Não se trata de uma enganação descarada, daquelas que você pode denunciar no PROCOM. Nada disso! São ações, muito bem planejadas, para explorar os nossos pontos fracos, como por exemplo, o vendedor do serviço de internet que diz que teremos 10 Mbps (megabites por segundo) de velocidade e com isto poderemos baixar videos em tantos minutos, blá, blá. Quando instalado, o serviço não funciona assim, pois a rede não comporta, existe um problema aqui ou acolá e a velocidade fica em 4Mbps. Já ouviram aquela conversa do gerente da sua conta bancária sugerindo tal aplicação que vai render x%? Um detalhe, quase sempre ele esquece de dizer que, na hora de retirar a grana, terás que pagar as taxas, o imposto de renda, mais isto e mais aquilo e o rendimento será reduzido pela metade.

  • Mídia – A cada dia são realizadas milhares de boas ações pelos quatro cantos do Mundo, são descobertas coisas boas que facilitam a vida das pessoas e inovações que ajudam a preservar o meio ambiente. Neste mesmo dia, ocorrem assaltos, assassinatos, corrupção e muitas maldades. Alguém seleciona as notícias que chegarão até nós. E quais as que predominam na mídia? As maldades, é óbvio! Mas isto não é sempre assim! Durante eventos como a Copa do Mundo e Olimpíada, temos a sensação de que nada de ruim acontece, pois as maldades desaparecem dos jornais e dos noticiários do rádio e TV.

  • Política – Tem governantes que chegam ou saem com alta popularidade, amados por muita gente. Mas, políticos e partidos são como os técnicos de futebol, muito rapidamente deixam de ser amados e passam a ser odiados. De uma hora para outra, uma sequência de críticas e denúncias são feitas e a opinião pública tem a convicção que determinado político ou partido é o causador de todos os males. Quase todos querem vê-lo longe do poder, preso e, se fosse permitido, linchado! Passado algum tempo, surgem evidências que não era bem assim. O sucessor não era tão bom quanto parecia e quem saiu não era tão ruim quanto se pensava. E as campanhas eleitorais? Observe que quase sempre, o candidato que estava liderando as pesquisas, sem nenhuma razão, despenca. E, o outro, de baixa popularidade, subitamente se torna o preferido do eleitorado. Coisas que nem o eleitorado entende!

  • Religião – Quem segue alguma religião, costuma ouvir as pregações, onde geralmente se mostra um único caminho a seguir. Quem não for por aquele caminho será punido e sofrerá muito.

É óbvio que cada um quer “vender o seu peixe”. A pergunta é onde está o limite entre o direito  de anunciar um produto/difundir uma ideia/criticar alguma coisa e a manipulação dos cidadãos? É bem verdade que em cada um dos setores citados há pessoas e organizações que respeitam os direitos dos seus clientes e seguidores.

Talvez o teatro seja o lugar onde o cidadão é mais respeitado. Sim, num espetáculo teatral! Veja bem, quando alguém vai ao teatro, espera assistir um espetáculo que envolva e emocione. O público chora, ri e aplaude. Ao final, os artistas tiram suas máscaras e agradecem ao público, quase como dizendo “isto tudo que fizemos aqui era de mentirinha. Fizemos você pensar que alguém morreu, mas ele não morreu não, olha, ele está aqui!” O público sai do teatro satisfeito com o que viu e com as emoções que sentiu. Sai ciente de que não tentaram enganar, pois embora o conteúdo tenha uma mensagem, fica claro que o roteiro é a visão de alguém sobre alguma coisa, não é “a verdade”. A propaganda, as notícias e as “verdades” que nos contam são apenas a visão de alguém sobre alguma coisa. Será que este alguém não usa uma máscara?

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

03Sep
Coluna Dominical

O impacto da propaganda eleitoral sobre as crianças

– 4 de setembro de 2016

Luis Felipe Nascimento(*)

Mãe, vem aqui. Vota neste cara da TV, ele disse que vai prender o ladrão e dar segurança em volta das escolas. Daí eu vou poder ir de bike prá escola!

  • Filho, senta aqui, deixa eu te explicar como isto funciona.

Ai que saco! Lá vem mais meia de hora de explicações!

  • Larga o celular e me escuta! Quem prende o bandido é a polícia. Quem aplica a lei e determina quanto tempo o ladrão deve ficar preso, é o juiz. E quem faz as leis são os deputados.

O quê? Os deputados que fazem as leis? O pai disse que os deputados são um bando de ladrões!

  • O teu pai exagera de vez em quando.

Então o castigo que ele me deu pode ter sido exagerado?

  • Pedro Henrique! Não distorça as coisas! Estamos falando de política e não do teu mau comportamento na escola!

Tá bom! Se o cara da TV diz que vai prender o ladrão e depois ele não prende, o que acontece com ele?

  • Nada! Os políticos não cumprem tudo o que eles prometem!

Ah tá! Se eu minto, fico de castigo. Mas o cara da TV pode mentir e não acontece nada?

  • Aí meu Deus! Vamos de novo…

Não precisa! Eu já entendi! A política é como aqui em casa. Vocês fazem as leis e depois não cumprem. O pai me proibiu de dizer palavrão, mas ele fala palavrão quando assiste futebol. Você me manda arrumar a minha cama, mas você não arruma a sua!

  • Menino, não me tire do sério!

Mãe, tu sempre diz que, mesmo que me provoquem na escola eu devo me controlar e não brigar, certo? Você também precisa aprender a se controlar.

  • 1, 2, 3… 1, 2, 3… (respira, respira…)

  • Filho, a mãe tá tentando te explicar, mas você não colabora! Me escuta!

Posso escutar e continuar jogando no celular?

  • Nããããoooo! Larga esta porcaria! Agora é só para escutar! … Veja bem, tem político coerente, que cumpre o que prometeu e outros que não. O problema começa na forma como eles são eleitos. Eu acho que cada região da cidade deveria escolher o seu representante, que é o que se chama de voto distrital. Assim poderíamos conhecer melhor os candidatos e fiscalizar de perto as ações dos nossos representantes. Hoje não é assim que funciona. Então, eu voto nos candidatos que defendem a instalação do voto distrital, entendeu?

Hum…hum! O candidato da TV é mentiroso e o teu amigo do voto distrital é bonzinho. Posso ir agora?

  • Pode! Vai lá prô teu quarto!

  • (Puxou pelo pai, enrolador e distorce tudo que a gente fala!)

Mãeeee, quando eu crescer, eu posso ser político do voto distrital?

 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

28Aug
Coluna Dominical

O Pecado apaga o Legado

– 28 de Agosto de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

 O nadador americano Ryan Lochte, que depois de uma festa aprontou num posto de combustível no Rio de Janeiro, se tornou persona non grata dos brasileiros. Ele já perdeu o apoio de quatro dos seus patrocinadores e não será mais convidado para a Danças dos Famosos nos EUA. O Comitê Olímpico Americano teme que este fato prejudique a candidatura das cidades americanas para a Olimpíada de 2024. Não resta dúvida que a sua mentira (o seu “pecado”) iria afetar a imagem da cidade do Rio no Mundo. Portanto, não importa que Ryan Lochte seja o maior medalhista da história da natação mundial (considerando todas as competições), tendo ultrapassado Michal Phelps. Não importa que ele possua vários récordes mundiais, 11 medalhas olímpicas, sendo 5 de ouro. Apesar disto tudo, ele será lembrado na história como o “mentiroso da Olimpíada do Rio”. Ele está pagando pelo erro que cometeu!

Fatos semelhantes ocorreram com outros atletas, dirigintes de organizações, políticos, artistas e quem mais se destacou. Talvez a pessoa mais importantes na promoção do futebol mundial tenha sido o brasileiro João Havelange. Curiosamente, ele também foi nadador e um destacado atleta Olímplico. Havelange foi presidente da Confederação Brasileira de Desportes, que equivaleria hoje ao Ministério dos Esportes, entre 1959 e 1974. Neste período, como dirigente, levou o Brasil ao tri–campeonato mundial de futebol. Foi membro do Comitê Olímpico por mais de 40 anos e chegou a ser o Decano. Foi presidente da FIFA de 1974 à 1998 e transformou o futebol de lazer em negócio, tornando-o o esporte mais popular do Planeta. Ele atraiu as grandes marcas (Adidas, Coca-Cola, Visa, Kodak) para o esporte. Na década de 80 foi o dirigente esportivo mais poderoso do Mundo. Sem Havelange seria impensável fazer uma Copa do Mundo de futebol onde não se jogava futebol. Não teriam acontecido as copas dos EUA, Coréia-Japão e África do Sul. Quando saiu da FIFA dedicou-se ao trabalho filantróprico de ajuda as Aldeias internacionais SOS. Continuou atuando nos bastidores e foi um dos principais responsáveis pela escolha do Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada de 2016. Enfim, um currículo invejável. Mas, nas investigações sobre a corrupção na FIFA, foi constatado que na década de 90 ele recebeu suborno para a venda dos contratos de transmissão de campeonatos de futebol. Havelange foi convidado a deixar o Comitê Olímpico e a renunciar a Presidência de Honra da FIFA,  sendo considerado persona non grata. Ele morreu aos 100 anos, no meio da Olimpíada realizada na sua cidade natal. O Estádio Olímpico do Rio de Janeiro (Engenhão) que havia sido batizado com o seu nome, foi rebatizado com o nome de Nilton Santos. Ele morreu cinco dias antes do futebol brasileiro masculino conquistar pela primeira vez uma medalha de ouro numa Olimpíada. Um cenário perfeito para fazer um grande reconhecimento ao atleta Olímpico, ao Decano e a quem promoveu o futebol pelo quatro cantos do Mundo. Mas, não foi isto que aconteceu, a sua morte não foi sequer mencionada no encerramento da Olimpíada. O seu pecado apagou o seu legado.

Dizem que o poder e a glória corrompem. Acredito que hoje estas pessoas são mais corrompidas do que corruptas. Ou seja, o sistema funciona para corromper quem tem poder e fama. O corruptor age como o vendedor de drogas, ele conhece as fraquezas de quem ele quer corromper e o momento certo para atacar. Havelange era um homem de família rica, um atleta e gestor com méritos reconhecidos internacionalmente, não precisaria se corromper. Por que teria feito isto?

As celebridades envolvidas em casos de corrupção, abuso de poder ou atos ilícitos, mesmo depois de pagarem a pena estabelecida pela justiça, raramente retomam as suas atividades com a mesma reputação. Geralmente elas morrem carimbadas pelo pecado que cometeram. Algumas décadas ou séculos depois, alguém irá investigar a vida destas celebridades e recuperá os seus legados. Neste momento os seus pecados não serão mais tão relevantes. Havelange morreu como persona non grata e hoje só se fala do seu pecado, mas talvez no futuro, quando alguém publicar um livro sobre a sua biografia, o legado receba maior destaque do que o seu pecado.

Que lições tiramos de casos como os de Ryan Lochte e João Havelange? Que na nossa cultura, o pecado é mais valorizado do que o legado. Não importa que a pessoa seja um dos melhores atletas de todos os tempos, ou a mais renomada das celebridades, tendo 8 ou 80 anos de excelente reputação, tudo será deletado se ela se envolver num escândalo. O até então herói, será colocado na mesma vala do bandido. É muito difícil e demorado para conseguir reconhecimento e construir uma boa reputação e é muito fácil e rápido para perdê-la!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com