24Jul
Coluna Dominical

A dança da heteronormatividade

– 24 de julho de 2016

Patricia Tometich (*)

Eu sou leitora da coluna de domingo e gosto muito. Nem sempre concordo com os escritos, o que é natural e saudável, mas no último domingo eu me senti incomodada. Na hora, me acalmei, pensei que era melhor não criticar, e me limitei a postar um vídeo com homens no palco, dançando lindamente (sim, e com uma maioria de mulheres na plateia a imitá-los, mas a minha questão não era quanto a preferência de homens ou mulheres pela dança. Era pior). Ao mesmo tempo em que me divertia com as frases e me sentia curiosa com informações desconhecidas (como tango dançado entre homens), eu pensava: que texto heteronormativo! E foi isto que me incomodou, sabe?

Heteronormativo é tudo aquilo o que se diz desconsiderando orientações sexuais que não a hetero. E o teu texto fez isso Felipe! Sei que não foi por mal, sei que o preconceito está gravado na pele de cada um de nós, e justamente por saber que não foi proposital resolvi escrever sobre o que senti.

Quando você descreveu a dança do tango entre homens (sem olhar nos olhos do parceiro) e depois acrescentou que quando passou a ser homem e mulher “se tornou mais sensual” você disse, mesmo que sem intenção, que não há sensualidade numa dança entre homens. Ou que não deveria haver. Não há? Mesmo que não se olhem nos olhos, os movimentos podem ser sensuais, a situação pode ser sensual e, nos dias de hoje (já que teu objetivo era comentar sobre a dança antes e depois) certamente podemos encontrar dois homens dançando tango sensualmente. Ou samba, ou funk, ou dançando de forma solta os electro hits do momento. E não importa se esses homens se relacionam com mulheres, com homens, com ambos. Não importa. A sensualidade existe fora da heterossexualidade, mesmo que a “norma” ainda seja que não existe.

Ah, há também certo machismo quando você escreve que “a moda de dançar separado libertou as mulheres”… Sim, elas não precisam esperar, mas, elas não podem tirar os homens (ou outras mulheres) para dançar? Não podem? Que liberdade é esta? Sim, sei que você fala que as acompanhadas “obrigam” namorados ou maridos a dançar com elas, e isso equivale a tirar para dançar. Mas e se não forem namorados ou maridos? E se forem amigos(as), desconhecidos(as), namoradas ou esposas das mulheres?

E você fecha com classe heteronormativa ao dizer que “as mulheres gostam de homens que dançam”. Sim, grande parte das mulheres gosta. Eu gosto. Mas é fácil a gente se identificar com um texto quando se está na “norma”, não? Eu sou mulher e heterossexual. Mas não sou todo mundo. Tem mulher que gosta de mulher, mas, dessas, não falaste. Tem homem que gosta de homem, mas, desses, não falaste. Ao que parece, pessoas gostam de pessoas que dançam. Entendo que ao escrever fazemos escolhas. Não condeno as tuas. Apenas fiquei pensando sobre o preconceito nosso de cada dia, aquele tão forte que sequer o percebemos, mas que reproduzimos.

Eu quero viver em um mundo em que não seja preciso declarar o sexo ao preencher um cadastro para emprego – tanto faz ser homem ou mulher o que importa é a qualificação para a vaga. Eu quero viver em um mundo em que não seja “anormal” encontrar casais de homens ou de mulheres dançando sensualmente. Eu quero viver em um mundo sem preconceito. E tenho muito a crescer, acredite, eu também tenho preconceitos dos quais devo me livrar, e procuro tomar consciência deles, refletir, repensar. Muito me perguntei se é engraçado quando alguém conta uma piada sexista, machista, feminista, homofóbica, heteronormativa, racista ou zombando de fé ou religião. Não é engraçado. É trágico, é a perpetuação de uma normalidade que não existe, que foi inventada pela nossa espécie humana que, aliás, é uma só – não importa se branco, pardo, negro, índio ou seja lá a classificação que se possa inventar para um bípede mamífero cientificamente batizado “homo sapiens”. Sim, ironicamente, homo, não hetero!

Obs: Agradeço pela leitura e sugestões de Felipe Amaral Borges, que enriqueceram este texto.

(*) Patricia Tometich é Doutoranda no PPGA/EA/UFRGS

Contato: ptometich@gmail.com

17Jul
Coluna Dominical

Elas dançam! Eles não dançam!

– 17 de julho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

O homens não gostam porque não sabem dançar ou por que são mais envergonados? Antigamente, alguns homens diziam que a  dança era uma forma de conquistar as mulheres, enquanto que outros eram da opinião de que “homem que é homem, não dança”. As esposas logo respondiam com “quem não dança, segura a criança”. Nas festas de hoje, observe que sempre tem mais mulheres do que homens na pista. Parece que os homens preferem ficar nas mesas ou em pé ao redor da pista, bebendo e criticando quem está dançando. Afinal, o que mudou nas últimas décadas sobre a relação de homens e mulheres com a dança?

No tempo dos nossos pais e avós, as mulheres aguardavam o convite dos homens para ir para a pista de dança. Não raramente, uma mulher passava todo o baile (noite) sentada e ninguém a “tirava para dançar”. A solução era pedir para um irmão, primo ou amigo que fosse “pé de valsa” que a convidasse para dançar. E, mesmo que a mulher dançasse muito melhor, era o homem quem deveria “conduzir” a dama. Em ambientes informais e festas de família, para superar a falta de vontade dos homens, era comum dançar mulher com mulher, mas nunca homem com homem. Poucos sabem que, no século XIX, quando a população de Buenos Aires era composta por 70% de homens, o tango era dançado entre homens. Tanto no tango como nas danças gregas dançadas entre homens, o par dançava com o rosto virado para não olhar nos olhos do parceiro. Com o tempo, o tango passou a ser dançado por homem e mulher e se tornou mais sensual.

A moda do “dançar separado” libertou as mulheres. Elas não precisaram mais ser “tiradas para dançar”e nem ser “conduzidas pelo homem”. As mulheres que estão acompanhadas por namorados ou maridos, costumam obrigá-los a dançar algumas músicas com elas. Em outras palavras, hoje são as mulheres que “tiram” os homens para dançar.

Existem muitas interpretações sobre a função e o gosto do dançar. Antigamente os psicólogos diziam que a dança era um forma de pré-acasalamento. Os padres alertavam que “música, bebida e dança” formavam a santíssima trindade “da pegação”. Alguns homens namoravam e casavam sem nunca ter dançado uma música com a sua mulher. Parece que o fenômeno se repete no século XXI, pois um DJ me falou que muitos adolescentes vão nas festas e não dançam. Seria por por preconceito, inibição ou algum outro motivo? Hoje se sabe que os que dançam são pessoas mais felizes e se tornam boas companhias em ambientes de dança. A dança ajuda seus praticantes a ter mais segurança, determinação, é um excelente exercício físico e combate a depressão. Se você ainda tem algum tipo de preconceito com o dançar, liberte-se dele e dance, ou “você vai dançar”, pois as mulheres gostam de homens que dançam!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimento@gmail.com 

Obs: Assista o clipe desta crônica em   https://youtu.be/72JPhkmeKJg

O texto aparece na forma de legenda de um clipe que mostra diversos estilos de dança como a valsa, soltinho, forró, tango e a balada. 

11Jul
Coluna Dominical

Biomimética – Temos muito a aprender com a Natureza

– 10 de julho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Acabei de sair de um curso sobre Biomimética e fiquei impressionado com muitas coisas que aprendi. Você sabe o que é Biomimética? Eu explico! Para entender a Biomimética é necessário conhecer a história da vida no Planeta Terra, e nós fizemos isto caminhando.

Estima-se que o Planeta Terra tenha 4,5 bilhões de anos de vida. Estendemos este período de tempo ao longo de uma estrada e fizemos uma caminhada de 4,5 km, sendo que cada metro caminhado equivalia a 1 milhão de anos. Nos primeiros 700 metros, digo, nos primeiros 700 milhões de anos, nada aconteceu. A vida surgiu há 3,8 bilhões de anos, mas a a primeira estrutura unicelular foi surgir há 3,5 bilhões de anos. Caminhamos mais um quilômetro até chegarmos ao surgimento da primeira estrutura pluricelular, há 2,5 bilhões de anos. Depois mais uma longa caminhada quando atravessamos o período Proterozoico, e quando faltavam apenas 450 metros para chegarmos ao destino (dias de hoje), chegamos na era dos peixes (há 450 milhões de anos). Os dinossauros surgiram há 235 milhões e desapareceram há 65 milhões de anos. Caminhamos mais um tanto e, quando estávamos há poucos centímetros do final da caminhada de 4,5 quilômetros, paramos para ver o surgimento do homo-sapiens, há 150 mil anos. Foi necessário pegar um régua de 30 cm para saber quando ocorreu o final da era do gelo (13.000) e o surgimento da agricultura há 10 mil anos. Para descobrir quando ocorreu a revolução industrial, tivemos que recorrer a um paquímetro, pois estávamos observando milímetros. Como sabemos, foi depois da revolução industrial que o homem começou a poluir e causar danos significativos ao Planeta. Tudo isto ocorreu nos milímetros finais de uma distância de 4,5 quilômetros.

Os especialistas dizem que atualmente o Planeta Terra possui 30 milhões de espécies. Estas foram as que sobreviveram as cinco extinções em massa que já ocorreram. Na última extinção, quando caiu um meteoro no golfo do México, foram extintos os dinossauros e mais 75% das espécies da época. Mas a vida cria condições que conduzem a mais vida.  Depois desta extinção houve uma explosão de vida até chegarmos nos dias de hoje. Percebemos que para o Planeta Terra se livrar do homem e outros de milhões de espécies não será o “fim do mundo”, pois a Terra já fez isto cinco vêzes!

Ao longo da história da vida, os organismos foram sendo aprimorados. O homem desenvolveu rapidamente o seu cérebro e ultimamente passou a subestimar as outras espécies, que são mais antigas e também possuem conhecimento. Fiquei impressionado ao saber que a abelha que encontra alimentos, quando volta para a colméia, informa as demais pela forma como ela voa. Pela direção, inclinação e pelas ondas que ela faz no voo, informa para que lado está, a distância e a qualidade do alimento que ela encontrou.

Enquanto na biologia aprendemos “sobre” a natureza, na biomimética aprendemos “com” a natureza. A biomimética tem como elementos essenciais a “ética” – respeito e gratidão às demais espécies; a “re-conexão”com a natureza e o terceiro elemento é a “capacidade de emulação”- de imitar os métodos que as demais espécies utilizam para resolver seus problemas.

O homem utiliza substâncias tóxicas nos processos industriais, e quando se contamina com elas, permanece com estas substâncias para o resto da vida no seu organismo, causando doenças como Alzheimer e Parkinson. Eu nunca havia pensado como que a cobra envenena o rato e depois o devora, sem se envenenar com o seu próprio veneno. Isto ocorre porque o veneno que mata o rato, em poucos segundos se decompõe em substâncias inertes. Ou seja, a cobra é mais esperta do que nós.

Quando vamos construir alguma coisa, tomamos uma quantidade de matéria-prima maior do que precisamos e vamos retirando partes dela. Prova disto é que as ferramentas mais vendidas são furadeiras, serras, lixadeiras, etc. Ao contrário de nós, a natureza não retira material, ela adiciona. O bebê recém nascido não é esculpido de um bloco de carne! Ele nasce pequenino e vai crescendo, vai lhe sendo adicionando mais matéria. O mesmo acontece com os demais seres vivos. Talvez a impressora 3D seja uma das primeiras experiências desenvolvidas pelo homem que vai construir adicionando matéria, como faz a natureza.

Por fim, aprendi que a vida é feita de competições e cooperações, mas que na grande maioria dos casos, prevalence a cooperação. No nosso corpo são 100 trilhões de células e 10 sistemas cooperando para fazer o corpo funcionar.

A flor de lótus é sempre branca e limpa, embora viva no meio do lodo. Como pode? Para “se limpar” dos respingos de lama nas chuvas, ela possui uma superfície lisa que não permite a aderência de água. A água que cai sobre ela, lava suas folhas e é jogada para fora, pois o seu caule flexível faz um movimento para jogar a água para fora das suas folhas. Observando a flor de lótus foi desenvolvida uma tinta que aumenta em 50% a vida útil dos revestimentos. Paredes externas de prédios são lavadas com a água das chuvas.

Enfim, precisamos rever a concepção de que a natureza existe para nos servir. O que não nos parece útil, queremos matar ou destruir. Útil é um conceito humano. Para a natureza, tudo é útil para alguma coisa. A espécie humana é o bebê dos habitantes desta casa. As demais espécies sobreviveram por milhares ou milhões de anos e aprimoraram seus sistemas. Precisamos aprender mais com a natureza para nos tornarmos menos arrogantes.

Obs: Conteúdos discutido no curso ministrado por Ricardo Mastroti sobre Biomimética oferecido pela Web of Life Brasil  no Rincão Gaia entre 8 e 10 julho 2016.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com