03Mar
Coluna Dominical

A vida da classe média americana serviria pra você?

– 3 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Você lembra daquelas cenas de filmes americanos em que aparecem casas enormes, sem muros, com dois carros grandes na garagem, um casal com duas crianças e um cachorro? Parece uma família margarina, não é mesmo? Pois elas existem sim, mas a vida de uma família americana de classe média não é tão fácil quanto parece. Quero compartilhar neste texto a minha percepção sobre as condições financeiras de uma família de classe média americana.
Conversando com americanos e brasileiros que vivem nos EUA, eu percebi que a família classe média americana vive endividada e trabalha a vida toda para pagar dívidas. Para as famílias mais simples, a situação é pior ainda. Isto não quer dizer que eles não possam ter suas casas, carros grandes e muito consumo.
Para exemplificar, vou citar a história que me contou um amigo americano que é doutorando na UCSB. Seus pais são classe média. A renda da família é suficiente para pagar a prestação da casa, o plano de saúde, o plano de aposentadoria, além de poder viver confortavelmente. Maravilha! Eles não tiveram despesas com a educação dos filhos, pois as escolas são gratuitas nos EUA. Como eles moravam num bairro onde tinha uma boa escola, os filhos tiveram uma boa formação. Muitas pessoas escolhem onde morar em função da qualidade da escola, pois só quem mora na área da escola pode estudar nela. Sendo um bom aluno numa boa escola, aumentam as chances de conseguir uma bolsa para ir para a universidade, que mesmo que seja pública, caso não se tenha bolsa ela será paga e custará muito caro.
Ao concluir o ensino médio, os alunos podem ir para o mercado de trabalho recebendo um salário que não difere muito do que recebem os que concluírem o nível superior. A diferença é que, não sendo muito qualificados, eles não poderão escolher onde trabalhar e o que fazer. Se eles resolverem ir para a universidade, terão que pagar as taxas ou conseguir uma bolsa de estudos. As bolsas geralmente são para pagar apenas as taxas da universidade e nem sempre cobrem 100% do valor. Ou seja, muitos estudantes universitários assumem empréstimos junto às empresas privadas para pagar em 30 anos. Vale lembrar que a maioria dos estudantes universitários não vive na casa dos pais. Geralmente eles mudam de cidade ou de estado para seguir seus estudos. Então precisam trabalhar para custear a sua sobrevivência.
Retomando o exemplo do meu amigo, ele era um dos melhores alunos da sua classe e obteve uma nota muito boa no GPA, que é a média de todas as matérias dos quatro anos do ensino médio americano (High School). Ele resolveu ir para a universidade e conseguiu uma bolsa que pagaria 50% dos 200 mil dólares que custaria o curso. Para poder entrar na universidade, com 18 anos ele teve que assumir um endividamento de 100 mil dólares. Geralmente os pais não assumem as dívidas dos filhos, faz parte da cultura americana.
Concluída a graduação, ele conseguiu um bom emprego e começou a pagar o financiamento. Depois resolveu voltar para a universidade para fazer mestrado e doutorado, então conseguiu uma bolsa integral e não precisou pagar seus estudos. Ao largar o trabalho, o pagamento do financiamento foi suspenso até ele voltar a ter renda. Quando concluir o seu doutorado, provavelmente conseguirá um bom emprego e irá comprar uma casa. Para tanto, assumirá novo financiamento de mais uns 30 anos. Terá também que iniciar a pagar um plano de aposentadoria privada, pois mesmo que trabalhe por 35 anos, não terá direito a aposentadoria.
Se ele for trabalhar numa universidade, receberá o salário para 9 meses, tendo 3 meses livres para fazer o que desejar, podendo inclusive oferecer cursos de férias na própria universidade que estiver trabalhando e receberá um valor extra por isto. Ou seja, embora tenha três meses livres, nenhum professor universitário tira três meses de férias. Eles buscam trabalho para complementar a renda. Porém, se o meu amigo resolver ir trabalhar numa empresa, provavelmente terá um salário mais alto, mas apenas 10 dias úteis de férias por ano. Terá direito a 7 dias de faltas justificadas por ano. Se ele adoecer por duas semanas, não adiantará apresentar atestado médico, terá desconto no salário.
Se analisarmos a vida de uma família mais simples, com menor qualificação e menor renda, que mora num bairro mais popular, onde a escola talvez não seja tão boa, as chances de seus filhos conseguirem um bom escore GPA será bem menor. Ir para a universidade e ter uma ascensão social é muito mais difícil. Existe sim meritocracia, mas ela é bastante injusta. O filho do pobre terá que ser um atleta talentoso ou um excelente aluno para poder competir com quem estudou nas melhores escolas. São muito poucos destas escolas que chegam nas boas universidades.
Em resumo, o americano classe média trabalha muito e vive toda sua vida endividado. Eles possuem poucos dias de férias por ano, se aposentam com bastante idade e, não raramente precisam complementar sua renda na aposentadoria com mais alguma atividade ou locando o quarto dos filhos para o airbnb.
Além das questões financeiras, há outros aspectos que me chamaram atenção. Os filhos saem cedo de casa para estudar e/ou trabalhar, e visitam os pais apenas uma ou duas vezes por ano, por isso os casais vivem muito solitários. Os que não se envolverem em atividades da comunidade, tendem a viver em função do trabalho e do consumo. As relações familiares e de amizades são bem diferentes das nossas.
E aí, esta vida serviria pra você?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara
Contato: nascimentolf@gmail.com

3 thoughts on “A vida da classe média americana serviria pra você?

  1. Carlos Mello Reply

    A resposta à pergunta “A vida da classe média americana serviria pra você? é bem simples.

    Se fizer uma pesquisa verás que 99,99% querem, sonham em pertencer a esta classe.
    Primeiro que nem todos almejam exatamente a classe média, e segundo que por aqui passam a vida toda também endividados.

    Eu vejo o exemplo de TODOS amigos que foram para os EUA e pertencem a classe média.
    Passam longe, muito longe, de quererem voltar.
    Incluindo minha filha.

    1. admin Post author Reply

      Ola Carlos,
      Minha intenção com este texto não foi de comparar a vida da classe média no Brasil x EUA, e nem de dizer que é ruim ser classe média nos EUA. Apenas tentei mostrar que ser classe média nos EUA implica em trabalhar muito, ter poucas férias, passar a vida pagando dívidas e ter que prover a sua aposentadoria com muito cuidado. Respeito a sua opinião, mas acho que imigrar para os EUA ou para qualquer outro pais, depende muito das perspectivas de quem vive no Brasil. Eu gosto de viajar pelo mundo, viver um tempo fora, mas voltar. Talvez eu pertença ao 0,01% que você fala. Obrigado por prestigiar a Coluna e pelo seu comentário.As críticas são bem vindas. Abraços.

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