03Feb
Coluna Dominical

As empresas de que precisamos 

– 3 de fevereiro de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Você sabia que a Constituição Brasileira estabelece que a riqueza do subsolo brasileiro pertence ao Estado? Se pertence ao Estado, pertence a todos nós, certo? Para explorar os minérios e o petróleo, Getúlio Vargas criou a Vale e a Petrobrás. O próprio Estado criou as leis e os mecanismos de controle da exploração das riquezas do nosso subsolo. Mesmo com todo o controle ambiental, estas duas empresas cresceram e estão hoje entre as maiores do Mundo. A Vale foi privatizada sob o argumento que assim teria uma melhor gestão e seria uma empresa mais eficiente. Por mais incrível que pareça, mesmo o Estado sendo sócio minoritário na Vale, os políticos continuam nomeando os dirigentes da Empresa. Em Minas Gerais, 80% dos deputados receberam apoio das mineradoras e vários deles são ligados as mineradoras. Cidades como Brumadinho são altamente dependentes de uma única empresa. Restringir as ações destas empresas causaria desemprego e danos para as tais cidades. Diante de tanto poder político e econômico, da importância histórica e cultural da mineração para a região, seria possível fechar uma empresa destas? Seria possível restringir a atuação das mineradoras no Estado de Minas Gerais? Eu sou dos que acreditam que precisamos das empresas e de explorar os recursos naturais, mas colocando a vida das pessoas e o meio ambiente antes da maximização dos lucros. Não importa se tal empresa é muito importante para tal cidade, se ela não for socioambientalmente responsável, deve ser pressionada para mudar e não ceder as suas chantagens.  

Na aviação costuma-se dizer que um avião não cai por uma única falha, que é preciso que haja uma conjunção de fatores para ocorrer uma tragédia. Nas demais atividades ocorre a mesma coisa, uma tragédia é o resultado do somatório de várias falhas. Alguém poderá argumentar que a mineração é uma atividade de risco e que acidentes podem ocorrer. Sim, é uma atividade de risco, mas estes riscos podem ser minimizados se forem aplicadas as medidas preventivas e se a operação seguir a legislação. Cabe lembrar que o setor químico e petroquímico é um outro setor com atividades potencialmente perigosas. No passado ocorreram vários acidentes com empresas químicas e petroquímicas. Foi então que as grandes empresas deste setor resolveram criar o “Programa de Atuação Responsável” e estimularam que todas as empresas do setor seguissem as medidas de segurança propostas. O resultado foi que diminuíram drasticamente os acidentes no setor. Há indícios de que a Vale tinha conhecimento dos riscos, mas que preferiu correr tais riscos para não reduzir sua lucratividade. Tá na hora do setor de mineração assumir um compromisso semelhante, que mude a postura das empresas e que evite novas tragédias.

Falando em concessão de direitos para explorar uma atividade, lembrei-me da história de como surgiram as primeiras empresas no mundo. Isto correu quando o homem passou a viver em comunidades e quando um único artesão não conseguia atender determinadas demandas. Por exemplo, para construir uma ponte eram necessários muitos corpos, e assim surgiram as “corporações”, reunião de corpos. Diante da necessidade de construir uma ponte, a comunidade autorizava a formação de uma empresa (corporação) para atender aquela demanda. A empresa poderia ser desfeita após a conclusão da ponte, ou continuar construindo outras pontes. Se a ponte caísse, esta empresa não poderia mais operar e os responsáveis seriam punidos. Com o desenvolvimento do capitalismo perdemos esta noção de que as empresas não existem só para dar lucro aos seus proprietários. Esquecemos de que nós clientes, nós sociedade, somos a razão do existir das empresas. Portanto, elas não devem operar causando danos para o meio ambiente, que é de todos, e tão pouco em condições inseguras para os seus colaboradores. Quem fizer isto deve perder a “licença de operação”. Se o Estado não retira esta licença, nós consumidores, podemos deixar de comprar seus produtos e serviços. Como cidadãos, podemos exigir que tais empresas se adequem às legislações e que sejam responsabilizadas pelos seus atos. 

Os exemplos recentes mostram que após catástrofes provocadas por grandes empresas, são atribuídas multas milionárias e seus dirigentes são indiciados criminalmente. Prender os técnicos ou o presidente da empresa por alguns dias, serve apenas para acalmar a sociedade. Verifica-se que passados 2, 3, 4 ou 5 anos, as multas continuam sendo “negociadas” e os responsáveis continuam sem julgamento. Vinte anos depois, os processos são arquivados e nada acontece. Não raramente a Empresa troca de nome e ressurge como se não tivesse nenhuma relação com a anterior. Este tipo de empresa nos interessa? É para estas empresas que vamos dar o nosso dinheiro? Para essas empresas que o Estado deve usar os recursos dos nossos impostos para oferecer financiamento a juros subsidiados, energia barata, construir estradas e portos para que sejam mais rentáveis as suas operações? É razoável argumentar que eles devam continuar operando porque geram empregos e “riqueza para o país”? 

Felizmente existem empresas que fazem o bem para a sociedade, que estão cada vez mais engajadas em causar impactos positivos, em resolver problemas dos seus consumidores e ajudar a melhorar o Mundo. Estas merecem a nossa permissão para operar. As demais, merecem o nosso repúdio até que provem que se adequaram e só então voltarão a merecer nossa licença. Podemos sim escolher de quem comprar. A cada dia fica mais fácil saber quem fez os produtos que compramos e quais os impactos que eles causaram. Uma sociedade consciente dos seus direitos e vigilante, terá empresas melhores, entregando melhores produtos e serviços. Pense nisto! 

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com

Santa Bárbara News: a Super Bowl é a final da Copa do Mundo dos americanos. Só se fala nisto! Eu deveria torcer pelo vizinhos de Los Angeles, mas embora não seja muito Patriots, vou torcer pelo “Giselo” (Tom Brady).  

4 thoughts on “As empresas de que precisamos 

  1. Domenico Ceglia Reply

    Gostei do seu texto Felipe. Só adiciono que as empresas nasceram para reduzir os contratos de transições que se teria ao contratar cada pessoa para desempenhar aquela função necessária para alcançar um resultado. Empresa significa risco ou adventura, ou seja algo de incerto para o conseguimento de um resultado. Esse é um fator que não vem considerado por uma parte de criticos das empresas como realização de lucro. Aqui vem aquela discussão sobre a CSR como façada para agradar uma parte interessada. Concordo na privatização e na regulação pelo Estado (precisamos de |enforcement|), especialmente quando se trata de recursos naturais, ou seja patrimonio do Estado. Quem é o Estado? Quem somos nós dentro do Estado? Parta ativa ou passiva das decisões? Grande abraços

  2. Anderson Bestteti Santos Reply

    Oi Felipe! Excelente reflexão sobre o triste evento que aconteceu em Brumadinho, MG. Infelizmente, as vidas de Mariana, lá em 2015, não foram suficientes para que os políticos brasileiros se motivassem a garantir que a leis vigentes fossem executaras. O motivo? Todos aqui no Brasil já sabem.

    Eu gostaria de saber como países como os USA e Canadá lidariam com desastres anunciados como os de Brumadinho e Mariana? Sei que há corrupção nesses países, mas acredito que o senso de patriotismo e bem comum ainda não está tão deteriorado como no Brasil. Como o governo e sociedade agiriam diante de tal situação?

  3. Lauro Magnago Reply

    Caro Felipe, desconfio sinceramente que neste sistema de produção, o capitalismo, em que o lucro está acima de tudo: da vida, da saúde, do meio ambiente, etc… seja impossível a empresa ter uma conduta como tu propõe… Neste mundo doente não há vantagem/interesse em ser empresa com todos esses requisitos… estaria fadada a não ter futuro.. Outro tema interessante é a eficiência/ineficiência da empresa pública/privada. Um mito construído pelos defensores da privatização de tudo… São meros palpites. Abraço. Lauro Magnago

    1. admin Post author Reply

      Ola Lauro, eu estou pesquisando empresas que operam dentro do capitalismo, mas com posturas me agradam muito. O lucro é fundamental para a sua sobrevivência, mas não está acima de tudo. Estas empresas procuram causar impactos positivos com todos que interagem e ainda conseguem lucro. No meu ponto de vista,estes sao os negocios que terao futuro. Quanto ao suposto ganho de eficiencia ao privatizar uma empresa, concordo plenamente que não há evidencias disto. Obrigado pelo comentário. Abraços

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