04Feb
Coluna Dominical

Óculos over 50s

– 4 de fevereiro de 2018

Lisiane Mota (*)

Três meses atrás comecei a usar óculos em estilo “over 50s”, pois começava a correr o risco de abanar para estranhos que não tinha certeza reconhecer e de virar a cara para amigos, já que os pequenos óculos na ponta do nariz já não cumpriam mais a função. A natureza é tão esperta que no momento em que começamos a ter dificuldades para lidar com os multifocos que a vida exige, nos obriga a lançar mão de lentes multifoco para ver melhor a vida. Decidida a assumir a nova condição multifocal na vida, fui à busca da Ferrari dos óculos. Lente com mínima distorção, antirreflexo e transição automática para óculos escuros ou claros. Uau!!! Agora sim estava pronta para os próximos anos!!!

Usar este aparato tão especial me fez ver o mundo diferente. Não, meu grau não é alto, bem baixo até, mas desde o primeiro momento ele me ensinou que não se podem olhar todos os ângulos da vida do mesmo modo ou na mesma posição. Quando crianças e jovens nos acostumamos a olhar o mundo como se não precisássemos ter diferentes olhares, passávamos os olhos de uma coisa para outra automaticamente. A idade nos ensina que cada coisa deve ser olhada com deferência especial, e que a atenção deve ser dada de corpo e alma, porque os momentos são efêmeros, a vida passa. Lentes multifocais me permitiram ver muito mais do que prometiam, excederam sua função me mostrando que sim, é preciso desacelerar.

Entusiasmada com o equipamento anteolhos e motivada a ver o mundo melhor, mergulhei de cabeça na tentativa frenética de manter as lentes limpíssimas e tudo que remotamente se assemelhasse a um paninho era imediatamente usado para tirar da frente toda pequena sujeira que ousasse parar na minha Ferrari. Qualquer pessoa que já tenha usado óculos na vida sabe o que vou dizer…arranhei minha Ferrari. Dois riscos, um em cada lente, maculavam meu paraíso multifocal e terminaram por me ensinar a segunda preciosa lição no dia em que fui à ótica inocentemente pedindo que dessem “uma polidinha” na lente, acho que a atendente se segurou para não rir, e educadamente me disse que não dá prá dar polimento em uma Ferrari. Fui relembrada, assim, que existem coisas preciosas na vida que não se consertam, emendam ou dão polimento, e que se é assim tão precioso, cuide bem!

Ao sair da ótica, aceitei o destino de desfilar uma Ferrari arranhada, consolada pelo fato de que a maioria jamais saberia (até agora) que ela estava ferida. Não por acaso, mas por que essa foi efetivamente a grande lição, a partir do momento em que aceitei minha Ferrari multifocal como ela é nunca mais vi os arranhões. Semanas depois percebi que nunca mais havia enxergado os arranhões e que cada vez menos limpava as lentes, e que assim mesmo, arranhada e suja, cada dia me via mais feliz com minhas lentes, enxergando a vida cada vez melhor.

Lembrei então de um post desses do facebook, no qual se ensinam três preciosas lições: coragem para mudar o que pode ser mudado, paciência para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para saber diferenciar a primeira da segunda. Meus preciosos óculos são exatamente assim: me fazem olhar com atenção, corpo e alma para o que precisa ser feito; me ensinam a aceitar a vida como ela é, com arranhões, sujeirinhas, dificuldades e tristezas; e, sinceramente, espero que sigam me trazendo sabedoria para que cada vez mais saiba diferenciar as coisas. Pois bem Dona Ferrari, se tiver algo mais a ensinar pode mandar que estou aqui multifocada.

(*) Lisiane Mota é representante comercial e mediadora judicial.

Contato: lisianeb@terra.com.br

27Jan
Coluna Dominical

E a vida?

20Jan
Coluna Dominical

Por que isto acontece?

– 21 de janeiro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Existem alguns procedimentos, comportamentos e valores de produtos e serviços que eu tenho dificuldades de entender e por isto peço a tua ajuda. Você saberia responder alguns desses “por quês”:

– Por que, diariamente, estendemos uma colcha sobre a cama e ainda colocamos almofadas por cima, sem que ninguém entre e veja a tal composição decorativa?

– Por que dobramos e guardamos o mesmo pijama que vamos usar a noite? E por que os chinelos não poderiam permanecer ao lado cama? 

– Por que dizemos não ter tempo, talvez 5 minutos, para falar com um amigo, ler um texto ou assistir um vídeo e, depois dos jogos de futebol, gastamos 30 minutos ou 1 hora, ouvindo entrevistas de jogadores, técnicos e dirigentes responderem às mesmas perguntas com as mesmas respostas? Ou pior: por que investimos nosso tempo em novelas, séries na TV ou na internet, programas que em nada nos acrescentam?

– Por que mulheres usam salto agulha de 10 centímetros ou mais, se elas relatam que estes sapatos são muito desconfortáveis e que lhes causam muita dor? Em festas de casamento e formaturas, dizem que não veem a hora de fazer as fotos com os noivos ou formandos, para tirar os sapatos para calçar uma “rasteirinha” ou umas havaianas que, atualmente, são distribuídas como lembrança nas festas. A pergunta que fica no ar: não seria melhor elas já irem na festa de rasteirinha e os organizadores emprestarem sapatos só para as fotos?

– Por que um carro da concessionária, apesar de já ter rodado por uns 20km ainda é chamado de 0km, mas se percorrer mais 200m e cruzar a porta afora da loja, já perderá 20% do valor e o status de zero km?

– Por que o estacionamento chega a custar mais do que o almoço num restaurante? Será que em breve os estacionamentos não farão promoções do tipo: “estacione aqui e ganhe um almoço cortesia”?

– Por que pessoas gastam mais tempo se deslocando do que permanecem em locais tais como sala de aula ou no trabalho? O que ela faz no trabalho ou na sala de aula que não poderia ser feito a distância, ou de forma concentrada em poucos dias da semana?

– Por que as pessoas irão continuar comprando produtos em lojas de shoppings se o mesmo produto, na mesma loja, comprado pela internet custa bem menos e ainda entregue onde o comprador preferir? Quanto tempo essas lojas de shoppings vão sobreviver?

– Por que comprar produtos em embalagens pequenas e caras:  amaciante em embalagem plástica, refrigerante em lata e leite em caixa, nos quais a embalagem custa mais caro do que o produto? Por quanto tempo as pessoas aceitarão pagar pela embalagem e ganhar o produto como brinde?

Eu não sei a resposta destes “por quês”, mas imagino que mais da metade destas perguntas serão respondidas até 2030. Por quê? Porque parece que isto não faz sentido e não vai se sustentar por muito tempo… será?

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com