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11Jul
Coluna Dominical

Biomimética – Temos muito a aprender com a Natureza

– 10 de julho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Acabei de sair de um curso sobre Biomimética e fiquei impressionado com muitas coisas que aprendi. Você sabe o que é Biomimética? Eu explico! Para entender a Biomimética é necessário conhecer a história da vida no Planeta Terra, e nós fizemos isto caminhando.

Estima-se que o Planeta Terra tenha 4,5 bilhões de anos de vida. Estendemos este período de tempo ao longo de uma estrada e fizemos uma caminhada de 4,5 km, sendo que cada metro caminhado equivalia a 1 milhão de anos. Nos primeiros 700 metros, digo, nos primeiros 700 milhões de anos, nada aconteceu. A vida surgiu há 3,8 bilhões de anos, mas a a primeira estrutura unicelular foi surgir há 3,5 bilhões de anos. Caminhamos mais um quilômetro até chegarmos ao surgimento da primeira estrutura pluricelular, há 2,5 bilhões de anos. Depois mais uma longa caminhada quando atravessamos o período Proterozoico, e quando faltavam apenas 450 metros para chegarmos ao destino (dias de hoje), chegamos na era dos peixes (há 450 milhões de anos). Os dinossauros surgiram há 235 milhões e desapareceram há 65 milhões de anos. Caminhamos mais um tanto e, quando estávamos há poucos centímetros do final da caminhada de 4,5 quilômetros, paramos para ver o surgimento do homo-sapiens, há 150 mil anos. Foi necessário pegar um régua de 30 cm para saber quando ocorreu o final da era do gelo (13.000) e o surgimento da agricultura há 10 mil anos. Para descobrir quando ocorreu a revolução industrial, tivemos que recorrer a um paquímetro, pois estávamos observando milímetros. Como sabemos, foi depois da revolução industrial que o homem começou a poluir e causar danos significativos ao Planeta. Tudo isto ocorreu nos milímetros finais de uma distância de 4,5 quilômetros.

Os especialistas dizem que atualmente o Planeta Terra possui 30 milhões de espécies. Estas foram as que sobreviveram as cinco extinções em massa que já ocorreram. Na última extinção, quando caiu um meteoro no golfo do México, foram extintos os dinossauros e mais 75% das espécies da época. Mas a vida cria condições que conduzem a mais vida.  Depois desta extinção houve uma explosão de vida até chegarmos nos dias de hoje. Percebemos que para o Planeta Terra se livrar do homem e outros de milhões de espécies não será o “fim do mundo”, pois a Terra já fez isto cinco vêzes!

Ao longo da história da vida, os organismos foram sendo aprimorados. O homem desenvolveu rapidamente o seu cérebro e ultimamente passou a subestimar as outras espécies, que são mais antigas e também possuem conhecimento. Fiquei impressionado ao saber que a abelha que encontra alimentos, quando volta para a colméia, informa as demais pela forma como ela voa. Pela direção, inclinação e pelas ondas que ela faz no voo, informa para que lado está, a distância e a qualidade do alimento que ela encontrou.

Enquanto na biologia aprendemos “sobre” a natureza, na biomimética aprendemos “com” a natureza. A biomimética tem como elementos essenciais a “ética” – respeito e gratidão às demais espécies; a “re-conexão”com a natureza e o terceiro elemento é a “capacidade de emulação”- de imitar os métodos que as demais espécies utilizam para resolver seus problemas.

O homem utiliza substâncias tóxicas nos processos industriais, e quando se contamina com elas, permanece com estas substâncias para o resto da vida no seu organismo, causando doenças como Alzheimer e Parkinson. Eu nunca havia pensado como que a cobra envenena o rato e depois o devora, sem se envenenar com o seu próprio veneno. Isto ocorre porque o veneno que mata o rato, em poucos segundos se decompõe em substâncias inertes. Ou seja, a cobra é mais esperta do que nós.

Quando vamos construir alguma coisa, tomamos uma quantidade de matéria-prima maior do que precisamos e vamos retirando partes dela. Prova disto é que as ferramentas mais vendidas são furadeiras, serras, lixadeiras, etc. Ao contrário de nós, a natureza não retira material, ela adiciona. O bebê recém nascido não é esculpido de um bloco de carne! Ele nasce pequenino e vai crescendo, vai lhe sendo adicionando mais matéria. O mesmo acontece com os demais seres vivos. Talvez a impressora 3D seja uma das primeiras experiências desenvolvidas pelo homem que vai construir adicionando matéria, como faz a natureza.

Por fim, aprendi que a vida é feita de competições e cooperações, mas que na grande maioria dos casos, prevalence a cooperação. No nosso corpo são 100 trilhões de células e 10 sistemas cooperando para fazer o corpo funcionar.

A flor de lótus é sempre branca e limpa, embora viva no meio do lodo. Como pode? Para “se limpar” dos respingos de lama nas chuvas, ela possui uma superfície lisa que não permite a aderência de água. A água que cai sobre ela, lava suas folhas e é jogada para fora, pois o seu caule flexível faz um movimento para jogar a água para fora das suas folhas. Observando a flor de lótus foi desenvolvida uma tinta que aumenta em 50% a vida útil dos revestimentos. Paredes externas de prédios são lavadas com a água das chuvas.

Enfim, precisamos rever a concepção de que a natureza existe para nos servir. O que não nos parece útil, queremos matar ou destruir. Útil é um conceito humano. Para a natureza, tudo é útil para alguma coisa. A espécie humana é o bebê dos habitantes desta casa. As demais espécies sobreviveram por milhares ou milhões de anos e aprimoraram seus sistemas. Precisamos aprender mais com a natureza para nos tornarmos menos arrogantes.

Obs: Conteúdos discutido no curso ministrado por Ricardo Mastroti sobre Biomimética oferecido pela Web of Life Brasil  no Rincão Gaia entre 8 e 10 julho 2016.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

02Jul
Coluna Dominical

Por que não podemos alterar o voto depois de ter votado?

– 3 de Julho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

No dia seguinte ao referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Européia, várias pessoas se disseram arrependidas e gostariam de mudar o seu voto. Isto me fez pensar “por que o voto é irreversível?”. Por que não podemos alterar o voto depois de ter votado? Pode parecer um absurdo retirar um voto dado, mas não é absurdo desfazer um negócio, depois de ter assinado os documentos. Não é impossível desfazer um casamento depois de ter  jurado amor eterno. Não é proibido assumir um emprego e pedir demissão no dia seguinte. Por que não podemos nos arrepender do voto que demos a alguém?

No caso do referendo do Reino Unido, 51,9% dos eleitores votaram pelo Brexit. No Brasil, a presidenta Dilma venceu as eleições com 51,64% dos votos. Em várias eleições ocorre de um candidato crescer nas últimas semanas e os analistas dizerem que se houvesse mais uma semana, o resultado seria outro. Então, a eleição é apenas o retrato da vontade da maioria “naquele dia”. No dia seguinte, ou na semana seguinte, o resultado poderia ser outro, mas a consequência é para 4 anos ou mais. Logo, este sistema é democrático, mas precisa ser aprimorado.

A tecnologia que temos hoje permite que cada eleitor possa votar do seu celular ou de um computador. Se o sistema for confiável, bastaria cada eleitor registrado usar um código de acesso para votar. O voto poderia continuar sendo secreto, mas ficaria registrado num banco de dados. Se no dia seguinte o eleitor desejasse alterar o seu voto, poderia acessar o banco de dados e fazer a alteração. Desta forma o eleitor não ficaria cativo do voto dado. Quem recebeu o voto é que teria que corresponder à confiança recebida. Quando o vencedor começasse a perder apoio, entraria em contato pela mídia ou diretamente com seus eleitores, justificando suas ações e solicitando um “voto de confiança”. Se convecesse os eleitores, continuaria no cargo. No caso contrário, perderia o mandato. Complicado? Não!

Estamos vivendo uma época em que nada é eterno, tudo pode mudar muito rapidamente. Não existe mais amor eterno ou confiança eterna. O amor, a confiança ou qualquer outro compromisso assumido se torna eterno se conseguir ser renovado a cada dia. Se um dia os eleitores puderem retirar o seu voto, mudará a relação dos eleitos com seus eleitores. Os eleitos terão que trabalhar todo o tempo para manter a confiança recebida. Será um passo a frente do que existe hoje nos sistemas parlamentaristas. Este sistema de delegar e retirar o voto pode ser um sonho, mas não é inviável operacionalmente e nem impossível de ser implantado. Depende apenas do desejo dos eleitores e da pressão da sociedade.

Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

25Jun
Coluna Dominical

Festa de  São João – qual a origem desta festa e o que significam os seus ritos?

– 26 de junho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

São João é a segunda maior festa no Brasil e muito forte no Nordeste, onde as festas se estendem ao longo de junho. As cidades de Campina Grande na Paraíba e Caruaru em Pernambuco, disputam o título de “maior São João do Mundo” e recebem cerca de 1,5 milhão de pessoas por ano. O São João do Nordeste se diferencia em alguns aspectos do São João do Sul e Sudeste, onde a festa se reduz a uma “quermesse” realizada principalmente em escolas e igrejas.

As Festas Juninas são para homenagear Santo Antônio, São João e São Pedro. Embora Santo Antônio seja o famoso santo casamenteiro e o São Pedro o escolhido por Jesus para chefe da Igreja (o primeiro Papa), São João é o que recebe a maior festa. Recém agora descobri que São João era primo de Jesus e logo pensei que tinha rolado um nepotismo nesta história. Só que não, as festas de São João começaram a partir do Concílio de Trento que ocorreu entre 1545 e 1563. A Igreja Católica usou a estratégia do “se não podemos derrotá-los, vamos nos unir a eles”, ou seja, por muitos anos combateu os ritos e festas pagãs dos europeus, que acendiam fogueiras e dançavam ao redor do fogo para espantar os demônios do frio e da fome e para celebrar a colheita, que ocorria no dia 21 de junho, o solstício de verão – dia mais longo do ano na Europa (Midsummer). Não conseguindo acabar com esta tradição, uniu-se a ela e resolveu “cristianizar” esta festa, que passou a ser realizada em 24 de junho, para festejar o nascimento de São João. A fogueira virou o símbolo da purificação. Os portugueses trouxeram para o Brasil a tradição do São João, e quando os Jesuítas perceberam que os índios gostavam de dançar ao redor do fogo, não perderam tempo, apresentaram logo a festa de São João para os índios, que ficaram encantados com os fogos de artifício.

Mas de onde vem as tradições de soltar fogos de artifício, soltar balões, pendurar bandeirinhas, dançar a quadrilha, casamento caipira, a música, as simpatias, comer pinhão e alimentos com farinha de milho? Segundo os historiadores, a tradição dos fogos de artifício veio da China, trazida pelos navegadores e tem por objetivo acordar São João. Lembram da cantiga Capelinha de Melão: “São João está dormindo, não acorda não, acordai, acordai, acordai João”. Já a tradição de soltar balões, que hoje é proibida no Brasil para evitar incêndios quando o balão cai, era para o balão levar os pedidos e graças alcançada pela intercessão de São João. Outra tradição muito conhecida são as “simpatias”, utilizadas para advinhar ou arranjar casamento. Santo Antônio é o mais forte neste quesito, mas São João também recebe muitos pedidos. Vocês sabiam que para cada Santo há um tipo de fogueira? Pois então, a fogueira de São João tem a base arredondada, a de Santo Antônio é quadrada e a de São Pedro é triangular (não me pergunte por quê!).

A dança da quadrilha, ao contrário do que muitos pensam, não teve origem no Congresso Nacional. Ela vem da tradição francesa de danças de salão – “quadrille” (pelotão), dançada com quatro pares. Esta tradição chegou ao Brasil com a Corte Portuguesa em 1808. Com a queda da monarquia no Brasil, a tradição deixou os salões das cidades, dos elegantes nobres e se deslocou para o interior, fundindo-se com danças e ritmos brasileiros. A quadrilha  tradicional das festas juninas tem 16 pares e é constituída de 30 passos, misturando expressões francesas como o “anarriê”( “an arrière” = para trás),  “Balancê”, com expressões bem brasileiras como “caminho da roça”e “olha a cobra”.  O povo simples do interior dançava com as roupas que tinha, daí vem a tradição das roupas com remendos e chapéu de palha. O esteriótipo do caipira foi reforçado na literatura com figuras como Jeca Tatu de Monteiro Lobato e por Chico Bento, nos desenhos de Maurício de Souza.

O casamento na roça é uma encenação que representa a época em que, pela falta de padres no interior, o casamento era feito pela comunidade. Para tornar mais engraçada a cena, foi incrementado com a noiva grávida, o noivo que não quer casar, a presença do delegado, etc. A tradição das bandeirinhas vem da época em que se colocava bandeiras nas janelas com os santos Antônio, João e Pedro.

A comida típica do São João no Nordeste é derivada do milho, pois a festa coincide com a colheita do milho. São preparadas pamonha, curau, canjica e o próprio milho verde. No Sul e Sudeste se tem o hábito de comer pinhão, pois é o período que caem as pinhas das araucárias.

A música é um componente importante nas festas e também varia de região para região. No Nordeste o ritmo preferido é o forró. Se Pernambuco tem Luiz Gonzaga, a Paraíba tem o Sivuca e a rivalidade continua. Destaco a seguir as músicas de São João e os forrós de minha preferência. Deixo também o link das músicas “Cai, cai, balão”e “Capelinha de Melão”, que você ouvia quando criança. Por tudo isto é que se pode dizer que a Festa de São João é a mais popular das festas. Além disto as melhores festas estão nas cidades do interior e valorizam as tradições locais. Então… Viva São João!

Canções da sua infância:

Canção de São João da Região Sul:

Forrós:

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com