25Feb
Coluna Dominical

Ora Ferrari, ora Rolls-Royce

– 25 de fevereiro de 2018

Luis Felipe Nascimento(*)

Eu não sou um apaixonado por carros e nem sonho em comprar carro de luxo, talvez por isto que me chame tanto a atenção saber que alguém pagou 2 milhões de dólares por um ou que tenha uma coleção de carros luxuosos. Considerando que a vida é o bem mais valioso que podemos ter e que vamos desfrutá-la “a vida toda” (perdoe-me o trocadilho), quanto custaria a nossa vida?

Ainda relacionando nossa vida aos carros de luxo, diria que para quem está na faixa dos 20 ou dos 30 anos, a vida é como uma Ferrari e lá pelos 50 anos ela se transformará num Rolls-Royce. Eu explico! A Ferrari é um carro esportivo, com motor potente e um design deslumbrante. Ou seja, é mais do que um carro, é uma conquista, é um símbolo de status. Nas primeiras décadas das nossas vidas acontece algo semelhante com o nosso bem mais precioso – nossa vida. Olhamos só para frente, definimos um caminho, aonde queremos chegar e o que queremos conquistar. Temos que ter um motor potente para vencemos as competições do dia-a-dia. Quando atletas, buscamos superar nossos limites para estarmos lugar mais alto do pódio. Se trabalhadores, tentaremos ser profissionais competentes para ganhar um bom dinheiro e, quem sabe, comprar a casa própria, um bom carro e acumular o máximo de grana possível, mesmo que para isto tenhamos que nos dedicar ao trabalho por 10h, 14h ou 18h diárias. Além disso, ainda queremos prestígio ou, no popular, queremos ser “o cara”.

Por outro lado, as pessoas que estão na faixa dos 80 ou dos 90 anos, na maior parte do tempo, lembram do que fizeram e do que deixaram de fazer, das boas e más lembranças e contam suas histórias para os netos e bisnetos. Já quem está na faixa dos 50 anos, ou próximo dela, ainda tem a possibilidade de olhar para o passado e para o futuro, pois já conquistou muita coisa, mas ainda terá tempo para novas conquistas contando, ainda, com a experiência que a vida lhe proporcionou. Não é mais o ronco do motor da Ferrari que interessa, mas a elegância, o conforto e a serenidade de um Rolls-Royce. A vida sai de uma linha de produção e passa a ser tecida de forma artesanal, como são fabricados esses carros. Uma pesquisa recente feita pelo próprio fabricante sobre o estado de conservação de todos os carros que produziu ao longo de seus 111 anos, demonstrou que 77% dos carros Rolls-Royce se encontram em perfeito estado de conservação. Ah, se isso acontecesse conosco!!!

Mas o que muda quando se chega na faixa dos 50 anos? Algumas pessoas estarão fazendo planos sobre o dia em que se aposentarão, os já aposentados estarão planejando como usar o seu tempo nesta nova etapa da vida. Quem acelerou muito nas primeiras décadas, talvez esteja com seu motor desgastado e vá passar o restante da vida visitando oficina. Aqueles que cuidaram bem da sua máquina, que fizeram a devida manutenção, poderão desfrutar de uma longa e sossegada viagem.

Independentemente de termos vivido como um carro de um tipo ou de outro, sabemos que, com o desgaste, o motor vai precisar de reparos! Mas… o que acontecerá quando a vida chegar ao seu final? Neste momento, poderá ocorrer um “desmanche” para doação de órgãos ou, quem sabe, restem muitos feitos e algumas memórias. Tudo vai depender das marcas que deixamos na estrada da vida. Elas podem ter sido cheias de dificuldades para uns e asfaltadas para outros, mas mesmo assim vamos perceber que valeu a pena ter passado por elas. E o destino? Ah! O destino … este dependerá do condutor, que é você! 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *