07May
Coluna Dominical

Relações tipo Lego ou Vasos Comunicantes

-7 de maio de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Relações tipo “lego”? Relações tipo “vasos comunicantes”? O que é isto? A forma como as pessoas se relacionam se assemelha ao funcionamento da montagem de um lego ou ao funcionamento dos vasos comunicantes. Provavelmente, você tem relações tipo lego com umas e relações tipo vasos comunicantes com outras pessoas.

O lego nos permite encaixar peças para montar o projeto que desejamos. As peças se tocam, encaixam-se e cumprem uma função, seja a de apoiar as que estão acima, seja para dar forma ou o colorido desejado. As relações tipo lego seguem a mesma lógica. Ora somos quem projeta e “encaixa” outras pessoas no nosso projeto, ora somos peças do projeto de alguém. Terminado o projeto, podemos rearranjar as mesmas pessoas, retirar algumas e incluir outras para construir um novo projeto. Nas relações lego, as pessoas interagem, tocam-se, apoiam umas as outras, mas cada uma apenas cumpre a sua função. Quando termina o propósito de estarem juntas, os encaixes são desfeitos e cada pessoa segue o seu caminho, mantendo as suas características anteriores.

Você se lembra de quando estudou os vasos comunicantes? Pois então, quando conectamos dois ou mais vasos de diferentes tamanhos e colocamos certa quantidade de líquido num destes vasos, o líquido flui até atingir o mesmo nível em todos os vasos, independente de ser largo e alto e de outro ser fininho e baixinho. Se adicionada ou retirada uma parte do líquido de um vaso, logo se estabelece um novo equilíbrio. Em outras palavras, quem tem mais dá a quem tem menos e todos ficam com o líquido no mesmo nível. Agora, se forem colocados nestes vasos dois líquidos diferentes, que não se misturam, como água e óleo, mesmo assim um influenciará no comportamento do outro. O mais pesado tende a ficar no seu vaso e ir para o fundo, mas se houver grande quantidade do líquido mais leve nos outros vasos, devido à ligação existente entre eles, o mais leve irá ajudar o mais pesado a subir um pouco.

As relações tipo vasos comunicantes ocorrem quando, ao interagir, as pessoas fazem trocas, influenciando e sendo influenciadas pelo que ocorre com quem está conectado na mesma rede. Se alguém que está conectado, estiver passando por um mau momento, o seu sofrimento irá afetar aos demais e, ao mesmo tempo, receberá “bons fluidos” destes. Em outras palavras, quando alguém que está interligado conosco se enche de alegria, esta alegria flui e nos afeta. Quando alguém se esvazia por estar triste, sofre com alguma coisa, compartilhamos deste sofrimento.

Ao longo do tempo, se não houver uma boa manutenção, os vasos tendem a reduzir a fluidez e podem até interromper o fluxo devido à sedimentação de impurezas. Da mesma forma, se as nossas relações não passarem por “manutenções preventivas”, se não forem cultivadas, tendem a deixar que as “impurezas” limitem ou interrompam a fluidez dos sentimentos. As relações poderão continuar existindo, mas se tornarão relações tipo lego, onde cada um cumpre a sua função, sem o verdadeiro compartilhamento e a fluidez dos vasos comunicantes.

Não precisamos ter a mesma forma e a mesma altura para nos comunicarmos, tampouco estarmos na mesma vibe, digo, com o mesmo líquido, precisamos apenas estar dispostos a permitir a fluidez dos sentimentos. Cada vez está mais difícil abrir a passagem e permitir que o que acontece na vida dos outros nos afete, e compartilhar o que acontece conosco com outras pessoas. A tendência é sermos cada vez mais peças de lego. No entanto, quem já experimentou relações de vasos comunicantes sabe o quanto é bom se alegrar e sofrer com os sentimentos dos amigos e das pessoas a quem amamos. Se você tem este tipo de relação, faça uma boa manutenção preventiva. Se não tem, construa e experimente o compartilhar.  

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração

Contato: nascimentolf@gmail.com

30Apr
Coluna Dominical

O que não é dito sobre as greves

– 30 de abril de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Em toda greve ou manifestação de protesto, os fatos se repetem e as manchetes dizem sempre as mesmas coisas. As pessoas reclamam do seu direito de ir e vir, dos transtornos causados pela greve, ficam horrorizadas ao verem manifestantes depredando e queimando ônibus. Há quem questione a forma como a categoria decidiu pela greve. Enfim, concordando ou não, existem pontos que não se fala. Mas, afinal, o que não é dito sobre as greves?

–  “O direito de ir e vir” está garantido na Constituição de 1988 assim como o direito de greve –  Pessoas aparecem na frente das câmeras dizendo que precisavam ir trabalhar e estão sendo impedidas. A mídia critica como sendo um ato autoritário e muitas pessoas ficam sensibilizadas. O argumento utilizado é de que a greve embora seja um direito, a adesão deve ser voluntária e deve-se deixar trabalhar quem assim deseja. O que não é dito nestas avaliações é que a greve representa um ato de força de um segmento contra outro. Se a adesão fosse realmente livre e o direito de greve respeitado, muitos policiais que batem nos manifestantes, provavelmente, adeririam à greve. Muitos dos que fazem tudo para chegar ao trabalho não iriam, não fosse o medo de perder o emprego. Além disto, existem várias outras situações que impedem as pessoas de ir e vir (inundações, engarrafamentos, comemorações de conquistas no futebol etc.), que não causam a mesma reação de uma barricada de uma greve. Perder um dia de trabalho por que houve uma chuvarada na cidade e não foi possível chegar ao trabalho é aceitável, mas faltar por que não tinha transporte em função de uma greve, gera muitos protestos.

– Transtornos num dia de greve – se a greve não causar nenhum transtorno, nenhum prejuízo, ela não será percebida nem terá efeito nenhum. A greve ocorre depois que se esgotaram todas as possibilidades de negociação e visa causar transtornos sim. Criticar a greve porque causou enormes prejuízos, portanto, é reconhecer que os objetivos foram alcançados.

– Quem decide pela greve? A decisão de aderir a uma mobilização ou a levar uma categoria a entrar em greve, deveria decorrer da vontade da maioria, mas nem sempre é assim. Uma categoria com milhares de associados costuma decidir pela greve numa assembleia com poucas pessoas. Está certo, a assembleia é aberta e soberana, mas existe ainda o que se chama de “manobras” visando prolongar a decisão da assembleia para que, depois de esvaziada, fazer a votação e obter o resultado desejado. As lideranças de um movimento podem usar de vários recursos para aprovar uma greve, mas não conseguirão adesão se seus associados não estiverem sensibilizados. 

– Os ganhos obtidos se a greve tiver sucesso – o movimento grevista defende uma causa, reivindica alguma coisa para todos de um determinado setor ou categoria, sejam eles contra ou a favor da greve. Não se vê um repórter perguntar para quem está furando a greve se, no caso do objetivo ser alcançado, se esta pessoa abriria mão da conquista? Ou seja, os que tentam impedir o colega de trabalhar, lutam por algum direito/vantagem para esta pessoa, que é contra, mas, depois, aceita e se beneficia desta conquista.

– Confrontos e depredações – Por que alguns manifestantes colocam fogo em ônibus, em containers de lixo, depredam estabelecimentos comerciais e enfrentam a polícia? Estas cenas são as que mais recebem destaque e chocam a população. As pessoas se perguntam: “Para que fazer isto?”. A maioria dos manifestantes que vai às ruas é contra este tipo de ação, por que, então, elas acontecem? A resposta é simples. Existem pessoas que saem de casa determinadas e preparadas para depredarem e enfrentarem a polícia. O grupo mais conhecido é o Black bloc, que possui orientação anarquista e entende que a greve compreende um momento de lutar contra o capitalismo e a globalização. A forma de chamar a atenção é depredar as fachadas de bancos e empresas multinacionais. Quando a polícia age de forma preventiva, os danos são menores do que quando parte para a agressão. Ao agredir os manifestantes, a polícia atinge quem estava participando de forma pacífica e provoca a multidão, que responde da mesma forma. Vale o que já se sabe: violência gera mais violência. Quanto mais preparada for a polícia para agir em manifestações, menores são os atos de violência e os danos ao patrimônio. Cabe dizer que, em algumas greves, existem pessoas contrárias à greve que se infiltram nas manifestações e provocam os quebra-quebras para jogar a população contra o movimento.

Enfim, uma greve consiste em um processo extremamente difícil de conseguir adesão, pois o cidadão comum não gosta de faltar ao trabalho, de ir para a rua e correr o risco de apanhar da polícia, ou até mesmo ser morto. Quando existe adesão é porque o descontentamento e a indignação das pessoas são muito grandes. Neste sentido, a adesão a uma greve é um termômetro utilizado pelos governantes/políticos/chefias sobre a insatisfação dos envolvidos. Embora, publicamente, eles tentem minimizar ou desmerecer o movimento, sabem de sua força e tomam medidas para diminuir esta insatisfação.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

23Apr
Coluna Dominical

A coisa acaba muito antes de terminar

– 23 de abril de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Os verbos “acabar” e “terminar”, embora sejam sinônimos, no cotidiano expressam situações distintas. O “acabar” significa que algo que perdeu a razão da sua continuidade, mas pode continuar existindo formalmente. Já o “terminar” ocorre quando algo se encerra formalmente. Neste sentido, a coisa pode acabar muito antes de terminar. Por exemplo:

 – Relacionamentos – dificilmente um relacionamento acaba e termina ao mesmo tempo. As causas mais comuns das separações são as ocorrências de crises e desgastes que acabam com o relacionamento, embora este continue existindo formalmente até o dia em que a convivência se torna insuportável e, então, termina!

– Vida – uma pessoa que sofre um trauma na vida e não consegue superá-lo, pode perder a vontade de viver. Para ela, a vida acabou neste momento, mas continuará sobrevivendo e aguardando a morte chegar.

– Motivação no trabalho – quando acaba a satisfação no trabalho, a esperança do seu trabalho ser reconhecido e de progredir, a pessoa perde a motivação para fazer o que faz, mas mesmo sem energia e sem alma, poderá continuar fazendo em troca de um salário ou de uma obrigação.

– Competição – em esportes como o futebol, um placar de 7 x 0 aos 33 minutos do segundo tempo, significa que o jogo acabou, sem chances do time que está perdendo reverter o placar, mas formalmente o jogo continua e só terminará ao final do segundo tempo.

– Cigarro com sabor de conquista – até a década de 90 no Brasil, atletas faziam comerciais de marcas de cigarro. Apesar do consumo de cigarro não ter terminado, acabaram as propagandas de cigarro com sabor de conquista.  

– Tecnologia – quando se popularizou o uso dos computadores, acabou a utilidade das máquinas de escrever, embora continuem existindo.

– Salário – usualmente a pessoa recebe o salário correspondente a um mês de trabalho, mas em tempos de crise, o salário costuma acabar antes do mês terminar. É o tal “cada vez sobra mais mês no fim do meu salário”.

Uma rara exceção são os trabalhos acadêmicos como TCCs, dissertações e teses, em que mesmo o trabalho não estando pronto como o autor gostaria, ele tem de ser entregue quando termina o prazo. Neste caso, pode-se dizer que “o trabalho termina antes de acabar!”

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com