29Sep
Coluna Dominical

California Dreams

– 30 de setembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Quando se fala em Califórnia, associamos à vida boa, sol, surf, riqueza, tecnologia e outras coisas, mas por que este Estado se tornou no que é? Voltando um pouco na história, vamos lembrar que esta terra era habitada por tribos indígenas, estima-se que existiam 25 milhões de índios na América do Norte, sendo 450 mil na Califórnia, que foram dizimadas pelos homens brancos. Em 1812 os russos fundaram um assentamento e tentaram se apoderar desta terra, para ver como não é de hoje que eles interferem na vida dos americanos. Em 1821, com a independência do México da Espanha, a Califórnia se tornou território mexicano. Os EUA tentaram comprar a Califórnia do México, mas como não deu negócio, em 1846 eles declararam guerra e tomaram a força.

Em 1848, quando descobriram ouro na Califórnia, cerca de 300 mil pessoas tanto dos EUA como de outros países correram para lá e, por isso, se tornou o Estado mais populoso, tendo hoje cerca de 40 milhões de habitantes. O nome do estado não foi dado pelos desbravadores, mas sim por Garci Rodriguez de Montalvo que escreveu uma novela no século XVI na qual existia um paraíso chamado Califórnia, localizado numa ilha na América do Norte.

Alguém poderá dizer que este é um Estado que já nasceu rico, mas nem sempre foi assim, já que atravessaram períodos de crise econômica, fome e conflitos, até chegar ao ciclo de desenvolvimento no pós-guerra, tornando o Estado mais industrializado e líder na produção de produtos agropecuários, também impulsionado pelas descobertas de reservas de petróleo e gás natural. Mais tarde, houve um programa de atração de cérebros e investimentos em ensino e pesquisa que resultou na criação do Vale do Silício na região de São Francisco. Talvez hoje seja o Estado mais open mind, onde as pessoas são abertas, receptivas e liberais. Mesmo na Califórnia, parece que quanto mais próximo da praia estiver, mais liberal é a cidade. Aqui, os republicanos dominam algumas cidades no interior, região de produção agrícola.

Santa Bárbara é um capítulo à parte, pois é uma pequena cidade, a 150 km ao norte de Los Angeles, com infraestrutura de cidade grande. A “grande Santa Barbara” deve ter uns 100 mil habitantes, mas tem muitos bares e restaurantes e a economia é voltada para o turismo e para a vida universitária. Eles não querem saber de indústrias poluidoras e não é permitido fumar e nem beber em locais públicos. Painéis espalhados pelo campus informam que esta é uma Universidade livre de tabaco. Difícil para os brasileiros entenderem que não dá para beber na praia. Entre outras curiosidades, em alguns prédios da UCSB, existe um único banheiro, sendo compartilhado por homens e mulheres e ninguém se sente inseguro por estar no mesmo ambiente. Causa surpresa ver uma menina andando sozinha a noite pelas ruas ou na praia.  

Esta semana começaram as aulas e acabou a minha tranquilidade ao andar de bike. Apesar de ter enormes estacionamentos de bicicletas em cada prédio, faltam vagas. Estacionar a bike é como buscar uma vaga para estacionar o carro nos shoppings brasileiros em véspera de Natal. Amarrar a bike no poste, nem pensar! Quando voltar, a polícia já a levou. O fluxo de bikes é tão grande que as ciclovias possuem rotatórias e, quem deseja atravessar uma ciclovia, precisa esperar o momento certo para não ser atropelado. Caminhar é a segunda forma de locomoção mais utilizada, seguido pelo deslocamento em bus. Imagino que o carro deva empatar com o número de skatistas. Em algumas áreas, chega a ter o caminho para pedestres, a ciclovia e uma pista só para skates e patinetes. Interessante ver alunos de mestrado e doutorado entrando na sala de aula com um skate na mão.

Santa Bárbara lembra muito os meus tempos na UFSM, em Santa Maria, pois é uma cidade pequena, com uma ótima universidade, coincidentemente tem um aeroporto ao lado do campus e está distante há uns 20 minutos do centro da cidade. A Universidade da Califórnia, campus Santa Bárbara (UCSB), fica na divisa entre Santa Bárbara e a cidade de Goleta (como Camobi para Santa Maria), onde eu moro. Junto a UCSB está Isla Vista (iv) um bairro de estudantes, onde tem tudo que estudante gosta e precisa: cafés, bares, restaurantes e mercados com preços acessíveis e com muitas festas.

Aqui, eles alertam os estrangeiros de que existe roubo de bicicletas e que ocorrem muitos acidentes. Sempre existem riscos, mas pode-se dizer que vida é muito tranquila comparada com a de quem vive a realidade brasileira. Talvez esta seja a adaptação mais difícil para quem vem do Brasil: reaprender a não ter medo de sair à noite ou de ser assaltado. No Brasil, temos sol, ouro, petróleo, gás natural, destaque mundial na produção de alimentos, boas universidades, pessoas boas e receptivas… temos tudo para nos tornarmos uma Califórnia. Não percamos as esperanças, vamos chegar lá (ou aqui!).  

(*) Luís Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Ps. Mistérios em Santa Bárbara: Lembram da norueguesa e das formigas? Pois então, a norueguesa reapareceu e as formigas ainda não desapareceram. Pior, elas conseguiram ultrapassar o fosso com água e conquistaram a lata de lixo que está dentro de uma das cubas da pia. Como fizeram isto? Não sei! Um mistério!

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