12Aug
Coluna Dominical

Encontros & Despedidas

– 12 de agosto de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Em “Encontros e Despedidas”, Milton Nascimento canta: “Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica, me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando…” A partir dessa estrofe, pretendo refletir sobre as mudanças, nos últimos 28 anos, nas despedidas e reencontros. Em quase 30 anos, saí três vezes para estudar no exterior e posso testemunhar essas mudanças como quem vai e como quem fica, posso falar das viagens do meu irmão, mesmo que ele fosse passar apenas uma semana em Nova Iorque, havia um churrasco de despedida e outro de chegada. Na festa da ida fazíamos as encomendas e na da volta, recebíamos as encomendas e souvenirs. Hoje em dia, quando fico sabendo que ele foi, ele já voltou. Não tem mais churrasco, nem encomendas e muito menos presentes para os que ficaram.

Em 1991 a Neca e eu fomos fazer doutorado na Alemanha. Houve uma festa de despedida reunindo amigos e familiares, mesmo os de longe. Ao aeroporto iam dezenas de pessoas e lembro até do meu choro, abraçado em minha mãe. Afinal, ficaríamos afastados por anos e numa época em que a comunicação era feita por cartas. Quando voltamos em 1995, trouxemos o Lucas já com 1 ano, conhecido apenas por fotos e fomos recebidos pelas mesmas dezenas de amigos e familiares. Ao descermos do avião avistamos uma enorme faixa de boas-vindas. Nos dias seguintes ocorreram várias festas celebrando nosso retorno, sendo uma delas na terra natal da Neca, em Boa Vista do Buricá, uma comunidade de alemães. Desfilamos num Ford 1929, muito bem conservado, com todas as janelas de plástico abertas, para que o povo pudesse ver a primeira boa-vistense a obter o título de doutora e ainda na Alemanha! Seguindo o carro vinham outros, enfileirados, soltando foguetes. O desfile terminou no clube, aonde foi servido um churrasco.

Em 2002 saímos novamente, agora para o pós-doutorado em Boston, EUA. No aeroporto nos despedimos dos amigos próximos e de familiares que, somados, daria pouco mais do que uma dezena de pessoas. A comunicação já era pela internet e falávamos pelo Skype, todos os domingos, com a família. Um ano depois retornamos e, no aeroporto, aqueles mesmos nos aguardavam. Muitos abraços sim, mas sem festa e nem desfile. 

Em 2018, agora sozinho, saio para outro pós-doutorado na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Tentei evitar festas de despedidas, mas alguns amigos transformaram nossos encontros em homenagens carinhosas. Consegui tomar café com uns e almoçar com outros, mas ainda fiquei devendo o até logo para muitos. A comunicação hoje em dia permite que a gente fale em qualquer momento via WhatsApp ou outros. Nestes tempos modernos, para ir ao aeroporto, tomei um Uber e, óbvio, não tinha ninguém para eu me despedir.

Vejo as mudanças nos encontros e despedidas como um processo natural, uma vez que viajar para o exterior se tornou mais comum do que há 30 anos e que estamos conectados com as notícias do mundo de lá, ou seja, estar na sua cidade ou há milhares de quilômetros de distância, parece não fazer diferença. As relações não mudaram, mas a comunicação e a forma de se despedir e de se reencontrar, sim. Hoje, quase não se vê as pessoas indo até a plataforma da estação ou ao saguão de um aeroporto. Esse gesto não se faz mais presente para nós simples mortais, mas a emoção ainda vive nas palavras e nos olhos daqueles que nos amam. Exceções são os fãs recebendo algum ídolo ou times de futebol. Na véspera desta viagem, fui comunicar a uma vizinha de que eu ficaria um ano no exterior, então ela me disse, emocionada: “Credo, fiquei chocada”. E depois exclamou: “Eu nem sabia que gostava tanto de ti!”.

As despedidas são como mudanças de endereço, pois a gente descobre coisas que nem lembrava que tinha e percebe que pode se desapegar de outras que estavam conosco, mas que nunca nos fizeram falta. Esse também é o momento para arrependimento de coisas que não fizemos, de nos alegrarmos com o carinho que recebemos e de ficarmos temerosos em relação ao que virá… Despedida lembra afastamento, ausência, perda de contato, o que nos provoca um sentimento de vazio, de tristeza. Para evitar isto, alguns amigos chamaram a minha despedida de “boa ida”, para dar um sentido positivo.

Embora todas as facilidades de comunicação virtual, ela nunca vai substituir uma conversa presencial, um abraço fraterno e nem sentimentos identificados ao olharmos nos olhos do outro. Despedidas e encontros em aeroportos, festas, cafés ou almoços mudaram sim, mas continuam sendo momentos marcantes em nossas vidas. Gratidão por todas as palavras e gestos de carinho que recebi de meus queridos amigos… God bless You.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

One thought on “Encontros & Despedidas

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *