30Mar
Coluna Dominical

Você merece mais do que esse trabalho

– 31 de março de 2019

Jaqueline Lessa *

Os jovens de hoje têm uma outra relação com o trabalho. O advento da internet e a noção de bem estar fazem parte das escolhas da juventude quando o assunto é produzir. A remuneração não é o fator principal, pois eles prezam pela qualidade de vida – especialmente no trabalho. Optam por fazer o que gostam, exigem respeito e preservam seus momentos de prazer no dia a dia. Quem vive esperando pela sexta-feira e tendo horror da segunda-feira, poderia se espelhar nesses conceitos para mudar. Você certamente merece mais do que isso.

Para a maioria, a qualidade de vida no trabalho ainda é um desafio. A insatisfação na labuta afeta diretamente o rendimento dos indivíduos e, consequentemente, o resultado das instituições. O ambiente competitivo está posto no mercado. Com isso, os colaboradores são mais exigidos e (sobre)vivem em constante cobrança. A pressão é vertical e hierarquizada em busca de metas e resultados. É isso que você quer para sua existência?

Algumas empresas percebem o quanto os colaboradores estão desacreditados do processo e estão investindo em programas de qualidade de vida, muitas delas instigadas pela juventude. Em contrapartida, o profissional devolve melhoria na sua capacidade produtiva ao sentir bem estar e aumento da autoestima. Não existe idade para buscar qualidade e alegria. Vá atrás disso! Existem alternativas.

Ao longo da História, o trabalho foi ocupando uma parte significativa na vida dos seres humanos. O que antigamente era para suprir as necessidades básicas de sobrevivência passou a ser o ponto central da vida do homem, principalmente depois da Revolução Industrial. Com o passar dos anos, as companhias sentiram a necessidade de aumentar a produtividade. Para tal, se fez necessário a força de trabalho. Dessa maneira, ficou impossível ignorar a presença do homem à frente da produção.

Com a tecnologia, o trabalho passou a ser desenvolvido em qualquer lugar: em casa, no hotel, no parque, em viagens, etc. Por outro lado, aonde o indivíduo vai, o trabalho vai com ele. É justamente este aspecto que intensifica a necessidade de os colaboradores terem sua criatividade preservada, bem como seus talentos incentivados. Repito: os jovens sabem lidar com esse cenário, mas qualquer pessoa pode aprender. As empresas que possuem a preocupação em oferecer um ambiente saudável com conforto, respeito, segurança, alegria e bem estar, estimulam o uso de todas as capacidades de um colaborador.

O termo Qualidade de Vida no Trabalho, chamado de QVT pelas corporações, surgiu em meados dos anos 60, em meio à transição da era industrial para a digital. Foi na década de 70 que este conceito ganhou força quando Louis Davis, professor da Universidade da Califórnia (EUA), usou a expressão para definir o sentido de bem estar, de saúde e de desempenho dos colaboradores nas suas atividades. Ele mostrou as consequências que as empresas estavam enfrentando com profissionais estressados, desmotivados e doentes por conta da falta de QVT.

A busca diária por um ambiente mais humanizado é uma entre as tantas atribuições da QVT. Estar atento em aproveitar as habilidades mais refinadas dos colaboradores é outra alternativa, buscando um equilíbrio entre a tecnologia, as tarefas e os seres humanos. Colaborar pode ser mais lucrativo do que competir.

Hoje, sabemos que a qualidade de vida no ambiente de trabalho não se limita apenas em prevenir acidentes. Para isso é importante desenvolver um estudo criterioso que apure as causas de insatisfação, tanto na carreira como no âmbito pessoal, e entender que o sujeito é a mesma pessoa. Ou seja, não é possível dissociar o “ser humano família” com o “ser humano trabalho”.

Várias ferramentas podem e já estão sendo utilizadas para diagnosticar setores “doentes” e pessoas tristes. Convém salientar que existem companhias que propõem atividades em horários livres para aliviar sintomas de estresse. Musicalização, yoga, meditação e rodas de conversa são opções que têm alcançado êxito nos últimos anos. Eis que começa a surgir uma outra form

a de ser, contribuir e estar verdadeiramente vivo no ambiente de trabalho, não importa onde ele seja.

As empresas que tratam os funcionários como escravos estão fadadas ao declínio. As corporações que querem melhorar o mundo investem nos colaboradores independentemente se eles ficarão um ano, cinco ou dez na empresa. O ganho é consequência, não é uma pré-condição. Essas compreenderam a nossa juventude e terão sucesso. A tendência é as pessoas buscarem empresas que respeitam os seres humanos de forma integral e holística. Os melhores talentos estão nesses locais de trabalho. E você, até quando vai ficar reclamando da segunda-feira? Afinal, é impossível ser feliz estando infeliz no trabalho.

(*) Jaqueline Lessa é coach do ser integral, terapeuta transpessoal, yogaterapeuta e palestrante. Educadora e idealizadora em capacitações sobre ecologia profunda, educação para a sustentabilidade e vivências com a natureza. Professora de cursos de pós-graduação e consultora ambiental. Graduada em Biologia (PUCRS), Especialista em Psicologia Transpessoal (UNIPAZ), Mestre em Microbiologia Ambiental (UFRGS), Doutoranda (UFSM). Master Coach (CONDOR BLANCO). Possui também formação em Cursos de Biopsicologia e Yoga (VISÃO FUTURO) e curso de Ayurveda em andamento.

Contato: jaquelessa15@hotmail.com

24Mar
Coluna Dominical

Uma outra empresa é possível ?

– 24 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

As organizações são divididas entre as públicas (primeiro setor), as privadas (segundo setor) e as sem fins lucrativos (terceiro setor). As do primeiro setor vivem dos impostos que arrecadam. As do segundo setor do lucro da venda dos seus produtos e serviços e as do terceiro setor, das doações que recebem para cumprir a sua função social. Nas últimas décadas surgiu um tipo de organização híbrida, que foi chamada de “Setor 2,5”, pois são organizações privadas que trabalham para resolver problemas sociais, tendo lucro com isto. As organizações do Setor 2,5 têm modos distintos de operar. Em algumas, os seus donos/idealizadores são remunerados pelo seu trabalho, mas todo o lucro é reinvestido no próprio negócio, enquanto em outras, o lucro é destinado aos donos do negócio. O que diferencia uma organização do Setor 2,5 de outra do segundo setor é que ela já nasce com o objetivo de resolver um problema social.

Entre as organizações do segundo setor, existem as que se destacam por fazerem parte das melhores empresas para se trabalhar, por possuírem selos e por constarem nos rankings de empresas com responsabilidade social, negócios de impacto positivo, etc. Mas, existem algumas poucas organizações com fins lucrativos que vão além disto tudo, elas são diferentes porque elas não seguem o comportamento esperado de uma empresa que visa lucro. Por exemplo: Por que uma empresa “desestimularia” os clientes a comprar seus produtos? Por que razões uma empresa privada deixaria de vender um produto altamente lucrativo para um cliente que lhe paga em dia? Por que uma empresa mostraria no seu website os seus custos e informaria o lucro que tem em cada produto? Por que uma empresa daria prioridade para um candidato que não é o mais habilitado para a função que está sendo contratado? Isto não contradiz a lógica dos negócios?

Pois bem, eu estou pesquisando estas “Empresas Diferentes” e analisando as razões para este tipo de comportamento. Relato a seguir alguns exemplos que explicitam o que estou falando.

Patagônia– produz vestuário e equipamentos para esportes ao ar livre, com mais de 1500 colaboradores e um faturamento ao redor de 1 bilhão de dólares em 2018, está localizada em Ventura, na Califórnia. Ela doa 10% do seu lucro para grupos que promovem a proteção ambiental e vem adquirindo áreas no sul da Argentina e no Alasca para transformá-las em parques nacionais. Lançou a campanha “celebre as coisas que você já tem”, onde mostra na etiqueta de uma jaqueta o nome das várias crianças que já a utilizaram. A Empresa fabrica produtos duráveis, com preços mais elevados, procura reduzir o impacto da sua produção e, ao fim da vida útil, os produtos serão reciclados. Se o cliente desejar comprar uma nova mochila porque a sua estragou, o vendedor lhe dirá: por que comprar uma nova se nós podemos consertar a sua?

Mercur– A Empresa co-cria e desenvolve com as pessoas produtos nas áreas de saúde e educação, possui 650 colaboradores e está localizada em Santa Cruz do Sul, RS. Ela deixou de vender um produto altamente rentável por não se identificar com os valores do cliente.  A Empresa abriu mão de usar personagens dos desenhos animados no material escolar por considerar que isto motivava o comportamento consumista das crianças e não contribuía para a sua aprendizagem. Em sua caminhada a Mercur busca constantemente refletir os seus valores através do seu comprometimento.

Insecta Shoes– com um time enxuto de aproximadamente 15 pessoas, a marca de moda sustentável terceiriza a produção de calçados ecológicos e veganos no sul do Brasil. A partir de materiais como garrafas PET recicladas, algodão reciclado, borracha reaproveitada, peças de roupas usadas, tecidos de reuso e resíduos de produção que seriam jogados fora, a Insecta os transforma em sapatos novos. Seu modelo de negócio visa estimular brasilidade, feminismo, sustentabilidade e para cada produto, detalha o custo. Em “Entenda nosso preço”, no seu website, a empresa mostra o percentual e explica cada item da composição do preço daquele produto. Segunda a Insecta ser consciente pode ser divertido. 

ThoughtWorks– uma multinacional americana na área de Tecnologia de Informações que atua em mais de 40 países. Tem a diversidade como um dos seus pontos fortes, pois acredita que pessoas diferentes encontram soluções diferentes para cada problema. Nos seus processos de seleção, prioriza os chamados excluídos do setor: comunidades LGBT, negros, portadores de necessidades especiais, etc. Ao selecionar alguém para a vaga de programador, mais importante do que o conhecimento em programação, valoriza a paixão do candidato pela programação. Diz que a parte técnica a empresa ensina, mas os valores e a paixão o candidato tem que trazer de casa.

Em resumo, não importa o país, o ramo de atividade ou o tamanho da empresa, encontramos empresas que atuam de forma diferenciada. Todas buscam viabilizar economicamente suas estratégias pois são empresas do segundo setor e precisam do lucro para sobreviver. Na sua opinião, as ações deste tipo de empresa são apenas estratégias de marketing para lucrar mais? Ou o que as move são seus valores morais e éticos, sendo elas capazes de abrir mão da possibilidade de elevar seus lucros quando uma estratégia se chocar com seus valores?

Esta pesquisa pretende investigar umas 20 empresas. Estou trabalhando com o apoio de muitos amigos e gostaria de receber suas sugestões e críticas. Se você tem algo a dizer sobre estas empresas ou indicação de outras, por favor entre em contato comigo. Agradeço a todos que estão colaborando com este projeto. Meu objetivo é verificar se é possível uma empresa ter honestidade nos seus propósitos, ser transparente, preservar o meio ambiente, gerar prosperidade a todos com quem interage e ainda assim, ser lucrativa.

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

17Mar
Coluna Dominical

Dá para separar a arte do artista?

– 17 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

O documentário recentemente divulgado que acusa Michael Jackson de abuso sexual de menores, entre outros impactos, fez com que algumas rádios deixassem de tocar suas músicas e que a marca Louis Vuitton resolvesse apagar as referências ao ídolo que estavam na sua última coleção. Já existiam acusações contra Michael, mas mesmo sendo divulgado uma década depois da sua morte, este documentário parece que causou mais estragos à sua imagem do que as acusações anteriores. 

No livro “Malva”, a escritora Hagar Peeters conta que Pablo Neruda abandonou sua filha Malva Marina, porque ela tinha hidrocefalia, e se afastou da esposa Maruca. Segundo a autora, Neruda chamava sua filha de “vampiresa de 3 kg”. Mãe e filha foram viver na Holanda onde passaram fome. Maruca suplicou a Neruda que mandasse dinheiro para que ela pudesse alimentar a filha, mas ele não a atendeu. O poeta que fez versos de amor tão lindos, não foi sensível ao sofrimento da filha e da mulher. 

Estes e outros exemplos nos questionam sobre a possibilidade de separar ou não a obra do autor. Será que Michael Jackson compôs algumas de suas canções inspirado em possíveis relações com menores? Teriam os poemas de Neruda feito o sucesso que fizeram e ele ganho o Prêmio Nobel de Literatura se esta história tivesse sido revelada naquela época? Se pesquisarmos a fundo a vida pessoal de Michael Jackson e de Neruda entenderíamos os respectivos comportamentos? O artista precisa ser uma “boa pessoa” para admirarmos a sua obra? 

Existe ainda o caso inverso, quando o artista se mantém coerente e os seus fãs trocam de opinião e passam a criticá-lo. Exemplo disto foi o que ocorreu em  2018 no Brasil, em consequência do acirramento dos conflitos ideológicos, várias pessoas deixaram de gostar de Chico Buarque por considerá-lo de esquerda, coisa que ele sempre foi.  Roger Waters foi vaiado no Brasil por dizer o que ele sempre disse. Não foram os artistas que mudaram de posição, mas sim os fãs das suas obras que se tornaram intolerantes às suas condutas.

Me parece que o problema da nossa relação com os artistas que admiramos começa quando os transformamos em ídolos, em “seres quase divinos”. Por admirar a sua obra ou o seu talento, esquecemos que eles são seres humanos como nós, cheios de virtudes e de defeitos. Este endeusamento é estimulado pelos seus patrocinadores e pela mídia que os transformam em super-heróis para vender seus produtos. O ídolo deixa de ser dono da sua vida, ele precisa usar a roupa do patrocinador, fazer merchandising, se comportar como recomendam os seus couches, etc. Alguns não aguentam a pressão e adoecem, outros se rebelam e adotam “atitudes estranhas”, e tudo isto se transforma em escândalos, que é uma outra fonte de renda para a mídia sensacionalista. 

Dá para separar a arte do artista? Eu não tenho resposta para esta pergunta. Me parece que somos muito tolerantes com quem gostamos, e muito críticos com quem não admiramos. Falando por mim, eu não gosto do comportamento de pessoas que se auto-elogiam e que menosprezam os demais, mas a minha identificação com o conteúdo da obra me faz ser tolerante com Raul Seixas, de quem eu sempre gostei, mesmo sendo ele um dos compositores que mais se auto-elogia e que chama os demais de burros. Incoerência minha? 

A arte é o que nos diferencia dos demais seres vivos. Ela é uma manifestação da alma. O artista consegue manifestar o que sente e o que observa os outros sentirem. A sua sensibilidade e o seu talento permite que ele expresse algo especial que chama a atenção das demais pessoas. Gosto da definição de arte “como aquilo que causa admiração dos demais”. Esta manifestação, para ter valor, precisa estar coerente com a trajetória de vida do artista? Em alguns casos sim, em outros não? Sempre? Nunca? Qual a sua opinião? 

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com