10Mar
Coluna Dominical

Melhor bem acompanhado do que só!

– 10 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Ao longo da vida vamos nos transformando e mudando a forma de ver a vida. Alguns conceitos são melhor compreendidos, reinterpretados ou mesmo descartados. Eu continuo gostando de ouvir Tom Jobim cantar “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”, mas este verso hoje tem um outro sentido. No passado, eu não conseguiria imaginar uma pessoa feliz sozinha numa ilha. Hoje, ser o único humano numa ilha não significa mais estar sozinho. Onde estivermos, podemos nos sentir acompanhados, amados e amando. O conceito de “impossível ser feliz sozinho” continua valendo, mas mudou o meu entendimento do que significa estar só. Eu explico!
Muitos de nós nasceu, cresceu e vive sempre acompanhado e tem medo de ficar só. Ficar só representa olhar para nós mesmos e enxergarmos no espelho o que tem dentro de nós. Isto assusta, então tapamos o espelho e buscamos alguém para olhar. Allan Dias Castro gravou um vídeo em que ele diz: “Só anda bem acompanhado quem antes foi boa companhia”. Se não conseguirmos ser boa companhia para nós mesmos, não seremos para os outros. Só ajuda o outro, quem está bem. Nesta perspectiva, “ser feliz sozinho” é fundamental para ser mais feliz, juntos.
Nós somos seres dependentes, precisamos do amor e do afeto dos outros. A felicidade necessita sim da presença do outro, de alguém para compartilhar nossas alegrias e tristezas. Felizes os que têm amigos e amores. Felizes os que doam e recebem, pois nestas trocas é que vão perceber que a felicidade é maior ao dar, do que ao receber.
Karen Curi diz que alguém pode usar um outro coração para fazer pulsar o seu, ou, ao caminhar juntos, sincronizar as batidas dos dois corações (https://www.revistabula.com/6213-que-me-perdoem-os-solitarios-mas-e-impossivel-ser-feliz-sozinho/). Portanto, o desafio é saber o limite entre a capacidade do estar bem só e de nos transformarmos em seres solitários. De sabermos desfrutar de boa companhia sem nos tornamos excessivamente dependentes dela. A vida poderá ser boa se estivermos só, mas potencialmente será melhor se for compartilhada. De acordo?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara
Contato: nascimentolf@gmail.com

03Mar
Coluna Dominical

A vida da classe média americana serviria pra você?

– 3 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Você lembra daquelas cenas de filmes americanos em que aparecem casas enormes, sem muros, com dois carros grandes na garagem, um casal com duas crianças e um cachorro? Parece uma família margarina, não é mesmo? Pois elas existem sim, mas a vida de uma família americana de classe média não é tão fácil quanto parece. Quero compartilhar neste texto a minha percepção sobre as condições financeiras de uma família de classe média americana.
Conversando com americanos e brasileiros que vivem nos EUA, eu percebi que a família classe média americana vive endividada e trabalha a vida toda para pagar dívidas. Para as famílias mais simples, a situação é pior ainda. Isto não quer dizer que eles não possam ter suas casas, carros grandes e muito consumo.
Para exemplificar, vou citar a história que me contou um amigo americano que é doutorando na UCSB. Seus pais são classe média. A renda da família é suficiente para pagar a prestação da casa, o plano de saúde, o plano de aposentadoria, além de poder viver confortavelmente. Maravilha! Eles não tiveram despesas com a educação dos filhos, pois as escolas são gratuitas nos EUA. Como eles moravam num bairro onde tinha uma boa escola, os filhos tiveram uma boa formação. Muitas pessoas escolhem onde morar em função da qualidade da escola, pois só quem mora na área da escola pode estudar nela. Sendo um bom aluno numa boa escola, aumentam as chances de conseguir uma bolsa para ir para a universidade, que mesmo que seja pública, caso não se tenha bolsa ela será paga e custará muito caro.
Ao concluir o ensino médio, os alunos podem ir para o mercado de trabalho recebendo um salário que não difere muito do que recebem os que concluírem o nível superior. A diferença é que, não sendo muito qualificados, eles não poderão escolher onde trabalhar e o que fazer. Se eles resolverem ir para a universidade, terão que pagar as taxas ou conseguir uma bolsa de estudos. As bolsas geralmente são para pagar apenas as taxas da universidade e nem sempre cobrem 100% do valor. Ou seja, muitos estudantes universitários assumem empréstimos junto às empresas privadas para pagar em 30 anos. Vale lembrar que a maioria dos estudantes universitários não vive na casa dos pais. Geralmente eles mudam de cidade ou de estado para seguir seus estudos. Então precisam trabalhar para custear a sua sobrevivência.
Retomando o exemplo do meu amigo, ele era um dos melhores alunos da sua classe e obteve uma nota muito boa no GPA, que é a média de todas as matérias dos quatro anos do ensino médio americano (High School). Ele resolveu ir para a universidade e conseguiu uma bolsa que pagaria 50% dos 200 mil dólares que custaria o curso. Para poder entrar na universidade, com 18 anos ele teve que assumir um endividamento de 100 mil dólares. Geralmente os pais não assumem as dívidas dos filhos, faz parte da cultura americana.
Concluída a graduação, ele conseguiu um bom emprego e começou a pagar o financiamento. Depois resolveu voltar para a universidade para fazer mestrado e doutorado, então conseguiu uma bolsa integral e não precisou pagar seus estudos. Ao largar o trabalho, o pagamento do financiamento foi suspenso até ele voltar a ter renda. Quando concluir o seu doutorado, provavelmente conseguirá um bom emprego e irá comprar uma casa. Para tanto, assumirá novo financiamento de mais uns 30 anos. Terá também que iniciar a pagar um plano de aposentadoria privada, pois mesmo que trabalhe por 35 anos, não terá direito a aposentadoria.
Se ele for trabalhar numa universidade, receberá o salário para 9 meses, tendo 3 meses livres para fazer o que desejar, podendo inclusive oferecer cursos de férias na própria universidade que estiver trabalhando e receberá um valor extra por isto. Ou seja, embora tenha três meses livres, nenhum professor universitário tira três meses de férias. Eles buscam trabalho para complementar a renda. Porém, se o meu amigo resolver ir trabalhar numa empresa, provavelmente terá um salário mais alto, mas apenas 10 dias úteis de férias por ano. Terá direito a 7 dias de faltas justificadas por ano. Se ele adoecer por duas semanas, não adiantará apresentar atestado médico, terá desconto no salário.
Se analisarmos a vida de uma família mais simples, com menor qualificação e menor renda, que mora num bairro mais popular, onde a escola talvez não seja tão boa, as chances de seus filhos conseguirem um bom escore GPA será bem menor. Ir para a universidade e ter uma ascensão social é muito mais difícil. Existe sim meritocracia, mas ela é bastante injusta. O filho do pobre terá que ser um atleta talentoso ou um excelente aluno para poder competir com quem estudou nas melhores escolas. São muito poucos destas escolas que chegam nas boas universidades.
Em resumo, o americano classe média trabalha muito e vive toda sua vida endividado. Eles possuem poucos dias de férias por ano, se aposentam com bastante idade e, não raramente precisam complementar sua renda na aposentadoria com mais alguma atividade ou locando o quarto dos filhos para o airbnb.
Além das questões financeiras, há outros aspectos que me chamaram atenção. Os filhos saem cedo de casa para estudar e/ou trabalhar, e visitam os pais apenas uma ou duas vezes por ano, por isso os casais vivem muito solitários. Os que não se envolverem em atividades da comunidade, tendem a viver em função do trabalho e do consumo. As relações familiares e de amizades são bem diferentes das nossas.
E aí, esta vida serviria pra você?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara
Contato: nascimentolf@gmail.com

24Feb
Coluna Dominical

Mapas não me ensinam a viajar

– 24 de fevereiro de 2019

Luís Felipe Nascimento (*)
Patrícia Tometich (**)

Algumas pessoas gostam de viajar e outras não. As que gostam, possuem diferentes motivações e objetivos para realizar suas viagens, tais como: conhecer culturas, histórias, pessoas; buscar novos horizontes, alternativas de vida, conhecimento específico; fazer compras, postar fotos nas redes sociais, etc. As motivações e objetivos podem variar, mas a viagem sempre nos torna diferentes do que éramos.
Por muitos anos usamos mapas impressos em enormes folhas coloridas para nos orientarmos em locais desconhecidos. Hoje, parece quase impossível dirigir pelas ruas de uma cidade ou por estradas desconhecidas utilizando um mapa de papel, pois eles não informam o sentido das ruas, a velocidade máxima das vias, nem se elas estão ou não congestionadas. Naqueles tempos, não sabíamos se haveria engarrafamento a alguns quilômetros a frente, onde estariam os radares e a polícia, se teria ou não buracos na pista, mas mesmo com poucas informações conseguíamos chegar ao destino desejado.
Recentemente passamos a usar o Waze, que é um aplicativo que orienta os motoristas a encontrar o melhor caminho para chegar até o destino desejado. Por exemplo, se você solicitar a melhor rota para ir da sua casa ao seu local de trabalho, ele irá lhe informar o caminho mais rápido, evitando as vias mais congestionadas. Você poderá utilizá-lo dentro da cidade ou para ir a outras cidades. O Waze mostra um mapa com o nome das ruas, indica onde você está e ainda fala com você lhe informando onde dobrar e a que distância você está do local onde deverá tomar outro caminho. Tudo isto sem lhe cobrar nada!
Além de facilitar as nossas vidas, o Waze nos trata de forma educada e pacienciosa. Se errarmos o caminho por não termos dobrado onde ele nos indicou, ele não ficará brabo e nem terá reações do tipo: “Eu te avisei, não quis dobrar ali, agora te vira!”, “Errou de novo! Mas tu és burro mesmo, hein!”, ou ainda “Você precisa prestar mais atenção enquanto dirige! É a última que eu vou te mostrar o caminho!”, “Você não me escuta? Por que eu ainda tento te ajudar?!” Tampouco nos fará voltar ao ponto em que erramos, ele simplesmente reprogramará o caminho do ponto onde estivermos, como quem diz: não importa o que aconteceu no passado, erros são parte da jornada, vamos resolver isto olhando para a frente!
Viajar ficou mais fácil. Seguindo a analogia da viagem com a vida, poderíamos pensar numa espécie de Waze que nos ajudasse a reprogramar nossos caminhos em alguns momentos difíceis das nossas vidas. Cada vez que cometêssemos um erro ou que algo de ruim acontecesse em nossas vidas, buscaríamos o melhor caminho para seguirmos em frente, sem ficarmos nos culpando ou lamentando o tempo perdido. Saberíamos que a rota escolhida poderia mudar ao longo do trajeto, bem como o tempo estimado para atingir o destino, pois na vida, assim como no trânsito, podem ocorrer desvios no percurso. Não existem certezas em relação ao futuro. Algumas vezes deixaríamos as vias rápidas e seguras para tomar um caminho secundário, mais cheio de curvas, com pista única, pois confiaríamos que ele seria melhor do que o caminho engarrafado que a multidão escolheu.
Ter um Waze orientando nossas vidas fazia todo o sentido até ouvirmos a canção “Si no oigo a mi corazon” de Pedro Aznar (https://www.youtube.com/watch?v=OqNL9JG_36Q). Conversando sobre esta canção, nos demos conta que a vida não segue os caminhos mais rápidos e menos engarrafados. Reprogramar o caminho e ter paciência são coisas importantes, mas o caminho a ser seguido dependerá das nossas intenções e das nossas vibrações. Como isto acontece? Confie, o universo se encarregará de resolver.

(*) Luís Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara
Contato: nascimentolf@gmail.com

(**) Patricia Tometich é Professora na FURG, campus São Lourenço do Sul
Contato: ptometich@gmail.com