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26Jan
Coluna Dominical

Polêmica sobre o Comercial da Gillette – muito mais séria do que parece!

– 27 de janeiro de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Eu fiquei sabendo que a Gillette lançou um comercial que estava dando muita polêmica e o procurei no Youtube  (https://www.youtube.com/watch?v=koPmuEyP3a0&t=11s ). Minha primeira impressão foi de que havia visto o comercial errado, pois não vi nada de polêmico. O comercial tem como chamada: “Nós acreditamos: o melhor que os homens podem ser” – apresenta cenas de bullyng e de assédio sexual. Critica os homens que deixam os garotos se agredirem alegando que “isto é coisa de garoto”. Ao final convida os homens a evitar este tipo de coisa e propõe: “diga a coisa certa e aja da maneira certa, porque os garotos que estão assistindo as cenas de hoje, serão os homens de amanhã”. Imaginei que polêmica era coisa de alguns poucos machistas, mas fiquei surpreso ao perceber que ele havia sido postado em 13 de janeiro e em 12 dias já havia sido assistido por mais de 26 milhões de pessoas, sendo que destes, 1,2 milhão deram dislikes e 720 mil deram likes. Opa! Por que 62% dos que se manifestaram, são contra? O comercial foi lançado nos EUA, mas repercutiu no mundo todo e muito forte no Brasil. Fui pesquisar percebi algumas críticas se dirigem à estratégia de marketing e ao passado da Empresa Gillette, mas a maioria bate no conteúdo do comercial, baseando-se principalmente na suposta “teoria da conspiração”, um plano para terminar com os “machos alfa” e passar o controle da sociedade para as mulheres e esquerdistas. Pode soar como uma bobagem, mas é muito sério. Vou sintetizar aqui os argumentos apresentados: 

– Críticas à Empresa – a Gillette, que pertence a Procter & Gamble, está se apropriando de uma causa (feminista) quando historicamente usou cenas machistas em seus comerciais e o comercial não passa de uma estratégia de marketing pois, ao causar polêmica, está fixando sua marca no imaginário coletivo. Em defesa da Empresa, existe a afirmação de que ela está se reposicionando e quer iniciar uma nova fase defendendo a proposta de homens melhores para o mundo. A Gillette teria se comprometido em doar 3 milhões de dólares nos próximos três anos para programas de organizações que trabalham pela igualdade de gênero. 

– Críticas ao Conteúdo do comercial – dizem que o comercial trata todos os homens como mau caráter, violentos e homicidas em potencial. A maior parte dos argumentos se apoia numa Teoria da Conspiração que apresenta a existência de um movimento global para atacar homens brancos e acabar com a masculinidade. Um defensor de tal teoria é Paul Watson, conhecido militante de extrema direita e disseminador de fake news, que além de chamar atenção para um maior número de homens negros com bom comportamento no comercial, alega que as brincadeiras de luta entre meninos são uma preparação para o mundo real. Ele interpreta o incentivo a expressar sentimentos como maneira de acabar com a virilidade e associa isto a possibilidade de a esquerda angariar mais votos, já que machos votam na direita. Critica a influência das mulheres na educação, mostrando que 43% dos garotos são criados por mães solteiras, 78% dos educadores são mulheres; e muitos garotos tem influência 100% feminina (50% em casa e 80% na escola). (vídeo de Paul Watson legendado em português  https://www.youtube.com/watch?v=QLRVuEM3Gn8 )

A reação ao comercial faz parte da onda conservadora que se espalhou pelo mundo, difundindo teorias como esta de que forças poderosas querem acabar com a masculinidade, com os valores cristãos para implantar o comunismo e tantos outros absurdos. Dizer “deixem os homens serem homens” é o mesmo que dizer: deixem os homens continuarem matando e estuprando as mulheres. Tais comentários esquecem que o Brasil ocupa a quinta posição entre os países que mais mata mulheres no mundo. O número de feminicídios (morte em razão do menosprezo ao gênero da vítima) subiu de 929 em 2016 para 1133 em 2017. São dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública,  publicados na Revista Veja, que não pode ser acusada de mídia da esquerda – https://veja.abril.com.br/brasil/cresce-61-o-numero-de-mulheres-vitimas-de-homicidio-no-brasil/. Se os filhos estão sendo criados e influenciados pelas mulheres, é porque os homens se desresponsabilizaram pela educação dos seus filhos. Não precisa morar junto com a mãe do filho para participar da sua educação. Se a maioria dos educadores nas escolas são mulheres, talvez seja porque o salário é baixo e não interessa para muitos homens, ou talvez seja porque a profissão de educador infantil exige sensibilidade, coisa que o macho alfa não tem. Não me envergonho de ser homem branco e heterossexual, mas tenho consciência de que historicamente fomos privilegiados e que é hora de aprender a conviver em igualdade de direitos e condições com mulheres, negros e as chamadas minorias. Quando alguém diz que não tem culpa de ser homem branco, está evitando este tipo de reflexão. Não temos culpa não, mas temos o dever moral de reconhecer o preconceito, a opressão, e de sermos a melhor versão de nós mesmos.Como salienta o comercial da Gillete, é preciso um outro modelo de homem, e o exemplo para os garotos vem das nossas ações.

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

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