15Jul
Coluna Dominical

A quem você dá o seu dinheiro?

-15 de julho 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

A minha geração cresceu acreditando que as pessoas mais qualificadas seriam as líderes das organizações. Vivi numa época em que se difundiram as técnicas de gestão da qualidade, just in time, Kanban, melhoria contínua, foco na satisfação do cliente e tantas outras que levaram as empresas a se tornarem mais competitivas e lucrativas. Quando uma grande corporação comprava uma empresa concorrente, o fazia para aumentar a sua fatia no mercado. Imaginávamos que um gestor que tornasse uma empresa altamente rentável, seria reconhecido e teria o emprego garantido. As empresas de sucesso eram aquelas que tinham uma identidade, que construíram uma cultura e que tinham gestores eficientes e colaboradores motivados. Ao longo desses últimos 20 anos, entrevistei muitas pessoas, as quais relatavam sentir orgulho por trabalhar naquela determinada empresa. Outras eram gratas pelo fato da empresa pagar a sua faculdade e por estimular o seu crescimento profissional. Os colaboradores se engajavam em ações sociais e existia uma forte ligação da empresa com a comunidade local. Os “meus” estudantes sonhavam em trabalhar em empresas que tivessem boa reputação e que valorizassem seus funcionários.

Bem, isto foi verdade por um tempo. Agora, estamos vivendo numa nova época, na qual ser um bom gestor e ter uma empresa lucrativa não é mais suficiente. O melhor negócio passou a ser comprar e vender empresas, como sugere Garret Sutton, autor do livro: “Como comprar e vender empresas e ganhar muito dinheiro”. Esta receita vem sendo utilizada pelos fundos de investimentos que compram uma empresa lucrativa para desmanchá-la e vender as partes, lucrando mais assim do que fazendo a empresa crescer. A estratégia é a seguinte: compra-se uma empresa, escolhe os projetos mais lucrativos e descontinua-se os demais, mesmo que eles ainda fossem lucrativos. Cortam-se as cabeças, ou melhor, demitem-se os gestores competentes, já que eles custam caro e são os guardiões da cultura da empresa. Depois, vendem uma parte da empresa para um, outra parte para outra e assim desaparece aquela empresa tradicional, algumas vezes centenária. As partes não têm alma e os funcionários que permanecerem, continuarão no mesmo local de trabalho, mas perdem a sua identidade. Quem comprou, definirá as novas condutas. Segundo a Revista Exame, entre 2006 e 2014 os fundos de investimentos que compram e vendem empresas no Brasil obtiveram um retorno médio anual de 63%, o triplo da média mundial (https://exame.abril.com.br/revista-exame/bons-de-compra-e-de-lucro/). Ladislau Dowbor demonstra no livro “A Era do Capital Improdutivo” que o mercado considera positiva qualquer atividade que gere lucro – ainda que trave a economia e produza prejuízos sociais e ambientais – para enviar seus recursos, a salvo de impostos, a paraísos fiscais.

A partir dessas mudanças, os estudantes de hoje querem criar suas empresas ou buscar atividades alinhadas com os seus valores e que façam sentido para suas vidas, pois perceberam que as grandes corporações pagam pouco, sugam o seu sangue e os tratam como máquinas robotizadas. É verdade que a falta de oportunidades obriga muitos a aceitarem estas condições, mas eles ficam na empresa até o momento que encontram outra alternativa.

Provavelmente teremos nas próximas décadas a proliferação de diferentes modelos de negócios. De forma simplificada, diria que: num extremo estarão os que querem lucrar o máximo possível, mesmo que seja necessário desmanchar empresas lucrativas, provocar falência, vender alimentos ou remédios que causem danos à saúde, poluir o meio ambiente e, óbvio, tudo isto dentro dos limites da lei. Este tipo de negócio consegue “sensibilizar” os políticos para aprovar leis que os favoreçam, sob o argumento de que “é preciso modernizar a constituição”. E no outro extremo, estarão os modelos de negócios com propósito social e os fundos éticos. Estes não serão tão lucrativos em curto prazo, mas estarão em sintonia com a comunidade a qual pertençam e conquistarão a confiança dos seus clientes. Entre estes extremos, certamente teremos outros modelos de negócios.

O desafio de todos sempre será a conquista da confiança dos consumidores. Quanto mais consciente for o consumidor, mais ele avaliará em qual produto/serviço investirá o seu dinheiro, pois quando não existe um único fornecedor, qualquer compra é uma escolha. Aonde você imagina que seus filhos e netos irão querer trabalhar? Para quem darão o dinheiro deles?  E nós, quando investimos nossas economias, sabemos a quem estamos dando o nosso dinheiro?

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

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