03Sep
Coluna Dominical

O impacto da propaganda eleitoral sobre as crianças

– 4 de setembro de 2016

Luis Felipe Nascimento(*)

Mãe, vem aqui. Vota neste cara da TV, ele disse que vai prender o ladrão e dar segurança em volta das escolas. Daí eu vou poder ir de bike prá escola!

  • Filho, senta aqui, deixa eu te explicar como isto funciona.

Ai que saco! Lá vem mais meia de hora de explicações!

  • Larga o celular e me escuta! Quem prende o bandido é a polícia. Quem aplica a lei e determina quanto tempo o ladrão deve ficar preso, é o juiz. E quem faz as leis são os deputados.

O quê? Os deputados que fazem as leis? O pai disse que os deputados são um bando de ladrões!

  • O teu pai exagera de vez em quando.

Então o castigo que ele me deu pode ter sido exagerado?

  • Pedro Henrique! Não distorça as coisas! Estamos falando de política e não do teu mau comportamento na escola!

Tá bom! Se o cara da TV diz que vai prender o ladrão e depois ele não prende, o que acontece com ele?

  • Nada! Os políticos não cumprem tudo o que eles prometem!

Ah tá! Se eu minto, fico de castigo. Mas o cara da TV pode mentir e não acontece nada?

  • Aí meu Deus! Vamos de novo…

Não precisa! Eu já entendi! A política é como aqui em casa. Vocês fazem as leis e depois não cumprem. O pai me proibiu de dizer palavrão, mas ele fala palavrão quando assiste futebol. Você me manda arrumar a minha cama, mas você não arruma a sua!

  • Menino, não me tire do sério!

Mãe, tu sempre diz que, mesmo que me provoquem na escola eu devo me controlar e não brigar, certo? Você também precisa aprender a se controlar.

  • 1, 2, 3… 1, 2, 3… (respira, respira…)

  • Filho, a mãe tá tentando te explicar, mas você não colabora! Me escuta!

Posso escutar e continuar jogando no celular?

  • Nããããoooo! Larga esta porcaria! Agora é só para escutar! … Veja bem, tem político coerente, que cumpre o que prometeu e outros que não. O problema começa na forma como eles são eleitos. Eu acho que cada região da cidade deveria escolher o seu representante, que é o que se chama de voto distrital. Assim poderíamos conhecer melhor os candidatos e fiscalizar de perto as ações dos nossos representantes. Hoje não é assim que funciona. Então, eu voto nos candidatos que defendem a instalação do voto distrital, entendeu?

Hum…hum! O candidato da TV é mentiroso e o teu amigo do voto distrital é bonzinho. Posso ir agora?

  • Pode! Vai lá prô teu quarto!

  • (Puxou pelo pai, enrolador e distorce tudo que a gente fala!)

Mãeeee, quando eu crescer, eu posso ser político do voto distrital?

 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

28Aug
Coluna Dominical

O Pecado apaga o Legado

– 28 de Agosto de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

 O nadador americano Ryan Lochte, que depois de uma festa aprontou num posto de combustível no Rio de Janeiro, se tornou persona non grata dos brasileiros. Ele já perdeu o apoio de quatro dos seus patrocinadores e não será mais convidado para a Danças dos Famosos nos EUA. O Comitê Olímpico Americano teme que este fato prejudique a candidatura das cidades americanas para a Olimpíada de 2024. Não resta dúvida que a sua mentira (o seu “pecado”) iria afetar a imagem da cidade do Rio no Mundo. Portanto, não importa que Ryan Lochte seja o maior medalhista da história da natação mundial (considerando todas as competições), tendo ultrapassado Michal Phelps. Não importa que ele possua vários récordes mundiais, 11 medalhas olímpicas, sendo 5 de ouro. Apesar disto tudo, ele será lembrado na história como o “mentiroso da Olimpíada do Rio”. Ele está pagando pelo erro que cometeu!

Fatos semelhantes ocorreram com outros atletas, dirigintes de organizações, políticos, artistas e quem mais se destacou. Talvez a pessoa mais importantes na promoção do futebol mundial tenha sido o brasileiro João Havelange. Curiosamente, ele também foi nadador e um destacado atleta Olímplico. Havelange foi presidente da Confederação Brasileira de Desportes, que equivaleria hoje ao Ministério dos Esportes, entre 1959 e 1974. Neste período, como dirigente, levou o Brasil ao tri–campeonato mundial de futebol. Foi membro do Comitê Olímpico por mais de 40 anos e chegou a ser o Decano. Foi presidente da FIFA de 1974 à 1998 e transformou o futebol de lazer em negócio, tornando-o o esporte mais popular do Planeta. Ele atraiu as grandes marcas (Adidas, Coca-Cola, Visa, Kodak) para o esporte. Na década de 80 foi o dirigente esportivo mais poderoso do Mundo. Sem Havelange seria impensável fazer uma Copa do Mundo de futebol onde não se jogava futebol. Não teriam acontecido as copas dos EUA, Coréia-Japão e África do Sul. Quando saiu da FIFA dedicou-se ao trabalho filantróprico de ajuda as Aldeias internacionais SOS. Continuou atuando nos bastidores e foi um dos principais responsáveis pela escolha do Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada de 2016. Enfim, um currículo invejável. Mas, nas investigações sobre a corrupção na FIFA, foi constatado que na década de 90 ele recebeu suborno para a venda dos contratos de transmissão de campeonatos de futebol. Havelange foi convidado a deixar o Comitê Olímpico e a renunciar a Presidência de Honra da FIFA,  sendo considerado persona non grata. Ele morreu aos 100 anos, no meio da Olimpíada realizada na sua cidade natal. O Estádio Olímpico do Rio de Janeiro (Engenhão) que havia sido batizado com o seu nome, foi rebatizado com o nome de Nilton Santos. Ele morreu cinco dias antes do futebol brasileiro masculino conquistar pela primeira vez uma medalha de ouro numa Olimpíada. Um cenário perfeito para fazer um grande reconhecimento ao atleta Olímpico, ao Decano e a quem promoveu o futebol pelo quatro cantos do Mundo. Mas, não foi isto que aconteceu, a sua morte não foi sequer mencionada no encerramento da Olimpíada. O seu pecado apagou o seu legado.

Dizem que o poder e a glória corrompem. Acredito que hoje estas pessoas são mais corrompidas do que corruptas. Ou seja, o sistema funciona para corromper quem tem poder e fama. O corruptor age como o vendedor de drogas, ele conhece as fraquezas de quem ele quer corromper e o momento certo para atacar. Havelange era um homem de família rica, um atleta e gestor com méritos reconhecidos internacionalmente, não precisaria se corromper. Por que teria feito isto?

As celebridades envolvidas em casos de corrupção, abuso de poder ou atos ilícitos, mesmo depois de pagarem a pena estabelecida pela justiça, raramente retomam as suas atividades com a mesma reputação. Geralmente elas morrem carimbadas pelo pecado que cometeram. Algumas décadas ou séculos depois, alguém irá investigar a vida destas celebridades e recuperá os seus legados. Neste momento os seus pecados não serão mais tão relevantes. Havelange morreu como persona non grata e hoje só se fala do seu pecado, mas talvez no futuro, quando alguém publicar um livro sobre a sua biografia, o legado receba maior destaque do que o seu pecado.

Que lições tiramos de casos como os de Ryan Lochte e João Havelange? Que na nossa cultura, o pecado é mais valorizado do que o legado. Não importa que a pessoa seja um dos melhores atletas de todos os tempos, ou a mais renomada das celebridades, tendo 8 ou 80 anos de excelente reputação, tudo será deletado se ela se envolver num escândalo. O até então herói, será colocado na mesma vala do bandido. É muito difícil e demorado para conseguir reconhecimento e construir uma boa reputação e é muito fácil e rápido para perdê-la!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

21Aug
Coluna Dominical

Rio 2016 – Uma Olimpíada muito diferente do esperado!

– 21 de Agosto de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

A Olimpíada Rio-2016 não aconteceu como era esperado em muitos aspectos. Revisando o que aconteceu desde a candidatura do Rio de Janeiro, vale lembrar que a escolha das cidades sede ocorre em duas fases. Na primeira fase eram sete cidades candidatas e o Rio ficou em quinto lugar. Quatro cidades passaram para a segunda fase e, mesmo não sendo esperado, o Rio de Janeiro passou, juntamente com Madri, Tóquio e Chicago. A decisão final ocorreu em outubro de 2009 na Dinamarca. Lá estava a delegação brasileira com atletas como Cielo e Pelé, personalidades e políticos. João Avelange era membro decano do COI. O Rio de Janeiro, que já havia concorrido em três oportunidades, desta vez foi a vencedora, tendo como principal argumento o fato de nunca ter sido realizado uma Olimpíada na América do Sul e pelo momento econômico positivo que vivia o Brasil. Lula foi destaque na mídia nacional e mundial como grande negociador. O resultado foi comemorado por cem mil pessoas nas areias de Copacabana e grande parte dos brasileiros se encheu de orgulho. (https://www.youtube.com/watch?v=lH0Vjr88T3Q )

Passados 7 anos, muita coisa mudou: A conjuntura político-econômica e a auto-estima do povo brasileiro está totalmente diferente do momento da candidatura; João Avelange, envolvido em escândalos, foi “convidado” a renunciar sua posição no COI e morreu durante a Olimpíada; Lula e Dilma não puderem aparecer na Olimpíada e Temer foi vaiado; Pelé doente, não conseguiu acender a pira Olímpica; Cielo – esperança de medalhas – não entrou nas piscinas. O que não mudou, foi a baía da Guanabara, que continua poluída.

Quanto custou esta Olimpíada? Dizem que foram 39 bilhões de reais: 22 bilhões vieram do setor privado e 17 bilhões do setor público, sendo que do investimento público, 14 bilhões foram para as chamadas “obras de legado” como revitalização do porto, VLT, expansão do metrô (que vai ficar pronto depois das Olimpíadas), BRT Transolímpica, etc. A descrição dos custos da Olimpíada e as fontes são detalhados no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=MmqcUJ5Ig88.

Este valor é compatível com o de outras Olimpíadas? Sim! As Olimpíadas de Londres e de Pequim custaram cerca de 60 bilhões de reais. É verdade que o Brasil já tinha gasto com a construção de estádios para a Copa e com a construção de equipamentos para o PAN 2007. Considerando que o Rio está quebrado, caos na saúde, violência, etc, a pergunta que se faz é: “valeu investir 17 bilhões de dinheiro público?” Estas obras eram realmente necessárias? Na hora da candidatura, pensávamos que sim, hoje, no meio da crise, provavelmente diríamos que não. Mais educativo teria sido, se tivessemos feito como fez a cidade de Cracóvia, na Polônia, onde o governo organizou um referendo oferecendo as seguintes opções e perguntou para a população: O que você considera mais importante para a cidade? Hospedar os Jogos Olímpicos de inverno em 2022? Construir um metrô? Implantar sistema de câmeras para melhorar a segurança pública da cidade? Construir mais ciclovias? As três últimas foram aprovadas. A população disse que não valia o investimento para hospedar os Jogos Olímpicos de inverno. Resultado: a cidade abriu mão da sua candidatura!

Como foram nossos atletas? Não foi como o esperado! No início dos jogos, as equipes masculinas do futebol e vôlei, que eram esperança de medalhas, foram mal. Por outro lado, as equipes femininas do futebol, vôlei de quadra e de praia e handebol largaram bem e se criou grande expectativa de medalhas. Neymar era vaiado e Marta aplaudida. Será que isto influenciou de alguma forma nos resultados finais? Não sei, mas o certo é que as equipes femininas, sem ter a mesma estrutura de apoio das equipes masculinas, consquistaram a torcida e lotaram os estádios.

Atletas militares? Ficamos surpresos ao ver nossos medalhistas baterem continência ao ouvir o hino nacional. Não sabiamos que 145 dos 465 atletas brasileiros (31%) que disputaram esta Olimpíada são “militares temporários”. Antes que alguém diga que foi projeto do Bolsonaro, é bom lembrar que isto foi iniciativa do Lula, que em 2008 criou o Programa de Incorporação de Atletas de Alto Rendimento numa parceria dos Ministérios da Defesa e dos Esportes. Bom para as Forças Armadas brasileiras que passaram de 1 medalha de ouro nos Jogos Militares Mundiais de 1999 e 2003, nenhuma em 2007, para 45 medalhas de ouro em 2011. Bom para os atletas que passaram a ter salário, plano de saúde e instalações para treinar.  http://www.marceloauler.com.br/gracas-a-lula-as-forcas-armadas-se-beneficiam-dos-atletas-militares-termporarios/

Resultados históricos: Além da tão sonhada medalha de ouro no futebol masculino, apareceram boas colocações e medalhas de onde menos se esperava. Três medalhas na Canoagem com o Isaquias. Rafaela (ouro no judô), o ouro e récorde olímpico do “cara da vara” (como é mesmo o nome dele? É o … Thiago Braz! Ter pódio com dois brasileiros na ginástica! (Diego Hipólito e Arthur Nory,  que entrou na repescagem). O bronze de Maicon Andrade no taekwondo foi a mais inesperadas das medalhas. O Brasil, em décimo terceiro, não alcançou a meta de estar entre os dez países com maior número de medalhas, mas ficou entre os dez primeiros colocados em modalidades como ginástica individual, handebol masculino, esgrima, pólo aquático masculino, entre outros.

Nem todo ouro reluz da mesma forma: As sete medalhas de ouro não possuem o mesmo brilho. As medalhas do futebol masculino e do volei de quadra masculino ganharam o maior destaque. Comparada com estas, a medalha do Volei de Praia parece de prata. E as demais, a do Salto com Vara, Box e da Vela, brilham quase como um bronze. Uma evidência disto é a recompensa de 35 mil reais paga aos medalhistas brasileiros, com exceção dos jogadores do ouro no futebol, onde cada um receberá 330 mil reais. Esta é a lógica brasileira: quem recebe os maiores salários e tem mais apoio, receberá 17 vezes mais do que os atletas das demais modalidades.

Na minha Olimpíada, brasileiros(as) ganhariam medalhas nas seguintes modalidades: “Mais belas apresentações”- ouro para as meninas do Nado Sincronizado. Prata para a Ginástica Rítmica com a fita, massas, arco e bola. Bronze para hipismo. Na categoria “Maiores emoções”, daria Ouro para as defesas de pênaltis da Bárbara e do Weverton, no futebol. Prata para o Brasil ao vencer a Espanha no Basquete por apenas “um” (01) ponto feito no último segundo. Bronze para alguns sets emocionantes do Vôlei. E na categoria “Superação”, Ouro para a Rafaela (Judô), Prata para o Isaquias (Canoagem) e Bronze para Bruno (Vôlei de praia), que por três vezes pensou em largar o esporte. Na modalidade “Valeu meninas”, daria ouro para as meninas do vôlei de quadra, Prata para as meninas do futebol e bronze para as meninas do vôlei de praia. Todos momentos de muita dor e lágrimas. Confesso que chego ao final desta Olimpíada cansado de tanto torcer, mas valeu muito a pena. Acredito que a nossa percepção mudou da véspera da abertura (4 de Agosto)  para o final (21 de Agosto) da Olimpíada.

4 de Agosto de 2016 – Véspera da abertura da Olimpíada Rio 2016Se perguntássemos para alguém como será a Olimpíada Rio 2016? A resposta mais provável neste dia seria: “um caos!” Tínhamos quase certeza de que nada iria funcionar, de que teria zika, de que haveriam assaltos, arrastões e um possível ataque terrorista! E o que se viu foram pequenos problemas nos apartamentos da Vila Olímpica antes de começar os jogos, um roubo aqui ou alí e “mico olímpico” da mentira dos nadadores americanos e a falsificação dos ingressos feita por australianos. Faltou espírito olímpico para a torcida em alguns momentos, mas sobrou apoio e carinho em outros. Todos estes são problemas provavelmente menores que os que ocorreram em Londres, Pequim ou Atenas. 

21 de Agosto 2016 – Fim da Olimpíada! Não era esperado que a abertura da Olimpíada do Rio fosse encantar o Mundo. Não era esperado que a organização fosse um sucesso. Não era esperado que os atletas do Mundo todo elogiassem as instalações e se apaixonassem pelo Brasil. Por tudo isto, a Olimpíada Rio 2016 foi muito diferente do esperado!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com