07Jan
Coluna Dominical

Os Prazeres da Vida

– 7 de janeiro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Ao pedir um café sem açúcar, ouvi da atendente da cafeteria, uma simpática e falante senhora, que os clientes, hoje em dia, só pedem o café sem açúcar, barrinhas de cereais e completou, em tom de reprovação: “estas coisas que não dão prazer na vida…“ Aproveitando a calmaria do local, questionei sobre quais seriam as coisas que dariam prazer a ela. Aí a conversa se alongou e rimos muito. Saí dali pensando sobre o que poderíamos fazer para, pelo menos por alguns segundos, termos uma sensação de bem-estar. Imaginei uma situação extrema, em que uma pessoa ficasse trancada num quarto, vazio e escuro, durante 48 horas. Quais os prazeres que ela poderia ter nesta situação?

– Meditar – aí ela teria uma sensação de bem-estar durante a meditação;

– Pensar – o pensamento poderia trazer boas lembranças e provocar prazeres;

– Praticar exercícios físicos – estabelecesse uma meta e vibrasse quando tivesse concluído a série de exercícios estabelecida, assim conseguiria produzir hormônios como a serotonina e a dopamina;

– Cantar – para quem gosta, libera endorfina e provoca uma sensação de felicidade;

– Dormir – depois de ficar acordada por um bom tempo, quando exausta, ela teria muito prazer quando conseguisse pegar no sono;

– Se espreguiçar – ao acordar, depois de ter dormindo num chão duro, essa ação causaria uma enorme sensação de bem-estar;

– Fazer as necessidades fisiológicas – a retenção dessas necessidades até o ponto de que se tornem prazerosas de serem feitas.

O que mais ela poderia fazer na escuridão? Vamos pensar… Ah, ela poderia:

– Se masturbar e provocar orgasmos;

– Dependendo do estado de saúde, a pessoa poderia praticar outras ações, como por exemplo, um masoquista sentiria prazer batendo a cabeça na parede.

Portanto, se estando presos num quarto escuro e vazio, poderíamos ter uma dezena de prazeres, imagine quantos mais não poderíamos ter, se em liberdade, explorássemos nossos sentidos: visão, audição, paladar, tato e olfato! Entre tantas outras possibilidades, podemos ter a sensação de bem-estar ao experimentar a paz, a liberdade, a conexão com Deus e com o meio, bem como os sentimentos que resultam dos relacionamentos afetivos, sejam eles com amigos ou com amores. Talvez as sensações de bem-estar mais significativas e mais fáceis de serem obtidas estejam naquele riso espontâneo de uma conversa descontraída, naquele gesto de ajuda ao outro, ao praticarmos o bem ou no sentir-se feliz com a felicidade do outro. Além de produzir o hormônio ocitocina, o valor disso é inestimável.

Me dei conta de que existe uma convenção de que o prazer está no consumo de bens como carros, cerveja, churrasco, etc. Nós quase não percebemos que a vida pode nos proporcionar tantos prazeres e que eles estão ao nosso alcance, bastando estimular o nosso cérebro para a produção das “inas”: endorfina, serotonina, dopamina e ocitocina, que poderíamos chamá-las de nosso “Quarteto Fantástico. E o melhor de tudo, as “inas” são gratuitas e dependem apenas do nosso comando para que entrem em ação e nos tragam emoções e prazeres tão intensos que farão inveja aos feitos dos super-heróis da Marvel Comics.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com 

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