30Oct
Coluna Dominical

Morrer como um Papa!

– 30 de outubro 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Nesta semana faleceu com 97 anos a nossa Dinda, uma pessoa com quem convivemos 52 anos. Ela veio para ajudar a minha mãe a cuidar das crianças e se tornou uma pessoa da família, ou seja, ela escolheu fazer parte da nossa família. Até poucas semanas antes da sua morte, a Dinda fazia crochê  e diariamente lia o jornal e a bíblia. Gostava das novelas e era uma colorada fanática. Nos jogos do Inter, sentava na frente da TV e tomava um copo de vinho para acalmar os nervos. Quando a visão foi ficando mais fraca, perguntava: “para que lado temos que fazer gol?” Não tinha nenhuma doença e nem sentia dores, mas as forças foram acabando. Sabíamos que estava chegando o seu fim. Na última semana não respondia mais aos estímulos externos e era cuidada e alimentada com carinho. Morreu em casa, no seu quarto, sem sentir dor, sem o uso de tubos e aparelhos, rodeada pelas pessoas com quem sempre conviveu.

Lembra de onde e como morreram os últimos Papas? A maioria morreu com mais de 80 anos, no próprio Vaticano. Não se tem notícia de Papa que morreu em hospital. Não se tem relatos de um Papa sobreviver ligado a aparelhos. Mesmo quando velhos e doentes, os Papas permanecem na sua casa e são cuidados pelos seus amigos. No caso de Bento XVI, que deixou de ser Papa em vida, hoje vive num mosteiro cuidado por pessoas que gostam dele, e provavelmente não irá morrer conectado em aparelhos para ganhar mais alguns dias ou meses de vida. Portanto, creio que a nossa Dinda teve uma morte de Papa: em casa, bem cuidada e rodeada por quem gostava dela.

Na cultura ocidental cristã, o falecimento de uma pessoa querida costuma ser um momento de grande tristeza. Me parece que as pessoas ficam mais tristes e choram mais facilmente na hora de se despedir do corpo do que na hora em que recebem a notícia do falecimento. Sabemos que a alma não está mais alí, mas é o simbolismo da despedida que dói mais. Por isto é que acho mais adequado o ritual utilizado nos Estados Unidos e em outros países, em que a despedida do corpo é um feita com falas dos amigos e familiares relembrando as coisas boas da vida daquela pessoa e o que ela significou para a vida dos demais. Nada comparado com o discurso dos nossos religiosos nos velórios, que falam muito para onde vai a alma e quase nada sobre a vida da terra. Usam um discurso padrão do “pai exemplar, bom chefe de família,…”. E quando acaba o enterro ou a cremação, as pessoas se despedem chorando e vão para suas casas. Em países como os EUA, as pessoas usam as suas melhores roupas para ir no enterro e depois costumam reunir a família e amigos para comer e conversar. Trata-se de um reencontro em que o foco são as lembranças e os feitos de quem morreu.

Dizem que o desejável é “vida longa e morte súbita”, mas geralmente não podemos fazer estas escolhas. A morte, que deveria ser um processo natural, o fim de um ciclo, tem sido antecipada em função da violência, tragédias e de doenças prematuras, causando uma dor ainda maior. Portanto, diria que o desejável é poder morrer idoso, assistido e chegar ao fim sem sofrimento para o idoso e nem para quem cuida dele. Quanto ao ritual de despedida, nem todas pessoas costumam definir como isto deve ocorrer. A Dinda escolheu o vestido e o local onde gostaria de ser enterrada. Como a gente não sabe a hora, é melhor divulgar logo nossos desejos. Adianto que quando chegar a minha vez, gostaria de doar todos os órgãos que for possível e depois ser cremado. Que as cinzas sejam espalhadas no bairro onde eu vivo e que tanto gosto. Quanto ao ritual, gostaria de algo semelhante ao dos Americanos, onde se saliente as lembranças e os bons momentos que compartilhei com as pessoas que estiverem presentes. Em vez de comunicar o luto, divulguem um meme engraçado ou coisa parecida.  A morte deixa saudades, mas a gente só sente saudade de coisas boas e de pessoas que foram importantes para a gente. O que podemos fazer hoje, e não amanhã, é buscar ser o mais feliz possível e fazer os outros tão felizes quanto nós. Estas serão as lembranças que ficarão. E quanto a tudo o que acumulamos, em pouco tempo tudo vai virar pó.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

23Oct
Coluna Dominical

Quando a coisa tá ruim, surge outra melhor!

– 23 de outubro de 2016

Luis Felipe Nascimento(*)

Desde os primórdios da sua existência, o homem vive em bandos e nos bandos sempre houve divisão de tarefas. O chefe era aquele que conseguia liderar o grupo contra os inimigos, para tanto, deveria ser o mais forte, o mais inteligente, o mais carismático ou algum outro critério que inspirasse confiança nos seus liderados. Não dá para imaginar um grupo primitivo escolhendo o líder entre o “pior e o menos pior” dos candidatos, certo?

Ao longo da história, passamos por diversas formas de organização social e, sempre que a “coisa ficava muito ruim”, surgia uma nova forma de organização. Por exemplo, o homem era nômade e vivia do que ele colhia e caçava. Em função das mudanças climáticas surgiram enormes desertos e não tinha mais o que colher e caçar nestas regiões. O homem ficou reclamando e insistindo em ser nômade? Não! Procurou os vales dos rios, aprendeu a cultivar e estabeleceu “residência fixa”. Quando vieram os períodos de repressão, escravidão e outras formas de poder que desagradavam a maioria, o homem soube encontrar formas para acabar com elas e construir algo melhor.

Agora, imagine uma sociedade em que a maioria dos usuários estão descontentes com os serviços de saúde e educação que recebem. Em que os cidadãos se sentem inseguros para andar nas ruas e as vêzes são mortos por engano. Uma sociedade em que, apesar de pagar altos impostos, as cidades e os estados estão falidos. E para completar, no momento de eleger seus representantes, na expectativa de melhorar esta situação, aparecerem muitos candidatos, mas os melhores são eliminados e a opção final é entre o “pior e o menos pior”. Por quanto tempo você acredita que este modelo de organização sobreviveria?

Seria exagero dizer que estamos vivendo este momento, ou próximo disto? Os Estados Unidos nunca tiveram candidatos tão impopulares numa eleição como Hillary e Trump. Existiam candidatos melhores dentro dos dois partidos, mas eles tomaram cuidado para escolher os mais impopulares. Restou aos eleitores a opção entre “pior e o menos pior”. Em algumas eleições brasileiras tem acontecido algo semelhante, coisa que o homem primitivo seria incapaz de fazer. Parece que os partidos políticos se tornaram autofágicos, estão fazendo de tudo para se destruirem.

Temos nos resignados diante das opções que nos oferecem, pois acreditamos que, se não for assim, com este modelo de democracia, só nos resta a ditadura. Nas eleições, geralmente temos 30% que apoiam o candidato A, outros 30% que apoiam o candidato B e 40% de indecisos e desinteressados, que são os que decidem. Na prática, a proposta vencedora atende o interesse de 30% dos eleitores! Será que tem que ser assim? Por que não pode surgir formas mais democráticas de escolher os representantes?

O que vai acontecer nos próximos anos? Me arrisco a pensar que vai ser muito diferente, pois existem uma conjunção de fatores que vão gerar uma mudança estrutural. Temos uma crise de credibilidade dos partidos, ineficiência no cumprimento das funções do estado, aumento da criminalidade, etc. Por outro lado, existe inteligência, tecnologias inovadoras de gestão, interesse de muitas pessoas e criar algo novo e a chegada de uma geração que não espera pelo estado para empreender. Eles discutem os problemas por meio de fóruns e grupos de discussão na internet e mobilizam milhares de pessoas de um dia para outro. Esta garotada que está chegando ao mercado de trabalho não tem paciência para esperar quatro anos de um governo ineficiênte para talvez eleger outro melhor.  

Você concorda que os problemas do seu bairro poderiam ser resolvidos usando os recursos e a mobilização das pessoas do próprio bairro? Que os problemas das cidades poderiam ser resolvidos pelas próprias cidades? Se esgotou este modelo de recolher todos os impostos e mandar para Brasilia para depois mendigar os recursos de volta. Uma gestão descentralizada e participativa encontrará soluções inovadoras. Como fazer? Vejam o que está sendo praticado em algumas organizações sociais e de pequenos empreendimentos. Tenho acompanhado o trabalho de empreendedorismo social e criação de novos negócios em Porto Alegre e fiquei impressionado com tudo o que foi feito em apenas um ano, sem participação do poder público ou de grandes empresas. Por isto tudo é acredito que a coisa vai melhorar.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

15Oct
Coluna Dominical

A voz sem dono