21Aug
Coluna Dominical

Rio 2016 – Uma Olimpíada muito diferente do esperado!

– 21 de Agosto de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

A Olimpíada Rio-2016 não aconteceu como era esperado em muitos aspectos. Revisando o que aconteceu desde a candidatura do Rio de Janeiro, vale lembrar que a escolha das cidades sede ocorre em duas fases. Na primeira fase eram sete cidades candidatas e o Rio ficou em quinto lugar. Quatro cidades passaram para a segunda fase e, mesmo não sendo esperado, o Rio de Janeiro passou, juntamente com Madri, Tóquio e Chicago. A decisão final ocorreu em outubro de 2009 na Dinamarca. Lá estava a delegação brasileira com atletas como Cielo e Pelé, personalidades e políticos. João Avelange era membro decano do COI. O Rio de Janeiro, que já havia concorrido em três oportunidades, desta vez foi a vencedora, tendo como principal argumento o fato de nunca ter sido realizado uma Olimpíada na América do Sul e pelo momento econômico positivo que vivia o Brasil. Lula foi destaque na mídia nacional e mundial como grande negociador. O resultado foi comemorado por cem mil pessoas nas areias de Copacabana e grande parte dos brasileiros se encheu de orgulho. (https://www.youtube.com/watch?v=lH0Vjr88T3Q )

Passados 7 anos, muita coisa mudou: A conjuntura político-econômica e a auto-estima do povo brasileiro está totalmente diferente do momento da candidatura; João Avelange, envolvido em escândalos, foi “convidado” a renunciar sua posição no COI e morreu durante a Olimpíada; Lula e Dilma não puderem aparecer na Olimpíada e Temer foi vaiado; Pelé doente, não conseguiu acender a pira Olímpica; Cielo – esperança de medalhas – não entrou nas piscinas. O que não mudou, foi a baía da Guanabara, que continua poluída.

Quanto custou esta Olimpíada? Dizem que foram 39 bilhões de reais: 22 bilhões vieram do setor privado e 17 bilhões do setor público, sendo que do investimento público, 14 bilhões foram para as chamadas “obras de legado” como revitalização do porto, VLT, expansão do metrô (que vai ficar pronto depois das Olimpíadas), BRT Transolímpica, etc. A descrição dos custos da Olimpíada e as fontes são detalhados no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=MmqcUJ5Ig88.

Este valor é compatível com o de outras Olimpíadas? Sim! As Olimpíadas de Londres e de Pequim custaram cerca de 60 bilhões de reais. É verdade que o Brasil já tinha gasto com a construção de estádios para a Copa e com a construção de equipamentos para o PAN 2007. Considerando que o Rio está quebrado, caos na saúde, violência, etc, a pergunta que se faz é: “valeu investir 17 bilhões de dinheiro público?” Estas obras eram realmente necessárias? Na hora da candidatura, pensávamos que sim, hoje, no meio da crise, provavelmente diríamos que não. Mais educativo teria sido, se tivessemos feito como fez a cidade de Cracóvia, na Polônia, onde o governo organizou um referendo oferecendo as seguintes opções e perguntou para a população: O que você considera mais importante para a cidade? Hospedar os Jogos Olímpicos de inverno em 2022? Construir um metrô? Implantar sistema de câmeras para melhorar a segurança pública da cidade? Construir mais ciclovias? As três últimas foram aprovadas. A população disse que não valia o investimento para hospedar os Jogos Olímpicos de inverno. Resultado: a cidade abriu mão da sua candidatura!

Como foram nossos atletas? Não foi como o esperado! No início dos jogos, as equipes masculinas do futebol e vôlei, que eram esperança de medalhas, foram mal. Por outro lado, as equipes femininas do futebol, vôlei de quadra e de praia e handebol largaram bem e se criou grande expectativa de medalhas. Neymar era vaiado e Marta aplaudida. Será que isto influenciou de alguma forma nos resultados finais? Não sei, mas o certo é que as equipes femininas, sem ter a mesma estrutura de apoio das equipes masculinas, consquistaram a torcida e lotaram os estádios.

Atletas militares? Ficamos surpresos ao ver nossos medalhistas baterem continência ao ouvir o hino nacional. Não sabiamos que 145 dos 465 atletas brasileiros (31%) que disputaram esta Olimpíada são “militares temporários”. Antes que alguém diga que foi projeto do Bolsonaro, é bom lembrar que isto foi iniciativa do Lula, que em 2008 criou o Programa de Incorporação de Atletas de Alto Rendimento numa parceria dos Ministérios da Defesa e dos Esportes. Bom para as Forças Armadas brasileiras que passaram de 1 medalha de ouro nos Jogos Militares Mundiais de 1999 e 2003, nenhuma em 2007, para 45 medalhas de ouro em 2011. Bom para os atletas que passaram a ter salário, plano de saúde e instalações para treinar.  http://www.marceloauler.com.br/gracas-a-lula-as-forcas-armadas-se-beneficiam-dos-atletas-militares-termporarios/

Resultados históricos: Além da tão sonhada medalha de ouro no futebol masculino, apareceram boas colocações e medalhas de onde menos se esperava. Três medalhas na Canoagem com o Isaquias. Rafaela (ouro no judô), o ouro e récorde olímpico do “cara da vara” (como é mesmo o nome dele? É o … Thiago Braz! Ter pódio com dois brasileiros na ginástica! (Diego Hipólito e Arthur Nory,  que entrou na repescagem). O bronze de Maicon Andrade no taekwondo foi a mais inesperadas das medalhas. O Brasil, em décimo terceiro, não alcançou a meta de estar entre os dez países com maior número de medalhas, mas ficou entre os dez primeiros colocados em modalidades como ginástica individual, handebol masculino, esgrima, pólo aquático masculino, entre outros.

Nem todo ouro reluz da mesma forma: As sete medalhas de ouro não possuem o mesmo brilho. As medalhas do futebol masculino e do volei de quadra masculino ganharam o maior destaque. Comparada com estas, a medalha do Volei de Praia parece de prata. E as demais, a do Salto com Vara, Box e da Vela, brilham quase como um bronze. Uma evidência disto é a recompensa de 35 mil reais paga aos medalhistas brasileiros, com exceção dos jogadores do ouro no futebol, onde cada um receberá 330 mil reais. Esta é a lógica brasileira: quem recebe os maiores salários e tem mais apoio, receberá 17 vezes mais do que os atletas das demais modalidades.

Na minha Olimpíada, brasileiros(as) ganhariam medalhas nas seguintes modalidades: “Mais belas apresentações”- ouro para as meninas do Nado Sincronizado. Prata para a Ginástica Rítmica com a fita, massas, arco e bola. Bronze para hipismo. Na categoria “Maiores emoções”, daria Ouro para as defesas de pênaltis da Bárbara e do Weverton, no futebol. Prata para o Brasil ao vencer a Espanha no Basquete por apenas “um” (01) ponto feito no último segundo. Bronze para alguns sets emocionantes do Vôlei. E na categoria “Superação”, Ouro para a Rafaela (Judô), Prata para o Isaquias (Canoagem) e Bronze para Bruno (Vôlei de praia), que por três vezes pensou em largar o esporte. Na modalidade “Valeu meninas”, daria ouro para as meninas do vôlei de quadra, Prata para as meninas do futebol e bronze para as meninas do vôlei de praia. Todos momentos de muita dor e lágrimas. Confesso que chego ao final desta Olimpíada cansado de tanto torcer, mas valeu muito a pena. Acredito que a nossa percepção mudou da véspera da abertura (4 de Agosto)  para o final (21 de Agosto) da Olimpíada.

4 de Agosto de 2016 – Véspera da abertura da Olimpíada Rio 2016Se perguntássemos para alguém como será a Olimpíada Rio 2016? A resposta mais provável neste dia seria: “um caos!” Tínhamos quase certeza de que nada iria funcionar, de que teria zika, de que haveriam assaltos, arrastões e um possível ataque terrorista! E o que se viu foram pequenos problemas nos apartamentos da Vila Olímpica antes de começar os jogos, um roubo aqui ou alí e “mico olímpico” da mentira dos nadadores americanos e a falsificação dos ingressos feita por australianos. Faltou espírito olímpico para a torcida em alguns momentos, mas sobrou apoio e carinho em outros. Todos estes são problemas provavelmente menores que os que ocorreram em Londres, Pequim ou Atenas. 

21 de Agosto 2016 – Fim da Olimpíada! Não era esperado que a abertura da Olimpíada do Rio fosse encantar o Mundo. Não era esperado que a organização fosse um sucesso. Não era esperado que os atletas do Mundo todo elogiassem as instalações e se apaixonassem pelo Brasil. Por tudo isto, a Olimpíada Rio 2016 foi muito diferente do esperado!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

14Aug
Coluna Dominical

Pai é quem cuida!

– 14 de agosto de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

A relação pai e filhos mudou muito nos últimos anos. Nossos avós quase não se envolviam com os cuidados dos filhos. Conheci pais que nunca pegaram o filho no colo. Outros que chamavam o filho de “o guri lá de casa”. As respectivas esposas justificavam estas relações dizendo que o marido “não tinha jeito com criança!” Os pais passaram a assumir os cuidados dos filhos bem recentemente. O pai separado teve que aprender a trocar a fralda quando estava com os filhos. O comportamento esperado de um pai nos dias de hoje, é de que ele compartilhe com a mãe todos os cuidados dos filhos. Na prática não é bem assim, muitos pais cuidam dos filhos como se estivessem “quebrando um galho para a mãe da criança”. Um livro que fala da relação “pai e filhos”, faz mais sucesso do que outro que fala da relação “mãe e filhos”. Dizer que fulana é uma ótima mãe porque cuida e se envolve com os filhos, parece óbvio! Uma mãe buscar o filho no colégio faz parte da sua rotina, mas o Temer pousou de ótimo pai por buscar o filho no colégio uma vez e o fato virou notícia nacional. A propaganda que diz “não basta ser pai, tem que participar”, não deixa de ser um puxão de orelha nos pais. Portanto, houve avanços sim, mas em geral, a mãe ainda tem um maior envolvimento com os filhos do que o pai.

A mãe ama os filhos desde que descobre que está gravida e parece que o pai aprende a amá-los quando pega os filhos em seus braços e passa a conviver com eles. O bebê conhece o cheiro da mãe, é amamentado por ela e obviamente nesta fase é muito mais apegado com a mãe. Dependendo da relação do pai com os filhos na infância e adolescência, ele poderá se tornar o “pai herói” ou ter dificuldades de relacionamento com os filhos. Estas relações passam por diversas fases até os filhos chegarem na idade adulta. Quando adultos, os filhos entendem melhor as suas relações com o pai e com a mãe, bem como a relação entre os seus pais, e tendem a ser mais tolerante com ambos.

Por tudo isto, é compreensível que o “Dia dos Pais” não tenha a mesma relevância do que o “Dia das Mães”. O Dia das Mães é a segunda data mais importante do ano para o comércio, perdendo apenas para o Natal. Talvez, quando o Pai compartilhar de verdade os cuidados dos filhos com a Mãe, haja um maior equilíbrio. Pai só não consegue amamentar, o resto pode fazer! É provável que dentro de mais alguns anos os filhos terão nas suas lembranças que o pai, além dele ter sido quem lhes ensinou a andar de bicicleta ou que levou numa pescaria, também passou noites ao seu lado medindo a temperatura e segurando na sua mão. Ou ainda, daquele dia em que o pai chorou de alegria ao ver o filho no palco da escola.

Não se trata de ter ciúmes pelo Dia das Mães ser mais importante do que o Dia dos Pais, mas sim de perceber que, em geral, os pais ainda estão aprendendo a cuidar e se envolver com os filhos. Quem já experimentou sabe que não tem coisa mais linda do que cuidar dos filhos. Expressões como “Pai, eu te amo!”, “Você é o melhor Pai do Mundo!”, “Quando eu crescer quero ser como você!” assumem outro sentido quando ditas por filhos de pais que se envolveram nos cuidados e na educação dos filhos. Por isto que faz todo sentido dizer que “pai é quem cuida!”

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimento@gmail.com

07Aug
Coluna Dominical

Pouco-Money, Go!

– 7 de Agosto de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Chegou ao Brasil o jogo “Pokémon Go!” onde as pessoas usam o sistema 3G e o GPS do celular para capturar os Pokémons que estão espalhados pelas ruas ou concentrados em alguns locais. Aqueles bichinhos de antigamente, agora aparecem em realidade aumentada se movimentando como se estivessem na frente da sua casa, dentro da escola, do teatro ou do shopping. Quando encontra um Pokémon, o jogador atira uma “pokebola” virtual para capturá-lo. Se ele conseguir, então vibra com um “Gotcha!” (Peguei você!). Mas, muito mais interessante que o “Pokémon Go!” é o jogo “Pouco-Money, Go!”. Se você ainda não conhece este jogo, vou explicar para você.  

No “Pouco-money, Go!” a realidade “não é aumentada”. Existem duas categorias, os “Pouco-caso” e os “Pouco-money”. Os Pouco-caso são alguns políticos, empresas e parte da mídia que “adoram” os Pouco-money. Estes políticos gostam tanto que, com um simples canetaço, criam milhões de novos Pouco-money. Eles cortam as bolsas de estudo, reduzem as verbas para a educação e para a saúde, aumentam o desemprego, pagam salários parcelados, tudo para criar novos Pouco-Money. Empresas Pouco-caso são aquelas que enganam os Pouco-money anunciando qualidades que seus produtos não tem. Elas não estão preocupadas com os impactos negativos que causam ao meio ambiente e aos Pouco-money. E a mídia Pouco-caso é aquela que apoia as medidas dos políticos Pouco-caso, como por exemplo, publicando editais defendendo o ensino pago. Por que eles gostam tanto dos Pouco-Money? Ora, quanto mais Pouco-Money eles criarem e capturarem, mais fortes eles serão.

Trata-se de um jogo emocionante onde você não precisa de GPS ou 3G. O jogo não consome energia da bateria do seu celular, mas sim a sua energia! Para jogar, você precisa escolher um lado, ficar do lado dos Pouco-caso e caçar os Pouco-money, ou jogar pelos Pouco-money contra os Pouco-caso.

O jogo inicia com alguns Pouco-money sendo facilmente capturados com promessas eleitorais, ofertas de produtos de baixa qualidade e campanhas na mídia. Os Pouco-caso estão no poder, criando e caçando novos Pouco-money. Com o desenrolar do jogo, alguns Pouco-money conseguem escapar do domínio dos Pouco-caso. Eles lutam para evoluir e deixar de ser Pouco-money, o que contraria os interesses dos Pouco-caso. Aí começa a batalha e cada um utiliza as suas estratégias. Quem irá vencer? Isto depende da habilidade e da força dos jogadores.

Os Pouco-caso dizem que a situação só irá melhorar se reduzir os recursos para os Pouco-money e se eles trabalharem mais. Por outro lado, para conseguir mais apoios, liberam recursos e aumentam os salários  de outros Pouco-caso. Tudo faz parte do jogo!

A estratégia dos Pouco-money começa identificando quem são os Pouco-caso em nível municipal, estadual e federal. Depois eles divulgam a manipulação feita pelos Pouco-caso e conscientizam mais Pouco-money. Por fim, usam a sua arma letal, capaz de derrotar os políticos Pouco-caso, que é o seu voto nas eleições. Neste momento do jogo, os Pouco-money lançam a campanha “Pouco-money, Go!” com o objetivo de capturar os políticos Pouco-caso. Para cada político que for capturado,  eles gritam “Gotcha!” (peguei você!).

Não perca esta oportunidade, reúna seus amigos e jogue o “Pouco-money, Go!”. Você poderá aumentar o número de Pouco-money ou ajudá-los a evoluirem e deixarem de ser Pouco-money. De qual lado você está?

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com