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26Mar
Coluna Dominical

Cachorro-quente coloca prefeito na prisão

– 26 de março de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Na pequena Cidade de Distração, a população está sempre muito ocupada com informações que parecem importantes e não se engaja nas questões sociais, econômicas e políticas. O recém-chegado delegado de polícia quebrou a monotonia da cidade ao deflagrar a operação “Merenda Superfaturada” que, com a autorização da justiça, prendeu o prefeito da cidade, o dono da padaria Pão Quentinho e a proprietária da Empresa Au-au, fornecedora de cachorro- quente para a merenda escolar da Cidade de Distração. O delegado fez questão de dizer que se tratava de um caso isolado e que as prisões não afetariam o mercado internacional de cachorro-quente. Tratava-se apenas de prisões preventivas, pois os envolvidos estavam obstruindo as investigações. A polícia apresentou  provas de que o prefeito, durante a campanha eleitoral, recebeu duas caixas de isopor com cachorro-quente para distribuir aos seus eleitores. Em troca, a proprietária da Au-au teria passado a fornecer cachorro-quente para a merenda escolar da escola municipal. O prefeito confirma o recebimento das duas caixas, mas afirma que tanto a caixa 1 como a caixa 2 continham cachorros-quentes doados legalmente e que isto nada tem a ver com o contrato emergencial firmado pela Prefeitura com a Au-au. A fornecedora de cachorro-quente garante que o seu produto atende aos mais rígidos padrões de qualidade e que fez uma doação de campanha dentro dos limites da lei. O caso seria encaminhado para a justiça, não fosse o aparecimento do detetive Poirreta, que estava visitando familiares na Cidade de Distração. O detetive Poirreta, famoso por desvendar crimes, ao tomar conhecimento do caso, solicitou a autorização ao delegado para visitar as instalações da escola, da Empresa Au-Au e da padaria Pão Quentinho, bem como para conversar com os acusados, no que foi prontamente atendido.

No dia seguinte, o detetive Poirreta convidou todos os envolvidos no caso, a mídia e os representantes da sociedade Distraçãonense para uma reunião no salão da escola municipal. Ao chegarem ao local, os convidados encontraram as cadeiras dispostas em dois círculos e uma mesa ao centro com dois recipientes com alimentos. Num deles estavam frutas e verduras orgânicos e no outro cachorros-quentes embalados em saquinhos plásticos. Os envolvidos  foram convidados a se sentarem no círculo central. Depois de todos acomodados, o detetive Poirreta passou a caminhar pela sala e a relatar a sequência dos fatos.

O detetive disse que o prefeito estava sendo acusado de substituir as frutas e verduras orgânicas da merenda escolar por cachorro-quente. A distribuidora de cachorro-quente Au-Au é de propriedade da esposa do dono da padaria Pão Quentinho que, por sua vez, é irmão do prefeito. Além disto, existem evidências de que o contrato emergencial entre prefeitura e a Empresa Au-Au teria sido superfaturado. A diretora da escola informou que os alunos adoram os cachorros-quentes e nunca houve reclamações relativas ao produto. Enquanto caminhava pela sala, ora no círculo central, ora entre os dois círculos de cadeiras, o detetive entrelaçava os dedos e olhava nos olhos dos presentes, como se desejasse arrancar-lhes a última informação para completar o quebra-cabeça. 

O público presente estava atento e só se ouvia a voz do detetive Poirreta. Foi, então, que ele convidou as pessoas que estavam no círculo central para escolher um alimento para consumir naquele momento. Todos escolheram o cachorro-quente, apenas Poirreta foi até recipiente das frutas e verduras e apanhou um pedaço de brócolis. Enquanto as pessoas faziam o lanche, o delegado questionou a razão daquela reunião, pois tudo o que o Poirreta havia dito, não só era de conhecimento da polícia, como também constava no processo. Neste momento, Poirreta fez sinal de que estava se sentindo mal, passou a mão na barriga, curvou-se e, em seguida, caiu ao chão contorcendo-se de dor. O médico da prefeitura, que estava presente, logo o socorreu e chamou uma ambulância. Enquanto atendia o detetive, o médico relatou que os sintomas eram semelhantes aos apresentados pelas crianças nos tempos em que elas consumiam brócolis na merenda escolar. Antes mesmo da ambulância chegar, Poirreta levantou-se, informou estar bem e que a polícia havia se equivocado, mas que ele já havia desvendado o caso. Agradeceu ao médico pelo atendimento e mandou suspender a ambulância. Os olhos dos presentes ficaram ainda mais arregalados. Todos queriam logo saber o que Poirreta havia descoberto que a polícia não sabia.

Poirreta confirmou com a diretora da escola que, no ano anterior, eram servidos na merenda frutas e verduras orgânicos, e que isto teria causado mal-estar nas crianças. Quando foi suspensa a compra dos produtos orgânicos, as próprias crianças solicitaram a compra de cachorro-quente, produto que estavam acostumadas a consumir nas festas de aniversário. A diretora informou ao prefeito, que fez um contrato emergencial com a Empresa Au-Au. Poirreta explicou que, ao ingerir os brócolis orgânicos, nada sentira e havia simulado, da mesma forma que fizeram as crianças na escola, enganando o médico e as professoras. Portanto, as crianças cometeram os crimes de mentir, de formação de quadrilha e de falsidade alimentícia ao simularem mal-estar. Diante da urgência dos fatos, o prefeito tomou a decisão de substituir as frutas e verduras orgânicas por cachorro-quente. Assim, fica evidenciado, que tanto a diretora quanto o prefeito foram vítimas da ação destes delinquentes infantis que, agindo de má-fé, usaram de recursos públicos para consumir cachorro-quente na merenda. Poirreta olhando nos olhos do delegado exclamou: “Delegado, solte os acusados e prenda as crianças!”

Os presentes ficaram impressionados com o raciocínio lógico e objetivo do detetive Poirreta. Ao se despedir, o prefeito e lideranças da cidade agradeceram os relevantes serviços prestados àquela comunidade e, em voz baixa, perguntaram-lhe: “o que faremos com o produtor de brócolis orgânicos que há um ano está em prisão preventiva?”.

Obs. 1: Segundo Noam Chomsky, a “distração” é uma das estratégias mais utilizadas para a manipulação da população. Leia em https://juizofinal.wordpress.com/2010/09/03/manipulacao-as-10-estrategias-que-sao-utilizadas-pela-midia-na-populacao/ 

Obs. 2: E, afinal, a compra dos cachorros-quentes foi superfaturada? E o prefeito cometeu crime eleitoral ao distribuir cachorros-quentes aos seus eleitores? Não me diga que você também se distraiu com a acusação feita às crianças!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

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