04Nov
Coluna Dominical

Amazônia: Produzir alimentos e energia ou preservá-la?

– 4 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Talvez você já tenha se perguntado: “o que é mais importante, a produção de alimentos e de energia ou preservar a Amazônia?” A resposta parece óbvia, precisamos comer e de energia para viver, se pudermos fazer isto preservando o meio ambiente melhor, mas caso contrário, vamos garantir a nossa sobrevivência! Este é um grande equívoco que se propaga por desconhecimento ou por interesse econômico de quem quer plantar soja, criar gado ou extrair madeira da Amazônia. As construções de grandes usinas hidroelétricas nesta região são um desastre. Basta analisar o funcionamento da Amazônia para entender que muito mais importante que a energia e os alimentos produzidos nesta região, são os rios voadores que garantem as chuvas e enchem os reservatórios de água nas regiões sul e sudestes. Assim como alguns dos seus antecessores, o presidente eleito promete acelerar projetos de hidroelétricas na Amazônia e declarou que o ICMbio e o IBAMA prejudicam os que querem produzir.

Antes de analisar estas questões, é preciso nos darmos conta de que “cuidar do meio ambiente” não é um ato de bondade nossa, é uma necessidade para salvar a nossa pele. O Planeta Terra não precisa do nosso cuidado, ele existe há 4,5 bilhões de anos e neste tempo já ocorreram cinco extinções em massa das espécies. Algumas espécies desapareceram, surgiram outras e o Planeta continua vivo. Como homo sapiens existimos há apenas 150 mil anos, mas nos últimos 250 anos, após revolução industrial, conseguimos alterar a temperatura média do Planeta. Somos uma das espécies mais frágeis e a que mais sofrerá as consequências das alterações climáticas. Ah! E a que se declara inteligente!

A anexação do Ministério do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura foi uma promessa de campanha do presidente eleito e que só não será efetivada por razões econômicas, pois o presidente foi alertado pelos ruralistas de que isto trará prejuízos para o agronegócios brasileiro, ou seja, se isto ocorrer, alguns países deixarão de comprar grãos e carne do Brasil. Mas este não é o maior problema na área ambiental, pois os planos de ocupação da Amazônia continuam. Já foi anunciado que o Ministro do Meio Ambiente será alguém que não “atrapalhe” a rápida emissão de licenças ambientais, etc. Óbvio que a gestão do Ministério do Meio Ambiente precisa ser aprimorada, que a licenças precisam ser mais ágeis e transparentes, etc., mas elas não devem ser “flexibilizadas” para atender interesses econômicos.

Em 2011-212 o Congresso Nacional reduziu a proteção da Amazônia e anistiou os proprietários de terra que desmataram ilegalmente. Agora se anunciam novas investidas para reduzir o tamanho das reservas indígenas, construir hidroelétricas, etc. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a Hidroelétrica de Balbina alagou 3.000 km2 e que anualmente, a emissão de metano decorrente da decomposição das árvores que foram afogadas representa o equivalente a 90% do gás carbônico resultante da queima de combustível fóssil na cidade de São Paulo (http://bdtd.inpa.gov.br/handle/tede/1506#preview-link0), portanto não é uma “energia limpa”. A Amazônia é uma “usina de serviços ambientais”, que abastece o sul e o sudeste com chuvas para as lavouras, enche os rios e alimenta as hidroelétricas. Assista o vídeo “Rios Voadores” e entenda como isto funciona. https://www.youtube.com/watch?v=Hlgk-rf0uZ8. Estima-se que já foi desmatado cerca de 20% à 30%. Um pouco mais do que isto poderá romper o equilíbrio necessário e esta região tornar-se um deserto. Além disto, a Amazônia produz alimentos naturalmente que poderiam ser explorados preservando a mata e gerando emprego e renda. Por que não exportar água da Amazônia se ela é melhor do que a Perrier? Pouco conhecemos da sua biodiversidade e o seu potencial de geração de riquezas. Basta buscarmos informações para percebermos o quão absurdo são os projetos de produzir soja, criar gado e construir grandes hidroelétricas na Amazônia.

É legítimo que o presidente eleito tente implantar o que prometeu na campanha, mas é legítimo também o protesto de que quem discorda das suas propostas, independente de ter votado nele ou não, de ser de direita, de centro ou de esquerda. Imagine que um candidato que durante a sua campanha anunciasse que iria taxar as grandes fortunas e ao ser eleito tentasse implantar tal medida. Parece óbvio de que os proprietários das grandes fortunas iriam protestar e usar de todos os mecanismos para que tal proposta não fosse implantada. Isto faz parte da democracia. Se você não concorda com os projetos que irão resultar no desmatamento da Amazônia e que o presidente retire o Brasil dos acordos internacionais de preservação ambiental, busque mais informações e comente sobre as consequências destas medidas com os seus amigos, sua família e no seu trabalho. Exerça o seu papel de cidadão consciente. Podemos fazer muito mais do que assinar petições. Tenhamos coragem para defender a nossa sobrevivência e a dos nossos filhos e netos. Como dizia Santo Agostinho: “A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão, e a coragem, a mudá-las!”

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

28Oct
Coluna Dominical

Mobilidade do presente aqui, do futuro aí

– 28 de outubro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

O tempo gasto nos nossos deslocamentos dentro das cidades vem aumentando e preocupando a todos nós. Em cidades como São Paulo, é comum alguém gastar 4 horas do seu dia para ir ao trabalho e voltar. Quanto mais túneis, viadutos e duplicação de vias, mais carros aparecem nas ruas que até parece um problema sem solução. Quero compartilhar com vocês uma novidade nos Estados Unidos em termos de alternativa de transporte: o velho patinete de brinquedo, ressurgiu como um veículo elétrico para uso compartilhado, chamados de “electric scooters”, para nós o patinete elétrico ou “e-patinete”.

Numa manhã, quando fui pegar minha bicicleta no estacionamento ao lado da minha casa, encontrei 2 patinetes estacionados, sem nenhum cadeado. Achei que eram das crianças dos vizinhos. Quando me dirigi em direção a Universidade, fui encontrando bicicletas e patinetes paradas no meio das calcadas e junto aos estacionamentos de bicicletas. Parei para olhar e verifiquei que eram elétricos, para uso compartilhado e com uma trava que é liberada quando o pagamento é realizado. Sabem qual foi a primeira coisa que veio a cabeça? Isto não daria certo no Brasil, pois iriam roubar tudo no primeiro dia. Fui então pesquisar para saber como que isto funciona.

A Empresa Bird (https://www.bird.co) foi fundada em setembro de 2017 aqui pertinho, em Santa Mônica, e já é considerada um fenômeno, sendo a startup que mais rápido conseguiu valer 1 bilhão de dólares, e em 8 meses já valia 2 bilhões. Hoje atua em mais de 100 cidades em 6 países, na maior parte delas, de forma ilegal. Assim como o Uber, é polêmica, costuma colocar o produto nas ruas das cidades, criar o problema, para depois tentar resolver. Em muitas cidades não existem leis para o tal patinete elétrico que as pessoas possam pegar e largar em qualquer lugar da cidade.

Será que isto só irá funciona nos EUA e Europa? Não! A Bird já está atuando na Cidade do México e anunciou que vai entrar no Brasil muito em breve. Provavelmente nossas câmaras de vereadores irão discutir por longo período se é legal ou não ter “e-patinetes” nas nossas cidades. A Bird é apenas uma das empresas nesta invasão de patinetes que está ocorrendo nas cidades americanas. Em Santa Bárbara atua outra gigante do setor, a Lime (www.li.me), criada em São Francisco. Além da Bird e da Lime, as mais conhecidas são a Skip, Scoot e Spin. É a economia compartilhada disruptiva aprontando mais uma!

Como funciona? Muito parecido com o Uber. Basta fazer um cadastro onde é exigido, além do número do cartão de crédito, uma foto da carteira de motorista. Depois é baixar o aplicativo para saber onde está o patinete mais próximo de você. Com o celular direcionado para o QR Code, libera a trava e com duas patinadas ele aciona o motor e você pode atingir a velocidade de até 25 km/h, aos custos de um dólar para liberar e depois mais 15 centavos por minuto, ou seja, para uma distância de 3 km, vai demorar uns 10 min e custar cerca de 3 dólares (https://www.youtube.com/watch?v=fzNmVdZaf0E ). Este mercado está criando outros serviços, como por exemplo, pagar para as pessoas recarregarem as baterias dos patinetes em suas casas.

Além dos patinetes e bicicletas elétricas para uso compartilhado, me chamou a atenção a velocidade dos skates elétricos. Seguidamente minha bike é ultrapassada por algum skatista que não encosta o pé no chão. O skate elétrico entra junto na sala de aula e fica estacionado em baixo da cadeira do aluno, enquanto o patinete e a bike elétrica ficam do lado de fora. Existem ainda outras geringonças elétricas tipo Segway que andam pelas ruas, facilitando o deslocamento das pessoas. Parece que tanto as empresas dos e-patinetes de uso compartilhado, quanto os seus usuários, não são muito cumpridores das leis. Vejo muita moçada usando patinete sem capacete e com uma carinha de quem não tem carteira de motorista. Uma lei que não pegou?

Será que esta moda vai pegar no Brasil? Vai funcionar em cidades como Porto Alegre e São Paulo? Por que não! Além do serviço de uso compartilhado, existe também a possibilidade das pessoas fazerem parte do seu trajeto com o seu próprio patinete elétrico, que custam cerca de 100 dólares, ou adquirir os e-patinetes dobráveis, bem mais caros, mas que facilitam para levar no porta-malas do carro ou ser carregado no ônibus ou no metrô. Veja neste vídeo: https://ecorecoscooter.com/?gclid=CjwKCAjwvNXeBRAjEiwAjqYhFv8vvPGTp62Quvg-QuBT-BPrHKQctXvYQjwcPb7TmULoJO49V_Gv7RoCfd0QAvD_BwE

No futuro, talvez o custo do uso das bikes/patinetes/geringonças elétricas esteja incluído no preço da passagem do ônibus. Tá certo que em Santa Bárbara quase não chove e que Porto Alegre chove muito, mas quem sabe teremos uma nova geração de patinetes com guarda-chuvas? Ah, um dos meus orientandos disse: “Andar de bicicleta, tudo bem, mas patinete não, né Felipe?!”. Ele teme que a sua reputação seja afetada se aparecer fotos do orientador andando de patinete! (risos). Portanto, não vou mostrar fotos minhas, mas posso garantir que é uma delícia andar num patinete elétrico!!! Perdoem-me, eu nunca tinha andado num patinete, que dirá elétrico! Deixei a criança que existe em mim, se divertir…

Santa Barbara News: Lembram das formigas? Pois elas desapareceram, e não foi pelas rezas, simpatias e pedaços de cravo que espalhei pela casa. Decidiram ir e se foram, deixando apenas algumas poucas para marcar o terreno. Mas para onde terão ido? Será que não aumentou o número de formigas por aí?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com

21Oct
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Chamamos para o embarque: Professores, portadores do cartão …

– 21 de outubro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

No dia 15 de outubro foi comemorado o “Dia dos Professores” e muitos de nós professores receberam mensagens carinhosas neste dia. É muito bom saber que algumas pessoas reconhecem que os professores estimulam uma criança ou um adolescente a descobrir o seu potencial, que é o “profe” que os leva a viajar pelo mundo do conhecimento, a refletir e a ser crítico com fatos. No ensino superior, o professor prepara o futuro profissional. Mas, o reconhecimento do valor dos professores não é um sentimento geral da sociedade brasileira. Quando em campanha, os candidatos de todos os partidos afirmam que a educação terá prioridade no seu governo, mas isto não tem se confirmado na prática. 

Você já imaginou uma sociedade sem professores?  O que seria de uma sociedade sem ensino, cultura e informação? Se não existissem professores não existiriam as outras profissões. A qualidade dos serviços prestados pelos profissionais depende muito da qualidade do ensino que eles receberam. Segundo o ranking da OCDE**, entre 40 países analisados em 2017, os quatro países com melhor qualidade de ensino nas escolas são Finlândia, Coréia do Sul, Hong Kong e Japão. E o Brasil? O Brasil ocupou a penúltima colocação! Nos países top, os professores são bem pagos, mas não são os mais altos salários. Muitas pessoas desejam ingressar nesta profissão pelo reconhecimento que ela possui na sociedade.

Como que uma sociedade expressa o seu reconhecimento a determinada profissão? Observei que nos aeroportos americanos é dada prioridade de embarque aos portadores do cartão tal, aos idosos, as grávidas, as pessoas acompanhadas de crianças, da mesma forma que nos aeroportos brasileiros, mas além destes, os norte-americanos dão prioridade também para os militares. Aliás, os militares nos EUA possuem uma série de regalias, como entrada gratuita em museus, financiamento especial em bancos, etc. O que isto significa? Que a sociedade norte-americana valoriza os militares, independentemente de eles terem ido ou não para a guerra, de terem sido heróis ou não. No entendimento dos norte-americanos, os militares dedicam as suas vidas para defender a pátria e a vida dos outros e, por isso, merecem o reconhecimento da sociedade.

No Brasil, os professores já foram mais reconhecidos pela sociedade, eles eram pessoas influentes e respeitadas, principalmente nas pequenas cidades. Nos anos 60 e 70 o CPERS/Sindicato promoveu mobilizações dos professores do Rio Grande do Sul em defesa da educação e dos direitos dos professores do Estado do RS. Em 1981 foi criada a ANDES, e foram se intensificando as lutas contra a precarização do trabalho no ensino superior.  Apesar destas lutas, nas últimas décadas ocorreu a expansão do ensino privado, aumentaram as diferenças salariais e as condições de trabalho de uma escola para outra, de uma faculdade para outra. A diferença salarial entre o professor com maior salário para o de menor salário no Brasil é muitas vezes superior a diferença salarial que existe entre professores da Finlândia, Coréia do Sul, Hong Kong e Japão. Portanto, não se trata apenas de diferenças de níveis de qualificação, mas sim de enormes diferenças para professores que exercem a mesma função em diferentes instituições. Mesmo nos EUA, país mais capitalista do mundo, no qual os salários dos professores universitários são negociados caso a caso, não existe uma diferença tão grande como no Brasil. 

Me arrisco a dizer que a superação da crise na educação no Brasil precisaria ser atacada em diferentes frentes: por meio de políticas públicas de valorização dos professores, usando critérios semelhantes aos utilizados nos países top do ranking. E, como os alunos mudaram, os professores precisarão se reinventar para trabalhar com alunos que estão, a maior parte do tempo, com o indicador grudado na tela do celular ou do tablet. E por fim a sociedade que, em boa parte, vê a escola como o local onde descarregar os filhos e repassar aos professores a responsabilidade pela educação que não deram em casa. Portanto, os pais precisarão assumir as responsabilidades que são suas. Existe ainda, pais que veem os professores como seus funcionários e querem controlar o que os professores podem ou não dizer em sala de aula. Enquanto este processo não ocorre nas diferentes frentes, os líderes do amanhã continuam hoje, sendo formados em escolas iguais as que estudamos no passado. 

(*) Luis Felipe Nascimento é “estudante titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com 

 (**) OCDE = Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – https://guiadoestudante.abril.com.br/universidades/brasil-esta-em-penultimo-lugar-em-ranking-de-qualidade-na-educacao/