08Apr
Coluna Dominical

Fofoqueiros do Futuro

– 8 de abril de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

O ser humano sempre gostou de saber e comentar a vida do outro. A ideia de privacidade surgiu no século XVIII, pois antes disto era coisa só dos nobres, mas de uns tempos para cá, percebemos que não existe mais essa tal de privacidade em nenhum lugar do mundo. O recente escândalo da Cambridge Analytica mostrou que, além de saber da nossa vida, as grandes empresas e os governos são capazes de manipular nossas opiniões e nossos sentimentos.

Cambridge Analytica é uma empresa que trabalha com Big Data e comunicação estratégica na política. A empresa diz que ajudou a eleger Trump, que influenciou no plebiscito para a saída do Reino Unido da Comunidade Europeia e que interferiu em mais de 200 eleições pelo mundo. Talvez eles estejam exagerando no seu poder de influência, mas a fofoca com eles, é da pesada! Como que eles fizeram isto? Depois de 4 anos, foi revelada a teoria desenvolvida por um professor de Cambridge que, por meio do aplicativo “Esta é sua vida digital”, conseguia traçar o perfil psicológico das pessoas. Os usuários do Facebook que acessaram este aplicativo, interessados em saber mais sobre sua personalidade, permitiram o acesso a sua lista de amigos e responderam perguntas, tais como: se gostavam de arte, se eram extrovertidos, se costumavam concluir os projetos que iniciaram, se eram vingativos, entre outras. O aplicativo foi acessado por 270 mil usuários e que tinham, em média 200 amigos, o que permitiu o mapeamento do perfil de mais de 50 milhões de pessoas.

E o que eles fizeram com essas informações? Para resumir: o dono dessa empresa é amigo do Trump, que contratou um cara, que falou com o tal professor e usaram a tal teoria para convencer os eleitores americanos a votarem no Trump. Por exemplo, um eleitor que adorava gatinhos, recebia noticias sutis e fotos insinuando que a Hillary maltratava gatinhos. As tais mensagens não eram enviadas pelo Trump, elas apareciam “por acaso” ou eram encaminhadas por alguém que este eleitor confiava. Um dos diretores da Cambridge disse para um jornalista, que se passou por político querendo contratar os seus serviços: “… as pessoas processam as informações através da esperança e do medo, muitas vezes inconscientemente. Nosso trabalho é descobrir quais são os seus medos…. Não adianta disputar uma eleição com fatos, mas sim com emoções e tudo precisa acontecer sem que pareça propaganda. No momento que as pessoas percebem que é propaganda, vão perguntar quem produziu. Precisamos ser sutis. Colocamos informações na corrente sanguínea da internet e vamos crescer”.

Tudo isso ocorreu na política, mas como “eu não estou na política” isso não me afeta, certo? Errado!!! Você já se perguntou o que o Google ganha em lhe oferecer informações gratuitas? O que o WhatsApp ganha em fazer, de graça, ligações para qualquer parte do mundo, que antes eram caríssimas? E quando você entra num site de uma loja para comprar uma bolsa, precisará preencher um cadastro, mas poderá se livrar de todo o preenchimento, se entrar com o seu perfil do Facebook. Embora pareça que o Face não ganhe nada, ele ganha para vender seus dados para outros, e a partir daquele momento o Face vai controlar todas as suas compras naquela loja. Ele poderá informar outras lojas, que as pessoas que compram aquela bolsa, costumam também adquirir sapatos. E daí você começa a receber mensagens, fotos, vídeos em que aparecem mulheres lindas com uma bolsa parecida com a sua, usando sapatos lindos, despertando o seu desejo de comprar aqueles sapatos.

A Comunidade Europeia está discutindo novas leis para restringir esta invasão de privacidade, mas mesmo que essas novas leis funcionem, ainda restarão os hackers… que poderão ser os próximos a bisbilhotar nossas vidas. Tudo isto ocorre porque as pessoas e organizações querem mais poder e dinheiro. A publicidade constrói desejos e necessidades prometendo que elas serão sanadas se o consumidor comprar determinado produto, e assim ele se sentirá feliz. Até quando vamos aceitar tudo isto? Será que as empresas não conseguem lucrar fazendo o bem? Será que elas não se sentiriam poderosas ao ajudar milhões de pessoas?  Já imaginou que bom seria se, uma vez identificado os nossos medos e as nossas necessidades, o Facebook, Google, Apple, Amazon, Microsoft, etc, atuassem para nos ajudar a superá-los? Se nos conscientizarmos que as empresas e os governos dependem de nós, talvez a fofoca no futuro seja para ajudar os cidadãos a serem mais saudáveis e a viverem num mundo mais sustentável. 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

Saiba mais em:

  • The Gardian – https://www.theguardian.com/news/series/cambridge-analytica-files 

  • Podcast: Mamilos 141 – Quem Quer Privacidade? – http://www.b9.com.br/89010/mamilos-141-quem-quer-privacidade/ 

01Apr
Coluna Dominical

De quem eu não gosto

– 1 de abril 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Eu não gosto de quem não gosta de muita gente, mas respeito o seu direito de não gostar. Me sinto desconfortável diante de certos comportamentos, mas como diz Mario Sérgio Cortella[1], a gente não precisa gostar de todas as pessoas, mas deve respeitá-las e, que conviver com quem não gostamos, é muito bom para o nosso crescimento. Para Cortella, se o adversário é fraco, nos tornamos mais fracos, assim como, se o concorrente é burro, emburrecemos. O oponente é que nos faz inovar, crescer, transformar… 

E você, já identificou de quem você não gosta? E seria capaz de identificar as razões pelas quais não gosta desta pessoa ou deste grupo de pessoas? Por favor, interrompa aqui a leitura deste texto e anote em algum lugar as respostas destas duas perguntas. Mas, continuando…

A jornalista Mariana Atencio[2] da NBC News diz que a sociedade divide as pessoas entre “nós” e “eles”, sendo que “eles” são os que são diferentes de “nós”. Para Mariana, conviver com os diferentes nos dá uma sensibilidade única e a capacidade de “calçarmos os seus sapatos”, ou seja, de nos colocarmos no lugar deles, que é a empatia. Sabemos que quando adicionamos um sentimento piedoso à empatia, ela se torna compaixão. Quando agimos com compaixão, o ódio, a intolerância e os preconceitos tendem a sumir e passamos a ser todos, apenas “nós”. Nos considerarmos como “normais”, não nos define, pois são as nossas diferenças e nossas imperfeições que nos fazem ser únicos e especiais.

Agora falando do “não gosto” de forma mais ampla, podemos identificar, mundialmente falando, conflitos entre religiões, a respeito de migrações, pela disputa de territórios, pelo desejo de independência… e, no Brasil, quais seriam os principais conflitos internos? Direita versus esquerda? Conservadores versus progressistas? Ruralistas versus ambientalistas? E quais seriam os preconceitos da atualidade? Aparentemente, em nossa nação não tem conflitos raciais e religiosos, mas na prática, sabemos que eles estão escondidos debaixo do tapete. Você já se questionou sobre estas questões? Se tivesse que votar, de que lado você estaria?

Nós passamos de sociedades tribais para nações, construímos uma sociedade globalizada, mas parece que não perdemos a vontade de viver “em tribos”, de conviver só com os iguais e de ler apenas as notícias que nos agradam. O contato com as diferenças, com os que não gostamos, exige maturidade e diálogo. Vejo o futuro com sociedades multiculturais descentralizadas, nas quais iremos valorizar as diferenças e aprender a coexistir com quem pensa diferente.

Agora leia o que você escreveu após o primeiro parágrafo. As razões que fazem você não gostar das pessoas ou dos grupos que listou, fazem sentido? A Páscoa é um momento que estimula revermos nossas atitudes, um período de perdão e de buscarmos ser mais tolerantes e compreensivos com as pessoas das quais não gostamos. Que tenhamos isso como meta não só nesse período, mas para todos dias do ano. Desejo uma Feliz Páscoa para você!

 (*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com  

[1] Mario Sergio Cortella  – Você não tem que gostar das pessoas, você tem que respeitar –

https://www.youtube.com/watch?v=ftK_uAbAM0w

[2] Mariana Atencio  – What makes you special?

https://www.youtube.com/watch?v=MY5SatbZMAo

 

25Mar
Coluna Dominical

Quem vai cuidar de nós? 

– 25 de março de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Durante uma conversa com amigos, surgiram algumas dúvidas: “Será que os nossos filhos vão cuidar de nós, quando precisarmos? E se eles estiverem lá do outro lado do mundo? Seremos mais uma mala para eles carregarem?” A conversa continuou e a primeira resposta que me veio à mente foi a de que, provavelmente, eles irão cuidar da gente da mesma forma que cuidamos dos nossos pais. E logo surgiu mais um questionamento: “será que já fiz ou estou fazendo, tudo o que posso pelos meus pais?” 

Nossos antepassados costumavam ter muitos filhos e, independentemente de terem ou não posses, na velhice, viviam com eles. Esta realidade mudou e o papel de cuidar dos velhos foi delegado ao Estado, já que pagamos impostos a vida toda e descontamos parte do nosso salário para garantirmos o sustento na velhice, com a aposentadoria. Acontece que, nos dias de hoje, ninguém mais confia que o Estado irá cuidar de nós. Portanto, quem puder, que faça o seu pé-de-meia para garantir uma velhice com plano de saúde, remédios e, talvez, uma boa casa de repouso. 

Muitos de nós pagam uma previdência privada, fazem uma poupança pensando em poder aproveitar a aposentadoria com uma renda melhor. Sem dúvida que isso é importante e necessário, mas o que geralmente esquecemos é que estes são alguns dos investimentos que precisamos fazer. Investir em relações qualificadas, em dedicar tempo para seus familiares e amigos, é o investimento mais seguro e que rende mais dividendos. Veja que os idosos mais felizes não são os que estão nas melhores casas de repouso, mas sim os que vivem mais tempo com boa qualidade de vida. Se num certo período, qualidade de vida é ter boa saúde, comprar muitas coisas, viajar, entre outros, no outro período a qualidade de vida está associada a ter independência, ter pessoas com quem conversar, com quem tomar um café e jogar conversa fora, e mais do que isto, ter quem goste de desfrutar da sua presença. 

O melhor de tudo, é que tais investimentos geram retorno imediato, já que não precisamos esperar até a velhice chegar para podermos usufruir dos seus benefícios. O que se planta hoje, pode-se colher hoje, amanhã e até o fim da nossa vida. Sempre buscamos ser independentes, mas na verdade somos interdependentes, já que sempre precisamos um do outro. Nesta semana, recebi o telefonema de um amigo perguntando se eu podia lhe fazer um favor. De imediato nossa mente divaga em várias possibilidades, mas não imaginei que o favor era para providenciar a sua internação hospitalar, pois após se sentir mal, ele tinha ido sozinho para o hospital. Em pouco tempo já tinha sido tudo resolvido e os familiares localizados. 

Essa conversa sobre quem vai cuidar de nós e o telefonema do amigo do hospital me trouxe uma série de questionamentos sobre o “cuidar” e sobre como estamos cuidando dos nossos filhos, dos nossos pais, da nossa saúde, das nossas relações, dos nossos sentimentos… entendendo que cuidar do outro não é apenas protegê-lo, mas se fazer presente na sua vida. Enfim… quem vai cuidar de nós, amanhã? Ainda não sei, acho apenas que serão aqueles a quem dedicamos nosso amor, hoje.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com