02Jul
Coluna Dominical

Por que não podemos alterar o voto depois de ter votado?

– 3 de Julho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

No dia seguinte ao referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Européia, várias pessoas se disseram arrependidas e gostariam de mudar o seu voto. Isto me fez pensar “por que o voto é irreversível?”. Por que não podemos alterar o voto depois de ter votado? Pode parecer um absurdo retirar um voto dado, mas não é absurdo desfazer um negócio, depois de ter assinado os documentos. Não é impossível desfazer um casamento depois de ter  jurado amor eterno. Não é proibido assumir um emprego e pedir demissão no dia seguinte. Por que não podemos nos arrepender do voto que demos a alguém?

No caso do referendo do Reino Unido, 51,9% dos eleitores votaram pelo Brexit. No Brasil, a presidenta Dilma venceu as eleições com 51,64% dos votos. Em várias eleições ocorre de um candidato crescer nas últimas semanas e os analistas dizerem que se houvesse mais uma semana, o resultado seria outro. Então, a eleição é apenas o retrato da vontade da maioria “naquele dia”. No dia seguinte, ou na semana seguinte, o resultado poderia ser outro, mas a consequência é para 4 anos ou mais. Logo, este sistema é democrático, mas precisa ser aprimorado.

A tecnologia que temos hoje permite que cada eleitor possa votar do seu celular ou de um computador. Se o sistema for confiável, bastaria cada eleitor registrado usar um código de acesso para votar. O voto poderia continuar sendo secreto, mas ficaria registrado num banco de dados. Se no dia seguinte o eleitor desejasse alterar o seu voto, poderia acessar o banco de dados e fazer a alteração. Desta forma o eleitor não ficaria cativo do voto dado. Quem recebeu o voto é que teria que corresponder à confiança recebida. Quando o vencedor começasse a perder apoio, entraria em contato pela mídia ou diretamente com seus eleitores, justificando suas ações e solicitando um “voto de confiança”. Se convecesse os eleitores, continuaria no cargo. No caso contrário, perderia o mandato. Complicado? Não!

Estamos vivendo uma época em que nada é eterno, tudo pode mudar muito rapidamente. Não existe mais amor eterno ou confiança eterna. O amor, a confiança ou qualquer outro compromisso assumido se torna eterno se conseguir ser renovado a cada dia. Se um dia os eleitores puderem retirar o seu voto, mudará a relação dos eleitos com seus eleitores. Os eleitos terão que trabalhar todo o tempo para manter a confiança recebida. Será um passo a frente do que existe hoje nos sistemas parlamentaristas. Este sistema de delegar e retirar o voto pode ser um sonho, mas não é inviável operacionalmente e nem impossível de ser implantado. Depende apenas do desejo dos eleitores e da pressão da sociedade.

Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

25Jun
Coluna Dominical

Festa de  São João – qual a origem desta festa e o que significam os seus ritos?

– 26 de junho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

São João é a segunda maior festa no Brasil e muito forte no Nordeste, onde as festas se estendem ao longo de junho. As cidades de Campina Grande na Paraíba e Caruaru em Pernambuco, disputam o título de “maior São João do Mundo” e recebem cerca de 1,5 milhão de pessoas por ano. O São João do Nordeste se diferencia em alguns aspectos do São João do Sul e Sudeste, onde a festa se reduz a uma “quermesse” realizada principalmente em escolas e igrejas.

As Festas Juninas são para homenagear Santo Antônio, São João e São Pedro. Embora Santo Antônio seja o famoso santo casamenteiro e o São Pedro o escolhido por Jesus para chefe da Igreja (o primeiro Papa), São João é o que recebe a maior festa. Recém agora descobri que São João era primo de Jesus e logo pensei que tinha rolado um nepotismo nesta história. Só que não, as festas de São João começaram a partir do Concílio de Trento que ocorreu entre 1545 e 1563. A Igreja Católica usou a estratégia do “se não podemos derrotá-los, vamos nos unir a eles”, ou seja, por muitos anos combateu os ritos e festas pagãs dos europeus, que acendiam fogueiras e dançavam ao redor do fogo para espantar os demônios do frio e da fome e para celebrar a colheita, que ocorria no dia 21 de junho, o solstício de verão – dia mais longo do ano na Europa (Midsummer). Não conseguindo acabar com esta tradição, uniu-se a ela e resolveu “cristianizar” esta festa, que passou a ser realizada em 24 de junho, para festejar o nascimento de São João. A fogueira virou o símbolo da purificação. Os portugueses trouxeram para o Brasil a tradição do São João, e quando os Jesuítas perceberam que os índios gostavam de dançar ao redor do fogo, não perderam tempo, apresentaram logo a festa de São João para os índios, que ficaram encantados com os fogos de artifício.

Mas de onde vem as tradições de soltar fogos de artifício, soltar balões, pendurar bandeirinhas, dançar a quadrilha, casamento caipira, a música, as simpatias, comer pinhão e alimentos com farinha de milho? Segundo os historiadores, a tradição dos fogos de artifício veio da China, trazida pelos navegadores e tem por objetivo acordar São João. Lembram da cantiga Capelinha de Melão: “São João está dormindo, não acorda não, acordai, acordai, acordai João”. Já a tradição de soltar balões, que hoje é proibida no Brasil para evitar incêndios quando o balão cai, era para o balão levar os pedidos e graças alcançada pela intercessão de São João. Outra tradição muito conhecida são as “simpatias”, utilizadas para advinhar ou arranjar casamento. Santo Antônio é o mais forte neste quesito, mas São João também recebe muitos pedidos. Vocês sabiam que para cada Santo há um tipo de fogueira? Pois então, a fogueira de São João tem a base arredondada, a de Santo Antônio é quadrada e a de São Pedro é triangular (não me pergunte por quê!).

A dança da quadrilha, ao contrário do que muitos pensam, não teve origem no Congresso Nacional. Ela vem da tradição francesa de danças de salão – “quadrille” (pelotão), dançada com quatro pares. Esta tradição chegou ao Brasil com a Corte Portuguesa em 1808. Com a queda da monarquia no Brasil, a tradição deixou os salões das cidades, dos elegantes nobres e se deslocou para o interior, fundindo-se com danças e ritmos brasileiros. A quadrilha  tradicional das festas juninas tem 16 pares e é constituída de 30 passos, misturando expressões francesas como o “anarriê”( “an arrière” = para trás),  “Balancê”, com expressões bem brasileiras como “caminho da roça”e “olha a cobra”.  O povo simples do interior dançava com as roupas que tinha, daí vem a tradição das roupas com remendos e chapéu de palha. O esteriótipo do caipira foi reforçado na literatura com figuras como Jeca Tatu de Monteiro Lobato e por Chico Bento, nos desenhos de Maurício de Souza.

O casamento na roça é uma encenação que representa a época em que, pela falta de padres no interior, o casamento era feito pela comunidade. Para tornar mais engraçada a cena, foi incrementado com a noiva grávida, o noivo que não quer casar, a presença do delegado, etc. A tradição das bandeirinhas vem da época em que se colocava bandeiras nas janelas com os santos Antônio, João e Pedro.

A comida típica do São João no Nordeste é derivada do milho, pois a festa coincide com a colheita do milho. São preparadas pamonha, curau, canjica e o próprio milho verde. No Sul e Sudeste se tem o hábito de comer pinhão, pois é o período que caem as pinhas das araucárias.

A música é um componente importante nas festas e também varia de região para região. No Nordeste o ritmo preferido é o forró. Se Pernambuco tem Luiz Gonzaga, a Paraíba tem o Sivuca e a rivalidade continua. Destaco a seguir as músicas de São João e os forrós de minha preferência. Deixo também o link das músicas “Cai, cai, balão”e “Capelinha de Melão”, que você ouvia quando criança. Por tudo isto é que se pode dizer que a Festa de São João é a mais popular das festas. Além disto as melhores festas estão nas cidades do interior e valorizam as tradições locais. Então… Viva São João!

Canções da sua infância:

Canção de São João da Região Sul:

Forrós:

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

18Jun
Coluna Dominical

Se meta na minha vida!

– 19 de junho 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Você já disse ou já ouviu um “não se meta na minha vida”? Pois saiba que isto é bem mais complexo do que parece. Na minha opinião, existem duas formas de se meter na vida dos outros, a primeira: com objetivo de causar um mal para o outro, por meio de fofoca, difamação, maldades, etc. A segunda, com o objetivo de causar um bem para o outro, o que geralmente ocorre por meio de conselhos. Mesmo neste caso, a reação de quem recebe o conselho, pode ser negativa. Segundo o dito popular: “Se conselhos fossem bons, não seriam dados, mas sim vendidos!” Os psicólogos dizem que a pessoa precisa ter muita responsabilidade para “dar conselhos”, pois muitas vêzes o outro não pediu conselhos, ou se pediu, está querendo repassar a responsabilidade de uma tomada de decisão. Nos próximos parágrafos vou me dedicar ao “meter-se na vida dos outros” na intenção de causar um bem.

Acredito que a maioria das pessoas não gosta de ouvir conselhos, mesmo que estes visem o seu bem. Por que elas não ouvem, ou detestam, estes conselhos? Quando o conselho é dado sem ser pedido, a reação tende a ser (verbal ou em pensamento): “Ora, vá cuidar da sua vida/da sua família/da sua mãe/… e me deixe em paz!”. Os pais gostam de dar conselhos aos filhos. A reação dos filhos depende da “idade” e da “relação que possuem com os seus pais”. Quando eles ficam quietos, pensativos, não significa que estão ouvindo ou que estão aceitando o conselho recebido. Pode ser apenas uma estratégia para não polemizar. Eles sabem que reagir com um “não se meta na minha vida” pode custar uma longa conversa ou talvez um corte nas suas regalias (mesada, saídas para festas, acesso ao computador, etc.). Quando algum filho explode com um “não se metam na minha vida”, a resposta dos pais pode ser do tipo: “não somos nós que estamos nos metendo na sua vida, foi você que se meteu na nossa!” e apresentam uma lista de cobranças, de sacrifícios que passaram para dar o melhor para seus filhos. Isto pode sensibilizá-lo na primeira vez, mas depois vira discurso vazio. Outros preferem levantar a voz ou a mão, o que costuma ser a pior alternativa. Por outro lado, a falta de conselhos/orientações, bem como de limites, pode ser danoso para o futuro das crianças e adolescentes. Diante disto, surgem duas perguntas:

Quando se meter na vida dos outros? Quando o outro lhe pedir um conselho! Encare como uma grande honra e uma grande responsabilidade se alguém lhe pedir um conselho. E se o outro não lhe pedir conselhos e estiver se autodestruindo (envolvimento com drogas, conduta irresponsável, etc.)? Se for alguém que você quer muito bem, vai deixar assim ou vai dar aquele “chacoalhão”? Penso que é a hora de se meter! Não se trata de querer que esta pessoa assuma os seus valores ou o seu modo de viver, mas sim de trazê-la de volta aos valores dela, para a sua antiga trajetória.  

Como se meter na vida dos outros? Existem muitas estratégias, talvez a melhor forma seja a de se colocar no lugar do outro. Em determinadas situações, o melhor que se pode fazer é dar subsídios para que a pessoa tome suas próprias decisões. Julian Treasure na palestra “Como falar para que os outros ouçam” (How to speak so that people want to listen) num TEDx, diz que para ser ouvido é necessário ter na fala: “Honestidade” – ser verdadeiro no que diz, ser direto e claro; “Autenticidade”- ser você mesmo; “Integridade”- ser a sua palavra e “Amor”- querer o bem para o outro.

Nesta perspectiva, o “se meter na vida do outro” é um ato solidário, cada vez mais escasso, pois vivemos numa época em que o legal é “respeitar as escolhas dos outros”, sejam elas boas ou autodestrutivas. O “respeitar” se transformou numa desculpa para não nos metermos na vida dos outros e para não permitir que se metam na nossa. A tendência hoje, mesmo com as pessoas mais próximas, é de nós dizermos somente o que elas querem ouvir e de ouvir delas o que gostamos de ouvir. Ninguém mais quer “se meter” na vida dos outros!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com