18Jun
Coluna Dominical

Se meta na minha vida!

– 19 de junho 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

Você já disse ou já ouviu um “não se meta na minha vida”? Pois saiba que isto é bem mais complexo do que parece. Na minha opinião, existem duas formas de se meter na vida dos outros, a primeira: com objetivo de causar um mal para o outro, por meio de fofoca, difamação, maldades, etc. A segunda, com o objetivo de causar um bem para o outro, o que geralmente ocorre por meio de conselhos. Mesmo neste caso, a reação de quem recebe o conselho, pode ser negativa. Segundo o dito popular: “Se conselhos fossem bons, não seriam dados, mas sim vendidos!” Os psicólogos dizem que a pessoa precisa ter muita responsabilidade para “dar conselhos”, pois muitas vêzes o outro não pediu conselhos, ou se pediu, está querendo repassar a responsabilidade de uma tomada de decisão. Nos próximos parágrafos vou me dedicar ao “meter-se na vida dos outros” na intenção de causar um bem.

Acredito que a maioria das pessoas não gosta de ouvir conselhos, mesmo que estes visem o seu bem. Por que elas não ouvem, ou detestam, estes conselhos? Quando o conselho é dado sem ser pedido, a reação tende a ser (verbal ou em pensamento): “Ora, vá cuidar da sua vida/da sua família/da sua mãe/… e me deixe em paz!”. Os pais gostam de dar conselhos aos filhos. A reação dos filhos depende da “idade” e da “relação que possuem com os seus pais”. Quando eles ficam quietos, pensativos, não significa que estão ouvindo ou que estão aceitando o conselho recebido. Pode ser apenas uma estratégia para não polemizar. Eles sabem que reagir com um “não se meta na minha vida” pode custar uma longa conversa ou talvez um corte nas suas regalias (mesada, saídas para festas, acesso ao computador, etc.). Quando algum filho explode com um “não se metam na minha vida”, a resposta dos pais pode ser do tipo: “não somos nós que estamos nos metendo na sua vida, foi você que se meteu na nossa!” e apresentam uma lista de cobranças, de sacrifícios que passaram para dar o melhor para seus filhos. Isto pode sensibilizá-lo na primeira vez, mas depois vira discurso vazio. Outros preferem levantar a voz ou a mão, o que costuma ser a pior alternativa. Por outro lado, a falta de conselhos/orientações, bem como de limites, pode ser danoso para o futuro das crianças e adolescentes. Diante disto, surgem duas perguntas:

Quando se meter na vida dos outros? Quando o outro lhe pedir um conselho! Encare como uma grande honra e uma grande responsabilidade se alguém lhe pedir um conselho. E se o outro não lhe pedir conselhos e estiver se autodestruindo (envolvimento com drogas, conduta irresponsável, etc.)? Se for alguém que você quer muito bem, vai deixar assim ou vai dar aquele “chacoalhão”? Penso que é a hora de se meter! Não se trata de querer que esta pessoa assuma os seus valores ou o seu modo de viver, mas sim de trazê-la de volta aos valores dela, para a sua antiga trajetória.  

Como se meter na vida dos outros? Existem muitas estratégias, talvez a melhor forma seja a de se colocar no lugar do outro. Em determinadas situações, o melhor que se pode fazer é dar subsídios para que a pessoa tome suas próprias decisões. Julian Treasure na palestra “Como falar para que os outros ouçam” (How to speak so that people want to listen) num TEDx, diz que para ser ouvido é necessário ter na fala: “Honestidade” – ser verdadeiro no que diz, ser direto e claro; “Autenticidade”- ser você mesmo; “Integridade”- ser a sua palavra e “Amor”- querer o bem para o outro.

Nesta perspectiva, o “se meter na vida do outro” é um ato solidário, cada vez mais escasso, pois vivemos numa época em que o legal é “respeitar as escolhas dos outros”, sejam elas boas ou autodestrutivas. O “respeitar” se transformou numa desculpa para não nos metermos na vida dos outros e para não permitir que se metam na nossa. A tendência hoje, mesmo com as pessoas mais próximas, é de nós dizermos somente o que elas querem ouvir e de ouvir delas o que gostamos de ouvir. Ninguém mais quer “se meter” na vida dos outros!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

13Jun
Coluna Dominical

Feliz dia dos Namorados (1,2,3,4,5,6,7,…)!

13 de junho – Dia de Santo Antonio

Patrícia Tometich(*)

Dia 12 de junho de 2016. Estou no ônibus voltando do litoral para Porto Alegre e levo comigo um livro que venho estudado, mas e uma voz exatamente atrás de mim distrai minha concentração.

– Oi Júlia! Feliz dia dos namorados! (…) Ah, tu não me namora mas eu te namoro hahaha então estou ligando para desejar um feliz dia, né?

É. Ele quer conquistar a menina. Justo.

– Tá né, tu não me namora, só me pega direto! Hahaha Olha só, eu tô indo aí pros teus lados, sabia? Tá fazendo o que? (…) É mesmo? Na sexta estive ai e passei na tua casa, mas tu já tinha saído.

Está rolando pegada, e direto, pelo visto o rapaz pode se dar bem.  Talvez ela só não precise desses rótulos, porque as classificações podem atrapalhar os relacionamentos.  Parece que está difícil acontecer o encontro, vai ver ela nem o quer. Eles conversam um pouco mais e penso que logo vou poder me concentrar no meu namorado, digo, no meu livro. Mas… nova ligação…

– Boa tarde meu amor! Como está você? (…) Olha, eu já estou no ônibus voltando da praia, mas não posso ir te ver porque o Seu Antônio me ligou e disse que chegou o material lá e preciso dar uma conferida, depois vai ficar tarde. (…) Não, não posso deixar pra amanhã linda, infelizmente. Sabe que trabalho tá difícil, então não dá pra deixar o Seu Antônio esperando! (…) Tá, fica bem e logo que der a gente comemora nosso dia, te ligo amanhã. Beijo amor!

Parece que o rapaz tem relacionamentos abertos. Nada contra. Eu já torcendo para que a pegada ficasse séria com a Júlia e escuto essa segunda conversa. Acontece. Eu gosto do envolvimento que faz a gente esquecer que existem outros no mundo, mas são apenas formas diferentes de sentir. E reflito que ele tem razão numa coisa: a vida está complicada, trabalho não tem a toda hora, e dia dos namorados pode ser qualquer um, não precisa comemorar na data comercial. Abrindo meu livro e…

– Feliz dia dos namorados Miriam! Estou morrendo de saudades de você minha loira!

É, ele definitivamente tem relacionamentos abertos. É o tal de Poliamor. Tenho amigos adeptos e acho interessante porque ao invés de enganar os parceiros, eles abrem. Sem hipocrisia, eles sentem necessidade de amar pessoas diferentes, querem construir outras formas de se relacionar. Muito digno.

Já pensei no assunto. Eu demorei mais de 40 anos para aprender a ser solteira, mas por fim entendi que posso sair com pessoas diferentes e passar bons momentos sem para isso precisar de um envolvimento sério. Devo confessar que nem sempre me sinto confortável assim. Deve ser algo relacionado aos astros, porque a pessoa nasceu em uma conjunção complexa: Touro, das pessoas estáveis, fiéis; com ascendente em Câncer, o signo da família; e a lua em Escorpião, que é o signo da intensidade e profundidade na expressão dos sentimentos. Danou-se! E não parou por ai, não, no horóscopo Chinês eu sou Cão. Aquele mais fiel entre os fiéis sabe? Bom, se o relacionamento é múltiplo, não seria infidelidade e poderia acontecer. Poderia, mas me conheço o suficiente para saber que o outro se quisesse teria várias parcerias, e eu ficaria na dele mesmo, porque é desse jeito que eu funciono. Se eu iria morrer de ciúmes? Morrer não, mas me coçar muito. Pelo menos não seria enganada, como já fui. Não sei se daria certo, mas estaria disposta a tentar, pois quem sou eu para dizer ao outro como ele deve se comportar? De que jeito ele deve amar? Como ele deve sentir? Eu quero amar sem oprimir, sem impor, assim como não quero imposições e nem opressão para o meu lado, então nada de mais em aceitar o outro como ele é. Espontaneidade e tudo. Nada de mais na conversa do nosso rapaz falante no ônibus até que…

– É uma pena Miriam, mas eu realmente preciso ir até a casa da minha irmã e ajudar ela com as crianças, ela não tá bem.

Opa, opa, opa! Ele recém disse que iria trabalhar! E o Seu Antônio? Vai ficar na mão? Tem algo errado aí minha gente!

– Sim linda, eu sei, e eu também fico triste por não estar contigo nesse dia, mas a gente comemora na quarta, tá? Te levo no cinema e tu pode escolher o filme.

É, cada um com seus problemas, o negócio é me concentrar na leitura, mas…

– Joana minha musa! Feliz dia dos namorados meu doce! Quero comemorar muitas e muitas vezes esse dia com você minha gata! (…) Então, hoje estou na casa dos meus pais, eu te falei né, que viria pra cá. (…) Claro minha musa, eu vou te recompensar por essa ausência, com certeza vou!

Não meu bem, você não está na casa dos seus pais, diz logo que está no ônibus e para com a palhaçada! Agora eu comecei a ficar incomodada. Poxa, se fosse relação aberta, se fosse sem hipocrisia, legal. Mas mentira em cima de mentira não! Tá, não tenho nada a ver com a vida dele, da Júlia, da “amor”, da Miriam ou da Joana… Agora o telefone dele toca.

– Boa tarde! Pra tu também minha linda! Ah Lucinha só tu me entende! Que sorte ter tu na minha vida paixão. (…) É, eu tô indo ver meus pais sim lindinha, mas amanhã eu tô aí pra te amar, tá? Me espera! Um beijo na tua boca!

Também não tenho nada com a vida da Lucinha. E nem quero olhar pra trás pra ver a cara do moço, porque certamente é de pau. Só pode! Tanta mentira. De novo, a voz dele:

– Tati? Oi linda, feliz dia dos namorados! (…) Então, eu tô aqui na praia trabalhando, uma pena não poder estar pertinho de ti nesse dia paixão. (…) Não fica assim meu amor, tu sabe que eu sou louco por ti e que por mim não desgrudava nunca, mas é a vida. Tá? Fica bem, e essa semana eu te ligo de novo, vou tentar te ver no finde, mas ainda não posso prometer porque não sei se vai dar pra acabar o serviço, o patrão não dá moleza. Beijos no seu coração minha linda!

Deve ser complicado administrar essa mulherada. E qual será a técnica que ele usa para lembrar qual foi a mentira que contou para cada uma delas? Haja memória! Espera! Não é que agora parece que ele está falando a verdade?

– Vera? Oi meu bem, eu já estou no ônibus, a caminho da tua casa! (…) Mas é claro, hoje é o nosso dia e eu e acho que eu não precisava nem avisar né? (…) Ah, não, teus tios estão ai? Manda embora! Dá um jeito porque quando eu chegar te quero só pra mim! Dia dos namorados é pra namorar amor, não quero família ai enfiada no nosso meio, poxa. (…) Tá bom, eu vou descer naquela parada de sempre. Usa aquela roupa que eu gosto tá? Aquela! Beijão

Júlia; “meu amor”; Miriam; Joana; Lucinha; Tati e Vera. São sete. A Vera foi sorteada para passar a noite dos namorados. Mas pensei que a coisa dele era mesmo com a Júlia, revelador esse papo de “tô indo pros teus lados, tu tá fazendo o que?”. E deu as desculpas para quatro de suas amadas, recebeu a ligação da que é, provavelmente, a apaixonada compreensiva; e mandou a sétima se livrar das visitas já que ele estava a caminho. Parece que a moça não esperava, mas não se opôs também a receber o rapaz. É. Eu fiquei pensando se ela foi escolhida por estar no caminho que o ônibus passa, ou qual seria o critério do moço. Mas não era eu quem dizia a pouco que não tinha nada a ver com isso? Chega.

O silêncio. Mergulho, finalmente, no mundo do livro, das palavras que se juntam para expressar significados e incitar ideias e não para esconder atos. Não que elas não possam esconder, estando nos livros, algumas ideias, sentimentos, atos e deslizes. Elas podem. Curiosamente, o livro trata de limites: “(…) não se trata de uma limitação de direito, ainda que o direito se ache na obrigação, um dia ou outro, de transcrevê-la em forma de regras a não serem transgredidas”[1].

“Regras a não serem transgredidas”. Por que é preciso enfatizar que há regras que não podem ser transgredidas? Significa dizer, então, que algumas regras podem ser? As regras escritas teriam mais valor do que, por exemplo, os acordos tácitos entre namorados? Acordos que podem ser de fidelidade, de liberdade, de aventura, ou como queiram os envolvidos. Seja como for, nunca soube de um acordo que envolva a mentira.

Não posso evitar perceber o movimento na poltrona atrás de mim quando o rapaz chega ao seu destino, descendo para encontrar Vera. Será que as outras seis vão ficar sozinhas? Secretamente torço para que a Lucinha (a compreensiva que se antecipou em ligar) seja tão sincera quanto o rapaz e esteja se preparando para um encontro especial nesta noite.  Pois já cantava Cartola: “De cada amor tu herdarás só o cinismo, quando notares estás à beira do abismo, abismo que cavaste com teus pés”.

(*) Patricia Tometich é doutoranda no PPGA/EA/UFRGS

Contato: ptometich@gmail.com

[1] FOUCAULT, Michel. O nascimento da Biopolítica. São Paulo, Martins Fontes, 2008, p. 15.

12Jun
Coluna Dominical

O que você gostaria de ouvir ou de dizer no Dia dos Namorados?

– 12 de junho 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

O que faz do “Dia dos Namorados” uma data tão especial? Juntamente com o Dia das Mães, são as datas que lotam restaurantes e que aquecem o Mercado. No Dia das Mães, quando crianças, preparávamos um presente e faziamos uma apresentação na escola. Quando adultos, sempre queremos passar este dia com ela e lhe fazer carinho  lembramos. Já o Dia dos Namorados parece que perde força com o passar dos anos. Em geral, o significado deste dia para quem está no primeiro ano de uma relação é bem diferente de quem vive há 10, 20, 30 ou mais anos com o seu/sua namorado(a). Será que acaba o romantismo? As pessoas descobrem que este dia é um cliché? Ou seria a crise econômica? Aliás, dizem que em função da crise, tem casais rompendo a relação no sábado e reatando na segunda, para não precisar gastar com presente!

O Dia dos Namorados no Brasil é comemorado no dia 12 de junho, véspera de dia de Santo Antonio, o Santo casamenteiro. Este dia é uma cópia do Dia de São Valentim (Valentine’s Day) que é comemorado em 14 de fevereiro em diversos países. Quando o Imperador de Roma proibiu casamentos, por acreditar que homens sem família se alistariam com mais facilidade ao exército o bispo Valentim desobedeu o Imperador e continuou fazendo casamentos às escondidas. Resultado, o bispo romano foi condenado à morte e virou o santo protetor dos namorados.  Mais tarde, o comércio usou este dia para incentivar a troca de presentes entre os apaixonados.

Mas que presente se dá no dia dos namorados? Os mais tradicionais são flores, jóias e roupas. E o  que se faz neste dia?  Jantar romântico em casa ou num restaurante. Outras opções utilizadas são bailes, viagens, passeios que vão de picnic a hospedagem num hotel de luxo. E o que os namorados dizem, ou gostariam de ouvir e dizer neste dia? Fiz uma pesquisa com amigos e na internet sobre “o que você gostaria de dizer para o seu amor ou de ouvir do seu amor”? A seguir apresento alguns depoimentos:

  • “Cleusa, veja quanto somos importantes um para o outro e quanto nos amamos. Após 16 anos, continuamos namorando sem cair na mesmice” – Kellerman.

  • “Dorme mais um pouco, deixa que eu cuido do bebê” ou “deixa que eu troco a fralda” –(Brincadeira, tenho muita sorte, meu marido é um paizão!) – Marília.

  • “Neste dia, o que eu mais quero é sentir e passar coisas boas, muito carinho e amor, nesse e nos demais dias do ano. Espero é sinceridade nas palavras, independente do conteúdo delas”- Isa.

  • “Quando eu te conheci, não sei se me achei ou se me perdi … Eu não sei quanto de mim sou eu, quanto de você está em mim” – Canção Gene do Amor.

  • “Fiquei ao avesso, quando você fez a terra girar ao meu redor” – Day Anne

  • “Amo-te em silêncio. Eu só queria que tu percebesse, tudo sem eu ter que dizer nada. Ama-me no silêncio”- Isabel Ribeiro Fonseca

Pelas razões expostas acima, creio que este dia deveria ser chamado do “Dia do Amor”, o dia em que faríamos um agrado ao coração. Poderíamos lembrar de um grande amor do passado, do amor não correspondido, do amor que esperamos um dia viver, ou mesmo do amor que sentimos pela vida e pelas pessoas que amamos. Não precisamos ter um(a) namorado(a) para amar. A Martha Medeiros diz que “Não amamos o outro. Amamos o que o outro provoca em nós”.

Independente de ter um(a) namorado(a), pense o que você gostaria de ouvir ou de dizer sobre o amor. Vou continuar com a pesquisa. Me envie uma frase ou um parágrafo, com as usas palavras ou com as de algum poeta. Publicarei como você enviar, identificando ou não o seu nome, conforme sua vontade. O importante é expressar nossos sentimentos e dizer para o coração que ele não pode se aposentar. Não desista de amar e ser uma pessoa amada.

Dica: Assista o clipe “Gene do Amor” em https://www.youtube.com/watch?v=yD27a2LXnNQ

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com (envie para este e-mail ou poste no Facebook o que você gostaria de ouvir ou de dizer sobre o amor)