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06Mar
Coluna Dominical

Um olho no peixe e outro no gato

Assista o clipe deste texto em http://www.luisfelipenascimento.net/wp-content/uploads/2017/03/Um-olho-no-peixe-e-outro-no-gato.mp4?_=1

– 5 de março de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

A gafe na entrega do Oscar 2017 escancarou uma situação com a qual estamos nos acostumando, que é a desatenção causada pelo acesso as redes sociais enquanto fazemos outras atividades. Gafes em eventos importantes sempre existiram. No momento mais esperado da entrega do Oscar 2017 houve uma troca nos envelopes, o que resultou no erro ao anunciar de melhor filme. Outra gafe histórica ocorreu em 2015 no concurso de Miss Universo, quando o apresentador do evento, em vez de ler “a segunda colocada é a Miss Colômbia”, disse “a Miss Universo é a Miss Colômbia” e, somente três minutos depois é que o erro foi corrigido.

A gafe na entrega do Oscar se diferencia das demais porque desta vez o erro não foi de um apresentador nervoso ou um funcionário qualquer, mas sim um executivo da Price Waterhouse Coopers, uma das maiores e mais respeitadas empresas de auditoria do mundo. Brian Culliman, o homem fotografado no tapete vermelho com uma pasta 007, trocou os envelopes por desatenção.  Minutos antes ele havia postado fotos no Twitter.

A expressão “com um olho no peixe e outro no gato” traduzida para os dias de hoje significaria “fique ligado”, esteja muito atento, ou o gato vai roubar o peixe. A desatenção de Brian Culliman teve mais repercussão, mas talvez seja menos perigosa do que as nossas desatenções enquanto dirigimos, caminhamos e trabalhamos olhando para o celular. Acessar redes sociais enquanto estamos desenvolvendo atividades que exigem atenção, é tirar um olho do gato.

A partir de novembro de 2016, usar o celular enquanto dirige passou a ser uma infração gravíssima no Código Brasileiro de Trânsito, quadruplicando o valor da multa. Segundo o site do Portal do Trânsito, 80% dos motoristas no Brasil acessam celular ou outras tecnologias que geram distração enquanto dirigem e, que isto resulta em 1,3 milhão de acidentes por ano. http://portaldotransito.com.br/noticias/celular-no-transito-causa-13-milhao-de-acidentes-por-ano/

As redes sociais estão sendo apontadas como “vilões da produtividade” nas empresas. Algumas liberam o acesso e outras não, mas ninguém consegue controlar que o funcionário use o seu celular para receber e enviar mensagens no horário de trabalho. Segundo relatos de especialistas, alguns funcionários passam cerca de três horas por dia nas redes sociais durante a jornada de trabalho. Você já deve ter visto algum vigilante ou porteiro distraído no celular e nem perceber que alguém passou na sua frente. E qual seria o prejuízo causado pelo acesso as redes sociais nas salas de aula? Mesmo que o professor proíba o uso de celular na sala de aula, isto não impede que alguns alunos usem, seja colocando o celular no meio das pernas, no meio do livro, ou alguma outra forma, mas eles não vão passar uma aula inteira sem acessar o celular.

A distração causada pelo acesso as redes sociais é um mal que nós criamos e que precisamos encontrar uma solução ou será cada vez maior a ocorrência de gafes, de acidentes, a queda de produtividade no trabalho e de aprendizagem no ensino. Como todo o vício, a internet nos consome de tal forma que não basta aumentar o valor da multa, a ameaça de demissão do emprego ou de reprovação na escola. Não acredito que uma campanha de conscientização para o uso de forma “racional” tenha efeito a curto prazo. Então, como combater este excesso de desatenção que coloca a nossa e vida dos outros em risco? Este é um dos maiores desafios da atualidade, pois a causa do problema não está nos políticos, nas gangs ou nas empresas. Nós somos a causa do problema. O vício atinge de crianças a idosos e pessoas de todas as classes sociais de todas as regiões do país. Se não admitirmos que, em maior ou menor grau, estamos doentes, não encontraremos a cura. Enquanto o Ministério da Saúde não assume esta causa, é melhor buscarmos um remedinho caseiro: o auto-controle. Boa sorte.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com