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28Aug
Coluna Dominical

O Pecado apaga o Legado

– 28 de Agosto de 2016

Luis Felipe Nascimento (*)

 O nadador americano Ryan Lochte, que depois de uma festa aprontou num posto de combustível no Rio de Janeiro, se tornou persona non grata dos brasileiros. Ele já perdeu o apoio de quatro dos seus patrocinadores e não será mais convidado para a Danças dos Famosos nos EUA. O Comitê Olímpico Americano teme que este fato prejudique a candidatura das cidades americanas para a Olimpíada de 2024. Não resta dúvida que a sua mentira (o seu “pecado”) iria afetar a imagem da cidade do Rio no Mundo. Portanto, não importa que Ryan Lochte seja o maior medalhista da história da natação mundial (considerando todas as competições), tendo ultrapassado Michal Phelps. Não importa que ele possua vários récordes mundiais, 11 medalhas olímpicas, sendo 5 de ouro. Apesar disto tudo, ele será lembrado na história como o “mentiroso da Olimpíada do Rio”. Ele está pagando pelo erro que cometeu!

Fatos semelhantes ocorreram com outros atletas, dirigintes de organizações, políticos, artistas e quem mais se destacou. Talvez a pessoa mais importantes na promoção do futebol mundial tenha sido o brasileiro João Havelange. Curiosamente, ele também foi nadador e um destacado atleta Olímplico. Havelange foi presidente da Confederação Brasileira de Desportes, que equivaleria hoje ao Ministério dos Esportes, entre 1959 e 1974. Neste período, como dirigente, levou o Brasil ao tri–campeonato mundial de futebol. Foi membro do Comitê Olímpico por mais de 40 anos e chegou a ser o Decano. Foi presidente da FIFA de 1974 à 1998 e transformou o futebol de lazer em negócio, tornando-o o esporte mais popular do Planeta. Ele atraiu as grandes marcas (Adidas, Coca-Cola, Visa, Kodak) para o esporte. Na década de 80 foi o dirigente esportivo mais poderoso do Mundo. Sem Havelange seria impensável fazer uma Copa do Mundo de futebol onde não se jogava futebol. Não teriam acontecido as copas dos EUA, Coréia-Japão e África do Sul. Quando saiu da FIFA dedicou-se ao trabalho filantróprico de ajuda as Aldeias internacionais SOS. Continuou atuando nos bastidores e foi um dos principais responsáveis pela escolha do Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada de 2016. Enfim, um currículo invejável. Mas, nas investigações sobre a corrupção na FIFA, foi constatado que na década de 90 ele recebeu suborno para a venda dos contratos de transmissão de campeonatos de futebol. Havelange foi convidado a deixar o Comitê Olímpico e a renunciar a Presidência de Honra da FIFA,  sendo considerado persona non grata. Ele morreu aos 100 anos, no meio da Olimpíada realizada na sua cidade natal. O Estádio Olímpico do Rio de Janeiro (Engenhão) que havia sido batizado com o seu nome, foi rebatizado com o nome de Nilton Santos. Ele morreu cinco dias antes do futebol brasileiro masculino conquistar pela primeira vez uma medalha de ouro numa Olimpíada. Um cenário perfeito para fazer um grande reconhecimento ao atleta Olímpico, ao Decano e a quem promoveu o futebol pelo quatro cantos do Mundo. Mas, não foi isto que aconteceu, a sua morte não foi sequer mencionada no encerramento da Olimpíada. O seu pecado apagou o seu legado.

Dizem que o poder e a glória corrompem. Acredito que hoje estas pessoas são mais corrompidas do que corruptas. Ou seja, o sistema funciona para corromper quem tem poder e fama. O corruptor age como o vendedor de drogas, ele conhece as fraquezas de quem ele quer corromper e o momento certo para atacar. Havelange era um homem de família rica, um atleta e gestor com méritos reconhecidos internacionalmente, não precisaria se corromper. Por que teria feito isto?

As celebridades envolvidas em casos de corrupção, abuso de poder ou atos ilícitos, mesmo depois de pagarem a pena estabelecida pela justiça, raramente retomam as suas atividades com a mesma reputação. Geralmente elas morrem carimbadas pelo pecado que cometeram. Algumas décadas ou séculos depois, alguém irá investigar a vida destas celebridades e recuperá os seus legados. Neste momento os seus pecados não serão mais tão relevantes. Havelange morreu como persona non grata e hoje só se fala do seu pecado, mas talvez no futuro, quando alguém publicar um livro sobre a sua biografia, o legado receba maior destaque do que o seu pecado.

Que lições tiramos de casos como os de Ryan Lochte e João Havelange? Que na nossa cultura, o pecado é mais valorizado do que o legado. Não importa que a pessoa seja um dos melhores atletas de todos os tempos, ou a mais renomada das celebridades, tendo 8 ou 80 anos de excelente reputação, tudo será deletado se ela se envolver num escândalo. O até então herói, será colocado na mesma vala do bandido. É muito difícil e demorado para conseguir reconhecimento e construir uma boa reputação e é muito fácil e rápido para perdê-la!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

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