30Jul
Coluna Dominical

O dono ideal para um cão

-31 de julho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

– Olá, o que andas fazendo sozinho por aqui, cadê o teu dono?

-Fugi! Deixaram o portão aberto e resolvi dar uma circulada. Você que é um SRD bem relacionado, que circula por toda a cidade, o que tem de novo para contar?

– SRD?

 -SRD é a sigla de “Sem Raça Definida”. Não gosto de chamar os colegas de Vira-lata!

– Falando em raças, me contaram que a Federação Internacional de Cinologia reconhece mais de 350 raças de cães. Dizem que os humanos continuam brincando de Deus e criando novas raças.

– Eu desconfio que as novas raças são para atender as necessidades dos humanos.

– Claro que sim! O Terrier foi desenvolvido para caçar roedores. O Husky Siberiano para puxar trenós. O problema é que muitas destas manipulações nos deixaram menos resistentes. Sabias que os Collies tem predisposição para ficarem cegos e que os Dálmatas para ficarem surdos?

– Já pensou se pudessemos fazer cruzamentos para produzir o dono mais adequado para as nossas necessidades?

– Au! Au! Au! (riso de cachorro) Você e a sua mente fértil! Eu nem tenho dono, como vou imaginar o “dono ideal”?

– Para mim, o dono ideal seria aquele que tratasse bem o seu cão, dando comida, proteção, carinho, mas que também respeitasse as nossas características de cão. A gente precisa interagir com outros cães, correr, farejar novos cheiros… Eu me sinto um cachorro alienado do mundo canino!

– Veja só, eu sempre sonhei em ser adotado, ter proteção e não passar fome. Você que tem comida e canil lavado, reclama do dono!

– A vida de cão com dono não é a maravilha que você imagina. Como você acha que ganhamos a fama de ser “o melhor amigo do homem”? Tem muito cão por aí se vendendo! Eles abriram mão da sua identidade e viraram brinquedinho de madame!

– É verdade, um dia destes vi a Lulu entrando num shopping com tope na cabeça e vestido de menina. E o pior, a dona levava ela num carrinho de bebê.

– Viu como eu tenho razão! Os humanos nos domesticaram e agora estão roubando a nossa identidade. Eles não conseguem ter amigos fiéis, então estão suprindo as suas carências nos tratando como humanos.

– Tá bom! Vamos lançar a campanha para fazer uma seleção genética de humanos. Já é hora do “homem se tornar o melhor amigo do cão”.   

– Eu vou plagiar os Titãs e cantar “a gente não quer só comida, a gente quer diversão e andar por toda parte. A gente não quer só andar na guia, a gente quer liberdade e alegria, …”

– Xííí… Lá vem o cara da carrocinha para nos prender. Se eu fosse você, parava com a cantoria e corria!

            – Eu tenho coleira com nome e endereço. Não podem me prender!

– Amigo, a vida nas ruas tem suas próprias leis. Enquanto não surge o “dono ideal”, fuja do “humano real” ou você vai virar sabão!

– Tchau amigo! Nesta conversa rápida aprendi mais contigo do que em todo o tempo com aquele adestrador truculento!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

24Jul
Coluna Dominical

Não ria das superstições e crendices alheias!

– 24 de julho de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Lúcia Rejane da Rosa Gama Madruga (**)

Comer “manga com leite”? Deus nos livre! Nossos pais acreditavam que isto levava a morte! Deixar os “chinelos virados”? De jeito nenhum! Nós acreditávamos que isto provocaria a morte dos nossos pais. Estas e outras crendices e superstições foram trazidas pelos portugueses, imigrantes e escravos e juntaram-se as crendices dos índios, tornando o brasileiro um dos povos ocidentais que mais acredita no “não-presta” e no “faz-mal”. Algumas das superstições e crendices são antigas e pouco conhecidas das novas gerações. Outras estão presentes no nosso dia-a-dia e quase não nos damos conta. Veja por exemplo:

Ligadas a relacionamentos (namoro, noivado e casamento):

  • A jovem que pega o buquê da noiva será a próxima a casar;

  • Quando a fumaça do cigarro forma um círculo é por que a pessoa amada está pensando na outra;

  • Dar perfume para o namorado – consequência: termina o namoro quando terminar o perfume.

Ligadas a menstruação, gravidez e ao nascimento do bebê:

  • Mulher menstruada não pode fazer bolo, maionese ou qualquer coisa com ovos porque “desanda” (não fica bom);

  • Mulher menstruada que lavar a cabeça fica louca;

  • Quando a grávida tem desejo e não é atendida, a criança nasce de boca aberta ou fica “babão”, e quem não atende o desejo fica com terçol;

  • Para passar o soluço do nenê, deve-se colocar na testa do mesmo um fiapo de lã, de preferência vermelho; colar com a saliva da mãe;

  • Criança que ri dormindo está sonhando com os anjinhos.

Ligadas à saúde e ingestão de alimentos:

  • Sentar na pedra quente causa hemorroidas;

  • Comer melancia quente do sol provoca um “revertério” (mal estar estomacal);

  • Comer uva ou melancia com leite provoca “congestão”! (indigestão estomacal aguda)

Ligadas à morte:

  • Caminhar de costas provoca a morte da mãe;

  • Deixar o pão de “barriga” para cima causa a morte o dono da casa.

Ligadas à sorte ou azar:

  • Comer frutas com grãos no Ano Novo (uva, romã, etc) traz sorte e fortuna durante o ano todo que está começando;

  • Derramar açúcar traz sorte;

  • Espelho quebrado dá sete anos seguidos de azar;

  • Azar certo é passar por baixo de uma escada;

  • Um gato preto cruzar na sua frente vail lhe dar azar;

  • Negócios e decisões importantes na Sexta-feira 13, nem pensar, vai dar errado!

Ligadas a amizades e visitas:

  • Dar faca de presente para um amigo – consequência: termina a amizade;

  • Colocar a vassoura atrás da porta – consequência: chega visita indejada;

  • Colocar a vassoura virada atrás da porta faz a visita ir embora.

Ligadas à lua e as estrelas

  • Cortar o cabelo na lua nova faz o cabelo crescer rapidamente;

  • Pendurar as fraldas do recém-nascido no varal à luz do luar provoca cólicas;

  • Apontar para as estrelas faz nascer verrugas nos dedos da mão.

Ligadas aos animais:                                                      

  • Cortar a cola de cavalo com tesoura – consequência: cavalo fica peidorreiro;

  • Enfrenar cavalo na lua nova – consequência: cavalo fica babãoc

  • Agosto é o mês do cachorro louco. Consequência: Cortar a pontinha da orelha dos cachorros para eles não enlouquecerem;

  • Matar corvo – consequência: enferruja o cano da arma.

Existem diferenças entre superstições e crendices. Acreditar que gato preto dá azar é superstição, já o comer manga com leite e tudo que está relacionado com o “não-presta”, são crendices. As crendices quase sempre possuem um objetivo não revelado. No caso de “comer manga com leite”, o objetivo era provocar o medo nos escravos para que eles não comessem mangas após a última refeição do dia, que era com leite.

As superstições resultam de um medo ou ansiedade. O técnico de futebol que usa sempre a mesma camisa durante os jogos; a pessoa que usa a mesma caneta para fazer as provas; a outra que usa uma medalhinha de algum santo como proteção, são exemplos de autossugestões que funcionam muito bem. O medo da sexta-feira 13 pode fazer coisas ruins acontecerem neste dia.

As superstições e crendices podem parecer algo atrasado, coisas de ignorantes, mas mesmo nos dias de hoje, pessoas inteligentes e bem informadas, tomam importantes decisões com base em superstições e crendices. Governantes, bolsa de valores e empresários temem a sexta-feira 13. Qual a explicação para os prédios americanos não terem o décimo-terceiro andar? Não dá para criticar quem acredita que a menstruação faça desandar a maionese, se quem critica come grãos de uva na virada do ano para ter sorte, corre para pegar o buquê na noiva, etc. É melhor não rir das superstições e crendices alheias!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS. Contato: nascimentolf@gmail.com

(**) Lúcia Rejane da Rosa Gama Madruga é Profesora no Faculdade de Administração da UFSM. Contato: luciagm@ufsm.br

 

24Jul
Coluna Dominical

A dança da heteronormatividade

– 24 de julho de 2016

Patricia Tometich (*)

Eu sou leitora da coluna de domingo e gosto muito. Nem sempre concordo com os escritos, o que é natural e saudável, mas no último domingo eu me senti incomodada. Na hora, me acalmei, pensei que era melhor não criticar, e me limitei a postar um vídeo com homens no palco, dançando lindamente (sim, e com uma maioria de mulheres na plateia a imitá-los, mas a minha questão não era quanto a preferência de homens ou mulheres pela dança. Era pior). Ao mesmo tempo em que me divertia com as frases e me sentia curiosa com informações desconhecidas (como tango dançado entre homens), eu pensava: que texto heteronormativo! E foi isto que me incomodou, sabe?

Heteronormativo é tudo aquilo o que se diz desconsiderando orientações sexuais que não a hetero. E o teu texto fez isso Felipe! Sei que não foi por mal, sei que o preconceito está gravado na pele de cada um de nós, e justamente por saber que não foi proposital resolvi escrever sobre o que senti.

Quando você descreveu a dança do tango entre homens (sem olhar nos olhos do parceiro) e depois acrescentou que quando passou a ser homem e mulher “se tornou mais sensual” você disse, mesmo que sem intenção, que não há sensualidade numa dança entre homens. Ou que não deveria haver. Não há? Mesmo que não se olhem nos olhos, os movimentos podem ser sensuais, a situação pode ser sensual e, nos dias de hoje (já que teu objetivo era comentar sobre a dança antes e depois) certamente podemos encontrar dois homens dançando tango sensualmente. Ou samba, ou funk, ou dançando de forma solta os electro hits do momento. E não importa se esses homens se relacionam com mulheres, com homens, com ambos. Não importa. A sensualidade existe fora da heterossexualidade, mesmo que a “norma” ainda seja que não existe.

Ah, há também certo machismo quando você escreve que “a moda de dançar separado libertou as mulheres”… Sim, elas não precisam esperar, mas, elas não podem tirar os homens (ou outras mulheres) para dançar? Não podem? Que liberdade é esta? Sim, sei que você fala que as acompanhadas “obrigam” namorados ou maridos a dançar com elas, e isso equivale a tirar para dançar. Mas e se não forem namorados ou maridos? E se forem amigos(as), desconhecidos(as), namoradas ou esposas das mulheres?

E você fecha com classe heteronormativa ao dizer que “as mulheres gostam de homens que dançam”. Sim, grande parte das mulheres gosta. Eu gosto. Mas é fácil a gente se identificar com um texto quando se está na “norma”, não? Eu sou mulher e heterossexual. Mas não sou todo mundo. Tem mulher que gosta de mulher, mas, dessas, não falaste. Tem homem que gosta de homem, mas, desses, não falaste. Ao que parece, pessoas gostam de pessoas que dançam. Entendo que ao escrever fazemos escolhas. Não condeno as tuas. Apenas fiquei pensando sobre o preconceito nosso de cada dia, aquele tão forte que sequer o percebemos, mas que reproduzimos.

Eu quero viver em um mundo em que não seja preciso declarar o sexo ao preencher um cadastro para emprego – tanto faz ser homem ou mulher o que importa é a qualificação para a vaga. Eu quero viver em um mundo em que não seja “anormal” encontrar casais de homens ou de mulheres dançando sensualmente. Eu quero viver em um mundo sem preconceito. E tenho muito a crescer, acredite, eu também tenho preconceitos dos quais devo me livrar, e procuro tomar consciência deles, refletir, repensar. Muito me perguntei se é engraçado quando alguém conta uma piada sexista, machista, feminista, homofóbica, heteronormativa, racista ou zombando de fé ou religião. Não é engraçado. É trágico, é a perpetuação de uma normalidade que não existe, que foi inventada pela nossa espécie humana que, aliás, é uma só – não importa se branco, pardo, negro, índio ou seja lá a classificação que se possa inventar para um bípede mamífero cientificamente batizado “homo sapiens”. Sim, ironicamente, homo, não hetero!

Obs: Agradeço pela leitura e sugestões de Felipe Amaral Borges, que enriqueceram este texto.

(*) Patricia Tometich é Doutoranda no PPGA/EA/UFRGS

Contato: ptometich@gmail.com