12Feb
Coluna Dominical

Ascensão e Queda de Profissões 

– 11 de fevereiro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Santa Maria é uma cidade localizada no coração do Rio Grande do Sul e já passou por diferentes períodos em seu desenvolvimento. Ao longo de boa parte do século XX, a cidade ficou conhecida como “centro ferroviário do Rio Grande do Sul”, pois todos os trens que iam de Porto Alegre para Uruguaiana, de Passo Fundo para Livramento ou de Pelotas para Ijuí, passavam por Santa Maria. Ser ferroviário foi o sonho daquela geração, pois a categoria era muito forte, possuía uma cooperativa, um clube social e um sindicado poderoso. Além de tudo isso, ainda ganhavam moradia, um bom salário e gozavam de boa reputação na sociedade. 

Na segunda metade do século XX, houve um aumento significativo no contingente de militares na cidade, transformando-a na segunda maior concentração de militares do Brasil, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro. Semelhantemente ao período de ouro dos ferroviários, os militares recebiam um bom soldo, possuíam muitos benefícios e eram muito respeitados na sociedade civil. Seguir a carreira militar era o sonho de muitos jovens daquela época. 

Com a criação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), cabe lembrar que foi a primeira universidade federal estabelecida fora das capitais, a cidade adquiriu o status de cidade universitária, pois começou a atrair estudantes de diferentes regiões do estado e do país, bem como de diferentes países sul-americanos. Tudo isso levou muitos jovens a sonhar em trabalhar na UFSM, vislumbrando um emprego federal bem remunerado nesta respeitada instituição de ensino. 

Tanto os ferroviários, como os militares e os funcionários de universidades federais viveram a ascensão e queda do seu poder aquisitivo. Santa Maria talvez seja a cidade que melhor registre esta história, pois o seu desenvolvimento sempre esteve atrelado às épocas de ouro destas categorias. Mas estas não foram as únicas, outras profissões também passaram pela ascensão e queda, como por exemplo, a de bancário. Eu tive colegas de faculdade que desistirem do curso para ser caixa no Banco do Brasil, pois mesmo sem ter nível superior completo, o funcionário ganhava um salário bem maior do que muitas outras profissões. Em pequenas cidades, o gerente do banco era uma autoridade com status semelhante ao do Prefeito, do médico e do pároco. 

Hoje em dia estão anunciando o declínio de algumas profissões. Consultorias especializadas recomendam que os jovens não cursem a faculdade de Direito, argumentando que futuramente existirão apenas advogados especialistas e as outras demandas serão resolvidas por softwares. Se isto for verdade, o Brasil será o país que sofrerá o maior impacto, pois sozinho, possui o maior número de faculdades de direito que todos os outros países juntos (1.200 faculdades no Brasil, contra 1.100 do restante do mundo). O judiciário brasileiro, considerado o mais caro do mundo, é uma das profissões mais bem pagas e que goza dos maiores benefícios. Hoje, talvez seja ele a “bola da vez”, pois perdeu sua reputação e “caiu na desgraça do povo”. Por quanto tempo o judiciário vai conseguir manter estes altos salários e as tais regalias?

Em função do avanço tecnológicas e das mudanças no estilo de vida, provavelmente várias outras profissões irão perder a sua importância ou até mesmo desaparecer. Se os carros que podem andar sem motorista se tornarem populares, não precisaremos mais aprender a dirigir. Agora imagine o que acontecerá com as autoescolas, com os professores, com os guardas de trânsito e suas multas? Um carro sem motorista não cometerá infrações e também não será multado! 

Qual será a profissão que será aquela dos sonhos dos nossos netos? E qual substituirá a medicina, a carreira do judiciário ou alguma outra que ainda hoje desperta tanto interesse? Sim, eu espero que nossos netos sejam mais saudáveis física e mentalmente e que, no futuro, não precisem tanto de médicos e também que não tenhamos mais 3 ou 4 farmácias por quarteirão! Talvez não venha mais existir “a profissão dos sonhos”, mas sim várias profissões que despertarão o interesse das futuras gerações. Sejam quais forem, acredito que serão profissões que exigirão muita criatividade, talento e conhecimento. O restante será feito pelos robôs…

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

One thought on “Ascensão e Queda de Profissões 

  1. Vanessa Aires Reply

    Perfeito! Ando pensando muito nisso ultimamente. Se tiveres mais ideias ou informações sobre esse assunto, sempre é útil abordar. As coisas mudam tão rápidas que no futuro as pessoas terão varias profissões ao longo da vida, pois todas desaparecerão em um piscar de olhos.

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