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30Apr
Coluna Dominical

O que não é dito sobre as greves

– 30 de abril de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Em toda greve ou manifestação de protesto, os fatos se repetem e as manchetes dizem sempre as mesmas coisas. As pessoas reclamam do seu direito de ir e vir, dos transtornos causados pela greve, ficam horrorizadas ao verem manifestantes depredando e queimando ônibus. Há quem questione a forma como a categoria decidiu pela greve. Enfim, concordando ou não, existem pontos que não se fala. Mas, afinal, o que não é dito sobre as greves?

–  “O direito de ir e vir” está garantido na Constituição de 1988 assim como o direito de greve –  Pessoas aparecem na frente das câmeras dizendo que precisavam ir trabalhar e estão sendo impedidas. A mídia critica como sendo um ato autoritário e muitas pessoas ficam sensibilizadas. O argumento utilizado é de que a greve embora seja um direito, a adesão deve ser voluntária e deve-se deixar trabalhar quem assim deseja. O que não é dito nestas avaliações é que a greve representa um ato de força de um segmento contra outro. Se a adesão fosse realmente livre e o direito de greve respeitado, muitos policiais que batem nos manifestantes, provavelmente, adeririam à greve. Muitos dos que fazem tudo para chegar ao trabalho não iriam, não fosse o medo de perder o emprego. Além disto, existem várias outras situações que impedem as pessoas de ir e vir (inundações, engarrafamentos, comemorações de conquistas no futebol etc.), que não causam a mesma reação de uma barricada de uma greve. Perder um dia de trabalho por que houve uma chuvarada na cidade e não foi possível chegar ao trabalho é aceitável, mas faltar por que não tinha transporte em função de uma greve, gera muitos protestos.

– Transtornos num dia de greve – se a greve não causar nenhum transtorno, nenhum prejuízo, ela não será percebida nem terá efeito nenhum. A greve ocorre depois que se esgotaram todas as possibilidades de negociação e visa causar transtornos sim. Criticar a greve porque causou enormes prejuízos, portanto, é reconhecer que os objetivos foram alcançados.

– Quem decide pela greve? A decisão de aderir a uma mobilização ou a levar uma categoria a entrar em greve, deveria decorrer da vontade da maioria, mas nem sempre é assim. Uma categoria com milhares de associados costuma decidir pela greve numa assembleia com poucas pessoas. Está certo, a assembleia é aberta e soberana, mas existe ainda o que se chama de “manobras” visando prolongar a decisão da assembleia para que, depois de esvaziada, fazer a votação e obter o resultado desejado. As lideranças de um movimento podem usar de vários recursos para aprovar uma greve, mas não conseguirão adesão se seus associados não estiverem sensibilizados. 

– Os ganhos obtidos se a greve tiver sucesso – o movimento grevista defende uma causa, reivindica alguma coisa para todos de um determinado setor ou categoria, sejam eles contra ou a favor da greve. Não se vê um repórter perguntar para quem está furando a greve se, no caso do objetivo ser alcançado, se esta pessoa abriria mão da conquista? Ou seja, os que tentam impedir o colega de trabalhar, lutam por algum direito/vantagem para esta pessoa, que é contra, mas, depois, aceita e se beneficia desta conquista.

– Confrontos e depredações – Por que alguns manifestantes colocam fogo em ônibus, em containers de lixo, depredam estabelecimentos comerciais e enfrentam a polícia? Estas cenas são as que mais recebem destaque e chocam a população. As pessoas se perguntam: “Para que fazer isto?”. A maioria dos manifestantes que vai às ruas é contra este tipo de ação, por que, então, elas acontecem? A resposta é simples. Existem pessoas que saem de casa determinadas e preparadas para depredarem e enfrentarem a polícia. O grupo mais conhecido é o Black bloc, que possui orientação anarquista e entende que a greve compreende um momento de lutar contra o capitalismo e a globalização. A forma de chamar a atenção é depredar as fachadas de bancos e empresas multinacionais. Quando a polícia age de forma preventiva, os danos são menores do que quando parte para a agressão. Ao agredir os manifestantes, a polícia atinge quem estava participando de forma pacífica e provoca a multidão, que responde da mesma forma. Vale o que já se sabe: violência gera mais violência. Quanto mais preparada for a polícia para agir em manifestações, menores são os atos de violência e os danos ao patrimônio. Cabe dizer que, em algumas greves, existem pessoas contrárias à greve que se infiltram nas manifestações e provocam os quebra-quebras para jogar a população contra o movimento.

Enfim, uma greve consiste em um processo extremamente difícil de conseguir adesão, pois o cidadão comum não gosta de faltar ao trabalho, de ir para a rua e correr o risco de apanhar da polícia, ou até mesmo ser morto. Quando existe adesão é porque o descontentamento e a indignação das pessoas são muito grandes. Neste sentido, a adesão a uma greve é um termômetro utilizado pelos governantes/políticos/chefias sobre a insatisfação dos envolvidos. Embora, publicamente, eles tentem minimizar ou desmerecer o movimento, sabem de sua força e tomam medidas para diminuir esta insatisfação.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

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