25Sep
Coluna Dominical

A tirania da felicidade idealizada

– 24 de setembro 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Para umas pessoas o dinheiro traz ou “compra” a felicidade, já para outras, não existe relação de uma coisa com a outra. Nesse texto pretendo fazer uma breve analogia da nossa relação com o dinheiro e com a felicidade.

Algumas pessoas jogam na loteria sonhando em ganhar uma fortuna para, através de um lance de sorte, os seus sonhos se tornem realidade. Outras dedicam-se a organizar seus rendimentos para que consigam poupar um pouco a cada mês, de acordo com suas possibilidades e com os pés firmes na realidade. Mas qual seria a relação disto com a felicidade? No livro “A arte de se fazer feliz”, as autoras Christiane Ganzo e Denise Aerts falam sobre “tirania da felicidade idealizada” como aquela que acena com um estado de alegria constante, e que é o caminho seguro para infelicidade. Na minha opinião, nesta situação, a “alegria” seria como “ganhar sozinho na loteria”, pois é um momento intenso e que não se mantém. Quem ganha sozinho na loteria ganha mais problemas do que soluções e passa a viver o medo de ser sequestrado, a desconfiança de que seus amigos estão interessados apenas no seu dinheiro, entre outros.

Outro conceito apresentado neste livro é a “felicidade possível” que pode ser definida como a capacidade do sujeito de suportar e de conviver com suas verdades, fazendo-se feliz. Comparando com os investimentos financeiros, diria que quem faz uma boa gestão de seus rendimentos, administra a sua realidade e vai ser feliz com ela. Por outro lado, quem sonha em ganhar na loteria, está sempre insatisfeito e buscando a solução dos seus problemas fora do seu controle. Algo semelhante ocorre na busca pela felicidade. Quem busca a felicidade, busca porque não a tem. As autoras do livro dizem que “buscar” é o oposto de “criar/construir”, pois a felicidade possível não é para ser buscada fora, ela está dentro de nós, nós é que a construímos. A relação com o outro potencializa esta felicidade, mas ela não depende do outro para existir.

Além disto, a felicidade e o dinheiro, frequentemente são vinculados ao elemento condicionante “se”: “se” conseguirmos isto ou “se” comprarmos aquilo. A nossa frustração vem de criarmos uma expectativa sobre alguma coisa que ainda não foi realizada e que talvez nunca aconteça. E a frustração causa dor. Se acolhemos a dor, ela se transforma em tristeza, caso não, ela se transformará em sofrimento. A tristeza é finita, enquanto que o sofrimento pode ser eterno. 

Alguns pesquisadores afirmam que a felicidade pode ser medida. Se você desejar saber em que estágio estarias, nessa escala, poderá acessar o Oxford Happiness Questionaire disponível em http://www.happiness-survey.com e receberá o resultado da avaliação no seu e-mail. Agora, se você não acredita nisto, poderá aprender mais sobre a felicidade lendo Aristóteles, Epicuro, Nietzsche, Freud, Confúcio, Pirro de Élis, Mahavira, Lao Tsé, Slavoj Zizek, ou mais simples ainda, participando do II Congresso Internacional de Felicidade em 25 e 26 de novembro em Curitiba https://www.congressodefelicidade.com.br . Por fim, se este texto lhe provocou de alguma forma para saber quão feliz você está ou o que fazer para ser mais feliz, é bom sinal. Os exemplos do ganhar na loteria ou poupar um pouquinho a cada mês apenas ilustram algumas atitudes que temos na vida, seja de esperar que algo externo aconteça ou de construir no dia-a-dia a nossa felicidade. Em outras palavras: assim como o nosso capital financeiro dependerá dos investimentos que fizermos, a felicidade será proporcional aos cuidados que tivermos conosco e com aqueles a que nos rodeiam. A felicidade possível, é uma questão de escolha!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

17Sep
Coluna Dominical

Exposição no Santander Cultural: o que não foi dito!

– 17 de setembro de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Eu não vou falar da decisão do Santander de encerrar prematuramente a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que aborda questões de gênero e diversidade sexual, nem do Movimento Brasil Livre (MBL) ou das instituições contrárias a esta exposição e tampouco do Movimento LGBT e demais apoiadores da exposição. Farei uma análise, do meu ponto de vista, sobre outros aspectos envolvidos na polêmica. Sendo bem sincero com você, leitor, confesso que sou um cidadão comum que entende pouco de arte, mas pesquisei os vários ângulos desta questão e sistematizo aqui o meu olhar.  Entenderei se você me abandonar por aqui, por outro lado, ficarei feliz se me acompanhar até o final deste texto. Vamos lá!

– O que é arte? Arte é tudo o que é feito por quem se diz artista? É aquilo que o público reconhece como arte? Quem decide e qual o critério utilizado para dizer se alguma coisa é arte?  Estas dúvidas surgem quando visitamos exposições polêmicas como a Queermuseu. Um argumento utilizado é que a arte precisa ser livre, deve provocar reflexões e que nem todos precisam gostar do que veem. Fazendo uma analogia com outras expressões de arte, perguntaria qual seria a sua reação se você fosse a um musical e a banda tocasse muito mal e o cantor estivesse completamente desafinado? Ou se numa peça teatral os atores esquecessem o texto no meio da apresentação? Provavelmente você iria manifestar sua opinião vaiando os artistas. Numa exposição, não se aplaude ou vaia uma pintura ou uma escultura, pois não se tem essa mesma oportunidade, de manifestar nossa opinião.  O público que vai a uma exposição busca ver algo novo, inspirador ou questionador. Espera que o artista tenha se esforçado ao máximo e usado o seu talento para produzir o seu melhor.  Sabemos que a arte é a expressão do belo, mas não é isso que estamos vendo em algumas exposições de arte. Eu sei, eu sei, … os modernistas acreditam que a beleza está nos olhos de quem vê. O autor que expõe sua obra, imagina que ela seja bela, questionadora, impactante, revolucionária, mas talvez nunca tenha recebido a opinião do público. Por que não criar um espaço para que os visitantes de uma exposição possam dizer ao autor as sensações que cada obra lhe causou? O autor deve ter a liberdade de criar e o público deve ter o direito de avaliar.

–  Censura versus Boicote – Censurar uma expressão artística é proibir de que ela seja acessada pelo público, já boicotar é desestimular que o público acesse a determinada expressão artística. As medidas utilizadas para promover o boicote podem ou não serem éticas, pois podem ir de uma campanha de esclarecimento até atos de violência e difamação. No caso do Queermuseu, o boicote levou ao fechamento da exposição numa instituição privada. Por que, então, os organizadores e apoiadores não a transferiram para outro local? Por que uma universidade não abre suas portas para receber esta exposição?

– Sexualização de crianças e adolescentes – Suponho que as escolas que levaram crianças e adolescentes para essa exposição tivessem conhecimento do seu conteúdo e que tenham pedido permissão aos pais para levar seus filhos, mas se isto não foi feito, houve uma falha das escolas. Admitindo que o conteúdo da exposição estimulasse à sexualização precoce dos visitantes, seria uma oportunidade das escolas usarem a visita para promover um debate sobre o tema e trabalhar em sala de aula a percepção dos seus alunos.  

– Agressão aos nossos valores – Os valores de cristãos, muçulmanos, judeus, ateus, comunidade LGBT, entre outros, devem ser respeitados. Quem exige respeito, nem sempre respeita os valores dos outros. A arte como forma de expressão questionadora, questiona alguns valores e provoca polêmicas. Algumas vezes os questionamentos são mal interpretados ou deturpados. E o espanto com as relações de humanos com animais, que no Rio Grande do Sul são relatadas nos programas de rádio de grande audiência e causam tanto riso? Um dia destes estava com uma criança no carro ouvindo rádio quando foi contada a piada do namoro do “nego véio” com uma porca, e blá, blá, blá, mas não soube notícia de que essa rádio tivesse sido processada ou boicotada por “incitar a zoofilia”.

Portanto, acredito que a polêmica deve ser usada para questionar nossas posições, para estimular o debate, para promover a conscientização e não para dividir ainda mais a sociedade entre os que são contra e os que são a favor a alguma coisa. Temos que aprender a conviver com os que são diferentes, com respeito as opiniões contrárias e com tolerância aos valores diferentes dos nossos. Ah, se você chegou até o final do texto, por favor, envie seus comentários pelo Facebook:https://www.facebook.com/luisfelipe.nascimento.906 ou pelo endereço nascimentolf@gmail.com

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

10Sep
Coluna Dominical

Sentidos

– 10 de setembro 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Fiz uma palestra em Santa Maria num seminário para professores de escolas municipais e estaduais e, ao concluir, sentei-me na primeira fileira. Logo após, alguém bateu no meu ombro e disse: – “Tem um errinho num dos teus slides”. Um tanto surpreso, agradeci e comecei a conversar com a professora que estava sentada logo atrás de mim. Trocamos e-mails e imaginei que nunca mais a veria. Um sábado à tarde, depois de escrever a Coluna Dominical, lembrei que a tal professora tinha se colocado à disposição para colaborar e resolvi lhe enviar o texto, solicitando uma revisão. Tinha quase certeza de que ela não abriria o e-mail ou que diria que não teria tempo para revisar para a manhã do dia seguinte. Ao contrário do que eu previa, alguns minutos depois, recebi a resposta, que dizia: -“Será um prazer, te envio o texto revisado daqui a pouco”. Iniciou-se assim uma amizade e uma parceria que tem se renovado toda semana. 

Algum tempo depois voltei a Santa Maria e procurei a minha amiga e mais surpresas apareceram. Eu tinha certeza de que ela era professora de português, só então descobri que não. Foi praticante de Ginástica Artística (ex-Olímpica) na mesma época de um grande amigo, e depois foi ginasta, técnica e árbitra de Ginástica Rítmica, formada em Educação Física, me contou que esse “olho de águia”, muito lhe ajudou na correção da execução dos elementos ginásticos, lhe rendendo sempre bons resultados nas competições e, depois como professora universitária, na correção de trabalhos acadêmicos e avaliadora de artigos e livros. Depois desse perfil bem diferente do que eu esperava, para a professora de letras que eu imaginava, passei a me perguntar: o quanto um talento seria inato ou o quanto ele seria adquirido? Ou seja, considerando que habilidade é aquilo que se aprende ao longo da vida e que capacidade trazemos desde o nascimento (faz parte da genética), mas podemos desenvolvê-la, então, nossa competência seria o resultado desta combinação? Ou seria a nossa paixão por alguma coisa, a responsável pelo desenvolvimento de certas habilidades? 

Lembrei-me que alguns animais possuem capacidades muito superiores a dos humanos, que eles as utilizam para sobreviver aos ataques dos seus predadores ou para capturarem suas presas. Um exemplo disto é a águia, que é conhecida pela sua capacidade de, a uma distância de há 5.000 metros, identificar um ratinho se escondendo num gramado. Mas, visão de longo alcance é apenas uma das funções do olho. Para outras espécies, outras funções são mais importantes para sua sobrevivência. Os coelhos possuem a visão 360 graus e a coruja enxerga no escuro. Existe um tipo de camarão que enxerga quatro vezes mais quantidade de cores do que as observadas por nós humanos. Em relação ao olfato, o homem possui 5 milhões de células olfativas, contra 300 milhões do cachorro, que o torna capaz de, pelo hálito de uma pessoa, identificar se ela pessoa possui células cancerígenas. Agora imaginem como deve ser o olfato do urso, que possui 4 bilhões células olfativas! E a audição? Entre os animais domésticos, o gato se destaca, pois do décimo andar ele é capaz ouvir você chegando no térreo. A audição do homem chega a 20 mil hertz, a do gato a 60 mil hertz e da baleia-branca a 123 mil hertz. Em relação ao paladar, com nossas 9 mil papilas gustativas, ganhamos dos cães e gatos, que quase não sentem o gosto da comida, mas perdemos feio para o peixe Bagre, que possui 27 mil papilas gustativas. O Bagre poderia ser comparado com uma língua, pois tem papilas espalhadas por todo o seu corpo. E por incrível que pareça, o animal com tato mais desenvolvido é o elefante. Enquanto nós temos os receptores nervosos concentrados nas pontas dos dedos e na língua, o elefante tem na ponta da tromba. Portanto, ao contrário do que se pensa, seria um elogio dizer que alguém tem a “sensibilidade de um elefante!”. 

Aristóteles teria identificado a visão, olfato, paladar, tato e audição como nossos cinco sentidos, mas hoje em dia se fala de outros sentidos, que não estão relacionados com o mundo físico. Por exemplo, o sexto sentido está relacionado com a intuição, ou seja, numa fração de segundo, interpretar o que o outro está sentindo. E ainda teríamos o sétimo sentido, que está relacionado com uma consciência cósmica, uma relação do ser com o universo. Mas a que conclusão chegamos, depois de tantas descobertas? Poderíamos utilizar o método socrático para que vocês mesmos façam o link, mas prefiro arriscar um palpite a respeito, dizendo que: enquanto que a competência apresentada pela minha amiga é o resultado de uma paixão, pela ginástica, a capacidade utilizada pelos animais é o resultado de seu instinto de defesa ou ataque. Hoje, algumas pessoas usam seus talentos apenas para sobreviver, enquanto outras buscam mais do que isso, buscam algo maior, buscam novos sentidos, que promovam harmonia e sobretudo, que lhes permita viver em paz consigo e com os outros.

 (*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com