09Sep
Coluna Dominical

A Gaveta e o Museu

– 9 de setembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Eu estava na minha sala na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, quando alguém bateu na porta e pediu permissão para revisar se as gavetas estavam “correndo bem”. Como já estava ocupando as gavetas de baixo da minha mesa, informei que funcionavam bem e que não seria necessária a revisão. Mesmo assim, o homem insistiu e disse que precisava realizar a manutenção preventiva. E não é que ele ouviu um ruído, quase inaudível? Aí ajustou a regulagem e “azeitou” a gaveta. Fiquei pensando… se eles têm todo este cuidado com gavetas, o que não fazem com seus museus?

O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro tem sido analisado sob diferentes olhares. Além da tristeza de ver a destruição de uma parte da nossa história, penso que podemos tirar outras lições desta tragédia. Primeiro: refletir sobre qual a importância que o Museu Nacional tinha para cada um de nós, antes do ocorrido. Segundo: identificar o que existe de mais valioso na nossa cultura/na nossa história e qual o cuidado que estamos tendo com estes tesouros. E por fim, ter a consciência de que estes tesouros não são nossos, eles foram legados para cuidarmos e deixarmos para as gerações vindouras. Será que teremos a coragem de dizer para os nossos netos que eles não poderão conhecer a Luzia, um fóssil de 11.500 anos, um dos esqueletos mais antigos das Américas, porque a nossa geração se descuidou e deixou o fogo acabar com ela? 

Fazendo uma analogia do acervo cultural com os nossos outros tesouros, que são os sentimentos e as relações com as pessoas que amamos, temos a tendência de achar que “se a coisa funciona”, deixa como está, como eu disse ao homem da manutenção. O valor dos sentimentos e das relações não depende dos anos de vida, mas da profundidade que existe nelas, o que os torna tão valiosos que deveriam ser protegidos como os tesouros do Louvre.

Para muitos de nós, o amor pelo Museu Nacional apareceu depois da tragédia. Enquanto ele estava lá cambaleando e entrando em colapso, estávamos preocupados com outras coisas, pois a aparência dele estava boa e agora acabamos perdendo esse bem, pela nossa falta de cuidado. Nossa preocupação foi tardia. E assim acontece com algumas das nossas relações, que ganham valor quando acabam. Outras vezes, reconhecíamos o seu valor, mas não externávamos o que sentíamos, porque parecia desnecessário, estava tudo bem!

A faísca se torna incêndio quando alimentada pelo descuido. Cuidar do que temos de valioso, seja na nossa cultura ou nos valores pessoais é condição deles continuarem existindo. Um descuido pode matar uma Luzia. Um cuidado pode salvar um amor. Lembre-se que “estar funcionando” não garante que continue. Se não desocuparmos a gaveta para que seja feita a manutenção dos nossos sentimentos e das nossas relações, um dia ela irá travar, se romper ou pegar fogo. Seja como o homem que bateu na minha porta: identifique o ruído quase inaudível, regule e “azeite” tudo o que é valioso para você!

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

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