15Jan
Coluna Dominical

Não, sem dizer “não”!

– 15 de janeiro de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Você já deve ter dito e recebido alguns “não” na vida, certo? Concordas que é difícil de dizer e muito ruim de ouvir um “não”? Algumas pessoas, mesmo estando decididas a dizer “não”, quando chega a hora, dado a esta dificuldade, acabam dizendo “sim”. Dizer sim quando queria dizer não, resulta em problemas e arrependimentos para quem não teve coragem de dizer o “não” na hora certa. Para amenizar este impacto do “não”, as pessoas estão usando respostas criativas e delicadas de dizer não, sem dizer não. Veja alguns exemplos.

– Quando a resposta que lhe derem conter a palavra “adoraria”, pode saber que “danou-se”! A pessoa em vez dizer um “não”, de forma direta, vai fazer uma frase do tipo: “Olha, eu adoraria aceitar o seu convite, pois você sabe que gosto muito de blá, blá, blá, mas neste dia tenho um compromisso que eu não posso faltar e blá, blá, blá”;

– Se o início da resposta for positiva, espere até o final e reze para não encontrar a conjunção adversativa “mas”, pois ela muda tudo! Se lá no final aparecer um “mas”, então a vaca foi prô brejo: “Gostei muito do seu currículo, você é uma pessoa muito competente, tem experiência, é inteligente, tem ótimas recomendações, blá, blá, blá, “mas”, não tem o perfil que precisamos.

– Algumas respostas das agências financiadoras de projetos (CAPES, CNPq, FAPESP) iniciam assim: “O seu projeto foi aprovado … (neste momento o autor do Projeto vibra com a resposta, e quando continua lendo encontra) … quanto ao mérito, mas não obteve a prioridade necessária (ou seja, seu projeto NÃO FOI APROVADO!!!!! Você não vai receber um tostão para desenvolver a sua pesquisa).

– Uma amiga me contou que seu chefe é muito simpático e fala com todos de maneira educada e sempre sorrindo. Ele é capaz de cobrar com rigor, punir e até mesmo demitir um funcionário, sempre sorrindo. Ela se refere ao sorriso do chefe como “aquele sorriso que me fode!”.

– Menino jantando na casa da vó. Ele não sabia como dizer que não queria mais comer, foi então que soltou esta bela desculpa: “Vó, a comida tá tão boa que eu vou guardar um pouco para amanhã!”

E como dizer “não” para:

– um filho? Os argumentos variam conforme a idade dos filhos, mas é melhor usar uma resposta educativa, do que dizer um “não”: “Filho, você vai ter outras oportunidades, é muito cedo para fazer isto, pense que você tem apenas 10/12/15/18 anos, blá, blá, você me entende!”

– um amigo que nunca paga o dinheiro que pega emprestado? “Pois é, a sua situação tá difícil mesmo, mas tenho certeza que você vai sair desta! Isto vai passar! Se eu pudesse eu te ajudaria, mas o momento tá difícil prá mim também, surgiu um imprevisto blá, blá, blá…”

– um(a) namorado(a) – “Você é uma pessoa maravilhosa! Quem não gostaria de namorar/ficar com você? O problema sou eu! Eu não sirvo prá você! Eu iria te fazer infeliz, por isto melhor acabar agora, apesar do quanto isto é difícil prá mim! Faço isto por você!”

Então, se você não gostou deste texto, use a sua criatividade e me deixe saber disto. Agora, se você é uma pessoa assertiva e gosta de ser direta, pode dizer um “não gostei”, a crítica ajuda o escritor a aprimorar seus textos.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

08Jan
Coluna Dominical

Qual Modelo de Estado que você quer?

– 8 de janeiro de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Muito se discute sobre o papel do Estado (erroneamente chamado de “governo”). Alguns defendem que o Estado se concentre no ensino, educação e na segurança e deixe o restante para a iniciativa privada. Outros acreditam que o Estado deve regular as atividades econômicas. Existem basicamente dois modelos de Estado no mundo ocidental: o americano e o europeu. Qual a referência de modelo de Estado que você quer para o Brasil?

Nos EUA, o Estado oferece segurança e o ensino fundamental, o resto é por conta do cidadão. Educação superior, assistência médica, aposentadoria, férias, tudo isto fica por conta do cidadão. Em alguns estados americanos o trabalhador não tem garantia de férias remuneradas, depende de uma negociação com o patrão. Até mesmo em Manhattan existem pedintes e moradores de rua. Será que uma cidade rica como Nova Iorque não teria condições de dar abrigo aos moradores de rua no inverno? Claro que sim, mas eles continuam nas ruas para mostrar como é a vida dos “losers” (fracassados), para que os demais vejam como é a vida de quem não trabalha. Os pedintes vivem da caridade das pessoas e Igrejas, pois o Estado não cuida deles.

O “modelo europeu”, é usado na maior parte dos países europeus, com algumas variações, onde o Estado oferece saúde, educação, segurança e cuida do cidadão na sua velhice. Um jovem europeu não se preocupa em fazer uma poupança para quando for velho, pois confia que o Estado irá cuidar dele. Para tanto, o cidadão tem que pagar altos impostos, cuidar da sua cidade e da natureza, usar carros pequenos e menos poluidores, etc. Obvio que este sistema também tem problemas e que sempre é questionado pelos partidos de direita, que também olham para os EUA como modelo.

Estamos vivendo no Brasil um período em que estão sendo aprovadas leis que retiram conquistas sociais obtidas ao longo de décadas. Tudo é votado e aprovado muito rapidamente por “representantes” que não defenderam estas questões nas suas campanhas. Ou seja, votamos em alguém pensando que ele iria defender determinadas causas e agora está defendendo o contrário. Mudanças na Constituição e leis que impactam gerações, não podem ser votadas sem uma ampla discussão na sociedade.

A situação é grave e precisamos de medidas urgentes? OK! Claro que precisamos reformar a previdência, controlar melhor os gastos públicos, fazer a reforma tributária, a reforma política, etc, então que façamos isto por meio de uma grande discussão nacional. Por que não propor um processo constituinte que envolva os mais diversos setores e interesses da sociedade? Ao final deste processo seriam eleitos os representantes com o objetivo específico de elaborar a nova Constituição. Neste processo a sociedade poderá debater e votar em qual o modelo de Estado ela quer. Enfim, acredito que existem outras formas de resolver os graves problemas que temos hoje. Estas são as provocações que deixo para sua reflexão.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

31Dec
Coluna Dominical

Vamos nos auto adotarmos em 2017

– 1º de  janeiro de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

O final de ano é um período em que todos nós ficamos mais sensíveis. Enviamos e recebemos mensagens positivas e desejamos Feliz Ano Novo para quem queremos bem. Revisamos o que fizemos no ano anterior e o traçamos planos para o ano seguinte. Dentro deste espírito, revisei as Colunas publicadas sobre este tema nos anos anteriores. Visto que a Coluna começou em outubro de 2013, este é o quarto final de ano da Coluna Dominical.  

– Em 2013, escrevi sobre como o tempo é fatiado nos diversos calendários que existem. O calendário Gregoriano, que utilizamos hoje, me parece o mais confuso, por mim nós utilizaríamos o calendário lunar, que divide o ano em 13 meses de 28 dias e ainda sobre um dia – que era chamado do dia fora do tempo, usado para o ócio. Já imaginaram, um dia que não existe? (Leia em http://www.luisfelipenascimento.net/ano-novo-lentilha-e-roupa-branca/ )

– Em 2014, escrevi sobre os meus desejos que foram atendidos e fiz a lista dos votos para 2015, mas acho que não fui muito preciso nos pedidos. Quando pedi para o Brasil ser campeão mundial usando sua habilidade com os pés, estava me referindo a ser campeão de futebol, na Copa 2014. Deus não entendeu bem e nos deu o título de campeão mundial no Surf, com o Gabriel Medina. Mas tudo bem, nem reclamei! (Leia em http://www.luisfelipenascimento.net/desejos-para-2015/)

– Em 2015, mostrei o ciclo das crises e as muitas coisas boas que aconteceram durante o ano e que não foram destacadas, pois a mídia (e o povo) gosta mais das notícias ruins do que das boas. (Leia em http://www.luisfelipenascimento.net/tudo-isto-aconteceu-em-2015/ )

– E agora, neste final de ano de 2016, que segundo alguns analistas foi um dos piores anos dos últimos tempos, busquei os aprendizados que o 2016 nos deixa para a vida. Sem dúvidas que a nossa participação como cidadão, seja pelo voto ou nas mobilizações nas ruas, foi importante e será fundamental para mudar o panorama de 2017. Mas, para suportar as pressões e a carga de frustrações, é preciso fortalecer o nosso interior e as nossas relações com os demais. Selecionei quatro mensagens que nos ajudam neste sentido:

  1. O PDCA da vida: (P) Planeje – defina aquelas pessoas que lhe fazem bem. Avalie o que elas lhe fizeram ao longo deste ano. Por que elas são especiais para você? Defina o que irá fazer para retribuir o que recebeu. (D) Execute (Do, em inglês) – Não perca tempo, faça isto já! (C ) Verifique (Check, em inglês) – Perceba os sorrisos e as retribuições que você receberá ao mostrar que se importa com as pessoas. (A) Agir – repita isto todos os dias, e não apenas no final do ano. – Se somos solidários nas tragédias. Se somos sensíveis nas festas do final de ano. Por que não podemos ser assim ao longo de todo o ano?

  2. O que diz um amigo, instrutor de Karate, para os seus alunos: “Quando você pisar no tatame, esteja preparado para vencer e para perder. Faça o seu melhor. Quem está na sua frente não é seu inimigo, é seu adversário e ele também se preparou para esta luta, então respeite-o. Não reclame do juiz, ele pode errar, assim como você. Se vencer a luta, cumprimente o seu adversário, pois ele valorizou a sua vitória. Depois disto, volte a treinar, pois a próxima luta pode ser ainda mais difícil. Agora, se perder a luta, cumprimente o seu adversário, porque ele foi melhor do que você. Saia do tatame e assim que puder, volte a treinar, para que você melhore e possa vencer a próxima luta. O propósito do Karateca é o aprimoramento pessoal. Não aprimoramos para lutar, mas lutamos para aprimorar”. – Trazendo esta filosofia para fora do tatame, poderíamos dizer que não importa se o ano que se encerra foi bom ou ruim para cada um de nós, mas o importante é identificar o quanto aprendemos com tudo o que aconteceu, com as tragédias, com as nossas vitórias e derrotas. Como foi o nosso aprimoramento pessoal ao longo deste ano?

  3. A organização dos lobos é belo exemplo para os humanos. Quando os lobos fazem uma travessia, os mais velhos e os doentes vão bem na frente, são os que marcam o ritmo do grupo. Logo atrás deles vem os mais fortes, que estão alí para os defenderem em casos de um ataque inimigo. Logo atrás dos mais fortes, vem o restante do grupo. Atrás deles, outro grupo de fortes para proteger a retaguarda. Por último, vem o líder da alcateia, que mantém o espírito do grupo e não deixa ninguém ficar para trás. Os lobos sabem que o importante não é chegar em primeiro lugar, mas chegarem todos juntos ao destino. – Nas nossas organizações sociais, valorizamos quem chega em primeiro lugar, e o líder é o que está na frente. Temos muito a aprender com os lobos!

  4. Segundo Ricardo Magalhães – ser positivo em uma situação negativa, não é ingenuidade, é liderança. – Portanto, se você consegue ver coisas boas nesta realidade, não se considere ingênuo, difunda o seu ponto de vista.

Por fim, cabe destacar que fortalecer o nosso interior e as nossas relações de amizade não são atos  de egoísmo ou de alienação ao mundo exterior. Ao contrário, é cuidando bem de nós que poderemos cuidar melhor dos outros. Augusto Cury diz que hoje somos uma sociedade de auto abandonados. Como a virada de ano é um período de esperança, eu espero que em 2017 possamos nos “auto adotarmos”.  Querido leitor, cuide bem de você em 2017.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com