17Jul
Coluna Dominical

Por que o Brasil é roqueiro?

-16 de julho de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Dizem que o rock fala inglês, pois a maioria das bandas de rock surgiram na Inglaterra e nos EUA. Quais seriam as condições necessárias para o desenvolvimento da cultura do rock? Uma sociedade conservadora? Repressão? Contradições sociais? O rock é mais do que um ritmo, é um estilo de vida e uma forma de ver o mundo. O rock é contestação, é uma mistura de loucura e de sonho, é o balançar e rolar (o Rock and roll). 

Podemos dizer que o rock também fala português, pois o Brasil é um país roqueiro. Enquanto o Rei do Rock mundial é Elvis Presley, que morreu em 1977, aos 42 anos, mas continua sendo o artista de maior sucesso nas paradas mundiais (1 bilhão de discos vendidos). Raul Seixas é o pai do rock brasileiro, quando ele adolescente era fã de Elvis e fundou o Elvis Rock Club. Morreu com 44 anos, em 1989. E a Rita Lee é a Rainha do rock brasileiro, fã de Raul e que, inclusive, já fez o papel de Raul Seixas no filme “Tanta Estrela por Aí”. Hoje, com quase 70 anos, abandonou os palcos. A Revista Rolling Stones, colocou Rita Lee na 15º e Raul na 19º colocação na lista dos 100 maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Rita Lee vendeu 55 milhões de discos. Rita e Raul tiveram suas músicas como as mais tocadas no país. Passados 28 anos da sua morte, em todo lugar que tenha música ao vivo, alguém grita: “toca Raul”. 

Em músicas como “Ouro de Tolo”, Raul debochava da ditadura militar e do milagre econômico. E na música “Mosca na Sopa”, ele usou uma linguagem figurada para dizer que não adiantava a ditadura matar um opositor, que viria outro em seu lugar e que o povo era quem perturbava o sono dos ditadores. Resultado, Raul Seixas foi preso e exilado. Rita Lee ficou um ano em prisão domiciliar e, recentemente, no seu último show, acabou na delegacia por desacato à autoridade. Muitos outros roqueiros assumiram este papel contestador. 

O Brasil é o país do “Rock in Rio”, maior festival mundial de rock. Em 13 de julho se comemora o Dia Mundial do Rock (apenas no Brasil). Afinal, por que o Brasil é um país roqueiro? Não sei! Talvez porque a realidade continua provocando a nossa rebeldia. Passadas 4 décadas, as canções do Raul continuam atuais: “Faça o que tu queres, pois é tudo da lei”. E quem não gostaria de ter, nos dias de hoje, uma “Sociedade Alternativa”?

Vídeo com as canções postado no Youtube – clique em https://youtu.be/FaBcYrtRW9E

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

09Jul
Coluna Dominical

Farmácias, Igrejas e Pet shops: o que elas têm em comum? 

– 9 de julho 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Farmácia, Igreja e Pet shop? São coisas tão diferentes, mas o que elas teriam em comum? Difícil responder, né?! Pois vamos analisar cada uma delas para descobrir o que elas possuem em comum… Vejamos: 

– FARMÁCIAS – provavelmente você já percebeu o aumento do número de farmácias em sua cidade. No centro de Porto Alegre, num perímetro de 130 metros, estão localizadas 9 farmácias. Para atrair a clientela elas oferecem chás e café, cadeiras para espera, estacionamento e brinquedoteca. Hoje as nossas farmácias seguem o modelo das drugstores norte-americanas e vendem itens de higiene, cosméticos e até alimentos. Os “não medicamentos” já correspondem a 35% do volume comercializado. O Brasil possui 4 vezes mais farmácias do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde, mas por que isto acontece? Em 2016 eram 72 mil farmácias no Brasil, gerando um faturamento de cerca de 36 bilhões de reais. Nesse setor, a crise não chegou. Até 2021 o Brasil deve tornar-se o 5º. maior mercado de medicamentos do mundo. E o que dizem os especialistas? Allen Frances, autor do livro Voltando ao Normal diz que a vida sempre foi difícil e que não foi o ritmo alucinante de vida que nos levou a tomar mais remédios, mas sim o interesse comercial dos laboratórios, o desorganizado sistema médico e os diagnósticos equivocados. A psicóloga Helivalda Pedroza Bastos afirma que o uso do medicamento Ritalina para o tratamento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, aqui no Brasil, cresceu 775% em apenas 10 anos. Marcia Kedouk, autora do livro Tarja Preta, diz que muitos dos nossos males não são tratáveis com comprimidos. A tristeza, medo, desânimo fazem parte da vida e nem sempre precisam de remédios, pois nós temos a capacidade de resiliência, de nos recuperarmos. As farmácias se transformaram numa espécie de “templo”, de onde saímos com a esperança de ter comprado a solução mágica para as nossas dores. A dor é a luzinha vermelha do painel. Se não sentíssemos dor não saberíamos que algo errado está acontecendo no nosso corpo. O remédio, em muitos casos, só apaga a luzinha e tira a dor por algum tempo. 

– IGREJAS – O Brasil é conhecido como o maior país católico do mundo, mas a Igreja Católica vem perdendo sua influência. Em 1991 os católicos representavam 83% da população brasileira. Este percentual caiu para 73,6% em 2000 e para 64,6% em 2010. Por outro lado, os evangélicos que representavam 9% em 1991, subiram para 15,5% em 2000 e para 22,2% em 2010. Segundo alguns estudos, o crescimento dos evangélicos ocorre principalmente na fronteira agrícola e mineral, nas favelas e nos municípios de regiões metropolitanas, ou seja, onde tem migrantes. Desde 2010 na Receita Federal, são registradas, diariamente, 25 novas “organizações religiosas ou filosóficas”. Isto significa que um novo ponto, uma nova igreja é aberta a cada hora, no Brasil. Por que isto acontece? Os dados de 2013 mostravam que as igrejas, apenas com o dízimo e doações dos fiéis, arrecadaram 17 bilhões. Este recurso não tem comprovação e não precisa ser informado como será aplicado, pois a contabilidade das igrejas é uma caixa preta. Elas não pagam IPTU, Imposto de Renda, INSS, nem tampouco o IPVA dos seus veículos. Ah! As aplicações financeiras em nome das igrejas estão livres de IR. Como conseguiram tudo isso? Teria alguma relação com a bancada da bíblia de 74 deputados, de diversos partidos, na Câmara Federal? Entre eles tem ministros, pastores, missionários, bispos e sacerdotes. Algumas igrejas são um case internacional de sucesso! Por exemplo, em 14 anos de existência, a Igreja Mundial do Poder de Deus, nascida em Sorocaba-SP, já está atuando em 18 países. No Censo IBGE de 2000 ela nem aparecia e no Censo de 2010 ela já tinha 315 mil fiéis no Brasil. O seu próximo destino é o Uruguai. São as novas “multinacionais” brasileiras fazendo sucesso no exterior! 

– PET SHOPs – Entre os 132 milhões de animais de estimação existentes no Brasil, 52,2 milhões são cães e 22,1 são gatos. Uma pesquisa realizada pela CVA Solutions para a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação, revelou que 60% dos tutores (antigamente chamados de “donos”) de cães e gatos os consideram como filhos ou membros da família, e apenas 1% os consideram como um “animal”. Os tutores gastam, em média, mensalmente R$ 231 com cães e R$ 187 com gatos. O mercado de pets movimenta cerca de 20 bilhões por ano, sendo que os alimentos representam 67,5%, serviços como banho e tosa mais 16,3%, pet care e pet vet mais 8,1% cada, sendo o Brasil o 3º. maior mercado pet do mundo. Com toda a crise econômica, a previsão de crescimento é de 6,6% para 2017. Os pet lovers são pessoas das classes A, B e C que, num extremo estão os chamados “engajados” – os que atuam em causas relacionadas à proteção dos animais, e no outro os “deslumbrados” – que terceirizam os cuidados, oferecem ofurô para cães, roupas de marca, entre outros, sendo que um terço dos tutores já fizeram ou pretendem fazer um seguro saúde com valores em torno de R$ 70 mensais para os seus animais de estimação. 

Então, o que Farmácia, Igreja e Pet shop têm em comum? Pode-se dizer que são três negócios muito lucrativos, que não foram afetados pela crise econômica e são mercados promissores. Agora, olhando sob outro prisma, percebe-se que eles funcionam como bálsamos para as dores humanas. Eu explico: a farmácia promete aliviar as dores do corpo (físico) e a igreja promete aliviar nossas dores da alma (espiritual). E os pet shops? Ah! Os pet shops prometem cuidar e enfeitar os nossos animais de estimação, para que eles supram nossas carências afetivas (emocional). É isto! Estes negócios são tão demandados e tão lucrativos porque prometem cuidar das nossas dores, só não dizem que vão nos tornar cada vez mais dependentes dos seus produtos e serviços.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

01Jul
Coluna Dominical

Sem provas incontestáveis, os bandidos podem entrar no céu?

– 2 de julho 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Numa reunião da Comissão Celestial de Justiça (CCJ), Jesus Cristo (JC) e São Pedro (SP) conversam… 

SP – Senhor, chegou o dia de avaliarmos as apelações de uns condenados em primeira instância, mas que insistem em afirmar sua inocência… 

JC – Certo. Pedro, traga os processos, o Código Penal Celestial e chame os requerentes. 

SP – Senhor, lembre-se de que, se não acolhermos aos pedidos, os requerentes poderão apelar para a terceira instância, a Câmara dos Representantes Celestiais.

JC – Claro, claro, embora a gente saiba quem fez o quê, temos que seguir o Código Penal Celestial. Chame o primeiro deles e peça para apresentar a sua defesa. 

SP – Al Capone, pode passar… 

Al Capone – Senhor, eu nunca estive envolvido com jogos, prostituição e comércio ilegal de bebidas. Sou apenas vítima da perseguição da sociedade conservadora da época. 

JC – Vejo aqui que você foi condenado por não ter pago o imposto de renda sobre sua fortuna de 100 milhões de dólares! 

Al Capone – Mas Senhor, aquele dinheiro não era meu, eu apenas administrava um fundo destinado para cuidar de crianças carentes, um recurso não tributável. Como não conseguiram provas materiais sobre o que me acusavam, inventaram que eu não pagava impostos. Esta é a prova de que eu não tinha nenhum envolvimento com jogos, bebidas e prostituição! 

JC – Ok, vamos analisar o seu argumento de defesa… Pode entrar o próximo! 

Pablo Escobar – Senhor, sou um homem do povo, um simples camponês que venceu na vida e desagradou as elites, mas nunca consumi ou vendi cocaína. 

JC – Então me diga de onde… qual a fonte dos 30 bilhões de dólares da sua fortuna!? Você foi condenado por mandar matar juízes, políticos e quem quer que atrapalhasse os seus negócios e de produzir 60% da cocaína consumida no mundo. 

Pablo Escobar – (risos) Me desculpe, Senhor, mas não consigo conter o riso quando ouço essas inverdades a meu respeito! Então, o Senhor acha que se eu tivesse toda esta plata, eles teriam conseguido me prender? E se fosse verdade que eu produzia 60% da cocaína do mundo: depois da minha morte, só teriam continuado com a produção dos restantes 40%, confere? Mas o que aconteceu foi justamente ao contrário, já que aumentou, e muito, a produção de coca. Logo, sou inocente! 

JC – Certo señor Pablo, usted pode se retirar… Pedro, quem é o próximo? 

SP – Ah, é aquele ditador, o Pol Pot, líder do Khmer Vermelho, Senhor. 

Pol Pot – Tudo o que eu fiz foi para livrar o meu povo da exploração capitalista, mas foi tudo de acordo com os limites da lei e da ordem. 

JC – Então vejamos… aqui no processo diz que o senhor tomou o poder no Camboja de 1975 à 1979 e nesses 4 anos promoveu um genocídio que matou mais de 1 milhão de pessoas! O senhor tinha ódio de intelectuais, de artistas e mandou matar quem usasse óculos ou soubesse ler. Ordenou a destruição dos carros e máquinas, fechou os correios, cortou as linhas telefônicas, confiscou rádios e bicicletas e defendia uma sociedade 100% agrária. O que o senhor tem a dizer sobre essas acusações? 

Pol Pot – No processo tem alguma foto ou filme onde eu apareça fazendo isto? Ora Senhor, isto tudo é uma ilação! Eu poderia até dizer que os seus milagres, enquanto estava na terra, eram truques de mágica, pois nenhuma fonte independente comprovou que eles eram realmente milagres, mas não vou fazer isto! A prova da minha inocência é que eu deixei o governo em 1979 e morri de ataque cardíaco mais de 20 anos depois, em 1998, sem ter sido julgado por este “suposto” genocídio, do qual me acusam! 

SP – Próximo!

Adolf Hitler – Mein Führer, digo, meu Senhor, eu rechaço com veemência toda e qualquer acusação contra a minha pessoa. Sempre fui um líder que preservou os direitos humanos. 

JC – Mas não é bem isto que consta no seu processo… Diz aqui que o senhor assassinou 6 milhões de judeus em campos de concentração e mais 20 milhões de civis e presos políticos entre 1939 e 1945… O senhor tem algum argumento que o defenda dessas acusações? 

Adolf Hitler (com o dedo em riste) – Então me diga, qual a prova material conclusiva desta acusação? 

JC – Temos gravações dos seus discursos nas quais o senhor diz que os judeus eram uma raça de sub-humanos e socialmente indesejáveis. 

Adolf Hitler – Estas gravações possuem 294 descontinuidades e, por isso, não podem ser consideradas como válidas, já que podem ter sido editadas. Sem as gravações, não existem provas e a denúncia deve ser arquivada. 

JC – E os milhões de testemunhas e as fotos do senhor visitando um campo de concentração? 

Adolf Hitler – Todas as provas foram obtidas de forma ilegal. As testemunhas eram meus inimigos. Existe aí um claro conflito de interesses. Seus depoimentos não podem ser considerados. E as fotos, mostram apenas que eu estive num campo de concentração, mas foi para dizer ao diretor para ele dar um tratamento justo e humanitário aos prisioneiros. 

JC – Argumentações registradas. Pode se retirar, senhor Hitler… 

SP – Senhor, este foi o último! E agora, qual a Sua posição sobre estes processos? 

JC – Pois é, de acordo com o nosso Código Penal Celestial, as acusações não apresentam provas incontestáveis e, infelizmente, não temos como impedir a entrada deles no céu! 

SP – Mas Senhor, isto é um absurdo! Temos que fazer uma reforma, imediata, no Código Penal Celestial! 

JC – Sim, mas para isto precisamos de dois terços dos votos na Câmara dos Representantes Celestiais, e você sabe que mais de 300 dos 513 representantes, são anjinhos. 

SP – É verdade… Como os anjinhos são inocentes e não veem maldade em nada, não vão aprovar uma reforma que barre a entrada de pessoas no céu, nem mesmo os que sejam “conhecidos” pelos seus crimes… 

JC – Pedro… agora eu te pergunto: – “Quem foi, mesmo, que colocou tanto anjinho nessa Câmara?”

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com