27Nov
Coluna Dominical

A vida não tem apenas dois lados!

-27 de novembro de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

De que lado você está? Você é contra ou a favor? Responda sim ou não! A quase todo o momento somos forçados a optar por um dos “lados” que nos apresentam. Se não optar por nenhum, então é porque você está em cima do muro. Você será acusado de não ter coragem de assumir uma posição, blá, blá, blá. Mas quem que disse que existem apenas dois lados?

Eu nasci numa família onde todos são colorados, e quando criança, eu pensava que toda pessoa deveria ser gremista ou colorado. Como as minhas referências eram colorados, eu acreditava que os “do bem” eram colorados e os “do mal” eram gremistas. Quando cresci, comecei a participar de movimentos da Igreja ligados a Teologia da Libertação e depois passei a militar no Movimento Estudantil e no PT. Novamente, tinha a sensação de que as pessoas boas, bem intencionadas, estavam do meu lado. Os adversários e os que nos criticavam, eram os do mal ou estavam equivocados. Mas, com o passar dos anos, tive a oportunidade de conviver com outras culturas e com pessoas que estavam do outro lado.

Ainda quando estudante, consegui uma bolsa de estudos e fui fazer doutorado na Alemanha. Lá, convivi com árabes, judeus, chinêses, indianos,…  cada um com os seus valores e uma forma distinta de ver o mundo. Fiz amizade com um vizinho e certa vez ele me convidou para jantar na casa dele. Quando entrei, fiquei chocado ao ver que a comida estava servida em cima de um pano no piso da sala. Não havia mesa e nem talheres! Comemos com as mãos, sentados como índios. Com a convivência com estas pessoas fui entendendo os valores de quem não segue os padrões da nossa cultura ocidental. As pessoas são diferentes porque sofrem forte influência das suas famílias e das suas culturas.

Nos cinco anos de Alemanha, convivi também com muitos brasileiros, que tinham valores e opiniões totalmente diferentes das minhas. Mas, o que nos unia, era o fato de sermos brasileiros. Ajudávamos os recém chegados e os que enfrentavam alguma dificuldade. Passei a entender melhor as diferenças e a admirar quem não gosta do que eu gosto, quem não acredita no que eu acredito. Lá, pouco importava se o colega brasileiro era de esquerda ou de direita, gremista ou colorado, rico ou pobre, éramos solidários uns com os outros. Depois de alguns anos do retorno ao Brasil, tive outra experiência no exterior, durante o pós-doutorado. Vivi por um ano nos EUA e conheci americanos que fogem do estereótipo que temos deles. Pessoas queridas e preocupadas com os destinos da humanidade. Enfim, a vida me mostrou que as pessoas não se dividem entre os “do bem” e os “do mal”.

Para entender os conflitos que estamos vivendo hoje, é preciso perceber que a política e a economia passam por ciclos. Num período assume um governo com posições que são denomoninadas de direita e imprime determinadas medidas econômicas, depois assume um governo com posições de esquerda e imprime medidas contrárias. De tempos em tempos ocorrerem fatos que fogem a esta “normalidade”, tais como denúncias de fraude em eleições, acusações de golpes, instalação de ditaduras, declaração de guerra ou outras medidas extremas. Nestes momentos, parte da população acredita que houve a fraude ou o golpe, e outros não. Alguns justificam a necessidade da ditadura e da guerra, e outros não. Como consequência, se agravam os conflitos e cresce o ódio entre as pessoas.

Conflitos sempre existiram e sempre exitirão, a questão é como nos comportamos diante deles. Qualquer torcedor fanático de um clube de futebol, ao ver o seu time perder, ficará irritado e poderá xingar o juiz e a torcida adversária. As pessoas que apoiam uma proposta de governo, que expressa uma visão de mundo, ao serem derrotadas, ficam abatidas, decepcionadas e costumam descarregar estes sentimentos colocando a culpa em alguém. Em muitas outras situações, o insucesso causa frustrações, que podem levar a conflitos. Ainda hoje, algumas pessoas querem estravazar estes sentimentos partindo para a briga. Outros não chegam a este ponto, mas não conseguem superar estes sentimentos e se afastam daqueles que são do outro lado, os que são “do mal”.

A realidade nos mostra as nossas incoerências. Aquela pessoa que eu não gosto porque é do outro partido, senta ao meu lado no estádio de futebol e, na hora do gol, nos abraçamos e vibramos juntos. Em outras situações, ora somos adversários, ora estamos do mesmo lado. Ou seja, temos divergências e concordâncias com todas as pessoas, mesmo dentro das nossas famílias e nos grupos de amigos. Identificar as diferenças e defender as nossas convicções faz parte do convivívio democrático. Protestar, criticar, querer mudar, faz parte do nosso papel de cidadão. Os momentos de conflito também são momentos de aprendizagem. A cada ciclo da economia e da política teríamos que avançar, que sair melhores do que entramos. Teríamos que sair mais conscientes e tolerantes, mas tenho a sensação boa parte da humanidade ainda acredita que na vida só tem dois lados: o dos “mocinhos” e dos “bandidos”, e que bandido bom é bandido morto.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

20Nov
Coluna Dominical

Como são tomadas as decisões na sua família?

– 20 de novembro 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Na sua família, quem decide para onde ir nas férias? Com quem vamos passar o Natal? Qual o carro que vamos comprar? Vamos ter gato/cachorro na nossa casa? Qual o colégio/creche que vamos colocar nossos filhos? Mesmo que você viva sozinho, seja independente, estará sujeito as decisões da sua família: “Oquêêê? Não quer ir? Pelo amor de Deus! Não mate o seu pai de desgosto! Você TEM que ir no aniversário de 80 anos do seu avô! Pode ser o último!” Mas afinal, como são tomadas as decisões na sua família? Quem propõe as alternativas e quem bate o martelo?

No tempo dos nossos avós, não se tinha dúvidas, era o “dono da casa” que decidia e ninguém questionava a sua decisão. Quando a esposa ou os filhos discutiam as alternativas, já pensavam no que o “pai” gostaria que fosse feito. Alguém diria: “Hummm! Isto não, ele não vai gostar!” Com a democratização das decisões familiares, hoje até as crianças, ou melhor, geralmente são as crianças que decidem: “Viemos para esta praia porque as crianças adoram este lugar!” Em outras situações, a decisão parece ser do “pai”, mas na verdade a decisão foi costurada pela esposa e filhos e apresentada de forma que ele pense que é ele quem está tomando a decisão: “Se comprar uma camionete é melhor para suas pescarias, e que além disto é mais confortável para as nossas viagens com as crianças, então compre esta, mas eu não quero me meter, é você quem decide!”

Algumas famílias possuem regras claras: o Natal é na família da mãe e a virada do ano com a família do pai. Outros alternam, um ano o Natal é com uma família, no ano seguinte troca. Geralmente isto não funciona, pois existem as excepcionalidades que viram regras. “Este é o décimo ano que vamos passar o Natal com a tua família, agora a desculpa é que a tua vó está doente, blá, blá…”. Quando os filhos crescem, eles querem passar as festas com as/os namoradas/os, ou com a sua turma. As decisões vão ficando ainda mais complexas.

Uma amiga foi comprar um cachorro e quando chegou perto dos cachorrinhos, todos eles olharam para ela, mas apenas um deles correu e pulou no seu colo. Pronto! A escolha estava feita! Nas decisões familiares, a solução não pula no nosso colo. Muitas vêzes precisamos considerar inúmeras variáveis: os sentimentos, os humores, a grana, as consequências … é muito complicado para tomar uma decisão que agrade a todos, mas as mães tentam fazer isto.

A tomada de decisão nas famílias não segue os modelos utilizados pelas empresas, mas talvez surja no futuro um aplicativo em que possamos colocar todas as condições e ele nos apresente a melhor alternativa. Para que este aplicativo faça sucesso, ele terá que considerar que toda a família tem um cunhado mala, tem um(a) tio(a) incoveniente e um(a) sobrinho(a) “com problemas”. Tem também alguém que é o(a) queridinho(a) da mamãe. Tudo isto pesa nas tomadas de decisão. E, se por um lado, tem a fulana que demoooora para tomar uma decisão, por outro, tem o sicrano que se empolga e decide rápidamente, mas geralmente estas decisões são catastróficas e alguém tem que consertá-las. Tem ainda aquela pessoa que, quando diz: “podem ir que eu vou mais tarde”, todos já sabem que ela não irá!  E o outro que, quando lhe perguntam: “Vamos?”, responde com um “sim, vamos”, mas continua no mesmo lugar por muito tempo. Apesar de tudo isto, de discutir e de brigar, de se meter na vida dos outros, este agrupamento de pessoas chamado “família” é a principal referência das crianças e o que mantém unidas várias gerações. Como dizem os Titãs: “Família! Família! Vovô, vovó, sobrinha. Família! Família! Janta junto todo o dia. Nunca perde esta mania.” Feliz de quem se sente parte de uma família.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

20Nov
Coluna Dominical

Maldade

– 20 novembro 2016

Luis Stephanou (*)

Certa vez, há uns quinze anos, quando minha filha tinha em torno de dez anos, o colégio no qual ela estudava ofereceu como atividade de dia dos pais a possibilidade de algum progenitor “dar uma aula” aos alunos. Era mais ou menos tema livre e, ao que parece, a proposta era simplesmente alguns pais vivenciarem o ambiente escolar. Para minha surpresa, fui um dos poucos que me inscrevi para fazer a própria filha passar vergonha perante seus coleguinhas. O fato é que isso facilitou a seleção e, na ausência de ideia melhor, lá fui eu contar uma história na turma da Bruna. Na época ela estudava numa das principais escolas da cidade, amplamente conhecida como formadora de “cidadãos de bem” a partir de uma sólida educação jesuítica.

O que contar para aquela turminha já imbuída de certos valores e um horizonte que chegava ao menos até a Disney? Escolhi a edificante leitura do “Flautista de Hamelin”, na versão em formato de poema da antiga enciclopédia “O Mundo da Criança”. A história é bem conhecida e dispensa maiores explicações. Os poucos que lêem estas linhas e não a conhecem basta procurar por aí; deve haver dezenas de publicações. O que é digno de comentários se relaciona às reações das crianças.

É claro que diversas daquelas crianças se emocionaram. Apesar do acesso quase irrestrito a brinquedos e tecnologias sofisticadas, uma boa história infantil ainda era muito bem acolhida em seus tenros coraçõezinhos. Além disso, eu estava inspirado; não queria falhar na hercúlea tarefa de impressionar minha filha.

Tenros coraçõezinhos? Nem tanto. No meio da história o problema estava posto. Os ratos haviam tomado conta da cidade e o flautista ainda não havia dado sinal de vida. Isso não pareceu ser problema para um loirinho gordinho, que encontrou uma solução muito moderna: “por que  não jogam bombas e matam todos os ratos?”. Eram tempos pós Torres Gêmeas e víamos ao vivo bombardeios diários no Iraque. Então, didaticamente tentei argumentar com o loirinho que as bombas matariam os ratos, mas também as pessoas. Ele imediatamente respondeu que o mais importante era eliminar os ratos e o problema estaria solucionado. Má sorte das pessoas estarem por ali quando as bombas explodissem. Hum, devia ter anotado o nome deste menino…  

E a coisa não parou por ai. Meio desconfiado do público e para desconsolo de minha filha, enterrada em sua cadeira lançando olhares pouco amistosos em minha direção, continuei contando a história. Depois do flautista afogar todos ratos, provocando o maior extermínio na espécie (realmente tem bichos com zero de marketing. Queria só ver aonde ia parar o tal de flautista se fosse uma epidemia de ursos panda…), lá foi ele buscar  saco de moedas de ouro que o rei havia prometido. E o rei, feito qualquer governante astuto, tratou de dar aquele calote. Na maior cara de pau alegou que a tarefa tinha sido muito fácil e isso o liberava de pagar o prometido. Por que nos soa tão natural este comportamento real?

E nesta parte da história fiz a bobagem de perguntar para a turminha se eles achavam que o rei estava certo. Rapidamente um moreninho magrinho, com jeito de bom jogador de futebol e de se destacar nas traquinagens do recreio, respondeu que era óbvio que sim. Ora, quem mandou o flautista não pegar adiantado o dinheiro prometido pelo rei? Pensei em argumentar que ele havia confiado na palavra de um rei, que deveria valer alguma coisa. E que, esta resposta poderia ser um beco sem saída, já que autorizaria o flautista a não fazer nada depois que ganhasse o dinheiro… Só pensei essas coisas, pois tive a sensatez de não perguntar mais nada. Aquelas crianças tinham respostas desconcertantes.

Tratei de terminar a história. Sublinhei bem o seqüestro das crianças e, quando li a parte das crianças nunca mais voltarem a encontrar seus pais, lancei um olhar sádico em direção ao pequeno futebolista. Este não pareceu se importar com o desfecho da história, mas uma loirinha sentada nas primeiras filas me perguntou quase chorando se nunca mais as crianças viram seus pais. Putz, onde estava com a cabeça quando escolhi esta história? Por via das dúvidas, nem olhei na direção da Bruna, que a estas alturas já deveria estar pensando na possibilidade de ser seqüestrada para sempre ou conseguir a flauta para me afogar.

Hoje esta turminha já não existe. Aquelas crianças viraram jovens adultos e estão dispersos pela cidade, pelo mundo. É claro que se diversificaram e seguiram caminhos distintos. Mas quando vejo tantos meninos e meninas na sua vitalidade de vinte e poucos anos nas ruas clamando por sangue, querendo a volta da ditadura, loucos pela pena de morte, com vergonha de serem obrigados a dividir a terra deste imenso país com indígenas e outras coisas de gênero, muitas vezes acabo lembrando daquela distante manhã, de ratos exterminados e um artista enganado.

(*) Luis Stephanou é Sociólogo

Contato: riglosaragon@gmail.com