11Nov
Coluna Dominical

As complicadas eleições Americanas

– 11 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

No último 6 de novembro ocorreram as eleições de “meio de mandato” nos Estados Unidos, onde foram eleitos os 435 deputados federais, metade do senado e governadores de 36 dos 50 estados americanos, deputados e senadores estaduais, além de outros cargos que são eleitos pelo voto direto: advogado geral, secretário de estado e a suprema corte estadual. Ah! Os eleitores votam ainda em proposições, que se aprovadas, viram lei. Confesso que ainda não entendi como funcionam algumas coisas na democracia americana, e fiquei surpreso com outras tantas. E o sistema de votação, então? Nada de urna eletrônica, a cédula tem duas páginas e, de tão complicada que é, são distribuídos manuais aos eleitores explicando como votar.

Quem venceu as eleições? Depois de 8 anos, os Democratas recuperaram a maioria na Câmara e prometem fiscalizar o Trump. Eles poderão impedir medidas como a construção do muro na fronteira com o México. Trump terá que governar por decreto, como fez Obama quando tinha minoria na Câmara. No Senado, os Republicanos continuaram com a maioria, com 51 dos 100 senadores. Em vários estados ocorreu uma disputa acirrada nas eleições dos governadores e dos senadores, por exemplo, para governador na Flórida, venceu a candidato Republicano por uma diferença de 0,4%, o que vai levar a uma recontagem dos votos.

A maioria dos eleitores americanos são fiéis aos partidos. Quando os eleitores de um determinado partido não gostam do candidato do seu partido, eles simplesmente não votam. Portanto, os esforços de campanha dos candidatos é para convencer os indecisos e para chamar os eleitores de seu partido para votarem, pois o voto não é obrigatório. O que ocorreu na eleição de Trump foi que os democratas não se empolgaram com a Hillary e não foram votar. Alguns imaginavam que a eleição já estava ganha e que o seu voto não faria falta. Do outro lado, Trump conseguiu motivar os eleitores republicanos mais conservadores, que compareceram em peso as urnas. Existem estados que são tradicionalmente Democratas e outros que são Republicanos. Alguns poucos estados são flutuantes, onde pode ganhar um outro partido. Interessante verificar que independente da tendência do estado, nas grandes cidades predomina o voto democrata e na “zona da mata”, o voto republicano. Mesmo na democrata Califórnia, os republicanos são fortes na região das fazendas e dos vinhedos. As eleições para presidente são indiretas, o partido que vencer as eleições num determinado estado, indicará todos os delegados deste estado para a escolha do presidente. Os partidos derrotados neste estado não terão direito a nenhum delegado.  

Nas eleições de 6 de novembro de 2018, houve grandes novidades: pela primeira vez foram eleitas duas deputadas representantes dos povos indígenas, duas deputadas muçulmanas, um governador assumidamente gay, e as mulheres conquistaram a marca histórica de mais de 100 das 435 cadeiras da Câmara. A percentagem de 23% de mulheres ainda é pouca, mas é bem maior do que os 15% de mulheres na Câmara Federal no Brasil. Por outro lado, quem já elegeu Juruna em 1982, estranha que só agora os representantes indígenas conquistem espaço no parlamento da “maior democracia do mundo”.

Os candidatos ao senado passam por uma espécie de “prévia”, e os dois mais votados disputam os votos dos eleitores, podendo inclusive os dois candidatos serem do mesmo partido. Na Califórnia os dois candidatos ao Senado eram Democratas. 

Entre outras curiosidades, está o fato das pessoas poderem votar pelos Correios, inclusive astronauta que estiver no espaço poderá votar. O dia das eleições não é feriado. Os eleitores votam em candidatos e também nas tais “proposições”, que vão desde reduzir a taxa cobrada na gasolina até obrigar empresas de alta tecnologia a ajudarem os moradores de rua. As proposições são uma espécie de plebiscito, que uma vez aprovado, vira lei.

Enfim, um sistema eleitoral bem diferente do brasileiro, mas temos um ponto em comum, o partido que arrecadar mais dinheiro terá mais chance de vencer as eleições. Eu gosto da ideia das proposições, pois é uma forma de democracia direta. Fiquei imaginando se existisse esta possibilidade no Brasil, que proposição eu faria? Acho que iria propor que os carros que trafegam com apenas uma pessoa no centro das cidades pagassem pedágio e que este recurso fosse utilizado para subsidiar o transporte público e construir mais espaços para o uso de bicicletas. E você, qual seria a sua proposição?

Santa Bárbara Bad News: Em três dias de incêndios na Califórnia foram destruídas cerca de 6500 casas e 260 estabelecimentos comerciais. Trinta e sete pessoas morreram e 300 mil pessoas estão sendo evacuadas da região. A cidade de Paradise com 27000 habitantes foi totalmente destruída. O fogo está do outro lado de Santa Bárbara, cerca de 50 km de onde eu moro. Além da preocupação em deter o fogo, existe o controle da qualidade do ar. Se aumentar muito a fumaça serão distribuídas máscaras para a população. A principal rodovia que liga Santa Bárbara à Los Angeles foi fechada. Rezemos pela chuva.  

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

2 thoughts on “As complicadas eleições Americanas

  1. paxuca Reply

    nossa… super puxa, professor, que estada emocionante!… diferentemente emocionante! muito bom a leitura pq adoro suas crônicas!! me sinto lendo um livro de contos surpreendente! =)

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