01May
Coluna Dominical

Quem é mais importante: o cientista ou o artista?

– 30 de abril de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Uma resposta apressada certamente diria: o cientista! Parece óbvio, o cientista poderá descobrir a cura do câncer, resolver problemas da sociedade, enquanto que o artista vai pintar um quadro, compor uma música, interpretar um papel, ou coisa parecida. Assisti um palestra em que o palestrante questionou quem faria mais falta para a humanidade: Einstein ou Picasso? Ou seja, caso eles não tivessem existido, qual deles faria mais falta?  

Nesta palestra foi apresentada a seguinte argumentação: O cientista investiga um problema e corre para conseguir encontrar a solução, para ser o primeiro a divulgar, leia-se “publicar”os resultados da sua pesquisa. O palestrante não questionou as contribuições dos cientistas, mas chamou a atenção para o fato de que existem diversos cientistas e grupos de pesquisas pesquisando o mesmo tema. Por exemplo, existem vários grupos pesquisando as causas do mal de Alzheimer. Se o grupo que está mais avançado perder tempo por algum motivo, é provável que seja ultrapassado por outro. Portanto, existe uma “corrida científica” para chegar aos objetivos antes do que os outros. No caso das artes, também existem disputas por recursos, mas as artes dependem muito mais do talento individual. Os grandes mestres das artes possuem seguidores e criam seu próprio estilo, mas se Picasso não tivesse existido, nenhum dos seus seguidores teria pintado os seus quadros. Se Einstein não tivesse existido, é provável que a teoria da relatividade teria sido descoberta algum tempo depois.

Pode parecer uma discussão um tanto sem sentido fazer a comparação entre a importância do cientista e do artista, uma vez que os dois são fundamentais para a humanidade. Meu objetivo é provocar uma reflexão sobre a possibilidade/necessidade da aproximação “Ciência” e “Arte” para desenvolver e divulgar o trabalho científico. Talvez você esteja pensando: “Como assim? Ciência e Arte são coisas totalmente diferentes!” Veja bem: o cientista trabalha assim: 1) identifica um problema (o câncer); 2) verifica o que já se sabe sobre as causas e a possível cura do câncer; 3) desenvolve a sua pesquisa visando trazer algo de novo e, 4) divulga (publica numa revista científica) o que ele descobriu de novo. O cientista não pode esconder o jogo, ele precisa explicar detalhadamente o que descobriu, como se fosse uma receita de bolo, para que outros possam repetir aquela experiência e chegar aos mesmos resultados. Já o artista trabalha assim: 1) ele tem, ou desenvolveu, uma habilidade artística (pintar, cantar, encenar, tocar um instrumento); 2) tem uma inspiração para criar alguma coisa, ou para fazer um trabalho da sua maneira; 3) cria/desenvolve este trabalho usando o seu talento e, 4) divulga para o público. O artista não precisa explicar como ele fez o seu trabalho. Se alguém desejar reproduzir a sua obra, terá que pedir a sua permissão, ou então será plágio. Na ciência, desde que seja feita a referência ao autor (dado o crédito a ele), não é necessário a permissão para produzir a experiência e usar os resultados deste autor.

Para gerar conhecimento é necessário aprender e ensinar, e geralmente fazemos isto usando basicamente a visão (leitura) e a audição (ouvir alguém falar). Alguns escrevem, para guardar a informação e aprendem ao escrever. Pouco exploramos o olfato, tato e o paladar. Poderiamos ainda usar outros sentimentos para gerar conhecimento. O cientista está mais preocupado em “descobrir algo novo” e “publicar este resultado”, não importando muito se alguém entendeu ou não, isto é problema dos outros. Da mesma forma, tem professor que “dá a sua aula” sem se preocupar se os alunos entenderam, ele diz que fez a parte dele.

Então, como que a Arte pode auxiliar a Ciência na geração do conhecimento? Uma vez que Arte é criativa e também gera conhecimento, por que então não associá-la com a ciência para inspirar o cientista no seu processo criativo? E na divulgação dos resultados das pesquisas, por que não aprender com a Arte como transmitir algo, supostamente complicado, de forma simples e “palatável” ao grande público? Talvez um desenho, uma animação, um video, uma música ou uma encenação consigam melhor explicar um conteúdo, do que um texto (a publicação científica). Obviamente que estas formas de expressão não substituem o texto escrito, mas auxiliam na sua divulgação e no seu entendimento. Portanto, se não ficou claro para você o que eu quiz dizer neste texto, foi porque eu não soube explicar ou porque usei apenas uma única forma de comunicação – o texto escrito!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

23Apr
Coluna Dominical

O Congresso é mais conservador que o povo?

– 24 de abril de 2016

Luis Felipe Nascimento

Os debates e a votação Impeachment nos permitiram melhor conhecer o nosso Congresso. Além das declarações de voto, que decepcionaram muita gente, preocupam também as bancadas que defendem interesses de setores da sociedade.

A Folha de São Paulo publicou dados sobre a chamada Bancada “BBB – Boi, Bíblia e da Bala”. Segundo a Folha, a Bancada da Bíblia, da qual faz parte Eduardo Cunha e que tem como seu principal expoente o pastor Marco Feliciano, possui 199 deputados. A Bancada do Boi – que tem como expoente Ronaldo Caiado, possui 215 deputados. Já a Bancada da Bala – que tem como exponte Jair Bolsonaro – possui 294 deputados. Dos parlamentares da bancada BBB, 53 são membros das três bancadas http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/04/1762237-bancada-bbb-do-boi-bilbia-e-bala-engrossa-derrota-de-dilma-na-camara.shtml

Estes números variam conforme a fonte, mas mesmo assim me surpreendi com o tamanho destas bancadas e me questionei se o congresso é mais ou menos conservador do que o povo brasileiro? Será que na hora do voto o eleitorado prefere um candidato conservador a um progressista? Será que o Congresso bem representa a composição do povo brasileiro? Foi então que encontrei a figura em anexo, que mostra que as mulheres representam 51% da população, mas no Congresso são apenas 9%, já os empresários que representam 3% da população, ocupam 50% das cadeiras no Congresso – http://www.carosamigos.com.br/index.php/revista/189-edicao-220/5199-stedile-o-congresso-representa-a-quem-mesmo

Tem ainda a desproporção na representação entre os maiores e menores estados. Em São Paulo, cada 457 mil eleitores elegem um deputado, enquanto que no Acre bastam 62 mil. Independente da sua população, todos estados possuem 3 senadores no Congresso. Como corrigir estas distorções? As distorções começam no sistema eleitoral, que permite que o eleitor vote num candidato conhecido de um partido desconhecido. Dizem que a gente sabe em quem vota, mas não sabe quem elege, pois 93% se elege com os votos dos colegas. E o pior, o eleitor nem lembra em que votou na última eleição. Dos 28 partidos representados no Congresso, poucos possuem coerência política, o restante negocia seus votos em troca de favores.

Há quem diga que “o Congresso é o espelho do povo” ou, “que isto só vai mudar quando os eleitores se conscientizarem”. Outros dizem que “o povo é influenciado pelo Congresso, pela mídia, etc, e estes não estão interessados em mudanças”. Assim, ficamos como um cachorro correndo atrás do rabo. Penso que uma forma de romper com este círculo, seria com a implantação do voto distrital e do Parlamentarismo. Se hoje no Brasil, o sistema fosse parlamentarista, não teria toda esta crise. No Parlamentarismo, quando quem governa perde a confiança, troca-se o primeiro ministro. Se os parlamentares não se entendem, ou quando ocorre sucessão de governos instáveis, dissolve-se o parlamento, convoca-se novas eleições e segue a vida. Portanto, pode sim ser diferente! Podemos ter um Congresso que melhor represente nosso eleitorado.

Sugestão de leitura: Perry Anderson faz uma análise do que aconteceu nas últimas décadas no Brasil. Leia em https://blogdaboitempo.com.br/2016/04/21/perry-anderson-a-crise-no-brasil/

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

16Apr
Coluna Dominical

Por que sempre batemos o dedo machucado?

– 17 de abril 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Sempre que estou com uma lesão no corpo, agravo ainda mais esta lesão com batidas acidentais. Se a lesão for no terceiro dedo do pé, aquele bem do meinho, eu levanto da cadeira e “plá”, acerto em cheio a quina de um móvel, o pé da cama ou até mesmo a porta. Azar? Não sei, mas o dedo machucado sempre dá um jeito de se enroscar em alguma coisa. Isto também acontece com você? Eu tenho uma teoria que explica isto, depois eu falo.

Veja que estas tentativas de “mutilação” não são apenas iniciativas nossas, os amigos também colaboram. Por exemplo, o meu médico diagnosticou que estou com o ombro esquerdo “congelado” em decorrência de uma lesão. Ou seja, não consigo levantar o braço esquerdo e o tendão no braço está muito dolorido. Como não é uma lesão visível, as pessoas não a percebem. Resultado, toda vez que encontro um conhecido, levo um tapa bem na parte mais dolorida do braço. Numa festa, onde reencontrei muitos amigos, foi uma tortura. Parece que eles haviam se combinado e se revezavam nas batidas.  Um amigo muito querido me abraçou, depois fechou o punho e deu vários socos em cima do meu tendão dolorido dizendo: “…e aí, como vai, quanto tempo, tudo bem contigo?” A minha resposta foi: “Estava bem, mas agora estou com muita dor!”

Tentando entender por que estas coisas acontecem, pesquisei e encontrei algumas teorias. Há quem explique este fenômeno utilizando a “Lei das Atrações”. Dizem que dedinho do pé é atraído por ponta de móveis, assim como molho de tomate tem uma “quedinha” pelas camisas brancas. Já o café preto adora a toalha branca da mesa. Se você não segurar bem firme a tampa do creme dental, ela vai pular da sua mão e vai para onde? Para o ralo da pia, é óbvio! Outros dizem que isto acontece devido a “Lei da Gravidade”. Agora me diga,  se a gravidade puxa tudo para baixo, por que então o dedo indicador sobe e fica um tempão cutucando o nariz? Existe uma atração inexplicável entre “dedo e nariz”. Portanto, a Lei da Gravidade não é suficiente para explicar este fenômeno, e a Lei das Atrações não é reconhecida pelos cientistas. Resolvi continuar  minha pesquisa.

Para eventos incertos ou desconhecidos, os cientistas recomendam o uso da “Lei das Probabilidades”. Mas, bater o dedo machucado não é uma probabilidade, é quase uma certeza. Quando o dedo tá bom, você passa um ano sem batê-lo, mas quando ele está machucado, você o bate três vezes por dia. Portanto, esta lei também não serve. Edward Murphy explicou estes fenômenos dizendo que “se alguma coisa pode dar errado, ela vai dar errado”. Foram feitos testes e não houve comprovação de que “toda partícula que voa sempre encontra um olho aberto”. A conclusão foi de o Murphy era um pessimista! Diante desta falta de explicação, desenvolvi a “Teoria do Espírito Sádico”.

Teoria do Espírito Sádico? Sim. Eu explico. Não existe azar ou pessoa desastrada. Quando estas coisas acontecem, a culpa é do “espírito sádico”que anda vagando por perto de nós. Ele convida o espírito da pessoa que se aproxima para pisar na sua unha encravada ou para bater no seu braço machucado, e até aponta o lugar exato. Quando você passa perto de um móvel, ele empurra “discretamente” o seu pé para encaixar o dedinho machucado exatamente na quina do móvel. Você não vê, mas o espírito sádico se mata rindo ao ver a sua cara de dor. Afinal, ele é um sádico!

Os espíritos sádicos preferem o Brasil aos países europeus. Aqui eles se divertem muito mais, pois os brasileiros tocam ao cumprimentar uns aos outros, e os europeus não. Por exemplo, um abraço “quebra-costelas” não faz sentido na Alemanha, mas é uma prática comum no Brasil. Pude comprovar esta teoria no dia em que o espírito sádico convenceu o meu espírito a abraçar uma amiga, que acabara de sair de uma cirurgia na coluna. Não sei por que, mas naquele dia resolvi dar um abraço apertado nela, e fiquei constangido ao ver a sua expressão de dor com  meu quebra-costelas. Juro que eu não sabia da tal cirurgia, foi tudo culpa do espírito sádico! Portanto, para não seguir as recomendações do espírito sádico, antes de você tocar em alguém, consulte a pessoa onde pode tocá-la? No meu caso, nos próximos meses, por favor bata apenas no meu braço direito. O tendão do braço esquerdo agradece.      

Obs: Se você concorda com esta teoria, recomende-a para o “Prêmio IgNobel”(paródia do Nobel), que tem por  objetivo “primeiro fazer as pessoas rirem, e depois pensarem”.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com