24Sep
Coluna Dominical

Reformas que vão mudar a cara do Brasil

– 25 de setembro de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Está tramitando no Congresso Nacional um projeto que irá alterar a Constituição Federal e que promete mudar a cara do Brasil. Veja a seguir o que será alterado e como tais medidas poderão lhe afetar.

Como é?

Como será?

1. ENSINO FUNDAMENTAL – Educação Física é obrigatória para todos os alunos

Será flexibilizado – crianças de 7 a 15 anos poderão optar entre se exercitar num ginásio de esportes ou exercitar os dedos em jogos eletrônicos.

2. JORNADA DE TRABALHO = 44 horas semanais.

Será flexibilizado – O trabalhador poderá optar por trabalhar 12 horas por dia, abrir mão dos domingos, feriados e das férias. Este direito só será concedido para trabalhadores com idade inferior a 80 anos.  Os trabalhadores com idade superior a 80 anos, serão obrigados a tirar férias.

3.MULTAS E PENALIDADES – Quem comete infrações no trânsito leva pontos na carteira.

Será flexibilizado – O motorista poderá trocar pontos da carteira por  pedaladas (entenda pedalada como o ato de fazer girar o pedal de uma bicicleta). Ex: Serão subtraídos 4 pontos da carteira se o motorista trocar o carro por uma bicicleta durante 4 semanas.

4. LUGAR DE LADRAO É NA CADEIA – Quem rouba é considerado ladrão. Quem é corrupto deve ser preso. Quem não paga os impostos devidos, continua solto e sendo um cidadão respeitado. Se for processado, precisará apenas de um bom advogado para empurrar o processo até a sua prescrição (prescrever = ficar sem efeito legal)

A nova Lei diz que sonegar impostos, roubar dinheiro público e atos de corrupção serão considerados crimes hediondos, recebendo prioridade máxima para serem investigados e julgados. Segundo a BBC de Londres a Operação Zelotes (deflagrada em 26 março de 2015) investiga mais de 70 organizações: Bradesco, Santander, BankBoston, Ford, Mitshubishi, BR Foods, Mundial-Eberle, Gerdau, Grupo RBS, Partido Progressista, entre outros.  http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36415051

5. JUSTIÇA IGUAL PARA TODOS – Todos são iguais perante a lei, mas acusações sobre alguns são verificadas e julgadas em poucos dias. Sobre outros, em vários anos.

Fica estabelecido que a Justiça terá que tratar todos os partidos e organizações sociais de forma igualitária. Neste novo sistema, a Polícia deverá investigar e a Justiça julgar políticos de todos os partidos (Maluf, Renan Calheiros,etc) e dirigentes de organizações sociais (CBF, Igrejas, etc) na mesma velocidade com que estão sendo apuradas e julgadas as acusações aos políticos do PT (considerado o Benchmarking – caso exemplar – de rapidez e eficiência).

6. MÍDIA IMPARCIAL – A mídia no Brasil é imparcial, mas toma partido, seja nas eleições ou em plebiscitos como o do desarmamento.

A mídia será livre para optar pelo partido ou causa que desejar apoiar, mas a exemplo dos EUA, será obrigada a deixar claro: “apoiamos tal partido/tal causa”

7. FOMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA E A FORMAÇÃO POLÍTICA DO CIDADÃO – ocorre nas escolas, igrejas, família, pela mídia e no convívio social.

Atendendo as pressões do “Movimento Escola sem Partido”,  e pela não obrigatoriedade das disciplinas de Sociologia e Filosofia, fica estabelecido que a formação da consciência e a formação política do cidadão será de responsabilidade do Facebook (ou sucessor).

(**) Ops! Houve um erro na divulgação deste Projeto de Lei. Na proposta 1: a Educação Física continuará sendo obrigatória, mas exercícios físicos e práticas de esporte somente nos dias em que faltar energia na Escola. Na proposta 4: será substituído “crime hediondo” por “ato muito feio”.
(***) As propostas acima citadas terão o prazo de 30 anos para serem implementadas (e somente se houver orçamento disponível). Por enquanto, fica tudo como está!

 (*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

18Sep
Coluna Dominical

Para que serve o amor pelo Rio Grande do Sul ?

– 18 de setembro de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Todo povo tem orgulho das suas origens e ama o lugar onde nasceu, mas nenhum é como o gaúcho. Exagero? Então me diga, que outro povo tem algo semelhante ao CTG (Centro de Tradição Gaúcha) implantados dentro e fora das suas fronteiras? Atualmente existem cerca de 3.000 CTGs, sendo que 40% destes estão espalhados por 23 estados brasileiros e 16 estão no exterior.  Os CTGs fora do Rio Grande do Sul (RS) são vistos como uma embaixada, um pedaço do RS http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/semana-farroupilha/2015/noticia/2015/08/quase-40-dos-ctgs-estao-fora-do-rs-confira-mapa-do-tradicionalismo.html . Que outro povo no Mundo canta dois hinos antes de um jogo de futebol, o nacional e o regional? E o detalhe, no RS as pessoas se sentem mais orgulhosas ao cantar o o Hino Riograndense do que o Nacional.

De onde vem este amor pelo Rio Grande do Sul? Seria por que o gaúcho tem orgulho do seu passado e cultua suas tradições? Se alguém visitar o Acampamento Farroupilha no Parque da Harmonia em Porto Alegre, por onde circula um milhão de pessoas nos 15 dias do acampamento, irá pensar que todo aquele culto a tradição iniciou com a Revolução Farroupilha (1835-1845) e vem crescendo até hoje. Mas não é nada disto! A popularização da cultura gaúcha ocorreu nos últimos 40 anos, a partir da criação dos festivais de música nativista, que iniciaram com a criação da Califórnia da Canção Nativa em 1971. Antes disto, a juventude da cidade não tinha o hábito de tomar chimarrão (mate). Vestir roupa de gaúcho era coisa para os peões e fazendeiros do interior. Lembro de quando era guri (menino), se pedíssemos para os adultos para tomar um mate, nos mandavam esperar. Ganhávamos a cuia quando o mate já estava “lavado” (quase sem gosto). No interior do RS, as crianças e adolescentes tomavam mate doce (colocavam açúcar no mate), numa cuia especial, mas nunca junto com os adultos. Hoje, até na capital, adultos e adolescentes compartilham a mesma cuia e tomam mate em casa, no trabalho, nos parques, no supermercado ou dentro do carro.

Dia 20 de setembro é chamado o “Dia do Gaúcho”, quando se celebra o início da Revolução Farroupilha, o dia em que os rebeldes tomaram Porto Alegre, a capital da Província. Associações para cultuar as tradições gaúchas já existiam antes e depois da Revolução Farroupilha, mas eram inexpressivas, elas se popularizaram com a criação dos CTGs, tendo o “35 CTG” sido o primeiro a ser fundado (em 1948). Para entender como ocorreu este fenômeno na história recente do Rio Grande do Sul, é necessário conhecer o papel do que se chama de “santíssima trindade do tradicionalismo gaúcho” formada por Paixão Côrtes, Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva. Eles foram os principais impulsionadores do Movimento de Tradições Gaúchas (MTG).

Os movimentos nacionalistas e regionalistas ao longo da história sempre foram conservadores, separatistas e manipularam a população para causas como o nazismo, facismo, independência das regiões na Iugoslávia, etc. O movimento regionalista MTG é conservador, mas não é separatista. Paixão Côrtes (89 anos) e seus companheiros nunca pregaram a separação do Rio Grande do Sul do restante do Brasil. O movimento separatista que existe no RS propõe um plebiscito para separar o RS, Santa Catarina e o Paraná do restante do Brasil. Isto é uma iniciativa de pequenos grupos http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2016/07/em-plebiscito-grupo-separatista-vai-consultar-populacao-do-rs-sc-e-pr.html . Outra curiosidade, os movimentos separatistas visam separar as regiões mais prósperas das mais pobres, para viver melhor. O Rio Grande do Sul é hoje um dos estados brasileiros em pior situação financeira. Nas últimas décadas os Estados de Santa Catarina e do Paraná se desenvolveram e o RS regrediu. O Governo Estadual não consegue mais pagar os salários dos seus funcionários e vê despencar os indicadores de educação e saúde, bem como o aumento da violência. A separação do Rio Grande do Sul iria melhorar esta situação? Os separatistas não perceberam ainda que hoje o RS é o primo pobre dos três estados do Sul.

O Governo do Estado contratou uma consultoria internacional para analisar as potencialidades do RS. A conclusão foi de que o Estado é um exportador de talentos e que o melhor a fazer seria criar condições, por meio de estímulo a atividades inovadoras e sustentáveis, para fixar os talentos no RS. Outros povos menos engajados já passaram por crises e as superaram. Será que um povo com tanta tradição e orgulho dos seus feitos não conseguirá superar esta crise? Para que serve o amor pelo Rio Grande se não para ajudá-lo a superar uma crise? Como fazer? Bueno, no RS já se “navegou por terra” puxando os barcos por juntas de bois e já se inovou em tantas outras situações, basta estimular a criatividade e dar condições que este povo saberá como fazer!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

11Sep
Coluna Dominical

Somos todos manipulados

– 11 de setembro de 2016

(*) Luis Felipe Nascimento

Certamente alguma vez na vida você já se sentiu engando por alguém. Nestas ocasiões, nem sempre a gente percebe na hora, as vezes demora um tempo para “cair a ficha”. Portanto, algo que hoje nos parece normal, poderá ser percebido no futuro como uma manipulação. Não percebemos as manipulações porque estamos envolvidos por algum sentimento, seja de amor ou de raiva, ou por algo que não nos deixa ver com clareza. Em outras situações, somos manipulados por especialistas que sabem como nos enganar. Trago aqui alguns exemplos que considero manipulações.

  • Mercado – Você compra um produto ou serviço e depois se frusta por ele não corresponder a sua expectativa. Não se trata de uma enganação descarada, daquelas que você pode denunciar no PROCOM. Nada disso! São ações, muito bem planejadas, para explorar os nossos pontos fracos, como por exemplo, o vendedor do serviço de internet que diz que teremos 10 Mbps (megabites por segundo) de velocidade e com isto poderemos baixar videos em tantos minutos, blá, blá. Quando instalado, o serviço não funciona assim, pois a rede não comporta, existe um problema aqui ou acolá e a velocidade fica em 4Mbps. Já ouviram aquela conversa do gerente da sua conta bancária sugerindo tal aplicação que vai render x%? Um detalhe, quase sempre ele esquece de dizer que, na hora de retirar a grana, terás que pagar as taxas, o imposto de renda, mais isto e mais aquilo e o rendimento será reduzido pela metade.

  • Mídia – A cada dia são realizadas milhares de boas ações pelos quatro cantos do Mundo, são descobertas coisas boas que facilitam a vida das pessoas e inovações que ajudam a preservar o meio ambiente. Neste mesmo dia, ocorrem assaltos, assassinatos, corrupção e muitas maldades. Alguém seleciona as notícias que chegarão até nós. E quais as que predominam na mídia? As maldades, é óbvio! Mas isto não é sempre assim! Durante eventos como a Copa do Mundo e Olimpíada, temos a sensação de que nada de ruim acontece, pois as maldades desaparecem dos jornais e dos noticiários do rádio e TV.

  • Política – Tem governantes que chegam ou saem com alta popularidade, amados por muita gente. Mas, políticos e partidos são como os técnicos de futebol, muito rapidamente deixam de ser amados e passam a ser odiados. De uma hora para outra, uma sequência de críticas e denúncias são feitas e a opinião pública tem a convicção que determinado político ou partido é o causador de todos os males. Quase todos querem vê-lo longe do poder, preso e, se fosse permitido, linchado! Passado algum tempo, surgem evidências que não era bem assim. O sucessor não era tão bom quanto parecia e quem saiu não era tão ruim quanto se pensava. E as campanhas eleitorais? Observe que quase sempre, o candidato que estava liderando as pesquisas, sem nenhuma razão, despenca. E, o outro, de baixa popularidade, subitamente se torna o preferido do eleitorado. Coisas que nem o eleitorado entende!

  • Religião – Quem segue alguma religião, costuma ouvir as pregações, onde geralmente se mostra um único caminho a seguir. Quem não for por aquele caminho será punido e sofrerá muito.

É óbvio que cada um quer “vender o seu peixe”. A pergunta é onde está o limite entre o direito  de anunciar um produto/difundir uma ideia/criticar alguma coisa e a manipulação dos cidadãos? É bem verdade que em cada um dos setores citados há pessoas e organizações que respeitam os direitos dos seus clientes e seguidores.

Talvez o teatro seja o lugar onde o cidadão é mais respeitado. Sim, num espetáculo teatral! Veja bem, quando alguém vai ao teatro, espera assistir um espetáculo que envolva e emocione. O público chora, ri e aplaude. Ao final, os artistas tiram suas máscaras e agradecem ao público, quase como dizendo “isto tudo que fizemos aqui era de mentirinha. Fizemos você pensar que alguém morreu, mas ele não morreu não, olha, ele está aqui!” O público sai do teatro satisfeito com o que viu e com as emoções que sentiu. Sai ciente de que não tentaram enganar, pois embora o conteúdo tenha uma mensagem, fica claro que o roteiro é a visão de alguém sobre alguma coisa, não é “a verdade”. A propaganda, as notícias e as “verdades” que nos contam são apenas a visão de alguém sobre alguma coisa. Será que este alguém não usa uma máscara?

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com