10Mar
Coluna Dominical

A Contabilidade dos Sentimentos

– 11 de março de 2018

Luis Felipe Nascimento (*) 

Nossos pais nos ensinaram as palavrinhas mágicas: “por favor” e “muito obrigado” para as diversas situações do nosso cotidiano. Mais tarde, quando adultos, incorporamos estas palavras ao nosso vocabulário e as usamos quase que automaticamente. Toda vez que alguém segura uma porta para nós ou demonstra algum tipo de gentileza, dizemos “muito obrigado”. Quando vamos pedir alguma coisa a alguém, começamos a frase com um “por favor”. E para denominar a pessoa que usa estas palavras, dizemos que ela é “bem-educada”.  

Sem dúvida que agir educadamente, é importante na relação com outras pessoas, mas isto pode ser mais um hábito incorporado às nossas ações do que realmente a expressão de um sentimento, já que as emitimos automaticamente diante dessa ou daquela situação. Podemos agradecer sem estar realmente agradecidos ou pedir o favor, embora a gente pense que a pessoa não estaria fazendo mais do que a obrigação dela. Quando pedimos gentilmente alguma coisa ou agradecemos, estamos nos referindo a algo que nos beneficia, algo que alguém fez ou fará por nós, ou seja, estamos cientes de que alguém está nos prestando um serviço e, inconscientemente, assumimos uma dívida de gratidão com esta pessoa. Algumas vezes até usamos a expressão: “lhe devo um favor”.   

Por outro lado, ao nos relacionarmos com alguém, também de modo inconsciente, podemos gerar um crédito de gratidão. Exemplos disto são as gentilezas e os elogios. Costumamos dizer que “gentileza gera gentileza”. Portanto, somos “pagos” com a mesma moeda. Já com o elogio, é diferente. Assim como as palavrinhas mágicas anteriores, o elogio pode ser feito com sinceridade ou ser apenas uma formalidade. Quando alguém nos fala da sua roupa nova, do seu novo carro ou nos convida para conhecer sua nova casa, estamos quase que obrigados a elogiá-los, independente de termos gostado ou não. Da mesma forma, seria deselegante ir jantar na casa de amigos e não elogiar a comida. Algumas pessoas costumam elogiar tudo o que veem, enquanto que outras raramente tecem um elogio, mesmo quando gostam de alguma coisa. O elogio trivial, logo é esquecido, já o que é feito de coração, olhando nos olhos do outro, este tem um valor inestimável. Quem recebe fica tão grato que, as vezes, nem se sente merecedor daquele sentimento. 

O elogio sincero é uma manifestação que arranca uma parte de nós para entregar ao outro. É mais do que uma doação, é como se nos colocássemos numa posição de humildade para enaltecer o outro. Quanto mais do fundo do coração vier o elogio, mais valioso ele será. É um sentimento que faz bem para todos os envolvidos, mas parece que quem entrega o elogio, é quem mais recebe. 

Como se pode ver, a contabilidade dos sentimentos é muito distinta da contabilidade financeira. Agradecer gera uma dívida. Um “por favor” pode não ter nenhum valor. Já um favor pode ser pago com um sorriso. Um ato ou uma palavra pode não significar nada ou representar muito, depende de quão carregada ela estiver de sentimentos. Gentileza é como um empréstimo para um mau pagador. Não esperamos receber nada de volta, mas quando menos se espera, recebemos tudo com juros e correção monetária. Já as pessoas “bem-educadas” são facilmente identificadas e valorizadas, mas é difícil reconhecer quais são as sinceras. Essas, são tão valiosas que deveriam ser guardadas em cofres fortes.   

Por falar nestes sentimentos, devíamos nos perguntar: como anda a nossa contabilidade dos sentimentos? Na última semana, quantas gentilezas fizemos? E quantos foram os agradecimentos e elogios sinceros? Não teríamos sido econômicos nos elogios sinceros? Lembre que o elogio é um negócio lucrativo. Invista na “carteira de bons sentimentos”. 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

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