02Sep
Coluna Dominical

A Revolta das Formigas

 – 2 de setembro 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Estou morando em Santa Bárbara/Califórnia numa residência estudantil com sala/cozinha no térreo e dois quartos e um banheiro no andar superior. Moram na casa: o “dono” da casa, as formigas, as aranhas e eu. As aranhas são muito discretas, ficam quietinhas nos cantos, mas as formigas, estas são muuuuito ativas.

Quando entrei na casa pela primeira vez, recebi as boas vindas de um comitê de formigas. Elas me mostraram o caminho para chegar até a cozinha e subiram na lata do lixo como quem sobe na Torre Eiffel e até tive a sensação de que elas me saudavam do alto daquela lata. Fui informado pelo dono da casa de que o verão é a época delas, mas que no inverno elas irão embora. Creio que seja algo parecido com o que ocorre com os pássaros, que no inverno migram para o sul.

Com a minha chegada na casa, aumentou o lixo orgânico e a nossa lixeira se tornou o sonho de consumo das formigas. E como elas são muito unidas, logo chamaram as amigas para a abastança, tornando a nossa cozinha um formigueiro. Tentamos conter o fluxo migratório, primeiro com medidas diplomáticas, não obtendo sucesso, usamos um método estilo Trump: colocamos a lixeira dentro de uma das cubas da pia com água, formando uma espécie de fosso ao seu redor, apostando que formigas não soubessem nadar. Percebendo que criamos o tal fosso para impedir o seu acesso ao banquete à moda “festa de Babette”, as formigas circulavam em volta da pia estudando a área. Fiquei imaginando qual seria a estratégia que elas estariam tramando. Pensei até que fosse uma catapulta para o lançamento de uma guerreira que passasse por cima do fosso ou talvez optassem por construir uma ponte. Errei nas minhas previsões, pois a reação foi outra.

Revoltadas por não terem acesso a lata de lixo, elas resolveram atacar outros locais da casa. Descobrimos que existem formigas que exercem a função de operárias e outras de soldados. Pois não é que um pelotão subiu para o andar superior e ocupou a banheira! Até aqui eu não sabia que formiga sente muita sede (também pudera… comendo tanto açúcar!). Elas vão para as pias e locais em que tem água para beber. Resultado, a cada vez que abrimos o chuveiro desencadeamos um tsunami, afogando algumas dezenas delas. Algumas se agarram na beira do ralo tentando se salvar, mas acabam sendo levadas pela enxurrada de água. Não dá nem para olhar, são cenas de partir o coração, uma verdadeira tragédia! Se elas também são filhas de Deus, fico imaginando o tamanho do meu pecado!

Como uma espécie de vingança, um pequeno grupo resolveu atacar o meu celular. Quando percebi, elas já estavam tentando penetrar no buraquinho da entrada do cabo de energia. Sabe aquela história de que as formigas se comunicam por substâncias químicas chamadas feromonas? Isto deve ser coisa do passado, pelo visto hoje em dia elas estão preferindo usar o celular e mandar um Whats para as amigas tipo: “Tem boca livre aqui e vai rolar uma balada. Venham pra cá!”

Identificamos também um grupo de guerrilheiras que se esconde no carpete. Como essa casa é toda acarpetada, se tornou mais difícil encontrar as formigas no carpete do que foi para os americanos encontrarem vietcongues nos seus túneis. Elas usam a tática de guerrilha que é o súbito aparecimento, uma ligeira picada no pé da gente e o rápido desaparecimento, voltando ao esconderijo. Como não temos nenhum agente laranja para “desfolhar o carpete”, estamos em desvantagem nesse combate. Ah! Ontem as kamikazes se aproveitaram do momento que a porta do congelador estava aberta para tentar penetrar e conseguir comida. Morreram congeladas! 

Estamos em fase de revisão das nossas estratégias: o dono da casa acha que não temos o que fazer e que só o General Inverno poderá acabar com esta guerra. De minha parte, acredito que caberia uma negociação, tipo: colocarmos algumas cascas de frutas e um potinho de água do lado de fora da porta e tentar atraí-las para lá. Seria um acordo de paz, já que acabaríamos com este “formiguicídeo”. Porém, temo que tenha algum grupo de formigas black blocs que queiram o protestar contra o sistema e permaneçam na casa, descumprindo o acordo.  

A situação é difícil, os ânimos estão acirrados, mas nesta hora precisamos ter bom senso. A alegação de que as formigas também são filhas de Deus não é um consenso, mas tem muitos defensores. Portanto, se o dono da casa usar armas químicas como vem ameaçando, poderemos sofrer pressões dos grupos ambientalistas. E você sabe como é este povo… Deus me livre! Além disto, as formigas-rainhas geram 300 novas formigas por semana, ou seja, não adianta tentar exterminá-las. Você mata uma e vem outra em seu lugar! (toca Raauuulllll !!!).  Aliás, você sabia que o peso dos dez quatrilhões de formigas do Planeta supera o peso de toda a humanidade? Portanto, mesmo sendo maiores do que elas, estamos em minoria. Por outro lado, eu entendo que elas também têm o direito ao alimento que estamos enviando para um aterro, e que não será aproveitado. Portanto, uma reinvindicação justa delas.

Resumindo, este conflito já se configurou num Apartheit: queremos as formigas no lugar delas e nós na nossa casa. Temos cascas de frutas na lata do lixo suficiente para alimentar todo o formigueiro e estamos oferecendo uma ajuda humanitária (ou seria formigária?), mas precisa ficar claro de que não queremos viver no mesmo espaço. O dono da casa já disse que este negócio de biodiversidade, igualdade de direitos, conviver com formigas, pode ser legal na casa dos outros, but NIMBY (não no meu quintal)!

(*) Luis Felipe Nascimento é “estudante titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

2 thoughts on “A Revolta das Formigas

  1. paxuca Reply

    risos esplêndidos… ai ai… meu avô usaria armas químicas e diria q as formigas podem ruir uma casa… mas hoje eu te diria que vivo com elas boa parte do verao tb!! =)
    mas o banho e o celular ta demais! ta demais… humpf!! nunca visto!!!

  2. Magda Brancher Gravina Reply

    Aqui em casa o General Inverno venceu a batalha. Mas sabemos que a guerra continua.
    Com a proximidade do calor, elas voltarão. E as nossas formigas já aprenderam a atravessar a água que isola o açucareiro dentro de uma pequena bacia. Elas criam uma espécie de ilha flutuante, (formada por dezenas de pequenas formigas) algumas morrem, mas muitas alcançam o objetivo. O único lugar seguro é a geladeira.

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