31May
Coluna Dominical

Boicotar as más ou promover as boas empresas?

– 28 de maio 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

A pessoa física tem CPF, a pessoa jurídica tem CNPJ e ambas têm direitos e responsabilidades e gozam de uma certa reputação na sociedade. Assim como nos enganamos com as pessoas físicas, frequentemente nos enganamos com as pessoas jurídicas, conhecidas como “Empresas”.  Nos últimos tempos nos diziam que as empresas multinacionais brasileiras seriam a força propulsora do desenvolvimento brasileiro. Chegamos a ter o oitavo homem mais rico do mundo… Enfim, as empresas e os empresários brasileiros estavam aparecendo nos rankings dos maiores do mundo. Isto era noticiado como motivo de orgulho para os brasileiros, lembram disto?

Os analistas diziam que em poucos anos a Petrobrás seria a maior empresa do mundo. E o que aconteceu? Tá quebrada! A Odebrecht era uma potência, fazia obras pela América Latina, África e também nos EUA. E o que aconteceu? Confessou que há décadas compra deputados para fazer leis em seu favor. Assinou um acordo de leniência. O grupo JBS se transformou rapidamente no líder mundial em processamento de carne bovina, ovina e avícola. E o que aconteceu? O valor da empresa caiu quando os donos contaram como manipulavam os políticos e as decisões dos governos. Tudo isto afetou não só o orgulho dos brasileiros que acreditavam na competência das empresas brasileiras, mas afetou também o bolso dos brasileiros, pois o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e “Social”, que é uma empresa pública – não é um banco comercial – é dono 21,32% das ações (R$ 8,1 bilhões) da JBS e lhe emprestou 3 bilhões (entre 2005 e 2016) a juros subsidiados. Quando uma empresa pública tem prejuízo, quem paga a conta? O público, é claro!

Recebi várias mensagens com apelos para boicotar as marcas do grupo JBS, como forma de demonstrar a indignação do povo brasileiro para com os proprietários. Ora, é difícil decorar os nomes das 38 marcas do grupo, pois só de proteína animal são 13 diferentes e ainda tem os laticínios, os cosméticos, a marca de tênis e até de chinelos de dedo. Não creio que este boicote terá sucesso, assim como outras tentativas também não tiveram. Penso que é mais eficiente apoiarmos empresas com boas práticas, que causam impactos positivos na sociedade do que boicotar as que causam danos para a sociedade. Como fazer isto? Como saber quem tem boas práticas de governança corporativa? Ora, podemos criar uma rede de credibilidade, como existem em serviços como o AirBnB. Existem sites como o ReclameAQUI  (www.reclameaqui.com.br) que indica as melhores empresas. Além disto, existem organizações sérias que avaliam a responsabilidade social das empresas. Podemos e devemos nos informar sobre quem é quem.

Conheci uma empresa que se perguntou: “e se nós desaparecêssemos hoje, qual a falta que faríamos para a sociedade?” Depois desta reflexão, a empresa mudou a sua conduta e deixou de produzir alguns produtos e de vender outros produtos para quem ela não queria como parceiros. Assim como esta, existem muitas outras que não pensam apenas no lucro, mas também em como fazer o bem para a sociedade, como um todo.

Por fim, o dinheiro é seu, ao decidir comprar alguma coisa, invista seu dinheiro em empresas com valores com os quais você se identifica. E quanto maiores forem suas exigências, mais as empresas terão que melhorar as suas boas práticas para tê-lo em seu rol de clientes. O ato de comprar, quase sempre, é uma escolha. Você poderá optar pela carne do açougue da esquina, do seu José, seu velho conhecido há 30 anos, ou escolher comprar da empresa multinacional que rouba o seu dinheiro e ri da sua cara, mas que aparece nas mídias se dizendo preocupada conosco e com o meio ambiente. Que este momento sirva para refletirmos sobre tudo isto. Não basta só denunciar e nos indignarmos com quem faz o mal, precisamos agora a falar e destacar quem faz o bem. Assim se cria uma rede de credibilidade que irá diferenciar o joio do trigo.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

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21May
Coluna Dominical

Give me five

– 21 de maio de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

A expressão give me five, na língua inglesa, pode significar “toca aqui, amigo” ou “e aí, parceiro”, sendo utilizada tanto para saudar os amigos como para celebrar momentos importantes da vida. Na língua portuguesa utilizamos expressões tais como “são só 5 minutinhos”, “ele volta em 5 minutos”, “não deu nem 5 minutos” para nos referirmos a um curto espaço de tempo. Mas, o que a expressão give me five teria a ver com os tais “5 minutos” dos brasileiros? Os americanos pedem os 5 dedos da mão para uma celebração, mas por que eu estaria pedindo 5 minutos de sua atenção? Pois bem, certo dia, recomendei a um acadêmico para que ele assistisse a um vídeo de 10 minutos e ele comentou: – “Tudo isto!?”. Entendi que 10 minutos seria tempo demais, mas se o vídeo fosse de uns 5 minutos, ele assistiria. Sendo assim, 5 minutos me pareceu ser um tempo que qualquer pessoa poderia “doar” para alguma coisa. 

Por isso, resolvi dar o nome de Give me five, ao projeto que convida as pessoas dizendo: “para um pouquinho”, “senta aí e me conta alguma coisa”, “ouve esta música”, “lê este texto” ou “assiste aqui este vídeo”. Você só precisa de cinco – give me five – minutos. O projeto não vende nada, não pede para você apoiar alguma causa, apenas convida você para assistir 50 vídeos de 5 minutos que estarão disponíveis no YouTube, tendo como conteúdo, música e literatura. Já sei, você está pensando: – “Cinquenta vídeos do Felipe? Tá louco!?” 

Pensando bem, por que alguém iria gastar seu tempo assistindo 34 vídeos que tem como roteiro uma crônica ou um conto e mais 16 clipes de músicas de um desconhecido, tendo tantos outros de melhor qualidade e de gente famosa? Por amizade? A gente assiste um ou dois vídeos apresentados por um amigo, mas se não gostarmos, logo arrumamos uma boa desculpa para não ver o resto. Cinquenta vídeos de cerca de 5 minutos cada, significa que, para atender este “convite”, seriam necessários uns 250 minutos, ou seja, mais de 4 horas. Haja paciência! 

Eu entendo! Mas, vamos aos fatos… primeiro: você não verá todos os vídeos em sequência, porque eles serão disponibilizados ao longo de várias semanas. Segundo, por que não arriscar e assistir alguns vídeos? Afinal, pode ser que esses vídeos façam você rir, chorar, refletir ou até aprender sobre alguma coisa. Os temas: “Relacionamentos”, “É da vida”, “Sustentabilidade”, “História e Religião”, “Viagem” e “Ficção” terão uma abordagem leve e sempre com uma boa dose de humor. 

Os textos, as letras das músicas e a produção dos vídeos são de minha autoria, mas muitos amigos contribuíram para que tornar viável esse projeto e estes vídeos se tornassem disponíveis para você assistir: a locução dos textos foi feita por leitores da Coluna Dominical, que emprestaram a sua voz e o seu talento para expressar o seu sentimento durante a leitura dos respectivos textos e as composições das músicas resultaram de uma parceria com a querida amiga Adriana Lia Duarte dos Santos e contaram com os arranjos do Maurinho e as vozes do Samy, da Yasmin, do Guilherme e da Jamile. 

Esse projeto é virtual, mas terá um lançamento presencial, o qual acontecerá no dia 3 de junho, das 20h às 21h30min, no Studio Clio – R. José do Patrocínio, 698, na Cidade Baixa, em Porto Alegre, com transmissão ao vivo pelo Facebook. Neste momento vamos ler alguns dos textos, cantar e nos divertir. Será uma pequena mostra do que você poderá encontrar no nosso canal no YouTube. 

E por que alguém sairia de casa num sábado à noite para ir assistir algo que ela nem sabe bem o que é? A minha resposta é que sempre vale a pena encontrar os amigos e saber o que eles andam fazendo, afinal, Give me five não é bem um show, nem bem um sarau, não tem sessão de autógrafos e nem vende discos. Mas vá até lá para tirar suas próprias conclusões a respeito do projeto. Como o local é pequeno, confirme sua presença pelo e-mail nascimentolf@gmail.com  ou pelo telefone (51) 99996-9037. 

E por fim, o ato de compartilhar hobbies tem também o objetivo de estimular que os amigos que gostam de cozinhar, pintar, cantar, dançar, escrever, praticar esportes, tocar um instrumento ou seja lá o que for, que pratiquem e compartilhem o que fizerem. Não importa se o que a gente faz não é elogiado pela crítica ou não é valorizado pelo mercado. Não fazemos isto para nos tornamos ricos e famosos. Queremos apenas compartilhar o que gostamos de fazer. 

Acompanhe os novos lançamentos dos vídeos todo o dia 5 de cada mês, até chegarmos aos 50 vídeos do projeto. Este Projeto é como as fábricas de cervejas artesanais que são pequenas, pouco conhecidas, mas produzem um produto apreciado por alguns. Se você não puder degustar, digo, não puder comparecer e nem assistir a transmissão ao vivo, pelo Facebook, então assista pelo canal www.youtube.com/luisfelipenascimento. Para assistir a transmissão ao vivo pelo Facebook, acesse www.facebook.com/luisfelipe.nascimento.906  e mande um alô para a gente.

(*) Luis Felipe Nascimento

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

14May
Coluna Dominical

Será que isto é verdade?

– 14 de maio de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Poucos são os brasileiros que leem jornais e revistas. Quem faz isto, geralmente lê a análise que lhe agrada. Tem quem goste das análises da Veja e quem goste das análises da Carta Capital.  Entre os jovens, não são muitos os que assistem telejornais. A maioria do nosso povo se informa sobre o que acontece no mundo pelas redes sociais e pelo que o outro lhe conta: “Que absurdo, você viu o que aconteceu lá em …?” A informação transmitida pelo amigo/colega/vizinho/patrão/empregado se torna verdade. Se eu confio na pessoa que me conta, então a notícia deve ser confiável. Por isto é muito fácil alguém plantar uma notícia nas redes sociais sobre temas que interesse a muita gente: “Lula é dono do palácio que aparece nesta foto”. Pronto! Não precisa de comprovação nenhuma, os adversários de Lula vão compartilhar e logo esta informação vai chegar a milhares de pessoas. Do outro lado acontece a mesma coisa: “A mulher do Moro está roubando a merenda das crianças da APAE” e logo a notícia se espalha entre os que não gostam do juiz Sérgio Moro. Quem compartilha tais informações não está interessado em sua veracidade, quer apenas atacar a pessoa, ou a proposta, a qual se opõe. Com o objetivo de defender as propostas A, B, C, … ou para defender uma concepção de desenvolvimento para o país, criou-se uma guerra de informações, que o cidadão comum não consegue distinguir as falsas das verdadeiras. Então, como saber se a informação é verdadeira? Que medidas outros setores adotaram para tornar mais confiáveis as informações divulgadas?

Quem compra um quilo de feijão, pode ver na embalagem que o Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia atesta que aquele produto possui realmente o peso anunciado. Portanto, o consumidor não precisa pesar para saber se a informação é verdadeira, pois existe uma organização para fazer isto, chamada de terceira parte, que não atende aos interesses de quem vende nem de quem compra. Se o cidadão deseja comprar uma geladeira, pode se orientar pela Etiqueta Nacional de Conservação de Energia, conhecido como Selo Procel, de uma forma simples (letras de A até G e cores variando do verde ao vermelho), informa o quão eficiente é aquela geladeira e permite compará-la com outras marcas.

No tempo dos nossos pais, a propaganda de produtos era livre, semelhante ao que ocorre hoje nas redes sociais, cada um podia dizer o que queria e nada lhe acontecia. Hoje, uma propaganda enganosa poderá ser retirada da mídia pelo Conar – Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária, que aplica o Código Brasileiro de Autorregulação Publicitária. Existem outras ONGs que controlam a qualidade das propagandas. Foi criado um sistema de avaliação que identifica os “Sete pecados” cometidos por algumas propagandas (http://embalagemsustentavel.com.br/2009/05/04/os-7-pecados-do-greenwashing/). Estas organizações adotaram selos, códigos de autorregulamentação, critérios para qualificar a informação por meio da ação de ONGs. Será que algo semelhante funcionaria para avaliar a qualidade das informações que circulam nas grandes mídias e nas redes sociais?

Será que um dia existirá um “Inmetro das informações”? Uma organização que verifique nas informações difundidas: 1. Se são verdadeiras (no sentido de que o fato realmente ocorreu)? 2. Se a fonte está identificada? 3. Se existem provas? 4. Se a manchete está condizente com o conteúdo? 5. Se trata-se de algo ilegal, imoral ou foi praticado por adversários de quem divulga a informação? O resultado da avaliação não entraria no mérito da notícia, contudo, apontaria, usando cores e números, quais os “pecados cometidos”. Portanto, não se trataria de proibir ou censurar informações, mas de permitir que o cidadão comum possa saber o grau de confiabilidade daquela informação.

O Trump venceu as eleições mentindo nas redes sociais. Nas vésperas das eleições francesas surgiram mentiras nas redes sociais visando favorecer a candidata Marine Le Pen. O que acontecerá nas próximas eleições brasileiras? Quanta mentira e calúnia serão feitas por todos os lados? Enquanto não surge um Inmetro das informações, nós mesmos teremos que fazer este papel e responder as cinco questões listadas acima para formar uma opinião. Ou seja, não confie na informação repassada por quem você confia, esta pessoa pode estar apenas repassando o que recebeu de alguém, confiável ou não.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com