10Jun
Coluna Dominical

Acelera Rubinho!

– 10 de junho de 2018

Lisiane Mota (*)

Anos de Fórmula 1 tornaram notória a dificuldade do renomado piloto em acelerar a contento dos expectadores e não faltam piadas sobre as felicitações do piloto pelo aniversário…de 2016. Resultado de nossa orfandade do piloto mor dos brasileiros, Ayrton Senna, herança de anos dourados na Fórmula 1, ou mera consequência dos tempos de velocidade desenfreada que vivemos e nos quais queremos tudo ao mesmo tempo agora, nosso apego à velocidade e a consequente ligação direta de rapidez com eficiência vem nos tornando escravos de nós mesmos.

Considerando que o Anno Brasillis naturalmente começa em março, movidos pela motivação que reunimos desde o réveillon, e que veio sendo alimentada pelos meses de sol e calor, regada pelas cervejas e caipirinhas do carnaval, e que, finalmente, recebeu as bênçãos de todo o chocolate devorado na Páscoa, iniciamos março com energia total, não só no trabalho, mas na vida em geral. Assim, com março damos início à inúmeras atividades. Desde aquela pós-graduação que “sempre” quisemos fazer, passando pelos trabalhos, festas, encontros, dietas e exercícios, imprimimos à nossa rotina um ritmo de maratonista veterano, acreditando que alcançaremos a linha de chegada do sonhado dezembro intactos e vitoriosos.

Independentemente do conceito de vitória, o que clama ao megafone é nosso impulso de sprint de largada, no qual assumimos compromissos e atividades em um volume que por certo não conseguiremos sustentar até o tal dezembro. Inevitavelmente lá por abril começamos a ir desistindo das atividades, sofrendo lesões e nossa rotina começa a se desmanchar como personagem de desenho animado. Pagamos o preço do excesso. Na tentativa de sermos Senna, inspirados pelo ídolo (ou pelo verão), assoberbamos nossa despreparada e imatura rotina de Barrichello sem piedade. Mas afinal, é ruim ser Rubinho? Parece que não. Certo ou errado o piloto fez suas escolhas, construiu sua carreira, respeitou seus limites, prezou os momentos que lhe eram caros. Óbvio que perdas ocorreram e que ele também teve que abandonar alguns sonhos em nome de outros.

Toda escolha tem seu preço, porém é fundamental compreendermos que não há um único caminho certo a trilhar. Nem Rubinho nem Senna. O sprint de largada é extremamente útil para que se tome fôlego para lutar as batalhas que escolhermos, mas não garante fôlego para lutarmos todas as batalhas que se apresentarem. Escolher batalhas é fundamental para vencer as guerras. Encher a agenda de atividades sem respeitar o próprio ritmo garante apenas que logo em seguida comecemos a desistir delas. Nossa competência não é medida pela quantidade de compromissos que assumimos. Estabelecer limites é uma maneira de nos preservar do excesso, e uma maneira de melhor percebermos e valorizarmos quando conseguimos nos superar.

Diferente para cada um, a superação é tão pessoal quanto o objetivo. Limites e metas estabelecidas, a superação passa a ser realizadora, deixa de ser um abuso de nós mesmos e de consumir nossos pedaços pelo caminho da desistência. Mover as rodas, devorar a estrada e perseguir sonhos, acelerar é simplesmente questão de estilo e de escolhas. Ambos certamente nunca aceleraram para a torcida, mas para seus próprios sonhos e objetivos. Então acelera Rubinho!!! Vai ser feliz!

 (*) Lisiane Mota é representante comercial e mediadora judicial.

Contato: lisianeb@terra.com.br

03Jun
Coluna Dominical

Pessoal, eu vou para a Califórnia!

– 3 de junho de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Em muitas profissões, as pessoas se aposentam logo depois de chegarem ao ponto mais alto de sua carreira, já na trajetória acadêmica não é assim, pois uns chegam ao topo muitos anos antes da aposentadoria e outros, mesmo tendo tempo suficiente para se aposentar, continuam trabalhando até a compulsória. Por ter entrado na carreira de professor universitário já com doutorado, em menos de 20 anos já havia chegado a esse topo. Embora eu saiba que não terei mais progressão funcional e que meu salário será o mesmo até a aposentadoria, esses não são motivos para meu desânimo, já que a motivação na carreira acadêmica não decorre só disso. A satisfação pode estar de coisas simples como o despertar de um acadêmico por um tema de pesquisa que irá mudar os planos da vida dele, pode estar na satisfação de ter dado o empurrãozinho para que ele percebesse isso, pode estar no brilho dos olhos do estudante ao me ouvir dizendo: “Sua ideia é boa, vá em frente!”. O professor que identifica o potencial e as paixões desses jovens, pode ajudá-los a encontrar novos caminhos através de uma simples pergunta: “Por que você não busca algo mais desafiador?” 

Me questionando sobre isso, me candidatei a… não, não foi a nenhum cargo político, mas a um segundo pós-doutorado e tive a felicidade de ser contemplado com uma bolsa!

Lembram do Lulu Santos cantando “…viver a vida sobre as ondas, vou ser artista de cinema, o meu destino é ser star”? (De Repente Califórnia). Então, eu não tenho as mesmas ambições dele, mas em agosto também irei para a Califórnia, passar um ano na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Pretendo pesquisar temas relacionados a sustentabilidade, estabelecer convênios e buscar meios para que meus orientandos possam passar um tempo por lá, assim como os professores e acadêmicos de lá venham conhecer o que estamos fazendo por aqui.

E pela primeira vez na vida (sempre tem uma primeira vez) estarei sozinho numa cidade em que não conheço uma única pessoa. Lá não serei o Prof. Felipe, mas um estrangeiro vindo de um país subdesenvolvido. Buscarei um lugar próximo a Universidade para morar e me deslocarei de bicicleta, voltando ao estilo “vida de estudante”.

Neste período que antecede a viagem, ora estou empolgado, ora surgem questionamentos… “Será que valerá mesmo a pena?”, “Como será passar tanto tempo longe da família e dos amigos?”, “Será que estou preparado para conviver com esse afastamento?”.

Minha mãe, com seus 87 anos, me disse: “Eu vou me cuidar, para estar aqui quando voltares” e lembrou que nos anos 90, quando estávamos na Alemanha para o doutorado, a comunicação era feita através de uma carta mensal e nos anos 2000 no pós-doc em Boston, falávamos uma vez na semana, aos domingos. Dessa vez espero poder falar com meus familiares quase todos os dias. Hoje em dia, estar “separado” não é mais estar “longe”.

Pretendo vir visitar minha família, mas também espero que tanto eles como meus amigos me visitem. Sei também que o tempo voa e que talvez nem sintam tanto a minha falta e, não mais do que de repente, mas quando menos eles esperarem, estarei aqui, mas… e como será na volta? Aí lembro mais uma vez do Lulu: “Eu vejo a vida melhor no futuro…” So, let’s go ahead!

De repente Califórnia – https://www.youtube.com/watch?v=nL0tvojv1p4

Tempos Modernos – https://www.youtube.com/watch?v=itS3sjWCAnc

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

29May
Coluna Dominical

Isto realmente aconteceu em 2030!

– 27 de maio de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Depois de muito tempo, dois grandes amigos se reencontram e, enquanto tomam um café, lembram dos velhos tempos.

– Estou vendo, pelo seu pensamento, que você está recuperando as imagens da nossa festa de formatura!

– Tempos bons aqueles… Mas que tal a gente desligar os microchips, retirar estes óculos que nos permitem ler o pensamento alheio e termos uma conversa à moda antiga?   

– Boa! Estava mesmo com saudade de conversar sem saber o que o outro está pensando.

– Não estou bem lembrado se foi no ano de 2025, 2026, que se popularizou a tecnologia desses óculos…

– Acho que foi em 2025! Alguns anos antes, lá por 2018, já existiam aqueles óculos de realidade virtual, que pareciam um tijolo, mas só alguns anos depois é que vieram esses de leitura de pensamentos…

– Então… naquela época eu pensava que isto iria reduzir os conflitos, que acabaria com as fofocas e de que não haveria mais aquelas conversas do tipo: “não é o que você está pensando”, “não foi isto que eu quis dizer”, “você deve estar pensando tal coisa”, etc. 

– É, e eu pensava que as pessoas estariam curiosas para saber o que os líderes mundiais pensariam, o que se passava na cabeça dos cientistas, mas que nada! O pessoal só queria saber o que o seu/sua parceiro/a estava pensando ou o que o seu chefe estava pensando, fiquei frustrado!

 – Você percebeu que depois que começamos a usar esses óculos, a gente quase não conversa mais? Basta olhar para os olhos do outro para saber o que ele está pensando. É tudo rápido, fácil e prático e não precisamos mais fazer esforço para entender como que ele construiu aquele pensamento. A resposta é com o título de uma manchete de jornal: curta e direta!

– Como era bom ficar fazendo cara de paisagem, pensando longe e o outro imaginando que a gente estava atento! Eu fazia isto nas aulas chatas da faculdade.

– Na real, mesmo antes destes óculos, a gente já conseguia saber alguma coisa do que o outro estava pensando. Lembra das ciganas que fingiam ler a nossa mão, mas na verdade elas liam eram os nossos micro movimentos faciais e descobriam se estavam no caminho certo ou não, nas suas adivinhações? Isso já era uma forma primitiva de leitura de pensamentos.

 – Verdade, mas só em não saber em detalhes o que você está pensando agora, já me deixa curioso e cheio de questionamentos. Você acredita que as pessoas são mais felizes hoje, podendo acessar os pensamentos dos outros?

– De jeito nenhum! Antigamente não precisava ser cigana para perceber que os nossos pensamentos impactavam outras pessoas assim como éramos impactados pelos pensamentos dos outros, mas isto ocorria de uma forma completamente diferente de hoje! Com esta tecnologia acabou o segredo, a magia dos nossos pensamentos. Antes, a gente conseguia viajar nos pensamentos, fazer tudo o que era proibido e saboreávamos tudo o que conseguíamos imaginar. Aquele mundo era só nosso! Agora ele é compartilhado e perdeu o encanto!

 – Sabes que eu concordo contigo? Ler pensamentos ficou monótono, enquanto que conversar com alguém, implica em dar atenção ao outro. Eu sempre ouvia minha mãe falar sobre o “poder da escuta”: que quanto melhor fosse a qualidade da escuta, melhor seria o diálogo!

– A tecnologia nos trouxe para um mundo em que a gente escuta pouco e fala menos ainda. Nas décadas passadas, paramos de encontrar as pessoas, para falar com elas por telefone. Depois, paramos de falar pelo celular, para mandar mensagens. Os vídeos falados em outras línguas, vinham com legenda. E assim fomos desaprendendo escutar, só ouvimos. A consequência foi que com menos escuta e menos diálogos, reduzimos também a atenção aos pensamentos dos outros. Então, de que adianta ter acesso se não valorizamos o que o outro pensa?

– Cara, mas como foi bom te reencontrar e termos esta conversa sem óculos, com os microchips desligados. Percebeu que nós tiramos os óculos, mas falamos todo o tempo deles? kkkk…

– Pois é! Agora me diz, você consegue imaginar como será o mundo dos nossos filhos e como serão as relações lá pelos idos de 2050? Será que eles vão seguir esta tendência de ler pouco e pensar menos ainda?

– Tomara que não! Sempre lembro do que o Buda dizia: “Tudo o que somos, é o resultado do que pensamos”. E se pensarmos pouco, seremos o quê? Bueno, espero que nossos filhos e netos recuperem o hábito da leitura, de contar e escutar histórias, como faziam nossos avós!

 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com