25Nov
Coluna Dominical

Curiosidades sobre os Feriados Americanos

– 25 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Morar em outro país é descobrir outros mundos. Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, o comportamento e os costumes em relação aos feriados são bem diferentes dos que temos no Brasil. Nos Estados Unidos existem feriados nacionais e estaduais, mas os feriados nacionais não precisam ser seguidos por todos os estados. Além disto, existem dias que não são feriados, mas que quase ninguém trabalha (Black Friday). Se o feriado cair no sábado, será puxado para a sexta, ou se transforma num crédito. Se cair no domingo, o feriado passa para a segunda-feira. Muitos feriados não possuem dia fixo, ocorrem última segunda-feira do mês tal, ou como Thanksgiving (Dia de Ação de Graças), que é comemorado na última quinta-feira de novembro. Fiquei curioso e fui buscar as origens de alguns feriados, quis entender como eles são celebrados, e resolvi contar a vocês aqui na coluna.

Os feriados nacionais possuem importâncias distintas nas diferentes regiões. O patriotismo é bastante forte entre os americanos, mais ainda em regiões conservadoras. O “4 de julho”, Dia da Independência da Inglaterra, é celebrado em todo o país com paradas, muitas bandeiras e queima de fogos, bem mais intenso do que o nosso 7 de Setembro. Existe um feriado para os que morreram nas guerras e outro para os veteranos das forças armadas. Na última segunda-feira de maio comemora-se o “Memorial Day”, que é o dia de colocar papoula vermelha, símbolo da perda da vida, nos túmulos dos que morreram nas guerras. Como quase toda família americana teve algum familiar ou amigo que morreu numa guerra, mobiliza muita gente. O “Veterans Day” é um dos poucos que tem data fixa, 11 de novembro, uma referência a data da assinatura do acordo para o final da Primeira Guerra Mundial. Este é o dia para agradecer a todos que serviram as forças armadas, tenha sido em épocas de guerra ou de paz. Também com cunho patriota, é o feriado da terceira segunda-feira de fevereiro – “Dia dos Presidentes” – (originalmente era uma homenagem a George Washington, e também para celebrar o aniversário do Presidente Abraham Lincoln, que nasceu em 16 de fevereiro. Hoje é para lembrar de todos os Presidentes.)

Dois feriados nacionais estão relacionados as questões sociais e lutas por direitos civis: o “Dia de Martin Luther King Jr.”, ocorre na terceira segunda-feira de janeiro, é o dia de celebrar a luta pela igualdade de direitos e contra a segregação racial. O “Dia do Trabalho” aqui ocorre na primeira segunda-feira de setembro. Neste dia inicia o campeonato de futebol americano. É um dia de descanso, não um dia de lutas, como é o “1º de Maio” em vários países do mundo. Curioso que a data de 1º de Maio está relacionada com a greve de 500 mil trabalhadores que ocorreu em 1886, em Chicago, com várias mortes de policiais e de trabalhadores. Aqui, esta data foi esquecida!

O descobrimento da América foi em 12 de outubro de 1492, mas o feriado “Dia do Colombo” passou para a segunda Segunda-feira de outubro, que este ano caiu no dia 8 de outubro. 

Os cristãos representam 75% da população americana, sendo apenas 24% católicos. No Brasil, maior país católico do mundo, 65% da população são católicos. Contei para uns amigos que o Brasil é um país tropical, mas que os cartões de Natal mostram o Papai Noel na neve. O Natal para os americanos é menos importante do que o Thanksgiving, o dia em que eles reúnem a família para agradecer por tudo de bom que aconteceu. Antes do jantar, ao redor da mesa, cada um faz os seus agradecimentos, começando pelas crianças até o mais idoso da família. Segundo a tradição, este é o dia de servir o peru, sobremesas com abóbora, maçãs e uvas, pois originalmente esta data foi associada a comemoração da colheita. No Natal (Christmas Day) a tradição é comer frango, embora muitos comam peru e frango no Dia de Ação de Graças e também no Natal. Geralmente as pessoas escolhem uma das datas para passar com os pais e avós.

E de onde vem o Black Friday? Nos EUA, quando uma empresa está com prejuízos, diz-se que está no vermelho, e quando está tendo lucro, está no “preto”. Como o Thanksgiving ocorre numa quinta-feira e não vale a pena as pessoas retornarem para suas cidades para trabalhar na sexta, esta data se transformou num feriadão extraoficial. Americano sabe vender muito bem, logo tiveram a ideia de aproveitar esta sexta-feira para colocar as empresas “no black”, melhorar as vendas. Assim surgiram as promoções do “Black Friday”, que levam pessoas a posarem na fila na frente de lojas. Algumas lojas abrem na madrugada da Black Friday. Ah! Eu não sabia que existe ainda a “Cyber Monday”, a segunda-feira seguinte onde são feitas as melhores ofertas de produtos eletrônicos.

O primeiro do ano é um feriado nacional, mais celebrado em Nova Iorque do que em outras cidades. Assim como o 17 de março, Dia de São Patrício, padroeiro da Irlanda, muito celebrado pelas comunidades de irlandeses em cidades como Nova Iorque, Boston e Chicago, mas quase desconhecido na costa oeste. Da mesma forma, o 31 de março, feriado nacional relativo ao dia de Cesar Chaves, ativista de direitos civis e do movimento trabalhista no Arizona e região, não é nem lembrado na costa leste. 

Halloween, conhecido como “Dia das Bruxas”, é celebrado em 31 de outubro. No passado, acreditava-se que no dia de Halloween os espíritos dos mortos retornavam a suas antigas casas, por isto a decoração e as fantasias lembram os mortos. Tive a oportunidade de ir num bairro de Santa Bárbara onde as pessoas decoram o quintal e abrem suas casas para os visitantes. Os donos das casas se fantasiam, tentam assustar as crianças e depois lhes oferecem doces. Alguns quintais se transformam em verdadeiros cemitérios, com esqueletos pendurados nas árvores. Tudo muito macabro. 

Enfim, percebam que vários feriados americanos se transformaram em “dia de compras”. Ontem comentei com um colega que estava feliz por ter passado o Black Friday sem comprar nada. Sabe qual foi o comentário dele? “E você tinha grana para comprar?”  Tóóóiiiimmm !!!!

Santa Bárbara News: Choveu!!!! Acabaram os incêndios.

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

18Nov
Coluna Dominical

Incêndios na Califórnia

– 18 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

No Brasil estamos acostumados a ver inundações de bairros ou de cidades inteiras, mas não lembro de que alguma cidade tenha sido devastada pelo fogo. Talvez esta seja umas das razões que mais nos choca: como que o fogo pode ter destruído 12.263 prédios da cidade Paradise? Ironicamente, o fogo do inferno queimou o “paraíso” e causou 71 mortes. A pequena cidade de Paradise, com 27 mil habitantes, fica aos pés da Sierra Nevada, ao norte de San Francisco. Nos últimos 50 anos atraiu muitos aposentados, triplicando sua população. “Camp Fire” como é chamado o local deste incêndio, está sendo considerado o pior da história dos incêndios da Califórnia, hoje já está 55% controlado e tende a ser extinto em alguns dias, mesmo sem a presença da chuva. Outro foco que ainda queima é o “Woosley Fire”, onde está Malibu, nas proximidades de Los Angeles. Este incêndio já está com 82% controlado, deixando 2 mortes e destruído 836 prédios. Ambos incêndios começaram no dia 8 de novembro e onze dias depois ainda estão em chamas. Além destes, na última semana existiram cerca de 70 focos de incêndios, todos os demais já controlados. O ano de 2018 está tendo a temporada de incêndios mais destrutiva da história, só neste ano já foram 7.579 incêndios na Califórnia, que destruíram cerca de 7 mil km² e causaram prejuízos de 3 bilhões de dólares.

Mas por que estes incêndios acontecem? Segundo o Presidente Trump foi má gestão das florestas e ameaçou cortar as verbas para a recuperação das áreas atingidas. Esta é uma estratégia para atacar um estado que sempre vota contra ele, mas ele esqueceu de dizer que 60% das florestas na Califórnia são “florestas nacionais” e administradas por Washington. Ontem, Trump visitou Paradise, dois dias depois de dizer que o aquecimento global é uma farsa.

Imagine um verão quente e seco, com chuvas previstas para o outono, mas elas resolvem não aparecer. A vegetação está seca, e então alguém distraído joga fora uma bituca de cigarro.  Os incêndios sempre iniciam com faíscas provocadas pelo homem. Na verdade, existem duas temporadas de incêndios, os no verão, em função das altas temperaturas, que geralmente ocorrem nas florestas, em áreas mais afastadas das cidades. A segunda temporada são os incêndios no outono, os mais perigosos, pois se propagam devido aos ventos e atingem áreas próximas das cidades. Vale lembrar que Malibu é um lugar lindo onde a floresta chega próximo à praia, lugar onde vivem muitas celebridades. Neste local vive gente rica e que pode pagar um seguro contra incêndio. Em Paradise, provavelmente muitas pessoas não tinham seguro e perderam tudo mesmo. Uma realidade muito mais dura.

Por que morrem tantas pessoas? Em Paradise o fogo chegou muito rápido em função do vento. Além das 71 mortes comprovadas, existem mais de 1000 pessoas desaparecidas, a maioria idosos. Apesar dos avisos, algumas pessoas insistem em permanecer nas suas residências tentando evitar que o fogo se aproxime.

Qual a relação do aquecimento global com os incêndios? Segundo os especialistas, o aquecimento global fez aumentar 2 a 3 graus Fahrenheit na Califórnia, o que facilita os incêndios. Os registros dos incêndios começaram em 1932, desde então, nove entre os dez maiores incêndios ocorreram neste século, sendo cinco deles depois de 2010.

As consequências do fogo vão muito além das regiões dos incêndios. Segundo uma rede de monitoramento, na última quinta-feira, a qualidade do ar na região de San Francisco foi a pior do mundo, pior do que as das cidades mais poluídas da Índia e China.

Esperamos que milagrosamente essas mais de 1000 pessoas desaparecidas estejam vivas e que a população e nossos governantes se convençam que estes desastres não estão ocorrendo por acaso. Tenho repetido, cuidar da natureza é um ato de sobrevivência da nossa espécie. O custo destas tragédias supera em muito o que seria necessário para reduzir o crescente aquecimento global. Quantas tragédias ainda precisarão acontecer para que os  governantes deixem de dizer que o aquecimento global é uma farsa?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

11Nov
Coluna Dominical

As complicadas eleições Americanas

– 11 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

No último 6 de novembro ocorreram as eleições de “meio de mandato” nos Estados Unidos, onde foram eleitos os 435 deputados federais, metade do senado e governadores de 36 dos 50 estados americanos, deputados e senadores estaduais, além de outros cargos que são eleitos pelo voto direto: advogado geral, secretário de estado e a suprema corte estadual. Ah! Os eleitores votam ainda em proposições, que se aprovadas, viram lei. Confesso que ainda não entendi como funcionam algumas coisas na democracia americana, e fiquei surpreso com outras tantas. E o sistema de votação, então? Nada de urna eletrônica, a cédula tem duas páginas e, de tão complicada que é, são distribuídos manuais aos eleitores explicando como votar.

Quem venceu as eleições? Depois de 8 anos, os Democratas recuperaram a maioria na Câmara e prometem fiscalizar o Trump. Eles poderão impedir medidas como a construção do muro na fronteira com o México. Trump terá que governar por decreto, como fez Obama quando tinha minoria na Câmara. No Senado, os Republicanos continuaram com a maioria, com 51 dos 100 senadores. Em vários estados ocorreu uma disputa acirrada nas eleições dos governadores e dos senadores, por exemplo, para governador na Flórida, venceu a candidato Republicano por uma diferença de 0,4%, o que vai levar a uma recontagem dos votos.

A maioria dos eleitores americanos são fiéis aos partidos. Quando os eleitores de um determinado partido não gostam do candidato do seu partido, eles simplesmente não votam. Portanto, os esforços de campanha dos candidatos é para convencer os indecisos e para chamar os eleitores de seu partido para votarem, pois o voto não é obrigatório. O que ocorreu na eleição de Trump foi que os democratas não se empolgaram com a Hillary e não foram votar. Alguns imaginavam que a eleição já estava ganha e que o seu voto não faria falta. Do outro lado, Trump conseguiu motivar os eleitores republicanos mais conservadores, que compareceram em peso as urnas. Existem estados que são tradicionalmente Democratas e outros que são Republicanos. Alguns poucos estados são flutuantes, onde pode ganhar um outro partido. Interessante verificar que independente da tendência do estado, nas grandes cidades predomina o voto democrata e na “zona da mata”, o voto republicano. Mesmo na democrata Califórnia, os republicanos são fortes na região das fazendas e dos vinhedos. As eleições para presidente são indiretas, o partido que vencer as eleições num determinado estado, indicará todos os delegados deste estado para a escolha do presidente. Os partidos derrotados neste estado não terão direito a nenhum delegado.  

Nas eleições de 6 de novembro de 2018, houve grandes novidades: pela primeira vez foram eleitas duas deputadas representantes dos povos indígenas, duas deputadas muçulmanas, um governador assumidamente gay, e as mulheres conquistaram a marca histórica de mais de 100 das 435 cadeiras da Câmara. A percentagem de 23% de mulheres ainda é pouca, mas é bem maior do que os 15% de mulheres na Câmara Federal no Brasil. Por outro lado, quem já elegeu Juruna em 1982, estranha que só agora os representantes indígenas conquistem espaço no parlamento da “maior democracia do mundo”.

Os candidatos ao senado passam por uma espécie de “prévia”, e os dois mais votados disputam os votos dos eleitores, podendo inclusive os dois candidatos serem do mesmo partido. Na Califórnia os dois candidatos ao Senado eram Democratas. 

Entre outras curiosidades, está o fato das pessoas poderem votar pelos Correios, inclusive astronauta que estiver no espaço poderá votar. O dia das eleições não é feriado. Os eleitores votam em candidatos e também nas tais “proposições”, que vão desde reduzir a taxa cobrada na gasolina até obrigar empresas de alta tecnologia a ajudarem os moradores de rua. As proposições são uma espécie de plebiscito, que uma vez aprovado, vira lei.

Enfim, um sistema eleitoral bem diferente do brasileiro, mas temos um ponto em comum, o partido que arrecadar mais dinheiro terá mais chance de vencer as eleições. Eu gosto da ideia das proposições, pois é uma forma de democracia direta. Fiquei imaginando se existisse esta possibilidade no Brasil, que proposição eu faria? Acho que iria propor que os carros que trafegam com apenas uma pessoa no centro das cidades pagassem pedágio e que este recurso fosse utilizado para subsidiar o transporte público e construir mais espaços para o uso de bicicletas. E você, qual seria a sua proposição?

Santa Bárbara Bad News: Em três dias de incêndios na Califórnia foram destruídas cerca de 6500 casas e 260 estabelecimentos comerciais. Trinta e sete pessoas morreram e 300 mil pessoas estão sendo evacuadas da região. A cidade de Paradise com 27000 habitantes foi totalmente destruída. O fogo está do outro lado de Santa Bárbara, cerca de 50 km de onde eu moro. Além da preocupação em deter o fogo, existe o controle da qualidade do ar. Se aumentar muito a fumaça serão distribuídas máscaras para a população. A principal rodovia que liga Santa Bárbara à Los Angeles foi fechada. Rezemos pela chuva.  

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com