18Mar
Coluna Dominical

Idealização

– 18 de março de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Christiane Ganzo (**)

Quando crianças imaginávamos mundos perfeitos e maravilhosos. Algumas vezes éramos pequenos super-heróis e, em outras, já crescidos e de muito sucesso. Nos tornamos “grandes” e continuamos vivendo a realidade, mas ainda “idealizando” tanto a pessoa que gostaríamos de ser como os outros, especialmente os que convivem conosco. Seria coisa de doido, de gente maluca? Nada disto! Idealizar é bem mais comum do que se pode imaginar e tem sido uma das causas dos conflitos nos relacionamentos e, também, de sofrimento.

Idealização é diferente de sonho ou de metas e objetivos. Sonhos são visualizações de objetivos a serem alcançados e para que sejam realizados, é necessário um planejamento detalhado. Já a idealização não conta um plano de ação possível e realizável e nem de ferramentas que mensurem o quanto falta para atingir o que foi idealizado. Na prática, é um cenário quase impossível de ser realizado.

Mas, ao longo da vida, desenvolvemos capacidades para transformar o ambiente e a nós mesmos. Vamos tendo êxito, ganhando confiança e logo passamos a ter a sensação de que podemos alcançar tudo, basta nos dedicarmos com afinco. Por outro lado, quanto maiores forem as conquistas, maior será a nossa autoconfiança e a nossa arrogância. Poderíamos afirmar que a arrogância, a onipotência e a grandiosidade são os pilares da idealização. Queremos ser felizes neste mundo que criamos, embora algumas vezes tenhamos que assumir personagens e encenar o que não sentimos para sermos aceitos em determinados grupos. No livro Curação, as autoras chamam isto de “tirania da felicidade sonhada”.

A idealização não se restringe ao ambiente das nossas relações. No esporte, adoramos os craques, no mundo artístico, somos fãs dos astros, no mundo acadêmico, admiramos a sabedoria dos mestres que são as nossas referências e no mundo do trabalho, nos impressionamos com a capacidade de um gestor. Todas estas pessoas fantásticas, possuem seus méritos, mas também possuem imperfeições como nós! Se pudessem, talvez desejassem assumir a nossa vida, pois a delas é muito exigente.

Se somos imperfeitos como as pessoas que admiramos, por que idealizamos uma outra vida? Porque é mais fácil idealizar do que viver no mundo que depende de nossa responsabilidade para criar cada passo seguinte. Seria mais fácil idealizar que ganhamos na loteria, que nos tornamos um craque, um astro, uma referência mundial e, como isso, imaginar que nossos problemas vão se resolver ou viver um plano menos ambicioso, acreditar que o próximo ano será melhor, que na aposentadoria será melhor, que depois que acabar de quitar algum bem, tudo vai melhorar?

Idealização vem de “Ideal”, que significa “perfeito”, “maravilhoso”, “impecável”. Como o mundo em que vivemos não é feito só de perfeições e maravilhas, é importante entendermos que coisas boas e ruins vão continuar acontecendo. Aceitar que não somos o que gostaríamos de ser, que o outro não é como gostaríamos que fosse, que o mundo lá fora não é como desejaríamos que fosse, mas que isso não significa que não podemos fazer algo para melhorar. Pelo contrário! A possibilidade real de mudança existe e se basearmos nossas atitudes na realidade da nossa potência criativa, estaremos construindo os alicerces de uma grande transformação. Portanto, desconstruir constantemente esse processo inconsciente de idealização é buscar um ponto de equilíbrio entre o aceitar desafios e o reconhecer o que está além das nossas possibilidades. A melhor notícia é que esta atitude só depende de nós…

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

(**) Christiane Ganzo é Psicoterapeuta no Espaço Bororó e no Bororó Educação.

Contato: christianeganzo@gmail.com    

(***) Curação – A arte de bem cuidar-se. Denise Aerts e Christiane Ganzo. Bororó25 Editora.

18Mar
Coluna Dominical

A Roleta de Schopenhauer

18 de março 2018

Lisiane Mota (*)

A maneira como se estabelecem e se mantém as relações humanas é muito peculiar e, se considerarmos as mágoas que via de regra resultam na popular “DR”, fica claro que mente humana é um terreno complicado que merece atenção especial. Gregário, se por um lado o ser humano necessita de contato com seus semelhantes, por outro trava um embate íntimo com sua busca pela individualidade. Ser um indivíduo e fazer parte de um grupo não é tarefa fácil. O dilema entre a necessidade de calor humano e a monotonia da solidão é ilustrado pela Teoria dos Porcos-espinho de Schopenhauer, na qual a distância confortável que os homens finalmente descobrem é a condição necessária para que se tenha convivência em níveis agradavelmente satisfatórios e distância suficiente para evitar a solidão e a depressão. A parábola dos porcos não possui conexão unicamente com as relações amorosas e pode ser aplicada igualmente nas relações de vizinhança, amizades e mesmo nas relações profissionais e escolares.

A dinâmica das relações pessoais se estabelece no exercício diário do conforto social e emocional quando a construção da interação se define pelas necessidades e objetivos, que podem possuir pontos em comum ou não. Ter objetivos, afinidades de gostos e interesses e mesmo necessidades parecidas pode tornar mais fácil o início da relação, contribui para gerar a empatia essencial para que a conexão se estabeleça com mais rapidez e o vínculo seja facilitado, porém nada disso fará com que os espinhos deixem de incomodar. Gostar de alguém não faz com que se desativem todas as nossas particularidades e a necessidade de individuação e de espaço nos obrigam a buscar relações mais equilibradas tornando inevitáveis os questionamentos.

Como em um jogo de apostas, a cada dia despertamos e, em uma rápida avaliação de nossas relações, decidimos se seguiremos colocando fichas naquela relação ou não. Uma discussão por largar a chave da casa fora do lugar, um telefonema não dado, ciúme, educação dos filhos, apertar a pasta de dentes no meio do tubo, esquecer do café marcado com a amiga, a conta esquecida na caixa do correio, o lençol puxado durante a noite ou o ar condicionado muito quente (ou muito frio), um sem número de fatores diários que fazem papel de fiel da balança diária que vão espinhando e desafiando nossas convicções se seguiremos colocando nossas fichas nessa relação, se o jogo segue e, especialmente, se usaremos as fichas de cinco ou as fichas de quinhentos. Se quando instalada a paixão temos a fase das grandes pilhas com fichas de quinhentos, passado algum tempo o calor humano parece ficar excessivo e os espinhos começam a perturbar a relação, dando início a avaliação diária que faz parte da roleta de Schopenhauer, e as fichas de cinco começam a entrar em uso.

Essencial é entender que de maneira nenhuma os dias com fichas de cinco tiram a validade dos dias com fichas de quinhentos. O quanto se investe ou aposta em uma relação até pode revelar o quanto queremos continuar nela ou não, mas sem sombra de dúvida nos mostra também o quanto de nós estamos dedicando ao outro e o quanto estamos investindo em nós mesmos. Colocar fichas de cinco na relação traz à luz o quanto estamos usando as fichas de quinhentos em nós mesmos, e às vezes é fundamental para a relação que as fichas de quinhentos sejam usadas em nós mesmos, e não na relação em si ou no outro.

A “roleta de Schopenhauer” é a conscientização de que necessitamos tanto de nossas relações quanto necessitamos de nós mesmos e precisamos permanente e continuamente avalia-las e colocar as fichas, graúdas ou miúdas, onde a carência se revelar. A distância confortável a fim de evitar se ferir possui um vínculo muito íntimo com estar atento a nós mesmos e às nossas relações, e investir nelas como investiríamos (ou deveríamos investir) em nós mesmos. Somos todos merecedores tanto das fichas de quinhentos quanto das de cinco.

 (*) Lisiane Mota é representante comercial e mediadora judicial.

Contato: lisianeb@terra.com.br

10Mar
Coluna Dominical

A Contabilidade dos Sentimentos

– 11 de março de 2018

Luis Felipe Nascimento (*) 

Nossos pais nos ensinaram as palavrinhas mágicas: “por favor” e “muito obrigado” para as diversas situações do nosso cotidiano. Mais tarde, quando adultos, incorporamos estas palavras ao nosso vocabulário e as usamos quase que automaticamente. Toda vez que alguém segura uma porta para nós ou demonstra algum tipo de gentileza, dizemos “muito obrigado”. Quando vamos pedir alguma coisa a alguém, começamos a frase com um “por favor”. E para denominar a pessoa que usa estas palavras, dizemos que ela é “bem-educada”.  

Sem dúvida que agir educadamente, é importante na relação com outras pessoas, mas isto pode ser mais um hábito incorporado às nossas ações do que realmente a expressão de um sentimento, já que as emitimos automaticamente diante dessa ou daquela situação. Podemos agradecer sem estar realmente agradecidos ou pedir o favor, embora a gente pense que a pessoa não estaria fazendo mais do que a obrigação dela. Quando pedimos gentilmente alguma coisa ou agradecemos, estamos nos referindo a algo que nos beneficia, algo que alguém fez ou fará por nós, ou seja, estamos cientes de que alguém está nos prestando um serviço e, inconscientemente, assumimos uma dívida de gratidão com esta pessoa. Algumas vezes até usamos a expressão: “lhe devo um favor”.   

Por outro lado, ao nos relacionarmos com alguém, também de modo inconsciente, podemos gerar um crédito de gratidão. Exemplos disto são as gentilezas e os elogios. Costumamos dizer que “gentileza gera gentileza”. Portanto, somos “pagos” com a mesma moeda. Já com o elogio, é diferente. Assim como as palavrinhas mágicas anteriores, o elogio pode ser feito com sinceridade ou ser apenas uma formalidade. Quando alguém nos fala da sua roupa nova, do seu novo carro ou nos convida para conhecer sua nova casa, estamos quase que obrigados a elogiá-los, independente de termos gostado ou não. Da mesma forma, seria deselegante ir jantar na casa de amigos e não elogiar a comida. Algumas pessoas costumam elogiar tudo o que veem, enquanto que outras raramente tecem um elogio, mesmo quando gostam de alguma coisa. O elogio trivial, logo é esquecido, já o que é feito de coração, olhando nos olhos do outro, este tem um valor inestimável. Quem recebe fica tão grato que, as vezes, nem se sente merecedor daquele sentimento. 

O elogio sincero é uma manifestação que arranca uma parte de nós para entregar ao outro. É mais do que uma doação, é como se nos colocássemos numa posição de humildade para enaltecer o outro. Quanto mais do fundo do coração vier o elogio, mais valioso ele será. É um sentimento que faz bem para todos os envolvidos, mas parece que quem entrega o elogio, é quem mais recebe. 

Como se pode ver, a contabilidade dos sentimentos é muito distinta da contabilidade financeira. Agradecer gera uma dívida. Um “por favor” pode não ter nenhum valor. Já um favor pode ser pago com um sorriso. Um ato ou uma palavra pode não significar nada ou representar muito, depende de quão carregada ela estiver de sentimentos. Gentileza é como um empréstimo para um mau pagador. Não esperamos receber nada de volta, mas quando menos se espera, recebemos tudo com juros e correção monetária. Já as pessoas “bem-educadas” são facilmente identificadas e valorizadas, mas é difícil reconhecer quais são as sinceras. Essas, são tão valiosas que deveriam ser guardadas em cofres fortes.   

Por falar nestes sentimentos, devíamos nos perguntar: como anda a nossa contabilidade dos sentimentos? Na última semana, quantas gentilezas fizemos? E quantos foram os agradecimentos e elogios sinceros? Não teríamos sido econômicos nos elogios sinceros? Lembre que o elogio é um negócio lucrativo. Invista na “carteira de bons sentimentos”. 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com