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22Jul
Coluna Dominical

Gostos e Desgostos na Vida

15Jul
Coluna Dominical

A quem você dá o seu dinheiro?

-15 de julho 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

A minha geração cresceu acreditando que as pessoas mais qualificadas seriam as líderes das organizações. Vivi numa época em que se difundiram as técnicas de gestão da qualidade, just in time, Kanban, melhoria contínua, foco na satisfação do cliente e tantas outras que levaram as empresas a se tornarem mais competitivas e lucrativas. Quando uma grande corporação comprava uma empresa concorrente, o fazia para aumentar a sua fatia no mercado. Imaginávamos que um gestor que tornasse uma empresa altamente rentável, seria reconhecido e teria o emprego garantido. As empresas de sucesso eram aquelas que tinham uma identidade, que construíram uma cultura e que tinham gestores eficientes e colaboradores motivados. Ao longo desses últimos 20 anos, entrevistei muitas pessoas, as quais relatavam sentir orgulho por trabalhar naquela determinada empresa. Outras eram gratas pelo fato da empresa pagar a sua faculdade e por estimular o seu crescimento profissional. Os colaboradores se engajavam em ações sociais e existia uma forte ligação da empresa com a comunidade local. Os “meus” estudantes sonhavam em trabalhar em empresas que tivessem boa reputação e que valorizassem seus funcionários.

Bem, isto foi verdade por um tempo. Agora, estamos vivendo numa nova época, na qual ser um bom gestor e ter uma empresa lucrativa não é mais suficiente. O melhor negócio passou a ser comprar e vender empresas, como sugere Garret Sutton, autor do livro: “Como comprar e vender empresas e ganhar muito dinheiro”. Esta receita vem sendo utilizada pelos fundos de investimentos que compram uma empresa lucrativa para desmanchá-la e vender as partes, lucrando mais assim do que fazendo a empresa crescer. A estratégia é a seguinte: compra-se uma empresa, escolhe os projetos mais lucrativos e descontinua-se os demais, mesmo que eles ainda fossem lucrativos. Cortam-se as cabeças, ou melhor, demitem-se os gestores competentes, já que eles custam caro e são os guardiões da cultura da empresa. Depois, vendem uma parte da empresa para um, outra parte para outra e assim desaparece aquela empresa tradicional, algumas vezes centenária. As partes não têm alma e os funcionários que permanecerem, continuarão no mesmo local de trabalho, mas perdem a sua identidade. Quem comprou, definirá as novas condutas. Segundo a Revista Exame, entre 2006 e 2014 os fundos de investimentos que compram e vendem empresas no Brasil obtiveram um retorno médio anual de 63%, o triplo da média mundial (https://exame.abril.com.br/revista-exame/bons-de-compra-e-de-lucro/). Ladislau Dowbor demonstra no livro “A Era do Capital Improdutivo” que o mercado considera positiva qualquer atividade que gere lucro – ainda que trave a economia e produza prejuízos sociais e ambientais – para enviar seus recursos, a salvo de impostos, a paraísos fiscais.

A partir dessas mudanças, os estudantes de hoje querem criar suas empresas ou buscar atividades alinhadas com os seus valores e que façam sentido para suas vidas, pois perceberam que as grandes corporações pagam pouco, sugam o seu sangue e os tratam como máquinas robotizadas. É verdade que a falta de oportunidades obriga muitos a aceitarem estas condições, mas eles ficam na empresa até o momento que encontram outra alternativa.

Provavelmente teremos nas próximas décadas a proliferação de diferentes modelos de negócios. De forma simplificada, diria que: num extremo estarão os que querem lucrar o máximo possível, mesmo que seja necessário desmanchar empresas lucrativas, provocar falência, vender alimentos ou remédios que causem danos à saúde, poluir o meio ambiente e, óbvio, tudo isto dentro dos limites da lei. Este tipo de negócio consegue “sensibilizar” os políticos para aprovar leis que os favoreçam, sob o argumento de que “é preciso modernizar a constituição”. E no outro extremo, estarão os modelos de negócios com propósito social e os fundos éticos. Estes não serão tão lucrativos em curto prazo, mas estarão em sintonia com a comunidade a qual pertençam e conquistarão a confiança dos seus clientes. Entre estes extremos, certamente teremos outros modelos de negócios.

O desafio de todos sempre será a conquista da confiança dos consumidores. Quanto mais consciente for o consumidor, mais ele avaliará em qual produto/serviço investirá o seu dinheiro, pois quando não existe um único fornecedor, qualquer compra é uma escolha. Aonde você imagina que seus filhos e netos irão querer trabalhar? Para quem darão o dinheiro deles?  E nós, quando investimos nossas economias, sabemos a quem estamos dando o nosso dinheiro?

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

08Jul
Coluna Dominical

A energia do futebol no jogo da vida

– 8 de julho 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Entre as tantas mensagens que recebi depois da desclassificação do Brasil na Copa, a que mais me chamou a atenção foi a do Pedro Santos, que eu não sei quem é, na qual ele inicia assim: – “Sabe essa energia que você coloca para ver o Brasil ganhar? Essa vibração positiva? Experimente direcioná-la também para sua vida cotidiana!”. Depois ele ainda complementa dizendo que ao assistirmos um jogo, temos a esperança de que a próxima bola vai entrar e, até o último minuto, acreditamos que será possível reverter a situação adversa. Por fim questiona: – Por que não fazemos o mesmo nas nossas vidas? Quando sofremos “uma falta”, nos enchemos de raiva e somos tomados por pensamentos negativos, dignos de levar um cartão vermelho. Algumas vezes na vida, o jogo pode estar no início, e nós já estamos entregando os pontos.

Seguindo a analogia proposta pelo Pedro, podemos comparar cada minuto do jogo com um ano das nossas vidas. Temos 90 anos de “vida regulamentar” e talvez mais alguns de acréscimos. Nos primeiros minutos do jogo da vida, estamos reconhecendo o campo e observando como os outros jogam e, aos poucos, vamos entrando no ritmo do jogo e a partir daí podemos até ter o domínio da partida. Mas o gol, o sucesso, não depende só das nossas habilidades. No futebol, assim como na vida, nem sempre os melhores vencem e nem sempre o craque é o mais importante para o time. Perder a partida é uma chance para analisar os erros, reavaliar a tática usada no jogo para vir mais forte na próxima competição. Perceba que os que ganham uma copa, tendem a ser eliminados na fase de grupo da próxima competição. Vencer depende do quanto se aprendeu com as derrotas.

Quando nosso time do coração ou a seleção brasileira vai mal, ficamos chateados, xingamos jogadores, técnicos, dirigentes, mas não mudamos de time. A derrota do Brasil não vai levar nenhum brasileiro a ser torcedor da Argentina. Nós assimilamos a dor, vivemos o luto e logo voltamos a ter esperanças. E por que nem sempre fazemos o mesmo na vida? Por que jogamos a toalha dizendo que “tal coisa não tem jeito”, “isto nunca vai mudar”, “eu não sirvo para isto”, “tô muito velho para…” e tantas outras expressões que nos desestimulam a continuar no jogo. Parece que na vida, esquecemos que o jogo só termina quando o grande juiz apitar. Se podemos viver 90 anos ou mais, por que estamos desistindo de nossos planos aos 50, 60, 70 ou aos 80 anos? Existe uma longa lista de pessoas que iniciaram uma carreira de sucesso após os 50 anos: Starbucks, Sopas Campbell, IBM, MacDonalds, Coca-cola, são alguns exemplos de empresas que foram criadas por pessoas com mais de 50 anos. Nem todos são Mark Zuckerberg (com 19 anos iniciou o Facebook), Bill Gates (com 20 anos iniciou a Microsoft) ou Steve Jobs (com 21 anos iniciou a Apple). Aproveitando os minutos finais do jogo da vida, aos 82 anos Yuichiro Miura escalou o Everest e, já nos descontos, aos 97 anos, a mineira Charmes Rolim se formou em Direito.

Não precisamos deixar de gostar de futebol, mas podemos por a mesma energia e esperança no jogo da vida. Quando estivermos perdendo, por que não acreditar que ainda dá tempo de virar este jogo? Em vez de ouvirmos aquele chato que dizia “vai que é tua, Taffarel”, vamos ouvir a nossa voz interior que diz: “não vamos desistir, nós vamos conseguir!”. E depois? É só correr para o abraço, pois seja uma pequena conquista ou uma grande vitória, todas merecem ser comemoradas. Abrace as pessoas que você ama e celebre com elas. Esta energia positiva vai se espalhar como a ola nas arquibancadas da vida…

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato:nascimentolf@gmail.com