06May
Coluna Dominical

A sabedoria da natureza

– 6 de maio de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Gostei muito do livro “A sabedoria da natureza” porque ele consegue mostrar de forma tão simples e profunda, o que conhecemos superficialmente. Para estimular você a ler este livro, me atrevo a sintetizar as suas 238 páginas, mas não se trata de “spoiler”, pois cada um fará a sua interpretação. Roberto Otsu divide os capítulos em cinco lições: “das estações”, “da água”, “do bambu”, “da árvore” e “do céu”. Falando um pouquinho de cada, diria que…

– As estações do ano mostram que todas as coisas são mutáveis, nada é permanente e não há estresse na Natureza por causa disto. Preferimos a ilusão do duradouro à realidade da mutação e da impermanência. A consciência da impermanência exige de nós o acolhimento da realidade e o exercício de desapegar das pessoas, dos objetos e das situações e, mais difícil ainda, é desapegar das ideias e das ilusões.

– As lições da água: os mestres dizem: “a água vai pelo caminho mais fácil”. Para eles, qualquer coisa que exija muito esforço, não é natural. Na natureza, as coisas acontecem por afinidades e tudo funciona melhor quando existe afinidade entre os elementos. Numa relação afetiva, na amizade, nas parcerias de trabalho, na ascensão profissional, as coisas funcionam melhor desta forma. Quando a pessoa gosta do que faz, não há esforço excessivo, tudo é gratificante, pois a afinidade une os corações de forma espontânea.

– O bambu é uma referência de sabedoria para os taoistas. A semente do bambu, depois de colocada no solo, demora cinco anos de desenvolvimento debaixo da terra, fortalecimento das raízes, para que então o broto comece a se projetar externamente, mas, em pouco tempo, atinge a altura de 25m. Com isso os chineses aprenderam que o crescimento rápido não acontece de uma hora para outra. O erro fatal é acreditar que o crescimento rápido e espetacular é mais importante do que construir uma base sólida.

– Goiabeira dá goiaba, não dá pêssegos! O homem que diz que sua esposa é muito emotiva e que, “se” ela não fosse assim, ou “quando” ela mudar, a relação deles será melhor, está querendo que a goiabeira dê pêssegos! O “se” e o “quando” são palavras que nos levam para fora da realidade. “Quando” acontecer tal coisa, então tudo vai melhorar.

– Lições do céu – É natural precisarmos de referências e certezas constantes, assim como os navegantes da antiguidade precisavam das estrelas como guias. Mas, precisamos questionar o que vemos e ter uma visão global. Não é o Sol que nos engana com seu movimento, nós é que desconhecemos a realidade ou nos esquecemos dela e acreditamos que o Sol nasce de um lado e morre do outro. Quando não sabemos a verdade, fazemos julgamentos a partir das aparências. A verdade é como uma estrela, nos dá a direção. O navegador não deseja alcançar a estrela, apenas navega em sua direção. E não existe um caminho único para a verdade, nós é que construímos o caminho.

Entre tantas lições, este livro mostra ainda que para os sábios orientais, a paz interior está na união dos opostos, na união dinâmica dos contrários. Na Natureza, uma coisa gera a outra. O que acontece é uma transformação, uma mudança suave, e não um processo de exclusão. Tudo é transição e não existem opostos absolutos, que nunca mudam e que se excluam. Portanto, Yin e Yang são conceitos, direito e esquerdo são conceitos, dia e noite são conceitos, bom e ruim são conceitos. Os sábios diziam que tudo é bom e ruim, ao mesmo tempo.

PS.: A Sabedoria da Natureza: Taoismo, I Ching, Zen e ensinamentos essênios. Roberto Otsu. São Paulo, Editora Ágora, 2016. ISBN: 978-85-7183-020-2

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

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