06Nov
Coluna Dominical

Ocupar – contra ou a favor?

– 6 de novembro 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Os estudantes estão ocupando escolas e prédios nas universidades em protesto contra a reforma no ensino médio e a emenda constitucional conhecida como PEC 241. Você sabe o que esta reforma propõe? Com quem ela foi discutida? E o que diz a PEC 241? Como ela afeta a educação? Se você não tem estas informações, busque para ter uma opinião fundamentada. Mas o que eu quero refletir hoje é sobre as ocupações ou invasões. Ao optar pelo termo “ocupações” já estou assumindo uma posição, mas se você tem outra opinião, não quero convencê-lo do contrário, apenas provocar uma reflexão nos leitores. Veja as seguintes situações e diga para você mesmo, em cada uma delas, se você seria contra ou a favor?

A ocupação das escolas prejudizou cerca de 270 mil alunos que não puderam fazer o ENEM. Como consequência, alguns alunos não poderão fazer o vestibular em determinadas universidades, pois os vestibulares serão realizados nos mesmos dias em que ocorrerá a nova prova do ENEM. Um grupo de alunos decidiu por ocupar uma escola e deixou todos sem aula e sem ENEM. O mesmo está ocorrendo nos prédios de várias universidades pelo Brasil. Você é contra ou a favor?

Em 2011, manifestantes protestaram no Egito contra o ditador Mubarak que esteve no poder por 30 anos. Eles protestavam contra a violência policial, corrupção, inflação, salário mínimo pago, etc. Os protestos resultaram na queda do ditador. Você seria contra ou a favor a ocupação das ruas e o caos causado por estas manifestações?

A oposição ao presidente Nicolás Maduro da Venezuela convocou um novo protesto para exigir um referendo sobre o fim do seu governo socialista. Cerca de um milhão de opositores tomaram Caracas e pararam a capital. A mídia local não divulga ou manipula as informações sobre estas ocupações. Você é contra ou a favor este tipo de ocupação?

Qual a sua opinião sobre a ocupação de Congonhas feita pelos familiares das vítimas do vôo da TAM que caiu neste aeroporto em 2007 e matou 187 tripulantes? Eles exigiam agilidade na identificação dos corpos. Realizaram protestos dentro dos aeroportos e depois deitaram no chão interrompendo o trânsito da avenida na frente do aeroporto,  perturbando a vida de milhares de pessoas que nada não tinham a ver com aquele acidente. Você seria contra ou a favor desta ocupação?

Trago diferentes tipos de ocupações para ilustrar que todo tipo de ocupação causa transtornos para quem é simpático ou radicalmente contra aquele movimento. Se um movimento grevista não perturbar a vida de alguém, provavelmente nem será percebido e nada conseguirá. Os movimentos sociais, sejam eles de esquerda, de direita, de estudantes ou trabalhadores, sabem que irão perturbar a vida da população, mas ao mesmo tempo eles precisam do apoio desta população. O desafio é convencê-la de que aquele movimento é necessário e justo. Do outro lado, estão os contrários ao movimento, que usam o seu poder para ameaçar, reprimir e punir os seus participantes. Eles também disputam o apoio da população dizendo que os participantes do movimento são baderneiros, irresponsáveis, de esquerda ou de direita (conforme o momento histórico), desobedientes da ordem, etc.

No caso dos estudantes, os que se envolvem diretamente em movimentos como este da ocupação dos prédios, enfrentam pressões, acusações e aprendem como funciona a sociedade na prática. Nestes momentos é acelerada a formação política e a conscientização deles. Estes movimentos desenvolvem lideranças que no futuro serão os líderes na sociedade. Eles aprendem o que não veem nas salas de aulas. Como disse o Papa Francisco: “um jovem que não protesta não me agrada” (http://odia.ig.com.br/noticia/jornadamundialdajuventude/2013-07-29/um-jovem-que-nao-protesta-nao-me-agrada-diz-papa-francisco-em-entrevista.html )

Sou contra que os movimentos de protesto depredem o patrimônio público. Não gosto de ficar trancado num engarrafamento e nem de alterar o meu calendário de trabalho em função destes movimentos. Mas apesar disto, sou favorável aos protestos, sejam eles pró ou contra os meus valores, pois entendo que são momentos de aprendizagem dos participantes e um fortalecimento da democracia. Sou contra o uso da força, bem como a infiltração de opositores nos movimentos sociais para provocar os quebra-quebra. Não gosto de colocar a culpa nos outros e nem na imprensa, mas uma mobilização em 19 estados com ocupações de mais de 1000 escolas e universidades, merecia um destaque maior na mídia. Não vi ainda entrevistarem os estudantes ou mostrar o que eles fazem nestas ocupações. Será que não interessa para ninguém? A mim interessa, mas não encontro informações completas nos jornais e na TV. Por tudo isto, sou a favor das ocupações.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

Dica de leitura:

Veja as cinco polêmicas sobre a nova reforma do Ensino Médio identificadas pela BBC/Brasil em http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2016-09-24/reforma-do-ensino-medio.html

Leia aqui a PEC 241 na íntegra, se intepretações: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1468431&filename=PEC241/2016

 

30Oct
Coluna Dominical

Morrer como um Papa!

– 30 de outubro 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Nesta semana faleceu com 97 anos a nossa Dinda, uma pessoa com quem convivemos 52 anos. Ela veio para ajudar a minha mãe a cuidar das crianças e se tornou uma pessoa da família, ou seja, ela escolheu fazer parte da nossa família. Até poucas semanas antes da sua morte, a Dinda fazia crochê  e diariamente lia o jornal e a bíblia. Gostava das novelas e era uma colorada fanática. Nos jogos do Inter, sentava na frente da TV e tomava um copo de vinho para acalmar os nervos. Quando a visão foi ficando mais fraca, perguntava: “para que lado temos que fazer gol?” Não tinha nenhuma doença e nem sentia dores, mas as forças foram acabando. Sabíamos que estava chegando o seu fim. Na última semana não respondia mais aos estímulos externos e era cuidada e alimentada com carinho. Morreu em casa, no seu quarto, sem sentir dor, sem o uso de tubos e aparelhos, rodeada pelas pessoas com quem sempre conviveu.

Lembra de onde e como morreram os últimos Papas? A maioria morreu com mais de 80 anos, no próprio Vaticano. Não se tem notícia de Papa que morreu em hospital. Não se tem relatos de um Papa sobreviver ligado a aparelhos. Mesmo quando velhos e doentes, os Papas permanecem na sua casa e são cuidados pelos seus amigos. No caso de Bento XVI, que deixou de ser Papa em vida, hoje vive num mosteiro cuidado por pessoas que gostam dele, e provavelmente não irá morrer conectado em aparelhos para ganhar mais alguns dias ou meses de vida. Portanto, creio que a nossa Dinda teve uma morte de Papa: em casa, bem cuidada e rodeada por quem gostava dela.

Na cultura ocidental cristã, o falecimento de uma pessoa querida costuma ser um momento de grande tristeza. Me parece que as pessoas ficam mais tristes e choram mais facilmente na hora de se despedir do corpo do que na hora em que recebem a notícia do falecimento. Sabemos que a alma não está mais alí, mas é o simbolismo da despedida que dói mais. Por isto é que acho mais adequado o ritual utilizado nos Estados Unidos e em outros países, em que a despedida do corpo é um feita com falas dos amigos e familiares relembrando as coisas boas da vida daquela pessoa e o que ela significou para a vida dos demais. Nada comparado com o discurso dos nossos religiosos nos velórios, que falam muito para onde vai a alma e quase nada sobre a vida da terra. Usam um discurso padrão do “pai exemplar, bom chefe de família,…”. E quando acaba o enterro ou a cremação, as pessoas se despedem chorando e vão para suas casas. Em países como os EUA, as pessoas usam as suas melhores roupas para ir no enterro e depois costumam reunir a família e amigos para comer e conversar. Trata-se de um reencontro em que o foco são as lembranças e os feitos de quem morreu.

Dizem que o desejável é “vida longa e morte súbita”, mas geralmente não podemos fazer estas escolhas. A morte, que deveria ser um processo natural, o fim de um ciclo, tem sido antecipada em função da violência, tragédias e de doenças prematuras, causando uma dor ainda maior. Portanto, diria que o desejável é poder morrer idoso, assistido e chegar ao fim sem sofrimento para o idoso e nem para quem cuida dele. Quanto ao ritual de despedida, nem todas pessoas costumam definir como isto deve ocorrer. A Dinda escolheu o vestido e o local onde gostaria de ser enterrada. Como a gente não sabe a hora, é melhor divulgar logo nossos desejos. Adianto que quando chegar a minha vez, gostaria de doar todos os órgãos que for possível e depois ser cremado. Que as cinzas sejam espalhadas no bairro onde eu vivo e que tanto gosto. Quanto ao ritual, gostaria de algo semelhante ao dos Americanos, onde se saliente as lembranças e os bons momentos que compartilhei com as pessoas que estiverem presentes. Em vez de comunicar o luto, divulguem um meme engraçado ou coisa parecida.  A morte deixa saudades, mas a gente só sente saudade de coisas boas e de pessoas que foram importantes para a gente. O que podemos fazer hoje, e não amanhã, é buscar ser o mais feliz possível e fazer os outros tão felizes quanto nós. Estas serão as lembranças que ficarão. E quanto a tudo o que acumulamos, em pouco tempo tudo vai virar pó.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

23Oct
Coluna Dominical

Quando a coisa tá ruim, surge outra melhor!

– 23 de outubro de 2016

Luis Felipe Nascimento(*)

Desde os primórdios da sua existência, o homem vive em bandos e nos bandos sempre houve divisão de tarefas. O chefe era aquele que conseguia liderar o grupo contra os inimigos, para tanto, deveria ser o mais forte, o mais inteligente, o mais carismático ou algum outro critério que inspirasse confiança nos seus liderados. Não dá para imaginar um grupo primitivo escolhendo o líder entre o “pior e o menos pior” dos candidatos, certo?

Ao longo da história, passamos por diversas formas de organização social e, sempre que a “coisa ficava muito ruim”, surgia uma nova forma de organização. Por exemplo, o homem era nômade e vivia do que ele colhia e caçava. Em função das mudanças climáticas surgiram enormes desertos e não tinha mais o que colher e caçar nestas regiões. O homem ficou reclamando e insistindo em ser nômade? Não! Procurou os vales dos rios, aprendeu a cultivar e estabeleceu “residência fixa”. Quando vieram os períodos de repressão, escravidão e outras formas de poder que desagradavam a maioria, o homem soube encontrar formas para acabar com elas e construir algo melhor.

Agora, imagine uma sociedade em que a maioria dos usuários estão descontentes com os serviços de saúde e educação que recebem. Em que os cidadãos se sentem inseguros para andar nas ruas e as vêzes são mortos por engano. Uma sociedade em que, apesar de pagar altos impostos, as cidades e os estados estão falidos. E para completar, no momento de eleger seus representantes, na expectativa de melhorar esta situação, aparecerem muitos candidatos, mas os melhores são eliminados e a opção final é entre o “pior e o menos pior”. Por quanto tempo você acredita que este modelo de organização sobreviveria?

Seria exagero dizer que estamos vivendo este momento, ou próximo disto? Os Estados Unidos nunca tiveram candidatos tão impopulares numa eleição como Hillary e Trump. Existiam candidatos melhores dentro dos dois partidos, mas eles tomaram cuidado para escolher os mais impopulares. Restou aos eleitores a opção entre “pior e o menos pior”. Em algumas eleições brasileiras tem acontecido algo semelhante, coisa que o homem primitivo seria incapaz de fazer. Parece que os partidos políticos se tornaram autofágicos, estão fazendo de tudo para se destruirem.

Temos nos resignados diante das opções que nos oferecem, pois acreditamos que, se não for assim, com este modelo de democracia, só nos resta a ditadura. Nas eleições, geralmente temos 30% que apoiam o candidato A, outros 30% que apoiam o candidato B e 40% de indecisos e desinteressados, que são os que decidem. Na prática, a proposta vencedora atende o interesse de 30% dos eleitores! Será que tem que ser assim? Por que não pode surgir formas mais democráticas de escolher os representantes?

O que vai acontecer nos próximos anos? Me arrisco a pensar que vai ser muito diferente, pois existem uma conjunção de fatores que vão gerar uma mudança estrutural. Temos uma crise de credibilidade dos partidos, ineficiência no cumprimento das funções do estado, aumento da criminalidade, etc. Por outro lado, existe inteligência, tecnologias inovadoras de gestão, interesse de muitas pessoas e criar algo novo e a chegada de uma geração que não espera pelo estado para empreender. Eles discutem os problemas por meio de fóruns e grupos de discussão na internet e mobilizam milhares de pessoas de um dia para outro. Esta garotada que está chegando ao mercado de trabalho não tem paciência para esperar quatro anos de um governo ineficiênte para talvez eleger outro melhor.  

Você concorda que os problemas do seu bairro poderiam ser resolvidos usando os recursos e a mobilização das pessoas do próprio bairro? Que os problemas das cidades poderiam ser resolvidos pelas próprias cidades? Se esgotou este modelo de recolher todos os impostos e mandar para Brasilia para depois mendigar os recursos de volta. Uma gestão descentralizada e participativa encontrará soluções inovadoras. Como fazer? Vejam o que está sendo praticado em algumas organizações sociais e de pequenos empreendimentos. Tenho acompanhado o trabalho de empreendedorismo social e criação de novos negócios em Porto Alegre e fiquei impressionado com tudo o que foi feito em apenas um ano, sem participação do poder público ou de grandes empresas. Por isto tudo é acredito que a coisa vai melhorar.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com