Category: Coluna Dominical

25Jun
Coluna Dominical

Orgânico: é bom pra quase todos!

-25 de junho de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Buscando vivenciar a prática de uma teoria discutida em aula, meus alunos e eu fomos visitar uma das propriedades da Via Orgânica, uma rota turística do município de Garibaldi, na região da Serra Gaúcha, que reúne produtores de orgânicos. Se me contassem a respeito de uma propriedade com 4 hectares, situada numa encosta de morro, com o solo pura pedra, longe dos centros de consumo, eu logo pensaria que, nessa situação, esse lugar não seria economicamente rentável, mas não foi isto que vimos por lá. 

A simplicidade é o cartão de visitas, quando a recepção é feita por dois cães e um pata, a Chica, que além de receptivos, são extremamente carinhosos. Para a apresentação da propriedade, não tivemos o tradicional vídeo institucional, tampouco cadeiras para sentar. Descemos da VAN e fomos direto para o parreiral. O proprietário, que é um técnico agrícola, usando um chapéu de palha e chinelos de dedo, nos contou a história dos seus avós e a sua trajetória. Falando com maestria, prendeu atenção dos mestrandos e doutorandos, por mais de duas horas. Durante a conversa, como estávamos ávidos para saber tudo os que envolvia a produção de uva orgânica, queríamos perguntar se realmente era um bom negócio, se ele nunca tinha usado veneno mesmo, como que ele fazia para combater as pragas, entre outras informações, mas ele dizia:    “- Calma, isso vem depois”. 

Durante esse tempo, tive que dividir a atenção entre a fala do proprietário e a pata Chica, que insistia em comer os cadarços das minhas botas. Os cachorros, que já conheciam bem toda aquela explanação, se deitaram ao nosso redor e ficaram ali, dormindo confortavelmente naquela tarde de inverno ensolarada. Por vezes, o lembrei sobre o nosso horário de retorno, mas mesmo assim ele não se apressava, parece que a vida por lá anda em outro ritmo.

Ele nos disse algo que pode parecer óbvio pela simplicidade da afirmativa, mas que envolve a sua sabedoria empírica: “as plantas são como as pessoas e quanto mais saudáveis forem, menores serão as chances de adoecer”. Dessa forma ele explicou que, para uma planta ser saudável ela precisa de um solo saudável e, para isso ele usa pó de rocha e nutrientes naturais, sem químicos. Como consumidor desconfiado, alguém perguntou: “- Qual a garantia de que não tem veneno?” Ele respondeu: “- Os vizinhos! Temos um sistema de certificação em que um fiscaliza o outro. Se alguém colocar veneno, todos nós vamos perder a confiança que conquistamos e acaba o nosso negócio. ” 

Enquanto degustávamos o suco e o vinho orgânicos, sentados em degraus de pedra, ele continuava o assunto, agora sobre a contabilidade da propriedade. Nos disse que, quando herdou a propriedade, a produção anual de uva tradicional era de 80 toneladas, o que renderia hoje o valor bruto de 80 mil reais por ano, e que descontados os impostos e o custo de produção, a renda líquida era insuficiente para manter uma família composta por 4 pessoas. Além disto, ele tinha que vender sua produção para uma cooperativa que demorava vários meses para lhe pagar. Neste momento pensei que a minha suspeita inicial, de que esta propriedade seria inviável economicamente, estava se comprovando. Mas, ao longo dos anos ele foi fazendo a conversão para orgânicos, o que ocasionou uma redução nos custos de produção de 35% e aumentou o valor do produto, pois a uva orgânica está valendo o dobro da convencional, o que fez com que dobrasse a renda familiar. Aos pouquinhos, ele foi comprando as pipas e os equipamentos necessários para produzir suco e vinho orgânico. Com a mesma quantidade de uva produzida na época do seu avô, hoje ele produz 60 mil litros de suco e vinho orgânico. Em média, o suco e o vinho são vendidos a 15 reais, o que resulta numa renda bruta de 900 mil reais por ano. Valores somados ao da venda de uva, de outros produtos e a renda com o turismo, ele passou de um faturamento de 80 mil para mais de um milhão por ano. Além disto, hoje, ele movimenta a indústria de rótulos, de garrafas, de caixa de papelão, transportadora e o próprio turismo na região. 

Todos ganham? Não! Quem vende agrotóxicos e remédios, perde. O proprietário, em sua sabedoria, afirma que prefere ser um pobre saudável do que um rico doente. Ele questiona:           “- Vocês não acham curioso que a mesma empresa que fabrica o agrotóxico também fabrica o remédio para tratar das doenças causadas pela contaminação dos agrotóxicos? ” 

A conversa se estendia e cada vez tínhamos mais perguntas. Queríamos saber se a produção de orgânicos poderia alimentar a população do mundo. A resposta dele foi direta: “- Se a produção orgânica recebesse um milésimo dos investimentos que recebe a produção tradicional, não precisaria ser mais cara e alimentaria a todos. Nós não temos nem seguro agrícola, pois para fazer o seguro, o banco exige que o agricultor compre o pacote tecnológico e use veneno. Apesar de tudo isso, estamos crescendo. Não vamos produzir as quantidades de soja e milho das grandes lavouras mecanizadas, mas lembrem que essa soja não é para alimentar o povo e sim para os porcos e combustível para os automóveis. Hoje, 95% da comida que chega na mesa do consumidor vem de pequenas propriedades. Por fim, esta experiência foi uma aula a céu aberto onde vimos in loco que a produção orgânica é boa para “quase todos”.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com 

19Jun
Coluna Dominical

A diferença entre igualdade e justiça

– 18 de junho de 2017 Luis Felipe Nascimento (*) Todos nós, independente do papel que exercemos na sociedade, temos um entendimento do que significa ser justo. Os pais, frequentemente, se...

11Jun
Coluna Dominical

Para ser feliz é preciso ter propósito e amigos 

– 11 de junho 2017 Luis Felipe Nascimento (*) As coisas boas, geralmente, exigem esforço individual, pois uma conquista é o resultado de muito empenho. Para ser aprovado num exame, para ser...