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28Feb
Coluna Dominical

Coluna Dominical

Atacama – Historias que não foram contadas

28 de fevereiro de 2016
Luis Felipe Nascimento (*)

Numa viagem para lugares pouco convencionais ocorrem fatos que não são contados, mas a Coluna Dominical vai revelar as historias censuradas. Veja só o que nos aconteceu na viagem para o Deserto do Atacama (Chile) e Salar de Uyuni (Bolivia), em fevereiro de 2016:
▪ Tudo começou numa noite de 2015, quando perguntei ao meu filho: “Não queres ir para o Atacama”? Ele respondeu rapidamente com um “sim”. Fiquei surpreso, e só algum tempo depois, descobri que ele havia entendido que a pergunta era: “Não queres ir para a tua cama?” Bem, quanto tudo foi esclarecido as passagens já estavam compradas, não teve volta, mas a parceria foi ótima.
▪ O planejamento da viagem não foi o nosso ponto forte. Tinhamos comprado apenas as passagens aéreas. Quando chegamos em San Pedro de Atacama, na alta temporada, fomos procurar um hotel. O primeiro que achamos “legalzinho”, entramos e descobrimos que estava lotado e que a diária era de 220 dólares, muito acima do que procurávamos. Passamos então a procurar os hostels e hotéis “feinhos”, que também estavam todos lotados. Cada vez nos afastavamos mais da rua principal e rebaixavamos nossas exigências. Já estava anoitecendo, o peso das mochilas e o cansaço da viagem nos tornou tão flexíveis, que estávamos dispostos a aceitar qualquer lugar para dormir. Encontramos um hostel que não oferecia café da manhã, não tinha ar condicionado e nem ventilador, a janela não abria e o banheiro distante, no fundo do pátio. Quando nos disseram que tinham duas camas, vibramos! Bah! Que maravilha! Era tudo o que queríamos! Esta maravilha por “apenas” 40 dólares!
▪ Na fronteira entre Chile e Bolivia, se faz o controle de entrada e saída, como em qualquer fronteira. A diferença é que no lado Boliviano, existe uma pequena casinha, no meio do nada, sem banheiros ou uma pia para lavar as mãos. Quem vai de San Pedro do Atacama para Uyuni (Bolivia), toma um ônibus em San Pedro e, na fronteira, passa para as camionetes 4×4, pois ônibus não circulam nas “estradas” que levam a Uyuni. Depois de uma hora de viagem, quando os ônibus chegaram na fronteira, lá estavam umas 50 camionetes nos esperando. Era muita gente, vários precisando fazer xixi e outras coisas, e cadê os banheiros? Por azar, as pedras do local não passam de meio metro. Precisei fazer xixi e fui atrás do ônibus, mas estava cheio de gente por perto. Resolvi ir atrás da casa das “autoridades” com medo de ser preso. Antes de eu terminar o meu xixi, chegou uma inglesa, disse “sorry” e se agachou. Pela primeira vez compartilhei um “banheiro inca” com uma inglesa!
▪ O motorista da camionete que nos levou era muito simpático. Ele era encarregado de providenciar o transporte e nossa alimentação. Quando chegamos em Uyuni, resolvemos dar uma gorjeta. Chegamos a um acordo que 15 dólares de cada um era um valor justo. O motorista, que deveria providenciar a janta e o almoço do dia seguinte, nos convidou para fazer as refeições na sua casa. Pensamos que iríamos conhecer a sua família e que a casa deveria ser muito simples. Ao chegar lá, vimos que ele era o “milionário” da cidade, pois tinha vários carros, caminhão e uma casa boa para os padrões locais. A sala repleta de bons móveis e uma TV de 50 polegadas. Vendo aquilo já tinha brasileiro querendo a gorjeta de volta! Descobrimos que o ouro nos dentes do motorista, que achávamos ser um sinal de saúde dental precária, era na verdade uma forma de demonstrar riqueza.
▪ Para retornar tinhamos que estar às 5h30min da manhã no aeroporto de Calama (Chile), que está a cerca de 1 hora de San Pedro de Atacama. Como não havia transfers, contratamos o dono da agência que nos levou nos passeios para fazer este transporte, saindo de San Pedro as 4h00min da madrugada. Ele chegou em ponto e lá fomos nós com aquelas enormes mochilas. Logo na saída vimos que o carro não passava de 30 km/h e o motorista fazia enorme esforço para trocar de marchas. Assim foi por uma meia hora, até que ele não conseguiu mais engatar as marchas e o carro parou no meio da estrada, as 4h30min, numa escuridão danada. Ele tentou ligar para outra pessoa para nos levar no aeroporto, mas naquela região não tinha sinal. Passou um carro e ele fez sinal para parar, mas quem iria parar no meio da estrada, naquela escuridão? Perdendo aquele voo, perderíamos os demais. Enquanto o motorista subia na montanha tentando conseguir sinal para o celular, atacamos o próximo veículo que se aproximava e, para nossa surpresa, o caminhão parou. Corremos até ele e, quando o caminhoneiro abriu a janela, perguntou: “O que aconteceu?” Ufa! Era um brasileiro! Explicamos a situação e ele nos perguntou se tínhamos muita bagagem? A resposta foi óbvia: “Não! Só uma mochilinha que a gente leva no colo!” Quando tudo parecia resolvido, vimos que o caminhão andava a 60 km/h e que não chegariamos a tempo. Perguntamos se ele não poderia aumentar a velocidade e ele confessou que estava com pouco combustível, maior velocidade, mais consumo. Fizemos a proposta de pagar o combustível, e ele então aumentou a velocidade para 70 km/h. E para achar a entrada para o aeroporto? Não havia sinalização e quase nenhum carro na estrada. Chegamos no aeroporto 5 minutos antes de fechar o voo. Ah! O caminhoneiro nos confessou que ele é proibido de dar carona e que não sabia porque parou, pois não costuma fazer isto, ainda mais a noite! Em resumo, quando fores viajar leve junto o seu santo protetor, pois imprevistos acontecem!
Certamente você tem histórias semelhantes, crie coragem e compartilhe conosco. Como diz a Lucila Campos: “viajar é uma viagem!”
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Atacama – Férias num Deserto ?

– 21 de fevereiro de 2016
Luis Felipe Nascimento (*)

Será que vale a pena fazer férias num deserto? Ainda mais se este deserto for o mais alto e o mais árido do mundo! Mas afinal, que deserto é este? Estamos falando do Deserto do Atacama. A base para visitar esta região é a cidade de San Pedro de Atacama, que está a 2400 metros de altitude, localizada no norte do Chile, quase na fronteira com a Bolivia e Argentina.
Como chegar lá? Bem fácil, são duas horas de vôo de Santiago até a cidade de Calama, e depois, mais uma hora de carro até San Pedro. Imagine uma pequena cidade de cor marrom, onde as casas e os muros são construídos de adobe e a rua principal não é calçada, por onde circulam mochileiros de todo o mundo, fotógrafos, astrônomos, cientistas, motoqueiros e aventureiros. Uma cidade com gente tocando instrumentos pelas ruas, onde se compra sorvete e cerveja de coca, cheia de cachorros sem donos, muito artesanato, museu, isto é San Pedro de Atacama.
Fazer o que lá? Para quem gosta de fotografar, o Atacama oferece paisagens lindíssimas. Para quem gosta de história e arqueologia, vai estar na capital arqueológica do Chile. Para quem gosta de astronomia, lá está o maior observatório astronômico do mundo (ALMA).
Que passeios se pode fazer? Visite o “Valle de la Luna”, onde o vento fez suas esculturas e a falta de humidade fez deste lugar um dos mais inóspitos do mundo. Mas, se você quiser ver vida, visite as “Lagunas Altiplánicas” e vai ver uma rica flora (ervas coloridas, cactus gigantes) e fauna (vicunhas, llamas, flamingos). Cada lagoa desta região tem o seu encanto, mas a “Laguna Cejar” é a que faz você flutuar, pois é mais salgada do que o Mar Morto. Se você não tem problemas com a altitude e não se importa em levantar de madrugada, então visite o “Geyser del Tatio” (4300 metros de altitude), o segundo maior campo geotérmico do planeta, com 40 gêisers. Ao chegar lá, pelas 6 horas da manhã, a temperatura, no verão, vai estar em torno de zero graus, e no inverno, a cerca de – 15 graus Celsius. Mas este frio logo passa se você entrar numa piscina térmica natural, onde a água está a 30 graus. Se quiser relaxar e tomar um banho terapêutico, então visite as “Termas de Puritama”, que estão a apenas 3500 metros de altitude. A noite, você pode fazer o “tour astronômico”, onde os astrônomos vão lhe mostrar as constelações e lhe contar muitas histórias. Existem outros passeios como o “Salar de Tara”, “Salar de Atacama”, “Piedras Rojas”, “Valle Arcoris” e tem ainda a possibilidade de escalar um vulcão.
Muito caro? Par você ter uma ideia, os preços dos hostes e hotéis, o pernoite para duas pessoas varia de 40 a mais de 200 dólares, sendo que nos mais baratos o banheiro é coletivo, e as vezes, fora do prédio. Os passeios de meio dia ou de dia inteiro, variam de 30 à 80 dólares. Em San Pedro existem bons restaurantes e você pode andar tranquilo pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite.
Agora, se você é aventureiro e se dispõe a enfrentar desconfortos, então faça a travessia de três dias e meio: San Pedro – Uyuni (Bolivia) – San Pedro, que custa cerca de 200 dólares, incluindo transporte, alojamento e refeições. Nesta travessia de mais de 1000 km, você vai visitar as “Lagunas Blanca, Verde e Colorada”, gêisers, até chegar no Salar de Uyuni, onde está o hotel de sal. Você pode fazer um tour privado ou contratar a operadora mais cara, mas mesmo assim vai ter que usar “banheiros naturais” e, em duas das três noites, vai pernoitar em alojamentos coletivos. Na primeira noite, o alojamento não oferece banho. Vai ter que viajor por onde não tem estradas e por estradas horríveis, por onde passa o Rally Dakar. Mas tudo isto vale a pena, pois você vai se deslumbrar com o colorido das lagoas e das montanhas e irá ao delírio com os reflexos do Salar de Uyuni, um espelho gigante. Vai poder usar o fundo infinito para fazer fotos engraçadas.
Nesta região de San Pedro de Atacama e Uyuni, tudo é elevado ao extremo: muito árido, muito alto, muito sal e muito bonito. Enfim, a América do Sul é muito mais do que Punta del Este, Buenos Aires e Bariloche. Conheça San Pedro de Atacama e Uyuni.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

 

Prevenção contra os temporais – o que você sugere?

– 7 de fevereiro de 216
Luis Felipe Nascimento (*)

– Tens notícias do Brasil?
– Sim, teve um temporal que causou muitos estragos em Porto Alegre. Deixa eu procurar aqui na internet para te mostrar. Escuta só:
“Por volta de 22 h30min, ventos com 116 km causam estragos e deixam 1 morto e 11 feridos em Porto Alegre. Prefeito pede para a população economizar água, pois a estação que abastece 39 bairros, vai ficar sem energia.” http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2015/10/geral/461843-temporal-na-capital-deixa-uma-pessoa-morta-e-11-feridos.html
– Opa, esta notícia é velha, é de 14 de outubro de 2015!
– Deixa eu ver…. achei, esta sim é a notícia do vendaval de 29 de janeiro de 2016, desta vez o vendaval foi por volta de 22h30min e os ventos foram de 120 km, …
– Ué, mas não é a mesma?
– Não, não! Este é um segundo vendaval, que ocorreu três meses mais tarde. Dois dias depois, em 31 janeiro 2016, a manchete era: “Maior parte de Porto Alegre segue sem abastecimento de água. Dmae informa que apenas uma estação de bombeamento funciona. Toda Zona Norte da capital e região das Ilhas estão sem água.” http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2016/01/maior-parte-de-porto-alegre-segue-sem-abastecimento-de-agua.html
– E olha esta, só no Parque da Redenção, foram mais de 1000 árvores danificadas! Foi necessário a reposição de 700 postes e 250 km de fios. Caiu a fachada de um shopping, hospitais foram atingidos, … a coisa foi feia!
– Sorte que os vendavais chegam em Porto Alegre a noite. Imagina se fosse no horário comercial!
– Por que será que tem tanto vendaval no sul do Brasil?
– Porque eu não sei, mas eu li uma reportagem que dizia que 80% dos vendavais e ciclones, ocorrem na região sul http://noticias.r7.com/brasil/noticias/regiao-sul-registra-oito-em-cada-dez-vendavais-do-pais-20120914.html
– Eu também já li que, com as mudanças climáticas, vai chover mais no sul e provavelmente irá aumentar a frequência de temporais.
– Será que eles aprenderam alguma coisa com estes últimos temporais? Ou vão esperar o próximo para ver as mesmas coisas acontecerem?
– Pois é, esta região vai ter que se preparar. Não deve ser tão difícil! O Japão se preparou para enfrentar os terremotos. Agora os prédios balançam, mas não caem!
– O que teria que ser feito para enfrentar os vendavais e ciclones? Colocar fios subterraneos, geradores nas estações de bombeamento de água, “fazer manutenção” nas árvores sem cortar as raízes para alargar as ruas e calçadas? Dizem que galho de árvore e fio de luz e não se dão bem, quando um bate no outro, dá curto circuíto!
– Mas tudo isto custa caro e demora para ser feito!
– Eu sei, mas olha esta outra notícia aqui: “Temporal custará mais de R$ 50 milhões a Porto Alegre”. Isto é só a parte de infraestrutura que o poder publico terá que gastar. Em poucos eventos como este, as obras que estamos falando, se pagariam http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/Geral/2016/2/578784/Temporal-custara-mais-de-R-50-milhoes-a-Porto-Alegre
– Eu acho que a melhor prevenção seria parar de desmatar a Amazônia e preservar o meio ambiente.
– Sim, mas quando o Congresso está discutindo uma lei que permite desmatar para plantar mais soja ou criar boi na Amazônia, as pessoas não se ligam nisto, pensam que isto não irá lhe afetar!
– Obvio né, a Amazônia está distante! As pessoas só reclamam quando o vendaval derruba o poste em cima do seu carro ou quando ficam sem água e luz.
– E aí? Qual a solução?
– Eu acho que nas próximas eleições o pessoal deveria cobrar dos candidatos planos de investimentos para preparar as cidades contra os temporais!
– Pode ser, mas não dá para confiar só nos politicos, a sociedade tem que se organizar e fazer alguma coisa.
– Que tipo de coisa?
– Sei lá, vamos saber a opinião de quem ouvir, ou ler, esta nossa conversa. Hei, vocês aí, o que vocês sugerem?
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Praia – uma oportunidade de aprendizagem

31 de janeiro de 2016
Luis Felipe Nascimento (*)

No sul do Brasil, as aulas terminam na primeira quinzena de dezembro e retornam em final de fevereiro ou em março. Nos meses de janeiro e fevereiro, as empresas reduzem o ritmo de trabalho. Portanto, temos dois meses e meio de férias ou de ritmo lento. Costumamos dizer que o calor torna este período inapropriado para o estudo e para o trabalho, e que o ano começa mesmo, só depois do carnaval. Será que isto é verdade? Uma coisa é certa, este é o período em que todos pensam em praia, mas nada de estudar ou trabalhar na praia. Por outro lado, tem brasileiros que no verão vão para as praias da Austrália e Nova Zelândia para estudar inglês, ou fazer algum outro curso. Estudar na praia? Por que lá funciona e aqui não?
Algumas universidades possuem Campi no litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Aqueles prédios ficam fechados na época de maior movimento nestas regiões, pois as aulas seguem o calendário das cidades que não possuem praias. Além disto, existem salas disponíveis, toldos ou mesmo a sombra de árvores, que poderiam ser utilizados como “espaços para aprendizagem”. Outra oportunidade desperdiçada: nossas praias possuem boa cobertura de internet, o que permite que as pessoas possam desenvolver trabalho remoto (atividades a distância, usando a internet). Ou seja, quem vai para o escritório para atender telefone e trabalhar num computador, poderia fazer isto da praia. Os estudos mostram que nas grandes cidades, geralmente as pessoas gastam de uma a duas horas por dia em deslocamentos. Trabalhando na praia, poderiam utilizar este tempo para “pegar uma praia” ou desenvolver outras atividades.
Todo o ano, as praias do Rio Grande do Sul e Santa Catarina recebem milhares de argentinos, mas eles pouco interagem com os brasileiros. Provavelmente muitos deles são professores ou pessoas que poderiam dar aulas de espanhol. Alguns deles poderiam ter interesse em aprender o português. Ou seja, se houvesse cursos de espanhol, português, inglês, e mesmo cursos de pintura, artesanato, de música, dança, etc, em locais e horários adequados, provavelmente teria alunos interessados.
Dedicar uma ou duas horas por dia para fazer um curso ou para ensinar alguém pode ser divertido, além de ampliar a rede de contatos destas pessoas. Imagine brasileiros e argentinos usando os espaços de aprendizagem para conversar sobre a música, o cinema, a literatura do país vizinho. Poderiam descobrir novas possibilidades de intercâmbios. Os brasileiros poderiam aprender a jogar “tejo” (jogo parecido com o nosso jogo de bocha). Os argentinos poderiam aprender a sambar e a dançar forró. Poderiam intercambiar conhecimentos sobre as mais diversas áreas. Tudo isto poderia ser estimulado pelas escolas, prefeituras e organizações sociais nas cidades que recebem os turistas. Estas regiões teriam mais atrativos para os turistas, e seria muito mais proveitoso para todos. Precisaríamos apenas criar oportunidades e usar as estruturas ociosas que temos. Os argentinos tem muito a nos ensinar e a aprender conosco. Da mesma forma, os gaúchos, que invadem Santa Catarina, poderiam ensinar e aprender com os Catarinas.
Em resumo, não quero acabar com as suas férias, mas apenas mostrar que a praia, ou qualquer local de lazer, pode ser utilizado para o descanso, para festas, e também pode ser utilizado para trabalhar, ou como uma oportunidade de aprendizagem. E por que não estender estas iniciativas por todo o Brasil? Europeus e americanos já fazem isto. Mas, se você não concorda com nada disto, manifeste-se! Apresente seus argumentos e vamos trocar ideias.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Reflexões de férias

– 31 Janeiro de 2016
Teniza Da Silveira (*)

Ao receber o convite para escrever um texto para este livro organizado pelo Felipe, ainda estava em férias e pensei em escrever sobre minhas reflexões de natureza mais ampla ou, se quiserem, elevada a respeito da vida feitas neste período. Reflexões estas que tipicamente nos acometem nos períodos de tempo livre e solto, que nos permitem sair dos limites das caixinhas do dia-a-dia. Para aqueles que conseguem tempo e disciplina para meditar, isto deve ocorrer ao longo do ano, mas eu ainda não cheguei lá.
Confesso que sempre me delicio com o exercício dos devaneios e conversas a partir deles. Nas férias deste ano, tendo em vista ter passado quase trinta dias entre o México e o Uruguai, pensei muito sobre a história da formação da América e seus reflexos sobre o Brasil e também sobre a América Latina. Estimulada pelas perguntas incessantes dos meus filhos, ficamos imaginando outros destinos possíveis se a colonização fosse outra ou, mais distante ainda, se ela não tivesse ocorrido. Como disse antes, o doce exercício do devaneio. Ainda que sejam devaneios, são permeados por raciocínios vinculados a fatos reais do presente como a crise na Venezuela, as desastrosas manipulações políticas na Argentina e, como não poderia deixar de ser, a dificuldade do Brasil de mostrar que é um país sério. Frase esta atribuída a Charles de Gaulle na Guerra da Lagosta, mas que de fato foi proferida por Carlos Alves de Souza Filho, embaixador brasileiro na França no início da década de 60. A realidade é que já que não podemos mudar a história, precisamos entendê-la melhor e reconhecer que papel nos cabe para contribuir para que a que hoje se desenha seja melhor do que a construída até agora.
Confesso, que muitas e muitas vezes penso que o aeroporto ainda é a melhor saída, mas com uma filha de seis anos e um filho de dez, devo agir como se esta fosse apenas uma possibilidade e não a única. Nesse exercício, resgato os avanços, as diferenças, os recursos disponíveis e todas as possibilidades que sugiram que um dia possamos viver numa sociedade de maior bem-estar, com tudo que isto significa.
Faço a minha parte, principalmente na criação dos meus filhos: dando e recebendo muito amor, cuidando, prestando muito atenção e sendo ética o tempo todo. Dia desses, ouvi falar que quem é muito amado na infância, não pega uma arma e mata alguém. Pode ser simplista, mas achei muito bom. Num tema de casa das crianças, precisávamos relacionar o que estávamos fazendo para contribuir para uma sociedade melhor e disse a eles que a primeira coisa a mencionar era o fato de amá-los muito. Eles não entenderam bem, mas aceitaram colocar isto na lista. Imagino que entenderão isto mais para a frente.
Enfim, as férias acabaram e este será um ano ainda mais diferente que os demais. Espero que, acima de tudo, seja um ano em que possamos ser críticos e também efetuemos aprendizados sobre o que somos como sociedade e o que queremos e podemos ser.
(*) Teniza Da Silveira é Professora na Escola de Administração da UFRGS
Contato: teniza@terra.com.br

Sofremos mais ou menos do que os nossos pais?

24 de janeiro de 2016
Luis Felipe Nascimento (*)

Nas últimas décadas no Brasil aumentou a expectativa de vida, o acesso aos alimentos e remédios, as condições sanitárias e os direitos do cidadão. Por tudo isto, podemos dizer que melhorou a qualidade de vida da população e, como consequência, deve ter diminuído o seu sofrimento. Por outro lado, vieram as crises econômica, política, corrupção, desilusões, frustrações, que aumentaram nosso sofrimento. E aí? Hoje sofremos mais ou menos do que os nossos pais?
Primeiro, é preciso distinguir o sofrimento “coletivo” decorrente das condições do meio em que vivemos (infraestrutura, conjuntura econômica e política, guerras, catástrofes ambientais, etc), do sofrimento “individual”, que pode ser visível ou invisível aos olhos dos outros. A perda de uma pessoa amada é sofrimento individual e visível, já um amor proibido será um sofrimento individual e invisível aos olhos dos outros, mas ambos podem causar enorme dor a quem sofre. Mas o que é mesmo “sofrimento”? Ele está associado com infelicidade, tristeza, dor, pesar, raiva, tédio. Sofrimento é uma emoção negativa.
Se a qualidade de vida melhorou nas últimas décadas, por que então aumentou o número de pessoas com depressão e dos que procuram psicólogos? Por que aumentou tanto o número de farmácias? Muitas podem ser as explicações. Apresento algumas hipóteses, com base apenas em percepções. Por exemplo, uma possível causa pode ter sido a redução da nossa religiosidade. Nossos pais eram mais religiosos e com isto, conviviam melhor com o sofrimento. Quando o sofrimento lhe sufocava, confessavam ao padre e sentiam-se aliviados, pois aquele sofrimento passava para as mãos de Deus, ele que teria que resolver. Nos dias de hoje, quando um sofrimento nos sufoca, recorremos aos remédios ou ao psicólogo.
Parece que quanto mais informações temos, quanto mais conscientes nos tornamos, mais sofremos! Complicado dizer isto, mas vejam só. No tempo dos nossos pais, as condições climáticas dependiam da vontade de Deus. Os agricultores sofriam as consequências da falta, ou da abundância, de chuvas. Mas a perda da safra era resultado da “vontade de Deus”. Atualmente, as condições climáticas são influenciadas pela ação do homem. As emissões de CO2, os desmatamentos, etc, estão alterando o clima. Logo, o homem é o culpado pelo aquecimento global e pela perda da sua safra. No passado, quando um fumante estava doente do pulmão e morria de “tosse”, recebia a piedade dos amigos e familiares, que atribuíam a Deus a sua morte. Hoje, o fumante sofre com a doença e é, de certa forma, responsabilizado por ter provocado a sua doença. Ou seja, sofre com a doença e com a culpa de ter causado a sua doença.
A ignorância é uma forma de reduzir o sofrimento, por isto que muitas igrejas conquistam adeptos, pois tratam das questões pessoais e omitem as questões sociais. Oferecem conforto espiritual e mantém seus fieis numa “certa ignorância”. Ignorância no sentido de ignorar o conhecimento científico e fatos da conjuntura.
Sabemos que nem todos sofrem da mesma maneira, pois isto depende de como cada pessoa reage diante de um fato que lhe causa sofrimento. Sabemos também que podemos nos preparar para enfrentar o sofrimento. Podemos nos tornarmos mais resilientes, ou seja, aumentar a nossa capacidade de, após uma adversidade, conseguir nos adaptarmos, nos recuperarmos e superarmos aquele sofrimento. Mahatma Gandhi falava que controlando os impulsos a pessoa conseguiria regular suas emoções.
O bom humor é uma forma de minimizar o sofrimento. Vejam a importância do trabalho nos hospitais dos “doutores da alegria”. Rir, se divertir, brincar com a sua própria situação, com a sua própria dor é uma forma de minimizar o sofrimento. E mais do que isto, rir é contagiante, mais contagiante do que o soluço.
Falamos dos nossos pais, dos nosso filhos, mas e nós, o que podemos fazer para minimizar nossos sofrimentos? Não existe receita, mas eu arriscaria dizer podemos buscar alternativas ao caminho da farmácia e do psicólogo. Bom humor e um pouco de fé não faz mal a ninguém. Quando nossas forças acabam, ainda temos a fé. E o bom humor é o melhor antídoto contra o sofrimento e alegria é a melhor terapia.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Obs: Agradeço as contribuições do meu amigo Alfredo Culleton para o desenvolvimento deste texto.

Negócios usuais ou Não usuais: está feliz em seu trabalho?

– 24 de janeiro de 2016
João S. Furtado (in memoriam)

A expressão Business as Usual (BAU) percorre o Planeta e identifica as empresas cujo modelo de produção e de negócios não atende às necessidades para a Sustentabilidade. Business as Unusual (BAUn) é a antítese.
BAU, em seu melhor perfil, representa a empresa bem gerenciada, independente, estável, eficiente, consciente dos riscos, controlada, focada, competitiva, progressivamente volátil. É reativa, move-se por conformidade, comando-e-controle, segundo limites ou padrões estabelecidos e planejamento detalhista. BAUN, em sua melhor proposta, diz-se mais preventiva, além da conformidade, resiliente, adaptável, reinventável ao universo de atividades. Tem mais habilidade analítica e quantitativa; reconhece melhor as oportunidades e seu papel no mundo, que se mostra progressivamente mais volátil, turbulento, complexo, aberto para interconectividade. É mais bem ajustável à globalização, ao mundo digital e à responsabilidade.
O planejamento, na BAU, é fechado, ancorado no consumo, destinado a conquistar e remediar impactos, quando denunciados. Na BAUn, é aberto, sistêmico, compartilhado, a fim de prevenir para não ter que curar. É focado nas consequências, inspirado na elasticidade do mercado e grandes interesses da sociedade. A BAU se move para o lucro e a BAUn, não apenas nele, pois inclui, em suas premissas, a do propósito e mudar para melhor.
A BAU é conduzida por dirigentes, que almejam o topo da hierarquia em organogramas que refletem o “poder no poder”, e que é regido por obediência e tem o compromisso de melhorar para o investidor. O CEO é de curta duração, com bônus e promoções. Na BAUn, o poder é embutido, distribuído e está nas ideias, inovação e na melhoria para as pessoas. A BAU pensa em projetos e em fazer o que é certo para o negócio. A BAUn considera sistemas, fazer o certo para o negócio, para as pessoas e para o planeta. A liderança na BAU é por posição atribuída e superação de números previstos (forecast), com cronograma e metas físicas. Na BAUn ela é por posição conquistada; pela facilitação de equipes; por conseguir “falar e entregar” (walking the talk).
Na BAU, os recursos da Terra são a base para “o negócio é o negócio”. Na BAUn, são bens comuns de interesse difuso. O espaço, para a BAU, é o mercado, com economia de escala, monopólio, aquisições e fusões. Nela, o concorrente é para ser superado, vítima da competição cumulativa a curto prazo. Para a BAUn, os princípios são de longo prazo, o mais importante é o Planeta, a extensão da base da pirâmide, affordability, a cadeia de valor, comunidade e a justiça social. São as parcerias estratégicas, a associação interinstitucional e as novas formas de negócios.
A BAU se preocupa com o máximo retorno do Capital, tem seu foco no crescimento continuado e Bottom Line Financeiro. A BAUn busca criar valor para as partes envolvidas, com foco na melhoria compromissada com desmaterialização e detoxificação integradas aos ganhos econômicos.
O retorno, na BAU, é o de curto prazo, e deseja-se que seja alcançado por meio da redução de custos por unidade de produção, aumento do valor do produto, por uma margem de lucro mais alta, pelo aumento dos níveis de vendas e por ganhos na diferenciação de produtos. A BAUn busca por conservação do caixa financeiro, sem desprezar a melhoria das condições de consumidores e das outras partes.
A BAU preza a marca, o conhecimento do consumidor e o investimento de impacto para gerar ganhos financeiros. Na BAUn, prevalecem a imagem, a reputação e o conhecimento da comunidade. A BAU reforça estruturas rígidas, inspiradas em medição, controle e na redução de usos e despesas. A BAUn promove o empreendedorismo natural, a cocriatividade, a flexibilidade e gestão do conhecimento.
O processo produtivo da BAU é aberto, baseado em extrair recurso, aquecer, modificar, transportar, consumir, despejar restos, sem considerar a capacidade de carga. A tecnologia é desenvolvida para que se possa produzir mais, e com maiores ganhos de eficiência. Na BAUn, o foco é no fechamento de ciclos (a “economia circular”), seus gestores estão comprometidos em tomar recursos emprestados, usar, prestar serviços e devolver matéria-prima. Para a BAU, o produto (com qualidade superior e funcionalidade) deve atender e dar prazer ao consumidor, com diversidade e mesmo com a não-necessidade. Na BAUn, o produto é desenvolvido para atender as necessidades reais.
(*) João S. Furtado – falecido em 3 de janeiro de 2016.
Um grande amigo e defensor das causas que acredito.

Empreendedor Social = Empresário + Missionário

– 17 de janeiro de 2016
Luis Felipe Nascimento (*)

Empreender, criar seu próprio negócio, é uma atividade que ocorre por necessidade ou por opção. Muitas pessoas, quando perdem o seu emprego, criam o seu próprio negócio. Outras, largam um bom emprego para criar o seu próprio negócio. Atualmente, muitos jovens universitários, inteligentes, com possibilidade de fazer carreira em grandes empresas, estão optando por empreender, mas de uma forma diferente, estão se tornando “empreendedores sociais”. O que leva esta galera a seguir este caminho? E afinal, o que é mesmo ser um “empreendedor social”?
Pois então, o “empreendedor social” tem um perfil diferente dos empreendedores que conhecemos, ele é um “emprenário”, uma mistura de “empresário” com “missionário” (definição nossa, não leve a sério). Parece um empresário porque aplica técnicas de gestão, é criativo, ambicioso, persistente e faz o negócio dar lucro. E parece um missionário porque faz tudo com amor, se dedica a ajudar a quem mais precisa e as causas socioambientais. Torna-se defensor de uma causa e quer mudar o Mundo.
Os empreendedor social cria um “negócio social”, que se diferencia de uma empresa tradicional e de uma ONG. O negócio social precisa “dar lucro” para se manter em operação, mas diferentemente dos negócios tradicionais, mais importante do que o lucro, é o propósito do negócio. Um exemplo de negócio social foi implantado na Índia, onde um empreendedor social desenvolveu uma “mochila térmica” que permite levar os bebês nascidos prematuramente em comunidades afastadas, até um hospital que tenha uma incubadora neonatal, salvando a vida destes bebês. O empreendedor precisava vender as mochilas para produzir mais mochilas. A solução foi “alugar/vender mochilas” para as comunidades, onde todos ajudam com um pouquinho, garantindo assim a sobrevivência dos seus filhos, ou dos filhos dos vizinhos. Em projetos como este, nem sempre são os beneficiados que pagam os custos, mas alguém que apoia o projeto. Um negócio social se diferencia de uma ONG, pois estas geralmente recebem doações e não precisam recuperar os investimentos feitos nos projetos sociais.
O termo “negócio social” foi divulgado pelo Prêmio Nobel da Paz Prof. Muhammad Yunus para definir uma empresa criada para resolver um problema social. Na concepção de Yunus, um empreendedor deve investir para criar um negócio social e, quando este negócio começar a dar lucro, ele terá o direito de recuperar o seu investimento. Mas, depois disto, todo o dinheiro que sobrar (lucro), deverá ser reinvestido na melhoria ou na ampliação daquele negócio. Ou seja, o empreendedor receberá o seu salário, mas não poderá ficar com o lucro. Este não é o entendimento de outros empreendedores sociais, que entendem que podem sim ficar com o lucro, desde que mantenham o propósito do negócio.
Há quem diga que isto é um modismo, ou apenas uma fase desta gente nova, e que no futuro eles irão amadurecer e querer ganhar dinheiro. Vale perguntar: “por que as pessoas querem ganhar dinheiro e sonham em ficar milionários?” Provavelmente para ter uma vida luxuosa, para poder viajar e, mais do que isto, estas pessoas querem ser reconhecidas e admiradas pelas demais. Por um outro caminho, estes objetivos são alcançados pelos empreendedores sociais. Eles não se tornam milionários e nem tem uma vida luxuosa, mas podem ter uma vida confortável, viajam pelo mundo e, por fazerem o bem, conquistam a admiração e o reconhecimento da sociedade.
Os negócios sociais não estimulam o consumismo, a geração de lixo, desperdício, e as tantas coisas que estamos acostumados a ver. Portanto, o empreendedorismo social não é um modismo, mas uma forma de usar o trabalho, a criatividade e a energia destas pessoas para ajudar quem precisa e para desenvolver projetos socioambientais. Em resumo, é uma forma de dar sentido a vida e de ser realmente feliz.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

É fácil ser um empreendedor social! #SQN

– 17 de janeiro de 2016
Bruno Bittencourt (*)

Melhorar os índices da educação, promover a geração de renda em comunidades carentes e revitalizar espaços públicos sempre foram temas que me empolgavam. Trabalharia com isso se fosse possível. O que me impedia é que além de querer fazer o bem, eu também queria ter um mínimo de conforto e pagar as minhas contas no final do mês. Entre fazer o bem e ganhar dinheiro, eu queria os dois.
Em 2013, no meio das manifestações nacionais em que as pessoas foram para as ruas pedindo mais segurança, saúde e educação, o meu lado “mudar o mundo” bateu mais forte. Nessa época, tive o convite de uma pessoa muito especial para participar no desenvolvimento de uma solução de transformação social que partia de uma escola de lideranças em comunidades carentes. Nascia a Escola Convexo. Não era trabalho voluntário, filantropia ou ONG, era um Negócio Social.
O negócio social é um conceito ainda bastante recente que foi difundido pelo indiano Muhammed Yunus. O economista ganhou prêmio Nobel da Paz de 2006 com um negócio social, um modelo de negócio que é autossustentável financeiramente resolvendo problemas sociais. Com isso, senti que seria muito mais fácil mudar o mundo.
O primeiro ano foi o ano do sonho. Queríamos muito FAZER. Vontade de mudar o mundo ou ideias maravilhosas, todos têm, queríamos fazer algo que tivesse um impacto real. E assim foi. Depois de um mês da ideia, já estávamos dentro de uma comunidade carentes prototipando nossa solução. Foi um misto de “ai que medo” com “eu sou f@#*e vou mudar o mundo”. Ao todo foram quase dois meses testando e validando o que havíamos construído com muito post-its e rabiscos. No final da experiência, as nossas lindas métricas e indicadores acabaram não sendo mais importantes do que os depoimentos e carinho que recebemos da direção da escola, professores, pais e alunos. Tinha dado certo, agora seria ainda mais fácil.
Não foi. Precisávamos fazer toda aquela emoção virar um negócio que fosse sustentável financeiramente. Para isso, envolvemos várias pessoas, criamos materiais, trouxemos uma referência educacional do outro lado do oceano para fazer o lançamento do projeto, mas no fim, não estávamos nem perto do que precisávamos para rodar no próximo ano. Nesse momento, o nosso lado racional do empreendedor foi tomado pelo emocional do agente de transformação e acabamos nos endividando para fazer esse negócio acontecer. Com esse dinheiro inicial, tudo seria mais fácil.
Não foi. O segundo ano foi de erro e aprendizado. Precisávamos não só estruturar a operação de um negócio inovador, como também, explicar esse novo conceito para as pessoas. Era complexo entender que é possível fazer o bem com um negócio. Eram muitos questionamentos do tipo: tem como descontar do imposto? Mas não é uma ONG? Humm, então é uma associação? Como assim, vocês ganham dinheiro em cima das criancinhas? Nem mesmo quando entendiam que era um negócio, as perguntas cessavam: mas qual vai ser a tua receita no próximo ano? Quanto de retorno sobre o investimento esse negócio vai gerar? Ah, então tu tá brincando de empreender, é isso? Foi um ano difícil, contudo já estávamos sendo reconhecidos pelo nosso trabalho e a transformação social naquela comunidade já era uma realidade. Assim como a falta de dinheiro, mas a esperança de que no próximo ano fosse mais fácil ainda estava viva.
Fácil não foi. O terceiro ano foi o ano da monetização. Foi um ano de muito trabalho. A operação começou a rodar sozinha e o reconhecimento chegou a proporções nacionais. As pessoas já conheciam a Convexo antes mesmo de nós apresentarmos. Inovamos, começamos a atender outros públicos e perceber que a escola era apenas o ponto de partida para a transformação social que pretendíamos realizar. Uma região já era pouco, sentíamos que devíamos promover esse desenvolvimento em outras localidades também. E não éramos só nós que pensávamos isso. As pessoas também queriam e começaram a pagar pelos nossos serviços. Começamos a ganhar dinheiro e perceber que essa solução de mundo também teria uma boa sustentabilidade financeira. Como serão os próximos anos? Só temos uma certeza: não serão fáceis. Temos ainda muito trabalho pela frente. Contudo, não existe dificuldade que interfira na satisfação de ser um empreendedor social e de percorrer o mesmo caminho como profissional e como agente de transformação.
(*) Bruno Bittencourt é Empreendedor Social e doutorando no PPGA/EA/UFRGS
Contato: brunoabittencourt@gmail.com

Os seus segredos lhe fazem mal?

– 10 de janeiro de 2016
Luis Felipe Nascimento (*)

Você tem segredos? Fiz esta pergunta para alguns amigos e as respostas foram: “Eu? Como assim? Segredo? O que você quer saber?” Não se tratava de querer saber os segredos dos outros, mas de saber como estas pessoas se relacionam com os seus segredos. Houve quem dissesse que não tem segredos, e outros que disseram que sofrem por causa dos segredos. Bem, não é “segredo” que gosto de compartilhar reflexões sobre temas polêmicos. Me acompanhe até o final deste texto, e eu lhe contarei um segredo.
Entre as definições de “segredo” que encontrei nos dicionários está “processo ou assunto apenas conhecido de um ou poucos indivíduos”. Portanto, o segredo não precisa ficar só com uma pessoa, pode ficar com “poucos indivíduos”. O segredo pode ser sobre qualquer aspecto da vida. Pode ser um amor escondido, um desejo não revelado, uma traição a alguém ou a nossa consciência. Perguntei se existe segredo bom? Me disseram que sim! Se você ganhar na loteria e não contar para ninguém, terá um segredo bom. Parece que o “segredo bom” é de curta duração, se revela mais rapidamente. Seria como “tenho uma novidade, mas não posso contar!”. Já o “segredo ruim” é aquele que tentamos levar para o túmulo, mas quando ele nos sufoca muito, contamos para alguém.
A literatura, a TV e o cinema exploram situações em que uma criança, acidentalmente, presencia uma cena de crime, ou mesmo uma cena de amor, e se torna prisioneira desse segredo. A consequência disto é que ela passa a ser ameaçada, perseguida, ou até morta, para não revelar esse segredo. O que seria mais difícil, guardar um segredo nosso ou dos outros?
Parece que temos a necessidade de compartilhar nossos segredos com pelo menos uma pessoa. E como escolhemos esta pessoa? Geralmente as pessoas não contam o seu segredo para o melhor amigo, ou para quem elas mais confiam. Elas contam o segredo para um desconhecido, ou para quem não está próximo das pessoas e fatos relacionados ao segredo. O contar o segredo é muito mais um “ato de desabafo” do que uma tentativa de resolver um problema.
E quem seriam as pessoas que mais sabem segredos dos outros? O padre? O psicólogo? O médico? Ou a manicure? Tive uma amiga que não era nada disto, mas sabia os segredos de todos da turma. Ela era uma pessoa muito boa e confiável. Quando alguém tinha um segredo, se sentia seguro em contar a ela. Uma vez lhe perguntei quantos segredos ela guardava, mas nem isto ela revelou! Quando ela dava um conselho para alguém, eu ficava desconfiado que aquilo estava relacionado com algum segredo que lhe contaram.
Agora me diga, como você reagiria se alguém disser que vai lhe contar um segredo muito importante? Pediria para que não lhe conte? Ou diria para esta pessoa que pode confiar em você? Guardar um segredo importante pode causar, ao mesmo tempo, stress e uma sensação de poder. Será ainda mais difícil se este segredo estiver relacionado com uma injustiça que, se você o revelar, fará justiça. Neste caso, você o revelaria?
Segundo um especialista, as leis permitem que, em legítima defesa, a vítima mate a agressora. Uma pessoa pode matar a outra, mas não pode torturá-la para arrancar um segredo. Nos casos de tortura, o torturador tenta quebrar a resistência psicológica do torturado até conseguir arrancar o segredo. Quando consegue isto, o torturado perde sua importância. O próprio torturado se sente um “trapo”, preferiria ter morrido. Nestas situações, o segredo é mais importante do que a vida dessa pessoa.
Acredito que todos nós temos segredos, sejam eles os nossos pensamentos, desejos ou fatos que não queremos revelar. Além dos nossos, guardamos segredos dos outros e, não os revelamos porque respeitamos essas pessoas. O segredo que eu tenho para contar é que … me disseram que… não sei se posso …, mas vou revelar somente para você: “quanto menos segredos próprios você tiver, mas livre e mais feliz você será!”
Obs: Agradeço a todas as pessoas com quem conversei e que subsidiaram a construção deste texto.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Sobre “Amores que cuidam”…

– 10 de janeiro de 2016
Fá Fleck (*)

Corria o ano de 1971… Eu, uma adolescente de 14 anos, totalmente fora dos padrões da época. Cabelos curtinhos, bermudão, camiseta polo e uma bola de vôlei. Estudava em colégio de freiras, concluindo o ginasial. Cheia de planos, defensora dos fracos e oprimidos, tinha a fama de briguenta e por isso mesmo, era sempre chamada pra defender quem sofria algum tipo de agressão seja física ou moral. A filha do meio do gerente do Banco do Brasil, transitando entre aqueles ditos “amigos” da sociedade hipócrita da época e pessoas amigas, que realmente mereciam serem assim chamadas.
Em cidades do interior, quem tinha maior status era o Prefeito, o padre e o gerente do B.B. Dos três, o único que fugia a regra do poder do mando e do desmando era meu pai. Talvez por isso, na visão da maioria das pessoas, as minhas amizades deveriam ser politicamente corretas. Mas comigo isso nunca funcionou. Sempre gostei dos à margem daquela sociedade babaca. Meu Pai e minha mãe eram assim como eu e por isso sempre apoiaram a filha dita “diferente”.
Pois a história que vos conto, é desta menina diferente, que se apaixonou por um cara, que diziam…vejam bem: “diziam” os donos da verdade, ser maconheiro, drogado, pobretão, bem da ralé mesmo.
Todos os dias, por mais de um ano, ao meio-dia, quando a sineta da escola tocava, o coração parecia querer saltar pela boca, pois era a hora de encontrar o Meu “Muca”.
“Muca” pra quem viveu nessa época, era o diminutivo de “muquirana”, que significava na gíria, um pé de chinelo.
Saíamos sempre, eu e mais três amigas de uniforme da escola. Saia plissada milimétricamente abaixo do joelho, na cor azul marinho, camisa branca, meia branca até os joelhos e sapato preto.
Mal dobrávamos a esquina e lá ia a saia pra cima do joelho, toda enrolada na cintura! Ha ha ha ha. Ao entrarmos na rua do comércio (a rua principal da cidade), encostado na parede, de cigarro na boca, cabelos compridos, sempre com aparência de sujos, camisa branca, calça jeans e tênis. Ele! O meu MUCA! Ele e mais dois amigos. Sempre os três. Acredito, que na época, deveriam ter uns 25 anos.
Eram indescritíveis os segundos que levavam a nossa passagem. Eram mágicos. Ele sorria pra mim de um jeito especial. Seus olhos escuros, eram tristes, mas brilhavam. Às vezes balbuciava algo, que eu nunca conseguia entender. Todos, seus dois amigos, minhas três amigas, todos se calavam… Ninguém dizia nada, aqueles risinhos de meninas adolescentes em situações como essa, nunca existiram. Só se escutavam as batidas dos nossos corações. Por uns breves instantes aquela esquina era coberta de magia. Todos nós sentíamos isso.
Jamais vou conseguir entender o que acontecia as 12 horas e 15minutos em uma esquina daquela cidadezinha. Éramos de mundos tão diferentes. E naqueles breves momentos, o mundo tornava-se um só.
E assim seguiam-se os meses… A cidade toda sabia. Era um “disse me disse”! – A Fatinha e o seu muca. Mas que barbaridade! Com tanto menino querendo pedi-la em namoro! (Se na época existisse a chata da Kely Key e sua musiquinha, com certeza eu cantaria: Tô nem aí, tô nem aí… kkkk)
Ele nunca se aproximou. Quando em certas ocasiões eu passava sozinha, ele parecia ter medo. Baixava a cabeça, nos olhávamos pouquinho. Receosos.
Anos mais tarde, já adulta, compreendi, que ele quis me proteger. Fugindo de uma aproximação. Era tão grande aquele amor que sentíamos, que tanto eu como ele sabíamos, que bastaria um gesto, uma palavra e ficaríamos juntos. Ele não quis. Ele sabia as consequências daquilo tudo.
Mas eis que, no final deste ano, como sempre acontecia, de surpresa, em função da sua profissão, meu pai, nos comunicou que havia sido transferido para a Agência do Banco do Brasil de Blumenau, em Santa Catarina. O comentário geral da cidade era a nossa partida. Em uma semana partiríamos.
Eu já estava de férias e aquela semana não o vi. O peito doía. Pela primeira vez na vida, eu sentia a falta de alguém.
Queria vê-lo antes de partir. Meus olhos pediam aqueles olhos tristes escuros. As mãos longas sempre com o cigarro à boca. (Ah! A boca era grande, bonita. O corpo magro, meio encurvado. O jeito de mexer a cabeleira. E aquele olhar que me levava pra mundos desconhecidos…
Na noite anterior a nossa partida chovia muito. Lembro da minha sombrinha pequena e colorida. Meu tênis Bamba, bermudão e as joelheiras sempre nos tornozelos, porque o vôlei era um vício diário.
Voltando do último treino, quase noitinha, pisando nas poças d’água, lá ia eu, com o coração apertado. Passinhos pequenos… Eu senti que ia ser assim, que naquele próximo instante, no meio de toda aquela chuva iria encontrá-lo em alguma esquina. Uma quadra antes da minha casa, senti alguém se aproximando por trás. Era ele sim.
Seu guarda-chuva preto, enorme, cobriu a minha sombrinha e ali estava ele, quase roçando meu corpo. Os olhos pretos , naquela dia, estavam mais tristes … Ele me olhou… Eu ouvia sua respiração. Sentia seu cheiro. Seu corpo tremia tanto que a cada batida do (meu/seu) coração ele tocava-me. Eu podia escutar seu coração batendo descompassado. Como se nossos corpos fossem um só coração.
Não sei quanto tempo se passou. Nunca quis saber… Se foram horas ou segundos. Só sei que foram momentos eternos. De repente seus lábios moveram-se e aquelas três palavrinha mágicas: EU… TE… AMO… foram despejadas em mim. Eu não ouvi som nenhum, só li os seus lábios. E das suas mãos algo, parecido com um papelzinho surgiu e foi parar nas minhas mãos. Quando sua mão tocou a minha de leve, uma descarga elétrica cruzou todo o meu corpo. Fechei os olhos, porque não sabia o que fazer com tudo o que estava sentindo. Fechei os olhos, numa forma desesperada de guardar aquilo tudo. Pra sempre.
E quando os abri, vi ele se afastando, ele e o guarda-chuva preto. Fiquei ali parada, olhando-o ir… até perde-lo de vista. Quando olhei para o que tinha nas mãos, descobri uma foto 3×4, em preto e branco. E atrás escrito: – Meu nome é Marcos.
Fui embora no dia seguinte. Nunca mais o vi. Voltava sempre à Cruz Alta nas férias, perguntava por ele. E todos diziam que havia ido embora da cidade.
Ainda guardo a foto. E sempre que a olho, soletro seu nome. Ainda lembro deste amor bonito. Foi esse amor, que me trouxe tantos outros. Foi esse amor que tornou-me a mulher que sou hoje. Foi esse amor que me faz lembrar sempre, que amores revestidos de delicadeza existem sim… Amores assim, me fazem sempre lembrar, que um dia fui muito amada e que nunca vou aceitar menos que isso. NUNCA!
(*) Fátima Fleck é Engenheira
Contato: fafleck@yahoo.com.br

Tudo isto aconteceu em 2015 !

– 3 de janeiro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)

Assisti e li várias retrospectivas do que ocorreu em 2015. Mais de 90% dos destaques eram de más notícias. Alguém poderá dizer: “Como não estar desanimado num ano que teve PIB negativo, desemprego, escândalo da Petrobras, tragédia de Mariana, atentados em Paris e violência por todo lado. Como não estar pessimista diante das previsões para 2016?”. Tudo isto nos afetou, mas não foi só isto que ocorreu. Estamos olhando para onde querem que olhemos. Precisamos olhar para outro lado, para outras coisas que aconteceram.
Conheço algumas pessoas que terminaram 2015 felizes da vida porque superaram um problema grave de saúde e por estarem vivas, estão cheias de esperança e otimismo. Conheço outras que estão felizes porque foram aprovadas num processo de seleção difícil. Tem as que estão felizes porque logo vai nascer o seu bebê. Embora sejam afetadas pelas consequências de um PIB negativo e todas as desgraças de 2015, isto não diminui a sua felicidade destas pessoas, e as previsões pessimistas não afetam a sua expectativa de que 2016 vai ser um ano muito bom.
Certa vez conversei com um agricultor e perguntei se ele estava muito preocupado com a seca que estava fazendo naquele ano. Ele disse que não, pois sabia que num período de 10 anos, teria umas 3 boas safras, umas 3 safras ruins e umas 4 mais ou menos. Quando a safra era boa, ele fazia uma poupança para não ter dificuldades no ano da safra ruim, e assim ia levando a vida, sem stress. Não há seca e nem safra boa todos os anos.
A economia capitalista funciona mais ou menos como a agricultura. Ela tem um período de crescimento e depois um período de crise. São pequenas ondas, e de tempos em tempos, uma grande onda de crescimento seguida por uma queda brusca. Estas ondas são provocadas por conflitos políticos, tragédias ambientais ou pela própria irresponsabilidade dos investidores. Basta olhar a história recente para entender as crises econômicas provocadas pelo “choque do petróleo” em 1973 e 1979. Depois teve a Guerra do Golfo em 1990. Em 2001 teve o estouro da bolha da internet. Em 2008 foi a vez de estourar o setor imobiliário americano, causando uma crise mundial. No Brasil não é diferente! A crise de 2015 vai passar, virá um novo período de crescimento econômico e depois… nova crise econômica! Então, por que se estressar com algo que é passageiro?
Parece que a notícia ruim dá mais IBOPE do que falar das coisas boas que aconteceram. Em 2015 tivemos: A COP 21 que ocorreu em Paris – a convenção que discutiu como limitar o aumento da temperatura no Planeta. Esta COP foi uma reviravolta histórica e conseguiu um acordo de 195 países, inclusive os EUA. A Encíclica Verde e a postura do Papa em relação as questões sociais está sendo uma esperança de mudanças. Depois de 54 anos, Cuba e EUA reataram relações em 2015. Na Arábia Saudita, que é um país com forte influência sobre o mundo árabe, pela primeira vez na história as mulheres puderam voltar e serem votadas. A prisão de empresários poderosos, de políticos corruptos e de gente com muito poder, é um fato inusitado na história do Brasil. Na área da pesquisa tivemos enormes avanços. Depois de 30 anos, foi descoberto um novo antibiótico (teixobactina) que não causa efeitos colaterais e combate micro-organismos resistentes aos antibióticos de hoje. Isto tudo ocorreu em 2015.
Se analisarmos as nossas vidas em 2015, certamente constataremos que muita coisa boa aconteceu. Olhando as minhas fotos de 2015, resolvi montar um clip para não esquecer das tantas coisas boas que recebi e compartilhei com os amigos e familiares (veja em https://youtu.be/9YlPyXPWaS0) Por tudo isto, penso que não podemos nos abater com as manchetes dos jornais e nem com as previsões catastróficas para 2016. Vamos fazer as coisas boas acontecerem e acreditar que o somatório destas pequenas ações será capaz de mudar o Mundo. Vamos fazer um 2016 do jeito que a gente quer. Um abração.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Clip de “Tudo isto aconteceu em 2015” – clique em https://youtu.be/9YlPyXPWaS0

Necessidades & Mudanças

– 3 de janeiro de 2015
Cleber Dutra (*)

Ao ler este título, você deve estar se perguntando “o que este tema pode ter de interessante para uma coluna?”. Faz sentido pensar que, quem lê uma coluna em um “site” ou num “blog” provavelmente busca algo divertido, próximo ao cotidiano ou excêntrico ao dia-a-dia, mas atrativo para seu interesse pessoal. Talvez seja ideal que o texto combine todas estas características e algumas outras também atraentes. Cabe aqui, então, uma breve explicação para a escolha deste assunto.
Escolhendo um tópico que contribuísse para a coluna do Felipe, me pareceu que este tema fosse útil por algumas razões. Primeiro, por questões pessoais, todos temos, pelo menos em alguns momentos de nossas vidas, uma aspiração por melhorarmos numa qualidade ou por atingirmos um patamar mais elevado em algo pessoal. Isto pode ser visto como uma “necessidade”, já que se sustenta por um desejo íntimo por algo que não se “tem” ou não se “é” ainda. E tem também um apelo para “mudança”, porque a realização deste desejo implica em uma transformação de algo, para que passemos a ter ou ser o que aspiramos. Pelo aspecto das razões sociais, seres humanos têm insatisfações com o meio em que vivem e de todos os tipos. Se chegamos aonde estamos, como Humanidade, tanto tecnológica, quanto culturalmente, foi por termos “algo” nos incomodando, desde o tempo em que vivíamos “nas cavernas”. A lista de necessidades para aquela época seria enorme, comparada com os padrões que temos na vida urbana média de hoje. Uma enquete sobre “há algo que você acha que não está bom no seu dia-a-dia?” teria, em várias sociedades do mundo, uma resposta afirmativa. Então, queremos “mudar” algo em nosso meio e, se sim, tem-se aí uma “necessidade”. Por fim, há razões globais para pensarmos em “Necessidades & Mudanças”. Basta acompanharmos noticiários para lembrar debates como os que ocorreram na Rio+20, quando se discute os riscos de um colapso dos recursos do planeta.
Nesta ótica (das razões planetárias), vejo ocasião para expor um pouco sobre meu interesse pelo tema e meus porquês pela escolha. Venho ocupando-me com a questão da Sustentabilidade há algum tempo e, nesta vivência, entendi a “necessidade” de estudar sobre “mudanças” que precisamos realizar, se quisermos “sobreviver”, como gênero, no planeta. Este não é, porém, um texto de teoria no assunto, mas um apanhado de reflexões pessoais “semi”-descompromissadas. Destaco o “semi”, porque, de fato, não deixo de ter um “interesse pessoal” nesta mensagem, que resumiria em, pelo menos, “querer um mundo melhor”. E isto implica em “Mudanças”.
Se pensamos sobre os 3 níveis (pessoal, social e global) das razões de interesse pela mudança, há algo em comum como raiz dos movimentos de transformação, que caracteriza a necessidade e impulsiona as transformações. Crises. Estados “críticos”, em qualquer situação, suscitam energias que atuam, em maior ou menor intensidade, para instigar mudanças. Em uma reflexão bem generalista, vemos a “Busca de Equilíbrio” como uma lei universal. Volto às minhas aulas de Termodinâmica (parte de minha formação é em Química) para lembrar das forças que agem para equilibrar estados instáveis de sistemas termodinâmicos. Assim, num ato de Senso Comum, é possível enxergar que “crises” geram “necessidades” de “mudanças”, sejam elas individuais, sociais e/ou globais.
Há claros sinais de “crise” no momento atual. Não cabe, neste espaço reduzido, detalhar esses estados críticos, especialmente os individuais. Contudo, vários fóruns e meios de comunicação anunciam nossos desequilíbrios, como pessoas, sociedade e planeta. Criminalidade, epidemias e doenças de diversos tipos, convulsões políticas e sociais, catástrofes climáticas ocupam boa parte dos noticiários. Parecem não faltar crises como fatores nucleadores de forças transformadoras.
Entretanto, a percepção da “necessidade” é embotada em diversos indivíduos e sociedades, dependendo da cultura destes. Com a ênfase cultural para o “material”, nossos valores orientam nossa percepção do urgente para aquilo que se avizinhe do financeiro. Em termos de Política, por exemplo, o mundo exercita seu pensar como “custo”. Como exemplo, o assunto das Mudanças Climáticas não teve tanto impulso na discussão internacional até o lançamento do Relatório Stern — falava-se ali sobre “quanto ia custar” para os países. Há o dito popular, quando se trata do indivíduo, referindo-se à percepção para mudar, do aspecto “quando dói no bolso”, para destacar o fator que desperta o entendimento da “necessidade”.
Entre o “entendimento” e a “ação”, porém, há quase sempre uma enorme distância. Somos caracterizados pela “acomodação”, pelo comodismo. Apesar de compreendermos a necessidade da mudança, e às vezes até argumentarmos, defendermos e promovermos certas mudanças, nem sempre as realizamos em nós mesmos. Quando se fala em necessidade de mudanças, raras são as ocasiões em que a tônica do discurso não se dirige para mudar “o outro”. Creio que este é um ponto em todos precisamos refletir com mais atenção.
Talvez seja até uma das razões para a escolha deste tópico, considerando a dificuldade que temos para lidar com ele, assim como o momento grave pelo qual passamos como Humanidade. Se não nos melhorarmos nesta questão, certamente seremos “encorajados” a nos mover pela ação da lei universal natural de “Busca de Equilíbrio”, comentada sobre a Termodinâmica, tão logo o estado crítico em que nos encontramos se intensifique. Isto significará, no entando, estado elevado de “incômodo”, o que pode corresponder a sofrimentos extraordinários.
Ao encerrar estas linhas, podemos pensar no agravante indicado pela sabedoria popular, que nos compara — como seres humanos — à situação do sapo cozinhando na panela. A percepção do perigo crescente (e da necessidade de agir, enquanto ainda não se atingiu um estado crítico irreversível) vai se acomodando até o momento em que “é tarde demais”. Mas esta conclusão do texto parece-me drástica como contribuição para o propósito a que se destina. Assim, a nota final que quero registrar nesta mensagem é de caráter mais edificante. Como ser humano, há sempre uma tônica de esperança quando refletimos sobre nossa história e pensamos em exemplos que nos provam que o difícil não é impossível. Talvez o melhor exemplo recente que temos disto é o da revolução pacífica empreendida por Gandhi pela independência da Índia, algo que poderia até nos parecer “impossível”. Contradizendo a nossa “tendência normal” — como comentado há dois parágrafos —, Gandhi nos recomendava, “se quisermos mudar algo no mundo, comecemos esta mudança em nós mesmos”.
(*) Cleber Dutra é Professor visitante na Technische Universitaet Berlin – Alemanha
Contato: cleber_dutra@yahoo.com.br

No Natal da sua família – acontecem estas coisas?

– 27 de dezembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)

No feriado de Natal algumas pessoas viajam, outras fazem um retiro espiritual, mas a maioria segue o padrão tradicional de reunir a família, comer o peru, dar e receber presentes. No Natal as pessoas ficam mais tolerantes, e o que não aconteceu durante o ano, pode acontecer na noite de 24 de dezembro, porque é Natal!
O Natal começa com a preparação da ceia, que varia de uma família para outra, mas sempre tem peru. É preciso saber quem vai estar presente, se vai ter ou não amigo secreto, quem leva o quê? A seguir, confira se estas coisas acontecem no Natal da sua família.
Preparação para a noite de Natal – são feitas coisas que não se fez ao longo do ano: limpezas e arrumações na casa, conserto da cadeira, troca da cortina, ….. É preciso assar o peru, preparar mais isto e aquilo, comprar os presentes, decorar a casa, organizar as caronas, definir onde a tia, que virá de longe, vai se hospedar? O fulano já avisou que vai beber e que não vai dirigir. A Beltrana vai passar antes na casa da mãe dela e vai chegar atrasada. O Cicrano vai ter que sair mais cedo para ir na casa da sogra. Qual a melhor hora para fazer a entrega dos presentes? Tudo isto exige um planejamento minucioso e deixa exausto quem organiza a festa do Natal. Algumas destas pessoas chegam na hora da ceia tão cansadas, mas tão cansadas, que o seu maior desejo é que acabe logo a ceia para poder levantar as pernas, descansar e dormir.
Na ceia – mesmo que cada um contribua com de alguma forma, algumas pessoas trabalham bem mais do que outras. Tem o grupo dos que servem e o dos que são servidos. A maioria entra, come, bebe e sai sem saber quem preparou tudo aquilo. Mas ninguém reclama, pois é Natal!
Convidados – A reunião da família não discrimina ninguém, afinal, Natal é Natal. Sabe a cunhada, aquela que você não falou nenhuma vez com ela ao longo do ano? Sim, aquela mesmo! A que mora na mesma cidade que você, que sabe o dia do seu aniversário e o número do seu telefone, mas nunca lhe ligou ou mandou mensagem. Pois é, ela vai aparecer na sua casa e vai lhe desejar um “Feliz Natal”. Não diga nada, afinal, hoje é Natal!
Rola um stress – nas ceias que reúnem muitas pessoas, algumas vezes o espírito de fraternidade é esquecido e rola um stress entre alguns membros das famílias. Coisa pouca, pode ser pelo copo de bebida derramado no sofá, pelo atraso de alguém ou por uma briga de um casal, que começou na casa deles e continua na ceia. Conflitos estes que são contornados com a intervenção dos avôs ou de alguém com a habilidade de mediar conflitos justificando: “não briguem, hoje é Natal!” Pronto! Falou “Natal”, os ânimos se acalmam.
Conversas – se nem todas as pessoas conviveram ao longo do ano, ou se pouco se conhecem, sobre o que mesmo que elas conversam? Geralmente se formam grupos com diferentes pautas. Há os que falam de economia e política, os que falam dos filhos, os que trocam receitas ou falam das ofertas do shopping, e tem ainda os que estão na sala, mas isolados, lendo e mandando mensagens no seu celular. Tem o adolescente que acho tudo isto “boring”. Uma TV ligada costuma resolver o problema dos que não querem conversar. E quando tem crianças, a agitação fica maior ainda. Elas correm, quebram alguma coisa e tomam a atenção dos pais, dindos e avós. Vez que outra, tem uma briga entre as crianças. A briga gera uma nova pauta. Há o que acham que os pais não colocam limites para o fulaninho. Outros dizem que a culpa é da escola, que é muito liberal. Quando os pais do fulaninho estão por perto, se evita comentar o fato, pois hoje é Natal!
Amigo Secreto – a crise econômica forçou que as famílias optassem por fazer o famoso amigo secreto (“amigo oculto” em algumas regiões), reduzindo assim as despesas com a compra de presentes. A lógica do Amigo Secreto é que cada um deve providenciar um (01) presente e receberá um (01) presente. Mais secreta do que esta atividade, são os presentes que rolam “no paralelo”. Ou seja, a mãe que dá um presente para a sua filha, ou a filha para a mãe, “por fora” do amigo secreto. Algumas vezes isto ocorre no dia seguinte, para não constranger os demais. Na noite de 24 de dezembro, tudo tem que estar, ou parecer, perfeito, pois é Natal.
Momento alto da noite – sem dúvidas que a reunião da família e a comida são atrativos, mas o momento alto da noite costuma ser a chegada do Papai Noel, ou a revelação do amigo secreto. Ou seja, a hora que todos interrompem as suas conversas, desligam a TV e largam o celular, para dar e receber presentes. Muitas fotos, brincadeiras, risos, que divertem uns e “quase” chateiam outros. Pode-se dizer que este é o momento em que se vive um pouquinho do que deveria ser o Natal, pois estão todos sintonizados, na mesma vibe. Nem sempre são todos, pois há os que estão loucos para que acabe logo a entrega dos presentes para poder comer, ou para cumprir outro compromisso: passar na casa da família da esposa, na casa da mãe/pai, levar os filhos na casa da mãe deles, etc. Por isto é que tem tanto trânsito na noite de Natal. Mas tudo isto é aceitável, pois é Natal!
Presentes – a regra do amigo secreto costuma estipular o valor mínimo e máximo para o presente. Algumas famílias estão adotando a prática do “compartilhar algo que já tenha em casa”, ou seja, em vez de comprar, as pessoas doam algo que já possuam em casa, ou algo que elas mesmo produziram. Comprado ou compartilhado, os presentes são simbólicos. Pode ser qualquer coisa, mas Natal sem presente não é Natal.
Fotos e Mensagens – hoje, com a possibilidade de compartilhar fotos nas redes sociais, podemos ver quem estava na festa de Natal do fulano, da beltrana e de gente que nem conhecemos. Obviamente, também podemos compartilhar o clima da nossa Ceia com o Mundo. Mostrar o pai vestido do Papai Noel, a criança com o brinquedo novo, a foto da família, a decoração da casa, o cão com o chapéu do Papai Noel. Na tarde e noite de 24 de dezembro os celulares ficam abarrotados de mensagens de Feliz Natal. Quem responder todas as mensagens, não terá tempo para conversar com os que amigos e familiares que estão presentes.
A pergunta que fica é: será que o Natal, como conhecemos hoje, vai continuar existindo por muito tempo? Será que os nossos netos vão manter estas tradições? Acredito que eles vão inventar uma nova forma de celebrar o Natal e a “reunião da família” será de 4 ou 5 pessoas, pois as famílias serão cada vez menores.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Querido Papai Noel

– 27 de dezembro de 2015 (**)
José Mauro C. Hernnandez (*)

Neste ano, eu não fui um filho tão bom. Nem tão bom pai. Para ser sincero, não fui nem tão bom marido nem tão bom amigo quanto meus amigos foram comigo. Me faltaram tempo e energia. Portanto, pensando bem, acho melhor não pedir nada neste Natal. Mas já que comecei esta cartinha, vou aproveitar para agradecer por todos os belos presentes que você tem me dado nestes Natais.
Você colocou grandes amigos na minha frente. Amigos que me ajudaram quando eu precisei, que riram comigo quando eu estava feliz, que me consolaram quando eu estava triste e que se deixaram consolar quando estavam tristes. E mesmo aqueles amigos que você me deu que não eram tão grandes amigos apenas me deram a chance de ser alguém melhor – mais paciente, mais tolerante, mais sábio.
Você me deu uma família maravilhosa. Pais que sempre estiveram ao meu lado, mesmo quando eu não estava ao lado deles. Uma esposa que me entende, me acalma quando estou desesperado, me ama quando estou triste e me afaga quando estou carente. Você me deu duas filhas cujo sorriso é suficiente para acabar com qualquer temor de que a vida não vale a pena. Todos eles aceitam o meu mau humor e o meu humor diferente. Melhor presente que este eu não poderia ter.
Você me deu uma saúde excepcional. Não tenho palavras para dizer quanto sou agradecido por conseguir andar, correr, jogar, subir, descer, pular, enxergar, ouvir, sentir e respirar – quando eu quero. E quando sinto uma dorzinha aqui ou ali sei que é para me lembrar de como será bom quando elas se forem.
Você me deu um grande trabalho que me deu grandes realizações. E se mais não consegui até hoje, não foi culpa sua. Talvez eu não tenha conseguido usar todas as capacidades que você me deu para fazer ainda mais. Neste trabalho conheci pessoas muito inteligentes que me deram boas lições e pessoas nem tão inteligentes que me deram as mais sábias lições. Você me deu grandes mestres e grandes alunos. De cada um deles consegui obter ensinamentos que carrego comigo todos os dias.
Você me deu mais viagens do que eu sonhei um dia viajar. Você me deu vinhos para alegrar o espírito e sabedoria para saber quando o espírito já estava suficientemente alegre. Você me deu mais dinheiro do que eu precisava gastar. Você me deu mais livros do que tive olhos para ler. Mais músicas do que consegui ouvir. Mais protestos do que consegui protestar. Você me deu alegrias, tristezas, sabores e dissabores na medida certa para moldar o meu espírito.
Você me deu grandes esperanças. Esperanças de que no ano que vem eu possa meditar mais, jogar mais tênis, fazer mais Yoga, escrever mais artigos, ler mais livros, viajar mais, ir mais ao cinema, passear mais no parque, contar mais histórias, aprender mais. Esperanças de que eu possa mudar o mundo.
Por tudo isto, Papai Noel, sou extremamente agradecido. Será que você não poderia usar seu mágico poder para dar tudo isto para as outras pessoas também? Às vezes sinto que falta entre os homens paz, sabedoria, compreensão, otimismo, coragem, fé, ousadia, paciência, solidariedade e tolerância. Por favor, encha o seu saco com muito de cada uma destas qualidades e espalhe-as nesta noite de Natal. Dirija seu trenó por todos os cantos do mundo e vá despejando o conteúdo do seu saco por onde passar. Não importa que as pessoas queiram presentes de verdade. Se elas tiverem a mesma sorte que eu, vão saber que estes são os mais lindos presentes que alguém pode receber.
Obrigado Papai Noel.
(*) José Mauro C. Hernnandez e professor na FEI – Sao Paulo.
Contato: jmhernandez@uol.com.br
(**) Reprodução do texto publicado nesta Coluna em 12 de janeiro de 2014.

Terceirizar a atividade-fim da sua vida

– 20 de dezembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)

Terceirização significa:
“Forma de organização estrutural que permite a uma empresa transferir a outra suas atividades-meio (as que não têm relação com a atividade principal da empresa), proporcionando maior disponibilidade de recursos para sua atividade-fim, reduzindo a estrutura operacional, diminuindo os custos, economizando recursos e desburocratizando a administração.”
Se alguém lhe perguntar: “qual é a atividade-fim da sua vida?”, o que você responderia? Provavelmente diria: ser feliz, viver bem, criar os filhos, cuidar das pessoas que ama, fazer o bem, etc. Na prática, algumas pessoas já estão terceirizando estas atividades.
Aprendemos com as empresas que terceirizar as atividades-meio (limpeza da empresa, fornecimento das refeições, transporte, etc.) reduz os custos, economiza recursos e desburocratiza a administração, logo, é um bom negócio. Com isto, a empresa pode se dedicar a sua atividade-fim, que é produzir e vender um bem ou serviço.
Algumas empresas implantaram uma terceirização mais radical e se transformaram em empresas virtuais. Elas não fabricam nada, mas vendem produtos. Como assim? Imagine um executivo que resolva criar uma marca de tênis, mas não quer se envolver com o desenvolvimento do produto, com o processo produtivo, distribuição, comercialização, etc. Então contrata um designer da Itália para desenvolver o produto, um fabricante de tênis no Brasil, que receberá a matéria-prima de um fornecedor chinês. Uma empresa alemã será responsável pela distribuição do tênis para as lojas ao redor do Mundo. O desenvolvimento da marca e a comercialização será feita por uma empresa francesa. A gestão financeira e administrativa será entregue para uma empresa americana. Para se livrar do trabalho de gerenciar a relação com todas as empresas terceirizadas, ele contrata uma empresa quarteirizada, que fará esta gestão. Ou seja, este executivo precisa apenas analisar os relatórios da empresa quarteirizada e tomar algumas decisões. Mas isto lhe toma tempo e gera preocupações, então ele resolve contratar, ou melhor, desenvolver um CEO (Chief Executive Officer) de sua inteira confiança, para assumir esta responsabilidade. Ele chega a conclusão que esta pessoa, de sua total confiança, teria que ser seu filho, pois assim seria o maior interessado no futuro da empresa, a sua herança. Mas ele não quer ter filhos. Pensou mais um pouco e resolveu então terceirizar a produção de um filho.
Após algumas reuniões com especialistas, definiu que o futuro gestor seria alguém com boa genética, bem educado, bem treinado para poder dar continuidade a este negócio. A conclusão foi de que o CEO ideal deve ter, a inteligência de um japonês, associada com a determinação e praticidade de um alemão. O executivo e seus assessores contratam então uma empresa para comprar o melhor espermatozoide alemão e o melhor óvulo japonês possível. Decidiram que a fertilização in vitro será feita num laboratório na França. O embrião fecundado será inserido numa “barriga de aluguel” de uma tailandesa, que será rigorosamente selecionada por uma empresa especializada, a melhor do mundo no ramo! Quando a criança nascer, será levada para uma creche na Califórnia, onde receberá toda a assistência possível. Terá babá, psicólogos, assistente social e demais especialistas para acompanhar o seu desenvolvimento. Ah! O nome também já foi definido, o bebê terá que ser um menino e se chamará “Charles Edward Oliver” e será apelidado carinhosamente de “Ceo”. Quando o Charles crescer, digo, o Ceo, irá frequentar a melhor escola dos EUA e depois fará o curso de direito Harvard, seguido de uma especialização em “internacional business” na Universidade de Stanford. Concluída a sua formação acadêmica, o “Ceo” (Charles Edward Oliver) receberá um treinamento na empresa do seu pai, digo, na empresa fabricante, digo, da empresa que contratou a quarteirizada que gerencia as terceirizadas que produzem, distribuem e comercializam a marca de tênis. Ele receberá o acompanhamento de outra empresa terceirizada, para que em alguns anos se torne o futuro “CEO” (Chief Executive Officer) da dita empresa.
Esta ficção não está muito longe de se tornar realidade. Já temos fertilização in vitro, já temos barriga de aluguel, já temos babás contratadas para cuidar os bebês noite e dia, motoristas para levar as crianças na escola e, mais recentemente, estamos vendo a terceirização do acompanhamento da educação das crianças. Algumas escolas estão reclamando que nas “reuniões de pais”, tem poucos pais. Ou seja, os pais estão mandando as babás e motorista para lhes representarem. Dentro em breve, será o motorista, ou a babá, que irá decidir qual a melhor escola para colocar o filho do patrão.
Já terceirizamos o trabalho, o cuidado dos idosos, dos filhos, estamos agora terceirizando as atividades de desenvolvimento intelectual. Um trabalho científico, que costumava ser desenvolvido por um aluno sob a orientação de um professor, hoje “pode ser” quase todo ele terceirizado. E assim sucessivamente, estamos terceirizando tudo o que é realmente importante na vida para ter mais tempo para o que mesmo? Para fazer coisas menos importantes. Em resumo, estamos terceirizando o sentido da vida. Talvez seja por isto é que muitas pessoas não veem sentido nas suas vidas!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Roteiro para conhecer um pouco de Porto Alegre

– 20 de dezembro de 2015
Maira Comerlato (*)

Comece pelo Mercado Público
Tonteante de tantos odores
Tempere com um cafezinho e misture
Seu olhar às bancas multicores

Prossiga na escada rolante
Para um visual ascendente
E de outros ângulos descubra
Cantos e recantos surpreendentes

De lá vá para o museu
Entrando bem de mansinho
Sentindo o sabor da arte
Mas não coloque o dedinho!

Suba e desça, desapareça
Pelos meandros do MARGS
Descubra escadas, sacadas
Que te fazem viajar

De lá, para o Memorial
É apenas um pulinho
E quanta coisa para ver!
Não sei se vou ou se fico
Mais um pouquinho…

Muito mais tem a cidade
Para alegrar o coração
Magia e mapa do poeta
Roteiro da paixão.

(*) Maira Comerlato é técnica administrative na Escola de Administração da UFRGS
Contato: maira1711@hotmail.com
Publicado em http://alfarrabios82.blogspot.com.br/2010/08/roteiro-para-conhecer-um-pouco-de-porto.html

Quando faço uma compra, não pago com dinheiro, mas com tempo da minha vida!

– 13 de dezembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)

Ao longo da história, o homem “ia as compras” para adquirir o que era fundamental para a sua sobrevivência e isto representava uma pequena parte do tempo. Com a chegada do capitalismo, “ir as compras” passou a ser um desejo, um divertimento e um modo de superar a depressão. Ganhar dinheiro passou a ser um “objetivo de vida”. Quanto mais dinheiro, mais poder de compra, mais produtos e … mais felicidade! Nesta trajetória, raramente associamos que o dinheiro é resultado do trabalho que alguém fez. Se este alguém for um de nós, saberemos exatamente “quantos dinheiros” recebemos por mês, por dia, por hora ou por minuto trabalhado. Portanto, podemos calcular quanto do nosso tempo trabalhado é necessário para comprar um determinado produto.
Teoricamente, se deixarmos de comprar um produto, poderemos reduzir algum tempo na nossa jornada de trabalho. Por exemplo, um dentista decide comprar um carro usado em vez de um carro novo. A diferença equivale aos rendimentos que ele obteria em mês de trabalho. Esta decisão permitirá que ele dobre o seu tempo de férias, passando mais tempo com a sua família, viajando ou descansando.
Além da substituição da compra de um produto novo por um usado, existem muitas outras formas de economizar. Em países desenvolvidos já é comum as pessoas compartilharem produtos e serviços. E como isto funciona? Muito simples, as pessoas utilizam sites da internet para oferecer e para procurar o que desejam. A pessoa pode trocar livros, conseguir carona ou conseguir um quarto para ficar na casa de um desconhecido na sua viagem de férias.
Para quem não está acostumado, parece um absurdo receber um estranho na sua casa, mas os usuários do “Airbnb” acham isto normal e muito seguro. O Airbnb é considerado hoje o maior hotel do mundo, pois hospeda mais gente do que a maior das redes de hotéis. Usando o Airbnb, o hóspede que fica numa residência privada, paga bem mais barato do que a diária de um hotel e, geralmente, faz novos amigos. Depois de usar o serviço, faz uma avaliação das instalações. Quem recebe o desconhecido, ganha uma grana e também avalia o comportamento do hóspede. As avaliações ficam registradas no site e permitem que os futuros usuários tenham informações sobre as condições do quarto que vão alugar. Da mesma forma, as avaliações relativas ao comportamento do hóspede também são registradas, dando referências para quem for lhe receber no futuro. Assim se estabelece uma rede de confiança.
A troca de produtos ou o uso de serviços como o Airbnb são denominados de “Consumo Colaborativo”, onde os usuários tem acesso ao produto sem a necessidade de comprá-lo. Os serviços (hospedagem, carona, etc.) podem ser obtidos por valores bem inferiores aos do mercado. Outra modalidade de consumo colaborativo é a troca de serviços: “eu lhe dou aula de inglês e você me ensina a tocar violão”. Os sites especializados na internet facilitam estas trocas.
No livro “O que é meu é seu”, Rachel Botsman fala do absurdo que é o nosso desejo de comprar coisas que pouco iremos desfrutar. Estudos mostram que uma furadeira é utilizada, em média, 13 minutos ao longo da sua vida útil. Muitas das nossas “máquinas maravilhosas” são sub-utilizadas: Multi-processador, Fritadeira de batatinhas, máquina de fazer Fondue, máquina disto ou daquilo. Nós precisamos é do serviço e não da máquina. Não poderia ter uma (01) destas máquinas por condomínio? Ou, por que não alugar esta máquina no dia que precisamos?
O futurólogo americano Jeremy Rifkin publicou o livro “Sociedade com Custo Marginal Zero – a internet das coisas”. Para exemplificar, cita a produção de um livro: hoje, o autor recebe cerca de 10% do valor pago pelo leitor, ou seja, 90% são custos marginais. Se o autor vendesse o livro pela internet, diretamente para o leitor, o custo marginal seria próximo a zero! O autor poderia ganhar mais e o leitor pagar menos!
Rifkin diz que vamos nos transformar em “prosumidores” = “produtores” e “consumidores” ao mesmo tempo. As pessoas vão usar impressoras 3D para produzir produtos que hoje compramos. Afirma que a “economia do compartilhamento” irá substituir o capitalismo. Diz que esta economia vai pegar as virtudes do capitalismo e do socialismo, abandonando o chamado “mercado livre” e o “estado burocrático”. Será uma sociedade mais igualitária e mais sustentável.
A revolução já começou, ela está acontecendo na sua cidade, com os seus vizinhos, com os seus filhos. Os hábitos, os valores e o modo de fazer as coisas estão mudando. O sonho de poder viajar e ter uma vida confortável, vai ser realizado por meio do consumo colaborativo. Com custos muito menores, vamos poder fazer tudo isto com uma menor jornada de trabalho. Vai diminuir a quantidade de “coisas compradas” e consequentemente, o consumo de matéria-prima, de energia e da geração de lixo.
Por que ainda não fazemos tudo isto? Entenda melhor esta histórica assistindo o clipe “Consumo Colaborativo” (2 minutos) que produzimos para você. Ele está disponível – sem custos – em https://www.youtube.com/watch?v=NBjn4Cn53tE
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Fonte de inspiração e viagens

– 13 de dezembro de 2015
Guilherme Ribeiro de Macêdo (*)

Recebi um e-mail do prof. Luis Felipe, há duas semanas, com um convite: o de escrever um texto de tema livre, até o dia 05 de março. Eis que estou escrevendo em 05 de março, já que a melhor inspiração de qualquer tarefa é o prazo, pelo menos no meu caso.
Como estou chegando de férias longas, os temas que tenho em mente são basicamente observações deste período “não produtivo”.
Primeiramente, como não tirava férias deste tamanho desde 2006, eu achei que seria uma boa ideia ficar fora por 30 dias. Vi que foi um erro. Quinze dias são mais que suficientes para descansar a mente. Mais que isso é exagero, e até diria que é “quase uma aposentadoria”.
Depois disto, eu “engordei” a estatística, no Banco Central, sobre os gastos de brasileiros no exterior. Fui para os EUA, visitar a sobrinha que nasceu recentemente e, “sem querer”, voltei com sete bagagens cujo excesso foi devidamente declarado para a Receita Federal. Logicamente, mesmo pagando o excesso, o preço médio dos itens comprados ficou bem mais baixo do que seu o seu correspondente, se comprasse tudo aqui. E isto gera, em qualquer brasileiro, a pergunta inevitável do porquê desta diferença. Bem, enquanto eu estava lá, não parei para pensar nisto, apenas comprei. Par de 10 meias de qualidade por R$ 15,00 (já convertido!), carrinho de bebês, por R$ 600,00 (aqui custa R$ 3.500,00). E por aí afora. Não achei coisa alguma nada que fosse mais caro do que no Brasil exceto restaurante, mas cujos preços já estão quase iguais. Estamos chegando lá! Mas por que isto ocorre mesmo? Os mais apressados dirão que a culpa são dos impostos e dos políticos, da corrupção , etc., etc. Estes itens entram na culpabilidade do preço salgado. Mas a questão ainda está longe de se restringir a só isto. Por exemplo, percebi que lá, o carro mais básico é 1.4 l., e custa cerca de US$ 10.000 dólares. E, aqui, o mais básico tem um motor 1.0 l., e custa o mesmo preço, já convertido pelo câmbio. Por que a montadora irá cobrar o mesmo pelo motor 1.4, aqui, se o piso para o carro, mas com motor 1.0, é de R$ 27.000,00? E isto é assim porque o Governo Brasileiro insiste em incentivar a produção deste carro, chamado “popular”. O que relatei, a respeito da indústria de automóveis, também ocorre em outros setores como de cosméticos, perfumes e vestuário. O produto nacional, em geral de pior qualidade, já que a produtividade da mão-de-obra brasileira é menor, em comparação com países desenvolvidos, gera um piso de preço que acaba sendo referência para os produtos importados. É certo que, mesmo que custem menos, quando convertidos pela taxa cambial, por questão de referência, custarão mais caro, para o consumidor final (que é quem “paga a conta toda” ao final da cadeia) e vai “engordar” a margem do exportador. Não por acaso, há várias marcas americanas e europeias famosas desembarcando por aqui, pois sabem que o brasileiro consumirá e engordará a margem de lucro destas griffes. Um exemplo contemporâneo do consumismo brasileiro exagerado são os “rolezinhos”: engana-se quem acha que são um grupo de pessoas a margem da sociedade que querem somente passear no shopping e aparecer. Alguns deles vão para o shopping para consumir mesmo, pagam muito caro por camisas, bermudas, tênis chamados “de marca” com o objetivo de se satisfazerem e serem reconhecidos socialmente. Como o crédito está facilitado através dos cartões, geralmente o custo deste “fenômeno social” sobra para as mães, que parcelam a compra em muitas prestações. Em resumo, o brasileiro paga mal e caro (mesmo quando não pode!!!) porque não tem referência. Tudo isto é um reflexo de uma educação ruim, que gera uma grave distorção de valores.
Quando eu estava em São Francisco, vi a polêmica camisa da Adidas à venda, que posteriormente foi retirada, a pedido do Governo Brasileiro. Cerca de 15 dias após a visita a São Francisco, eu estava em Nova Iorque, em um restaurante brasileiro que fica na Little Brazil, matando a saudade de quiabo com arroz. Sentados ao meu lado estavam dois americanos (um casal) que desejavam saborear a caipirinha. Após uns quinze minutos, este mesmo casal começou a conversar um pouco mais alto e foi inevitável escutá-los. Deu para ouvir que o americano morou no Brasil por uns 5 anos, e que a sua namorada foi uma vez ao Rio, mas em passagem bem breve. Foi uma conversa em tom cada vez mais alto, e estavam sempre animados e com saudades do Brasil. Afinal, só falavam bem do país, quando, de repente, aparece na TV do restaurante – restaurante brasileiro que se preze tem que ligar no canal líder da TV aberta brasileira – o símbolo maior: a mulata sambando em uma vinheta de carnaval. Sem pestanejar, o americano solta em alto e bom som: “It is Brazil!!!!” Mais um tempinho, recomeça a novela e mostra uma conversa entre mãe e filha, sendo que, na cena em questão, a filha está apenas de calcinha e uma camiseta apertada. Novamente, o americano aponta para TV e exclama: “Amazing!!!”. E, depois, queremos impedir a Adidas de vender uma inocente camisa.
Na hora de ir embora para o aeroporto, contratei o serviço online chamado SuperShuttle. Na van, havia oito pessoas: duas holandesas, eu e minha esposa, dois italianos, uma canadense e o motorista paquistanês. O motorista não sacou a nacionalidade dos presentes exceto a minha e da esposa em função de quê? DAS MALAS!!!!
Chegando em Guarulhos, vocês já sabem o desfecho nada feliz desta estória, certo? Gritaria, espaço de menos, tanto para pessoas quanto para o avião, pois não tem pista suficiente, atrasos, falta luz, etc., etc.
O que anima, então, a voltar? E por que 15 dias foram pouco? Não importa onde nossa casa e família estejam, sempre geram saudades e aquela sensação gostosa do retorno. Além disto, meu trabalho é aqui no Brasil… Ou, como naquele antigo ditado: “Aqui se faz, aqui se paga…” E muito bem pago, diga-se de passagem…
(*) Guilherme Ribeiro de Macêdo é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: ribeiroguilherme@gmail.com

Transgenia – O homem vai criar seres para fazer as suas tarefas?

– 6 de dezembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
A transgenia é a introdução de genes de outra espécie para que a espécie modificada produza alguma coisa de interesse do homem. Por exemplo, os conhecidos “produtos transgênicos” receberam genes de outra espécie para resistir a um herbicida, ou a determinadas pragas, para se tornarem mais produtivas, para reduzir os custos de produção, etc.
A exposição “Com-Ciência”, da australiana Patrícia Piccinini, que está rodando o mundo e já chegou ao Brasil, mostra a transgenia por meio de esculturas, pinturas e vídeos. Ela mistura o hiperrealismo com surrealismo, e diz que a exposição tem como objetivo perguntar como as pessoas se sentem diante desta possibilidade? A Patrícia é estudiosa de Engenharia Genética e da biotecnologia. Sua obra vai além das costumeiras imagens de seres deformados. A artista imagina que no futuro o homem vai criar seres para fazer as suas tarefas, como a de cuidar, dar carinho e amamentar os seus filhos. A escultura “big mother” mostra uma criatura que é uma mistura de mulher e macaca, amamentando uma criança, para que seus pais possam ter uma noite tranquila de sono.
Marcello Dantas, o curador desta exposição, diz que: “Na vida, algumas coisas feitas, não podem ser desfeitas. Uma vez criadas, não podem ser contidas! … O que aconteceria se fossemos capazes de criar máquinas com genes? E se estas máquinas, extremamente duráveis, se tornassem em seres com vontade própria, com sentimentos e essências orgânicas dentro de si? … A fascinação do homem pelas suas máquinas pode fazer com que um dia ele deseje transformá-las em seres vivos”.
Em relação aos biocombustíveis, Dantas ressalta que pela primeira vez na história tivemos que decidir se um grão alimentício deveria ser usado para alimentar uma pessoa ou uma máquina. Vale lembrar que máquina é insaciável, sua fome é muito maior do que a fome humana.
As criaturas desta exposição causam para uma certa repulsa nos visitantes, por serem seres diferentes, uma mistura de humano com algum animal. Segundo a autora, as crianças que fossem cuidadas e amamentadas por estas criaturas, não teriam este sentimento, pois a criança aceitariam estes seres da forma que tiverem.
Importante destacar que são os hábitos de hoje que inspiraram a artista. Ela conta que ficou impressionada ao saber que um casal de neozelandeses alugou a barriga de uma indiana e, como nasceram gêmeos, o casal escolheu o bebê mais bonitinho e deixou o outro com a indiana.
Será que isto tudo é ficção? Dedicaremos cada vez menos tempo para nossos filhos a ponto de terceirizar a gravidez, parto, amamentar e cuidar de uma criança? O que seria mais importante do que isto? Quem já cuidou de filhos, ou que teve amor por alguém, sabe que o amor cresce quanto mais nos envolvemos com quem amamos. O cuidar é uma forma de cultivar o amor. A terceirização dos cuidados, será a terceirização do amor! De acordo? Ou para você, tudo isto é ficção?
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Sustentabilidade e o Curioso Caso de Nosso Envelhecimento

– 6 de dezembro de 2015
Roberto Patrus (*)
Benjamin Button nasceu velho, rejuvenesceu a vida inteira e morreu bebê. Seu caso é um extraordinário exemplo de como a ficção pode nos fazer refletir sobre a compaixão, o preconceito, a amizade, o drama do incesto e a fragilidade da vida. O fio condutor do livro que virou filme é o tempo. O autor inverte a sua lógica, mas ele se mantém inexorável. Benjamin Button nasceu, viveu e morreu. Como todo ser humano.
Tão curioso quanto ter nascido velho e morrido como um recém-nascido, é a velocidade do nosso envelhecimento. Nós envelhecemos mais depressa do que nossos pais. Meu pai, por exemplo, quando nasci, tinha 40 anos. Quando completei um ano de vida, ele tinha 41 vezes a minha idade. Quando fiz 5 anos, papai tinha 45: nove vezes mais! No meu décimo aniversário, nossa diferença de idade se reduziu a apenas 5 vezes. Quando completei duas décadas, meu pai comemorou seis, três vezes mais! Na festa dos meus 40 anos, meu pai tinha apenas o dobro de minha idade. Hoje, nem isso: ele completa 83 enquanto eu faço 43. Ele já não tem sequer o dobro da minha idade. E eu tenho a nítida sensação de que o estou alcançando… É como se os anos da minha juventude passassem rápido demais, enquanto os anos da sua maturidade corressem mais lentamente. É curioso!
Essa irregularidade na velocidade de nosso envelhecimento explica o conselho de quem é avô, sempre a recomendar curtir os filhos enquanto são crianças, pois eles crescem rápido demais. E explica também porque as diferenças entre pais e filhos vão desaparecendo na medida em que ambos envelhecem. Também nos permite compreender porque o velho já não tem pressa, capaz que é de viver a eternidade na temporalidade. Já não fala tanto, participa. Já não briga, adverte. Já não sofre, aceita.
O inusitado do caso de Benjamin Button dependeu da criatividade de um autor inspirado. Já a velocidade com que estamos “diminuindo” a nossa diferença de idade em relação a nossos pais depende apenas da observação atenta de um fenômeno tomando um parâmetro matemático como ponto de referência. É dessa atenção que precisamos para pensar o tempo no longo prazo. Se tomarmos nossos pais como referência para pensar o tempo, conseguiremos pensar na vida, no planeta, nas pessoas, de modo sustentável. Antes de pensar nas novas gerações, é preciso pensar nas gerações ascendentes. Provavelmente, vamos envelhecer com os nossos pais. Na próxima geração, seremos velhos juntos com os nossos pais. E vamos colher o mundo que semeamos no decorrer da vida. Somente reverenciando nossa origem é possível pensar nas futuras gerações.
É curioso que para falar de sustentabilidade, um tema tão moderno, tenhamos lembrado de um mandamento tão antigo: honrar pai e mãe. Clara demonstração de que verdades não envelhecem.
(*) Roberto Patrus é Professor na PUCMINAS
Contato: robertopatrus@pucminas.br

Nós, nossos avós e nossos netos

– 29 de novembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Você lembra da campanha pelas “Diretas Já” em 1983/84? Lembra da Guerra do Vietnã? Lembra dos valores e práticas consideradas “normais” nas décadas de 70 e 80? Nesta época, eu lembro de professores fumando dentro das salas de aula, o que era considerado “normal” e ninguém questionava o direito deles fumar ali. Aliás, era comum ver o motorista de táxi fumando dentro do carro ou pessoas fumando dentro de um ônibus, mesmo que todas as janelas estivessem fechadas e que não houvesse ventilação.
Caçar passarinho? Sim, as crianças faziam isto por esporte. Cada menino tinha a sua funda (bodoque/estilingue) ou uma “arma de pressão” e saiam para matar os passarinhos que encontrassem. O passarinho era apenas um alvo. Atirou, matou, feito! Seguiam em frente em busca do próximo para aferir a sua pontaria. Coisa mais “normal” do mundo!
Quando eu fazia a graduação na universidade, alguns professores ofereciam “curso de férias”. Estes cursos ocorriam nos meses de janeiro ou fevereiro, concentrando em poucas semanas o conteúdo de uma disciplina regular do curso. Os alunos adoravam, pois assim podiam recuperar ou adiantar estas disciplinas. Detalhe, isto ocorria numa universidade pública e os alunos faziam uma vaquinha para pagar o professor. O pagamento era feito diretamente para ele, sem RPA ou nota fiscal, nada disto! Era do bolso do aluno para o bolso do professor. Todo mundo sabia do pagamento e isto era visto como “normal” ! Dizem que certa vez os alunos não gostaram da prova aplicada num curso de férias e queriam o seu dinheiro de volta. Só não foram no PROCON porque isto ainda não existia.
As autoridades públicas não conheciam os limites entre o público e o privado. Era “normal” os funcionários de uma prefeitura pintarem a casa do prefeito, construírem pontilhões dentro das suas fazendas, entre outras tantas coisas que hoje seriam consideradas escandalosas. Políticos, empresários e gente importante não iam para a cadeia. Os chamados “crimes do colarinho branco”, que envolviam corrupção e lavagem de dinheiro eram esquecidos e engavetados, sem punição aos culpados!
Ecologista, ou qualquer pessoa que defendesse a preservação da natureza, era considerado comunista ou “veado” (homossexual). Os comunistas tinham a fama de comer criancinhas. Nas cidades do interior se sabia o nome e o endereço do “veado” da cidade, pois eram raros os que se assumiam como homossexual. Mulher em estádio de futebol era considerado um atrevimento e, mesmo acompanhada do marido/namorado, era chamada de vadia. Uma prática comum nos estádios de futebol era fazer xixi num saquinho plástico e atirar contra a sua própria torcida. Quando alguém gritava “olha o saquinho de mijo”, todos se protegiam como podiam. Eram bárbaros, vikings, romanos? Não! Estas coisas ocorreram na sua cidade, nos anos 70 e 80 e era consideradas “normais”.
Estamos falando do que ocorreu há 30 ou 40 anos atrás. Voltando um pouco mais no tempo, na época dos nossos avós, ou bisavós, temos dificuldades para imaginar como teria sido a vida deles sem TV, computador, celular e internet? Nesta época já existiam automóveis, telefone e energia elétrica nas residências, mas poucos eram os que tinham acesso a estes bens e serviços. Como será que eles viviam sem ter energia elétrica em suas casas? Como se comunicavam se não tinham celular, internet e nem telefone fixo? Como se locomoviam, uma vez que a maioria não tinha carro e o transporte público era precário? Nesta época, as mulheres eram “quase” como propriedades dos seus maridos. Que horror! E por que será que elas não se revoltavam pela forma como eram tratadas? Será que achavam isto “normal”? Algumas pessoas que viveram esta realidade ainda estão vivas e podem nos responder estas perguntas.
Dando um pulo para futuro, podemos tentar imaginar como será a vida nos próximos 30 ou 40 anos. Quais serão os valores dos nossos netos ou bisnetos? O que eles irão considerar “normal” e o que lhes parecerá um absurdo? Provavelmente eles farão perguntas do tipo:
▪ Vô, consegui recuperar um vídeo que você aparece pilotando uma geringonça, que vocês chamavam de “carro”. Não acredito que vocês queimavam petróleo para fazer aquelas geringonças andarem! Vocês gastavam uma enorme quantidade de energia para transportar uma pessoa de 70 quilos dentro de um carro que pesava 1000 quilos? Por que você fazia isto Vô? Você não sabia que estava poluindo o ar e desperdiçando um recurso não renovável? Verdade que vocês demoravam mais de uma hora para chegar ao local do trabalho?
▪ Vó, li que lá por 2015 as cidades jogavam o esgoto das casas nos mesmos rios de onde tiravam a água para beber, isto é verdade? A Senhora fazia isto também? Não tinha ninguém razoavelmente inteligente e sensato nesta época?
Da mesma forma que o “normal” dos anos 70/80 e da época dos nossos avós/bisavós nos parece absurdo e inconcebível nos dias de hoje, o nossos hábitos e costumes serão considerados absurdos pelos nossos netos/bisnetos. Quem viver, verá! Ou melhor, quem viver, será criticado e responsabilizado pelo que fazemos hoje. Moral da história: não é verdade que nada mudou e que o mundo está piorando. Em três gerações, muita coisa mudou! Esta indignação com os hábitos e costumes do passado é um indicador de que a vida está melhorando. A vida dos nossos netos será muito melhor do que a nossa.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Quando as estatísticas batem a porta da nossa casa….

– 29 de novembro de 2015
Diogo Joel Demarco (*)
O Brasil passa por acelerado processo de mudanças, sobretudo na última década, nas suas dimensões sociais, econômicas e políticas. Dentre estas mudanças uma das mais acentuadas é no perfil demográfico da população brasileira, como apontam os dados do IBGE. Há um acelerado processo de envelhecimento da população, influenciado pela redução da taxa de fecundidade (estimativa do número médio de filhos que uma mulher teria até o fim de seu período reprodutivo ou o número médio de filhos por mulher em idade de procriar, ou seja, de 15 a 49 anos); pela redução da taxa de natalidade (o número de crianças que nascem anualmente por cada mil habitantes, numa determinada área); pela ampliação da expectativa de vida da população; pelo maior acesso ao sistema de saúde publica (SUS) e a medicamentos. A taxa de fecundidade no Brasil passou de 6,30 nos anos de 1960 – a década em que nasci – para 4,40 nos anos 80 e 1,86 em 2010, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE (2010).
Para quem estuda os processos sociais e seus impactos sobre a esfera pública estes dados não são novidade, todavia, por vezes, eles saem das tabelas e planilhas dos estudos e adentram a porta de nossas casas. De que forma? Quando nos damos conta que somos uma família típica de classe média, composta do casal e um único filho (nascido em meados da primeira década do século XIX). Se relacionarmos a este perfil da composição familiar os impactos do intenso processo de migração e urbanização ocorrida no mesmo período, percebemos que este núcleo familiar vive distante do convívio dos avós, tios, primos e primas. Tal situação, invariavelmente, se traduz numa frequente pergunta: “Papai, vêm brincar comigo?”
Pai de um garoto de sete anos, filho único, cheio de energia para brincar, sem a proximidade de primos e primas e com as restrições que a vida urbana moderna impõe de brincar com as amiguinhos na rua, inevitavelmente somos “convocados” a sentar no chão para brincar de carrinhos hotwheels , montar Lego, organizar o ataque ao Forte Apache e a dominar os incontáveis movimentos do controle dualshock do vídeo game nos muitos jogos existentes.
E quão prazerosa é esta tarefa de brincar com o filho, imitar o som do motor dos carrinhos acelerando, o barulho do galopar dos cavalos da 7ª Cavalaria, vibrar pulando pela sala com o golaço que o centroavante do seu time fez no futebol do PS-3… Mesmo que seja apenas para desconcentrar o seu “adversário” que já ganha de você por 4 X 1. Por outro lado, nada prazerosa é a tarefa de convencer o garoto que é hora de ir dormir ou se preparar para ir à escola e, antes disso, recolher e organizar os brinquedos todos que, via de regra, sobra para você guardar tudo.
Partindo da importância do processo lúdico de brincar para o aprendizado e a formação dos valores nas crianças é que resolvemos inovar, lá em casa. Há uns cinco anos, assistindo a um programa infantil com ele, o Art Atack, aprendemos uma técnica de artesanato chamada papietagem – que consiste em aplicar uma mistura de cola e água em camadas de papel que ao secarem adquirem rigidez, semelhante ao papel machê – e começamos a construir pequenos imóveis – casas e prédios – para que ele pudesse “brincar de cidadinha”, como ele diz. Passados esses anos – e três mudanças de endereço neste período – a “cidadinha” sobreviveu e cresceu. Hoje já conta com 68 construções que, espalhas sobre um tapete de EVA pelo chão rendem horas de brincadeira e o espanto e alegria dos amiguinhos quando vem lá em casa para brincar. Afinal, é: “Uau…ele tem uma cidade inteira”, como dizem seus colegas. Desespero mesmo, só o da mamãe, ao ter que conseguir lugar para guardar a cidade toda….
Mas esta brincadeira mostrou-se muito interessante sob vários aspectos. Para mim representa a possibilidade de reduzir o estresse do dia a dia com uma atividade artesanal – separar, montar, colar, pintar – algo que sempre curti, com a possibilidade de discutir valores muito importantes para a formação da personalidade de uma criança. O primeiro destes aprendizados é a importância do consumo consciente e de reciclarmos nosso lixo, já que toda a cidade é feita de material reciclado como caixas de papelão, caixas de remédios, plásticos de canetas e vasilhas, entre outros.
Ao montar a cidade e brincar com seus carrinhos, ele aprende regras de trânsito, e que a coletividade necessita de regras de convívio que precisam ser respeitadas por todos. A cidade – depois de um tempo batizada de Pedrolândia – tem uma prefeitura responsável por organizar os serviços, já que possui escola pública, hospital, delegacia de polícia e corpo de bombeiros. Tem coleta seletiva de lixo, com os caminhões de coleta levando o material para um centro de triagem e reciclagem e o lixo orgânico para um aterro sanitário, cujo trator de esteira da matchbox faz o papel de cobertura do aterro.
Na cidade tem aeroporto, porto, rodoviária e uma estação ferroviária, que, além de permitir a montagem do seu trenzinho, possibilita ensinamentos sobre mobilidade urbana, sobre a integração de diferentes modais de transporte para garantir esta mobilidade. A existência de uma igreja, um templo budista e uma mesquita ajudam a entender a diversidade cultural e o respeito à diversidade e ao sincretismo religioso. Construções como a Usina do Gasômetro e o Cais do Porto ensinam a importância da preservação do patrimônio cultural e arquitetônico de uma cidade. Apesar de existirem construções de diferentes padrões não há a presença de mansões e favelas, pois a desigualdade social e de condições de vida é algo que não deve ser naturalizado na formação das nossas crianças. Em Pedrolândia, todos têm direito a um padrão mínimo de dignidade e de condições de vida.
Enfim, é assim que, brincando, vamos ensinando e aprendendo valores éticos, morais e culturais que vão moldando as futuras gerações e fazendo coro com a máxima de que “não basta ser pai, tem que brincar”.
(*) Diogo Joel Demarco é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: diogo.demarco@ufrgs.br
Mariana e Boate Kiss – o que estas tragédias tem em comum?

– 22 de novembro 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Quando ocorre uma tragédia, todos nós ficamos chocados e nos solidarizamos com as vítimas. O que nos choca é saber que os 62 milhões de metros cúbicos de lama contaminada com mercúrio, ferro, cromo, zinco, manganês e arsênio se espalharam pelo solo e por 853 km na calha do Rio Doce até atingir o Oceano Atlântico. Ficamos horrorizados com a morte de um rio ou de 242 jovens numa boate, etc. Passado algum tempo, a nossa vida segue, outras tragédias ocorrem e nos esquecemos da primeira, depois da segunda, depois da terceira… Mas, o sofrimento e os impactos causados por uma tragédia continuam quando outras ocorrem. Os especialistas estimam em décadas ou séculos o tempo necessário para recuperar o Rio Doce. Os sobreviventes e os parentes das vítimas das tragédias jamais esquecem as perdas que tiveram.
A maioria das pessoas, que não está diretamente envolvida, depois de algum tempo, se resigna com as tragédias, e as considera um “acidente”, algo que não poderia ter sido evitado. Considera que o mais importante é reconstruir, recuperar os estragos e voltar a “vida normal”. Há os que lutam para identificar e punir os responsáveis. O resultado é que são poucos os que vão para a cadeia. “Advogados caros” evitam ou livram da cadeia qualquer suspeito. A cada tragédia, nada ou pouco aprendemos com ela.
As tragédias possuem duas causas comuns: a ganância dos empreendedores e a irresponsabilidade do poder público, que autoriza/fiscaliza os empreendimentos. O empreendedor quer maximizar o seu lucro, gastando o mínimo possível com a segurança da operação do seu negócio. A irresponsabilidade é comum nos órgãos de licenciamento e controle que estão nas instâncias do município, do estado e em nível federal, e são subordinados ao prefeito/governador/presidente.
Quando ocorre uma tragédia como a de Mariana, logo se ouve falar de multas bilionárias, que, com o passar do tempo são questionadas, questionadas, questionadas, seus valores são reduzidos e, ao final, o que é pago, não é aplicado para remediar o problema. Em tragédias como a boate Kiss, inicialmente são indiciadas dezenas de pessoas e ao final são poucos os condenados e, por “bom comportamento”, logo são soltos.
Segundo Sebastião Salgado, fotógrafo e militante ambientalista na região do Vale do Rio Doce, é preciso fazer os culpados financiarem os projetos de recuperação do Rio Doce e se envolverem nestes projetos enquanto o problema existir. Se medidas semelhantes fossem aplicadas no caso da Boate Kiss, a responsabilidade seria compartilhada por todos, desde o prefeito até quem deu a licença/fiscalizou, os donos da boate e os músicos. Todos deveriam trabalhar em projetos para minimizar o sofrimento dos sobreviventes e familiares das vítimas, até quando existir sofrimento. Ou seja, multa e cadeia não contribuem para minimizar os danos causados. A pena deveria ser o pagamento dos custos dos projetos e o envolvimento dos culpados nestes projetos.
O que podemos aprender com estas tragédias?
▪ que é preciso qualificar e responsabilizar os órgãos de licenciamento e controle dos empreendimentos. Não é possível que, quem autorizou o funcionamento e quem fiscalizou o empreendimento, não tenha nenhuma responsabilidade com o que aconteceu!
▪ que uma proposta de um novo empreendimento que irá gerar muitos empregos e pagamento de impostos para o município, se não for segura, deverá ser rejeitada. A população não pode ser enganada para apoiar empreendimentos que colocam em risco a sua segurança;
▪ é preciso mudar a forma de punir os culpados. A pena seria obrigar eles a financiar e a trabalhar, nos anos ou décadas após a tragédia, na minimização dos danos causados, convivendo com as consequências e com o sofrimento decorrente da sua irresponsabilidade.
Nas palavras de Celso Funcia Lemme: “Individualismo, materialismo e imediatismo formam uma combinação tão destrutiva quanto a lama das barragens da mineradora SAMARCO”. Esperamos que desta vez tenhamos aprendido a lição para evitar novas tragédias.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
A praia vermelha…

– 22 de novembro 2015
Fá Fleck (*)
Fiz vestibular para Engenharia Civil na FURB, em Blumenau. Nos primeiros dias de aula, já estava enturmada. Éramos 35 alunos ingressos na Civil naquele semestre. De cara, nosso grupo de uns 15 estudantes, passou a ser do tipo: unidos venceremos tudo e a todos. Éramos alegres, a maioria de origem alemã, pessoas que trabalhavam meio período. Éramos amigos, companheiros e festeiros. Lembro que, depois das provas, divididos e amontoados em três carros, íamos pra praia, pertinho dali pra relaxar.
Entre esses 15 amigos, um era mais importante que todos. Bertram era seu nome. Alemão purinho purinho. Seus pais vieram de Frankfurt para Blumenau. Bertram tinha um SP2 amarelinho, que no verão sem a capota, era o nosso parque de diversões. Fazíamos uma vaquinha e enchíamos o tanque de gasolina e saíamos a passear mundo à fora.
Desde o primeiro dia nos tornamos amigos. Aos poucos fui percebendo que o que ele sentia era mais do que amizade. Quando o ano terminou eu tive a certeza, porque ele, de uma forma linda, me falou do amor que sentia pela melhor amiga. Eu tinha um namorado, que fazia engenharia mecânica na federal em Florianópolis. O Carlos vinha em finais de semana alternados. Eu gostava muito dele. Ele e o Bertram eram amigos, pois o Carlos namorou a irmã do Bertram. E por isso, e por realmente gostar do meu namorado, conversei com ele sobre o que realmente sentia, de quem eu realmente gostava. Lembro dele sempre muito calado. Naquele dia ele ficou ainda mais quieto. Nunca mais falamos sobre isso nos próximos meses. Mas sentia a tristeza dele. Sentia sempre seu olhar me observando.
Bertram cuidava de mim. Ajudava-me nos trabalhos. Estávamos sempre juntos. Eu morava em um pensionato de freiras na época, pois meu pai se aposentou e minha família voltou para o Rio Grande do Sul. O Bertram e sua família passaram a ser a minha família. Isso sempre gerou ciúmes na família do meu namorado. Passava mais tempo com a família do Bertram do que com eles.
Quando o semestre acabou vieram os resultados das notas. Eu havia reprovado em cálculo IV. Eu que havia estudado por noites e noites, reprovei por meio décimo. Olhei as notas no mural e desci a escadaria imensa que dava para a rua. No meio dela, haviam árvores frondosas. Sentei–me embaixo de uma delas e chorei. Chorei muito. Essas coisas de finais de semestre, quando se tem 19 anos, e achamos que o mundo inteiro tá fodido!
Estava assim afundada na minha tristeza, quando ele chegou. Me pegou pela mão e disse: – Vem comigo. Quero te dar um presente! Pela mão o segui até o carro. Quando já estava sentada ele me cobriu meus olhos com uma espécie de bandana, que costumava usar. Pediu para que eu não olhasse para onde iríamos.
E assim fomos. Eu sabia que estávamos indo para o litoral. Pensei comigo. Vamos ir para praia relaxar. É só isso. E cochilei. Quando acordei, o carro sacolejava muito. Estávamos em uma estrada de terra, bem esburacada. A curiosidade aumentou. Andamos mais um tempo e o carro parou. Ele abriu a porta e me ajudou a sair do carro. O vento era forte. Muito forte.O cheiro e o barulho do mar eram de uma grandeza sem fim!
Quando ele tirou a venda. O que enxerguei… não existem palavras para explicar! Era a praia mais linda que eu já havia visto! E ele com aquele sorriso de menino que me encantava, falou: – “Nunca mais quero te ver chorar. Estou te dando a praia Vermelha inteira só pra ti. É tua! Pra sempre”.
O que dizer? O que falar nessa hora? Uma praia deserta, entre morros e cachoeiras ali na minha frente. Toda minha. Que amor é esse que nos oferece algo assim? Ficamos por lá, sentados, quietos, até o sol se por na linha do horizonte. Eu e meu amigo mais querido. Voltamos conversando, alegres. Cheios de planos para o ano seguinte.
Estava me preparando para voltar pra casa para as férias de verão, quando meu pai ligou para o Pensionato aos gritos de alegria, pois finalmente havia conseguido minha transferência para a Universidade Federal de Santa Maria. Foi uma surpresa para mim, pois achava que nunca iría conseguir. Eu não queria voltar para o RS. Meu lugar era ali. Mas sem coragem de magoar meu pai, decidi terminar a Engenharia em Santa Maria.
Foi difícil contar para o Bertram. Inacreditavelmente foi mais difícil contar à ele, do que para o meu namorado. Burra! Burra! Não percebi naquele instante que ele era mais importante que o outro. Fui até sua casa e contei. A tristeza que vi em seus olhos foi imensa. Lembro direitinho quando ele me disse: “Vou te beijar. Esse vai ser o único beijo nosso. Por favor não afaste tua boca”. Eu não afastei. Eu fui beijada e correspondi. E aquelas palavras “único beijo nosso” foi como uma profecia. Fui embora antes do natal, carregando todas as minhas tralhas.
No final do mês de fevereiro estava morando em Santa Maria. Desgostosa da cidade, da Universidade, das pessoas, de tudo. Em março iniciaram as aulas. No dia 15 de março recebi um telegrama, que dizia assim: “O Bertram sofreu um acidente dois dias atrás. Faleceu ontem. Peço que assim que puderes venha a Blumenau para conversarmos. Mãe Ilda.” Achei que fosse morrer. Eu queria morrer junto com ele. Naquele instante eu percebi, que o que eu sentia era amor. Dos grandes. Dos maiores que possam existir!
Levei uma semana pra conseguir ir. Naquele tempo as passagens eram difíceis. Precisava fazer baldeação na cidade de Lages. Tive esperar por 5 horas o outro ônibus, que me levaria a Blumenau. Quando lá cheguei fui direto pra casa dele. Sua família estava triste, muito triste, mas estavam serenos. A tragédia havia acontecido, mas eles estavam mais unidos do que nunca. Me abraçaram e contaram o que havia ocorrido. Ele bateu com o seu SP2 amarelo, de frente em um poste, exatamente em frente ao Pensionato em que eu havia morado. Aquelas coincidências que não se explicam…
Quando mãe Ilda falou que eu precisava ir no cemitério, prontamente me levantei e os segui. Onde o Bertam foi enterrado havia uma paineira imensa. O túmulo era no chão, em volta um gramado verdinho. Havia bancos para as pessoas sentarem-se junto aos seus entes queridos. A paz daquele lugar era maior que tudo. Quando nos aproximamos do túmulo, olhei… E não acreditei. Bertram estava coberto por uma camada de areia escura, protegida por uma tampa de vidro.
Dona Ilda, pegando na minha mão disse: – Ele antes de morrer pediu que queria ser envolvido pela areia da praia vermelha, quando partisse. E que só te falaríamos, depois que ele se fosse. Não sei o que escrever mais. Só sei que Bertram está lá, aquecido pela areia da nossa praia. Mal sabe ele que levou junto um pedaço de mim. Estamos de alguma forma juntos, pra sempre.
Ainda hoje quando me sinto triste, quando algo de ruim acontece, converso com ele. Peço que me ajude, de onde estiver. Meio santo protetor mesmo! Bertram foi meu grande e imenso amor… E sempre que o choro é de tristeza, lembro que tenho uma praia, não mais tão deserta. Mas toda minha. Eternamente minha. E agradeço a ele, pelo amor que me deu em tão curto espaço de tempo.
Um dia, quem sabe, nos encontraremos em alguma praia parecida com a praia Vermelha, lá no infinito do céu? Quem sabe?….
Fá Fleck
(*) Maria de Fátima Freitas Fleck é Engenheira e reside em Santa Maria-RS.
fafleck@yahoo.com.br

Universidade: desempenho individual x desempenho da equipe

– 15 de novembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Nas universidades, assim como no esporte e nas demais organizações, são estabelecidas metas individuais e para a equipe, mas a relação entre o desempenho individual versus o desempenho da equipe varia muito de uma organização para outra. Vejamos como é isto ocorre nas seguintes organizações:
– Futebol – a meta de um time de futebol é vencer, ser campeão. Para tanto, precisará fazer e não levar gols. Se o craque do time fizer três gols numa partida do campeonato nacional, este fato terá repercussão na mídia mundial. Mas, se neste mesmo jogo, o seu time tiver levado 4 gols, ele sairá derrotado como todos os demais da sua equipe! A avaliação do desempenho da equipe terá sido ruim. Para ser campeão, não basta ter um craque no time, é preciso ter um bom desempenho de toda a equipe.
– Golfe– permite que competidores de diferentes categorias possam disputar a mesma competição, pois a avaliação do desempenho não é de um contra o outro, mas de cada um contra o seu desempenho médio. Por exemplo, cada golfista tem um handicap, que representa a habilidade do jogador. Se um jogador costuma dar cinco tacadas para colocar a bola no buraco, e naquele dia ele conseguiu fazer isto com quatro tacadas, então ele foi muito bem. Já o outro, com menor handicap, que costumava colocar a bola no buraco com três tacadas, e neste dia precisou dar quatro, teve um desempenho ruim. Ou seja, o número de tacadas não indica o vencedor.
– Exército – um batalhão num campo de batalha tem um objetivo a conquistar. Todos devem chegar neste objetivo, mas se um soldado for ferido, o colega que está ao seu lado, mesmo que seja o melhor atirador, deixará de avançar em direção ao objetivo para socorrer o ferido. A maior condecoração não é para o primeiro que atingiu o objetivo, mas para quem se arriscou para salvar o colega ferido. Ou seja, a avaliação do desempenho considera valores como solidariedade e o espírito de corpo.
– Universidade – um dos critérios utilizados para avaliar o desempenho dos pesquisadores de uma universidade é a pontuação por artigo publicado em revista científica. Quanto mais importante for a revista, mais pontos o autor do artigo ganhará. O mérito é individual. O ótimo desempenho de um pesquisador o tornará uma referência, o “craque” da sua área. Um pesquisador famoso consegue recursos e atrai orientandos de diversas partes do mundo, não importando tanto o conceito da sua universidade.
A avaliação dos pesquisadores de um programa de pós-graduação é realizada a cada quatro anos, e a política é a de “levantar a barra” ao final de cada período, o que significa “aumentar a dificuldade”, para que os pesquisadores tenham mais desafios e se desenvolvam. Desenvolver o quê e para quê? Por que não estimular o desenvolvimento da habilidade de trabalhar junto com outros colegas? Empresas privadas já estão fazendo isto, colocando seus colaboradores a trabalharem em pares. E o mais interessante, nestas empresas, a avaliação não considera apenas o trabalho realizado pelo par, mas principalmente a contribuição do mais desenvolvido para o progresso do seu colega.
A “academia” deveria aprender com o futebol, e estimular os seus craques a trabalharem para melhorar o desempenho da equipe. Será que alguém tem dúvidas de que vários pesquisadores compartilhando o seus saberes chegarão mais rapidamente a solução de um problema do que trabalhando individualmente?
Deveria aprender com o exército que o espírito de corpo se forma quando cada um se sente amparado pelos colegas. Reconhecer o mérito individual é importante, mas as maiores “condecorações” deveriam ser para os que ajudam os que mais precisam.
Deveria também aprender com o golfe e estabelecer handicaps para avaliar os pesquisadores com base no seu desempenho no período anterior. Não se trata de ratear os recursos igualmente entre todos, mas de encontrar uma forma para estimular o desenvolvimento dos que mais precisam.
As universidades são locais onde existe muita vaidade e individualismo, mas também existem pessoas que querem compartilhar o seu saber, ajudar os seus colegas e a sua instituição a melhor cumprir o seu papel. Se mudarem as “regras do jogo”, dentro de algum tempo a cultura dominante será a de craques solidários e jogando para o time.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Gandula por um dia

– 15 de novembro de 2015
José Antônio Gomes de Pinho (*)
Nos idos de 1963 ou 64, nos meus 14/15 anos, quando ainda existiam muitos campos de várzea e até campeonatos entre os times varzeanos em Santos (bem como em várias outras cidades), onde eu morava, eu costumava ir, com alguma frequência, ver esses jogos. Lembro especificamente de uma situação. Era um domingo a tarde e peguei a bicicleta do meu pai e fui ver um desses jogos . Os times tinham camisa própria, tinha juiz, tudo como manda o figurino.
O campo ficava no bairro do Macuco, bairro popular, na Av. Rodrigues Alves esquina com outra que me foge o nome agora. O público ficava no passeio e separando o campo do público apenas uma cerca de arame não muito alta.
Nessa ocasião parei lá e mesmo ainda sentado na bicicleta fiquei assistindo o jogo. Lá pelas tantas a bola caiu fora do campo e próxima a mim. Meio desajeito, segurando a bicicleta e tentando pegar a bola, um jogador, um pouco irritado, mas sem ser grosso disse: “joga a bola, moleque” após a primeira tentativa de conseguir fazer a bola ultrapassar a cerca, o que só consegui na 2.a tentativa.
Coisas que ficam na memória. Assim, posso dizer que já fui gandula por um dia, ou por um momento se eu quiser ser mais preciso. Ainda que não tenha feito carreira futebolística (atributos limitados….rsrrs), o mais próximo que cheguei do futebol, além de torcedor contumaz (do Santos, nunca é demais dizer), foi ser gandula. Evidentemente tudo mudou muito, praticamente não existem mais campos de várzea. Então, quem poderá hoje ser um gandula ainda que por um dia em um campo de várzea? Isto está no meu Lattes da vida! Rsrrsrsrs
(*) José Antônio Gomes de Pinho é Professor na UFBA.
Contato: jagp@ufba.br

A vida após a “quase-morte”

– 8 de nov 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Todos nós temos algum amigo ou familiar que teve câncer ou alguma outra doença grave. Conheço pessoas que se referem ao câncer como “aquela doença ruim”, temendo atraí-lo ao falar o seu nome. Recentemente conheci pessoas que enfrentaram doenças graves com coragem e serenidade, o que me impressionou muito. Resolvi entrevistar algumas destas pessoas e saber o que mudou na vida delas após a “quase-morte”?
Quando perguntei para uma entrevistada sobre sua experiência de “vencer” o câncer, ela me questionou: “Vencer significa estar viva? E quem enfrentou uma doença grave e morreu, é um perdedor? Quem enfrenta uma doença grave é um vencedor, independente de ter concluído ou não o tratamento!”
As pessoas entrevistadas assumem publicamente as suas doenças, mas eu preferi identificá-las pela respectiva idade: 33, 49 e 50 anos. Elas disseram que a doença costuma unir a família e sensibilizar os amigos. Uma delas relatou que graças a ter revelado o diagnóstico aos amigos é que encontrou o tratamento que a curou. Sobre a relação com amigos e familiares durante a doença, relataram: “recebi muito carinho e apoio dos meus amigos e colegas. Tenho suas mensagens guardadas como um precioso tesouro”. “As orações, energias positivas, um colinho, tudo isto é fundamental”. “Acredito que meu exemplo de luta pela vida, perseverança e disciplina serviu para inspirá-los a mudar alguns maus hábitos, que poderiam comprometer suas saúdes.” Quando perguntados sobre as mudanças que ocorreram nas suas vidas após terem enfrentado um câncer, deram os seguintes depoimentos:
– Mudaram as prioridades na sua vida? “Hoje meu objetivo de vida é praticamente viver bem o presente, fazer o que eu posso para seguir em remissão (fase da doença em que não há sinais de atividade dela, mas não é possível concluir como cura) e ficar perto de quem eu amo. O dinheiro e o trabalho ficaram em segundo plano”(entrevistada de 33 anos). “Na minha vida pessoal as prioridades não mudaram, mas na profissional sim. Procuro fazer o que eu gosto e não o que a família ou que a sociedade acha mais legal” (50 anos);
– Mudou a sua visão de Mundo? “A minha visão de mundo não mudou muito… mas eu me dei conta da finitude da vida, o que não é pouca coisa (rsrsrsrs)” (33 anos). “A vida é muito mais do que esse problema de saúde. Nós somos maiores do que esse problema de saúde” (49 anos). “Minha visão de mundo ficou um pouco mais crítica em relação a alguns caminhos equivocados que nossa espécie adotou, seja em relação a hábitos alimentares, quando aceitamos nos envenenar em nome da praticidade, seja quando trabalhamos feitos loucos para adquirir bens supérfluos” (50 anos);
– Qual a sua relação com a religião ou com forças superiores? “Eu fiz Reiki durante o tratamento, e me fez muito bem. O Reiki é o alinhamento dos Chakras e portanto da energia. Agradeço ao Universo por estar viva, mas não acho que foi Deus que me curou, aliás nem me considero curada, estou em remissão. Acredito muito na medicina tradicional, no poder das plantas e da alimentação, bem como na terapia psicológica. Não acredito em milagre e nem carma. Ninguém tem que se sentir culpado por ter uma doença grave. A doença faz parte da vida” (33 anos). “Não sou religiosa de forma alguma. Acredito que a fé que tive e tenho, seja em mim mesma, e que, graças à minha personalidade, consegui passar por tudo isso sem me abalar psicologicamente. Acho que a inteligência emocional ajuda muito” (49 anos). “Sempre acreditei em Deus e em reencarnação. A minha doença reforçou muito esse sentimento. Seguidamente me pego agradecendo a Deus pelo privilégio de estar vivo, curtindo cada momento, a minha família, e estar buscando cumprir o meu propósito” (50 anos);
– Você hoje é mais ou menos estressado do que antes de ter enfrentado a doença? “Sou muuuuito menos estressada, mas luto contra isso todos os dias, porque é da minha personalidade ser estressada e agitada” (33 anos). “Voltei a trabalhar e ainda não entrei no ritmo, mas já decidi que nada vai me abalar” (49 anos). “Aprendi que a vida tem que valer a pena e não permito que alguém tire a minha paz de espírito” (50 anos).
– O que hoje te incomoda ou que te deixa triste? “Me incomoda a maneira como as pessoas lidam com o câncer. Me incomoda a cultura do medo e do tudo está errado” (33 anos). “Me incomoda o fato de que as pessoas que estão fora do contexto câncer-tratamento esperam ver o paciente praticamente moribundo. Como se o paciente não tivesse o direito de se sentir bem” (49 anos). “A impunidade e a falta de ética do povo em geral” (50 anos).
Segundo um dos entrevistados, nem sempre somos “avisados” com antecedência da morte. A doença é um aviso, uma chance para mudar e valorizar o que realmente é importante na vida, de modo que a proximidade do fim não nos traga nenhum arrependimento.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Obs: Agradeço as contribuições dos três entrevistados e espero que o seu exemplo ajude outras pessoas.
Dicas de site sobre o assunto: http://www.alemdocabelo.com – Câncer não é escolha. Bom humor é! (Um portal de entretenimento e informação para quem está em tratamento oncológico)
Você não é o commander-in-chief da sua vida!
– 8 de novembro 2015-11-07
Edimara Mezzomo Luciano (*)
Não tenho mais “resoluções de ano novo”. Há alguns anos, minhas resoluções são pós-cirúrgicas, em virtude de uma importante cirurgia à qual tive que me submeter. As resoluções têm envolvido basicamente trabalhar menos, me alimentar melhor e viajar mais. Na época, frente aos potenciais riscos decorrentes do procedimento, fiquei pensando em como eu tinha dedicado energia para a minha carreira, e que conhecia bem menos lugares do mundo do que eu pretendia conhecer até aquele momento. Logo, esse ponto foi direto para a minha “resolução pós-recuperação”. E hoje posso completar: “Que ocorreu bem, tanto que estou aqui, escrevendo esse texto, anos depois!”
Pois bem, trabalhar menos foi menos difícil do que achei que seria. O processo de recuperação de uma cirurgia impactante te força a fazer isso. Você acha que é o commander-in-chief da sua vida, que pode fazer e acontecer, o quê e quando quiser, mas não é assim. Sua saúde está no controle e, em algum momento, ela pode te colocar limites e te fazer repensar as suas prioridades. E, no trabalho, ninguém é indispensável. Com o tempo, a gente vê que tudo corre bem, mesmo com menor presença nossa.
Me alimentar melhor ficou relativamente fácil, com a inclusão da feira de orgânicos da Redenção nas atividades de sábado. Inquestionavelmente, uma decisão muito importante, juntamente com o fato de cozinhar mais em casa. E viajar mais foi algo muito bom. Claro que isso envolveu todo um planejamento, pois trabalhar menos implica, em parte, também ganhar menos (menos atividades extras), e viajar mais implica em investimentos.
Nessas viagens – que viraram parte da minha meta de vida – acabei por andar muito de bicicleta. Alugar uma bicicleta é uma forma eficiente e barata de conhecer um lugar, seja o Central Park, o Parque Yosemite, a Golden Gate (os 13 kilômetros de Fisherman’s Wharf até Salsalito) ou mesmo se passar por um local na Holanda. De bicicleta você conhece mais espaços do que a pé – que, até então, era a minha forma preferida de conhecer um lugar – e é mais divertido.
Eu sempre gostei muito de bicicletas. Aos três anos ganhei a minha primeira bicicleta, um triciclo. Acho que a marca era Bandeirante, com fitinhas coloridas no guidão. Vermelha, linda. Aos seis, assisti um passeio ciclístico e fiquei encantada. Mas precisava ter oito anos para participar, e foi o que eu fiz, assim que pude. Na época, já tinha a minha nova bicicleta, uma Monareta top de linha, cor-de-rosa. O passeio ciclístico tinha concurso de bicicletas decoradas (ããhm?). E lá fui eu com a Tina, minha bicicleta com cabelos, olhos, e um sorrisão com projeto e execução criativa das minhas duas irmãs. E melhor: “faturei” o concurso. Lembro claramente, até hoje, da Tina, desfilando faceira, na única avenida da minha “metrópole” natal.
Uma das coisas mais legais, depois da recuperação da cirurgia, foi poder andar de bicicleta de novo. É bem clichê, mas a sensação do vento batendo no rosto, em especial depois de um período com muitas privações, é sensacional, mesmo sem a poesia dos cabelos ao vento. Lembro com clareza do prazer daqueles poucos minutos pilotando a minha bike, assim que obtive liberação médica para tal. Pedalando contra o vento, com lenço e sem documento, no sol de quase fevereiro, eu fui. Mesmo hesitante, pela situação e pela altura da bicicleta, aquele pequeno trecho teve o sabor de uma grande conquista. Eu me senti, por um breve momento, o commander-in-chief da minha vida novamente, mas sem esquecer que a “Dona saúde” é, de fato, quem “manda no pedaço”.
E, mais recentemente, decidi fazer a tentativa de percorrer os pouco mais de 6 km da minha casa até a universidade com a minha magrela. O caminho tem uma grande subida, íngreme e longa, seguida de uma grande descida. Na primeira vez, achei que fosse ter que parar em algum pronto-socorro. Ir para o trabalho de bicicleta exige um ritmo um tanto constante mesmo na subida, porque você tem horário, compromissos. Na terceira vez já foi bem mais tranquilo. E, em pouco tempo, eu estava levando o mesmo tempo que indo de carro, o que foi uma surpresa bem interessante. Sem custos, nem ao bolso nem ao meio ambiente, no mesmo tempo e, “de quebra”, ainda fazendo um exercício. E ainda melhor, com a diversão de ver a surpresa dos colegas ao me verem chegar à universidade, e com olhares de incredulidade. Bicicletas ainda são consideradas como transporte para quem não tem recursos para ter o seu próprio carro ou para usar transporte público (que também já não é barato). Mas muitos outros gostaram da ideia, a ponto de iniciarem cálculos da distância a percorrer, contando quantas (e quão íngremes) eram as subidas. Passei a ir a vários lugares relativamente próximos a minha casa de bicicleta, e acabei descobrindo que alguns destinos para os quais eu levava 20 minutos de carro ficavam apenas a meia dúzia de quadras de casa (e 7 minutos de bicicleta!).
É certo que as ciclovias têm um papel muito importante na decisão de utilizar bicicleta. Ainda temos poucos quilômetros, mas já é um começo. E também é um motivador para utilizar a bike como meio complementar de locomoção, ou até mesmo principal. E a crítica de que elas são estreitas não procede, ciclovias são para andar em fila indiana, não lado a lado. As ciclovias da Áustria são mais estreitas que as nossas. E, em vários lugares do mundo, os ciclistas precisam andar junto aos veículos, sem a opção do meio fio. Ainda não temos ônibus e trens adaptados para colocar a bicicleta, quando em percursos combinados, como em Vancouver E nenhum projeto de ciclovias suspensas sobre a rede de trens, como Londres. Mas, com cautela, já dá para iniciar essa mudança.
Não há mais espaços para carros. Ou melhor: “Não mias espaço para mais carros”. Os congestionamentos nas grandes vias já tomam boa parte do dia. As passagens subterrâneas ou viadutos que deverão ficar prontas para as Olimpíadas devem (ou deveriam) reduzir em algumas horas as atuais 12 horas diárias de “horário de pico”. E o trânsito vai continuar insustentável, porque há carros em demasia e o transporte público não motiva ninguém a fazer dele a principal forma de deslocamento (caso se tenha a possibilidade de escolha). E, neste cenário, a bicicleta parece ser uma ótima alternativa.
Enquanto encerro este texto, meu marido prepara o kit para amanhã de manhã: mochila, luvas, capacete, garrafa com água e verificação da pressão dos pneus. Assim que acabar este texto, eu vou fazer o mesmo. Amanhã é dia de carro na garagem. E você, quando começa?
(*) Edimara Mezzomo Luciano é Professora na PUCRS
Contato: ELuciano@pucrs.br
Dez minutos que mudarão a sua vida!

01 de novembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Um dia tem 1440 min. Dizem que 10 minutos por dia em determinadas atividades seriam suficiente para mudar a nossa vida. Será? Veja algumas recomendações de especialistas:
▪ Deitar 10 minutos mais cedo (é fácil) e levantar 10 min mais cedo (é difícil). Você vai dormir o mesmo tempo, e vai sair dez minutos mais cedo de casa, reduzindo, ou zerando, o stress do “estou atrasado”. Vale a pena?
▪ Você soube de alguma coisa que lhe deixou muito brabo com alguém e resolveu dar uma bronca, ou mesmo um soco na cara desta pessoa. Se você esperar 10 minutos, a bronca será muito menor e talvez você já tenha desistido de dar o soco na cara. Vale a pena?
▪ Se você está fazendo uma refeição e, ao terminar de comer uma porção, sua vontade for de comer mais. Se esperar 10 min, provavelmente você não vá repetir, ou se repetir, a quantidade será muito menor do que se estivesse servido há 10 minutos atrás. Vale a pena?
▪ Dez minutos de atenção para outra pessoa (seu filho, sua mãe, a pessoa amada, …) vão valer 24 horas de felicidade. Vale a pena?
▪ Usando técnicas de relaxamento e respiração, você pode se livrar de todo o stress do dia em apenas 10 min. Vale a pena?
▪ A Revista da Universidade Americana de Cardiologia diz que se a pessoa correr 10 minutos por dia, poderá acrescentar vários anos na sua vida. Vale a pena?
Existem muitos livros que falam da importância de dedicar 10 min para alguma atividade: “10 min de oração para transformar a sua vida”, “10 min para sua família”, “10 min para seu filho”, “10 min para se exercitar”, “10 min para a matemática”, “Como ficar estupidamente culto em apenas 10 minutos”, “Como fazer a apresentação de um trabalho em 10 minutos”, etc. Portanto, esta pequena fração do dia pode ser utilizada para melhorar as nossas vidas.
A desculpa mais comum é “eu não tenho esse tempo”. Porém, se cronometrarmos o tempo das atividades que nos envolvemos durante um dia, veremos que: um jogo de futebol dura cerca de 120 minutos. Uma novela na TV costuma durar 60 minutos por dia e, somente os os intervalos (propagandas) desta novela, somam mais de 10 min por dia. Quanto tempo gastamos entre e-mails, Facebook, Whats up, Messenger, SMS,Twitter, etc?
Será que vale a pena? O dia tem 24 horas para todos, e todos nós desperdiçamos tempo com alguma coisa que não nós ajuda a ter vida que queremos. Por que não arriscar e dedicar 10 min para alguma coisa que julgamos ser importante para nós? Dez minutos para alguma coisa, ou até mesmo para coisa alguma – 10 min para não fazer nada! Eu vou tentar, depois conto para vocês.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Benefícios do Exercício Físico para saúde mental

01 de novembro de 2015
Paula Licodiedoff (*)
Muito se tem comentado, nos últimos anos, sobre os benefícios do exercício físico para a melhora do nosso estado geral de saúde. Esse apoio cada vez mais intenso à prática de uma atividade desportiva e combate ao sedentarismo tem sido a bandeira de cardiologistas, endocrinologistas, ortopedistas, pneumologistas, de vários “istas”, enfim, se tem dado muita ênfase – e com razão – aos benefícios que o exercício físico traz ao nosso corpo físico. Mas aqui pretendemos enfocar os benefícios não menos importantes que a prática de uma atividade física, seja ela lúdica ou não, traz para a nossa saúde mental.
De nada adianta estarmos com o coração, pulmão, articulações, e outros órgãos em perfeito estado de funcionamento, se não estivermos gozando de uma saúde mental plena. E o caminho para alcançarmos este objetivo também passa pelo incentivo da atividade física como meio eficaz para obtenção de excelentes resultados no campo da saúde mental. São vários os fatores que podemos abordar nesta coluna, e com o devido tempo pretendemos nos debruçar sobre cada um deles.
Entretanto, neste contato com os leitores desta publicação, escolhemos fazer algumas considerações sobre os efeitos ansiolíticos do exercício físico, por considerar este tema de grande relevância e de grande influencia no dia-a-dia de grande parte de nossa população.
Do ponto de vista emocional, o ser humano pode experimentar basicamente três emoções principais, quando exposto a uma situação ameaçadora: raiva dirigida para fora (o equivalente à cólera, explosão), raiva dirigida contra si mesmo (depressão) e ansiedade ou medo. Nestas situações em que o indivíduo se encontra em estado de alerta, o organismo sempre reage com um comportamento específico, muitas vezes sequer conscientemente controlado, resultando em comportamento de fuga ou de ataque ao agente estressor.
Em situações de normalidade, as reações emocionais geram descargas hormonais que, após o pico de excitação retornam ao estado de equilíbrio. O transtorno de ansiedade se manifesta justamente quando esse processo interno de reação ao agente estressor não retoma ao estado de equilíbrio. Aqui podemos identificar o exercício físico aeróbico como um elemento de proteção ao organismo, já havendo estudos no sentido de que estes exercícios têm efeito antidepressivo e ansiolítico.
A ansiedade, seja ela encarada como um sintoma ou como uma patologia, envolve uma série de aspectos multifatorias de caráter somático ou cognitivo e se apresentam por sentimentos subjetivos como apreensão, tensão, medo, tremores indefinidos, impaciência, entre outros (aspectos cognitivos) ou por alterações fisiológicas nos vários sistemas do organismo, como taquicardia, vômitos, diarréia, cefaléia, insônia e outros (aspectos somáticos). Estes sintomas atingem a população em geral, tendo maior incidência em mulheres na faixa etária entre 25 e 55 anos.
Os tratamentos convencionais para os transtornos de ansiedade consistem em psicoterapia associada à medicação e tem resultados positivos quando conduzidos por profissionais competentes. Entretanto, é importante que se mencione que estudos científicos realizados nos últimos 25 anos vêm demonstrando que o exercício físico aeróbico, como a corrida, tem o efeito positivo nos quadros de transtornos de ansiedade.
As reações fisiológicas do indivíduo, tais como aumento da freqüência cardíaca, aumento da freqüência respiratória, aumento da pressão arterial e níveis de lactato sanguíneo, são bastante similares tanto em um ataque de pânico, por exemplo, como no pico de um exercício físico. Esta semelhança nas alterações fisiológicas acaba por desencadear um processo biológico-psicológico que prepara o indivíduo para o controle emocional destas reações.
Estudos envolvendo outros transtornos de ansiedade, que não o pânico, também apontaram resultados positivos de intervenções acompanhadas de exercício físico, o que nos leva à conclusão de que o exercício físico aeróbico tem significativa influência na redução dos sintomas de ansiedade, podendo ser utilizados como auxílio no tratamento destes transtornos. Portanto, sua corrida de cada dia não estará apenas colocando seu corpo em forma, a sua mente também estará em melhor forma.
(*) Paula Licodiedoff é médica psiquiatra.
Contato: paulalicodiedoff@yahoo.com.br
Contadores de histórias

– 25 outubro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Contar história é uma habilidade que as pessoas desenvolvem e que nem sempre é valorizada pelos demais. Alguns dos meus amigos e familiares são bons contadores de histórias. Cada um tem o seu estilo e explora as suas habilidades de diferentes formas. Compartilho aqui com vocês as características destes contadores e algumas das suas histórias.
– Estilo detalhista – Tenho uma amiga que é muito detalhista, apresenta os fatos em ordem cronológica, considerando até os minutos: “Chegamos as 11h36min, minto, eram 11h37min, e a porta estava fechada. Não bem fechada, pois tinha uma fresta por onde se podia espiar, mas eu não fiz isto”. Esta riqueza de detalhes, que cansa o ouvinte apressado, encanta quem gosta de uma boa história.
– Detentor de conhecimento – um bom professor é um bom contador de histórias e ensina em qualquer lugar. Tenho um amigo filósofo que é meu colega nas aulas de Pilates e que, a meu pedido, passou nove aulas contando sobre os nove círculos do “inferno de Dante” (Divina Comédia). Cada aula (de Pilates) era mais interessante do que a outra. Eu sei, eu sei, nós deveríamos estar concentrados na respiração e nos exercícios, mas a história era muito boa, não tinha como não querer saber mais detalhes.
– Imaginativo/Criativo – Conversando com uma amiga, ela me falou que havia encontrado numa livraria um livro que estava procurando. Por mais de meia hora ela me falou sobre o livro e me deixou muito interessado na história. Quando pedi para ela me emprestar o livro, descobri que ela ainda não tinha comprado o tal livro, e que tudo o que havia me contado era resultado da leitura que fez da orelha do livro. Fiquei imaginando quanto tempo ela precisará para contar todo o livro, depois de lê-lo!
– Suspense e emoção – a minha mãe é uma ótima contadora de histórias. Numa ida ao mercado ou ao médico, rende uma bela história, algumas trágicas e outras cômicas, mas sempre emocionantes. Um dia destes, ela voltou de táxi do mercado e o taxista fez a gentileza de retirar as sacolas do porta-malas e deixá-las na porta do seu prédio. Ao guardar as compras, encontrou uma sacola do supermercado com o boné do taxista. Ele havia posto o boné no porta-malas, numa sacola igual as demais. Ao retirar as sacolas, retirou também a sacola com o seu boné. A minha mãe, imaginando que nunca mais iria encontrar o taxista, resolveu doar o boné para uma amiga, que levou o boné para o interior do Estado. Eis que, alguns dias depois, quando estava na frente do seu prédio, parou um taxi e desceu o homem pedindo o seu boné de volta. O relato da história é recheado de descrições sobre os seus sentimentos e o que lhe passou pela cabeça: “quando eu reconheci o taxista, eu não sabia o que fazer? O taxista queria o seu boné e eu não podia pedir o boné de volta para quem eu tinha dado”. Quem ouve o relato vai entrando na história e passa a ter os mesmos sentimentos da narradora. Os mais angustiados perguntam: “e aí, o que aconteceu?” O suspense continua: “O que eu poderia fazer? Comprar outro boné para o taxista? Daí eu teria que assumir que fiquei com o boné dele! Ele haveria de dizer – como que a Senhora deu o meu boné? E se o boné fosse de estimação ou se ele insistisse e ter de volta o seu boné?”. Neste momento o ouvinte se coloca no lugar da narradora e assume o seu dilema, passa a imaginar o que ele faria se estivesse no seu lugar. Sugestões são apresentadas: “Por que a Senhora não fez isto ou aquilo….”. Ela continua: “Pois é, poderia ter feito isto, mas me deu um nervoso que eu não conseguia pensar em outra coisa, pois eu sabia que o homem tinha razão, mas não podia desfazer o mal feito.” Querendo saber logo o final da história, alguns ouvintes não resistem: “Tá, e aí, o que a Senhora fez?” Calmamente ele responde: “Tive que dizer: talvez o Senhor tenha perdido o boné em outro lugar?” Outro ouvinte questiona: “e ele aceitou a sua resposta?” Ela conclui: “Não! Continuou dizendo que tinha certeza que foi naquela corrida”. Os ouvintes tomam partido: “A culpa foi dele! Foi ele que deixou a sacola com o boné na sua porta”. Depois de muita conversa, a narradora conclui: “Não sei porquê, mas estas coisas só acontecem comigo!”
– Tragicômico – Uma tia era especialista em dramatizar o cotidiano, sem perder o humor. Nas suas histórias ela assumia o papel de vilã engraçada. Como ela gostava muito de conversar, algumas vezes “dava um fora”. Uma vez, ela e o tio foram visitar uma comadre que estava muito doente. Quando chegaram na casa, o compadre pediu para não falarem de coisas tristes, pois sua esposa estava deprimida e que chorava quando sabia de alguma tristeza. A conversa não era muita, e depois de um longo silêncio, a tia resolveu puxar um assunto e disse: “Pobre da fulana, mulher nova e já ficou viúva!”. A doente logo perguntou: “Não me diga que morreu o Seu Beltrano, eu gostava muito dele” e já ensaiou um choro. Neste momento a minha tia percebeu o fora que tinha dado e tentou corrigir. “Pois é, mas quem sabe ele não morreu!” O tio e o compadre fizeram comentários insinuando que poderia ter sido um engano: “Um dia destes falaram que outra pessoa teria morrido, depois encontrei ela na rua, blá, blá…”. Quando a doente já estava convencida de que o Seu Beltrano não havia morrido, a tia fez outro dos seus comentários: “Mas o compadre João Paulo ouviu no rádio o convite para o enterro!”. Daí não teve mais jeito, a doente caiu no choro. Na saída, antes que o tio dissesse alguma coisa, a tia logo falou: “eu sei, eu sei, não precisa dizer nada! Se eu falava pouco, agora falo menos!”. Para evitar críticas do marido e dos demais, ela costuma ficar braba e não falar mais com ninguém. Depois de algum tempo, quando relatava o fato, ria e contava a sua estratégia para evitar críticas: “me emputeci” (= me fiz de braba para não me xingarem).
Um dos meus irmãos, resolveu ganhar a vida contando histórias no cinema. No texto “Essa mania de contar histórias”, publicado nesta Coluna, ele se refere ao cinema e à literatura dizendo: “Somos todos uns grandes mentirosos. A diferença é que vocês sabem que é mentira, mas compram um ingresso, um livro, qualquer coisa que os façam acreditar “naquele personagem”, naquela vida alheia.”
As mentiras da literatura e do cinema nos emocionam e se tornam realidade. Mesmo sabendo que Romeu e Julieta nunca existiram, os turistas visitam em Verona a casa onde a Julieta suspirava na sacada. Portanto, uma boa história é sempre uma verdade! Quem a ouve ou lê, quer acreditar naquela história. Por isto que, um bom advogado consegue levar o júri a acreditar na sua história. Tome cuidado, bons contadores de história são perigosos!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Uma noite de terapia com ACV

– 25 de outubro de 2015
Adriane de Assis Lawisch Rodriguez (*)
Não sei se por influencia da carga de trabalhos de final de ano, envolvendo relatórios, bancas de dissertações, ou por não ter esquecido o depoimento de um colega que havia passado a noite em um pesadelo horrível, no qual ele estava em uma raiz quadrada e não era um quadrado perfeito, mas foi quando me aconteceu o que irei relatar brevemente aqui.
Depois de um típico dia “daqueles”, o sono custou a chegar. Quando finalmente adormeci, inicio a maior avaliação da minha vida! Estava faltando poucas horas para entregar um relatório de projeto (certamente com financiamento externo!!) e eu ainda nem havia digitado o número do processo… Tortura!! Desespero!! Pânico total!! Como havia deixado chegar a este ponto?? (Está certo que os resumos para participação em congressos quase sempre são enviados no último minuto da prorrogação…) Entretanto, não se tratava de um “simples” resumo! Deveria entregar um estudo completo a partir da ACV, isto mesmo, utilizando a ferramenta da Analise do Ciclo de Vida. Porém, o estudo não estava focada na Reciclagem de Resíduos Plásticos, nem mesmo no Sistema de Gerenciamento de Resíduos da minha cidade. Deveria aplicar estes conceitos na avaliação de meus “primeiros” 50 anos de vida (bem vividos, diga-se de passagem!!) A primeira batalha: Definir o escopo!! A partir de que etapa seria feito o estudo? Depois, tinha que fazer um inventário detalhado de tudo o que poderia ser classificado como “ganhos” (entrada) e “perdas”(saída) neste período. E o grau de dificuldade foi aumentando. À medida que o tempo passava, mais duvidas surgiam. E a agitação ficou maior na hora de escolher os cenários para a avaliação posterior do impacto destes meus 50 anos! Os cenários apareciam na minha frente e podia quase que senti-los, vivenciar um pouquinho do que eles descreviam!! A cada cenário, mais o tempo passava e eu não conseguia terminar o “tal relatório”! E assim foi acontecendo…
Cenário 0 – Sim, neste “meu sonho” existia um cenário “zero”. Nele, eu esperaria “pacientemente” na barriga da minha mãe, os nove meses necessários para uma gestação (e não apenas os sete que tive…). Aqui teria sido evitado todo aquele pânico que se criou por faltar luz no hospital enquanto eu estava na “estufa” (na época não se falava em “incubadora” e nem o hospital tinha gerador próprio!). Também neste cenário, não teria aquelas cenas horríveis em que minha irmã (que esperava um lindo bebezinho e que teve que se contentar com uma “espécie”, que não cabia nem numa caixa de sapatos!) tentava me jogar pela janela.
Cenário I: Neste cenário, após concluir a Engenharia Química eu retornava para minha cidade natal, Rio Pardo, e trabalhava ministrando aula de Química do “Colégio da Freiras” – nada contra a Química, nem contra dar aulas e, muito menos ao colégio das freiras !!)…
Cenário II: Agora, situação era inusitada mesmo … Após terminar o mestrado, teria eu, ido criar galinhas!! Este cenário remete àqueles dias em que os experimentos não davam certo e, os questionamentos do tipo “isto não vai terminar nunca” faziam com que qualquer outra atividade parecesse uma “brilhante” idéia!!!…
Cenário III: Neste, eu estava no aeroporto de Frankfurt, e ainda procurando a saúda!! Devo salientar que para a construção deste cenário, muito deve ter contribuído a recordação de um “momento mágico” quando da minha “primeira” chegada na Alemanha (e também primeira viagem internacional!!). Após perambular no “pequeno” aeroporto de Frankfurt, falando muito bem português e um tipo de “esperanto” (ou seria desesperanto??!!) eis que, por um milagre uma porta se abre e eu vejo com um “cartaz” de boas vindas – Amigos são como o sol…” Lembram disto?? Mesmo que o dia esteja nublado, eles estão lá! – Este momento ficou gravado na minha memória e certamente foi decisivo na criação deste cenário…
E finalmente, quando estava na criação do quarto e ultimo cenário, no qual, ganhava na mega-sena e estava saindo de viajem para o Caribe, ou seja, a melhor parte do sonho estava se encaminhando, o relógio “despertou”!!! Estava na hora de voltar a escrever os “reais” relatórios do dia. Porém, ao repensar meu sono, fiquei contente (apesar de me sentir ainda cansada!). Havia feito uma enorme economia de “psicoterapia”! Não precisei escolher entre o UMBERTO ou o SIMAPRO para decidir que o melhor cenário era exatamente este que vivi nestes “primeiros” 50 anos. A
Ah! E também desmarquei as minhas próximas horas de terapia!!!
(*) Adriane de Assis Lawisch Rodriguez é Professora na UNISC.
Contato: adriane@unisc.br
Parece difícil, mas não é!

– 18 de outubro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Que palavras representam coisas difíceis, complicadas, que você não faz ideia do que sejam ou de como funcionam? Provavelmente apareçam “Física Nuclear”, “Química Quântica”, alguma coisa de Matemática, pensamento complexo, etc. Por que estas palavras representam coisas tão difíceis? Porque nós não as conhecemos! E será que um simples mortal conseguiria entender o que elas representam?
Antigamente, quando alguém recebia uma explicação e não a entendia, lhe chamavam de “burro”, transferindo toda a culpa para quem recebe a informação. Na verdade, as pessoas não entendem alguma coisa, quando ela não é “bem explicada”, ou seja, quem ensina é quem tem a condição de ajudar o outro aprender. Quem tem o domínio do conhecimento deve encontrar a forma mais adequada para que o seu “aluno” aprenda. Os pesquisadores da área de educação falam que é preciso motivar as pessoas a querer aprender. Uma pessoa motivada, aprende qualquer coisa. Obviamente que para entender determinados temas é necessário algum conhecimento anterior. Não se aprende a correr antes de caminhar.
Para ajudar alguém a aprender, a se desenvolver, é preciso basicamente de conhecer o que vai ensinar, o método adequado (a forma de estimulá-lo a querer aprender) e ter paixão por ensinar. Isto fica claro quando ensinamos os primeiros passos ou as primeiras palavras para nossos filhos. Eles precisam ser estimulados, é preciso repetir várias vezes e, principalmente, ter paciência. Não perdemos a paciência, não nos cansamos, porque os amamos. Repetimos muitas vezes um “ma-mãe”, “pa-pai” e vibramos quando eles emitem um som, que aos nossos ouvidos, parece ser um “mam” ou “pa”. Vibramos pois aquele som foi um sinal de aprendizagem, um primeiro passo para chegar ao objetivo.
Se você não sabe o que é “Física Nuclear” ou “Química Quântica” é porque nunca se dedicou a aprender ou, se quis realmente aprender e não conseguiu, foi porque o método de aprendizado não foi adequado. Não existe nada que não possamos aprender. A dificuldade em aprender alguma coisa depende da motivação de quem deseja aprender. Será que você conseguiria aprender a falar chinês? Ou a tocar violino? Ou a fazer crochê? Ou a preparar uma torta de maçãs? Talvez você diga que aprender chinês é mais difícil do que fazer uma torta de maçãs! Provavelmente seja porque você teve mais curiosidade para aprender a fazer a torta de maçãs do que para aprender a falar chinês!
O outro lado da moeda, que explica porque algumas coisas se parecem tão difíceis, é o desejo de quem ensina, de valorizar o seu conhecimento, tornando quase inacessível para quem quer aprender. Quando alguém explica algo de forma complicada, é porque esta pessoa não conhece muito bem sobre o que está falando, ou porque não quer que o outro aprenda. Meu amigo Asher Kiperstok fala, num texto desta Coluna, sobre o prazer de estudar e praticar matemática e diz que o mau ensino da matemática roubou o direito a este prazer da grande maioria dos jovens.
Talvez eu não tenha lhe convencido de que você pode aprender a falar chinês, nem de que tudo é simples e possível de ser entendido. Se isto aconteceu, a culpa foi minha, que não soube lhe explicar. Agora, se você ficou curiosa(o) sobre a possibilidade de aprender alguma coisa que até então lhe parecia muito difícil, complicado… isto para mim soa como o “mam” ou “pa” dos bebês. Fico feliz, porque o primeiro passo foi dado, o progresso virá em seguida.
我可以在中國寫
擁抱
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
O professor não ensina, mas arranja modos de a própria criança descobrir. Cria situações-problemas – Jean Piaget
É preciso mais consciência…

18 de outubro de 2015
Fábio R. Becker (*)
Estariam as mudanças climáticas já ocorrendo? Estamos vivendo as primeiras consequências do efeito estufa? Aquele que iria afetar o futuro na Terra? Talvez o futuro já tenha chegado e já são muitos os sinais destas mudanças em todo lugar. O que antes era conversa de ambientalista e ativista do meio ambiente, parece agora começar a fazer sentido para uma parcela maior da população.
Estamos perto do limite da ausência de ética, de respeito e de amor ao próximo, dada tanta falta de consideração e caráter, de tanto individualismo e de ganância. Está passando da hora de nos tornarmos mais conscientes sobre as nossas atitudes e impactos na natureza e no Planeta, se é que queremos deixá-lo em condições para que os nossos filhos e netos também possam viver aqui, de maneira saudável e decente.
Se não mudarmos agora, só rezar não adianta. É possível afirmar isso diante dos inúmeros apelos que o Papa Francisco tem feito sobre a preocupação com a Terra, a nossa Casa Comum. Representada principalmente na Encíclica Verde (Carta Encíclica Laudato Si’), publicada em maio deste ano como apelo ao mundo e aos governos sobre a real necessidade de firmarmos acordos internacionais que reduzam os níveis de emissões e poluição. A esperança é que em dezembro, na Conferência do Clima Paris 2015 (COP21) organizada pela ONU, esses limites comecem a ser de fato definidos e respeitados.
Mas esperar por isso não é suficiente, cada um de nós pode e deve agir de forma que as nossas decisões passem a considerar valores e princípios éticos, capazes de mantermos a Terra em equilíbrio e garantirmos a permanência das espécies e das nossas futuras gerações.1 Por isso, entre tantas outras atitudes necessárias, é preciso:
– economizar energia: principalmente no transporte. Use mais a energia do seu corpo para se locomover e menos aquelas que você precisa pagar para usá-las, sobretudo as que queimam combustíveis. Seu corpo precisa de movimento, sua mente precisa de novos olhares, desafios e experiências. Experimente assumir novos hábitos para isso, além de economizar dinheiro você estará fazendo um grande bem para a sua saúde.
– economizar água: não só aquela que você consome diretamente como para tomar banho, escovar os dentes, lavar roupas ou lavar o carro, mas principalmente aquela que é usada para fabricar produtos e industrializar alimentos. Você sabia que para produzir um simples bife de hamburger são gastos 2500 litros de água? Isso é o mesmo que dizer que para cada 1kg de carne bovina consumida são gastos 15 mil litros de água. (Veja mais em Cowspiracy, o segredo da sustentabilidade, um documentário da Netflix sobre os impactos negativos da criação de animais para o consumo humano).
– consumir menos: quanto mais produtos e serviços nós compramos, mais lixo é gerado. Quase 90% do lixo gerado não pode ser reutilizado, ou porque está misturado (seco e orgânico), ou porque é mais barato extrair a matéria-prima da natureza novamente. Separar o lixo é importante, mas ainda é muito pouco para resolver o problema de verdade. E onde esse lixo todo, que não serve para nada, vai parar? Em aterros sanitários, lixões, no esgoto, córregos e rios, gerando poluição, causando doenças, acabando com as florestas e impactando seriamente as plantas e os animais. Por isso, a melhor forma de evitar a geração de lixo é consumindo menos, consumindo de forma consciente, evitando o consumismo2. Consumindo menos produtos descartáveis, com menos embalagens, usando menos plástico e papel, escolhendo produtos mais duráveis, que gastam menos energia durante o uso (lâmpadas e equipamentos, por exemplo) e que possam ser reciclados ou reaproveitados. Antes de comprar qualquer coisa, pense: será mesmo que eu preciso disso? Será que é durável o suficiente? Será que não estou comprando para me sentir incluído ou para afirmar a minha personalidade? Será que não estou sendo iludido por algum tipo de propaganda ou ação de marketing? Será que este produto (ou serviço) prejudica o meio ambiente? Será que foi fabricado com trabalho justo e ético? Ou foi feito sob exploração e trabalho escravo? Será que eu consigo comprar esse produto e não me sentir de alguma forma culpado?
(*) Fabio R. Becker é doutorando em Administração na UNISINOS.
Contato: fabiobe@terra.com.br
▪ “Odesenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.” Este conceito foi definido em 1987 com a publicação do Relatório Brundtland, no documento intitulado Nosso Futuro Comum (Our Common Future).
▪ Low consumerism = Lowsumerism. Veja o material da BOX1824 em www.box1824.com.br
Parabéns a você… aniversário de 2 anos da Coluna Dominical

– 11 de outubro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Esta semana a Coluna Dominical completa dois anos de publicações, sem ter tido férias e sem ter falhado nenhum domingo. Uma verdadeira escrava da literatura! Nestes dois anos foram 200 textos publicados (108 meus e 92 escritos por 84 amigos). Neste período, o blog teve 31.490 acessos, sendo que ultimamente a média é de 400 acessos por semana.
Mais do que mostrar números, quero agradecer aos autores que publicaram na Coluna e aos leitores, identificados e não identificados. Sim, só consigo identificar cerca 20 a 30 pessoas que curtem cada novo texto no Facebook e mais alguns que se identificam comentando os textos no próprio site ou por e-mail. Portanto, mais de 90% dos leitores que acessam o blog a cada semana, não são identificados. Quem são estes leitores? Qual a opinião deles sobre cada texto? Não sei!
Embora eu não saiba com quem estou falando, quero contar um pouco da rotina da “aniversariante”, digo, da Coluna. Para publicar na “Coluna dos Amigos”, basta você enviar um texto de uma página para nascimentolf@gmail.com. O texto não passará por avaliação ou revisão. Vai ser publicado como você enviou. Todo o domingo publico na Coluna um texto meu e outro, de um amigo. Como é o “processo de criação” dos textos da Coluna Dominical? Bem, eu diria que é como cozinhar e não saber quem irá comer esta comida, e muito menos o paladar destas pessoas. Se for um pouco doce, não vai agradar os que gostam do mais amargo. O melhor que podemos fazer é seguir o nosso gosto!
Existe um estoque de textos? Não! Eu não trabalho com comida congelada, digo, não tenho estoque de textos, eles são produzidos na semana (fresquinhos) em que são publicados. E de onde saem as receitas? Roubando a ideia de alguém! Não roubo textos, mas ideias, e a partir delas construo um texto. As vezes convido o(a) autor(a) da ideia para ser co-autor do texto, mas dificilmente eles aceitam. As conversas com os amigos, uma matéria no jornal, uma notícia na TV, uma frase de alguém, tudo pode ser inspiração para um texto. Acredito que as ideias surgem nestas interações, mas elas tomam forma e evoluem quando estamos sozinhos, conversando com a gente mesmo. Faço isto quando estou dirigindo (em silêncio, com o rádio desligado), quando ando de bicicleta ou ao tomar banho. Preciso estar sozinho e em silêncio para transformar uma ideia num texto, primeiro na cabeça, depois é que ele vai ser escrito. Quando estiver completo, no computador, o texto precisa dormir, pelo menos uma noite, e ser revisado no dia seguinte. É como a massa de um pão, que precisa de um tempo para crescer. A cada revisão, ele fica melhor. Não é assim que funciona com você?
Como você classificaria os temas abordados na Coluna? Eu diria: uma salada de frutas! Segundo a Anna Tarcila: “os textos da Coluna possuem um fundo filosófico, de auto-ajuda e de ironia. São tudo isto com uma pitada de humor e deboche”. Portanto, o texto publicado no final de semana, depende dos ingredientes conseguidos ao longo da semana.
Aproveitei este momento do aniversário da Coluna para conversar com você leitor e lhe agradecer por, numa época em que as pessoas se contentam ler as manchetes, você dedicar o seu precioso tempo para ler os nossos textos. Segue abaixo a relação de textos publicados com os respectivos autores. Muito obrigado aos seguintes autores, amigos muito queridos, que nestes dois anos publicaram na Coluna dos Amigos:
Adelaide Kreutz Pustai, Adriano Santos, Aida Maria Lovison, Aline Malanovicz, Alfredo Culleton, Alice de Moraes Falleiro, Ana Cristina Muller, Ângela Denise da Cunha Lemos Belbute, Asher Kiperstok, Bárbara Basso, Carlos Augusto Alperstedt, Celso Funcia Lemme, Clandia Maffini Gomes, Cláudio Senna Venzke, Cristiane Pizzutti, Cristina Valdez Borgmann, Daniela Callegaro Menezes, Débora Löf Figueiredo, Deisi Becker, Diego Cristóvão Alves de Souza Paes, Eduardo Comerlato, Eliane Marfiza Braga Machado Trevisan, Elaine Melo de Oliveira, Fernanda Pasqualini, Fernando Gimenez, Floriane Morisseau, Gabriela Ferreira, Graziana Fraga dos Santos, Graziela Dias Alperstedt, Gustavo Borba, Hamilton Belbute, Ilse Maria Beuren, Ines Isaia Splettstosser, Isabel Cristina de Moura Carvalho, Iuri Gavronski, Ivan Antonio Pinheiro, Johan Konings, José Antonio Gomes de Pinho, José Carlos Batista de Deus, José Carlos Lázaro da Silva Filho, José Mauro C. Hernnandez, José Pacheco, Juliano Ferrari, Lafayette Dantas da Luz, Leonardo Querido Cardenas, Lija Neiva Fávaro de Brum, Lucila Maria de Souza Campos, Luis Binotto, Luis Carlos Zucatto, Luis Roque Klering, Luisa Dutra, Luiz Antonio Slongo, Márcia Dutra de Barcellos, Maria Tereza Saraiva de Souza, Marisa Ignez dos Santos Rhoden, Marta Tocchetto, Melissa Irala, Milton Campanario, Nara Maria Müller, Neusa Rolita Cavedon, Nilo Barcelos Alves, Odalci José Pustai, Odete Maria Viero, Patricia Tometich, Paula Izumi, Paula Licodiedoff, Paulo Nascimento, Pedro Costa, Raquel Janissek-Muniz, Renato Santos de Souza, Ricardo Dunker Haubert, Roberto Guedes de Nonohay, Roberto Patrus, Rosane Augustin Mendes, Sandra Regina Cela, Sebastião Leão Fialho Guedes, Shana Sabbado Flores, Silvia Generali da Costa, Silvia Zilber, Sofia Azevedo Bastian Cortese, Sonia Porto Machado, Soraia Schutel, Téo – Armindo dos Santos de Sousa Teodósio, Volnei Alves Corrêa, Werno Edwin Lunge.
Abraços
Felipe

Núm Titulo da Coluna Dominical – textos do Felipe Publicado em Tema
108 Parabéns a você… aniversário de 2 anos da Coluna Dominical 11/10/2015 Datas comemorativas
107 Isto não pode! 03/10/2015 Ética
106 Doméstica importada das Filipinas 26/09/2015 Comportamento
105 Mensagem para você – pelo rádio 19/09/2015 Humor
104 Brinquedos da sua infância 12/09/2015 Infância
103 Por que ir num evento científico?
06/09/2015 Vida Acadêmica
102 Parabéns a você !
30/08/2015 História
101 Fora o Presidencialismo !
23/08/2015 Política
100 O plágio das religiões
16/08/2015 Religião
99 As dez pessoas que mais contribuem para melhorar o Mundo
09/08/2015 História
98 As pessoas só mudam mudando o Mundo
02/08/2015 Mudar o Mundo
97 O Gaúcho que virou Sapo
26/07/2015 Humor
96 Manaus à Belém – 4 dias num barco
19/07/2015 Turismo
95 Como é o céu para você?
12/07/2015 Ficção
94 Homens – não adianta falar, eles não fazem!
05/07/2015 Comportamento
93 Idosos – Quem se importa?
27/06/2015 Idosos
92 Eu não queria, mas fiz porque me pediram !
21/06/2015 Escolhas
91 Até quando vou te amar?
14/06/2015 Relações
90 Acerto de Contas
07/06/2015 Sustentabilidade
89 O valor de uma hora
31/05/2015 Trabalho
88 Até domingo que vem – Um projeto pedindo o seu apoio
24/05/2015 Literatura
87 O Brasil que não acessa internet
17/05/2015 Saber popular
86 O dia que não existiu
10/05/2015 Ficção
85 Quem inventou o “final de semana”?
03/05/2015 Religião
84 Como proteger os seus segredos
26/04/2015 Tecnologia
83 Se a lei é injusta, você a respeita?
19/04/2015 Ética
82 Celulares que captam pensamentos
12/04/2015 Ficção
81 O prazer da boa comida – na entrada e na saída!
05/04/2015 Saúde
80 Qual o seu estágio de consciência?
29/03/2015 Ética
79 Manifestações de 15 de março 2015: Quem é contra o quê?
22/03/2015 Política
78 Natureza não combina com Limpeza!
15/03/2015 Sustentabilidade
77 Herança – faz bem ou mal para o herdeiro?
08/03/2015 Filhos
76 Ruídos do Cotidiano
01/03/2015 Humor
75 O Brasil vai melhorar!
22/02/2015 Política
74 Perdas Tragicômicas
15/02/2015 Humor
73 Como danifiquei meu celular
07/02/2015 Descuidos
72 O Rei Mandou
01/02/2015 Música
71 O que mais lhe surpreendeu nos últimos 25 anos?
25/01/2015 História
70 Não é o que você está pensando!
18/01/2015 História
69 Largar tudo !
11/01/2015 Mudar de vida
68 O Novo Umbigo do Mundo
04/01/2015 Humor
67 Desejos para 2015!
28/12/2014 Humor
66 O que fazer e o que não fazer entre o Natal e o Ano Novo
21/12/2014 Dicas
65 Profissão do Futuro: Conhecimento !
14/12/2014 Conhecimento
64 Os nossos são ladrões e os deles são tarados!
30/11/2014 Política
63 Quanto você pagaria pelas suas emoções?
23/11/2014 Emoções
62 Gene do Amor
16/11/2014 Música
61 Como será o seu mundo sem você ?
09/11/2014 Sentido da Vida
60 O povo mais bonito do mundo!
02/11/2014 Beleza
59 Quanto custa?
26/10/2014 Sustentabilidade
58 Português politicamente correto: vem aí a nova reforma!
19/10/2014 Humor
57 Uma análise das eleições e a proposta de uma nova política!
12/10/2014 Política
56 Coluna Dominical completa 1 aninho!
05/10/2014 Data Comemorativa
55 Os limites do amor e da paixão!
28/09/2014 Amor
54 Alimentos – o fim do desperdício 21/09/2014 Ficção
53 Piadas: para rir ou para discriminar? 14/09/2014 Humor
52 Risos e Sorrisos no Trabalho 07/09/2014 Humor
51 Jovem ou Idoso – quem você escolhe para lhe prestar um serviço? 31/08/2014 Comportamento
50 Tu não tens vergonha? 24/08/2014 Comportamento
49 Somos muito diferentes 24/08/2014 Música
48 Deus, o Diabo e a Comida 17/08/2014 Ficção
47 Deu errado! E agora? O que é que eu faço? 10/08/2014 Comportamento
46 Se caminhar, não navegue! 03/08/2014 Tecnologia
45 Foi um engano lamentável! 27/07/2014 Política
44 Obrigado Rubem Alves 20/07/2014 Literatura
43 Quem são os seus amigos? – Parte I 13/07/2014 Amizade
42 Mudanças nas Regras do Futebol 06/07/2014 Futebol
41 Imagina se nós acreditássemos mais no Brasil? 29/06/2014 Comportamento
40 Muito além do lançamento de um livro! 22/06/2014 Literatura
39 Vamos fazer uma vaquinha! 15/06/2014 Consumo
38 Por que o Futebol é diferente dos outros esportes? 08/06/2014 Futebol
37 Romão e Cotinha 01/06/2014 Humor
36 Ninguém gosta do que não conhece! 25/05/2014 Preconceito
35 A Aula Ideal – na Visão do Professor
18/05/2014 Ensino
34 Foi mal! Desculpa aí Mãe!
11/05/2014 Comportamento
33 Trabalho ou Lazer ?
04/05/2014 Lazer
32 Geração Moleza!
27/04/2014 Comportamento
31 Repaginando a Páscoa
20/04/2014 Datas Comemorativas
30 O Dia do Aniversário! 13/04/2014 Datas Comemorativas
29 Faz de conta que eu não sei ! 06/04/2014 Comportamento
28 O Futuro dos Chatos 30/03/2014 Humor
27 Alemanha ou EUA, onde é melhor viver? 23/03/2014 Mundo
26 Eles são muito estranhos! 16/03/2014 Comportamento
25 Histórias da Vó Gelcy 09/03/2014 Humor
24 Carnaval – Adeus à carne 02/03/2014 Datas Comemorativas
23 A Beira de Entrar na Escola 23/02/2014 Ensino
22 Quer reduzir a dependência da internet? Pergunte-me como! 16/02/2014 Comportamento
21 Hoje, somos mais ou menos apaixonados pela fotografia? 09/02/2014 Fotografia
20 Tailândia – Sem Polícia e Sem Assaltos ! 02/02/2014 Mundo
19 Camboja – uma historia rica e pouco conhecida! 26/01/2014 Mundo
18 Stop! Com Rolling Stones. Stop! Com Beatles songs! 19/01/2014 Mundo
17 Diferenças Culturais 12/01/2014 Mundo
16 Férias é… 05/01/2014 Férias
15 Ano Novo – Lentilha e roupa branca?
29/12/2013 Datas Comemorativas
14 Três coisas que não podem faltar no Natal ! 22/12/2013 Datas Comemorativas
13 Só Jesus Salva ! 15/12/2013 Humor
12 Uma Barriga no Divã 08/12/2013 Ficção
11 Uma Barata no Divã 01/12/2013 Ficção
10 O Maior Prazer do Mundo 24/11/2013 Humor
9 Epitáfio no Presente ? 17/11/2013 Comportamento
8 Eu sei que você me quer! 10/11/2013 Humor
7 The Best One ! 03/11/2013 Ficção
6 Um futuro sem conflitos familiares 27/10/2013 Ficção
5 A mais recente descoberta da Medicina: nossos órgãos conversam entre si 20/10/2013 Ficção
4 Cuidamos mais de nossos carros do que de nós mesmos – exagero ou realidade? 13/10/2013 Comportamento
3 As Fases e as Dimensões da Vida 05/10/2013 Saúde
2 O prazer é gordo, a beleza é magra 05/10/2013 Comportamento
1 Para entender os conflitos da Rio+20 05/10/2013 Sustentabilidade

N Título – textos publicados na
“Coluna dos Amigos” Autores Data da publicação
92 Surpresa Asher Kiperstok 11/10/2015
91 O meu Brasil
Floriane Morisseau 03/10/2015
90 Acessibilidade – O jeitinho brasileiro e a vaga do estacionamento
Graziela Dias Alperstedt, Carlos Augusto Alperstedt 27/09/2015
89 Indecisão musical
José Carlos Batista de Deus 20/09/2015
88 Malandros ou Incompetentes?
Aline Malanovicz 13/09/2015
87 Leitor com a palavra
Adriano Santos 06/09/2015
86 De São Pedro a Santa Maria
Luiz Antonio Slongo 30/08/2015
85 Desgoverno nos Trópicos?
Téo – Armindo dos Santos de Sousa Teodósio 23/08/2015
84 Loosing my Religion: Um cético saindo do armário
José Carlos Lázaro da Silva Filho 16/08/2015
83 Quietude da civilização humana
Ana Cristina Muller 09/08/2015
82 A normose acadêmica
Renato Santos de Souza 02/08/2015
81 Medidas
Diego Cristóvão Alves de Souza Paes 26/07/2015
80 Uma viagem louca (de boa!)
Fernanda Pasqualini 19/07/2015
89 Pedis mal
Johan Konings 12/07/2015
78 CACIIILLLDO
Odalci José Pustai 05/07/2015
77 Brasil: um país conservador
Leonardo Querido Cardenas 28/06/2015
76 Humano. Humano? Humano!
Patricia Tometich 21/06/2015
75 E assim aconteceu…
Lija Neiva Fávaro de Brum 14/06/2015
74 Nós, Humanos, e o Paradoxo da Sustentabilidade
Luis Carlos Zucatto 07/06/2015
73 Transformando o tédio em melodia
Sebastião Leão Fialho Guedes 31/05/2015
72 Compartilhando Prazeres
Ivan Antonio Pinheiro 24/05/2015
71 Mapas e GPSs: como encontrar os acasos?
Shana Sabbado Flores 17/05/2015
70 Where is the toilet?
Odete Maria Viero 10/05/2015
69 Cinema, Fotografia e Sustentabilidade: Distopias Suaves
Fernando Gimenez 03/05/2015
68 Sanduíche no Canadá
Iuri Gavronski e Nara Maria Müller 26/04/2015
67 Ser, sustentável, direito?
Ana Cristina Muller Klein 19/04/2015
66 O meu tempo é agora!
Marisa Ignez dos Santos Rhoden 12/04/2015
65 Os Pelados na Natureza
Nilo Barcelos Alves 05/04/2015
64 Entre tempestades, refregas e calmarias…
Lafayette Dantas da Luz 29/03/2015
63 Política Cognitiva
Eliane Marfiza Braga Machado Trevisan 22/03/2015
62 Planeta das Formigas
Elaine Melo de Oliveira 15/03/2015
61 Felicidade
Cristina Valdez Borgmann 08/03/2015
60 Cusco em dia de mudança
Silvia Generali da Costa 01/03/2015
59 Tudo é possível e vai dar certo
Clandia Maffini Gomes 22/02/2015
58 O lusco-fusco do carnaval, ou o ocaso do acaso
Pedro Costa 15/02/2015
57 “Alô, quem está falando?”
Roberto Patrus 07/02/2015
56 O impermanente indo e vindo infinito
Cláudio Senna Venzke 25/01/2015
55 O Moralismo da Rapaziada
Téo – Armindo dos Santos de Sousa Teodósio 18/01/2015
54 Tolerância
Milton Campanario 11/01/2015
53 Pintando o Sete
Alfredo Culleton 04/01/2015
52 Viagem a Los Roques
Ilse Maria Beuren 28/12/2014
51 Charges Paula Izumi 21/12/2014
50 Escrever é um ótimo exercício
Roberto Guedes de Nonohay 14/12/2014
49 Poesias do cotidiano
Neusa Rolita Cavedon 30/11/2014
48 Soltando as mãos
Gabriela Ferreira 23/11/2014
47 Tempo, tempo, tempo …
Marta Tocchetto 09/11/2014
46 Somos todos vira-latas ?
Werno Edwin Lunge 02/11/2014
45 A vida é bela e Outubro é Rosa!
Alice de Moraes Falleiro 26/10/2014
44 Dia do Professor – Homenagem ao meu colega Klering
Luis Roque Klering 19/10/2014
43 Onde você estava na longa noite de 64?
Sonia Porto Machado 12/10/2014
42 Homenagem à rotatória: uma mandala urbana
Roberto Patrus 05/10/2014
41 A utilidade e o amor Débora Löf Figueiredo 28/09/2014
40 Selecionar Alquimia da cozinha Adelaide Kreutz Pustai 21/09/2014
39 O Dente Perdido Ricardo Dunker 07/09/2014
38 A fila anda Rosane Augustin Mendes 31/08/2014
37 Sobre nadar contra a corrente e caminhar contra o vento Alice de Moraes Falleiro 24/08/2014
36 Pausa Graziana Fraga dos Santos 17/08/2014
35 Qual a importância de um professor? Gustavo Borba 20/07/2014
34 Abraço é amor! Aida Maria Lovison 12/07/2014
33 Os estádios de futebol no Brasil estão morrendo José Antonio Gomes de Pinho 05/07/2014
32 Os cortes de cordão e o estranhamento Raquel Janissek-Muniz 29/06/2014
31 A Deschurrascalização da Vida Juliano Ferrari 15/06/2014
30 Campanha sobre o trânsito no Brasil Hamilton Belbute e Ângela Denise da Cunha Lemos Belbute 08/06/2014
29 Velhinhos sapecas Silvia Zilber 01/06/2014
28 Um Tsunami chamado Linfoma de Hodgkin Alice de Moraes Falleiro 24/05/2014
27 A Aula Ideal – na Visão do Aluno Sofia Azevedo Bastian Cortese 17/05/2014
26 Avó Náutica Ines Isaia Splettstosser 10/05/2014
25 Entre carreira e lazer, fiquei com os dois! Melissa Irala 03/05/2014
24 Sete Pilares José Pacheco 26/04/2014
23 A pedagogia da morte Soraia Schutel 19/04/2014
22 Pássaro Quixotesco Luis Binotto 12/04/2014
21 Doutor, tem cura? Celso Funcia Lemme 05/04/2014
20 Vício bom? Será Possível? Paula Licodiedoff 29/03/2014
19 Triangulação Roberto Patrus 22/03/2014
18 A “viagem” que é viajar!! Lucila Maria de Souza Campos 15/03/2014
17 Essa Mania de Contar História Paulo Nascimento 08/03/2014
16 Fevereiro e a Curva do Choque Cultural Bárbara Basso 01/03/2014
15 A chegada da Carolina Márcia Dutra de Barcellos 22/02/2014
14 Laos: arroz, monges e elefantes Isabel Cristina de Moura Carvalho 15/02/2014
13 Vida Instantânea – Parte 3: Celular emagrece Maria Tereza Saraiva de Souza 08/02/2014
12 Vida Instantânea Parte 2: Não estou na vibe Maria Tereza Saraiva de Souza 01/02/2014
11 Vida Instantânea -Parte 1: Celulite e Aplicativos Maria Tereza Saraiva de Souza 26/01/2014
10 Querido Papai Noel José Mauro C. Hernnandez 12/01/2014
9 O que você faria se pudesse dar um tempo no tempo? Sandra Regina Cela 04/01/2014
8 Reflexões sobre o autorretrato Cristiane Pizzutti 22/12/2013
7 Achados e Perdidos: um GPS na Augusta Daniela Callegaro Menezes, Deisi Becker e Sandra Regina Cela 14/12/2013
6 Toda Família tem um Tio Doido Ricardo Dunker Haubert 08/12/2013
5 Quem ela pensa que é? Cristiane Pizzutti 30/11/2013
4 O que as mulheres querem? Luisa Dutra 24/11/2013
3 Quantos babacas fazem um cara legal? Cristiane Pizzutti 17/11/2013
2 Há preconceito contra mulheres no mercado de trabalho? Eduardo Comerlato 02/11/2013
1 Um Administrador pode ser um Ambientalista? Volnei Alves Corrêa 14/10/2013
Surpresa

– 11 de outubro de 2015
Asher Kiperstok (*)
Confesso que me surpreendeu o convite de Luis Felipe para escrever uma crônica para o livro que, se deu certo, é o que você, leitor, deve estar agora lendo. Confesso ainda, que fiquei um tanto intrigado quando ele começou a escrever os seus artigos dominicais, talvez por considerar, no seio dos preconceitos que permeiam o mundo acadêmico, que era mesmo um grande “cara de pau”, um pesquisador na área das engenharias e da administração se dar ao deleite de também ser artista. Artista no sentido restrito da palavra, porque no seu sentido mais amplo, sempre considerei uma obra artística toda aquela obra produzida com elegância e compromisso, de uma restauração dentária ao cálculo de um reator químico. Para mim, a boa ciência, a boa técnica, sempre foram aquelas praticadas com criatividade e no limite da responsabilidade. Quem quiser apenas seguir as normas técnicas vigentes (e antigas), para sempre ficar no campo da própria segurança, poderia muito bem se dedicar a plantar batatas – e digo isto sem qualquer desconsideração com estes agricultores, apesar de eu, por ser persistente possuidor de uma taxa de triglicéridos alta, não poder desfrutar tanto quanto gostaria dos tubérculos da minha terra mater.
Mas…”Eta coisa boa!”, essa de poder escrever sem ter que citar referencias bibliográficas. Pois bem, como o leitor já deve ter notado, nasci no Perú em 1951 – suplico aos amigos Bolivianos e Chilenos não considerar isto uma provocação… Cresci no seio da comunidade judaica de Lima, o que me ofertou um contrato inicial com a ética hebraica, porém apenas uma visão limitada da realidade peruana, principalmente de belo mundo andino e sua ideologia. De fato, acessei este mundo após meu ingresso na Universidad Nacional de Ingenieria, para cursar arquitetura, que abandonei após dois anos, pela falta que sentia de uma utilização mais intensa e artística do raciocínio matemático. Fui fazer engenharia civil em Israel, no Technion, em Haifa, que ainda considero a cidade mais bela entre as que tive o prazer de morar. Do meu curso secundário no Colégio León Pinelo até minha obtenção do título de bacharel em engenharia e o reconhecimento do meu diploma pelo colégio de engenheiros de Israel e pelo Crea, tive evidentemente um sem fim de experiências e aprendizados, algumas mais, outras menos, legais…( Taí, uma das poucas coisas com que concordo com o “FHC pós-sociólogo”).
Uma experiência que quero relatar aqui, motivado pelo meu compromisso com o nascimento da nova Universidade Federal do Sul da Bahia, UFSB, é o do prazer de estudar e praticar a matemática. Pelo menos aquela mais básica, da aritmética e da álgebra, da geometria e da trigonometria – que foram duas das provas de ingresso na UNI, no final dos anos sessenta, mais ainda, do Cálculo Diferencial e Integral, da belíssima loucura da teoria dos limites. Do empurrão para o mundo abstrato que se materializa num foguetório quase psicodélico ao final da demonstração de um teorema, “cqd” (como queríamos demonstrar). Me pergunto: “Porque não se dá, com a grande maioria dos nossos jovens, o direito a este orgasmo?” Porque temos que aceitar passivamente o olhar idiota daqueles na frente de um vídeo game brutal e sanguinolento. Ou o balançar não menos idiota, ao compasso de um canção? Canção esta que, geralmente, se não monossilábica, é “monocultural”.
Lembro, com enorme prazer, a agilidade mental que desenvolvi ao me preparar para o vestibular da UNI principalmente ao estudar as citadas artes matemáticas. O prazer de pular, sem cerimônia, de uma pra outra, ao longo da resolução de um único exercício. E o estrondo ao chegar ao resultado hein? Principalmente se for por um “caminho” que o professor nem tinha imaginado. Você já devem ter ouvido a piada do professor que cobra dos alunos, numa prova, como usar um barômetro para definir a altura de um prédio e, um deles lhe apresenta 10 ou mais alternativas. Não? Procurem na internet.
Temos um enorme desafio pela frente para democratizar o acesso ao mundo matemático, claro que não apenas para os que gostam das engenharias mas, e principalmente, para todo mundo. Temos que “detonar” a ignorância generalizada pelo mau ensino desta arte/ciência, da afirmação de que ela seja de difícil acesso ou, pior ainda, de que ela limita a intuição ou o livre pensar e sentir. Mau ensino este, que acabou marginalizando tanta gente, ao qualificar de “limitadas” aquelas mentes que não conseguiam entender o que maus professores não conseguiam ensinar.
Temos que mergulhar em novas experiências e praticá-las com responsabilidade mas sem medo de errar. Academia Khan, Moocs, etc.
Mas “vamos em frente que atrás vem gente”. Muita gente…
(*) Asher Kiperstok é Professor na UFBA e na UFSB.
Contato: asherkiperstok@gmail.com
Isto não pode!

– 4 de outubro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Os pais costumam estabelecer regras na educação dos filhos, deixando bem claro “o que pode” e “o que não pode” ser feito. A criança não precisa entender o por quê, mas ela sabe que se tentar colocar o dedinho na tomada de energia elétrica, vai levar um tapinha na mão ou algum ato de repreensão dos pais. Mesmo quando ela ainda engatinha, ela chega perto da tomada e olha para os pais, basta eles dizerem “isto não pode”, que ela fica tentada, mas não põe o dedinho na tomada.
As empresas de antigamente era gerenciadas pelo seu dono, que ficava no cargo enquanto tinha forças. O dono era quem dizia o que a empresa podia e o que não podia fazer. Ele era a referência ética. Nenhum dos seus assessores se atreveria a fazer algo em desacordo com a conduta e os princípios do dono. A empresa espelhava os valores do dono.
Atualmente, os donos das empresas não estão mais na gerência, ou na presidência, das suas empresas. Eles fazem parte do conselho e a presidência é exercida por um executivo muito eficiente. O conselho da empresa, que é composto pelos acionistas e convidados, estabelece metas para serem cumpridas pelo presidente e sua equipe. Se a empresa não atingir as metas, o presidente será substituído por outro mais competente.
E quem é que diz o que uma empresa pode e o que ela não pode fazer? Isto deveria ser papel Conselho de Administração, o órgão máximo da empresa, concordas? Em muitas grandes empresas, o Conselho faz de conta que não vê as irregularidades e/ou imoralidades cometidas pelo presidente e seus assessores, e considera isto como “coisas do jogo”, ou “é assim que o mercado funciona”. Traduzindo, vale corromper alguém, sonegar impostos e enganar os órgãos de controle. O conselho não autoriza formalmente estas coisas, aliás, ele faz questão de não saber “de nada”.
O escândalo da Volkswagen de utilizar um software para enganar os órgãos de controle ambiental e os consumidores, chocou o mundo. A VW não é primeira empresa a enganar os órgãos de controle, mas a surpresa é porque ninguém esperava isto da VW! O tal software media as emissões do motor e mentia quando elas estavam sendo testadas. Mas quando o carro saía para as ruas e estradas, o motor poluía até 40 vezes mais do que o permitido. Quem foi o “esperto” nesta história? O software, o presidente ou o conselho?
A VW já se envolveu em escândalos no passado, como o caso do pagamento de viagens de lazer para conselheiros e “amigos”. Nos últimos anos, algumas montadoras de automóveis cometeram uma falha técnica e gastaram fortunas para corrigir o problema, fazendo o famoso “recall”. A novidade neste escândalo é que a “falha técnica”, até onde se sabe, era de conhecimento da direção da Empresa. O custo deste escândalo será muito maior do que qualquer outro recall e terá outras consequências. Aquela imagem da VW de empresa preocupada com o meio ambiente, não existe mais! A fama de seriedade da engenharia alemã, não existe mais! A própria imagem da Alemanha sai arranhada deste episódio. A imprensa na Alemanha está denominando este escândalo de “ato de estupidez mais caro da história da indústria automobilística”.
Somente no século XXI já assistimos a falência, ou enormes estragos na reputação, de grande empresas como Arthur Andersen (uma das cinco maiores empresas de auditoria financeira do mundo – quebrou), Enron (empresa de energia americana, a sétima maior empresa do mundo – quebrou), ISL/ISMM (empresa de marketing esportivo, que comercializava as transmissões da Copa do Mundo – quebrou), Lehman Brothers (quarto maior banco de investimentos dos EUA, quebrou). Nem todos quebraram, pois geralmente estas empresas são socorridas com o dinheiro público. Entre os maiores escândalos estão: Banestado (estima-se que corresponderia ao valor de três Operação Lava Jato), Petrobrás (Lava Jato), que por sua vez é cerca de quatro vezes maior do que o escândalo da Siemens. A lista poderia continuar com KBR / Halliburton (Estados Unidos), BAE Systems (Reino Unido), Total (França), Alcoa (Estados Unidos), Snamprogetti Netherlands/ENI (Holanda/Itália), Technip S.A. (França), JGC Corporation (Japão), Daimler AG (Alemanha), Weatherford International (Suíça), etc.
O escândalo que leva uma grande empresa à falência, ou a quase isto, não é um problema só da respectiva empresa. A falência de uma empresa provoca demissão de milhares de pessoas, danos aos consumidores, demanda recursos públicos que são utilizados para socorrê-la, afeta imagem da empresa e do país. Será que não tinha na Volkswagen, uma pessoa, que fosse a referência ética, para dizer: “esta oportunidade de colocar o dedinho na tomada é tentadora, mas não faça isto!”? Alguém para dizer: “Isto não pode”!
Obs: Se os alemães fizeram isto com o software para medir emissões de um motor de um carro, o que mais não terão feito? Desconfio que o 7 x 1 não foi verdade, que eles passaram várias vezes o mesmo replay, pois foram tantos gols muito parecidos em tão pouco tempo! Vocês confiam no software do placar? Olha, aquele jogo periga ter sido empate!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
O meu Brasil

– 4 de outubro 2015
Floriane Morisseau (*)
Eu sou francesa, tenho 24 anos e fiquei no Brasil 7 meses: 4 em Porto Alegre (eu estava estudando na UFRGS) e 3 passeando. Eu quero compartilhar com vocês as minhas impressões sobre essa experiência.
Primeiro, eu lembro esse povo que me acolhou com braços abertos e que me ajudou bastante. Eu achava que os portugueses eram muito agradáveis com os estrangeiros, mas percebi que os brasileiros são ainda mais afetuosos. Os brasileiros tem alegria e um senso do contato humano incomparável.
A cultura é bem particular, por exemplo, em relação a comida: o arroz e o feijão no cotidiano e a cerveja, que as vezes se passa o dia inteiro bebendo. As frutas são saborosas, assim como a caipirinha! A cultura é muito diferente de uma região para a outra no Brasil, mas o futebol unifica a todos. A vida parece que para durante um jogo de futebol, sobretudo num GRENAL em Porto Alegre.
O Brasil tem também muitas riquezas naturais e ofrece paisagens maravilhosas. De modo que é ótimo passear pelas diferentes regiões brasileiras. Algumas regiões mais pobres e com sérios problemas, que não se pode ignorar. Um dos maiores desafíos que o Brasil tem que enfrentar é o da educação. Por exemplo, o ensino superior ainda é acessível para poucos.
Outro ponto chave é a corrupção nos ambientes políticos e econômicos. Eu ouvi muito da crise política e do escândalo “Lava Jato” da Petrobras. Eu vi também varias vezes as manifestações na rua contra a Dilma.
Além disso, o problema da violência não é um mito, existe de verdade e o risco de assalto é muito grande, principalmente para um estrangeiro.
O que mais me chamou a atenção, foram as desigualdades. As disparidades entre os ricos (que são mais ricos do que os da França) e os pobres (que são mais pobres do que os da França), mas também as disparidades entre o Sul e o Norte. O Sul é mais desenvolvido e mais próximo do modelo europeu. O Norte é parecido aos paises mais pobres, com problemas de educação, de economia informal, de desrespeito ao meio ambiente, etc. Entretanto, a idéia que predomina no cotidiano é o “tranquilo, tudo bem”, e mesmo nessa situação os brasileiros são felizes.
Finalmente, eu adorei descubrir esse pais encantador e muito rico de todos os pontos de vista. O Brasil é incrível e lindo! Claro que eu quero voltar, mas só para passear.
(*) Floriane Morisseau é estudante na França e fez intercâmbio no Brasil em 2014/2015.
Contato: floriane.morisseau@gmail.com
Doméstica importada das Filipinas

– 27 de setembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Sabe aquela empregada, aquela que veio do interior para morar na casa da dona fulana? Isto é coisa do passado! Hoje elas não querem mais vir morar na casa dos patrões e trabalhar o tempo todo. Como conseguir alguém que fique com as crianças a noite e nos finais de semana? Tá difícil! Eureka! Que tal importar uma empregada de um país que esteja em situação pior do que a nossa? Mas como fazer isto?
Um dia destes ouvi no avião, de dois executivos, o seguinte diálogo:
▪ Consegui um empregada ótima!
▪ Como? Isto é coisa rara!
▪ Importei!
▪ Como assim?
▪ Fiz uma pesquisa e descobri que as filipinas são as melhores. Se você mandar elas baterem com a cabeça na parede, elas batem!
▪ Nossa! Conseguiste trazer uma doméstica filipina!
▪ O esquema é assim, você paga a passagem e um salário para elas, mas vale a pena.
▪ Ela mora na tua casa?
▪ Claro, e trabalha de domingo a domingo. Aliás, agora a gente resolveu dar o domingo de folga, pois ela tem uma amiga que tem uma casa de massagens. Então nos domingos ela vai trabalhar com a amiga, mas volta cedinho.
▪ Ela fala português?
▪ Não, a gente já levanta falando em inglês.
▪ Tem contrato por tempo definido?
▪ Sim, ela pode ficar dois anos e tem que voltar para o país dela. Fica dois meses lá e depois vem trabalhar mais dois anos no Brasil!
▪ E se ela resolver ir embora antes do tempo?
▪ Neste caso, é ela quem paga a passagem de volta. Mas elas não fazem isto, elas querem ficar o máximo e juntar toda a grana que puderem para ajudar a família que ficou lá.
▪ Que idade ela tem?
▪ 34 anos, e é muito focada no trabalho.
▪ Me passa os contatos.
▪ Ah! O Esquema este se chama “au pair”. Lá no meu prédio tem um vizinho que trouxe uma da Colômbia, outro trouxe uma da América Central… Vale muito a pena!
Chegamos ao destino e os executivos desceram. Lembrei que eu conheci pessoas que participaram do programa “au pair”, e que na época, o objetivo era permitir que jovens tivessem uma experiência em outro país, para estudar e ajudar a cuidar das crianças da família que o recebia. Geralmente eles estudavam num turno e no outro ajudavam as crianças a fazer as tarefas e arrumar as suas bagunças. Parece que hoje o programa está se prestando para promover uma escravidão branca.
A Folha de São Paulo publicou uma matéria em (26 set 2015) sobre a importação de babás e domésticas filipinas (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/05/1627108-empresa-importa-babas-e-domesticas-das-filipinas-para-o-brasil.shtml ). Segunda a Folha, hoje existem empresas especializadas na importação de domésticas, pois a lei permite. Uma única empresa já importou 70 domésticas. Uma patroa entrevistada diz que “no Brasil a babá é só babá, a cozinheira só cozinha e que a empregada só limpa. Já as filipinas fazem tudo, até o carro elas lavam!”. O próximo passo das importadoras será trazer mão de obra filipina para os hotéis, de olho nas Olimpíadas de 2016.
É interessante observar que as pessoas não se sentem envergonhadas de estabelecer este tipo de relação com quem precisa de dinheiro para manter a sua família no seu país. Se a lei permite, por que não mandar ela bater com a cabeça na parede? Não existe um senso de justiça, de tratar o outro com dignidade. O negócio é tirar o máximo proveito, “otimizar o investimento”! Valores pessoais? Isto só se aplica com os da “mesma classe”!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Acessibilidade – O jeitinho brasileiro e a vaga do estacionamento

– 27 de setembro de 2015
Graziela Dias Alperstedt e Carlos Augusto Alperstedt (*)
Por que no Brasil as pessoas, mesmo sabendo que estão erradas, transgridem as normas em benefício próprio, invadindo o direito do próximo? Seria o “jeitinho brasileiro” descrito por Roberto da Matta a explicação para esse comportamento? Esse “jeitinho”, um traço da cultura brasileira, pode ser explicado quando as pessoas tentam encontrar soluções para driblarem as regras sociais, o que representa um artifício eticamente questionável.
O mais incrível é que, por outro lado, lutamos por uma sociedade mais justa, menos violenta e mais harmônica. Mas, só aspiramos por uma sociedade mais justa quando nossos direitos são invadidos. Como explicamos esse paradoxo? Queremos o melhor para os nossos filhos, para as pessoas que amamos, mas, porque não conseguimos ver a dificuldade do outro? O que está faltando?
Em certos países, a transgressão as regras é crime e, como tal, é severamente punida. Mas, o que ocorre num país onde, apesar da existência de políticas públicas exemplares, não existe rigor na sua aplicação? O resultado é que quem as segue acaba se dando mal, então, a malandragem acaba se perpetuando, e trapacear passa a ser sinônimo de esperteza, do “se dar bem” e pior, passa a ser “normal”.
Então, qual é a solução numa sociedade em que as pessoas não seguem as regras e falta muita empatia? Bem, antes de responder é preciso esclarecer o significado do termo. Empatia é quando nos colocamos no lugar dos outros e tentamos entender o porquê do seu comportamento. É sentir o que o outro sente. É quando cedemos ao nosso ponto de vista e buscamos entender o ponto de vista de uma outra pessoa.
Em Santa Catarina, foi isso que a Prefeitura de São Bento do Sul resolveu fazer. Repetindo uma prática já utilizada em outras cidades e, tentando exercitar a empatia, “estacionou” cadeiras de rodas em vagas de carros mostrando que, mesmo “por um minutinho”, o direito das pessoas pode ser transgredido.
Precisamos resgatar nossa capacidade de empatizar. Quem sabe, com respeito, todos conseguiremos ser um pouco mais felizes e, mesmo que no longo prazo, possamos usufruir de uma sociedade mais justa, mais igualitária e menos egoísta.
Sobre acessibilidade siga nossa página no Facebook https://www.facebook.com/euchegola2015?ref=aymt_homepage_panel e ajude a avaliar os locais de acessibilidade preenchendo o formulário no www.euchegola.blog.br
(*) Graziela Dias Alperstedt e Carlos Augusto Alperstedt. Graziela é Professora na ESAG/UDESC.
Contato: gradial@gmail.com
Mensagem para você – pelo rádio

– 20 de Setembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Atualmente, quando se fala em “enviar uma mensagem”, logo lembramos do celular, Whats up, Messenger, etc. No tempo dos nossos pais e avós, não existiam estas tecnologias, mas também se enviava mensagens. As “tecnologias” mais utilizadas na época para transmitir uma mensagem eram o telefone fixo, mas este era utilizado apenas pelos ricos. O mais comum era o uso da carta, telegrama e fonograma, que exigiam que os Correios fizessem a entrega de um envelope, e isto só ocorria nas cidades. As mensagens para o interior dos municípios eram transmitidas pelas Rádios da cidades.
As Rádios das cidades destinavam horários específicos para ler as mensagens para seus ouvintes. Era muito comum uma pessoa que estava na cidade mandar um recado para quem estava numa fazenda, sem telefone e onde os Correios não chegavam. Quem não tinha um “aparelho de rádio” na sua casa, mandava a mensagem e pedia para os vizinhos avisarem o destinatário.
O serviço de mensagens pelo Rádio era muito simples e barato, bastava o interessado se dirigir até o prédio da Rádio na cidade, escrever, ou ditar, a mensagem e pagar uma taxa. O horário da leitura das mensagens era um dos de maior audiência, pois pessoas da cidade e do campo ligavam o rádio para ouvir os recados. Mesmo quem não estava aguardando algum recado, ouvia para saber o que estava acontecendo com os conhecidos, era como um post no Facebook:
– “Familiares do Sr. João Moreira dos Santos informam o seu falecimento e convidam os parentes e amigos para o enterro que irá acontecer amanhã a tarde no cemitério da cidade”.
Entre tantas mensagens, existiam as que eram claras para quem enviava e mal entendidas por quem as recebia:
– “O Sr. Gumercindo da Silveira informa que segue amanhã pelo ônibus e pede para seu filho José lhe esperar a cavalo na porteira”.
▪ O objetivo da mensagem era: O José deveria estar na porteira (portão de entrada) da fazenda na hora que passasse o ônibus, com dois cavalos, um para ele e outro para o Sr. Gumercindo. O deslocamento da porteira até a sede da fazenda, distante alguns quilômetros, seria feito a cavalo.
▪ O que aconteceu? José não entendeu a mensagem desta forma. Quando o Sr. Gumercindo desceu do ônibus, ficou surpreso ao ver um único cavalo, e o José “a cavalo” (montado, sentado em cima) na porteira.
Naquela época já existiam os “classificados”. Alguns negócios e anúncios eram feitos pelo rádio:
▪ Dona Francisca vende uma vaca de leite com cria por 1500 cruzeiros, interessados procurar a proprietária no Armazém da Chica!
▪ Perdeu-se uma cadela viralata que atende pelo nome de Laica. Recompensa-se quem encontrar o referido animal.
Algumas pessoas se dirigiam até a cidade para fazer negócios e depois comunicavam os resultados pelo rádio. Algumas vezes o anúncio era para tranquilizar a família que havia ficado no campo, e em outras, a mensagem era uma forma de exibimento:
O Jacozinho informa Senhor Jacó que comprou duas vacas de raça na Exposição, e que o negócio do cavalo tá difícil, mas ainda está para o Senhor.
Obs: A “Exposição” era a “Feira de Exposição de Animais” (a Expointer das cidades do interior).
Na época não existia a preocupação assédio moral, e os comerciantes (lojistas) ameaçavam os mau pagadores dizendo que o seu nome iria para o Rádio, como por exemplo:
▪ A Casa das Tintas solicita que aos Senhores Fulano, Beltrano… que compareçam no escritório para acertar as parcelas atrasadas.
Algumas Rádios cobravam pelo número de palavras que teria o recado. Certa vez um cidadão procurou a Rádio da cidade e solicitou a divulgação do seguinte anúncio:
▪ Sara morreu.
A atendente da Rádio lhe informou que o valor mínimo a ser pago dava direito a cinco palavras. Foi então que o recém viúvo, alterou a mensagem para:
▪ Sara morreu. Vendo Fusca 1974.
Um sírio-libanês, que na cidade era conhecido como “turco Benício”, mandou uma mensagem para o amigo Bechara, informando que o “Bataclan”, seu time do coração, havia sido derrotado no jogo de futebol. Os árabes confundiam a letra “P” com o “B”, e a mensagem foi lida assim:
▪ Batrício Bechara. Batachan berdeu bardida. Brecisa baciência. Braços, Benício.
A linha de trem que ligava Porto Alegre à Uruguaiana passa por Santa Maria e pela estação localizada no atual Município de Dilermando de Aguiar, distante 40 km de Santa Maria (RS). Um dos distritos de Dilermando chama-se “Rincão do Peludo”, e bem pertinho dali está o “Pau Fincado”, a localidade onde residiam a Dona Maria e o Sr. João, que não tinham um rádio em sua casa. Uma Rádio de Santa Maria, no horário das mensagens, leu o seguinte recado:
▪ Dona Maria avisa que mandou um saco de ração pelo trem. O Compadre Antônio vai levar o saco até o Rincão do Peludo e vai deixar no Bolicho do Machado. Pede aos vizinhos para avisarem o Sr. João para ele ir de Pau Fincado buscar o saco no Machado. 
Obs: Em caso de dúvidas, confira no Google a existência destas localidades(http://br.geoview.info/fazenda_sossego_rincao_do_peludo_dilermando_de_aguiar_rs_brasil,95256048p )
Portanto, muito antes de Tom Hanks e Meg Ryan estrelarem no filme “Mensagem para você” (You’ve Got Mail), nossos pais e avós já enviavam e ouviam mensagens pelo Rádio. Talvez eles também tenham se apaixonado por um desconhecido ao ouvir uma mensagem no rádio.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Indecisão musical

– 20 de setembro de 2015
José Carlos Batista de Deus (*)
Gaúcho! Toda vez que um conterrâneo assim se identifica, parece que se agiganta, que a voz soa mais forte e o rosto se ilumina. Isso não acontece com os brasileiros nascidos em qualquer outro Estado da federação. Por que somos assim? Essa pergunta inquieta qualquer estudioso do comportamento humano.
O naturalista frances Auguste Saint Hillaire, excursionando pelo Brasil Colônia em 1820, já percebeu essa diferença, ao visitar nossa província. Inclusive, salientou que o Império deveria tomar cuidado com este povo, pois era vísivel o espírito de independência do poder central.
Passados quase 200 anos, ainda se ouvem alguns murmúrios separatistas. Já tentaram explicar nosso comportamento como fruto do ambiente onde fomos forjados. Filhos de campos largos, nem espanhóis e nem portugueses, onde a lei maior era a da sobrevivência. Isso talvez justifique o gosto pelo churrasco, pelo chimarrão, pela liberdade e, consequentemente, pelo cavalo. Mas esta é uma teoria que não prospera com relação a tantas outras características tão nossas, como a indumentária, o linguajar, o amor ao hino, o culto aos heróis e a rivalidade no futebol. São coisas que só os gaúchos entendem, não ensinam, mas exportam para o restante do País.
Há um certo fascínio em ser diferente, e isso é que intriga. E a tradição gaúcha? Duvido que algum povo, em algum lugar do planeta, tivesse preocupação igual. Imaginem: criar clubes sociais cujos departamentos imitam a estrutura de uma propriedade rural (estância), com invernadas, patrão, capataz e peão?
Tudo isso para preservar os usos e costumes, regulamentar as danças, o vestuário, disciplinar como serão as atividades nesses locais chamados de Centros de Tradições Gaúchas, hoje espalhados por todo o território nacional (cerca de 3000 entidades) e também no exterior (16 deles). É muito lindo ter uma identidade cultural e, principalmente, batalhar por sua preservação.
No meu entendimento, existe uma grande falha nesse processo de “gauchar” o mundo. Não temos música típica do Rio Grande do Sul. Embora possuindo vários artistas nessa área, depois do Teixeirinha, ninguém cruzou as fronteiras. Quem representa nossa música fora daqui? Desconhecemos!
Talvez pelo nosso gosto “eclético”, nos dividimos entre inúmeros generos, e não escolhemos qualquer um deles, em particular. Isso acaba pesando e faz com que não apareça um estilo com o selo de “música gaúcha”. Assim, somos invadidos pela que “desce” do Norte e pela que “sobe” do Prata. Com certeza, no futuro, a história vai cobrar essa indecisão pelo desgosto musical.
(*) José Carlos Batista de Deus é Médico Veterinário.
Contato: marcatouro@hotmail.com
Brinquedos da sua infância

– 13 de setembro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
O direito a “brincar” e a ter infância é uma conquista das últimas décadas no Brasil. As crianças de famílias pobres que tiveram sua infância na primeira metade do século XX e anteriores, eram consideradas mão-de-obra para ajudar os pais a criarem os filhos menores. Crianças com 7 anos, ou menos, já eram responsáveis por cuidar do bebê recém nascido. A menina, depois da sua primeira menstruação, já estava pronta para casar. O menino fazia a mesma jornada de trabalho do pai. Por isto, o “brincar” para estas gerações eram momentos raros.
Quem teve sua infância na segunda metade do século XX teve mais chances de brincar e de inventar brinquedos e brincadeiras, e não viveu a era dos brinquedos e jogos eletrônicos do século XXI. Pergunte a uma criança de hoje sobre como ela imagina que eram os brinquedos dos seus pais e avós? Depois explique para ela que na época não existia internet, computador e celular. Talvez nem energia elétrica no lugar onde eles viviam. E apesar disto, eles brincavam e se divertiam muito. Se você teve sua infância nesta época, provavelmente irá lembrar de alguns brinquedos e brincadeiras descritos a seguir. E se sua família era pobre e morava no interior, irá reconhecer outros tantos, que hoje estão esquecidos.
▪ Com o ossinho do peito da galinha, conhecido como “jogador”, disputar quem ficaria com a maior parte do osso. Antes da disputa, cada jogador fazia um pedido e, se ganhasse, o seu pedido seria atendido.
▪ Usar o maxilar com os dentes de um boi para brincar de “arado”. O osso era arrastado e deixava marcas na terra, lembrando o arado que lavra a terra.
▪ Brincar de fazendinha, onde os bois e cavalos eram feitos com frutas espetadas com pedacinhos de madeira (galhos secos de alguma árvore). As vezes as vacas eram laranjas e os cavalos abacates. Quando não se tinha frutas, valia “povoar” o campo com bolinhas de cinamomo.
▪ As meninas ganhavam bonecas de aniversário ou de Natal, feitas de pano pelas mães. As bonecas não choravam, nem faziam xixi, mas provocavam uma enorme alegria nas crianças.
▪ Os meninos corriam pelos pátios montados num cabo de vassoura com uma cabeça de cavalo na ponta, atada com duas cordas, que simulavam as rédeas. Quem não teve um cavalo de pau?
▪ “Carrinho de lomba” ou “carrinho de rolimã”, eram feito em casa, usando um pedaço de tábua, dois eixos e quatro rolamentos descartados. Não era preciso sofisticação para divertir a gurizada.
▪ Na Páscoa, era costume pintar a casca dos ovos de galinha e preencher com carapinha. Um cesto cheio de ovos com carapinha deixava as crianças mais felizes do que os ovos de hoje, que são cheios de brinquedos e pouco chocolate. Em algumas casas se fazia chocolate caseiro.
▪ Espada de madeira, revolver feito com algum osso ou de madeira, eram presenteados e ninguém se tornava mais violento por brincar com estas armas. Algumas vezes os pais tomavam a espada de quem, usando de uma força desproporcional, arrochava um dedo ou a orelha do irmão.
▪ “Mocinho e bandido” era uma das brincadeiras preferidas dos meninos. Qualquer pedaço de pau virava um revólver. Os bandidos corriam e se escondiam. Os mocinhos tinham que lhe encontrar e atirar antes do bandido. Matava o outro quem primeiro fizesse com a boca “pam” (barulho do tiro). Quando os tiros eram disparados simultaneamente pelos dois, gerava uma grande discussão: “te matei primeiro”, “não, fui eu quem atirou primeiro”. A maneiro de resolver isto era cada um sair para um lado e decidir no próximo encontro.
▪ As meninas gostavam de brincar de casinha e de simular que estavam fazendo comidinha. Elas não se maquiavam, mas penteavam e enfeitavam as suas bonecas.
▪ Jogo de bolinha de gude (bolita), que era uma pequena bola de vidro maciço ou de metal. Existiam várias regras e quem ganhava, ficava com o bolinha de gude do outro.
▪ Jogo de botão simulava um campo de futebol. Quem tinha dinheiro comprava um time de botão. Quem não tinha, jogava com botões grandes de roupas ou derretia plástico em forminhas de quindim para fazer os seus próprios botões. Existiam a regra do “toque-toque” (leva-leva), de um toque, dois toques, entre outras. O campo poderia ser o “estrelão” (comercializado pela fábrica de brinquedos Estrela), uma folha de Duratex ou em cima da mesa de jantar.
▪ Futebol sempre foi uma atração. A bola daquela época era de couro com uma câmera de borracha. A maior tristeza era quando alguém chutava a bola contra uma cerca de arame farpado ou algum objeto pontiagudo que furasse a bola. Era possível comprar uma nova câmera e consertar a bola. Quando não tinha bola de couro, se jogava com bola feito de pano, de “meias de mulher” ou com qualquer outro objeto redondo.
▪ Bilboquê, ioiô, pião – como pode um pedaço de madeira e um barbante distrair durante horas meninos e meninas de diferentes idades? E o “Cama de gato”, aquele barbante que ficava entre os dedos e a cada jogada assumia diferentes formas, lembram?
▪ Jogos como “Pega Varetas” e “Batalha Naval” exigiam a paciência que as crianças de hoje não tem. “Cinco-Marias”, jogado com cinco saquinhos ou pedrinhas, hoje seria considerado um tédio. Os mesmo aconteceria com Dama e Moinhos, que naquela época não precisavam de tabuleiro comprado, eram jogados com tampinhas sobre um pedaço de madeira riscado com um lápis ou com carvão.
▪ Existiam jogos e brincadeiras que exigiam esforço físico como “Amarelinha” (pular nos quadros marcados com números), “Pular cordas” e o “Bambolê” (fazer o arco girar na cintura).
▪ Bicicleta não era para qualquer um. Na casa que tinha bicicleta, ela passava de irmão mais velho para o mais novo, sendo consertada todo o ano. Alguém lembra de quando se prendia um papelão, ou pedaço de plástico duro, com um prendedor no garfo da roda, de modo que ele ao bater nos raios da roda fizesse um barulho? Aquele “tac-tac-tac-tac-tac” soava aos ouvidos do ciclista como se estivesse pilotando um carro de Fórmula 1.
Os primeiros brinquedos que se moviam, eram conhecidos como “brinquedo a corda”, pois era necessário girar uma manivela e “dar corda” para ele se mover por cerca de um minuto. Posteriormente surgiram os brinquedos com pilhas, que se moviam, faziam algum barulho e acendiam luzinhas. Geralmente, depois de acabar as pilhas, as crianças continuavam brincando e simulando o barulho com a boca, movendo o tal brinquedo com as suas próprias mãos.
Alguns brinquedos existem há milhares de anos e foram relançados em diferentes épocas. Outros foram lançados no exterior e demoraram a chegar no Brasil, como a Boneca Barbie, lançada em 1959 nos EUA e que chegou ao Brasil e 1982. Portanto, é difícil precisar a década do lançamento de cada brinquedo, mas você poderá conferir a seguir os brinquedos mais utilizados em cada década, ou na década que você viveu a sua infância.
– Década de 60: Bonecas Emília, Belinha e Susi. Jogo de Dominó, Quebra-cabeça, Bingo e Pebolin. Provavelmente você tenha brincado com Pinóquio, Topo-Gigio ou com um revólver com espoleta Ringo.
– Década de 70: Boneca Pepita, Fofolete e os bonecos Fofão e o Brutus. Vais lembrar dos carros pé-na-tábua, Autorama Fittipaldi e da Lancha Pop-pop (funcionava com uma velinha). Tinha ainda o Estrelão (jogo de botão), Forte Apache e o Chaparral. Genius – que estimulava a memorização das cores. Banco Imobiliário, Cubo Mágico e o Buggy Biruta.
– Década de 80: Bonecas Florzinha e os Bonecos Falcon e He-man. A Barbie e o seu namorado Ken chegaram ao Brasil e acabaram como reinado da Susi. Os jogos Cai-não-cai, Pinos mágicos, Playmobil, Aquaplay e Pogobol. Tinha também o Ar-tur, Tijolinho mágico, Florzinha que rebola e o Boca Rica. Nesta época se popularizaram as casas onde se pagava para jogar nos “fliperamas”.
– Década de 90: Se a sua infância foi neste época, você deve ter enlouquecido seus pais para cuidar de um “Tamagotchi” (bicho de estimação eletrônico) e se fantasiado de Power Rangers. Certamente você teve um “Tazo” e um “Fluffy”, aquela bola de borracha peluda. Quantas vezes você caiu de um skate? Jogou “Gulliver”, o futebol jogado em cima de um pano? Teve um boneco “Megazord” e os “Cavaleiros do Zodíaco” com suas armaduras e o “Comandos em Ação”? Montou um “Lego” com milhões de peças? Teve os bonecos “Bexiga e Farinha”? Lembra da “Mola Maluca”? Nos anos 90 foram relançados brinquedos antigos como o “Autorama Monza” e o “Vai Vem”. A Coca-Cola entrou no mercado com o seu “Ioiô” e os “Mini-craques”.
Quem teve ou está tendo sua infância no século XXI, brincou com eletrônicos desde o berço. Por um lado, vemos crianças brincando e olhando para alguma tela durante 8, 10, 12 ou mais horas por dia, movimentando apenas os dedinhos. Por outro, existe um movimento de incentivar as crianças a brincarem usando sua criatividade, correndo, pulando e principalmente, convivendo com outras crianças presencialmente. Espero que este movimento ganhe adeptos e que as crianças do século XXI sejam tão felizes como foram as das nossas gerações.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Malandros ou Incompetentes?

13 de setembro de 2015
Aline Malanovicz (*)
Os caras da consultoria em informática que estão implantando o novo sistema aqui na minha empresa convocaram uma reunião urgente hoje. Eles acabam de declarar que o prazo previsto no cronograma inicial do projeto vai ter que ser ampliado em seis meses. A reunião teve muito bate-boca, contestação, pedidos de explicações, explicações razoáveis, explicações capengas, pedidos de desculpas, desculpas aceitas, desculpas inaceitáveis, e resultou em muita gente com aquela expressão facial de torcer o nariz. Evidentemente, ninguém ficou satisfeito com a notícia.
Por que é que todos os projetos demoram mais do que o previsto, custam mais do que o previsto e, ainda por cima, resolvem menos do que o previsto? Dizem que a explicação para isso é que São Murphy está sempre vigilante. Sabe Murphy? O cara da famosa “Lei de Murphy”? Pois é… “Tudo que tiver uma possibilidade, ainda que muito pequena, de dar errado… seguramente VAI dar errado”.
E assim parece ser a evolução de todos os projetos que eu conheço, conheci, participo ou participei. Os problemas são geralmente os mesmos: estimativas erradas, tanto de prazo, como de custo, como de escopo (quer dizer, as coisas que precisam ser feitas). Curiosamente, essas estimativas são sempre mais otimistas do que deveriam ter sido. Na hora de vender o projeto, os caras dizem que o desenvolvimento vai ser rápido, barato e bem feito, mas no decorrer do projeto, fica tudo ao contrário: demorado, caro e mal feito.
Em relação ao prazo, quando se estima desenvolver o projeto em, digamos, dez fases sequenciais de um mês cada, acabam acontecendo atrasos sucessivos e acumulados de pelo menos dez dias em cada fase. Imagine! Um cronograma inicial que previa dez meses de trabalho se transforma em outro de mais de um ano! Já dizem os manuais de gestão de projetos: “Estime o prazo. Agora some 30%. Agora some mais 10%, para garantir.” Esquecer essa regra pode ser ingenuidade. Mas não aplicá-la só pode ser malandragem.
Em relação aos custos, eles só vão aumentando, aumentando, aumentando… até estourar o orçamento. Cada fase do projeto tem os seus produtos a serem entregues. Cada produto a ser entregue tem o seu tanto de trabalho, que, por sua vez, tem o seu custo. Subestimar esse custo não pode nem mesmo ser chamado de ingenuidade, mas sim de incompetência. E informar para a empresa cliente um custo inferior ao que foi estimado de modo realista já se parece muito com a famosa “conversa de vendedor”.
E a qualidade? Bah, nisso nem se fala! Sempre estimam que sabem muito bem de que modo os sistemas precisam ser desenvolvidos, que sabem muito bem do que a empresa precisa. Mas, na verdade, não conhecem tão bem assim nem o sistema, nem as necessidades da empresa. Talvez essa parte do problema não seja devida puramente à malandragem. A estimativa de quantidade de trabalho a ser desenvolvida para os produtos a serem entregues é realmente difícil de medir. Mas desenvolver produtos que não atendem as especificações mínimas solicitadas já é incompetência. E tentar “empurrar” para a empresa cliente produtos nessas condições também já cheira a malandragem.
Das duas, uma: ou as consultorias de projetos são muito incompetentes, ou são muito malandras na hora de vender os projetos. O fato é que as estimativas feitas na fase inicial de planejamento são, frequentemente, erradas. E muito erradas. Resta saber se são assim porque os caras não sabem fazer um planejamento realista, ou porque fazem estimativas exageradamente otimistas intencionalmente, somente para fechar o negócio.
Eu desconfio que a segunda opção é a correta. Mas creio que também pode haver uma terceira: os projetos são assim porque São Murphy está sempre vigilante.
Publicado originalmente em “Recanto das Letras” – http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4188567
(*) Aline Malanovicz
Contato: malanovicz@gmail.com

Por que ir num evento científico?

– 6 de setembro 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Quem não é acadêmico, imagina que os eventos científicos reúnem experts e pesquisadores renomados, que apresentam as últimas novidades para profissionais experientes de determinada área. Em alguns poucos casos ainda é assim, mas hoje, a maioria dos eventos científicos, são frequentados por pesquisadores e alunos de pós-graduação que apresentam trabalhos para eles mesmos. Ou seja, não contam com a presença de profissionais do mercado, das empresas nem dos pesquisadores mais renomados da área. As agências de fomento, quando oferecem algum apoio, exigem que o participante apresente um artigo, como se isto fosse a coisa mais importante a fazer num evento científico.
Os eventos se multiplicaram e aumentou o número de artigos, que vão de resultados de teses e pesquisas importantes, ao trabalho de uma disciplina de mestrado ou um TCC de um aluno de graduação. Na lista dos autores do artigos, estão os nomes dos pesquisadores mais renomados da área, mas eles dificilmente aparecem no evento, pois o artigo é apresentado por um dos coautores. Quando este pesquisador renomado aparece para participar de um painel ou de um debate, ele se retira logo após encerrar sua participação. Eles são muito ocupados? Sim, mas talvez a principal causa seja o desinteresse por estes eventos.
O que fazer para reunir nos eventos científicos os principais pesquisadores da área e promover o convívio com os jovens pesquisadores e estudantes? Primeiro, para atrair a presença dos tais pesquisadores renomados, das figuras históricas da área, dos pesquisadores que estão no ápice da carreira e de tantos outros, é preciso que o evento proporcione um clima fraterno, onde estas pessoas tenham a oportunidade de reencontrar os amigos, de ter tempo e espaços de convivência para trocar ideias, para falar dos seus projetos e das fofocas acadêmicas. Poder jantar com uns amigos, almoçar com outros, tomar um café com o aluno deseja lhe entrevistar. Tudo isto faz com que as pessoas queiram ir e permanecer todo o tempo num evento.
Segundo: inovar! Eventos menores estão sendo mais inovadores e conseguido ser mais atrativos. O SIMPOI criou uma grade de programação diferenciada, com palestras ao meio dia. O Engema, ENAPEGS e tantos outros também possuem os seus atrativos. O EcoInovar, evento realizado em Santa Maria – RS, é um bom exemplo de como se pode inovar e bem acolher os participantes. Trata-se de um evento que reúne cerca de 400 pessoas, entre pesquisadores da região, alguns do centro do país e estudantes. Todo ano são convidados palestrantes do exterior e empresários da região. A inovação está no formato das reuniões, dos debates e na programação. A cada ano surgem novidades e novos temas. Em 2015, o EcoInovar propiciou, durante três horas, uma “vivencia da sustentabilidade”, levando os participantes para uma área rural e desafiando-os a realizarem tarefas que exigiam iniciativa, criatividade e colocar a teoria na prática. Ao final desta vivencia os participantes estavam todos cansados e felizes.
Acredito que nos próximos anos, o maior atrativo para alguém ir num evento científico não será o local, o hotel cinco estrelas ou a facilidade de acesso, mas o sim o clima fraterno, as inovações e as oportunidades que o evento oferecer para as pessoas conviverem. Em grandes eventos como o Academy of Management, as universidades, associações ou redes de pesquisas organizam, durante o evento, recepções para os seus membros, parceiros e amigos. Quanto mais tempo livre e atividades interativas tiver, maior será a atratividade do evento. Artigos e posters? Eles vão continuar sendo apresentados, mas isto representará uma pequena parte da programação do evento. As agências de fomento terão que atualizar os seus critérios para apoiar a participação dos pesquisadores em eventos científicos.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Leitor com a palavra

– 6 de setembro de 2015
Adriano Santos (*)
Felipe,
Estava aqui com os meus textos e elucubrações pensando como teria sido se eu tivesse conhecido o Foucault pessoalmente. No momento, ele se faz presente através dos textos e teorias sobre o discurso e há muitas coisas que gostaria de perguntar pessoalmente. Sem dúvidas eu conseguiria entender um pouco mais sobre o seu complexo pensamento. Não posso esquecer também que essa conversa deveria ser em francês, já que imagino que muita coisa tenha se perdido na tradução.
O que isso tem a ver com “Domingo” e francês e entender Foucault? Simples, no meio dos meus inacabáveis textos sobre discurso e sociedade, eu resolvo dar uma pausa nas leituras para relaxar um pouco, aí vejo um uma certa capa na minha frente dizendo “Até Domingo que vem”. Eis que o abro e começo a me deleitar com as histórias curiosas, divertidas e ao mesmo tempo que me fizeram pensar sobre alguns aspectos da vida. Pensei que se conhecesse um pouquinho do Foucault como eu te conheço (ou acho que conheço) eu entenderia os textos dele tão bem quanto entendi os teus.
Que a minha orientadora não me escute, mas acabei lendo o teu livro primeiro, hehe.
Gosto da maneira lúcida e metafórica em que tu escreves. Imaginar uma barata reclamando dos seus problemas com humanos foi algo sensacional. O que Kafka diria se tivesse lido o texto? Ou será que houve inspiração no Kafka?
No início do livro eu me identifiquei com as pessoas que perdem as coisas. Nunca sei onde estão as minhas chaves, tanto é que a Bárbara conseguiu uns ganchinhos que ficam do lado da porta para que eu não perca mais as chaves, principalmente no momento de sair para a UFSC. Além de ter dado boas risadas da tua amiga que “perdeu” a mala no aeroporto. Bom, isso acontece.
Um dos teus textos pode ser facilmente usado no meu projeto já que fala sobre interculturalidade que é justamente o que fala da Argentina. Sim, infelizmente somos vizinhos de costas para o outro.
Onde será que fica o Umbigo do mundo, hein? Acho que vou ter que visitar Boa Vista do Buricá, hehe.
Enfim, me diverti lendo o livro, ao mesmo tempo que ele me deixou muito pensativo, principalmente nas reflexões sobre saúde e sustentabilidade.
Parabéns pelo projeto e até um próximo livro.
Grande Abraço!
(*) Adriano Santos é mestrando em Língua Inglesa e Literatura na UFSC.
Contato: adrianosantosmg@gmail.com
Parabéns a você !

– 30 de agosto de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Quando eu vejo alguma coisa que não entendo, costumo pensar que isto ocorre por burrice minha ou porque aquilo está errado! Enquanto cantávamos o parabéns a você para uma amiga, me perguntei de vem o “é big é big, é hora é hora, rá-tim-bum, fulana, fulana”?
Fui pesquisar no tio Google e descobri que muita gente já escreveu sobre isto, e que eu ainda não sabia disto e nem da origem do parabéns a você. Fiz mais umas pesquisas e vejam só o que eu encontrei.
A melodia do “Parabéns a você” teve origem nos EUA, em 1875 e a letra originalmente era “Good Morning to All” (bom dia para todos). As autoras foram duas professoras primárias de Kentucky. Mais tarde, a melodia foi roubada por Robert Coleman que alterou a letra para “Happy Birthday To You”. Em 1933, uma irmã das autoras ganhou na justiça os direitos autorais. Desde então, cada vez que o parabéns a você toca no rádio, TV ou cinema, tem que pagar royalties. Dizem que a Warner, atual detentora dos direitos desta música, fatura 2 milhões de dólares por ano com o parabéns americano.
E o parabéns brasileiro? Na década de 30, os brasileiro cantavam a música em inglês. Foi então que um apresentador da Rádio Tupi, que detestava estrangeirismos, abriu um concurso para escolher uma canção de aniversário brasileira. Resultado, entre mais de cinco mil cartas, foi escolhia a música de Bertha de Mello, porque era uma das poucas que tinha quatro linhas diferentes. As demais repetiam a mesma frase quatro vezes, como na versão em inglês.
Sobre o complemento, cantado após o parabéns: “é big é big, é hora é hora, rá-tim-bum”, existem divergências sobre a sua origem. A versão original, e que é cantada até hoje por alguns, era: “é pique, é pique, é hora…”. Este bordão teria surgido entre universitários. O “é pique”, fazia uma alusão a um estudante conhecido como “pic-pic”, e o “é hora”, era o grito dos estudantes nos bares para avisar que a cerveja já estava gelada, pois tinham que esperar que a cerveja pedida ao garçom gelasse por cerca de meia hora nas barras de gelo. E o “ra-tim-bum”? Ora, depois de um animado “é pique, é hora” tinha que ter o fechamento do espetáculo, como a orquestra no circo. Portanto, o “rá-tim-bum” seria uma imitação de um som, a reprodução do som de instrumentos como a caixa que faz “tarará”, os pratos fazem “tim” e o bumbo faz “bum”: tarará-tim-bum, virou “ra-tim-bum”.
A versão mais bizarra do “ra-tim-bum” é de que “Ratibum” é uma palavra usada em rituais satânicos e que significa “eu amaldiçôo você”, por isto recomenda-se que nunca mais cantemos isto num aniversário. Segundo esta fonte, o Castelo Ratimbum significava “Castelo Amaldiçoado”. Não encontrei a origem do final do bordão: “com quem será, com quem será… Que o Fulano vai se casar? Vai depender, vai depender… Se a Fulana também vai querer…”.
O “big” ou “pique” pode ser uma diferença regional, mas existem diferenças maiores ainda. Os gauchos, não contentes com este parabéns, criaram o “parabéns gaudério”. Dimas Costa, radialista do Grande Rodeio Coringa criou e popularizou o parabéns crioulo: “Parabéns, parabéns / Saúde e felicidade / Que tu colhas sempre todo dia / Paz e alegria na lavoura da amizade”. Hoje, ele é um complemento, assim como é o Hino Riograndense, cantado depois do Hino Nacional em eventos no Rio Grande do Sul. Nos aniversários costuma-se cantar o “parabéns nacional” e depois o “parabéns gaucho”. A velinha do bolo queima quase toda de tanto parabéns.
O Parabéns da Xuxa sacramentou para os baixinhos o “é big, é big,…”. Mas se você tiver curiosidade para saber como é o parabéns a você em outras línguas, clique em http://www.arabeegipcio.com/2012/10/parabens-voce-em-arabe-egipcio.html . Vais ver que na maioria das línguas, o parabéns é apenas uma frase repetida três ou quatro vêzes. Na Espanha existem diferentes parabéns porque existem diferentes línguas no país. No país Basco o parabéns é “Zorionak!” e na Catalúnia é “Bon aniversari!”, e no restante da Espanha se canta “Feliz Cumpleaños!” Será que existe algum outro país no Mundo, com uma única língua e com dois “Parabéns a você”? Que outro povo seria tão bairrista quanto o gaúcho a ponto de cantar um parabéns regional? Se descobrir, me conte!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

De São Pedro a Santa Maria

– 30 de agosto de 2015
Luiz Antonio Slongo (*)
Certamente a grande maioria dos atuais habitantes da pequena cidade de São Pedro do Sul, localizada na região central do Estado do Rio Grande do Sul, vizinha a Santa Maria, nunca percorreu o trajeto entre as duas cidades pela “estrada velha”, de chão batido. E ainda bem. O traçado da antiga estrada tornava a distância até Santa Maria maior que os 37 km de hoje, percorridos pelo asfalto. A distância, pela estrada velha, era de mais ou menos 45 km, mas para percorrê-los de ônibus gastava-se um tempo até três vezes maior do que se gasta hoje pela estrada nova.
Os ônibus da época, se não estivesse chovendo, gastavam entre uma hora e meia e uma hora e quarenta e cinco minutos para fazer o percurso. Era preciso desviar muitos buracos e pedras, tomar muito cuidado com os animais, principalmente cavalos, bois e vacas, que nem sempre respeitavam o cercado das propriedades e invadiam a estrada. Havia também o problema do pó que subia da estrada quando o chão estava muito seco. Bastava cruzar com um carro, ou então permanecer alguns segundos atrás de outro e, pronto, a visibilidade reduzia-se bastante e a velocidade do ônibus também. Lembro-me que o pó da estrada, em alguns trechos, era de tom acinzentado e em outros trechos era avermelhado. As inúmeras paradas para embarque e desembarque de passageiros era outro fator que retardava a viagem. Certa vez, para quebrar a monotonia, contei 25 paradas do ônibus, entre Santa Maria e São Pedro.
Esses eram só alguns dos problemas enfrentados naquelas viagens. É bom nem relembrar os parabrisas quebrados e os pneus furados, ou cortados por pedras (e como furavam e se cortavam pneus naquela estada!). Quando ocorria um desses eventos, certamente haveria um atraso de, no mínimo, 30 ou 40 minutos na viagem.
Foi por esta estrada velha, enfrentando essas condições, que viajei diariamente durante os primeiros dois anos da faculdade de Administração que cursei na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Entre ida e volta por este trajeto eu gastava, portanto, cerca de três horas por dia. A lentidão e incertezas da viagem provocavam verdadeira tortura nas pessoas que precisam cumprir horário. Era o meu caso. Eu tomava o ônibus às 6:30 da manhã e precisava estar às 8:00 horas no centro de Santa Maria, onde funcionavam na época as Faculdades de Administração, Direito, Economia e Contabilidade. Da parada do ônibus, na Av. Presidente Vargas, até o prédio da UFSM na Rua Marechal Floriano, onde eu estudava, gastava-se mais uns 10 minutos, andando-se muito rápido. A viagem de volta não era diferente. Eu tomava o ônibus às 17:45, na mesma Av. Presidente Vargas, e precisava estar na escola onde eu lecionava em São Pedro do Sul às 19:30. Às vezes sobrava tempo para tomar um lanche antes da aula, às vezes não. O certo é que eu andava sempre atrapalhado com os horários e chegando atrasado aos compromissos.
Quando comecei a fazer o percurso diário São Pedro-Santa Maria-São Pedro pensava em aproveitar o tempo da viagem para estudar, revisando a matéria que recebia em aula, ou então preparando-me para as provas. Afinal eram três preciosas horas por dia. Logo percebi que para mim era impossível concentrar a atenção em qualquer tipo de leitura em tais condições de viagem. Passei então a conversar mais com as pessoas e a prestar mais atenção no comportamento delas como forma de ocupar o tempo. Assim, ouvi e presenciei, durante esses dois anos, muitas histórias. Algumas tristes, outras engraçadas, algumas outras que me deixaram preocupado, às vezes fazendo-me perder o sono. Selecionei três dessas para relatar aqui, deixando a critério do leitor a decisão de enquadrá-las nas categorias mencionadas.
Lembro-me que certa manhã, na localidade de Catanduva, a uns 15 km de São Pedro e 30 de Santa Maria, logo depois de passar a ponte do riacho do mesmo nome, embarcou uma senhora com vários filhos, talvez fossem seis ou sete. As crianças tinham várias idades, imagino que oscilando entre 10 anos e até menos de um ano, pois uma delas ainda estava no colo da mãe e aparentava não ter ainda condições de andar. O ônibus estava lotado, com muitos passageiros viajando em pé, como era comum acontecer naquelas viagens. A senhora precisou do auxílio de alguns passageiros que já estavam no ônibus para embarcar as crianças e depois para acomodá-las, em pé ou no colo de duas ou três almas de boa-vontade que se dispuseram a ajudar. Dá para imaginar que o tempo necessário para o embarque do grupo foi maior do que o normal, a contragosto do motorista e de muitos passageiros preocupados com o tempo da viagem.
A maioria das crianças chorava. As menores, que foram para o colo de estranhos, demandavam a presença da mãe, causando tumulto, desacomodando alguns passageiros que precisaram trocar de lugar para deixar as crianças viajarem mais próximas e irritando outros menos compreensivos, ou mais impertinentes. O fato é que, se a viagem já era difícil, neste dia ficou ainda pior.
Para alívio dos passageiros incomodados com a algazarra das crianças, a mãe puxou o cordão da campainha na primeira parada, logo ao entrar na cidade de Santa Maria, em frente à antiga Escola Técnica do Patronato, anunciando que queria descer. Com uma das crianças no colo e mais uma pela mão a mãe iniciou a caminhada pelo corredor congestionado do ônibus, deixando para trás os demais, que não conseguiam movimentar-se entre a massa de passageiros de pé. Os gritos e choro das crianças intensificaram-se, aguçando ainda mais a impertinência de passageiros e do motorista. A mãe tentou voltar várias vezes, mas só conseguiu resgatar mais uma ou duas das crianças deixadas pelo caminho, ficando as demais espalhadas pelo corredor do ônibus. Já fora do ônibus, na calçada da rua, a mãe precisou contar com a ajuda do motorista, o qual, abandonando seu posto, lançou-se entre os passageiros na busca das crianças retardatárias. O resgate da primeira até se deu com certo bom humor do motorista, procurando acalmá-la enquanto a levava no colo para fora do ônibus. Mas ao chegar lá pela terceira ou quarta criança, pressionado pelos passageiros que, ao mesmo tempo em que tentavam ajudá-lo, cobravam dele mais agilidade na operação, o motorista já não conseguia mais esconder sua profunda irritação. Ao entregar a última criança à mãe, ele esbravejou: “Por quê a senhora não deixa metade dos filhos em casa quando precisa pegar um ônibus?” A mulher, agora já mais calma com a presença de todos os filhos ao seu redor, entre um misto de indignação e constrangimento respondeu ao motorista: “Mas e o que você acha que estou fazendo moço”?
Outra vez embarcou, ainda em São Pedro, um gaúcho muito bem pilchado. Isso também era muito comum naquelas viagens, o que não causava, portanto, nenhuma estranheza aos demais passageiros. Mas o colorido das roupas deste, em particular, intrigou um grupo de adolescentes que também se deslocava diariamente a Santa Maria, onde frequentava um cursinho vestibular. O comportamento irreverente dos jovens não agradou ao elegante gaúcho, iniciando-se uma breve discussão entre ele e o grupo. Percebendo que a discussão tornava-se mais séria e temendo a reação do gaúcho, os estudantes mudaram-se para o fundo do ônibus, mantendo, assim, uma certa distância. Mas dentre os rapazes havia um que não estava conformado em ter que recuar frente à cara feia do rapaz das pilchas. Levantou-se e sorrateiramente sentou-se, por um instante, na poltrona imediatamente atrás a dele, gastando tempo suficiente para amarar as franjas do pala do incauto aos pés do banco, onde este estava sentado.
Acabada a travessura, o valentão voltou para o fundo do ônibus onde foi recebido pelos demais com apupos de “nosso herói”. O riso alto do grupo chamou a atenção dos demais passageiros e, obviamente, da própria vítima, que chegou voltar-se para trás, mas acabou não desconfiando de nada, provavelmente imaginando até que o grupo havia escolhido agora outro alvo para suas brincadeiras.
Refeitos da euforia inicial, provocada pela bravata do companheiro, os rapazes do cursinho entraram primeiro em estado da preocupação e, logo a seguir, em estado de pânico, imaginando do que seria o gaúcho capaz ao constatar a humilhação à qual fora submetido. Era óbvio que ele atribuiria a autoria da brincadeira de mau-gosto ao grupo e que, dada a própria reação que, por muito menos, demonstrara minutos antes, não levaria tamanho desaforo para casa. Para evitar o pior, era preciso, portanto, descer do ônibus antes que o gaúcho o fizesse. Para não correr nenhum risco, desceram bem antes que o ônibus entrasse na cidade. Ao saltar do ônibus, agora mais seguros por sentirem-se fora do alcance do achacado, ainda tiveram tempo de acenar para ele, com gestos que, por questões de censura, não podem ser aqui descritos. Provavelmente, neste dia, o grupo chegou atrasado às aulas do cursinho, se é que algum deles conseguiu chegar até lá.
Confesso que neste dia pareceu-me ter o grupo de rapazes ido longe demais com a brincadeira. Não me sentia com o espírito preparado para presenciar a cena que estava prestes a acontecer. Estava pensando em eu também descer uma parada antes, mas não tive tempo de fazê-lo; o gaúcho puxou antes a campainha. Pensei comigo, agora seja lá o que Deus quiser.
O ônibus não tinha ainda parado completamente quando o rapaz fez a primeira tentativa para se levantar, sendo violentamente puxado de volta para a poltrona. Fez mais uma ou duas tentativas, recebendo como resposta o mesmo golpe contrário que o jogava de volta à posição de origem. Tentou então puxar o pala com uma das mãos, depois com as duas mãos, mas não teve jeito. Precisou sair por baixo do pala, expondo-se a uma posição ridícula diante dos demais passageiros. Só então, fora da poltrona e livre do pala, foi que percebeu a peça que lhe haviam pregado. Procurou com os olhos por algum dos algozes, mas não encontrou mais nenhum no interior do ônibus. Num primeiro instante, seu rosto tornou-se amarelo e gradativamente foi mudando para um tom rosado, até atingir um roxo avermelhado.
Enquanto esbravejava, escorria-lhe pelos dois cantos da boca uma espuma esbranquiçada. De pé, puxava o pala com as duas mãos e cada vez com mais força, até que o tecido rompeu-se de uma só vez, fazendo-o cair sentado no colo de uma senhora que ocupava a poltrona do lado oposto do corredor. Com o pala dilacerado nas mãos, dentes cerrados e voz embargada, o gaúcho xingava a mãe, as irmãs e até a avó dos rapazes. Percebendo que suas palavras eram em vão, pois eles já não estavam mais presentes, começou a ofender os passageiros que, por ventura, fossem parentes, amigos, ou que apenas apoiassem aquela malcriação dos rapazes, pedindo por favor que se apresentassem para apanhar em lugar dos mal criados. Como não se apresentasse ninguém e percebendo que alguns, mesmo disfarçadamente riam da sua desgraça, desafiou qualquer homem que ali estivesse para brigar. O gaúcho estava realmente decidido a buscar vingança, fosse lá de que forma fosse. Nessas alturas o ônibus já estava parado há uns 10 minutos, com o motorista e mais dois ou três voluntários mais corajosos tentando negociar a retirada do gaúcho. Mas ele estava irredutível. Não deixaria o ônibus sem uma saída honrosa para o seu caso. Alguns passageiros desembarcaram ali mesmo para não perder mais tempo, outros pediam ao motorista que os levasse até o final da viagem e lá resolvesse o problema, chamando a polícia, ou tentando localizar os pais dos garotos em São Pedro. Mas isso não interessava à vítima. Ela queria o problema resolvido ali e agora.
Cerca de vinte minutos depois do início da discussão, levantou-se um senhor, que era proprietário de uma loja de roupas em São Pedro e entregou ao rapaz o seu cartão, pedindo que ele lhe procurasse na loja, no dia seguinte, que lá ele lhe daria um pala novo, igualzinho o que fora danificado, sob a condição de que ele deixasse o ônibus seguir viagem. Um pouco mais calmo e também ele próprio já cansado daquela situação, o gaúcho aceitou a proposta, mas impôs algumas condições: o pala danificado deveria ficar com o dono da loja, pois ele não gostaria de ser depois acusado de tentar levar vantagem da situação, ficando com os dois palas. A outra condição foi de que o custo do pala novo fosse cobrado dos pais dos garotos, pois ele não achava justo que o lojista levasse o prejuízo. Aceitas as condições, o rapaz desceu do ônibus e ia já se afastando, quando voltou correndo, agarrando-se à porta do ônibus, fazendo-o parar novamente. Com meio corpo fora do ônibus e meio corpo dentro, queria agora saber a razão pela qual o senhor da loja havia feito aquilo, afinal ninguém que não fosse parente, ou conhecido muito próximo dos garotos teria se prontificado a comprar tal briga. Alegava também que se o dono da loja concordara em cobrar dos pais dos garotos o pala novo, era porque os conhecia e, portanto, era de certa forma cúmplice daquela patifaria. A esta nova investida os demais passageiros reagiram e em massa exigiram que o motorista fechasse a porta do ônibus a desse a partida, deixando o gaúcho esbravejando sozinho no meio da rua.
A última história que selecionei para contar aqui foi, certamente, a mais constrangedora que presenciei durante aquelas viagens, não tendo eu à época, achado graça nenhuma. Mas ela certamente tem também lá sua verve e acho que é digna de ser relatada.
Não sei se em função do curto trajeto da viagem, ou porque na época fosse considerado um luxo desnecessário, os ônibus não tinham toalete a bordo. Quando alguém enfrentasse alguma situação de necessidade extrema, era preciso parar o ônibus e procurar abrigo debaixo de uma ponte, ou no mato à beira da estrada. Foi o que aconteceu certa vez com um senhor, que aparentava mais ou menos 60 anos e deveria ser um pequeno agricultor da região. No meio da viagem levantou-se segurando a barriga com as duas mãos e levemente inclinado para a frente. Dirigiu-se até o motorista e falou-lhe baixinho ao ouvido, certamente relatando sua situação e pedindo que parasse o ônibus imediatamente, ao que foi prontamente atendido. Quase correndo o homem saiu do ônibus, procurando com os olhos algum abrigo, ponte ou mato próximo, só encontrando alguns arbustos. Escolheu então um que lhe pareceu o mais denso e agachou-se, escondendo o corpo só pela metade.
Percebendo a situação vexatória em que se encontrava o passageiro detrás daquela moita e para respeitar o senso de pudor de alguns dos que estavam no ônibus e evitar que o espírito gozador de outros se pronunciasse, o motorista resolveu avançar um pouco o ônibus com a intenção de, pelo menos, atrapalhar um pouco a exposição do grupo de expectadores àquela cena dantesca. Ao perceber que o ônibus se movimentava, o homem imaginou que iriam deixa-lo, levantando-se bruscamente, sem finalizar o que havia começado. Com uma das mãos segurava a calça, que estava na altura dos joelhos e com a outra acenava desesperado, gritando para o motorista que o esperasse.
Sem alternativa, o motorista achou melhor parar, esperando que assim ele retornasse para detrás da moita e se recompusesse antes de voltar a bordo. Mas o homem não entendeu assim. Subiu os degraus do ônibus ainda fechando o cinto. Antes que tivesse tempo de sentar-se, houve uma correria dos passageiros que estavam mais próximos à sua poltrona, a procura dos lugares vagos mais distantes. Ao redor dele abriu-se um clarão, tendo ele viajado até Santa Maria num verdadeiro isolamento.

(*) Luiz Antonio Slongo é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: luiz.slongo@ufrgs.br
Fora o Presidencialismo !

Luis Felipe Nascimento (*)
– 23 de agosto de 2015
Nas manifestações ocorridas em 2015 o que mais se viu foi “Fora Dilma”, “Fora Lula”, “Fora PT”. No Rio Grande do Sul foram incluídos “Fora Sartori” (Governador) e “Fora Piffero” (Presidente do Internacional). Algumas pessoas são favoráveis e outras são contra as manifestações.
A política, assim como o futebol, tem muita paixão e pouca memória. Muitos dos que são favoráveis ao “Fora Dilma”, eram contra o “Fora Collor” e ao “Fora FHC”. E muitos dos que hoje são contra o “Fora Dilma”, eram favoráveis ao “Fora Collor” e “Fora FHC”. Eu sei, eu sei… alguém vai dizer que “agora é diferente”. Na verdade, todos foram eleitos democraticamente e todos tinham/tem algum motivo para serem destituídos do cargo. Mas não basta ter um motivo, no presidencialismo a retirada de um presidente do cargo é um ato de força, que pode a levar a crises ainda maiores.
Qual o motivo que justificaria o impeachment de um presidente? Algo muito grave, como roubar dinheiro público! Será que todos presidentes, governadores e prefeitos que roubaram, sofreram impeachment? E mentir, ou não cumprir o que prometeu na campanha, seria motivo para impeachment? Isto não! Isto “é normal!” Afinal, são muito poucos os candidatos eleitos que cumprem o que prometeram!
No sistema presidencialista, o presidente eleito pode esquecer os compromissos de campanha ou até mesmo fazer o contrário do que prometeu. Curioso também é o comportamento da oposição diante destas situações. A Dilma criticou o programa econômico do Aécio durante a campanha. Ao se eleger, adotou os fundamentos do programa do Aécio. E o que fizeram o Aécio e o PSDB? Votaram contra as medidas propostas pela Dilma. Não conseguiu entender? Eu também não! É assim mesmo, a oposição, seja agora ou na época do FHC, Collor, etc, vota contra as propostas do executivo, mesmo que as propostas que estão sendo votadas sejam as suas, as do programa do seu partido.
Ouvi uma entrevista do presidente de um clube de futebol dizendo que o sistema no clube é presidencialista e portanto, quem manda é ele. Ou seja, os vice-presidentes eleitos e o conselho “deliberativo”, também eleito, não mandam nada. Na prática é assim que funciona! O presidente do clube de futebol decide qual o técnico que vai contratar e quando vai despedi-lo, que jogadores vai comprar e quais vai vender. Se a torcida não gostar, aguarde até o final do seu mandato. Para presidente do país, governador ou prefeito, a situação é muito semelhante, não gostou da atual gestão, engula os atuais governantes por mais 3,5 anos e vote num candidato da oposição na próxima eleição!
Lembram que em 1993 o Brasil fez um plebiscito para decidir entre o presidencialismo e o parlamentarismo? Lembram do Brizola, com a bandeira dos EUA ao fundo, defendendo a “maior democracia do Mundo”? Lula entendia que o parlamentarismo era um golpe dos que queriam evitar que ele fosse presidente. Foram feitas muitas piadas como a de que “na Inglaterra o sistema é parlamentar e no Brasil é para lamentar”. Resultado: o presidencialismo venceu com 69% dos votos válidos, muito mais pelo interesses dos candidatos da época, do que por ser considerado o melhor sistema para o Brasil.
Onde predomina o Presidencialismo no Mundo? Nas Américas, com exceção do Canadá, em parte da África e da Ásia. A grande referência do presidencialismo são os EUA, onde as eleições são indiretas e o candidato que receber mais votos, nem sempre é o eleito, pois depende do número de delegados de cada estado. Na prática, são dois partidos que se alternam no poder, e quando um partido ganha uma eleição por poucos votos de delegados, não se diz que o país saiu “dividido” das eleições. Ganhou, levou! Mesmo que a cédula seja em papel, com uma lista confusa e que exista suspeita na contagem de votos. Ah! E mesmo que o juiz da Flórida que julgou o pedido de anulação da eleição do Bush no Estado, fosse parente do candidato eleito. E se o presidente eleito mentir, inventar uma guerra, jogar o país numa crise econômica? Nada disto justifica um impeachment! Portanto, não vejo os EUA como um exemplo de sistema de governo e nem como a melhor forma de escolher os candidatos.
O Canadá, Europa, Japão, Austrália, Nova Zelândia, entre outros, adotam sistemas parlamentaristas e monarquias onde o poder é exercido pelo parlamento. Quando existe uma crise e o primeiro ministro perde a confiança do parlamento, ele é substituído por outro, sem maiores traumas, não é necessário esperar mais 3,5 anos até o final de um mandato do presidente, governador ou prefeito.
No sistema presidencialista, o governante pode permanecer no governo tendo minoria no parlamento, sem conseguir aprovar os seus projetos. Quem perde? Todos! Pois o executivo não consegue implantar os seus projetos e fica só aguardando o final do mandato. No parlamentarismo, se o executivo e o legislativo não se entenderem, serão convocadas novas eleições gerais. O povo é quem dirá se o executivo estava certo ou não, ao votar em candidatos da situação ou da oposição. Ou seja, nem o executivo e nem o legislativo tem prazo de validade, tudo depende dos resultados.
Passados 22 anos do tal plebiscito, o Brasil é outro, tem mais celulares do que habitantes e em pouco tempo quase todos terão acesso a internet. A tecnologia nos permite saber o que está sendo votado no parlamento e quem está votando em quê? É verdade que hoje poucas são as pessoas que se interessam em saber, pois elas não tem quase nenhum poder de influência sobre os seus candidatos. Por falar nisto, você lembra em quem votou na última eleição para vereador, deputado estadual e federal?
Por tudo isto, penso que as manifestações nas ruas deveriam propor um “Fora o Presidencialismo”, em nível federal, estadual, municipal, e “Fora o atual sistema de escolha dos nossos representantes”. No meu ponto de vista, a retomada da confiança na política (quer queira ou não, é a política que define as prioridades, para onde irá a economia, a educação, a segurança, a saúde, etc), passa pela mudança na forma de escolha dos nossos representantes e do sistema de governo. Sou defensor do voto distrital e do sistema parlamentarista. Podemos aprimorar o parlamentarismo que já existe em outros países e, usando a tecnologia, poderemos democratizar o acesso a informação e ao controle da gestão. Caso contrário, vamos continuar com o “fora fulano”, depois será o “fora beltrano” e não se avança, não se aprimora a democracia.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Desgoverno nos Trópicos?

Téo – Armindo dos Santos de Sousa Teodósio (*)
– 23 de agosto de 2015
As reivindicações nas ruas brasileiras despertaram o debate sobre a eficiência do governo na prestação de serviços. Uma das tendências mais importantes das últimas décadas para promover a “reinvenção” dos governos é a descentralização de políticas públicas, estratégia que permitiria ao cidadão acompanhar mais de perto as ações dos órgãos governamentais locais. No entanto, é importante atentar para os dilemas e impasses que se apresentam para as iniciativas de modernização da gestão governamental.
Não se trata de desconstruir o esforço de redemocratização do país, principalmente através da participação popular e da descentralização, mas sim de entender as configurações que esses esforços de modernização podem adquirir diante da inconsistência de planejamento, clientelismo, corporativismo e assistencialismo.
É preciso entender, para além dos simplismos e do discurso gerencial salvacionista, que novas propostas de condução de políticas públicas não são dicotômicas, ou seja, descentralização não implica necessariamente em redução da centralização, participação popular requer “poder de príncipe” do gestor público, estímulo à competição por recursos baseada no mérito requer garantias de direitos aos desorganizados e destituídos de poder econômico, político e cultural.
Devemos mirar as linhas tênues que separam planejamento central de autoritarismo tecnocrático e demandas comunitárias do esfacelamento das políticas, pode-se perder de vista o fato de que articulação da sociedade civil nas políticas públicas não se faz em detrimento do poder do Estado.
Guerras fiscais entre os estados da federação e até mesmo entre municípios, “prefeiturização” de conselhos municipais, dominância tecnocrática na relação do Estado com as comunidades e premiação constante apenas de ONGs altamente estruturadas são exemplos de como traços históricos das políticas públicas brasileiras, como o insulamento burocrático, clientelismo e corporativismo podem adquirir novas roupagens dentro das propostas de modernização.
Esses são desafios que se apresentam a todos nós brasileiros nessa complexa equação, tão necessária a um Estado que precisa ser mais eficiente, ao mesmo tempo em que se torna mais democrático e justo para todos.
(*) Téo – Armindo dos Santos de Sousa Teodósio é Professor na PUC-Minas
Contato: armindo.teodosio@gmail.com
O plágio das religiões

– 16 de agosto de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Quem foi criado numa família cristã ou conhece um pouco do Cristianismo, imagina que a história de Jesus Cristo seja verdadeira e original. O documentário “Zeitgeist – a maior história já contada” tem uma outra versão, que é de arrepiar os cabelos dos cristãos. Segundo este documentário, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Qyy6lRXvYFM , há cerca de dez mil anos antes de Cristo as civilizações adoravam o sol e já tinham conhecimentos de astronomia e astrologia. A cruz do Zodíaco é apresentada como uma das mais antigas figuras conceituais da humanidade e representa o trajeto do sol pelas 12 maiores constelações no decorrer de um ano. Ela representa também os 12 meses do ano, as quatro estações, o início de cada estação demarcados pelos equinócios de outono (20/21 mar.) e da primavera (22/23 set.) e pelos solstícios de inverno (22/23 jun.) e de verão (22/23 dez.). Nos solstícios ocorrem a noite e o dia mais longo do ano. No hemisfério norte as estações estão invertidas, sendo que em 22/23 de dezembro é a noite mais longa e, a partir de então, os dias vão se tornando maiores.
Os registros históricos mostram que as antigas civilizações personificavam os mitos. O sol era considerado deus, provedor e mantenedor da vida, salvador da humanidade. Lá por volta de 3 mil anos antes de Cristo (a.C), no antigo Egito, o deus sol chamava-se “Horus” e tinha como inimigo “Set”, que representava a escuridão e a noite. Todas as manhãs Horus vencia a batalha contra Set, ao passo que a noite, Set mandava Horus para as trevas. As dualidades mitológicas mais conhecidas eram a da “luz versus trevas” e do “bem contra mal”.
Curioso é que história de Horus, contada há cerca de 5 mil anos, nos parece muito familiar: Horus nasceu em 25 de dezembro e era filho da virgem Isis-Meri. O seu nascimento foi acompanhado por uma estrela, que foi seguida por três reis. Ele era uma criança-prodígio, aos 12 anos ele se tornou mestre e aos 30 anos foi batizado por Anup, quando então inicia o seu reinado. Horus tinha 12 discípulos, com quem viajava fazendo milagres, curando doentes e era capaz de caminhar sobre as águas. Horus era conhecido também como filho de deus, o bom pastor, o cordeiro de deus, etc. Depois de ser traído por Tifão, Horus foi crucificado e enterrado, tendo ressuscitado no terceiro dia.
Uma história muito semelhante a de Horus ocorreu na Índia (900 a.C), onde Krishina nasceu da virgem Devaki e teve uma estrela sinalizando a sua chegada. Ela operou milagres com seus discípulos e ressuscitou após a morte.
Na Grécia (500 a.C), Dionísio nasceu em 25 de dezembro, filho de uma virgem. Ele era professor, operou milagres tais como a transformação da água em vinho e era tido como o rei dos reis, o único filho gerado por deus.
Na Pérsia (1200 a.C), Mithra nasceu em 25 de dezembro, filho de uma virgem, teve 12 discípulos que faziam milagres. Quando morreu, foi enterrada e ressuscitou no terceiro dia. Era conhecida como a verdade, a luz, entre outros nomes. Domingo era o dia de adoração de Mithra.
Mas por que todos estes deuses, assim com Jesus Cristo, nascem em 25 de dezembro, são filhos de uma virgem, possuem 12 discípulos, morrem e ressuscitam no terceiro dia?
Segundo o documentário Zeitgeist, a explicação disto tudo está no céu. Foi olhando para o céu que o homem inventou tais histórias. Por exemplo, a estrela mais brilhante no céu é Sirius. No dia 25 de dezembro ela se alinha com outras três estrelas brilhantes e apontam para o ponto do horizonte onde nasce o sol. Estas três estrelas brilhantes formam o cinturão de Órion, conhecidas por nós como “Três Marias”, e que antigamente eram conhecidas como os “Três Reis”. Ou seja, os “Três Reis” seguem Sirius até o local do nascimento do salvador, o Sol.
E porque os messias nascem de uma virgem? A explicação seria de que a constelação “virgu”, que é a única figura feminina entre as constelações do Zodíaco. Virgu em latim significa “virgem”. Virgem era a figura do céu mais simbólica e representava a inocência, pureza e a virtude.
No hemisfério norte, em 22 ou 23 de dezembro ocorre o solstício de inverno (noite mais longa do ano). Na antiguidade acreditava-se que o sol morria no dia 22 dezembro, pois era o dia mais curto, onde ele atingia o ponto mais baixo no céu. Durante três dias o sol fica próximo ao Cruzeiro do Sul, a constelação que tem o formato de uma cruz. No dia 25 de dezembro, o sol se move um grau para o norte e, a partir de 25 de dezembro, os dias começam a ter mais horas de sol. Por isto dizia-se que o sol morreu na cruz e ressuscitou três dias depois, trazendo calor e renascimento para a natureza. Mas, a celebração da ressureição ocorria no equinócio da primavera (20 ou 21 março), que corresponde a Páscoa, quando o sol fica mais forte do que a escuridão e o dia se torna mais longo.
Todas estas explicações surgiram no contexto do hemisfério norte, mas os mesmos mitos se repetiram no hemisfério sul. Os Incas adoravam o deus Sol, que se chamava Inti. A festa ao deus Inti ocorria em 24 de junho, nas proximidades do solstício de inverno do hemisfério sul. Se seguíssemos a mesma lógica do hemisfério norte, o Natal do hemisfério sul deveria ser em 25 de junho.
E por que o número 12 aparece tantas vezes na bíblia? Porque são 12 as constelações zodíacas por onde o deus sol viaja ao longo do ano.
As metáforas astrológicas e astronômicas continuam. As sociedades antigas já tinham conhecimento de que a cada 2150 anos se inicia uma nova “era”. O nascimento de Cristo marca o início da era de Peixes e em 2150 iniciará a era de Aquarius.
O documentário Zeitgeist afirma que a religião cristã é uma paródia da adoração ao sol e questiona a própria existência histórica de Jesus. Segundo outras fontes, existem inconsistências em algumas informações deste documentário, como por exemplo, o fato de que antes de Cristo o ano não tinha 12 meses e não existia o mês de dezembro. O calendário Gregoriano, que é o que seguimos hoje, foi criado em 1582 depois de Cristo. Ressalta-se que a Bíblia não afirma que Jesus nasceu em 25 de dezembro, mas que se celebra o seu nascimento neste dia. Ainda segundo estas fontes, argumenta-se que a “ressureição” não é um fato histórico. Ela representa a necessidade de justiça. Ou seja, o justo não pode ter o mesmo fim do que o injusto. A ressureição do líder representava o desejo dos seus seguidores de que ele continuasse agindo. Da mesma forma, a virgindade da mãe do salvador, o 25 de dezembro, os milagres, os 12 discípulos, tudo são interpretações e símbolos utilizados pelas religiões.
Na minha opinião, não importa se Jesus existiu de verdade ou não. Se a história do Cristianismo que nos contaram no catecismo é verdadeira ou não. Eu continuo acreditando que existe um Deus, com quem eu falo e que me protege. Ele pode ter a forma que tiver, mas a existência de uma força superior dá sentido a vida. Será que o ateu, numa hora de desespero, não pede ajuda para uma força superior? Acho que o homem precisa acreditar em Deus. Se fomos nós que criamos Deus ou se foi Deus que nos criou, não importa. Continuo tendo fé em Deus.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Loosing my Religion: Um cético saindo do armário

– 16 de agosto de 2015
José Carlos Lázaro da Silva Filho (*)
Um velho ditado diz “religião e política não se discute”. Nada mais conservador que isto. Nos tempos onde redes sociais virtuais provocam superexposição, imediatismo e mal interpretação, talvez fosse melhor seguir o ditado e se manter fora de discussões sobre estes temas para manter o convívio social plural. “Só que não!” (gíria do momento, dezembro de 2013).
Talvez seja melhor ter uma posição clara política, num momento de polaridade onde blogs contra o governo, contra os direitos humanos, a favor do governo, a favor de governos que não conhecemos bem, contra outros governos que não conhecemos bem. Mas também: “Só que não!”. Meu ceticismo me leva a duvidar tanto de informações da “grande mídia”, quanto de informações de “blogs chapa branca”. Notícia de ontem: “Governos ocidentais controlam a internet!”. Que “governos” cara-pálida? Como um cético penso num filtro pesado sobre tudo. Política está complexa, fluida. Ler Zigmunt Bauman torna-se necessário, ler filosofia torna-se necessário, mas esta não é a questão deste texto, apesar de para muitos política ser religião, o maniqueísmo do bem e mal. Mas o ceticismo leva a questões maiores, a “questão maior” que não se discute, à religião.
Uma das leituras mais impressionantes do último ano foi um livro já batido, de 2007(?) “Deus, um delírio”. de Richard Dawkins. Me considero a priori um “cético” no termo filosófico do ceticismo, mas a leitura de Dawkins ajuda a organizar o meu ceticismo religioso que começou com a minha “crisma” em um “convento” franciscano em Berlin, aos 35 anos, ouvindo sobre religião de um irmão teólogo octogenário. Neste “processo”, em uma sessão uma das pessoas em conversão comentou sobre o “Credo” (o mantra dogmático, parte essencial da um missa a igreja católica apostólica romana) e seu texto “longo” onde tem-se sobre “(…)creio na ressurreição da carne(…)”. Neste momento o velho irmão falou a pessoa algo como “isto são textos simbólicos” (em alemão).
Daí em diante, minha volta a frequentar a Igreja Católica tornou-se mais leve e clara, frente ao objetivo maior que era casar-se com uma católica polonesa, na Polônia, um país mais católico que o Vaticano (minha impressão!) – e um catolicismo “meio” antiquado.
Mas a frequência de um cético a missas é problemática. Sobretudo porque a maioria dos religiosos, leigos ou não, católicos ou não, pensam em palavras institucionais e dogmáticas como o “Credo” ou trechos da Bíblia são uma verdade real, e não simbólica. Reflexões sobre missas frequentadas após minha crisma me levam ao ceticismo da religiosidade. Aí entra leituras Dawkins, Freud (Futuro de uma ilusão), Nietzsche (“Deus está morto!”) e uma certeza, no limite de um cético se permite, que a religião é uma criação humana para suas necessidades psicológicas e sociológica. E daí emerge o agnosticismo ou a crença no deus einsteniano (o deus como o criador matemático do “Big Bang”). Minha raiz cética leva ao mesmo tempo duvidar da existência de deus figurativo, e duvidar da sua inexistência, ficando o agnosticismo de Huxley melhor que o ateísmo convicto de Dawkins. Lembrando Popper, mesmo achando que o cisne branco não é um deus, não posso negar a chance de um cisne negro que não conheço ser “um deus”. Dawkins me parece exagerar na sua certeza que não exista um deus einsteiniano e seu ateísmo convicto.
Mas o mais interessante disto tudo é uma questão provocante do livro de Dawkins onde o autor coloca que o agnóstico/ateu está para a (aceitação da) sociedade ocidental, como o homossexual nas décadas de 1950 (visão de Dawkins na perspectiva da sociedade norte americana), ou seja, ele é aceito se não for declarado (hoje no Brasil acho que ainda estamos neste estágio também para os homossexuais). Então voltamos ao tema “discutir religião”. Como “sair do armário” e colocar claramente sua posição de ser agnóstico, ou seja de não acreditar em um deus único e ligado a questões terrenas do dia-a-dia. Como viver o Natal, a Páscoa, e outros feriados como verdades únicas, mesmo sabendo que a maioria da população mundial não acredita e segue esta cultura religiosa (que é incoerente já entre culturas próximas, com seus presépios com elefantes ou vacas, suas ceias de natal diversas misturadas com tradições celtas da idade média). Mas, como não ser execrado em aniversário infantil por não balançar a mão “abençoando a criança em nome de Maria” (tradição Cearense).
Mas, sinceramente parei de balançar a mão em direção da criança nesta ladainha cultural, vou à missa na Polônia como evento cultural e como experiência sociológica (claro que não entendo a missa em Polonês, mas mantras são mantras, e … lá as missas são cheias de pessoas de todas as idades). Aos poucos vou juntando meu ceticismo, e até para simplificar vou liberando meu agnocitismo. Que venha o dia do “orgulho agnóstico” ou o “dia internacional dos agnósticos”.
“… creio na santa igreja católica (!!!!) …” só que não … seja com papa Francisco ou Ratzinger …
Como uma velha canção dos anos oitenta….
“that’s me in the corner (…) loosing my religion” (o recorte fica bom para uma letra complicada….)
(*) José Carlos Lázaro da Silva Filho é Professor na Universidade Federal do Ceará
Contato: lazaro.ufc@gmail.com
As dez pessoas que mais contribuem para melhorar o Mundo

– 9 de Agosto de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Pesquisando em sites e revistas, identifiquei a lista das dez pessoas que, ao longo dos últimos 2500 anos, ajudaram a construir um mundo melhor. A lista dos que se destacaram ao longo da história, foi reproduzida no Brasil pela Revista Super Interessante. Fiquei imaginando quem seriam as dez pessoas vivas, que pelo seu trabalho, mais contribuem para melhorar o mundo de hoje? Além de pessoas, temos muitas organizações que trabalham para melhorar o Mundo. Para quais destas pessoas e organizações você entregaria uma medalha ou um prêmio Nobel? Quais os critérios para a escolha? Siga os mesmos critérios escolha dos nomes que se destacaram ao longo da história, ou seja, pessoas que contribuíram para o avanço das ciências, da filosofia, na área da saúde, na luta pelos direitos das mulheres, das minorias, etc. Veja a lista publicada na Super Interessante (edição 322):
▪ Platão (427 C – 347 a.C, Grécia) – fundou a primeira instituição de ensino superior do mundo ocidental;
▪ Leonardo da Vinci (1452-1519, Itália) – Concebeu ideias muito a frente do seu tempo. Construiu um protótipo de um helicóptero, que virou realidade em 1907. Da Vinci fez estudos sobre o corpo humano, modelo de cidades, etc;
▪ Galileu Galilei (1564 – 1642, Itália) – Construiu o telescópio e fez descobertas científicas;
▪ Isac Newton (1642 – 1727, Inglaterra) – criou o cálculo e a teoria da gravitação universal e estruturou uma nova forma de ver o mundo;
▪ Olympe de Gouges (1748 – 1793, França) – Uma das primeiras feministas, elaborou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã;
▪ Charles Darwin (1809 – 1882, Inglaterra) – desenvolveu a Teoria da Evolução, uma nova visão sobre a origem da humanidade;
▪ Nikola Tesla (1856 – 1943, império Austríaco, hoje Croácia) – criou a corrente alternada, a lâmpada fluorescente, o controle remoto e o sistema precursor do rádio;
▪ Albert Einstein (1879 – 1955, Alemanha) – elaborou a Teoria da Relatividade e provou o entrelaçamento entre tempo, espaço, massa e gravidade;
▪ Alexander Fleming (1881 – 1955, Escócia) – descobriu a penicilina, o primeiro antibiótico bem sucedido da história;
▪ John von Neumann (1903 – 1957, Hungria) – criou as bases teóricas do computador digital. Os computadores de última geração ainda utilizam a lógica binária desenvolvida por Neumann.
Elaborei uma lista de 30 nomes de pessoas vivas (em julho de 2015) e de organizações que considero que contribuem para construir um mundo melhor. Você concorda com esta lista? Teria outros nomes para sugerir? Escolha 10 nomes desta lista, que na sua opinião, mais contribuem/contribuíram para melhorar o mundo de hoje. Depois compartilhe a sua opinião conosco, via Facebook, e-mail ou deixe seu comentário no blog da Coluna Dominical.
1.( ) Papa Francisco – o Papa mais popular e com ideias mais avançadas dos últimos tempos. Primeiro Papa da América Latina;
2.( ) Dalai Lama – Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama, título dado aos líderes religiosos do budismo tibetano;
3.( ) Barack Obama – é o primeiro afro-americano a ser presidente dos EUA. Criou o “SUS” Americano, conhecido como “Obamacare”;
4.( ) Angela Merkel – Primeira ministra da Alemanha e líder da União Européia. Segundo a Revista Forbes, é a segunda pessoa mais poderosa do Mundo e a mais alta posição já alcançada por uma mulher.
5.( ) Yunus – Muhammad Yunus – é o criador do microcrédito em Bangladesch, conhecido como “O banqueiro dos pobres”. Yunus afirma que é impossível ter paz com pobreza.
6.( ) Bill Gates – dono da Microsoft e apoia projetos contra fome, AIDs e malária na África
7.( ) Bono Vox – líder da Banda U2, apoia projetos contra fome, AIDs e malária na África
8.( ) Malaya Yousufzal – militante paquistanesa que levou um tiro na cabeça dos talebans por defender o direito dos jovens de irem a escolar;
9.( ) Gro Harlem Brundtland – popularizou o conceito de Desenvolvimento Sustentável. É política, médica norueguesa e líder internacional em Desenvolvimento Sustentável e saúde pública.
10.( ) Combatentes do vírus Ebola – A revista Time os escolheu como personalidades do ano de 2014 por terem se arriscado para salvar vidas. O Ebola matou mais de 11 mil pessoas.
11.( ) Médicos sem fronteiras – é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde às pessoas que mais precisam de forma neutra, independente e imparcial.
12.( ) Cruz Vermelha Internacional – uma das organizações mais respeitadas do mundo, tendo exercido um importante papel no desenvolvimento da proteção à dignidade humana desde sua criação.
13.( ) Green Peace – Uma ONG que completou 40 anos lutando pela paz, contra os testes nucleares, a exploração do Ártico, madança de baleias,etc.
14.( ) WWF –”Fundo Mundial para a Natureza” é uma ONG internacional que atua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental.
15.( ) Anistia Internacional – criada em 1961, em Londres, é ONG que luta contra as torturas, prisões políticas e execuções.
16.( ) Manifestantes do “Ocupe Wall Street” – movimento de protesto contra a desigualdade econômica e social, a ganância e a corrupção. Posteriormente surgiram outros movimentos “Occupy” por todo o mundo.
17.( ) Manifestantes da “Primavera Árabe” – uma onde de revoltas em 2010, provocada pelo desemprego e crise econômia em países árabes, que resultou na queda de ditadores.
18.( ) Criança Esperança – este é um dos programas sociais dirigidos às crianças carentes em todo o mundo. Promovido pela Rede Globo e Unesco.
19.( ) Jane Fonda – Nos anos 70 lutou contra a Guerra do Vietnã, por causas sociais e pelos direitos das mulheres. Tornou-se um exemplo de bons hábitos alimentares e prática regular de exercícios.
20.( ) Elizabeth Taylor – Foi pioneira no desenvolvimento de ações filantrópicas, levantando fundos para campanhas contra a AIDS
21.( ) Angelina Jolie – Embaixadora da Boa Vontade de ONU, coordena projetos em diversos países pobres.
22.( ) Leonardo DiCaprio – Militante, o ator já estrelou um documentário sobre a importância da sustentabilidade e tem, em seu site oficial, alertas sobre conscientização de problemas ambientais e de aquecimento global.
23.( ) Letícia Sabatella – é uma ativista incansável na luta pelos direitos dos indígenas, causas ambientais e politicas, sociais e direitos humanitários.
24.( ) Joanne Kathleen Rowling – autora da série Harry Potter. Quem consegue vender 400 milhões de livros para jovens, pode estar nesta lista?
25.( ) Richard Dawkins – biólogo e autor do livro “O Gene Egoísta”, que revolucionou os estudos sobre a evolução da espécie humana;
26.( ) Peter Higgs – Físico britânico considerado o pai do “Bóson de Higgs”, conhecida com a “partícula de Deus”.
27.( ) Stephen Hawking – é um físico teórico e cosmólogo britânico. Um dos mais consagrados cientistas da atualidade.
28.( ) Amartya Sen – Economista e filósofo indiano, conhecido pelos seus estudos sobre a fome. Prêmio Nobel de Economia em 1998.
29.( ) Noam Chomsky – professor de linguística do MIT, filósofo e ativista politico Americano. Critica fortemente a mídia e o consumismo.
30.( ) Zygmunt Bauman – sociólogo polonês, critico do consumismo, autor de livros como “Vida Líquida”.
Na sua opinião, quem são os dez nomes de pessoas vivas ou organizações, que mais contribuem para melhorar o Mundo? Compartilhe conosco.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Quietude da civilização humana

– 9 de Agosto de 2015
Ana Cristina Muller (*)
Interessante como podemos calar diante de tudo que não nos interessa diretamente e, diante do que nos interessa diretamente, ter atitudes que aliviam a consciência, mas não trazem resultado. Minha frase pode parecer dura, mas é apenas a constatação do momento que vivemos.
Minha inquietude é resultado das informações que a internet traz, de civilizações distantes e também da comunidade que está ao alcance dos meus olhos, mas com um olhar diferente. Uma noiva exibe seu maravilhoso diamante de noivado e, ao ser questionada se é africano, vindo daquela situação desumana de submissão e mutilação responder algo como “com certeza não” ou ainda “eu não participei de nada daquilo”; “não concordo com aqueles absurdos”. Infelizmente, usar a joia é tudo que ela precisava fazer, a razão do restante. Simples assim?? Sim, infelizmente, simples assim.
Estamos mais civilizados? Somos diferentes dos nazistas, das tribos africanas que mutilam, assassinam e outras tribos? Nenhuma resposta me satisfaz e digo por que: em qualquer cenário estamos consumindo os produtos que justificam aquelas barbaridades, sendo indiferentes a elas. Sei que é sutil, que passa desapercebido para a maioria das pessoas, que compram produtos que são denunciados por ONGs protetoras dos animais por fazer experiências absurdas; dos medicamentos que são testados em outras pessoas e nós, que recebemos a notícia maquiada, nos deslumbramos com a bondade da indústria farmacêutica.
Tudo tão distante de nós… será? Uma professora maravilhosa que tive em um curso de especialização comentou que na última enchente que houve em Santa Catarina (2008), grande parte das doações de roupas e calçados precisou ser descartada, em razão de estarem sem qualquer condição de uso. Obviamente que as pessoas precisavam receber roupas e calçados em condições de uso, mas muitos doadores entenderam ser a oportunidade ideal de tirar o lixo acumulado durante as últimas décadas.
Outro exemplo dos dias de hoje: o Arroio Dilúvio em Porto Alegre está em constante limpeza: A Prefeitura retira 5 cargas de lixo e arreia todos os dias. Infelizmente, o Arroio recebe 27 cargas, todos os dias. Cada vez que alguém joga algo na rua que vai parar no esgoto, está contribuído. Não importa se foi uma fez, essa única vez de cada um está construindo as 27 cargas diárias.
Olho para as pessoas ao meu redor e não reconheço as pessoas que convivem com essa dualidade. Recentemente assisti o filme “Jardineiro Fiel”. Uma das passagens marcantes foi a referencia de um médico europeu que ajudava uma tribo africana: “Só dou a comida para as mulheres Sr. Black, as mulheres fazem os lares. Os homens, as guerras … E bebidas”. Conheço diversos relatos de feministas que demonstram em números essa realidade. Precisamos sim de mais mulheres tomando decisões, mas de mulheres verdadeiras, que tenham ideais e metas, que estejam lutando por algo além dos seus próprios interesses.
Desejo de coração um despertar de todos nós, para que possamos juntos construir algo diferente e caminhar para a evolução da humanidade na direção de algo que possa ser chamado de civilizado.
(*) Ana Cristina Muller é Assessora Jurídica de uma grande empresa do segmento calçadista.
Contato: anacrismuller.igr@gmail.com

As pessoas só mudam mudando o Mundo

– 2 de agosto de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Os jovens conscientes da minha geração sonhavam com uma revolução. Hoje esta revolução se chama “mudar o mundo”. Editei e trago para vocês trechos de entrevistas com Fernando Meirelles, Frei Betto, Ricardo Abromovay, Drica Guzzi e Eduardo de Castro, que falam sobre a situação atual, o que é preciso para mudar o mundo e a visão de futuro. Estas entrevistas foram publicadas em “Caminhos para a Política Cidadã no século 21”, no site “Outras Palavras” http://outraspalavras.net/posts/e-mudando-o-mundo-que-a-gente-se-transforma/ que faz um jornalismo alternativo. Concordando ou não com estas ideias, vale a pena lê-las.
▪ Sobre os valores que norteiam nossa sociedade
Drica Guzzi – Estamos em um momento de mudanças. Começam a caber valores do coletivo, mais solidários ou mais conscientes dos “bens públicos globais”. A liberdade para empreender e criar toma lugar da estabilidade e segurança. A incerteza não imobiliza, gera a percepção de muitas possibilidades. Filhos estão mais preocupados em cuidar do planeta do que seus pais. A gente saiu de uma sociedade industrial que promoveu certos valores, mentalidades e comportamentos. Hoje, alguns comportamentos não servem mais. Não é inteligente consumirmos desse modo, essa conta não fecha.
▪ Participação política do cidadão brasileiro
Frei Betto – Diria que, no geral, o brasileiro se interessa pouco por política e acaba entrando no engodo dos políticos, que procuram passar o sentimento de nojo pela política. Quem tem nojo da política é governado por quem não tem. Tudo o que os maus políticos querem é que a gente tenha bastante nojo, para que fiquem à vontade nas suas maracutaias.
Drica Guzzi – Cada vez mais volta a existir essa micropolítica, pequenos grupos com interesses específicos que se mobilizam. De alguma forma, as instituições políticas da democracia representativa e do capitalismo financeiro não expressam mais as realidades emergentes das sociedades. E, então, o desinteresse pela esfera institucional é uma consequência. Não adianta só a população participar a cada quatro anos. Cada vez mais esses mecanismos de escuta precisam ser múltiplos, é muita informação. A capacidade de escutar, incluir a escuta no ciclo de uma política pública, e fazer devolutivas, também faz parte desse jeito de fazer política. A questão é, de novo, a transparência dos dados, uma governança mais colaborativa. Já não se trata mais de saber se é necessário ou não, mas sim quando e como os governos vão começar a implementar essa política. Ou entendem isso e saem na frente, ou vão ser atropelados.
▪ O que é preciso fazer para mudar?
Frei Betto – Haveria dois canais prioritários: primeiro as escolas, que são unidades políticas, mas não têm consciência disso. Elas acabam deixando seus alunos vulneráveis à mídia, principalmente à tevê e à internet, em termos de formação política. O segundo seria a própria mídia, se ela tivesse interesse em formar cidadãos. Mas a mídia tem interesse em formar consumistas, porque é movida pela publicidade. A cidadania tem um espírito crítico, e o espírito crítico é um antídoto ao consumismo.
Não adianta só sairmos nas ruas e gritar “abaixo a corrupção”. Qualquer pressão nesse sentido é positiva, mas insuficiente: a corrupção só vai acabar no momento em que houver mecanismos institucionais capazes de coibir e punir os corruptos e os corruptores. Falta essa consciência na sociedade brasileira.
Eduardo Castro – Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela.
▪ Mudar as instituições ou os indivíduos, o que se faz primeiro?
Frei Betto – A Igreja investiu durante séculos nessa utopia de que, mudando as pessoas, mudaríamos o mundo. Basta ver os colégios católicos, dos quais saíram notórios políticos corruptos. O método inverso foi tentado pelo socialismo soviético e não deu certo. Portanto, as estruturas e as pessoas mudam umas às outras. A questão não é o que vem primeiro, o ovo ou a galinha: são as duas coisas. As pessoas só mudam mudando o mundo.
E o Futuro?
Frei Betto – A curto prazo, minha visão é pessimista. Acho que a crise financeira vai se agravar, os miseráveis vão invadir cada vez mais o espaço dos ricos, dos que estão bem de vida – porque não há muro, não há polícia, não há lei que detenha o fluxo do mundo do pobre para o mundo do rico. É uma questão de sobrevivência, e quando se trata de sobrevivência a legalidade vem abaixo. Vão crescer os grupos de direita, os governos despóticos, os preconceitos, os fundamentalismos de ambos os lados. Isso tudo vai se agravar daqui para 2020. Não sei o que vai ser do futuro, mas talvez seja necessário passar por esse inferno para cair a ficha de que precisamos criar um novo modelo de sociedade.
Ricardo Abromovay – Há hoje plataformas em que as pessoas cooperam pelo prazer de cooperar. É curioso como partes dessa participação são voluntárias e partes são pagas, e as partes pagas não destroem as que são solidárias, e as solidárias não afastam as pagas. Por exemplo: a IBM é hoje uma empresa de prestação de serviços de informática que se apoia em software livre e comercializa produtos de software. Essa mistura entre o público e o privado será cada vez mais importante.
Fernando Meirelles – Quando penso em futuro sempre me sinto enganado. Prometeram que a tecnologia iria libertar o homem, dar-lhe mais tempo para cuidar do espírito e para o lazer, mas aconteceu o contrário. Viramos prisioneiros das máquinas. Antes eu saía do trabalho às 7 da noite e só voltava no dia seguinte. Hoje, conectado, me vejo respondendo emails e trabalhando em qualquer hora e lugar. Todo mundo recebe solicitações de trabalho durante o almoço, nos finais de semana. A tecnologia nos transformou em trabalhadores compulsivos. Nem nas férias nos desconectamos dessas maravilhas tecnológicas.
(*) Luis Felipe Nascimento é professor da Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
A normose acadêmica

– 2 de agosto de 2015
Renato Santos de Souza (*)
Doença sempre foi algo associado à anormalidade, à disfunção, a tudo aquilo que foge ao funcionamento regular. Na área médica, a doença é identificada por sintomas específicos que afetam o ser vivo, alterando o seu estado normal de saúde. A saúde, por sua vez, identifica-se como sendo o estado de normalidade de funcionamento do organismo.
Numa analogia com os organismos biológicos, o sociólogo Émile Durkheim também sugeriu como identificar saúde e doença em termos dos fatos sociais: saúde se reconhece pela perfeita adaptação do organismo ao seu meio, ao passo que doença é tudo o que perturba essa adaptação.
Então, ser saudável é ser normal, é ser adaptado, certo? Não necessariamente: apesar de Durkheim, do ponto de vista social, ser normal demais pode também ser patológico, ou pode levar a patologias letais.
Os pensadores alternativos Pierre Weil, Jean-Ives Leloup e Roberto Crema chamaram isto de Normose, a doença da normalidade, algo bem comum no meio acadêmico de hoje. Para Weil, a Normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte. Crema afirma que uma pessoa normótica é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria. E para Leloup, a Normose é um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação.
Estes conceitos, embora fundados sobre um propósito de análise pessoal e existencial, são muito pertinentes ao que se vive hoje na academia. Aqui, pela Normose não é apenas o indivíduo que adoece, que estagna, que deixa de realizar o seu potencial criador, mas o próprio conhecimento. E não apenas no Brasil, também em outras partes do mundo.
Peter Higgs, Prêmio Nobel de Física de 2013 disse recentemente que não teria lugar no meio acadêmico de hoje, que não seria considerado suficientemente produtivo, e que provavelmente não teria descoberto o Bosão de Higgs (a “partícula de Deus”) descrito por ele em 1964 mas somente comprovado em 2012, quase 50 anos depois, com a entrada em funcionamento de uma das maiores máquinas já construídas pelo homem, o acelerador de partículas Large Hadron Collider. Higgs contou ao The Guardian que era considerado uma “vergonha” para o seu Departamento pela baixa produtividade de artigos que apresentava, e que só não foi demitido pela possibilidade iminente de um dia ganhar um Nobel, caso sua teoria fosse comprovada. Ele reconheceu que, nos dias de hoje, de obsessão por publicações no ritmo do “publique ou pereça”, não teria tempo nem espaço para desenvolver a sua teoria. À sua época, porém, não só o ambiente acadêmico era outro como ele próprio era um desajustado, um anormal, uma espécie de dissidente que trabalhava sozinho em uma área fora de moda, a física teórica expeculativa. Então, sua teoria é também fruto desta saudável “anormalidade”.
A mim, embora não surpreendam, suas declarações soam estarrecedoras: ou seja, com os sistemas meritocráticos de avaliação de hoje, que privilegiam a produção de artigos e não de conhecimentos ou de pensamentos inovadores, uma das maiores descobertas da humanidade nas últimas décadas, que rendeu a Higgs o Nobel em 2013, provavelmente não teria ocorrido, como certamente muitos outros avanços científicos e intelectuais estão deixando de ocorrer em função dos sistemas atuais de avaliação da “produtividade em pesquisa”. É a Normose acadêmica fazendo a sua maior vítima: o próprio conhecimento.
Aliás, nunca se usou tanto a autoridade do Nobel para apontar os desvios doentios do nosso sistema acadêmico e científico como em 2013. Randy Schekman, um dos ganhadores do Nobel de Medicina deste ano, em recente artigo no El País, acusou as revistas Nature, Science e Cell, três das maiores em sua área, de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, ao usarem práticas especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Schekman menciona, por exemplo, a artificial redução na quantidade de artigos aceitos, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção dos mesmos e um absoluto descompromisso com a qualificação do debate científico.
Como estas estão entre as revistas mais bem avaliadas da área, são também as mais cobiçadas pelos pesquisadores. O próprio Schekman publicou muito nelas, inclusive as pesquisas que o levaram ao Nobel: diferentemente de Higgs, que era um dissidente, Schekman também já sofreu de Normose. Porém, agora laureado, decidiu pela própria cura e prometeu evitar estas revistas daqui para adiante, sugerindo não só que todos façam o mesmo, como também que evitem avaliar o mérito acadêmico dos outros pela produção de artigos. Foi preciso um Nobel para que se libertasse da doença.
A atual Normose acadêmica se deve à meritocracia produtivista implantada nas universidades, cujos instrumentos para garantir a disciplina e esta doentia normalidade são os sistemas de avaliação de pesquisadores e programas de pós-graduação, capitaneados principalmente pela CAPES e CNPq. Estes sistemas têm transformado, nas últimas décadas, docentes e alunos em burocráticos produtores de artigos, afastando-os dos reais problemas da ciência e da sociedade, bem como da busca por conhecimentos e pensamentos realmente novos. A exigência de produtividade é um estímulo ao status quo, obstruindo a criatividade, a iniciativa, o senso crítico e a inovação, pois inovar, criar, empreender, fugir ao normal pode ser perigoso, pode ser incerto, pode ser arriscado quando se tem metas produtivas a cumprir; portanto, não é desejável: o mais seguro é fazer “mais do mesmo”, que é ao que a Normose acadêmica condenou as universidades e seus integrantes.
Isto ocorre, em parte, porque o sistema meritocrático da academia funciona como uma burocracia. Aliás, como bem ensinou Max Weber, a burocracia é uma força modeladora inescapável quando se racionaliza e se regulamenta algum campo de atividade, como acontece no sistema científico atual. Para supostamente discriminar por mérito pessoas e organizações acadêmicas, montou-se um tal sistema de regras, critérios avaliativos, hierarquias de valor, indicadores, etc., que a burocratização das ações acadêmicas tornou-se inevitável. Agora é este sistema que orienta as ações dos acadêmicos, afastando-os de seus próprios valores, desejos e convicções, para agirem em função da conveniência em relação aos processos avaliativos, visando controlar os benefícios ou penalidades que eles impõem.
Pessoas sob regimes de avaliação meritocráticos se tornam burocratas comportamentais; e burocratas, pela primazia da conformidade organiozacional a que se submetem, tornam-se inexoravelmente impessoalistas, formalistas, ritualistas e avessos a riscos e a mudanças. Tornam-se normóticos, preferindo, no caso da academia, uma produção sem significado, sem relevância, sem substância inovadora porém segura, a aventurarem-se incertamente em busca do novo.
De certa forma, todos na academia sabem que estes sistemas de avaliação acadêmicos têm levado a um produtivismo estéril, mas isto não tem sido suficiente para mudar nem as condutas pessoais, nem as diretrizes do sistema, porque a Normose é uma doença coletiva, não individual. Ela advém da necessidade de legitimação do indivíduo frente ao sistema de regras, normas, valores e significados que se impõe a ele. Por isto é que o pesquisador australiano Stewart Clegg afirmou, certa vez, que “pesquisadores que buscam legitimação profissional podem com muita facilidade ser pressionados a aprender mais e mais sobre problemas cada vez mais desinteressantes e irrelevantes, ou a investigar mais e mais soluções que não funcionam”.
Num cenário assim, pouco adiantam as advertências da editora-chefe da revista Science, Marcia McNutt, publicados no Estadão, de que a ciência brasileira precisa ser mais corajosa e mais ousada se quiser crescer em relevância no cenário internacional. Segundo ela, para criar essa coragem é preciso aprender a correr riscos, e aceitar a possibilidade de fracasso como um elemento intrínseco do processo científico. Mas quando as pessoas são penalizadas pelo fracasso, ou são ensinadas que fracassar não é um resultado aceitável, elas deixam de arriscar; e quem não arrisca não produz grandes descobertas, produz apenas ciência incremental, de baixo impacto, que é o perfil geral da ciência brasileira atualmente, segundo ela. É a Normose acadêmica “a brasileira” vista de fora.
Somos todos normóticos em um sistema acadêmico de formação de pesquisadores e de produção de conhecimentos doente, e nossa Normose acadêmica tem feito naufragar o pensamento criativo e a iniciativa para o novo em nossas universidades. Sem eles, porém, não há futuro para a vida intelectual dentro delas, nem na ciência nem nas artes.
(*) Renato Santos de Souza é Professor na UFSM
Contato: renatosdesouza@gmail.com
O Gaúcho que virou Sapo

– 26 de julho de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Porto Alegre passou várias semanas sob chuvas intensas, o que mudou não apenas a paisagem, mas também o comportamento de algumas pessoas. Depois de ter sua casa inundada pelas águas, um morador de Porto Alegre resistiu o quanto pode, até que a Defesa Civil o forçou para deixar a sua casa. Mas, ao invés de ir para um abrigo, o morador mudou-se para uma ilha no Lago Guaíba, onde está vivendo como um sapo.
O comportamento do gaúcho chamou a atenção dos biólogos que passaram a monitorá-lo. Dizem os especialistas que ele já desenvolveu pequenas nadadeiras entre os dedos dos pés e das mãos e que a chuva não mais lhe incomoda, uma vez que todos os anos a sua casa vinha sendo inundada.
Na beira do Lago, o gaúcho toma chimarrão acocorado e mantém o bom humor, mas com uma risada um tanto estranha. Em vez de soltar um “ka-ka-ka”, ele parece coaxar fazendo “quá-quá-quá”. Ele diz que tem tudo o que precisa na ilha, pois pelas águas do Guaíba descem todos os tipos de produtos: alimentos, roupas e até móveis.
Um profeta gaúcho discorda dos meteorologistas e diz que foi Porto Alegre que provocou esta situação. Segundo ele, a cidade batizou o principal arroio de “dilúvio”, deu o nome a uma rua distante da água de “praia de belas” e, no bairro “navegantes” criou o “porto seco”. Além disto, construiu um muro para separar a cidade das águas do Guaíba, e seus habitantes zombam das enchentes usando jet-ski na Avenida Goethe e surfando nas águas do Dilúvio. Segundo o profeta, tudo isto teria provocado os deuses, que irritados, abriram as torneiras sobre Porto Alegre.
O primeiro dia de sol, após longas semanas de chuva, causou estranheza na população. As crianças perguntavam: “maêêê, hoje não vai chover?” Outros queriam saber o que era aquela lâmpada amarela pendurada no céu? Os adultos saíram as ruas usando óculos escuros, chapéu e protetor solar, pois estavam desacostumados a exposição ao sol.
Apesar de tudo, a população está psicologicamente preparada, pois sabe que isto é só o começo. Mais alguns dias e chegará agosto, que é o mês das chuvas. Em setembro virá a chuvarada gaudéria, que transforma o acampamento Farroupilha num pântano, e depois, em outubro, terá a já tradicional chuva da Feira do Livro. E passado estes períodos, virão as chuvas torrenciais do verão, que só terminam com as águas de março. Em abril começam as chuvas do outono e depois… depois começa tudo de novo.
O Governo está fazendo a sua parte e já anunciou uma ação importante para enfrentar a situação de calamidade. Foi publicada a resolução que altera a unidade para verificar a precipitação, de agora em diante, em vez de milímetros e a quantidade de chuva do dia passará a ser medida em metros.
Os cientistas dizem a vida surgiu na água e depois veio para a terra. Agora tende a voltar para água. Ou seja, depois dos peixes vieram os répteis, o macaco e o homo-sapiens. A próxima etapa da evolução será a do “homo-sapus”. O povo gaúcho seria um dos mais evoluídos. A dúvida é sobre a coloração da pele do homo-sapus? Verde não poderá ser, pois no Rio Grande do Sul tem que ser azul (gremista) ou vermelha (colorado)!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Medidas

– 26 de julho de 2015
Diego Cristóvão Alves de Souza Paes (*)
Um quilograma equivale à massa de um decímetro cúbico de água (a 4° Celsius, veja bem). Um decímetro cúbico, convencionou-se, se trata de um litro. Este decímetro (antes de ser elevado ao cubo) é, na verdade, a décima parte de um metro, que é a distância percorrida pela luz no vácuo durante 1/299.792.458 segundo, ou o comprimento de uma exuberante barra de platina iridiada exposta em um belíssimo museu na França (também há um cilindro muito bonito neste mesmo museu, que representa a massa de um decímetro cúbico de água a 4° Celsius).
A cada segundo (duração de 9.192.631.770 períodos de radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo césio 133) o fluxo de água que passa pelo Rio Madeira (em Rondônia, meu estado de origem) é de 31,2 mil metros cúbicos (31,2 milhões de quilos) de água.
Em seus 07 anos (220,7 milhões de segundos) de construção, a Usina Hidrelétrica de Santo Antônio irá depositar no meio do Rio Madeira 3,2 milhões de metros cúbicos de concreto (ou 8 bilhões de quilogramas de concreto – ou, 40 Maracanãs). Usina esta que irá custar 13 bilhões de reais (9 bilhões já “investidos” e mais 4 bilhões já aprovados para aplicação a partir de 2014).
Este é parte do valor monetário que se paga por tentar controlar este Rio.
Alguns quilômetros Rio acima, a Usina de Jirau planeja, até fins de 2014, depositar 2,8 milhões de metros cúbicos de concreto (07 bilhões de quilos, ou, quase três vezes a quantidade de concreto necessária para construir todos os 12 estádios somados da Copa do Mundo do Brasil). Esta montanha (literalmente) de concreto (plus expenses) sai pelo custo de 11 bilhões de reais.
Esta é a outra parte do valor monetário que se paga por tentar controlar o Madeira.
Assim, aprendemos através do Plano de Aceleração do Crescimento do Governo Federal que R$ 24 bilhões de reais equivalem a 15 bilhões de quilos de concreto (dentre os outros significativos custos de tal obra, fora o lucro), que por sua vez são suficientes para controlar um Rio, que possui a vazão diária de 2,6 trilhões de litros (quilos) de água (sem contar os sedimentos). Estes R$ 24 bilhões de reais equivalem à produção adicional de 6,4 mil MW de energia que ajudarão a fomentar o desenvolvimento sustentável local.
Rá! Just joking. Toda essa energia será levada para onde ela realmente é necessária, ou seja, o complexo industrial das regiões Sul e Sudeste, cerca de 3 mil quilômetros de distância de onde os impactos físicos s(er)ão sentidos.
Ao início de 2014, bairros inteiros foram deslocados (recriados artificialmente em outras regiões) e vilarejos reconstruídos. Patrimônios históricos, milhares de hectares de floresta, fazendas, cachoeiras, todos desaparecidos debaixo das águas. Como se mede uma casa perdida? Vinte casas? Cem casas? Mil casas? Uma vila? Uma cultura? O imenso impacto social acompanhado do gasto despropositado em ações atenuantes que nada evitaram para que a situação se tornasse caótica. Isso tudo, na verdade, agora é história.
O Rio não se importa. Ele não liga para medidas, é uma entidade viva, em permanente movimento e mudança. O verão de 2013/2014 apresenta uma cheia que realmente pode se chamar de histórica. O nível da água chega, em fevereiro de 2014, a 18,5 metros. Isso significa que, acima das hidrelétricas, região que já contava com a elevação do nível da água devido aos 15 bilhões de quilos de cimento, as duas pontes históricas construídas há mais de 100 anos para a passagem da lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré, já estão há muito tempo debaixo d’água. Mil oitocentos e cinquenta centímetros de elevação significa também que parte da estrada que liga a cidade de Porto Velho à cidade de Guajará Mirim, na fronteira com a Bolívia, está intrafegável. Significa que o Rio subiu tanto, que 800 metros da BR-364 sentido Acre está coberta por 80 centímetros de água. Um estado inteiro da nossa mal cuidada República Federativa encontra seu acesso por terra bloqueado; portanto, com sérias restrições ao abastecimento de combustível e alimentos. Para medicamentos de doenças crônicas, apelou-se ao transporte aéreo. Tudo isso pela bagatela de 24 bilhões de reais.
O Rio subiu como sempre subiu e surpreendeu como sempre surpreendeu. Não de forma errada, os defensores das Usinas apontarão isso. Mas o Rio nunca subiu tanto com duas barragens no meio do caminho. E não sabemos o que pode acontecer.
Rio abaixo, a água cobre grandes trechos da região beira-rio de Porto Velho. Alguns trechos da cidade são alagados historicamente, sem surpresa. Outros, como o complexo da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, Patrimônio Histórico Nacional, já estão também debaixo d’água. Milhares de famílias foram deslocadas de suas casas. Os Portos da cidade também foram fechados devido ao nível do Rio.
Diariamente, as usinas são forçadas a abrir as comportas para permitir a vazão da água (e evitar a catástrofe maior, que seria o rompimento das barreiras, que levaria a milhares de mortes). Esta abertura da comporta leva à criação de ondas (banzeiros), que acarreta no desbarrancamento das margens, dezenas de quilômetros rio abaixo. Comunidades inteiras ribeirinhas estão sendo literalmente dragadas para dentro do Rio devido ao desbarrancamento. Igrejas, escolas, postos de saúde e residências encontram-se ameaçadas. E não estamos sequer considerando os impactos ambientais à fauna e flora local, muito menos a ecologia do Rio.
Enquanto nos últimos dois anos a discussão se deu em torno da construção da Hidrelétrica de Belo Monte no Pará, Santo Antônio e Jirau já há muito transformavam a geografia local. Cabe agora compreender todas as repercussões que esta drástica mudança trará.
Mais importante, além de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, 26 outras hidrelétricas encontram-se no papel ou já em algum estágio de planejamento e implantação para a Região Amazônica. Tudo sob a tutela do Governo Federal. Isso leva a crer que o que acontece agora, em Rondônia, é apenas uma pequena amostra do que se tem planejado para a Amazônia.
Como se mede isso?
(*)Diego Cristóvão Alves de Souza Paes é Doutorando em Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Contato: diegopaes@gmail.com
Manaus à Belém – 4 dias num barco

– 19 de Julho de 2015
Luis Felipe Nascimento(*)
Alguns amigos já fizeram esta viagem e outros estão interessados em fazê-la, portanto, segue aqui o nosso olhar sobre uma realidade pouco conhecida no sul e sudeste brasileiro. Fizemos esta viagem com uns amigos e seus filhos, o que tornou a viagem ainda mais agradável.
O barco na região norte corresponde ao ônibus nas demais regiões. Assim como no ônibus, existem diferentes categorias e preços de passagens (varia de R$180 à R$750 por pessoa). No barco Rondônia da AR Transporte, em que viajamos, os 800 passageiros são acomodados em 40 camarotes e dois andares vazios, com apenas um número pintado numa barra de ferro onde o passageiro deve pendurar a sua rede. Não existe “guarda malas”, é tudo aberto, as malas ficam embaixo da rede. Num andar a ventilação é natural e no outro é de “redes com ar condicionado”. O colorido das redes é um cartão postal (foto redes). São cerca de 4 dias de viagem e o retorno, Belém à Manaus, são 5 dias.
Nos tempos de estudante, certamente teríamos feito esta viagem numa rede, mas “as dores da idade” nos levaram a escolher uma “suíte”, com direito a banheiro, frigobar e ar condicionado. Um luxo, mas com as limitações do barco, como por exemplo, a de que a água do banho e do vaso sanitário é recolhida diretamente do rio. Se estiver no rio Negro a água vai ser mais escura. Se for a do Tapajós será diferente da do Amazonas. A cor da água é mais perceptível no vaso sanitário que as vezes está amarela, as vezes quase preta e em outras, marrom. As águas da região devem ser mais limpas do que as do Guaíba, mas por não terem nenhum tratamento, optamos por escovar os dentes com agua engarrafada.
Ao longo da viagem o barco vai parando nas cidades ribeirinhas, onde entra e sai gente e carga, pois o barco carrega junto carros, motos, banana, tomate, caixas de isopor e tudo mais que se possa imaginar. Em cada parada, uma parte dos vendedores entra no barco e outra parte oferece seus produtos pelo lado de fora, proporcionando um espetáculo. A tecnologia desenvolvida por eles permite que um sorvete de cupuaçu, uma quentinha ou uma dúzia de bananas chegue a 10 metros de altura por meio de uma vara com um gancho, onde o produto é pendurado, e na ponta está uma meia garrafa PET, onde o cliente deve colocar o dinheiro. Se a vara não alcançar os andares mais altos do barco, os próprios passageiros dos andares inferiores se encarregam de ajudar para que o cliente que está nos últimos andares possa receber o produto (foto vendedores).
Entre as paradas, está “Parintins”, cidade da festa folclórica dos bois-bumbás, do boi caprichoso (azul e branco) e do boi garantido (vermelho e branco), uma das dez mais populares do Brasil. Em Santarém, cidade com 360 mil habitantes e com lindas praias no Rio Tapajós, o barco chega à noite e sai ao meio dia, é a única parada que permite que os turistas desçam para visitar a cidade. Uma das mais belas praias é a de “Alter do Chão”, que já conhecíamos pela internet. Ela forma uma península estreita de areia com lindas barracas. Tudo isto existe, mas no mês de setembro, quando as águas baixam. No mês de julho a maior parte das barracas e das árvores estão debaixo d’água e a península se transforma numa pequena ilha (fotos). Tomamos um barco para chegarmos até esta ilha. A água é uma delícia, o fundo com areia limpa e a paisagens é lindíssima. Mesmo sem ver a península da foto da internet, valeu a pena a visita e o banho. Aliás, a inundação tem um outro sentido na região norte. Inundar uma área e cobrir as casas e árvores é um processo que ocorre todos os anos. São 6 meses em que as águas sobem e 6 meses que elas descem. Não é necessário fazer nenhuma campanha para os desabrigados que deixaram suas casas. A inundação faz parte do calendário (fotos).
Quando retornamos, depois de ter tomado banho de rio em Alter do Chão, pensamos em tomar um banho no barco. Foi então que alguém questionou: mas para que tomar banho com a água do rio para tirar a sujeira do banho no rio? Verdade, mas pelo menos agora tinha sabonete e shampoo. As condições de higiene não são o ponto forte desta viagem. Presenciamos numa barraca na praia, uma senhora retirar água do rio para por na panela, no mesmo local em que outra lavava a roupa. Guardadas as proporções, fazemos isto nas grandes cidades banhadas por rios, onde se joga o esgoto no mesmo rio de onde se retira a água para beber.
Como é a comida no barco? Existem duas opções ao meio dia: um bufê a R$ 15,00 e a marmita a R$10,00. As duas opções são bem razoáveis. A noite apenas a marmita. Não foi necessário recorrer ao nosso estoque de mantimentos. O mais estranho são os horários, que começa com o café da manhã entre 6h e 7h, almoço entre 11h e 12h e jantar entre 17h e 18h. Vale lembrar que as 18 h já é noite e que o dia nasce pelas 5 horas (dizem!). Existe água potável gratuita em bebedouros.
O acesso ao deck do navio permite aos passageiros admirar a paisagem durante o dia. Ao entardecer, um dos meninos que estava conosco, reuniu a molecada e lhes ensinou a pintar e depois a usar sacolas plásticas para fazer papagaios (foto). O deck virou um parque de diversões. Quando escureceu, pudemos relembrar de brincadeiras de criança como a de procurar estrelas cadentes ou qualquer luz que se movimentasse no céu. Os mais “experientes” lembraram do “Sputnik” russo, primeira nave a ser lançada ao espaço. Quando nossos pais viam algo se movendo no céu, imaginavam que se tratava de um Sputnik! Já estávamos esquecidos de que, ao ver uma estrela cadente se deve fazer um pedido, antes dela desaparecer. Portanto, o pedido tinha que estar na ponta da língua.
Tem internet e sinal de celular? Somente próximo de algumas cidades. Na noite da semifinal da Libertadores, jogo do Inter x Tigres, eu estava na ponta dos pés, no parte mais alta do barco buscando um sinal de internet. Junto com outros colorados conseguimos ouvir partes do jogo. O jogo mal tinha começado e recebi uma mensagem: “gol do Inter”, mas o Pedro Ernesto (narrador da Rádio Gaúcha) continuava dizendo que estava zero a zero. Pensei que os amigos estavam de sacanagem comigo, mas passado um minuto aconteceu o gol. Dalí a pouco, outra mensagem: “outro gol”. Nem esperamos pelo Pedro Ernesto e comemoramos o gol. A partir de então já não dávamos tanta atenção ao rádio, estávamos ansiosos por uma nova mensagem, e veio, só que agora, era gol do Tigres. Na escuridão, enquanto olhávamos para o céu estrelado, torcíamos para voltar o sinal e para receber mais uma boa mensagem, continuamos até o final do jogo no deck do navio.
Ao passar pelo Estreito de Breve, uma das regiões mais pobres, dezenas de canoas com crianças se aproximam do barco e os passageiros jogam sacos com roupas e comidas. Uma cena triste. Comentei com uma passageira que eram crianças tão pequenas sozinhas numa canoa. Ela me disse que quando elas nascem, a parteira já coloca um remo na sua mão! (foto canoas).
Viajar é sempre uma aprendizagem, mas viajar pela Amazônia é uma mistura de aventura com cumprir uma obrigação, pois conhecemos mais da Patagônia, dos Alpes, etc, e muito pouco da região com maior biodiversidade e que mais atrai a atenção do Mundo. O nortista é simpático e possui muitas tradições e festas que encantam os turistas. Portanto, viajar pela Amazônia não é um “programa de índio”, como muitos imaginam. Se está na dúvida, se jogue, vale a pena visitar a Amazônia e fazer esta viagem de barco, mas não em dezembro, quando os barcos estão superlotados.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Uma viagem louca (de boa!)

-19 de Julho de 2015
Fernanda Pasqualini (*)
Vocês são loucos! Foi o que ouvimos na maioria das vezes quando contávamos sobre a viagem que estávamos planejando. O roteiro era o seguinte: de Roma à Paris, de carro em 21 dias! Até aí tudo ótimo… quem não quer uma viagem dessas?!!! O primeiro “porém” é que a viagem foi em fevereiro, ou seja, em pleno inverno europeu. Estradas com neve, casacos e tudo o mais que o inverno tem! E o segundo “porém” é que a viagem foi feita pelo meu esposo, Jean, eu e nossa filha Isabella, na época com quase 3 anos!
Loucos ou não, no dia 5 de fevereiro de 2011 saímos de Ijuí, rumo à Porto Alegre. No meio dos 400km de viagem a Isabella acusou “mamãe, já viajamos, agora vamos voltar para a nossa casinha que eu quero descansar no sofá!”. Nós nos olhamos, rimos e falamos “filha, a viagem recém começou!” A sorte é que a Bella é super parceira e depois de dizer um “ah tá” dormiu até chegarmos a Porto Alegre.
Pernoitamos em Porto Alegre e na manhã do dia 6 de fevereiro embarcamos em um voo da TAP rumo à Roma, com conexões no Rio de Janeiro e Lisboa. Aterrizamos em Roma em um domingo ensolarado. No aeroporto estava nos aguardando o rapaz do aluguel do carro, que nos levou até o pátio da empresa nos arredores de Roma. Ali pegamos o carro e demos a largada para nossa aventura!
O sol com o frio nos presentearam com dias super agradáveis para passear pelas ruas de Roma, descobrindo cada canto e parando de tempos em tempos em parquinhos da cidade, afinal, nossa criança merecia brincar! Andamos muito a pé empurrando a Bella no carrinho. Mas também nos aventuramos muito de carro pelas ruas… sempre ouvimos dizer que é impossível dirigir em Roma. Bom, a gente não achou isso e na verdade curtimos muito!
De Roma saímos para Siena pela autoestrada A1 ate Orvieto. As autoestradas são ótimas com paradas de serviço frequentes. Mas a partir de Orvieto decidimos seguir pelas estradas estatales… para conhecer a Toscana por dentro! E foi ótimo! Sob o sol da Toscana conhecemos lugares lindos como Orvieto, Bolsena, Montalcino, Montepulciano e San Gimignano. Todas cidades medievais que fazem a gente se sentir parte integrante de um filme! A Bella, maravilhada, brincava que estava no mundo das princesas com seus castelos! Foi bonito de ver o brilho nos olhinhos dela!
Como as demais cidades medievais da toscana, Siena é linda! E maior que as outras que havíamos passado. Não há acesso de carro, o que torna cansativo encontrar um lugar para estacionar. No fim, estacionamos ao redor dos muros da cidade e andamos a pé pelo miolo, conhecendo lugares como a Piazza Del Campo onde ocorrem as famosas corridas de Palio.
De Siena seguimos para Firenze, ou Florença! No meio do percurso tentamos parar em umas vinícolas em Radda in Chianti mas estava tudo chiuso em função da baixa temporada! Uma frustração, mas quem manda viajar nessa época do ano, né?!!! Em compensação Firenze foi um presente para os olhos e o coração! Sem querer, chegamos na cidade pela Piazza Michelangelo onde tem a famosa escultura de Davi e a melhor vista da cidade! Lindo lindo! Em Firenze a Isabella andou pela primeira vez num carrossel de verdade (aqueles com cavalos lindos cheio de penachos na cabeça) e, a partir disso, precisamos fazer várias paradas em carrosséis!
Como não podia deixar de ser, a próxima parada foi Veneza! Obviamente já havíamos escutado muito sobre a cidade, mas não imaginávamos como era de verdade! Sabíamos que era sobre as águas e que carro não entrava, mas que poderíamos ir de carro até lá. Como?! Bom, chegamos a Mestre, que é a cidade do continente ao lado de Veneza, atravessamos uma ponte e deixamos o carro num estacionamento enorme. De lá pegamos o transporte público, ou seja, barco!
Daí em diante a situação foi, no mínimo, engraçada! Chegamos em Veneza de modo nada triunfal, carregando duas malas grandes e pesadas e empurrando um carrinho com uma criança! E com uma chuvinha fina caindo! Só para os fortes! Mas nada disso tirou o romantismo da cidade e a nossa alegria de estar lá. A névoa, que encobria a cidade por um período do dia, se traduzia num ar de mistério… e mais uma vez nos sentimos dentro de um filme! A parte boa é que éramos os protagonistas!
Depois de Veneza seguimos à Milão. Mas resolvemos fazer um desvio na viagem e subir até Belluno, terra dos antepassados do Jean. Assim, conhecemos outra paisagem, cheia de penhascos de tirar o fôlego! Passamos ainda por Verona e conhecemos a Casa da Julieta. O detalhe é que chegamos a Verona no Dia dos Namorados, então a cidade estava em festa! E nós também!
Milão, por sua vez, deixou a desejar. Não pela cidade, mas por que de toda nossa viagem foi ali que choveu mesmo. Assim, mal conseguimos ver a cidade de dentro do carro… Uma pena. Mas também, nos motiva a querer voltar! Também foi a última parada em território Italiano. A partir dali seguimos para a França.
No trecho Itália e França a paisagem é lindíssima… de um lado víamos o mar e de outro montanhas com os picos nevados! Não sabíamos para qual lado olhar!!! Andamos pela autoestrada dei Fiori e chegamos a França e logo em Mônaco… e ficamos de queixo caído. Estava anoitecendo e as luzes da cidade ofuscaram nossos olhos! Passeamos um pouco, fizemos um pouco do percurso famoso da Formula 1 e ainda tiramos umas fotos nos Yates mais lindos e grandes que já vimos… Estávamos rindo a toa e dizendo para a Bella que ali era a Disney de gente grande!!!
De Mônaco seguimos a Nice e a Cote d’Azur!!! Os dias ali foram chuvosos… o que reduziu as chances de caminhadas ao ar livre. Mas mesmo assim conseguimos, com um guarda-chuva, passear por algumas ruas da cidade. Saindo de Nice passamos por Cannes e de lá seguimos para Aix en Provence, uma charmosa cidade universitária!
Seguindo nosso percurso fomos à Chamonix onde está o famoso Mont Blanc. Quando a neve começou a se intensificar já sabíamos onde estávamos… nos Alpes! Ali a Bella teve sua primeira experiência com ski, pois fez aula particular com uma professora chamada Marie Noel! Como toda criança, ela tirou de letra e não caiu nenhuma vez… o papai e a mamãe babões ficaram boquiabertos! Finalmente depois de muitos dias de viagem estávamos chegando ao nosso destino final: Paris! De Chamonix a Paris foi o maior trecho percorrido sem paradas: quase 600 km. Somente paramos para almoçar ali do lado, em Genebra, na Suíça! Nada mal né!
Chegamos a Paris à noite e logo avistamos a Tour Eiffel toda iluminada. A Bella foi tomada por uma emoção e aos gritos disse “eu estou impressionada de estar aqui!” Paramos na frente da torre com o pisca alerta ligado e saímos como loucos (que somos) tirar fotos! Nos demais dias em Paris passeamos pelas ruas debaixo de uma chuva fina e muito fria… Somente deu trégua o dia que fomos à tão esperada Euro Disney! Tudo bem que em terra de castelos e princesas de verdade não é nada demais ver castelos e princesas de mentira… mas com nossa pequena não poderíamos deixar de passar lá para ela brincar e curtir muito com o Mickey e toda a sua turma!
Outra coisa importante de Paris foi o encontro com uma velha nova amiga da Alemanha! Velha por que nos conhecemos por carta desde os 10 anos de idade. E nova por que foi a primeira vez que nos vimos pessoalmente! Mas só essa história já dá um outro post…
Nessa cidade que amamos finalizamos nossa aventura. Foram 21 dias e quase 3.500km percorridos entre diversas cidades, com muitos estilos e diferentes experiências. A ideia geral é que viagens longas a lugares distantes devem ser evitadas com crianças. Afinal, o que fazer na Europa no inverno com uma menina de quase 3 anos?! Pois nós descobrimos que tem muito que fazer, em qualquer época do ano! E que o melhor da viagem é conhecer novos lugares e ter novas experiências junto de quem a gente mais ama!!!
(*) Fernanda Paqualini é Professora na UNIJUI.
Contato: fernanda.pasqualini@unijui.edu.br
Como é o céu para você?

– 12 de julho de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Muitas pessoas acreditam que ao morrerem irão para o céu. Mas como é o céu? Quem vamos encontrar lá? Qual a forma dos espíritos que lá estão? Eles se parecem como somos aqui na terra? O que eles fazem lá no céu? O filme “Nosso Lar” (https://www.youtube.com/watch?v=w2Bt2gVybUY ), uma produção brasileira de 2010, baseada na obra psicografada de Chico Xavier, oferece estas respostas. Quem não acredita na doutrina espírita ou em alguma forma de vida após a morte, questiona tais explicações.
As pessoas que passaram por situações de quase morte, costumam contar sobre o outro lado da vida. Os livros e o cinema também falam de histórias da vida após a morte. O filme “O céu é de verdade”, foi lançado em 2014 nos EUA (https://www.youtube.com/watch?v=meirYw5m86g), é apresentado como uma história real, onde o garotinho Colton, de 4 anos, enquanto estava na sala de cirurgias a beira da morte, vai ao céu e senta no colo de Jesus. Lá ele encontra a sua irmã e o seu bisavô, que ele não os conhecia. Os médicos consideram um milagre a sobrevivência do menino. Ele conta que olhou para baixo e viu os médicos lhe operando, bem como o que o pai e a mãe estavam fazendo naquele momento. As suas descrições confundem o pai, pastor de uma comunidade em Nebraska. Uma menina, que passou por uma situação semelhante a de Colton, começou a pintar com 6 anos. Colton reconheceu nos quadros da menina, Jesus como o cara que pegou ele no colo.
Talvez as histórias de Colton, os quadros da menina ou a moderna cidade Nosso Lar não convençam muita gente de o céu existe, ou de que ele possui um hospital hi-tech onde os espíritos trabalham para cuidar dos recém chegados, como acontece em Nosso Lar. Sendo espírita, religiosa ou não, muitas pessoas falam de algum tipo de céu. Uma pessoa que adora cães me disse que o seu sonho é de, ao chegar no céu, encontrar todos os seus cachorros. Será que os cachorros também vão para o céu? Segundo Colton, existem muitos animais no céu. No filme Nosso Lar as pessoas jogam futebol, assistem concertos musicais e possuem suas próprias casas.
Imaginando que um dia chegaremos ao céu, o paraíso para os espíritas, e que lá vamos encontrar os nossos amigos e familiares. Será que estarão todos lá? Tomara que sim, mas nós, ou eles, poderão fazer uma escala no “purgatório”. Os espíritas chamam de “umbral”, o local para pagar os pecados. Como diz um amigo: se uma pessoa caminha em direção ao norte, ele vai encontrar os que vão para o norte. Não encontrará os que caminham para o sul. Ou seja, espera-se que os seguem o caminho do bem, se encontrem no céu.
E qual a forma assumida pelos espíritos? Terão a aparência de quando morreram? Serão apenas uma luz, uma energia ou terão alguma outra forma? O Colton reconheceu o bisavô pela foto do seu casamento, ou seja, quando ainda era jovem. Diz ele que no céu todos são jovens e que ninguém usa óculos.
E quem perdeu o marido/esposa e casou novamente, como será encontrar os dois ou três ex-companheiros(as)? Uma possível resposta seria a de que só existe “uma alma gêmea”. Ou será que no céu ninguém é de ninguém? Não existe ciúmes e outros sentimentos da vida na Terra?
Mas afinal, o que fazem os espíritos no céu? Será que eles trabalham como é mostrado no filme Nosso Lar? Neste filme, a vida no céu se assemelha a vida na Terra. Em vez de dinheiro, as pessoas ganham “bônus hora” pelo bem que fazem e tudo o que conquistam é pelo seu merecimento. Na interpretação dos católicos, os Santos são espíritos mais poderosos.
Os Santos são protetores de determinadas profissões, cidades e defendem seus fiéis de determinadas doenças. Portanto, imagino que cada Santo tenha a “sua base” e represente os interesses de algum grupo de pessoas aqui na Terra. Por exemplo, São Sebastião (20/01) é o padroeiro do Rio de Janeiro. Um paulista não vai fazer pedidos para São Sebastião, pois ele já tem 6,5 milhões de pessoas para proteger. São Francisco de Assis (04/10) é o protetor dos animais e da ecologia. Quem não gosta de animais e acha bobagem este papo de ecologia, não fará pedidos para São Francisco. Para alcançar uma graça você precisa escolher o santo certo. Se você tiver um furúnculo e pedir a intervenção de São Bento (11/07) que é protetor das pessoas com doenças na pele, poderá conseguir alguma coisa, mas se pedires a intervenção de Santo Antão (17/01), que é protetor das pessoas com furúnculos, então acertará na mosca, digo, no Santo.
Um amigo, quando estava muito doente, disse que estava “indo na frente” para preparar o churrasco e fazer o chimarrão para esperar os demais. A idéia de um futuro encontro confortou tanto a ele quanto aos amigos. Embora ele não seja espírita ou religioso, a situação criada se assemelha com a visão de que a vida da Terra é apenas uma passagem.
Como é o céu para você? Tem churrasco e chimarrão? Lá tem muitos animais, como conta Colton? Tem futebol e concertos musicais como mostra o Nosso Lar? Eu não sei! Mas, a ideia de que vamos reencontrar nossos animais de estimação e muita gente querida no céu, dá mais sentido a vida aqui na Terra e faz com que a morte seja apenas uma despedida, um até breve. Ela deixa de ser um fim aterrorizante e até pode ser vista como algo bom. Em Nosso Lar, uma viúva com saudades do marido, enquanto espera a chegada do marido no céu diz: “ele está doente, mas morrer que é bom, nada!”
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Pedis mal

– 12 de julho de 2015
Johan Konings (*)
“Pedis mal”. Estas duas palavras me deram “a pensar”. Primeiro, por razões linguísticas. Explico. Trata-se de uma citação da Carta de São Tiago (cap. 4, vers.3), lida na missa de domingo retrasado. Nas missas que presidi em diversas capelas, o leitor leu “pedes mal” (no singular), embora o texto continue no plural (“não recebeis… vossos prazeres”) – sinal de que a segunda pessoa do plural é um problema! Já que o mineiro lê “pedis” como se estivesse “pédis”…
A verdadeira razão por que essas duas palavras me ficaram na memória é que elas exprimem uma grande verdade. Lendo o texto todo (Tiago 4,1-12), vemos que Tiago adverte sua comunidade porque, na oração, os fiéis ficam pedindo de tudo a Deus, mas não segundo o espírito de Deus. Pedem em meio à cobiça, à inveja, à briga, e o que pedem, é “para esbanjá-lo em vossos prazeres”. Parece hoje!
Não vou me estender moralisticamente sobre a oração feita em espírito inadequado. Meta o chapéu quem julgar que lhe serve. Só quero esclarecer dois pontos: o que é oração, e que vale a oração de pedido?
Orar é falar com Deus, dizia o velho catecismo. É colocar-se a descoberto diante de Deus, com toda a franqueza. Simples? Talvez nem tanto. Porque Deus não se vê. Parece que Ele não fala… Fala, sim. Já falou muito. “Muitas vezes e de muitos modos, deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. No fim destes dias agora, falou-nos por meio do Filho” (Carta aos Hebreus 1,1-2). Deus se serve de intermediários: os profetas de Israel e, suponho, também alguns das outras religiões. E, definitivamente, comunicou-se conosco por intermédio de seu Filho, Jesus de Nazaré.
Que significa isso? Esses intermediários fornecem-nos o “meio” para falarmos com Deus, o meio de comunicação, por assim dizer. As palavras, a linguagem. Sem as palavras fornecidas pelas grandes tradições religiosas não conseguimos “levar Deus à fala”. Orar é falar (por isso as gramáticas chamam a frase de “oração” — vem do latim ‘os, oris’, que significa boca). Os profetas fornecem palavras que falam de Deus e deixam Deus falar. Jesus, mais ainda: ele é a Palavra de Deus.
Acrescento a isso uma intuição da filosofia atual, nomeadamente, de Paul Ricoeur: ler (que é uma forma de falar e de escutar) é descobrir-se a si mesmo no espelho que é o texto. Quando você lê um bom romance, você simpatiza ou antipatiza com determinadas personagens ou ações. Por quê? Porque você se espelha nisso. Pois bem, as tradições religiosas, a Bíblia, e de modo especial as palavras em que Jesus se nos apresenta, nos permitem espelharmo-nos diante de Deus. Rezando um Salmo, meditando uma passagem do Evangelho, vemos-nos envolvidos num diálogo entre Deus e nós mesmos. Percebemos quem somos diante de Deus, como nos encontramos diante da última instância ou meta de nossa vida. Por isso mesmo, toda oração é comunitária, porque é a comunidade da linguagem que nos fornece o espelho em que nos vemos diante de Deus.
E podemos pedir algo a Deus? Claro, a conversa é franca, livre. Falamos de nossas carências, e isso vale um pedir. Quando um filho diz, à mãe, que está com fome, a mãe entende isso como um pedido… Ao falar com Deus podemos até reclamar, xingar, como fez o não tão paciente Jó (leia livro de Jó, sobretudo os capítulos 3 a 31). Depois veremos que falamos bobeira (leia Jó 40,1-5; 42,1-6). Ora, o que pedimos deve corresponder ao que Deus é e está prestes a nos dar. Deus é amor (1ª Carta de João 4,8.16). E Jesus é sua palavra de amor até o fim (Ev. de João 1,1.18); nele, prestes a morrer por amor e fidelidade, Deus se fala todinho, se comunica até o fim (João 14,9).
Então, o que combina com isso, podemos pedi-lo sem ressalvas. Mas o que apenas combina com nosso egoísmo e vaidade, é melhor pôr a mão na boca, como Jó, e envergonhar-se disso diante de Deus.
Vem-me à memória uma poesia de um padre poeta de minha terra natal que aprendemos no ensino fundamental (daquele tempo…): “Tu oravas, só, numa montanha, mas tal montanha eu não encontro… Ensina, Senhor, a este bobo que sou eu, como devo orar”.
Com licença de http:domtotal.com 03/10/2012
(*)Johan Konings é Professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, MG.
Contato: konings@faculdadejesuita.edu.br

Homens – não adianta falar, eles não fazem!

– 5 de Julho de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Realizei uma pesquisa com 4832 mulheres brasileiras, com uma margem de erro de 5%, para cima ou para baixo, perguntando sobre as coisas que elas mais reclamam dos seus companheiros. Os resultados foram surpreendentes e, independente de idade, renda familiar, nível de instrução ou região do país, as reclamações são as mesmas.
Do que você mais reclama do seu namorado/marido? São tantas as reclamações que foi necessário organizar as respostas por cômodos da casa:
1) Banheiro – 95 % das mulheres reclamam do comportamento dos homens no banheiro:
▪ Molha a pia – ele parece um pato tomando banho na pia;
▪ Quando escova os dentes, salta creme dental no espelho e não limpa;
▪ Não seca a pia, embora o paninho esteja na sua frente;
▪ Faz a barba e deixa aquela sujeira toda na pia;
▪ Demora no banho e o banheiro fica parecendo uma sauna;
▪ Levanta a tampa do vaso, mas não limpa os pingos de xixi no vaso e no piso;
▪ Não estende a toalha após o banho;
▪ Não leva a toalha para estender na área de serviços;
▪ Deixa a toalha amontoada no piso ou em cima do vaso;
▪ Não seca o espelho depois do banho;
▪ Não tira o lixo do banheiro;
▪ Não desvira as meias antes de colocar na tulha da roupa suja;
▪ Quando eu preciso usar o vaso, lá está ele, lendo o jornal.
2) Quarto de dormir – 72 % das mulheres fazem alguma reclamação sobre o comportamento dos homens no quarto de dormir:
▪ Quando ele se vira na cama, leva junto as cobertas e me deixa destapada;
▪ Até hoje não consegui me acostumar com o ronco dele;
▪ Não arruma a cama, e quando o faz, não estende o lençol de baixo;
▪ Deita na cama com a roupa que chegou da rua;
▪ Ele tem muuiiito mais vontade do que eu e fica me incomodando. Dou a desculpa de que estou cansada ou com dor de cabeça;
▪ Fica lendo com a luz ligada e eu não consigo dormir. Ele deliga a luz na terceira reclamação;
▪ Não guarda as roupas no armário;
▪ Os calçados vão se acumulando ao lado da cama;
▪ Acho as meias e cuecas dele debaixo da cama;
▪ Deixa prato e copo sujo no lado da cama. Já enfiei um pé dentro de um prato!
3) Cozinha e Churrasqueira – 57% das mulheres reclamam que:
▪ Ele cozinha, mas não lava a louça;
▪ Gasta muita água quando lava a louça;
▪ Ele até que lava, mas não guarda no lugar;
▪ Não recoloca o pano de prato no lugar;
▪ Não sabe onde estão as coisas na cozinha;
▪ Abre a geladeira e não enxerga o que está na sua frente;
▪ Quando assa o churrasco, deixa tudo sujo;
▪ Caminha com o espeto de carne pingando gordura no piso;
▪ Não consegue assar churrasco sem um rádio e uma cerveja;
▪ Leva os amigos lá prá casa, bebem todas e não dá para aguentar as conversas;
4) Sala e espaço para ver TV – 39% das mulheres reclamam que:
▪ Põe os pés em cima do sofá;
▪ Não coloca o controle da TV no lugar;
▪ Deixa pratos e copos ao redor da poltrona/sofá;
▪ Derrama comida e bebida na poltrona/sofá;
▪ Dorme na frente da TV e depois reclama que está com o pescoço doído.
As reclamações não se restringem aos cômodos da casa. Foi necessário criar outros itens como:
5) Esquece as datas importantes – 33% das mulheres reclamam que:
▪ Ele nunca lembra do meu aniversário;
▪ Não sabe o dia em que começamos a namorar, dia do casamento, nada!
▪ Presente ou algo especial nestas datas, nunca!
▪ Ele acha bobagem estas datas!
6) Carro – 28% das mulheres reclamam que:
▪ Não retira o lixinho do carro, mesmo quando tem casca de banana;
▪ Não coloca água no reservatório para limpar o para-brisa;
▪ Deixa entrar na reserva e anda até a última gota de gasolina;
▪ Dirige muito rápido e me deixa nervosa;
▪ Faz ultrapassagens perigosas/passa sinal vermelho;
7) Ciúmes – 25% das mulheres reclamam que:
▪ Não posso me arrumar que ele quer saber quem vou encontrar?
▪ Quando saio sozinha, ele me liga a cada meia hora;
▪ Quando conto alguma coisa de algum homem, ele fecha a cara.

Os dados mostram que o “banheiro” é o cômodo que gera mais reclamações. O fato de muitos casais terem dois carros pode explicar o fato do carro ser o sexto colocado nas reclamações. E o ciúmes, este parece que está caindo de moda.
Segundo as mulheres entrevistadas, “Não adianta falar”, pois além dos maus hábitos citados acima, os homens apresentam um problema de “audição” ou de “falta de compreensão do português” por elas falado. Seria uma limitação do gênero masculino, um problema cultural ou a falta de compreensão por parte das mulheres?
Obs: a pesquisa foi registrada junto ao IBOPE e segue os critérios científicos.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
CACIIILLLDO

– 5 de Julho de 2015
Odalci José Pustai (*)
Outro dia, meu filho reclamou que qualquer ventinho estraga o guarda-chuva. De bate-pronto, respondi que isto era muito bom. Após um pequeno espanto, emendei dizendo que ele esquecia os mesmos no ônibus, na casa dos amigos, etc. Na verdade, não gosto de guarda-chuvas muito resistentes, principalmente se o cano é muito forte. No fim da história, vão entender as razões.
Miro, Cacildo e eu éramos típicos guris da colônia. Gostávamos de pescar, caçar com bodoque e jogar bola. Como muitas vezes é a oportunidade que desperta o ladrão que existe nas pessoas, nós também aproveitamos uma chance ímpar de dar um salto tecnológico nas nossas caçadas, pois achamos uma coronha velha e decidimos que seria possível enjambrar uma espingarda. A coronha estava presa à caixa de culatra, que mantinha intactos o cão, o gatilho e o guarda-mato. Verificamos que o encaixe das peças deixava o conjunto perfeito, faltando somente o cano. O restante dos acessórios, como cartuchos e munição, certamente conseguiríamos nas caixas de caça dos respectivos pais. Conjecturamos sobre as possibilidades de arrumar um cano, quando o Cacildo disse que a avó tinha herdado um velho guarda-chuva e que o cano era bem grosso e forte. Fomos até a casa do Cacildo e achamos o tal guarda-chuva todo destroçado, mas com o cano em ótimas condições. Cortamos o cano com uma serrinha de cortar ferro e constatamos que ele tinha paredes bem grossas. O cano não era tão comprido como eram os canos das espingardas dos nossos pais, mas achamos que serviria para o nosso propósito. Depois, fomos verificar se o cano se ajustava à caixa de culatra; parecia que tinha sido fabricado para isto. Restava saber se tinha algum cartucho que serviria no cano. O Cacildo foi buscar um cartucho calibre 36, que se mostrou muito grosso. Sobrava testar um cartucho de calibre 40, o que conseguimos na casa do Miro. Encaixe perfeito. Como a tarde de domingo estava terminando, fizemos algumas combinações e distribuições de tarefas para o domingo seguinte.
A expectativa era grande para ver se nosso trabuco iria funcionar. No domingo, depois da missa, revisamos as combinações: estava tudo certo. Logo no início da tarde, nos encontramos no mato, onde estava escondido todo o material. Conseguimos fixar a coronha na caixa de culatra, com arames fortemente torcidos com alicate. O arremate foi feito com borracha cansada de trator. Estava muito firme. Pensamos em usar o mesmo arame para fixar o cano, mas desistimos, pois era necessário um movimento de báscula do cano para poder colocar o cartucho. Resolvemos testar a borracha. Passamos várias voltas de tira de borracha no ponto da pegada de mão e atamos bem firme. Para aumentar a segurança, passamos uma tira, não tão apertada, mais próxima ao gatilho. Assim, era possível levantar um pouco o cano para introduzir o cartucho.
Com um pouco dos materiais que cada um pegou emprestado dos pais, carregamos o primeiro cartucho somente com espoleta e um pouco de pólvora. O Miro se posicionou atrás de uma árvore e passou um braço de cada lado, segurando a espingarda do outro lado do tronco. Fez “péu” e nada mais. A espingarda e as mãos do Miro estavam intactas. O primeiro teste foi um sucesso. Carregamos outro cartucho, agora com chumbo. Foi repetida a manobra e tudo correu nos conformes. Carregamos todos os cartuchos e saímos como gente grande a caçar. Como não encontramos nada de caça no caminho, decidimos que cada um daria um tiro num mandacaru. Foi uma beleza. Dava para contar os furos do chumbo nas folha do cactos.
Já meio desacorçoados com nossa caça, vimos uma pomba carijó voar sobre nossas cabeças e ir sentar numa árvore de galhos secos. Nos entreolhamos e fomos à caça. No sorteio, o Cacildo saiu vitorioso para atirar primeiro. Chegamos na beira do matinho, protegidos pela copa de um açoita-cavalo. O matinho era basicamente de unha-de-gato, o que dificultou a chegada do Cacildo até embaixo da árvore. A pomba carijó continuava sentada, impassível. Eu e o Miro já estávamos ficando inquietos com a demora quando: “péu” – e a pomba carijó saiu voando. Olhamos um para o outro e concluímos em conjunto: o Cacildo não sabe atirar. Conversa vai, conversa vem, ficamos prometendo um ao outro que da próxima vez seria diferente. O tempo ia passando e nada do Cacildo sair do mato. Mas como tinha muita unha de gato, ficamos justificando a demora. Para piorar a situação, comentei que a árvore não era tão alta e que o Cacildo não poderia ter errado o tiro. Percebi uma certa intranquilidade no Miro. Ele olhou para mim e disse:
– Será…
– Que explodiu a espingarda?! – emendei.
Resolvemos chamar por ele. Uma, duas vezes. Gritamos em conjunto, a plenos pulmões: CACIIILLLDO. E nada. A esta altura, o pânico já tinha tomado conta. Olhamos um para o outro e investimos mato adentro na direção do Cacildo. Em questão de segundos, rasgamos todo o corpo com as unhas de gato e alguns pés de ananás, para depois chegar sob a árvore onde o Cacildo estava deitado de bruços.
– Meu Deus, ele está morto! – gritou o Miro.
Eu me atirei em cima dele para tentar uma salvação milagrosa. Nós estávamos tão apavorados e quase em choque que demoramos para perceber que o Cacildo não se aguentava de tanto rir. Num primeiro momento ficamos meio patetas, e não dava para entender direito se a gente ria ou chorava. Mas o segundo momento foi de fúria. Empurramos o Cacildo para o meio das unhas de gato e enchemos ele de tapas. Depois que nos acalmamos, o Cacildo pediu desculpas e eu e o Miro também pedimos, para ele esquecer algumas bofetadas dadas em exagero.
O domingo já estava terminado e era chegada a hora de cada um ir para sua casa. Ao contrário do interesse do início da tarde, agora nenhum dos três queria ser o responsável para esconder a espingarda durante a semana. Decidimos no sorteio, e a tarefa de levar a espingarda caiu para mim. Pela alegria dos outros dois, percebi que aquela espingarda tinha se tornado um fardo. Ninguém dizia nada, mas o entusiasmo pela arma tinha sumido. Meu desconforto era tão grande que, enquanto caminhávamos em direção à casa, resolvi bolar um plano para me livrar da espingarda. Quando estávamos relativamente perto, pedi que eles segurassem a arma, alegando que precisava ir cagar no mato. Eles concordaram e eu me embrenhei numa trilha em direção à casa. Quando já estava bem longe, gritei para eles que não levaria a espingarda. Quando saí do mato, já no potreiro, percebi que os dois estavam vindo no meu encalço. Era tarde, pois eles não tiveram coragem de me seguir no potreiro aberto, uma vez que alguém poderia vê-los com uma espingarda na mão, e eles não queriam correr este risco.
No domingo seguinte, o Miro e o Cacildo me contaram que desmontaram a espingarda e que quebraram com o martelo todas as peças, para que fosse impossível qualquer tentativa de remontagem.
Esta é a história de uma tragédia que não aconteceu. E, voltando ao início, acho que realmente não se fabricam mais guarda-chuvas – nem anjos da guarda – como antigamente!
(*) Odalci José Pustai é Professor na Faculdade de Medicina da UFRGS.
Contato: opustai@gmail.com

Idosos – Quem se importa?

– 28 de junho de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Você já teve dificuldades para abrir a tampa de alguma garrafa PET? E aquele vidro de pepino que a tampa não quer abrir, nem depois que você já bateu nela, forrou a mão com um pano e nada! Agora imagine uma idosa que mora sozinha, ou com outros idosos, e que não tenha um braço forte na casa? Muitos fabricantes de embalagens imaginam que em todas as casas existem jovens musculosos, ou que os consumidores possuem equipamentos especiais para abrir suas embalagens. E na hora do banho, sem os óculos, como saber se aquela embalagem é a do shampoo, do creme disto ou daquilo? Elas podem ser iguais e com letras pequenas.
Mas não são apenas as embalagens que dificultam a vida dos idosos. Muitos produtos e serviços desconsideram que a expectativa de vida no Brasil é de 75 anos, e que o número de idosos continua aumentando, sem receber a atenção necessária. Atualmente é comum as pessoas com mais de 70 ou 80 anos usarem celulares, tablets e computadores com acesso à internet. Entretanto, os programas não são amigáveis para este público e não há um serviço de suporte adequado. Uma pessoa da família, com mais de 80 anos, me contou que faz compras e operações bancárias pela internet nos dias em que recebe a visita do neto. Sozinha não sabe como fazer isto, embora saiba acessar o Facebook, mandar e-mails, etc.
Enquanto na Europa e EUA os idosos de classe média conseguem viajar e ter uma vida ativa, com programas adequados as suas necessidades, no Brasil estes serviços são ainda incipientes. A alternativa para os idosos brasileiros são os bailes da terceira idade. Soube de uma empresa que organiza viagens para o exterior com idosos de classe média alta, que não está conseguindo atender toda a demanda. Mas nem casos como este despertam o mercado, que continua desprezando os poder de compra e as necessidades dos idosos.
Os estudantes universitários costumam fazer estágios, que em muitos casos, não lhes acrescentam experiência profissional, são apenas uma forma de obter renda. Desconheço no Brasil, universitários que dediquem-se a cuidar de idosos em tempo parcial. Provavelmente isto não ocorra devido aos inúmeros entraves burocráticos e legais. Enquanto cursava meu doutorado na Alemanha, tive a oportunidade de cuidar de um velhinho, um trabalho que me ensinou muita coisa para a vida e que me dava uma remuneração complementar. Atrapalhou os estudos? Que nada! Meu trabalho era chegar as 7 horas da manhã na casa dos Herbst, acordar o Senhor Herbst, trocar sua fralda, vestí-lo e colocá-lo na cadeira de rodas, fazer a higiene e depois servir o café. As 8 horas eu já estava na universidade. A noite, outro estudante fazia a higiene e o colocava na cama. O recrutamento para os universitários interessados neste tipo de serviço era feito com um pequeno cartaz no restaurante universitário. Qualificação? Treinamento? Fiscalização? Antecedentes? Carimbo na carteira de trabalho? Nada! A seleção era feita pela Frau Herbst que, depois de entrevistar alguns estudantes, me disse: “gostei de você, espero que você cuide bem do meu marido”. Pronto! No final do mês ela me pagava e estava tudo certo.
Por meio da experiência com o Senhor Herbst, conheci vários serviços para idosos e cadeirantes que são oferecidos na Alemanha. Várias vezes acompanhei o Senhor e a Senhora Herbst em idas ao médico, passeios ou mesmo uma simples saída num domingo para comer uma fatia de torta numa confeitaria. O táxi era apropriado para carregar o cadeirante. As calçadas eram adequadas e os idosos eram respeitados onde chegavam. Em países desenvolvidos, ser cadeirante, com limitações para caminhar, para ver ou ouvir, não impede que os milhares de velhinhos viagem e se divirtam com pouco dinheiro. O Estado (governo) paga para o familiar que dedicar algumas horas do seu tempo para cuidar do idoso, pois custa muito menos pagar para um familiar do que custear uma internação num hospital. Coisas que os nossos governantes não conseguem entender.
Na cultura oriental, a velhice é sinônimo de sabedoria. Por exemplo, os japoneses costumam consultar os idosos antes de tomar uma decisão importante. O dia do idoso, terceira segunda-feira de setembro, é feriado nacional, neste dia os japoneses oram pela longevidade dos idosos e agradecem pelas suas contribuições.
O envelhecimento é uma conquista do nosso tempo, mas invés de celebrarmos este avanço da humanidade, ainda debatemos a falta de paciência e o abandono dos idosos, seja pelas famílias, seja pelo mercado ou pelo Estado. É verdade que temos o Estatuto do Idoso e que eles obtiveram várias conquistas, mas será que um dia vamos tratar os idosos como nos países desenvolvidos ou como na cultura oriental?
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Brasil: um país conservador

– 28 de junho de 2015
Leonardo Querido Cardenas (*)
Nas últimas décadas, alguns debates essenciais para as liberdades individuais têm sido colocados em pauta em todo o mundo. Questões como o a legalização do aborto, da maconha, e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, dentre diversos outras, vêm sendo amplamente discutidos pelas sociedades de diferentes países.
Muitas dessas questões, após muitos anos de debates, foram colocadas em pauta pelos legisladores em muitos países do mundo. Não é raro vermos notícias de países onde a legalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo já serem realidades bem aceitas pela população. Até mesmo a maconha, que ainda é um tabu, tem sido liberada em alguns países, como no Uruguai. Mesmo nos Estados Unidos da América, alguns estados já legalizaram para o uso medicinal, ou mesmo recreativo, mesmo sendo esse país reconhecido por posições conservadoras.
Mas então por que, no Brasil, tais debates nem sequer são colocados em pauta? Observa-se, efetivamente, um discurso predominantemente conservador por parte de boa parte da população. A presença e influência da religião junto ao Estado, por outro lado, acaba freando muitas possibilidades de avanços em diversos campos relativos às liberdades individuais. Em um país onde o Estado é constitucionalmente laico, a laicidade jamais foi efetivamente exercida. Basta observamos, por exemplo, que a imensa maioria dos feriados nacionais no país são católicos. Por outro lado, as datas sagradas de outras religiões não têm nenhum espaço no calendário oficial. Entender que a laicidade do Estado representa justamente a garantia das liberdades religiosas é o cerne da questão.
Mas por que defender causas, como as três acima citadas, se elas não gerarão qualquer reflexo mais direto sobre minha vida em particular, independentemente da maneira como sejam tratadas? Afinal, sou homem e, portanto, não abortarei; sou heterossexual e, portanto, não casarei com pessoal alguma do mesmo sexo; não sou usuário de maconha. Minha defesa não faria nenhum sentido, poderiam afirmar alguns.
Trata-se, na realidade, de um equívoco. Esse debate não gira em torno da defesa de questões pontuais. Trata-se, sim, de uma questão absolutamente fundamental, e pela qual todas as pessoas de bom senso sempre deveriam lutar: as liberdades individuais. Ser livre e ter o direito de realizar suas próprias escolhas é o mais sagrado dos direitos. Ao Estado cabe restringir apenas as ações individuais que, quando realizadas, tragam prejuízos consideráveis para o coletivo.
Não é o caso, por exemplo, do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O fato de duas pessoas casarem-se não diz respeito a ninguém mais que apenas aquelas pessoas. Não há, nesse ponto, nenhum prejuízo social efetivo para as decisões individuais dessas pessoas.
Da mesma forma, qual o sentido da proibição da maconha? “Faz mal”, diriam alguns. Ora, então proibamos o bacon. Esse não é o argumento fundamental. “É a porta de entrada para outras drogas!”, diriam outros. Qual a pesquisa que demonstra isso? Na realidade, isso não faz o menor sentido. A única maneira de considerar esse argumento seria o fato de que, ao comparar a maconha, o usuário, por ter contato com o traficante, o que perimtiria o acesso às outras drogas. E, nesse caso, a liberalização seria uma forma de reduzir essa problemática, já que afastaria usuário do traficante que oferta uma enorme gama de drogas pesadas. Em uma sociedade onde o álcool é legalizado e seu consumo estimulado; em uma sociedade onde o álcool gera tanta violência, pelo próprio ímpeto violento gerado por essa droga ou mesmo pela violência no trânsito; falar contra a maconha é uma hipocrisia sem tamanho. Mais uma vez, mexe-se com as liberdades individuais sem justificativas plausíveis.
Igualmente, quando tratamos do aborto. Não se trata de ser a favor do aborto (eu sou contra), mas do direito da mulher de abortar (eu sou a favor). De ser dona do seu próprio corpo. Ou continuaremos assistindo, de camarote, centenas ou milhares de mulheres morrendo todos os anos ao realizarem abortos clandestinos. Qual o argumento que justifica tamanha barbárie? Esse argumento é essencialmente religioso. “Trata-se da defesa da vida”, diriam muitos. E a vida dessas mulheres que morrem dia após dia? E, ademais, quando efetivamente poderemos considerar um embrião não mais um punhado de células e sim um ser humano? É uma discussão baseada em discursos hipócritas, fanáticos, preconceituosos e baseados fundamentalmente em desconhecimento científico.
Esses são três debates clássicos, dentre tantos outros, que precisam ser colocadas em pauta pela sociedade brasileira. Não se pode temer a polêmica e muito menos aceitar que o Estado nos imponha determinadas restrições de maneira aleatória. O debate precisa ser racional e fundamentado. Enquanto permanecermos aceitando que a fé influencie o Estado e a vida de todo o coletivo, permaneceremos submetidos às vontades de religiões que muitas vezes não nos representam. Seremos tão mais livres quanto maior o direito de tomarmos nossas próprias decisões e quanto menos nossas ações forem balizadas pelas crenças de terceiros que não nos representam.
(*) Leonardo Querido Cardenas é Professor na UFERSA, Mossoró, RN e doutorando em Administração da UFRGS, Porto Alegre, RS.
Contato: leonardoquerido@yahoo.com.br
Eu não queria, mas fiz porque me pediram !

– 21 de junho de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Síndico do prédio. Chefe ou Coordenador de atividades acadêmicas. Presidente da associação de alguma coisa … Se você ainda não assumiu algum destes cargos ou funções, provavelmente um dia terá que assumir, mesmo que não queira, pois é uma contribuição que cada membro de determinado grupo precisa dar ao respectivo grupo. Além destes cargos/funções, existem situações na vida em que uma pessoa não desejaria fazer determinada coisa, mas é pressionada pelos amigos e familiares, a fazer.
Entre adolescentes, é muito comum alguém dizer que numa festa, ele não queria beber ou consumir drogas, mas que os amigos lhe pressionaram e este adolescente acabou cedendo. Trata-se do chamado “efeito manada”, ou seja, uma vez que todos estão fazendo determinada coisa, o indivíduo é levado a acompanhar a manada, mesmo que desejasse ir em outra direção. Entre os adultos, também acontece das pessoas cederem as pressões. Por exemplo, se um amigo insistir muito para você apoiar o projeto dele, de tanto ele lhe incomodar, talvez você acabe apoiando. Humm…. acho que este não é um bom exemplo! Deixa eu pensar em outro…
Já sei, as eleições parlamentares! Nas eleições, muitas pessoas são estimuladas a concorrer e depois não recebem o apoio prometido. Uma amiga, que era uma liderança na sua cidade, foi estimulada a concorrer a vereadora. Ela resistiu por muito tempo, até que chegou um momento em que a decisão parecia não ser mais dela, pois o “coletivo” exigia a sua candidatura. Durante a campanha ela perguntava para alguns eleitores em quem confiava: “você não precisa votar em mim. Mas, se está certo que vais votar em mim, me diga se eu posso contar com o teu voto”. Somente com os votos dos que disseram “sim, podes contar com o meu voto”, ela teria sido eleita. Mas as urnas mostraram que menos da metade dos que garantiram o voto, realmente votaram nela. Além da frustração da não eleição, esta pessoa ficou profundamente decepcionada com os seus amigos e apoiadores, pois ela não queria ser candidata, se desgastou e queimou suas economias. Fez o que não queria, porque lhe pediram.
Tenho um colega que explica estas situações dizendo que, quando é para alguém montar num touro, os amigos e correligionários incentivam esta pessoa e dizem: “pode montar que a gente segura o bicho”. Então ela se anima e monta no touro. Mas quando ela está lá em cima, os incentivadores caem fora e deixam o touro solto. E ainda tem um sacana que, com duas pedras nas mãos, irá lá bater nos ovos do touro para deixá-lo mais furioso.
Moral da história, saiba distinguir as atividades que, mesmo não querendo você precisa fazer, seja por ser um rodízio ou por solidariedade com o grupo, das atividades que você não quer fazer, e que pode resistir. Se ceder as pressões, esteja preparado para ter algumas poucas gratas surpresas e muitas decepções. Compreenda que isto faz parte do jogo e da democracia. No Rio Grande do Sul usa-se a expressão “cavalo encilhado não passa duas vezes” para dizer “esta é a sua chance, aproveite, não terás outra!”. Mas, tome cuidado, quando lhe pedirem para montar no cavalo encilhado que está passando, certifique-se que ele não é o touro, que você irá montar.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Humano. Humano? Humano!

– 21 de junho de 2015
Patricia Tometich (*)
Qual o primeiro significado que lhe vem à mente ao pensar na palavra “humano”? Não, não quero que procure no dicionário, apenas que pense. E então? No meu caso, as primeiras ideias que nascem dessa palavra são compreensão, bondade, tolerância. Empatia, talvez.
Indo para o dicionário, é possível encontrar que “humano” é uma palavra de origem latina que designa o que for relativo ao homem como espécie. Ainda no dicionário se descobre que o que diferencia a espécie humana das outras é a racionalidade.
Olhando à minha volta e repensando o significado que a palavra “humano” carrega, eu penso que preciso refletir melhor a respeito. Porque compreensão, bondade e tolerância não são vistas com tanta frequência nas atitudes dessa nossa espécie que convencionou-se chamar de humana.
Um jogador de futebol negro passa por constrangimento em campo no Peru, com a torcida adversária emitindo sons que imitam macacos. Quando o filho dele, de apenas cinco anos, pergunta o motivo daquele barulho todo a cada vez que o pai tocava na bola, esse pai não sabe o que responder. Ao outro filho, um pouco mais velho, e que nem quis ir à escola no dia seguinte ao acontecido, o pai diz que se lembre do fato e que não tenha nunca qualquer tipo de preconceito.
O jogador de futebol cabe bem direitinho nas minhas ideias do que significa alguém ser chamado de humano. Usou um constrangimento pessoal como exemplo na educação de um filho. Mas e todos aqueles seres (humanos?) que estavam no estádio no Peru, em coro, emitindo aqueles sons com a intenção de constranger o jogador do time adversário? Ah… mas a rivalidade no futebol é uma coisa normal, não é mesmo? Apenas uma forma de desestabilizar o adversário, é racional, não é? Você deixa o craque constrangido, ele não joga tão bem, o seu time vence, perfeito! Humano!
Não muito tempo antes da situação no Peru, fora dos estádios, na cidade do Rio de Janeiro, um adolescente negro é acorrentado a um poste, é despido, é agredido. Parece que na região andam acontecendo muitos assaltos, e não se sabe quem foram os agressores, mas a suspeita é de que tenha sido alguma espécie de vingança. O rapaz foi levado a um hospital e mal conseguia falar de tão machucado. Ao que tudo indica, foram seres humanos que tomaram a decisão de acorrentar o rapaz, despir o rapaz, cortar a orelha do rapaz. É preciso moralizar essa marginalidade minha gente!
Em minha opinião, as duas situações descritas acima são desumanas. Assim como o preconceito que envolve opção sexual, classe social, ou qualquer outro tipo de desculpa que se use para atitudes agressivas e criminosas. Mas por incrível que pareça há quem encontre justificativas racionais e argumentos sólidos para o comportamento dos torcedores, dos agressores, dos opressores, dos… humanos!
Agora penso de novo na palavra “humano”. Humano. Humano? Humano! Mas é claro, agora está clara para mim a palavra que talvez seja o melhor sinônimo, a melhor tradução para humano: imperfeito. Humano: ser imperfeito que é capaz de encontrar argumentos lógicos e racionais para cometer as piores barbaridades. Bárbaro, aliás, é um vocábulo interessante, pois a ele foram atribuídos significados absolutamente contraditórios. Bárbaro pode significar cruel, desumano. Bárbaro pode significar magnífico, maravilhoso. É, talvez seja também um bom sinônimo para humano: vai do cruel ao magnífico.
(*) Patrícia Tometich é doutoranda no PPGA/EA/UFRGS
Contato: ptometich@gmail.com
Até quando vou te amar?

▪ 14 de junho de 2015
(*) Luis Felipe Nascimento
Visitamos, com uma turma de alunos, uma comunidade Osho Rachana. Talvez o que mais tenha nos chocado, foi quando a pessoa que nos recebeu falou da sua relação com a namorada e disse, na frente dela, não sei até quando eu vou amá-la, pois a gente sabe que o amor acaba. Daqui a pouco, a gente não vai mais estar juntos e cada um vai seguir o seu caminho.
Enquanto subíamos o morro para curtir uma paisagem paradisíaca, discutíamos sobre as relações tradicionais, alternativas, conservadoras e tantos outros nomes que são atribuídos para as relações entre casais. Alguns argumentavam que o amor não acaba, o que acaba são as relações, pois alguém que deixa de amar uma, pode começar a amar outra pessoa. Será que existe amor único e eterno? Estas e outras questões eram feitas e não ficavam sem respostas.
De tanto falar em desgaste e manutenção das relações, fiquei imaginando como isto ocorre nos bens materiais. Por exemplo, sabemos que o sol, a chuva e o vento desgastam a matéria. E qual seria o fenômeno que mais desgasta uma relação entre duas pessoas que se amam? O “conviver” (viver juntos) parece ser o sol, a chuva ou o vento, que provoca desgastes quase imperceptíveis dia após dia. Enquanto que uma tempestade, um raio, seria uma briga entre o casal, que deixa estragos bem perceptíveis.
Assim como a matéria, o desgaste das relações pode ser acelerado ou pode ser reparado com manutenções constantes. Imagine uma casa nova que recebe uma família para morar. No primeiro ano, tudo vai funcionar bem. Talvez não seja necessário fazer nenhum reparo. Com o passar do tempo, vai rachar alguma parede, vai aparecer goteiras, vai estourar um cano e, se nada for feito, aquela bela casa, tão agradável de morar, se torna um lugar insuportável. Ou seja, se não houver a manutenção preventiva e a corretiva, a depreciação será acelerada. Por outro lado, existem casas que estão sempre bonitas e com tudo funcionando, porque receberam a manutenção necessária.
O estar bem, viver bem, não significa que não existam problemas ocultos. Quando uma das partes se sente magoada, ferida, atingida por alguma coisa feita pela outra, tende a usar isto como uma dívida. No momento oportuno, apresentará a cobrança (lembra daquela vez que você…., eu não sou como você que fez tal coisa….). Diferentemente da contabilidade, estas dívidas não são saldadas com um pagamento. Quem deve, nunca conseguirá pagar a dívida. Por mais que faça, sempre ficará em débito. Nas relações entre casais, lembrar o outro dos seus erros e mágoas provocadas, provoca ainda mais desgastes. Faz com que o outro procure argumentos para contra-atacar. A cobrança serve apenas para aliviar a raiva de quem se sentiu atingido e para cutucar mais o outro. É como um jogo de perde-perde, não resolve o problema e não deixa cicatrizar a ferida.
A Comunidade Osho Rachana se reúne duas vezes por semana para “lavar a roupa suja”, onde cada um fala o que está sentindo em relação aos demais. Ouvimos uma pessoa da comunidade dizer que brigou com o seu melhor amigo, porque disse tudo o que pensava sobre o comportamento recente do amigo. “Ele está brabo comigo, mas vai entender que fiz isto para ele parar de fazer as bobagens que vem fazendo”. Eles continuavam amigos, mas brigados. Falar antes que o problema se agrave, não seria uma manutenção preventiva?
A crítica e a cobrança se fazem necessárias, mas elas podem ser feitas de muitas formas. Diferentemente das leis da física, onde toda ação provoca uma reação proporcional, nas relações pessoais, uma cobrança pode provocar uma reação desproporcional. Ela é desproporcional porque o efeito é cumulativo. Se ao longo do tempo foram se acumulando descontentamentos, e num certo dia, acontecer algo não tão grave, isso poderá ser a gota d`água.
Nas relações entre casais é muito difícil “lavar a roupa suja” toda a semana, como se faz na Comunidade Osho Rachana. Muitas vezes parece que nem se tem roupa suja para lavar, pois tudo vai tão bem. Mas, são os pequenos descontentamentos que vão minando a relação. Uma manutenção preventiva periódica faz bem para qualquer relação, mesmo quando “está tudo bem”. Dizer o que está pensando e analisar os descontentamento é fortalecer o “querer ficar juntos”. Enquanto que o “depois a gente se acerta” é acumular mais um desgaste na relação.
No passado, e ainda hoje, muitos casais permanecem juntos pela dependência financeira, em função dos filhos ou por medo de enfrentar uma separação. Parece óbvio dizer que só vale a pena viver juntos quando for melhor do que viver separados, ou com outra pessoa, mas isto nem sempre acontece. Para valer a pena viver juntos, é preciso sentir-se bem e contribuir para que o outro também seja feliz. Talvez esta seja a maior dificuldade dos casais. Não abrir mão do seu direito de ser feliz e não ser egoísta a ponto de prejudicar a felicidade do outro. Embora seja difícil, quem está buscando este equilíbrio já está bem mais avançado dos que ainda estão apresentando as dívidas do passado.
No dia dos namorados é o dia para dizer “eu te amo”. Nos demais, é para se perguntar “estamos fazendo a devida manutenção para que este amor não acabe?” ou, se continuar como está, “até quando vou te amar?”
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
E assim aconteceu…

– 14 de junho de 2015
(*) Lija Neiva Fávaro de Brum
Ele, João, era neto e filho de fazendeiros. Aos oito anos foi estudar em Santa Maria, colégio religioso, estimulado pelos próprios pais, que sonhavam com um filho com formação superior. Concluído o segundo grau, João decidiu que deveria fazer algo para não depender mais de seus pais.
Aos dezoito anos, aproximadamente, conheceu alguns uruguaios que ampliavam fotos e reproduziam belos quadros coloridos. Associou-se a eles e começaram a trabalhar juntos usando uma estratégia de venda bastante inteligente. De casa em casa, ao conversar com a pessoas, mostravam e ofereciam seu trabalho, informando que entre três envelopes que lhes era mostrado, um estaria premiado com um belo desconto a quem o escolhesse.
Como o valor era relativamente alto, o desconto entusiasmava o responsável pela encomenda, e em muitos casos ela era realizada.
Visitaram muitas cidades pelo interior do Rio Grande buscando ampliar suas vendas, até que chegaram em Caxias do Sul e os sócios uruguaios a quem cabia viajar, bateram à casa dos pais de Lija.
Tem sido feitas todas as apresentações, foto encomendada, anotados os dados da pessoa, isto é: nome, idade, endereço, cor do cabelo, da pele, dos olhos, da roupa, etc., eles saíram para novas tentativas.
Ao chegarem em Santa Maria com as encomendas, passaram-nas as mãos de João para tomar conhecimento do que haviam feito.
Eis que, ao passar pela foto de Lija, houve um interesse especial da parte de João, que resolveu iniciar uma correspondência com ela.
Era costume entre os jovens escreverem cartas, como maneira de conhecer pessoas e trocarem impressões quanto a filmes, moda, viagens, estudos, etc.
Lija tinha outros correspondentes de outros estados, e não titubeou em acrescentar mais um.
Após algumas cartas, João resolveu ir a Caxias visitar sua correspondente. A expectativa era grande, e, após essa visita a correspondência transformou-se em namoro, casamento, filhos e uma vida muito feliz!
Um beijo
(*) Lijinha – Lija Neiva Fávaro de Brum é aposentada e reside em Novo Hamburgo – RS.
Contato: lijinha1933@hotmail.com
Acerto de Contas

– 7 de junho de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
7:00 – O dia não nasceu para ninguém, o Planeta está escuro no Japão e no Brasil, na Antártida e no Polo Norte, diz o comentarista da TV. Seria uma tempestade solar? O que estaria tapando o sol: um eclipse ou uma nuvem de poeira de algum vulcão? A previsão do tempo para hoje era de sol em todo o país! O que está acontecendo? Continuo ouvindo a TV, enquanto preparo o meu café.
7:27 – Sentado na frente da TV, vou zapeando em busca de uma explicação para esta escuridão. Meu primeiro compromisso é às 09:00, tenho ainda algum tempo para sair de casa.
7:30 – Toca aquela música do Plantão Globo de Notícias, e eu fico tenso, pois sei que lá vem tragédia. Vamos ver o que dizem desta vez: “O Governo Federal decretou dia não letivo e as aulas nas escolas foram suspensas. Recomenda que as pessoas que saíram, voltem para suas casas”. Ops! E a minha reunião, como fica?
7:35 – Ligo para o meu chefe e ele me informa que a reunião foi transferida.
8:00 – Poderia voltar para a cama, mas não consigo sair da frente da TV. Pego mais um café, sento no sofá, e assisto entrevistas e debates com especialistas, que dão explicações para tudo. Um canal religioso diz que isto é o início do Apocalipse. Em outro, ouvi o pastor dizer que “de tantos pecados que cometemos, Deus resolveu nos castigar e apagou o sol”. Me poupe, né!
8:34 –Troco mais uma vez de canal, quero saber o que dizem em outros países. A CNN está fazendo uma cobertura global, repórteres falando dos quatro cantos do mundo. A Fox News informa que o FBI já descartou a hipótese de atentado terrorista. Os depoimentos se sucedem.
09:47 – De novo aquela música do Plantão de Notícias, agora falando da Amazônia: “Está ocorrendo uma concentração de animais, de todas as espécies, numa região próxima a Manaus. Especialistas já estão na região”. Mas o que será que esse bicharedo está aprontando? Fico cada vez mais apreensivo.
10:00 – A concentração de animais na Amazônia chama a atenção do Mundo. Equipes de TV estão sendo deslocadas para a Amazônia.
10:30 – Parece que o Mundo parou, as ruas das metrópoles estão vazias. Agora há pouco, o presidente dos EUA deu um depoimento dizendo que o país está seguro e que não há motivos para pânico. Recomendou que a população americana fosse às compras.
11:00 – Quando tiro o olho da TV, navego no tablet em busca de uma explicação sobre o que está acontecendo neste dia escuro. Olha aqui, sobrou até para o Papa Francisco! Estão dizendo que o Papa já sabia que isto iria acontecer quando escreveu a encíclica sobre ecologia.
11:15 – O cacique de uma tribo indígena da Amazônia informa que esteve na concentração dos animais e que ao meio dia haverá uma manifestação dos animais. Essa notícia repercute pelo Mundo, causando risos e ironias para uns e preocupações para outros.
11:50 – Vou ao banheiro rapidinho, pois quero ver o que vai acontecer ao meio-dia. Será que é uma pegadinha? Alguma campanha publicitária? Não pode ser! E por que fariam isto lá no meio da Amazônia?
11:59 – Os repórteres estão falando diretamente do meio da mata, onde se aguarda um depoimento não sei de quem. Apesar da escuridão, os holofotes estão voltados para o local indicado pelo Cacique.
12:00 – O Papagaio-curau, o último sobrevivente da espécie, pousa num galho na frente das câmeras e começa a falar. Ele fala numa língua que não é o português, nem o inglês, talvez o papagaiês! O curioso é que todos o entendem. Vamos ouvir o que ele diz: “… a Convenção das Partes da Natureza – a COP-N – que ocorreu aqui na Amazônia, decidiu pelo fim do Antropocentrismo. A espécie humana faz parte da Natureza, mas não reconhece os direitos das demais espécies. Por isso, resolvemos colocar regras para que ela aprenda a conviver com as demais espécies. Foi decidido que, a partir das 13 horas de hoje, portanto, dentro de uma hora, a espécie humana não poderá mais agredir os animais, nem poluir o solo, a água e o ar”.
12:15 – Ao concluir, o Papagaio-curau disse que iria responder uma única pergunta, e aguarda. Os repórteres estão combinando… qual será a pergunta? O clima é de apreensão, pois nunca se viu algo parecido. Lá vem a pergunta: “O que poderá acontecer com a espécie humana, se ela não cumprir o que foi decidido pela COP-N?” O Papagaio-Curau responde: “Simples, a Natureza deixará de prestar os seus serviços para a espécie humana”. Acabou esta frase e bateu asas, retornando para o meio da mata.
12:30 – Novamente, as repercussões são variadas. A CNN está entrevistando um general do Pentágono, que diz que os EUA estão preparados para bombardear a Amazônia e prender os animais terroristas. E, se for preciso, usarão o agente laranja para desfolhar a floresta. O Presidente da Rússia anuncia que não reconhece as decisões da COP-N. A Comunidade Europeia quer negociar com o Papagaio-curau.
12:50 – O que será que vai acontecer se a espécie humana desobedecer? Será que a COP-N é como a ONU, que toma decisões, os países não as cumprem e nada acontece? Estou com fome, mas não desgrudo da TV nem para colocar a pizza no forno.
13:00 – Nenhuma ação concreta é anunciada pelas lideranças mundiais para atender as exigências da COP-N. Parece que tudo vai continuar como está. Acho que era mesmo um blefe da bicharada reunida na Amazônia.
13:05 – Vou comer a minha pizza mais tranquilo… Ops! Acabou a luz! Onde foi que eu coloquei aquela lanterna? As velas deveriam estar nesta gaveta. Ai! Bati minha perna.
13:10 – Já achei a lanterna, as velas e, embora o meu tablet ainda tenha carga na bateria, não tem mais acesso à internet. Estou procurando o meu radinho de pilhas de levar no futebol.
14:00 – Estou novamente no sofá, à luz de velas e ouvindo o meu radinho, que agora é o meu canal de contato com o Mundo. Estou tentando ouvir alguma explicação sobre a falta de energia. Pelo que dizem, foi no Mundo todo.
14:49 – Já está comprovado que a falta de energia foi uma retaliação da Natureza. Enquanto alguns imaginavam que a Natureza iria provocar terremotos, tsunamis e vendavais, aconteceu o que o Papagaio-curau anunciou: ela parou de fornecer os seus serviços! A Natureza tá de greve. As águas dos rios pararam de correr e não há mais vento. Como consequência, as usinas hidrelétricas e eólicas pararam de funcionar. Sem ventos para dispersar as emissões, as termoelétricas estão sufocadas de fumaça. O sistema de geração de energia entrou em colapso.
16:00 – Estou rezando para que as pilhas do radinho aguentem firmes, pois quero saber o que vai acontecer. O Secretário Geral da ONU está negociando com o Papagaio-curau, pedindo um prazo para a espécie humana poder cumprir as exigências.
17:45 – Caminho pela casa sem ter o que fazer. Que dia! Nesta escuridão, nem sei se dá para chamar isso de “dia”.
21:30 – Eba! Voltou a luz! Ligo logo a TV. Eles estão anunciando para as 22:00 o pronunciamento do Secretário Geral da ONU. Tomara que desta vez venha uma boa notícia.
22:00 – O homem vai falar: “… A ONU fez um acordo com a COP-N. A espécie humana terá seis meses para deixar de agredir os animais e de poluir a Natureza. Neste período, serão discutidas as cotas de serviços prestados pela Natureza e as contrapartidas que serão dadas pelo homem…”
23:00 – Já passei por vários canais. Este aqui está muito interessante. Os entrevistados estão fazendo simulações de como será a nossa vida quando o acordo com a Natureza entrar em vigor. Dizem que não haverá mais coleta de lixo: cada um de nós terá que cuidar do seu próprio lixo e não poderá descartar nada na Natureza. Quanto mais consumir, mais lixo terá e mais problemas terá para se livrar dele! Quem vai controlar? A própria Natureza! Em vez de atacar o lixo jogado na Natureza, as bactérias atacarão quem o jogou.
23:30 – Estou exausto, mesmo sem ter feito nada o dia todo! Vou dormir e tentar desligar a minha cabeça. O que eu mais quero, nesta hora, é poder acordar amanhã cedo e ver o sol. Quero sair na rua e encontrar as pessoas… Ah! Preciso me adaptar aos novos tempos e reduzir os meus impactos na Natureza. Por onde eu começo? Putz! Perdi o sono!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Nós, Humanos, e o Paradoxo da Sustentabilidade

– 7 de Junho de 2015
Luis Carlos Zucatto (*)
Lutamos pela sobrevivência frente a outras espécies e parece que somos vitoriosos porque temos avanços consideráveis na Medicina, nas Nanociências, Tecnologias da Informação e Comunicação, para citar algumas. Para ilustrarmos como os avanços tecnológicos contribuíram com a humanidade, citamos a expectativa de vida ao longo do tempo: na Idade da Pedra, vivíamos, em média, 25 anos; na Idade Média, 35 anos; e, atualmente, a média mundial é de 67 anos[1]. Por conta de vivermos mais, e melhor, poderíamos acreditar que à medida que o tempo passa, a expectativa de vida aumentaria e, se continuarmos nessa progressão, daqui a 10.000 anos os seres humanos, em média, viveriam 135 anos. Verdade é que a média não evidencia as disparidades. Por exemplo, em Botsuana, País assolado pelo vírus da AIDS, a expectativa de vida atual é de 31,6 anos, enquanto no Brasil é de 73,44 anos. Mas, continuaremos a viver mais e mais? Talvez… a intenção de provocar esta discussão é de tentarmos entender o que contribuiu para que tivéssemos aumentado a expectativa de vida e se é possível continuarmos a viver com os padrões atuais, especialmente aqueles das sociedades do Hemisfério Norte. Temos estudos sugerindo que, se extrapolados os padrões de produção e consumo atuais dos Países Desenvolvidos, todos no Norte, o Planeta supriria somente 1/3 da população mundial. Talvez estes estudos não sejam meras especulações e devamos dar atenção, olhando-os com critérios, e, pelo menos, mostrando interesse porque têm coisas importantes a nos dizer. Uma delas, é sobre a sustentabilidade, que é a capacidade ou a qualidade de sustentar algo, e este algo, é a vida no Planeta. Quando falamos da vida, não falamos somente da vida humana, porque não existimos sem as outras formas de vida. A vida no Planeta é a vida como um todo! Então, o que permitiu que nossa expectativa de vida aumentasse tanto? As descobertas científicas, nomeadamente aquelas relacionadas às ciências da saúde e da produção de alimentos. As outras descobertas, e as tecnologias advindas destas, podem ser consideradas complementos ou suportes das primeiras. Algumas tecnologias permitiram que aumentássemos a produtividade, outras, que pudéssemos explorar recursos antes de difícil acesso, e assim, as tecnologias contribuíram para que produzíssemos mais, explorássemos mais, e? E chegamos à situação atual, com riscos de colapso do Planeta em algum momento, se continuarmos neste rimo de exploração e descarte inadequado de produtos, embalagens, resíduos e outras formas de contaminação do meio ambiente. Assim se apresenta do paradoxo da sustentabilidade: podemos produzir mais (muito mais) e não cuidamos como deveríamos dos recursos (renováveis e não renováveis). É, nunca na História Humana se teve tanta facilidade de acesso a serviços e recursos essenciais e também supérfluos (este conceito não é bem visto pelo Marketing) como temos hoje e até parece haver uma consciência coletiva de que precisamos de tudo isso para vivermos. Será? Bem, mas desta forma, a sustentabilidade não fica ameaçada? Pois é, a sustentabilidade, incrível paradoxo humano da pós modernidade, quando temos tudo (e mais do) que precisamos e não nos damos conta (ou não queremos nos dar) de que podemos estar colocando em risco nossa sobrevivência. Não queremos, aqui, fazer apologia à obra do Clube de Roma “The Limits of the Growth” que em 1972 alertava para as consequências do padrão inadequado de produção e consumo, porque, segundo os autores, a oferta de insumos para a sobrevivência humana estaria crescendo linearmente, enquanto as demandas cresceriam exponencialmente, pondo limites ao crescimento. Talvez para entendermos melhor do que se fala, seria oportuno fazermos um exercício com nossos pais ou avós e perguntarmos a eles quantos pares de calçados tinham, como era o guarda-roupas da vovó quando ela era mocinha, quantos aparelhos eletroeletrônicos havia na casa, a cada quanto tempo se trocava o automóvel, e assim sucessivamente…Alguns poderão dizer: as gerações deles não tinham acesso a esses bens, não haviam tantas marcas, não havia políticas de vendas a prazo (24 vezes…dois anos pagando um televisor, que quando quitar a última prestação, possivelmente, seja trocado), e outros indagarão: por que não poderíamos aproveitar estes recursos e vivermos melhor? Não pretendemos entrar no mérito do que entenda por “viver melhor”, porque esta pode ser uma próxima discussão. Nos atemos, por ora à sustentabilidade, nosso paradoxo que, ao que parece nos desafiará cada vez mais, não a encontrarmos soluções aos problemas, mas a mudarmos de comportamento, pois mudar comportamentos é uma das maiores dificuldades que temos. Senão, vejamos: nos dispomos a ir de carona para o trabalho, quando temos nosso carro? Dificilmente. Por quê? Porque o carro nos dá autonomia: saímos no horário que queremos, fazemos o itinerário que nos aprouver e não dependemos do horário e do itinerário de outros. Citamos este exemplo para ilustrar o quão desafiador é o paradoxo da sustentabilidade. Pretendo ir de carona ou de ônibus para a Universidade…espero me acostumar.
(*) Luis Carlos Zucatto é Professor na UFSM – Palmeiras das Missões
Contato: luiszucatto@gmail.com
[1] Dados extraídos de: http://www.news-medical.net/health/Life-Expectancy-What-is-Life-Expectancy-(Portuguese).aspx
O valor de uma hora

– 31 de março de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Quando cheguei no estacionamento, encontrei uma mulher brigando com o frentista. Ela perguntava a cada um que chegava “Tu não achas um absurdo cobrarem vinte e dois reais por uma hora de estacionamento?”. Virou-se novamente para o frentista e disse: “Chama o gerente! Eu vou ao juizado de pequenas causas! Paguei R$ 15 para almoçar, não vou pagar R$ 22 por uma hora de estacionamento!”. Saí de lá pensando no que a mulher dizia e no valor de uma hora de outros serviços. Pouco depois, passei por uma Lan house e vi que, para usar um computador por uma hora, navegar na internet e falar com pessoas no outro lado do mundo, pagaria R$ 4 por hora. Aquele espaço do estacionamento valia muito mais do que toda a tecnologia utilizada no computador, na internet, no uso de satélites, etc.
Quanto vale uma hora? “Depende para quê”, seria a resposta esperada! Uma hora de trabalho especializado vai valer mais que a hora do trabalho com baixa qualificação. A hora de um médico vale muito mais do que a hora de uma empregada doméstica. Quem ganha um salário mínimo e trabalha 160 horas por mês, recebe R$ 5 por hora trabalhada.
Uma consulta médica particular, em Porto Alegre, custa R$ 350. Curiosamente, o colega deste médico, que supostamente possui a mesma qualificação profissional, mas que trabalha no SUS, recebe R$ 10 (dez reais) por uma consulta ambulatorial. Vamos imaginar que o atendimento privado demore trinta minutos e que no SUS demore dez minutos. Ao final de uma hora, o atendimento privado rendeu R$ 700 e do SUS R$ 60, uma diferença de doze vezes, para a prestação de um serviço semelhante.
Perguntei a amigos qual a hora mais cara que eles já haviam pago. Analisamos vários serviços. Concluímos que o custo de uma hora dentro de um avião é menor do que o da consulta médica. Uma hora num bom restaurante, bebendo um vinho, poderá passar disso, mas, entre os meus amigos, ninguém havia pago mais do que o preço de uma consulta para comer num restaurante. A consulta médica particular continuava na frente.
Continuamos a conversa e logo surgiu a pergunta de “quanto vale uma hora de prazer?”. Humm… Pode ir do custo zero ao custo da própria vida. Não seria adequado tentar valorar o prazer para comparar com outras atividades.
Outro caminho para verificarmos o quanto vale uma hora é analisar o salário, os rendimentos das pessoas. Você já calculou quanto recebe por hora trabalhada? Por exemplo, um jogador de futebol na série A do Campeonato Brasileiro ganha entre 100 e 500 mil. Digamos que, entre treinos, viagens e jogos, o jogador trabalhe 60 horas por semana, o que corresponde a 240 horas por mês. Para um salário de R$ 240.000, este jogador receberia R$ 1.000 por hora trabalhada.
Resumindo, a empregada doméstica recebe R$ 5 por hora para fazer a comida, que custa R$ 15 para o cliente, que paga R$ 22 por hora para deixar o carro parado no estacionamento. Já o médico do SUS recebe R$ 60 por hora, enquanto o seu colega do atendimento privado recebe R$ 700. E tanto a empregada doméstica, o frentista e o médico do atendimento privado pagam para que o jogador de futebol possa receber R$ 1.000 por hora trabalhada. O trabalho de uma pessoa pode valer 200 vezes o valor do trabalho de outra. E o pior, quem ganha menos ajuda a pagar o salário de quem ganha mais.
Diante disso tudo, tenho que concordar com um amigo que me disse que sentar numa cafeteria, tomar um café e ler o jornal, ou navegar na internet, são as horas mais baratas que temos hoje. Isso custa menos do que o valor de uma hora de salário mínimo. Ah! Mas não dá para ir na cafeteria de carro!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Transformando o tédio em melodia

– 31 de maio de 2015
Sebastião Leão Fialho Guedes (*)
Sempre foi a música a expressão de arte que em mim causou maior impacto. Se fecho os olhos e faço a memória viajar no tempo, cada instante teve fundo musical. Ah, se teve…
Da criança tímida pelos corredores da casa, do guri no Demétrio Ribeiro, do adolescente pelas esquinas de Alegrete descobrindo a vida, do acadêmico despertando para o mundo em Santa Maria, do homem que a aldeia acolheu de volta, de tudo e em tudo, sempre uma canção. Minha vida toda pode ser retratada em trilhas sonoras que a própria sensibilidade estabeleceu.
Através da arte, tantos encontram o seu espaço de expressão e manifestação. Mas no outro lado do processo criativo, estamos nós, aqueles que curtem, que se emocionam e que dão sentido à expressão do talento.
Foi ao som de Chicos, Caetanos e Vinícius (alguém já disse que nasceu no plural) o meu começo. Aberto a todos os sons, nunca tive constrangimento em soltar a voz. Fiz hino de canções do Gonzaguinha, me emocionei com “tons e mil tons geniais”.
Do samba à seresta, da bossa nova ao rock’n roll, foi de melodias que alimentei meus sonhos.
Alma escancarada à emoção – mesmo um tanto exagerada – solto a voz na minha estrada. Faço ecoar as canções que me alimentam. Bebi da fonte da melhor MPB e sempre entendi que música é o barulho que pensa!
Realizado profissionalmente na Fisioterapia – lá se vão 33 anos – cantar virou um dos hobbies preferidos. Tem gente que faz terapia; muitos, academia; outros tantos, filantropia. Eu prefiro cantoria.
Sou dos que acredita que sem a música, a vida seria um erro.
Trago no peito a lembrança de cada amigo do caminho e o Cazuza me ensinou que a poesia que a gente não vive pode transformar o tédio em melodia!
Bons sons!
Sebastião Leão – em plena terça-feira do Carnaval de 2014 – ao som da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel: “Salve a Mocidade, salve a Mocidade”!
(*) Sebastião Leão Fialho Guedes é Fisioterapeuta em Alegrete, RS.
Contato: taniraberquo@hotmail.com
Até domingo que vem – Um projeto pedindo o seu apoio

– 24 de maio de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
“Até domingo que vem” é um projeto de um livro de contos, crônicas e ensaios. Trata-se de uma produção individual e independente. Individual porque todos os textos são de minha autoria. Independente porque não tem a participação de uma editora ou distribuidora. Por outro lado, é um livro coletivo e “muito dependente”. Coletivo porque os textos foram escritos por mim, alguns em co-autoria, mas quase todos com inspiração e contribuições de muitas pessoas, que são de alguma forma também são co-autoras. E posso dizer que o livro é “muito dependente”, do apoio dos amigos, que estão ajudando na produção, divulgação e na viabilização deste projeto.
“Até domingo que vem” é uma seleção de 30 textos publicados na Coluna Dominical do blog www.luisfelipenascimento.net . Os textos falam do cotidiano, da vida e da morte, do amor, da saúde e do meio ambiente, com informações verídicas e muito humor.
Alguns textos usam a ficção para ironizar os nossos hábitos e valores. Aliás, o livro todo é irônico e brincalhão, o que espelha um pouco o meu modo de ver a vida. Por outro lado, vários textos são reflexivos, com muitas perguntas e poucas respostas. Cada leitor encontrará as suas respostas. Estes textos provocam o leitor para pensar sobre “o como seria” a sua vida, ou o Planeta, em determinadas situações. Mas mesmo nestes textos, o leitor não esquenta a cabeça, as brincadeiras e piadas deixam a “coisa séria”, mais leve e agradável.
Acredito que o prazer de escrever é proporcional a liberdade que temos para criar. Quando escrevo, converso comigo mesmo e com outras pessoas. Para um acadêmico, poder refletir sobre qualquer coisa e escrever livremente, sem a preocupação com padrões, Norma ABNT, etc., é uma delícia. A literatura dá a liberdade ao escritor que os textos científicos não permitem. Por isto, aproveito para convidar os amigos, alunos e professores de todos os níveis, para escreverem e me enviarem os seus textos. Prometo que publicarei na Coluna dos Amigos, sem revisões, sem pedir para aprofundar o referencial ou para justificar o método escolhido.
O projeto foi lançado no dia 23 de maio. No primeiro dia já havíamos conseguido 10% do valor do custo do projeto. Com o passar dos dias a tendência é diminuírem os apoios. Temos mais 29 dias para conseguir 100% do valor ou teremos que devolver o recurso para os apoiadores. Entre no site do Catarse www.catarse.me/pt/atedomigoquevem e conheça mais este projeto. Se gostar, dê logo o seu apoio. Com R$ 30,00 você receberá como recompensa um exemplar impresso do livro, na sua casa. Com R$ 20,00 vais receber uma versão eletrônica do livro (e-book). O seu apoio viabiliza a produção do livro e permitirá que outras tenham acesso ao seu conteúdo.
Abraços
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Obs: Veja o passo a passo para concretizar o seu apoio:

– PASSO a PASSO para apoiar o nosso Projeto:
▪ Acesse www.catarse.me/pt/atedomigoquevem .
▪ No lado direito da tela, aparece em verde: “Apoiar este projeto”. Clique nesta “placa”.
▪ Escolha a recompensa, por exemplo, a terceira opção é: “R$ 30 +” . Clique na bolinha ao lado.
▪ Agora aparece uma nova placa verde: “Revisar e realizar pagamento”. Clique nela.
▪ Chegou a hora do “Preencha e revise os dados para pagamento”. Você deve informar os seus dados: nome, endereço, etc. Aqui você tem a opção de marcar o “Quero que meu nome seja anônimo”. Eu sugiro que você não marque isto e permita que apareça o seu nome. Isto vai fazer com outras pessoas venham a apoiar este e outros projetos. É importante que os seus amigos saibam que você apoia projetos de financiamento coletivo.
▪ Nova placa verde: “Próximo passo”. Clique nela.
▪ Agora escolha o meio de pagamento. As opções são via “cartão de crédito” ou “boleto bancário”. Como funciona da cada um deles:
– Marque na bolinha ao lado de “cartão de crédito”. Insira os dados do cartão, ou,
– Marque na bolinha ao lado de “Boleto”. Você terá que informar os dados da sua conta bancária. Depois clique na placa verde: “gerar boleto”. Logo abaixo de onde estão as bandeiras dos cartões e o símbolo do boleto, vai aparecer: “clique aqui para ver o boleto e completar o pagamento”. O boleto será enviado para o e-mail que você cadastrou no Catarse. Então, abra o seu e-mail, imprima o boleto e pague no banco.
▪ Feito isto, clique na placa verde: “Efetuar Pagamento”
Pronto, acaboooouuuuuu !!!! Não é tão difícil como possa parecer.
Obs: O apoio está concluído. Se você estiver de acordo, compartilhe o seu apoio no Facebook e/ou tuite. Assim, mais pessoas vão se interessar em apoiar este projeto.
Obs. 1: Se você ficou com dúvidas, ou tentou apoiar e não deu certo, fique à vontade para me perguntar. Terei muito prazer em lhe ajudar. Envie a sua dúvida para o meu e-mail: nascimentolf@gmail.com.
Obs. 2: Estudos mostram que, se você deixar para apoiar “depois”, existe 87% de chance de você esquecer e/ou não apoiar o projeto. Dos que emitem o boleto, 50% esquece de pagar no banco. Trinta dias passam rapidinho. Quando você lembrar, já terá passado o prazo. E aí não adianta chorar pelo projeto não apoiado! Fica a dica, apoie na hora que você entrou neste site. É jogo rápido!
Compartilhando Prazeres

– 24 de maio de 2015
Ivan Antonio Pinheiro (*)
Para muitos, a leitura é antes uma necessidade profissional, na chamada era do conhecimento, quase uma obrigação continuada, mas nem por isso, para alguns, uma ocupação menos prazerosa, ainda que tenham que se restringir aos textos da sua área. Mas há aqueles que adoram explorar outros domínios, para muito além da sua esfera profissional, e a estes, dado a natural limitação de tempo, é imposta uma decisão, quase um dilema: que leitura priorizar? Quantas vezes já não tivemos que abrir mão, ainda que temporariamente, de um bom texto de literatura em favor de um texto ou artigo acadêmico? E o quê dizer da não menos agradável leitura de textos, muitos no formato de periódicos de divulgação científica, porém considerados não-acadêmicos (a exemplo da História Viva, das publicações da Scientific American, entre outras), não aceitos no circuito oficial e, por conseguinte, frente ao dilema, também deixados de lado? Bem, leitor voraz, já há algum tempo venho tentando resolver esse impasse.
A primeira iniciativa foi o projeto Literatura & Gestão, cujo título é auto-explicativo em seus propósitos. Foi assim, dialogando com Machado de Assis, W. Shakespeare, J. P. Sartre, L. Tolstoi, F. Kafka, J. Boine, F. Molnár, entre tantos outros e durante três anos, que inúmeros temas habitualmente abordados no currículo de gestão (liderança, estratégia, motivação, tomada de decisão, burocracia e poder, para citar apenas alguns) foram vistos, revistos e debatidos junto a um público de acadêmicos e não acadêmicos; daí, de modo inusual a partir de múltiplos olhares que combinaram a razão, tão cara à gestão, à sensibilidade. Ao final (prá variar) resultou um texto: Construindo as Pontes entre Saberes – da literatura à gestão, escrito em parceria com dois colegas.
Desde então, muitos livros e páginas deslizaram por entre os meus dedos. Na mesma linha – na tentativa de conciliar a disponibilidade de tempo entre a leitura profissional e as demais -, para dividir com vocês, eu escolhi uma safra mais recente de livros que, se não podem ser considerados literatura, também não são acadêmicos, mas que permitem explorar temas e disciplinas no domínio da gestão, a exemplo da “tomada de decisão”, sobretudo a eterna “questão da racionalidade”, bem como o comportamento inovador baseado na atividade de pesquisa. Dada (mais uma vez) a limitação de espaço-tempo desta coluna, por ora eu vou me restringir ao segundo tema, deixando o primeiro, para outra oportunidade. Refiro-me aos seguintes textos: O Mapa Fantasma, de S. Johnson; Muito Além do Nosso Eu, de M. Nicolelis; Sete Experimentos que Podem Mudar o Mundo, de R. Sheldrake; o Arco-Íris de Feynman, de L. Mlodinow; e, Rápido e Devagar, de D. Kahneman.
Com algum exagero permitido aos apaixonados, pode-se dizer que o conjunto de livros citados permite elaborar um currículo que, se não é alternativo, é complementar à disciplina Métodos de Pesquisa (companheira de todos os professores), com a vantagem da ênfase conferida, mas nem sempre explicitada, à criatividade e à inovação. De forma muito sucinta, o que é que cada um deles nos traz?
Parece-me que nada, nos textos de hoje, é mais presente do que a afirmação de que todos os gestores buscam o Santo Graal capaz de despertar nas equipes a criatividade capaz de resultar em inovações de toda ordem. Sobre o assunto, muitos textos na forma de manuais, alguns tolos (como se diz: “receitas de bolo”) foram escritos, inclusive pelo próprio S. Johnson, como é o caso do conhecido De Onde Vêm as Boas Ideias; (como contraponto vale a pena ler O Poder dos Quietos, de S. Cain) todavia, é em O Mapa Fantasma que o autor revela como o precursor da epidemiologia, J. Snow, mediante o mais puro raciocínio analítico, a formulação de hipóteses, a coleta, a catalogação e a análise crítica dos dados, contribuiu para a erradicação da epidemia do cólera na Londres vitoriana. Dispondo apenas de instrumentos rudimentares, ainda longe dos avanços que viriam a ser registrados nas ciências bio-químicas, Snow utilizou o método científico e a mais pura razão para ver o que os outros ainda que (aparentemente) óbvio, não percebiam e, a exemplo de tantos inovadores, enfrentou a oposição que o levou a outra luta: a do convencimento de que as suas ideias e proposições eram as acertadas. Nessa trajetória ele combina e intercala procedimentos hoje classificados como quali-quantitativos.
▪ Nicolelis, antes de chegar à sua linha de pesquisa – interface cérebro-máquina -, discorre sobre a evolução das neurociências, um dos campos mais recentes de pesquisa, mas também um dos que têm se revelado mais profícuo e promissor para o entendimento do ser humano, daí a sua importância ímpar para a área da gestão. Nesta trajetória o autor deixa à vista a forma de pensar, instigante, crítica e questionadora dos grandes vultos, que os levou a romper paradigmas, bem como encontrar as estratégias para a superação das resistências – por vezes mal disfarçadas vaidades dos seus pares. Mas Muito Além do Nosso Eu não se resume à história das neurociências e à forma de ver e pensar de um cientista atuante nas fronteiras do conhecimento, sendo também, ao lado de os Sete Experimentos que Podem Mudar o Mundo, um precioso, porque variado, acervo de experimentos não encontrados nos tradicionais manuais de metodologia científica. O diário de bordo é então aberto, se desnudam o passo a passo da atividade investigatória, os avanços, as dificuldades, os recuos, as estratégias alternativas, o jogo político e os embates institucionais, tudo isto em meio às descargas de adrenalina e serotonina que as descobertas provocam.
▪ Mlodinow, em o Arco-Íris de Feynman, nos conta o seu convívio com R. Feynman, Prêmio Nobel de Física em 1965, e nos mostra, também, como um pesquisador desta estatura conduz o pensamento criativo, da gênese histórica ao resultado final: como encontrar as lacunas e transformá-las em desafios que conduzam às descobertas e contribuições inovadoras? Tudo isso em meio às idiossincrasias entre diamantes do mesmo quilate, a exemplo do convívio com Murray Gell-Mann, também agraciado com o Nobel de Física, em 1969. O lado humano do pesquisador, em parte salientado devido ao câncer que vitimou Feynman, mereceu atenção à parte, assim como as questões de fé. Por fim, no embate entre os teóricos e os empíricos, levado ao limite, quem ganha é o leitor que sai sobremodo enriquecido.
Sou de opinião de que Rápido e Devagar – duas formas de pensar, de D. Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, deveria, por variados motivos, ser texto obrigatório em diversas áreas da gestão (recursos humanos, finanças, marketing e vendas, políticas públicas, entre outras). Ainda a meu juízo, antes e acima de tudo, o livro é um libelo contra a hegemonia do modelo racional do comportamento humano (influência originária da Economia e da Física), no qual aos poucos, através de bem delineada estratégia de argumentação, sucessivos experimentos, testes e provas, o autor não apenas nos leva à reflexão sobre o nosso dia a dia pessoal, profissional e das relações institucionais, como também nos ensina a perceber as lacunas teóricas no campo que discute, as contradições, a criticar, a questionar, enfim, a pensar de modo criativo e inovador.
Por fim, seria muita pretensão tentar sintetizar, em tão curto espaço, as obras previamente selecionadas. Conforme já citado, os múltiplos domínios abordados pelos autores (física, neurociências, meio ambiente, comportamento humano, etc.) favorecem a identificação de também variadas interfaces com os temas pertinentes à gestão, bem como contribuem para uma prazerosa e enriquecedora leitura, embora, aqui, o foco tenha sido a contribuição ao modo de pensar que leva ao ato criativo e inovador. Para quem quiser e puder, à margem da literatura, muitos outros textos poderiam ser explorados para o desenvolvimento de competências na área da gestão: também do L. Mlodinow, O Andar do Bêbado e Subliminar, de P. Zak, A Molécula da Moralidade e, para concluir, uma ficção do E. Giannetti, A Ilusão da Alma; …
(*) Ivan Antonio Pinheiro é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: ivan.pinheiro@ufrgs.br
O Brasil que não acessa internet

– 17 de maio de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Temos a impressão que quase toda a população brasileira acessa a internet, “com exceção de alguns poucos”. Isto não é verdade. Segundo o IBGE e outras fontes, a metade da população brasileira não é usuária de internet. Mas quem são as pessoas que não acessam a internet? São 89% dos que tem mais de 60 anos. São os analfabetos ou semi-alfabetizados. E por fim, são as pessoas alfabetizadas e com menos de 60 anos que não tem intimidade com a tecnologia. Ainda existem milhões de pessoas que possuem aparelhos de celular sem acesso a internet, ou quando tem acesso, elas não sabem como acessar. Enfim, o Brasil da internet, ainda é só a metade do Brasil.
E como vivem e o que pensam as pessoas que não acessam a internet? Qual a opinião destas pessoas sobre as questões que estão todo o dia na mídia? Resolvi fazer uma pequena amostragem perguntando para quem não acessa a internet, o que elas sabem sobre a internet? Depois quis saber o entendimento delas sobre temas ambientais. Os entrevistados são pessoas simples, todos sabem ler e trabalham como empregada doméstica, porteiro, serviços gerais, pescador e auxiliar de pedreiro. As respostas foram muito interessantes e criativas.
Para minha surpresa, eles não usam a internet, mas possuem uma boa compreensão sobre o que é, e como ela funciona? Ouvi respostas do tipo: “internet é este negócio para saber as notícias lá do outro lado do mundo”. E como funciona a internet? “Pelo computador!”, “Por estes celulares modernos”. “Ela vai pelos fios”. “Acho que é transmitida por satélite”.
O mais interessante foi o entendimento dos entrevistados sobre as questões ambientais. Entre as respostas mais criativas está a explicação sobre a “aceleração do tempo”. Muita gente reclama que atualmente o tempo está passando muito rápido, mas ninguém explica porque isto acontece. A pessoa entrevistada tem uma explicação para isto! Segundo o seu entendimento, “a causa é a extração de petróleo!” Não entendi e tive que pedir mais explicações. Então, ela foi bastante didática. Começou dizendo que homem tira o petróleo debaixo da terra e o queima, mandando a fumaça para o ar. Com isto, o Planeta fica mais leve. Estando mais leve, a Terra gira mais rápida e o tempo passa mais depressa do que antigamente! Não tive mais dúvidas, a explicação deixou tudo bem claro!
E como combater esta aceleração do tempo? Esta pessoa também tem a receita para isto! Basta o homem plantar muitos eucaliptos! O eucalipto é uma árvore pesada e que absorve muita água. Com muitos eucaliptos plantados, a Terra vai ficar mais pesada e vai voltar a girar mais lentamente, fazendo com que os dias passem mais devagar. Humm… entendi!
Outra pessoa entrevistada me disse que o que causa o aquecimento global é a queima das árvores, pois isto esquenta o ar. Depois o vento leva aquele ar quente para outros lugares e vai esquentando todo o Planeta! Um raciocínio que tem a sua lógica!
Interessante também foi ver o orgulho destas pessoas ao darem as suas explicações. Acho que ninguém havia lhes feito este tipo de perguntas. Nem sempre elas tinham as respostas, e quando não as tinham, eram sinceras em dizer: “não sei”, “agora o Senhor me pegou!”
Ao final da conversa, uma delas me disse: “até que eu sou bem sabida, não é?” Fiquei feliz em ver como as pessoas se sentem valorizadas quando alguém quer saber a sua opinião sobre coisas que não se espera que elas saibam. Enquanto nós passamos anos nos bancos escolares e muitas horas conectados na internet, estas pessoas interpretam o que acontece no Mundo ao seu modo. Temos que ter olhos e ouvidos para esta metade do Brasil.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Mapas e GPSs: como encontrar os acasos?

– 17 de maio de 2015
Shana Sabbado Flores (*)
Estrelas, bússolas, mapas e, finalmente, o GPS. Ao longo da história, a necessidade de viajar e andar pelo globo fizeram o homem desenvolver técnicas e instrumentos que lhe permitissem encontrar os destinos, os caminhos de ida e de volta pra casa, identificar o seu lugar no mundo em determinado momento. Sempre fico surpresa ao olhar as estrelas e imaginar a capacidade que tinham/tem os navegadores, de se localizar olhando para o céu em um ambiente onde as referencias de paisagem são mais escassas. Ou a maneira como “os mais antigos” podem dizer o horário olhando para a posição da sombra. Enfim, talvez outras referencias de tempo e espaço.
Particularmente, os mapas sempre despertaram meu interesse. Cresci em uma família que sempre viajou muito, paixão que continuo mantendo viva. Nesse tempo, as viagens eram guiadas por mapas, placas e inúmeros pedidos de informações para os habitantes locais, taxistas ou postos de gasolina – estes últimos, em geral, mais confiáveis. Então, entre orientações muitas vezes controversas (sobretudo no quesito perto e longe) temperadas pelas discussões dos meus pais e frases do tipo “por que você não dobrou a direita?”, “você não entendeu a indicação? ”, ou a clássica “confie em mim, querida, não precisamos pedir informação, eu sei o caminho”, íamos “nos perdendo e nos achando” até chegar ao destino previsto (com maior ou menor atraso). Nesse contexto, comecei a olhar os mapas disponíveis no carro e aprender um pouco sobre as escalas e sinais de saída, calcular o tempo para chegar até o destino, essas coisas…
As coisas evoluíram consideravelmente e hoje contamos com o imbatível GPS. Uma voz que escolhemos e nos indica exatamente onde queremos chegar. Ele é a prova de erros (será?), uma vez que se o motorista não entendeu que deveria pegar a primeira saída, ele logo recalcula a rota e propõe alternativas, o que contribui definitivamente para a redução das discussões dos casais nas viagens. Tal tecnologia se disseminou de tal forma que hoje podemos contar com ela em nossos smartphones, o que facilita nossas visitas turísticas: podemos sair para andar pelas cidades despreocupados, é só colocar uma rota no GPS e caminhamos olhando para o celular e seguindo a rota proposta. Um fenômeno interessante, que leva as pessoas a confiar mais no proposto pela tela do que no que seus olhos, uma vez que não precisam observar placas ou eleger pontos de referencia para indicar a algum amigo ou encontrar o caminho de volta ao hotel. E tomara que não acabe a bateria do telefone, senão, começa a “crise do maps-dependência”, afinal, como vou me achar sem meu telefone?
Bom, longe de iniciar um movimento anti-tecnologia, a ideia é refletir um pouco sobre a forma de nos deslocarmos e conhecermos o mundo. É claro que a popularização de tecnologias como o GPS e as imagens de satélites traz para o nosso cotidiano inúmeras oportunidades e pode facilitar um tanto a vida dos viajantes contemporâneos. Mas aí, me pergunto algumas coisas do tipo: onde fica o parar e tentar conversar com algum habitante local para descobrir um lugar novo? Provavelmente a resposta será diferente dos guias de viagem, mas poderá levar a agradáveis surpresas. Ou ainda, o caminhar e se perder pelas ruas de uma cidade e, de repente, dar de cara com algum monumento, estilo arquitetônico ou cena totalmente inesperada e apaixonante? Coisas que fazem parte das tais “histórias pra contar”.
Será que esses acasos de quando nos perdemos e procuramos encontrar de novo o rumo previsto não nos trazem um tanto de inspiração? A descoberta de novos caminhos? Nesse sentido, o GPS pode ser mais uma forma de “controlarmos” nossos tempos e destinos. Programamos exatamente onde queremos ir e chegar, além de como fazer isso. Aí pode ser questionável onde fica nossa capacidade de olhar o mundo, aprender com ele, se sentir presente e participante, se permitir o erro de se perder e se encontrar novamente.
O fato é que todo aprendizado e ação está em nós mesmos, numa lógica de que a tal “experiência” tem muito mais a ver com o que fizemos com o que acontece com a gente do que com os fatos em si. Então, nessa era de GPS, será que ainda existe lugar para explorar e dar ao acaso um lugar de protagonista (pelo menos de vez em quando)? Afinal, as inovações e grandes descobertas trazem um tanto de disciplina e acumulação, temperadas com o acaso de olhar para o que todo mundo vê de maneira diferente. E, não vejo como inovar sem se permitir novas experiências, uma vez que está cientificamente provado que a inovação tem relação direta com algo vivido ou experimentado, ou seja, as chances de ter uma grande ideia sobre algo totalmente desconhecido, estilo geração espontânea, são ínfimas.
Enfim, nesse contexto de viagens e novas explorações sigo fiel aos mapas nas minhas mãos, acompanhados de um olhar no horizonte, marcando referencias para saber como voltar. É claro, meu smartphone no bolso, com o GPS calibrado para o caso de uma emergência… afinal, nunca se sabe o que os acasos podem nos trazer, não é mesmo?
(*) Shana Sabbado Flores é Professora no IFRS/Restinga, em Porto Alegre.
Contato: shanasabbado@yahoo.com.br
O dia que não existiu

– 10 de maio de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Ao abrir uma garrafa qualquer surge na sua frente um gênio e lhe diz: “faça um pedido para viver durante “um” dia (24 horas), algo que você sonhou, desejou muito, algo impossível, imoral, ilegal ou que engorda, não importa. O seu pedido será atendido. Você vai viver intensamente o que pedir neste dia e, no dia seguinte, nem você, nem as demais pessoas, lembrarão do que aconteceu. Este dia vai ser verdadeiro e você vai sentir todas as emoções da sua escolha, mas depois ele será apagado da história.
O que você pediria ao gênio? Qual o seu desejo, secreto ou não, que você poderia realizar neste dia? Sabendo que o seu pedido será atendido durante o período de 24 horas e depois será apagado da sua memória. Todos os efeitos e consequências das suas ações neste dia, desaparecerão no dia seguinte. Tudo voltará ao normal, como se nada tivesse acontecido.
O que você gostaria de fazer? Você não poderia pedir nada que ultrapasse as 24 horas. Não pode pedir para ter a vida eterna, ou para ver os bisnetos crescerem. Nada disto! Tem que ser algo que exista hoje e que você possa viver nas próximas 24 horas. Isto não impede que você seja transportado para qualquer lugar do mundo e que assuma qualquer função. Neste dia poderá ser o Papa, o Presidente dos EUA, o maior milionário do mundo, o melhor jogador de futebol, a mulher mais bonita, a Madre Tereza ou o Dalai Lama. Poderá comer e beber o que e o quanto quiser. Poderá usar as 24 horas para chegar ao topo do Everest ou fazer os últimos quilômetros do Caminho de Santiago de Compostela. Nada é impossível, mas tem que ser realizado em tempo real de 24 horas.
Você pediria ao gênio para manter o seu estilo de vida, mas visitar um lugar que lhe facina, comprar alguma coisa que deseja, comer/beber algo que adora? Viveria este dia como um rei ou como uma rainha, com muito dinheiro e poder? Acertaria as contas com alguém? Namoraria alguém em especial? Viveria um dia especial com o seu amado ou sua amada? Afinal, qual seria o seu desejo para este dia?
Esta situação hipotética nos leva a refletir sobre os nossos sonhos e desejos. Quão longe eles estão da vida real? O que impede que este sonho/desejo, imaginado de ser vivido neste dia, se torne realidade? Pois é, sonhos e desejos são para isto, para nos tirar da realidade e viver o improvável ou o impossível.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Where is the toilet?

– 10 de maio de 2015
Odete Maria Viero (*)
Era final de setembro de 2001, passavam poucos dias da explosão das Torres Gêmeas (USA), quando nós, com um pouco de dificuldade e alguns excessos de fiscalização no aeroporto, embarcamos para a Inglaterra, onde viveríamos por um ano, durante o tempo em que meu marido faria seu Doutorado em Oxford. Viajávamos nós dois, juntamente com nossos dois filhos que, na época, tinham 7 e 4 anos.
Chegando lá, logo que conseguimos alugar uma casa, fomos matriculá-los na escola, pois o Ano Escolar já havia iniciado. Por sorte havia uma escola, pública, justamente na esquina da rua onde alugamos a casa. Tudo muito prático. Nos apresentamos para a Diretora e lhe entregamos a documentação da escola do Brasil do filho de 7 anos, além de solicitar uma vaga para o de 4 anos, que iniciaria ali a sua vida escolar. Ela apenas perguntou a idade dos meninos e sem muitas delongas informou que o mais velho cursaria o 3º ano e o mais novo a “pré-school”. Logo nos mostrou as dependências da escola, e as salas de aula que tocariam a cada um dos meninos. A turma da “pré-school” ocupava uma sala anexa ao prédio principal da escola, totalmente adaptada às crianças daquela idade. A segunda, e última pergunta dela foi se as crianças tinham alguma familiaridade com o idioma Inglês, ao qual respondemos que não. Ela disse então que não nos preocupássemos pois iriam buscar uma forma de introdução deles ao novo idioma, juntamente com mais alguns alunos estrangeiros que estavam iniciando na escola naquele ano.
No mesmo dia compramos os uniformes na própria escola, e já no dia seguinte levamos os meninos para o seu primeiro dia de aula num país estrangeiro.
As professoras nos receberam na porta das respectivas salas de aula, e de forma muito sorridente nos tranqüilizaram dizendo que não nos preocupássemos, que os meninos estariam bem, e que deveríamos buscá-los no final do expediente na mesma porta da sala de aula, pois os mesmos só seriam entregues diretamente pela professora a um dos pais. Fomos para casa tranqüilos e aliviados, sentimos confiança nos educadores e estávamos satisfeitos com a escola.
A sala da turma da pré-escola era uma sala maior do que as outras, com diferentes ambientes, sem paredes divisórias, dentro da mesma sala. Simplificadamente diríamos que, num canto da sala havia um espaço para mexer com água, tintas e argila, noutro canto um espaço de leitura com uma mini biblioteca e sofás, noutro havia um espaço de cozinha com pia, fogão, mesa e um armário com utensílios a serem utilizados neste ambiente, no quarto canto havia um banheiro, este sim com paredes divisórias, e no espaço central havia umas quatro mesas redondas com cadeiras. Tudo na sala era ergonométricamente adaptado à idade de quatro a cinco anos. A sala era linda e parecia perfeita. Além disso, a sala possuía duas portas, uma de acesso, desde o pátio geral, e a outra saía para um pátio ao ar livre e cercado, cheio de brinquedos de plásticos e exclusivo para as crianças daquela sala fazer o seu recreio, independente do restante da escola.
No final da aula, no primeiro dia, quando cheguei na porta da sala do pequeno, a Professora o trazia pela mão, ele estava encabulado e com o cabisbaixo. Diferente da maioria das crianças que vinham correndo e gritando. Dei-lhe um grande abraço e percebi que estava com a calça molhada de xixi até o joelho, o que me causou surpresa já que fazia mais de ano que esta questão de usar o vaso do banheiro de forma autônoma estava resolvida. Sem muitas delongas, até por que havia muitas crianças e muitos pais na volta, nos despedimos e fomos buscar o maior na sala de aula dele. Este estava mais alegre e solto. Todos fomos diretamente para casa, que estava há um pouco mais de cinqüenta metros do portão da escola.
Sobre o episódio do xixi do pequeno, quando chegamos em casa, eu não questionei e nem o repreendi, não queria chamar muito atenção e tampouco aumentar o seu constrangimento. Busquei mentalmente possíveis explicações, poderia ser algo a ver com um tipo de “regressão”, próprio de crianças quando nasce um novo irmão, por exemplo, quando elas necessitam reconquistar o seu espaço de afeto e atenção. Naquele contexto não seria muito diferente. Tudo era novo e desconhecido, além de ser a primeira vez que ele freqüentava uma escola na vida. Houvera uma espécie de “abandono” dos pais num ambiente estranho e diferente.
No segundo dia repetimos todos os procedimentos, agora de uma forma um pouco mais tranqüila. Mas quando fui buscar o pequeno no final da aula, a cena se repetiu e ele estava novamente com a calça toda molhada de xixi. A professora, um pouco surpresa, pediu desculpas e disse que não sabia porque estava acontecendo aquilo. Novamente fomos para casa sem muito alarde, mas ao chegar lhe abracei e, de forma muito carinhosa lhe perguntei porque estava fazendo o xixi nas calças, ao qual ele me respondeu de forma muito meiga e encabulada: “eu não sei pedir para ir no banheeeeeiro”. Eu fiquei profundamente emocionada ao saber da simplicidade do “problema” e ao mesmo tempo, a dimensão do impacto da nova rotina na sua vida, e percebi que ele estava agüentando “no osso do peito”.
No dia seguinte, ao entregá-lo a professora na porta da sala de aula, pedi permissão a ela para entrar junto com ele, ao qual ela prontamente concordou. Expliquei a ela o que estava acontecendo e desta vez ela é que ficou encabulada e “corada”, pois era de pele muito clara. Eu o levei até a porta do banheiro da sala e lhe expliquei, em português, que ao sentir necessidade não precisaria pedir à professora, mas simplesmente levantar-se e dirigir-se até aquele espaço, ao que ele balançou a cabeça consentindo. Logo após nos despedimos e tudo seguiu o seu ritmo normal.
Nunca mais falamos sobre esse assunto, pois não sentimos necessidade, apenas lhes reforçamos que ao sentirem qualquer dificuldade ou qualquer necessidade, que nos falassem e não hesitassem em pedir ajuda a nós ou às professoras.
Passados seis meses deste episódio, era abril, e para a Páscoa as escolas fazem a semana completa de recesso, seguida de uma semana de recesso pelo “half term”. Planejamos então uma viagem pelo norte da Itália, terra natal de meus antepassados, para a qual levamos conosco meus pais que vieram do Brasil para nos visitar.
Na primeira semana eu me senti guiando e administrando as necessidades e desejos de “quatro crianças” já que além dos meus dois filhos, meus Pais tinham um comportamento semelhante, pois, apesar de ter uma certa familiaridade com o idioma, era a primeira vez que viajavam para um país estrangeiro e estavam inseguros. Meu marido se juntaria a nós apenas no início da segunda semana, pois havia ficado em casa e aproveitaria o tempo completo da primeira semana para dedicá-lo a “tese”.
No domingo de Páscoa, estávamos em Veneza e após participarmos da missa celebrada pelo Bispo na Basílica de San Marco, fomos visitar o Palácio Ducal que fica ao lado. Desnecessário dizer que não éramos apenas nós a fazer este roteiro. A fila para comprar o ingresso para a visita ao referido Palácio era interminável, mais de 100 pessoas pacientemente aguardavam a sua vez. Resignadamente eu, meus filhos e meus pais nos colocamos na fila, a qual avançava lentamente, e após um pouco mais de 1h nós aproximávamos do guichê de compra. Quando restavam apenas duas pessoas na minha frente, o pequeno me puxa e diz em voz baixa: “Mamãe eu quero xixi”. Naquele momento quase entrei em pânico, o cansaço já era muito grande, e se saíssemos da fila naquele momento, perderíamos a vez e não compraríamos mais os ditos ingressos. Por outro lado me veio a idéia que agora poderia haver problema com um novo idioma, o Italiano. Olhei ao redor buscando uma solução, tinha que tomar uma decisão rápida, e apontando para uma recepcionista nas proximidades, disse ao pequeno (4 anos) “vá lá, fale com aquela moça e diga xixi ou pipi”, e pedi a minha mãe que o acompanhasse, enquanto eu permanecia na fila juntamente com o outro filho e meu pai. Claro que fiquei com a “orelha esticada” tentando ouvir o que aconteceria na seqüência. Com uma inacreditável surpresa, e uma certa emoção, ouvi um meigo e delicado “Where is the toilet”, e a moça prontamente apontando numa determinada direção. Respirei aliviada e dei o passo final para a compra do ingresso. Este assunto estava definitivamente resolvido.
(*) Odete Maria Viero é Engenheira do DMAE em Porto Alegre.
Contato: odeteviero@hotmail.com
Quem inventou o “final de semana”?

– 3 de maio de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Por muitos séculos, existiam dois tipos de pessoas: os que trabalhavam de segunda a segunda, e os que descansavam de domingo a domingo! E como foi que chegamos ao que temos hoje? Os que não trabalhavam se compadeceram dos seus escravos e criaram dois (02) dias de descanso? Ou foram os trabalhadores que fizeram greves e conquistaram o direito ao descanso? Nada disto!
O que chamamos hoje de “final de semana” é resultado interpretações religiosas. Você já percebeu que algumas religiões consideram o sábado e outras o domingo como sendo o dia do descanso? Por que isto acontece? E por que o nosso “final de semana” inicia no último dia e termina no primeiro dia da semana seguinte? Ou seja, o “final de semana” não é no fim da semana!
A justificativa para criar o dia do descanso não foi por motivos de recuperação física ou mental dos trabalhadores, pois onde se viu escravo passar um dia sem fazer nada? Os judeus eram escravos na Babilônia e teriam dito algo assim para os seus senhores: “a gente não se importa de trabalhar de segunda a segunda, mas o nosso deus trabalhou a semana toda para criar o mundo e descansou no sábado. Ele quer que a gente faça o mesmo. Nós não podemos desobedecer a deus”. Os senhores não gostaram da ideia, mas sabiam que não se deve brigar com os deuses. Resolveram permitir o descanso aos sábados, mas na condição de “não trabalhou, não recebe”. Façam jejum no sábado ou guardem a comida da semana para comer no sábado.
Outras culturas também usavam o sábado para descansar. Por exemplo, o romanos usavam o sábado para agradecer a boa colheita ao Deus Saturno, que regia a Agricultura. Já os povos pagãos dedicavam o domingo ao sol. Na língua inglesa o sábado chama-se “Saturday” (dia de Saturno) e o domingo de “Sunday”, o dia do sol.
Os cristãos fazem outra interpretação. Para os cristãos, Jesus foi morto na véspera do sábado e ressuscitou dia seguinte, no domingo, “dominicus” em latin, que significa o “dia do senhor”. Logo, o domingo é o dia em que os cristão devem adorar a deus, e devem fazer isto indo a missa. Portanto, domingo não é dia para trabalhar, mas sim para ir a missa! Isto foi oficializado no Primeiro Concílio de Niceia, em 325 d.C.
Obviamente que ao longo da história o homem só recebia quando trabalhava. O descanso remunerado foi uma conquista dos trabalhadores no início do século XIX, na revolução industrial. O artigo 7º, XV, da Constituição Brasileira diz que todo o trabalhador tem direito a um (01) dia de descanso remunerado por semana, sendo preferencialmente aos domingos.
A tradição judaica-cristã do ocidente ficou num impasse. Os judeus queriam o sábado como dia do descanso e os cristãos o domingo. Para evitar mais confusão, os países do ocidente acabaram ficando com os dois e chamando o sábado e domingo de “final de semana”. Mas percebe-se que quanto mais cristão é um país, menos importância tem o sábado, e vice-versa.
Quando o Fantástico era o programa de domingo da família brasileira, existia a “síndrome da música do Fantástico”. Ao ouvir a música de abertura do programa as pessoas ficavam deprimidas, pois lembravam que o dia seguinte seria segunda-feira, o dia de voltar ao trabalho. A segunda-feira continua sendo odiada por muita gente. Para confortar estas pessoas surgiu uma nova religião, conhecida como os “segundista”. Dizem os seus seguidores que o seu deus os proíbe de trabalhar nas segundas-feiras. Como esta religião está conquistando muitos fiéis, é provável que em breve o mundo ocidental estenda o “final semana” de sábado à segunda-feira.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Cinema, Fotografia e Sustentabilidade: Distopias Suaves

– 3 de maio de 2015
Fernando Gimenez (*)
Mais uma vez uso o cinema e a fotografia para refletir. Por iniciativa do Coletivo Atalante (coletivoatalante.blogspot.com.br), na Cinemateca de Curitiba foi exibido ontem o 4:44 Último dia na terra, filme de Abel Ferrara lançado em 2011. De forma quase serena, o filme narra a espera pelo extermínio da humanidade, devido ao esgotamento quase que por completo da camada de ozônio. Os cientistas previram que isto ocorreria às 4:44 de determinado dia, e acompanhamos as últimas 14 horas vividas por um casal – Cisco e Skye – interpretados por Williem Dafoe e Shanyn Leigh. Não há pânico e nem violência nessa distopia suave que Ferrara nos apresenta.
No mesmo espaço da Cinemateca, uma exposição fotográfica de Rodolfo Massambone – Contenções – explora, assim como Abel Ferrara, a relação entre homem e natureza. A exposição integra a programação do FIDÉ Brasil 2015 – Festival Internacional do Documentário Estudantil. Em suas fotografias, Massambone mostra a resistência da natureza às contenções que o concreto armado, obra humana, tenta lhe impor. Flores e árvores brotam de rachaduras e espaços abertos no canal construído para domesticar o Rio Belém que cruza a cidade de Curitiba. A rebeldia da natureza, persistindo em sobrepujar as contenções humanas, da forma retratada pelo fotógrafo, me leva a imaginar que suavemente, ao longo dos anos, a natureza se imporá aos humanos.
A distopia suave de Ferrara e a fotografia de Massambone me provocam. Fazem com que seja impossível para mim, não voltar ao tema da sustentabilidade na literatura dos estudos organizacionais. É mesmo possível que teremos, no futuro, gestores capazes de levar a humanidade a superar o desafio que diz respeito à harmonização de objetivos sociais, ambientais e econômicos, baseando-nos no duplo imperativo ético de solidariedade sincrônica com a geração atual e de solidariedade diacrônica com as gerações futuras (VEIGA, 2008, p. 171)?
Devo confessar que, no atual momento de minha trajetória, enxergo essa possibilidade com ceticismo. Nossa sociedade ainda tem um caráter egocêntrico e humanocentrico que torna muito difícil superar as limitações de uma gestão organizacional orientada prioritariamente pela maximização do lucro.
Nessa reflexão, nesse momento, me vem à memória, uma das primeiras leituras que fiz sobre as questões ambientalistas, ainda à época de meu doutoramento na Universidade de Manchester nos anos 90 do século passado. Desde aquela época, costumava frequentar sebos em busca de livros mais baratos. Em uma de minhas viagens a Londres, encontrei dois livros de bolso de James Lovelock – Gaia: a new look at life on Earth (1979) e The Ages of Gaia (1988). É claro que não lembro de detalhes desses textos que li há mais de trinta anos. Mas, uma impressão me ficou dessas leituras. A ideia de que a Terra é um organismo vivo que se adapta à presença do homem na sua superfície. Pode ser que ela sobreviva aos humanos. O filme de Ferrara e as fotografias de Massambone me dizem que isto é provável.
Nesse domingo em que o frio do outono curitibano nos força a buscar outras fontes de calor, me apoio na Esperança. Espero que sejamos capazes de sensibilizar nossos alunos de Administração para que não façamos Gaia se livrar de nós. Vamos respeitá-la e continuar nossa busca por um mundo sustentável, onde as dimensões ambiental e social sejam prioritárias em relação ao lucro.
(*) Fernando Gimenez é professor em Curitiba e mantém os seguintes blogs: 3es2ps.blogspot.com.br, leiturasemcinema.blogspot.com.br e umhaikaiaodia.blospot.com.br
Contato: gimenez@ufpr.br
Obs: VEIGA, J. E. da Desenvolvimento sustentável: o desafio do século XXI. 3ª. ed. Rio de Janeiro: Garamond, 2008.

Como proteger os seus segredos

– 26 de abril de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Todos nós temos alguns segredos. Onde os seus segredos estão guardados? Qual o meio que você utiliza para contar um segredo para alguém? Mas por que estou perguntando isto? Porque o piloto alemão, aquele que jogou o avião contra os Alpes, tinha seus segredos e seus planos, que ninguém sabia. Ou melhor, apenas o Google sabia, mas não contou para ninguém! O Google sabia que ele estava pesquisando sobre como cometer um suicídio e como jogar um avião contra os Alpes. Depois do ocorrido, a polícia analisou o computador do piloto e viu as pesquisas que ele havia feito no Google. Então foi fácil descobrir tudo! Quando uma empresa é investigada pela Polícia Federal, prende-se os gestores e os computadores, mas são os computadores que revelam os segredos.
Antigamente, os adolescentes costumavam contar os seus segredos para os seus “diários”. Quem tivesse acesso a este diário conheceria melhor do que ninguém aquela pessoa. Hoje, os segredos dos adolescentes e dos adultos estão nos computadores, nos celulares e nas nuvens. Eles poderão ser rastreados com autorização judicial, ou hackeados ilegalmente, revelando tudo que está nos e-mails, nas mensagens no What’s up, Messenger, etc.
O que acontece se enviarmos uma mensagem para a pessoa errada? E se perdermos o celular? Uma amiga ficou estressada quando percebeu que havia esquecida o seu celular com o marido. Você pode estar pensando: “Aham! Esta devia ter algo para esconder do marido!” E você, como se sentiria se alguém tivesse acesso ao seu celular, ao seu computador e aos conteúdos das suas mensagens de e-mails, What`s up, Messenger, etc? Não teria nenhum pequeno segredo que não gostaria que fosse revelado?
Diante disto tudo, fico imaginando como será a comunicação dos nossos netos? Acredito que os aparelhos eletrônicos serão sincronizados com as batidas do coração do seu proprietário. Quando o coração parar de bater, o celular e o computador se autodestruirão. Os posts se apagarão e não haverá provas para identificar os segredos daquela pessoa. As pessoas terão o direito de levar seus segredos para o túmulo!
E como irão proteger os seus segredos em vida? Acho que o futuro será como no passado. Nossos netos, quando forem contar um segredo, chamarão um amigo para uma conversa numa mesa de um bar. O risco de ter um amigo fofoqueiro é bem menor do que ter as mensagens violadas pelos hackers ou pela polícia (ou ainda, pelo Obama do futuro!).
Obs: Tenho um segredo para lhe contar, mas não vou contar pela internet, fica para o dia que lhe encontrar, talvez num café ou numa mesa de um bar! Combinado?
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Sanduíche no Canadá

– 26 de abril de 2015
Iuri Gavronski (*)
Nara Maria Müller (**)
Em 2007, fomos ao Canadá para estudar. Fizemos os dois textos a seguir de forma independente, para dar aos leitores nossas perspectivas desta história.
***
Versão Iuri.
Era verão. Eu estava de férias, se é que se pode chamar de férias ir para a praia com um laptop e toneladas de coisas para escrever. De qualquer forma, eu estava tomando um chimarrão com a minha mulher, Nara, e meus sogros na varanda da casa de praia deles, quando eu recebi o telefonema do Felipe. Eu havia trabalhado quase toda a minha vida em empresas grandes e médias, e sabia que quando o chefe liga, é sinal de problemas. Não que o orientador de doutorado seja o chefe, mas ele definitivamente está mais alto na hierarquia do que o doutorando – receber ligações de alguém mais alto na hierarquia é sempre sinal de problemas, seja ele chefe, orientador, coordenador de curso ou esposa.
Com aquele jeito jovial de sempre, o Felipe disse: “Conseguimos! Aprovaram a tua bolsa de doutorado sanduíche!”. Eu fiquei tão chocado que não conseguia responder direito – conversando com ele depois, ele me disse que ficou até um pouco decepcionado com a minha frieza. Não era frieza – era choque. Eu havia consultado a relação das bolsas no site do CNPq havia alguns dias e meu nome não estava lá. Disse para a Nara, “não foi desta vez”, e tirei o assunto da cabeça. Contrariamente aos instintos da Nara, que sempre conta todas as coisas que estão por acontecer, eu tenho um estilo mais reservado. Com medo de que o pedido de bolsa não fosse aceito, eu não havia contado a ninguém. Nem a meus sogros, que estavam sentados à minha frente enquanto eu recebia a notícia!
Para quem não é do ramo, o doutorado sanduíche é um tipo de bolsa para alunos de doutorado fazerem pesquisa no exterior. Este período pode ser de 6 a 12 meses. Havia recebido várias sugestões quanto ao meu projeto. A primeira, ficar 12 meses. Conforme me disseram, demora um tempo a se adaptar, portanto um ano é um bom tempo para conhecer a universidade, formar bons vínculos, conhecer a cultura local, etc. Segundo, não falar em sanduíche para ninguém. Este é um nome brasileiro para o programa, que não é universalmente conhecido. Nem no exterior, nem aqui mesmo. Soube que a avó de um doutorando, ao saber que ele estava em uma universidade estrangeira, disse: “coitado! Estudou tanto e agora está fazendo sanduíche para sobreviver nos Estados Unidos!”. A terceira, não alugar minha casa para amigos, sob pena de perder estes amigos.
Fechamos então nossa casa, contratamos uma empresa de monitoramento, combinamos com a faxineira e o jardineiro para darem ar de casa em nossa casa, abrindo e limpando, e acertamos com o filho mais velho da Nara para buscar a correspondência e nos manter informados das novidades.
Certamente, a adaptação cultural foi a parte mais difícil. Na cultura norte-americana, não existe o conceito de almoço brasileiro: um prato de comida salgada e quente, comida em uma mesa, de preferência na companhia de outras pessoas, com um tempo depois para digerir e bater um papo. Na minha primeira semana, convidei meu colega de doutorado para almoçar no restaurante da universidade, para ouvir um “não, obrigado, trouxe meu lanche”. Quase todos levavam seu lanche – um sanduíche e um pacote de salgadinhos, em geral batatas fritas. E comiam em frente aos seus computadores. Eu almoçava na companhia dos meus colegas chineses e de uma colega mexicana. Abraçar o colega eu já sabia que não podia, mas nem apertar forte a mão todos os dias – isto eu não sabia! No máximo, um abano de cabeça e um “como vai hoje?” – normalmente respondido com um “não tão mal…” Como diria Asterix, o gaulês, “estes romanos…”. A refeição quente era a janta, comida às 6 ou 7 horas da tarde. No inverno, que anoitece às 4 ou 5 da tarde, tudo bem, mas no verão, onde escurece às 8 ou 9 horas da noite, é difícil jantar no meio da tarde!
Além dos benefícios óbvios e esperados (fazer uma rede de contatos no exterior, conduzir uma pesquisa, ter acesso a novas ideias), o sanduíche trouxe-me dois grandes benefícios inesperados. O primeiro, um aprofundamento da minha relação com a Nara. Somos ambos casados pela segunda vez, e entramos ambos nesta segunda relação com um pé atrás, avalio hoje. Até nossa viagem, tínhamos contas separadas de telefone, mantínhamos caixas separadas para “Contas pagas do Iuri” e “Contas pagas da Nara”, e por aí vai. Lá, era uma conta bancária, abastecida trimestralmente pelo CNPq, e tínhamos um orçamento único, fortemente controlado pela Nara e executado com austeridade por ambos. As contas eram do casal, as receitas idem, e com isto conseguimos perceber, pela primeira vez, que éramos um time, e não duas pessoas que se gostam morando juntas. Esta situação perdurou na volta, e tem sido assim até hoje. A segunda, um entendimento das sutis diferenças culturais entre o Brasil e o Canadá. Longe das simplificações como “o Brasil é um país violento mas as pessoas são camaradas” e “o Canadá é frio demais e as relações interpessoais são distantes”, não há espaço aqui para explicar todos os detalhes dos dois países. Apenas me resta dizer que as simplificações são sempre erradas e enviesadas, e assim como há muito mais tons de verde em uma floresta do que podemos descrever, as nuances culturais de dois países continentais não podem ser explicadas em frases curtas. Sentimos falta das coisas boas do Brasil quando estávamos longe, e agora sentimos falta das coisas boas do Canadá, depois de nossa volta. Morar em vários lugares implica ter saudades dos amigos que fazemos e deixamos em cada um destes lugares.
***
Versão Nara
Parecia que tudo seria muito fácil, eu estudara inglês durante vários anos, era uma das melhores da minha turma – escrevia textos, falava quase fluentemente, conseguia entender letras de músicas. Desde que soubemos, oficialmente, que iríamos para o Canadá, em janeiro de 2007, começamos os preparativos: documentos, alguém para cuidar da nossa casa enquanto estivéssemos fora, buscamos informações sobre o que vestir, que roupas e calçados levar e o que deixar para comprar por lá. Fizemos contatos com proprietários de apartamentos para alugar e reservamos um bed & breakfast para ficarmos as duas primeiras noites em London, Ontário. Ah! Por via das dúvidas, me inscrevi num curso de inglês de verão da University of Western Ontario – UWO – onde o Iuri faria sua pesquisa do Programa de Doutorado da UFRGS. Partimos no dia 04 de março, saindo, em torno de 5 horas da manhã, de Porto Alegre, depois de termos passado a noite em claro, no aeroporto, acompanhados de nossos amigos Gustavo e Márcia. Em São Paulo, nos hospedamos num hotel e dormimos quase o dia todo, já que o voo para Toronto sairia às 22 horas. O voo foi tranquilo, consegui um pouco de hidratante, com a aeromoça, pois minhas mãos e rosto estavam super ressecados (creio que pela temperatura alta do avião – não podíamos levar hidratantes, géis, ou líquidos nas bagagens de mão). Viajamos com roupas em camadas: uma camiseta de mangas curtas para aguentar o calor antes do embarque e uma malha leve de lã, para vestir quando chegássemos em Toronto. Os casacos mais quentes deixamos nas malas grandes, que estavam no bagageiro do avião. “Só precisaremos desses casacos, quando chegarmos em London, pois, nos aeroportos canadenses, passaremos de um voo ao outro, através dos fingers”, me disse o Iuri, com uma certeza e conhecimento de causa, invejáveis e incontestáveis. Chegamos a Toronto, em torno de 6 horas da manhã, do dia 05 de março e passamos pelo finger, até as instalações do aeroporto. Ainda bem que vestíamos nossos suéteres de “lãzinha”, porque, mesmo nos fingers, já sentíamos o frio. Lá fora, a neve caía sem parar, uma vista deslumbrante para nós, brasileiros. No aeroporto soubemos que nosso voo para London atrasaria devido à neve intensa e, que, provavelmente, deveríamos desembarcar em outra cidade e seguir até London, de ônibus, ou trem. Permanecemos no aeroporto por umas duas horas, eu acho, passamos pela imigração, onde tivemos que nos apresentar, explicando porque ficaríamos no Canadá por um ano, enfim… Percebi que meu inglês não era tão bom assim… Víamos, através do vidro do saguão de embarque, os aviões da AirCanada, todos no pátio e sem os tais fingers. As pessoas iam e vinham caminhando na neve. Cada vez que a porta abria para alguém entrar, ou sair, vinha aquele frio intenso e, nossos casacos, dentro das malas, já despachadas para seguirem até London. Coragem é o que não nos falta, então, pensamos, quando estivermos dentro do avião, tudo ficará bem. Fomos assentados bem na frente da porta de entrada do aviãozinho, que ficou aberta até que todos os passageiros tivessem embarcado e o avião tivesse permissão para decolar. Finalmente, a autorização chegou e, podíamos ver, na nossa frente e atrás de nós, muitos aviões que aguardavam por esse momento. Chegamos ao aeroporto de London e, mais uma vez, tivemos que caminhar no pátio no meio do frio e neve caindo. Procuramos um táxi, com bagageiro bem grande, já que estávamos com duas malas de 32 quilos, mais as bagagens de mão permitidas. Conseguimos um táxi que nos deixou em frente ao bed & breakfast da Sra. Halina Koch. O motorista nos deixou no outro lado da rua, retirou nossas duas malas do bagageiro e as largou na calçada, sobre uma camada de 30 cm de neve, à temperatura de -13ºC. Com um frio tremendo e, tremendo muito de frio, o Iuri me mandou bater à porta da Sra. Halina e deixar as bagagens de mão. Eu deveria retornar, o mais breve possível, para ajudar a carregar as duas grandes malas. Meus pés enterravam naquela neve espessa e macia e meus olhos quase não se mantinham abertos pelos floquinhos que caíam do céu. Quando a Sra. Halina abriu a porta da sua pousada, eu quase gritei de medo: ela parecia uma bruxa, saída daqueles filmes de terror, que aparecem no meio da floresta. Apresentei-me a ela e larguei as bagagens de mão. Quando voltava para ajudar o Iuri, ele já estava entrando, puxando as duas malas. O frio venceu o cansaço dele. Entramos na pousada e a Sra. Halina se mostrou uma senhora maravilhosa, uma fada, nos deu chá quente e algumas informações valiosas para nossa estada no Canadá. E assim, começamos nossa peregrinação de um ano, tempo que nos permitiu aprender, ensinar, conviver e amar aquele país.
***
Como disse Shakespeare, “Let me confess that we two must be twain / Although our undivided loves are one” (deixe-me confessar que nós dois devemos ser dois, apesar de nosso amor indiviso ser um – Soneto 36). Assim, duas pessoas que, como nós, passaram por uma experiência tão intensa de maneira tão próxima, descrevem-na por perspectivas distintas. Esperamos que estas nossas perspectivas forneçam uma visão mais completa do que uma narrativa consolidada de nossa história.
(*) Iuri Gavronski é Professor na UNISINOS
(**) Nara Maria Muller é Coordenadora Acadêmica na Faculdade Luterana São Marcos.
Contatos: Iuri@proxima.adm.br e naram.muller@gmail.com
Se a lei é injusta, você a respeita?
– 19 de abril de 2015

Luis Felipe Nascimento (*)
As respostas mais prováveis para esta pergunta seriam: “lei é lei, temos que respeitar!”, ou ainda, “se cada um cumprisse somente as leis que considera justas, a sociedade seria um caos”. Sim, imagine o que aconteceria se alguém considerasse desnecessário o uso de semáforos e resolvesse não respeitar o sinal vermelho?
Alguém poderia dizer: “se a lei é injusta, mude-se a lei!”. Mas o que é necessário para mudar uma lei? Quando e por que as leis são alteradas? Eu compreendi melhor esta questão depois que assisti uma palestra do Prof. Alfredo Culleton para os meus alunos de mestrado executivo, onde ele apresentou um triângulo formado pela “lei”, localizada no vértice superior, pela “cultura/valores morais”, no vértice inferior esquerdo, e pela “ética” no vértice inferior direito. Cada vértice influencia e é influenciado pelos outros dois. Como que este triângulo explica o respeito ou não as leis? Da seguinte forma: primeiro surgem os problemas e depois as leis para tentar evitar que estes problemas se repitam. A lei influencia a cultura, ou seja, o comportamento das pessoas, que passam a cumprir a lei, por medo ou por achar que é correto. O processo de mudança de uma lei se inicia quando algumas pessoas consideram esta lei injusta. Mas, para que este questionamento ganhe força, ele precisa ser um valor universal, algo que valha para todos e não apenas para os interesses daquele grupo que está considerando a lei injusta. Esta ação de questionamento, que leva a mudança da lei, ocorre no vértice inferior direito do triângulo, onde está a “ética”.
Para melhor entender o processo, foi dado o exemplo da mudança na lei que permitiu as mulheres votarem e serem votadas. Em 1930 a lei dizia que homens e mulheres eram iguais perante a lei, mas somente os homens podiam votar e serem votados. Algumas pessoas não achavam isto certo: “como assim, todos são iguais, mas só os homens podem votar e serem votados?” Não se tratava de defender o direito de uma ou outra mulher poder votar, mas sim de todas as mulheres, era um valor universal. Pois bem, este questionamento ganhou força e fez mudar a lei. A nova lei passou a influenciar a cultura, obrigando as mulheres a votar nas eleições. Porém a cultura e os valores morais, não se modificaram imediatamente. Passados 79 anos, em 2009, as mulheres continuavam votando, mas sendo pouco votadas. Surgiu então a lei que obrigou os partidos políticos a terem uma cota mínima de 30% de candidatas mulheres. Apesar de algumas poucas mulheres já terem sido eleitas para cargos importantes, esta lei se justificou pelo fato das mulheres representarem 52% da população brasileira e uma representatividade de cerca de 10% no Congresso Nacional. A ética fez mudar a lei, a lei influenciou no comportamento da cultura, mas não o suficiente para alterar a situação. Por outro lado, existem leis que foram mais rapidamente assimiladas pela cultura, como a obrigação de “usar o cinto de segurança” e o “capacete para motociclistas”.
Afinal, quem são os que querem mudar as leis? Geralmente são as pessoas que possuem estágios de consciência que vão além do interesse pessoal, que defendem os interesses do coletivo. Se as leis não estiverem de acordo com os princípios universais, estas pessoas seguem os princípios, e lutam para alterar a lei (ver a Coluna “Qual o seu estágio de consciência?” onde são aprestados os estágios de desenvolvimento moral de Kohlberg).
Me impressionou o interesse e o fato de, numa sexta a noite, os executivos desta turma terem permanecido na sala, além do horário da aula, discutindo ética. Alguns depoimentos desta turma mostraram que as pessoas são educadas para cumprir as leis e não para questioná-las. A história recente mostra que governos usaram a lei para torturar e praticar outras atrocidades, e o pior, contaram com o apoio da população. Cidadãos num estágio de consciência mais elevado, não aceitam estas leis e os argumentos de que “os fins justificam os meios”. Para saber se uma lei é injusta ou não, analise se a ela é boa quando aplicada a seu favor e quando for aplicada contra você? Ao mesmo tempo que devemos cumprir as leis, devemos lutar para ter leis mais justas e fazer valer o princípio: “faça aos outros o que gostaria que fizessem com você!”.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Obs: Agradecimentos ao Prof. Alfredo Culleton (Coordenador do Curso de Filosofia da Unisinos), inspirador deste texto.
Ser, sustentável, direito?

– 19 de abril de 2015
Ana Cristina Muller Klein (*)
Estamos vivendo um momento interessante na história da humanidade onde de um lado temos muito conhecimento, consciência e tecnologia e do outro temos o consumo desenfreado dos recursos naturais. Entendemos que há um conflito e que precisamos mudar nossa forma de interagir com o planeta, mas por incrível que pareça seguimos nossas vidas alheias a tudo isso, talvez apostando no “depois a gente vê” para tranquilizar nossas inquietações e angústias.
Será que vamos abrir mão de nossa capacidade intelectual, do potencial humano e criativo que temos pra buscar soluções que supram a humanidade e que preservem o que restou do planeta? Será que vamos precisar perder tudo para assumi que essa escolha foi ruim, colocar em risco a sobrevivência da nossa própria espécie?
A consciência a pouco referida é outro fator complexo, pois nas mentes saudáveis há um senso do que faz bem ou mal tanto para nós mesmos como para os demais indivíduos. Apesar deste senso há uma tendência mais forte que acaba levando o ser humano a fazer coisas estúpidas, absurdas que são justificadas para si e para a coletividade em razão de supostos valores. Será que com todo o conhecimento que temos ainda faz sentido ter preconceitos, disputas por vaidades? Ainda precisamos usar marcas (ter) para satisfazer nosso ego (ser)?
Escrevo com o objetivo provocar uma reflexão dentro de cada um de nós: Quem eu quero ser faz sentido? Meus valores são coerentes pra mim e para a humanidade? Quero deixar um rastro na história ou deixar a oportunidade de outros viverem as suas?
Olho para as pessoas ao meu redor e penso na contribuição que eu posso fazer/dar para que elas vivam melhor. É a minha escolha de ajudar os outros e a mim mesma para termos todos uma experiência saudável no curto tempo de vida que temos. Mesmo que eu erre muitas vezes, o meu objetivo permanece e nele persisto.
A questão é maior do que ser igual ou diferente, melhor ou pior. A questão é ser coerente com o senso dentro de mim, que todos nós temos, que me guia para valores como separar o lixo, lavar as embalagens, para respeitar o sinal vermelho, e tantas outras regras que temos. Como podemos abrir mão dessas regras cujo objetivo é nossa preservação? Que valor é esse que nos faz abrir mão de nós mesmos, do que nos faz bem, do que é coerente para a coletividade?
Usei a palavra “direito” no título para o seguinte gancho: se sabemos o que é correto, melhor, direito, por que precisamos de regras, punições?
Você SER, pode mudar de ideia a cada escolha que faz. Após refletir sobre meus questionamentos você pode escolher mudar e tornar-se SUSTENTÁVEL e coerente com nosso senso, passar a ser DIREITO ou continuar apostando no “depois a gente vê”.
O que vai ser?

(*) Ana Cristina Muller Klein é assessora da Diretoria A.Grings S.A.
Contato: assessoria.diretoria@piccadilly.com.br
Celulares que captam pensamentos

– 12 de abril de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Alguma vez já aconteceu de você pensar em determinada coisa e a pessoa próxima comentar sobre o que você pensou? Isto acontece porque o pensamento funciona como uma onde de rádio e, se a pessoa próxima estiver na mesma frequência, poderá captar este sinal. Esta “leitura do pensamento” agora será facilitada com o lançamento dos celulares da “Geração TC” (Thinking Capture).
Os celulares TC irão identificar o que a pessoa próxima está pensando e transcreverão este pensamento na tela do aparelho. Bastará você apontar o celular para uma pessoa e, utilizando uma nova versão do sistema bluetooth, ele captará o que ela está pensando. Os seus pensamentos, a todo momento, estarão sendo captados pelo seu celular, e bastará que alguém acesse o seu número para saber o que você está pensando.
Esta nova tecnologia irá transformar o Mundo. Estima-se que haverá uma redução nos conflitos mundiais, pois os governantes não poderão mais mentir. Todos saberão o que os governantes estão pensando. Quando um presidente disser que vai invadir outro pais para encontrar as armas químicas escondidas, a população saberá que o presidente está pensando é no petróleo daquele país e que ele sabe que não existem as tais armas químicas. Imagine como serão os debates políticos em período eleitoral, em que os eleitores saberão o que cada candidato está realmente pensando? Ou num depoimento do acusado diante do juiz? Vai acabar a necessidade de detector de mentiras e da delação premiada! Vamos saber o quanto os outros estão sofrendo ou o quão felizes estão, de verdade.
A tecnologia “thinking capture” vai provocar desenvolvimento econômico e permitir a resolução de muitos problemas. Hoje os cientistas não compartilham os resultados preliminares das suas pesquisas, pois temem que alguém roube a sua ideia e os seus resultados. As empresas gastam fortunas desenvolvendo produtos semelhantes aos que estão sendo desenvolvidos pelos seus concorrentes, mas não cooperam umas com as outras. Com a nova tecnologia, todos saberão de tudo que passa pela cabeça dos demais. Vai haver roubo de ideias? Nada disto, os pensamentos são identificados com o DNA da pessoa que pensou. Poderemos identificar os autores em cada parte de uma ideia. Esta parte foi desenvolvida pelo fulano e esta outra pelo beltrano. Vai haver uma cooperação global involuntária. Vamos cooperar, mesmo sem querer e vamos ter nossos direitos autorais garantidos.
As relações pessoais também serão alteradas. Quando alguém lhe perguntar: “Tudo bem”, e você estiver mal, não mais poderá responder “tudo bem”, pois o outro irá saber que você está mal. Se alguém lhe perguntar: “gostou do meu novo corte de cabelo”, a resposta terá que sincera. As pessoas terão que se acostumar com a dureza da sinceridade. No primeiro momento vai parecer que todos são mal educados, mas com o tempo, as pessoas irão entender que é melhor saber a verdade do que ouvir comentários elogiosos falsos.
Na sala de aula, ou numa reunião, o professor ou o coordenador da reunião saberá o que cada um está pensando. Olhando no seu monitor, o professor dirá para um determinado aluno parar de pensar na namorada e concentrar-se na aula. Não será mais possível estar só com o corpo presente. O papel do professor e do coordenador será o de estimular o participantes a pensar e a conectar as suas ideias com as dos outros.
Há quem diga que esta tecnologia será uma invasão da nossa privacidade. Este argumento é rebatido por outros, que alegam que hoje as pessoas contam nas redes sociais como estão se sentindo, o que estão pensando e o que estão fazendo. A tecnologia “thinking capture” será apenas um passo a mais. Só vão escapar aquelas pessoas que falam e fazem as coisas “sem pensar”? Destas pessoas, o que o celular TC vai captar? Pense nisto! Mas tome cuidado com os seus pensamentos, pois eles poderão ser captados por alguém!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
obs: Este texto é uma ficção, um delírio do autor. Algum dia será realidade?
O meu tempo é agora!

– 12 de abril de 2015
Marisa Ignez dos Santos Rhoden (*)
Faz algum tempo que vem me incomodando quando conhecidos e amigos repetem: lembra como era no nosso tempo?
Para os amigos respondo: “Mas o nosso tempo é agora!” Alguns me olham sem entender. Outros pensam que eu não tive adolescência. O que pode até ser verdade. Pelo menos não como a maioria.
Para os conhecidos, nada comento. Afinal, de nada adiantaria. Mas com os amigos, eu (ainda) argumento.
Na reunião de “trocentos” anos de formatura do ensino fundamental: todas as gurias (sim, era um “colégio de freira”) usaram crachás para não ficarmos embaraçadas.
Legal, muito legal. Principalmente quando revi minha professora regente, com quem gostava de conversar sobre as opções para consertar o mundo. Sentamos em roda, orientadas por uma colega psicóloga, e cada uma contou um resumo de sua vida. Ficamos atualizadas e emocionadas.
Mas fiquei muito triste com a expressão geral de “COMO ERA BOM NAQUELE TEMPO”, “COMO ERA BOM O NOSSO TEMPO”, “que saudade”, “que pena que não podemos voltar”, etc. e tal.
Não concordo. Pode ser pretensão, quem sabe uma negação vital. Mas não compartilho deste sentimento. Afinal, eu tentei crescer durante todo este tempo e, portanto, embora tenha perdido pessoas que amo, eu cresci, carrego dentro de mim os amores perdidos, mas cresci. Meu tempo só pode ser agora, que vejo o mundo um pouquinho mais amplo.
Embora, após os 50, a pele da gente assuma vida própria e comece a nos abandonar, embora os olhos diminuam, as lágrimas tendam a secar, os check-ups ocupem uma parte maior de nossa agenda, continuo achando que esse é nosso melhor tempo. Esse é o nosso tempo.
Porque, apesar das mudanças físicas decadentes, a visão que temos do mundo se amplia, o tempo se torna muito mais importante, o que realmente importa passa a nos ocupar.
Afinal, já chegamos lá. Já tiramos carteira, saímos da casa dos pais, definimos nossa profissão, muitos tiveram filhos. Já sabemos que, como pais, somos os ossos onde os filhos afiam os dentes. E sofremos menos com isto.
Já pensamos muito mais sobre o real peso de um problema: o que ele representará para mim em 5 anos? Nada? Então não vale uma ruga adicional.
Já não queremos mais ter razão, queremos ser e fazer as pessoas felizes.
Ah! A vida tem que ser assim, melhor depois dos 50, feliz por ser menos detalhista e complacente.
Trabalhando no que escolheu por opção entre as opções (no meu caso, com jovens em construção) e aprendendo a descansar. Se largar na rede, sentir a brisa, caminhar à beira-mar (mesmo o nosso clássico “mar achocolatado”), cercada pelos que amamos (em especial, filhos). Este é o paraíso. Não precisamos mais projetar. Já estamos nele.
É preciso perceber e apreciar sem moderação.
(*)Marisa Ignez dos Santos Rhoden é Professora na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: marisa.rhoden@ufrgs.br
O prazer da boa comida – na entrada e na saída!

– 5 de abril de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Muitas pessoas adoram uma boa comida, pratos lindos de doces e salgados, que só de olhar as deixam com água na boca. Livros, programas na TV, encontros gastronômicos, todos falam do prazer de “comer bem”. Mas o que é “comer bem”? Uns consideram comer aquilo que mais lhe dá prazer. Outros levam em consideração os benefícios dos alimentos para a sua saúde. Geralmente estas conversas se referem ao prazer da “entrada”, da degustação, do suprimento do nosso organismo. Raramente se fala da “saída”, pois isto causa nojo. A palavra “merda” já foi incorporada no vocabulário do cotidiano. É comum alguém falar, ou ouvir, a palavra “merda” sem sentir nojo. Mas, é feio e nojento falar a palavra “fezes”. Quando estamos irritados, mal humorados, dizemos que estamos “enfezados”, que literalmente significa “estar cheios de fezes”. Mas, quando falamos “enfezados”, não fazemos a relação entre o mau humor e a constipação intestinal, mas ela existe.
Todo mundo sabe que os alimentos são absorvidos no intestino, mas o que poucas pessoas sabem é que, um intestino com problemas, desequilibrado, causa rinite, sinusite, gripes, resfriados, alergias, psoríase, cansaço e irritabilidade. O intestino produz 80% de toda a serotonina do organismo. O mau humor e a depressão podem estar associado a uma flora intestinal desequilibrada (confira em http://biocurioso.blogspot.com.br/2010/01/importancia-da-flora-intestinal-na.html ).
O intestino é considerado o “órgão esquecido”, pois geralmente nos lembramos de cuidar bem do coração, do estômago, do cérebro, da pele, mas raramente cuidamos do intestino. Ele é visto como um tubo de saída. Vale lembrar que no intestino trabalham cerca de 100 trilhões de microrganismos. A flora intestinal é composta por bactérias (cerca de 500 espécies), fungos, protozoários, etc.
A saúde do nosso corpo depende muito da flora intestinal, pois quando o organismo está com mais bactérias do mal do que as do bem, sofre com infecções, diarreias, etc. Quando o pH da flora intestinal está equilibrado, o intestino produz antibióticos naturais, que são absorvidos pelo sangue. Com isto, o organismo elimina toxinas, estimula o sistema imunológico e deixa a pele com um aspecto mais saudável.
Ainda temos preconceitos com exames preventivos, que podem evitar o desenvolvimento de câncer de intestino. Milhões de pessoas se automedicam tomando laxantes e fazendo procedimentos inadequados. O equilíbrio da flora intestinal pode ser obtido por meio de medidas simples. Os médicos recomendam mastigar devagar os alimentos (mínimo 15 mastigadas), pois a digestão inicia na boca, onde os alimentos são misturados a enzimas presentes na saliva, alimentar-se com pequenas porções de alimentos, de 3 em 3 horas, não se alimentar em espaços menores de 2 horas e em momentos de nervosidade e muita ansiedade. Tomar muita água, porém evitá-la durante as refeições. Consumir frutas, verduras e produtos que contenham lactobacilos (http://www.infoescola.com/fisiologia/flora-intestinal/).
Cuidar da nossa saúde também significa ficar de olho nos sintomas do nosso intestino, e se ocorrerem alterações importantes, devemos logo procurar um médico. O livro “O que seu cocô está dizendo a você” (de Anish Sheth e Josh Richman. Ed. Matrix, 2008), fala em “cocô saudável”. O que seria isto? Um cocô saudável deve apresentar cor amarela clara (cor preta pode significar sangue na fezes); formato cilíndrico e alongado (bolinhas são sinais de constipação crônica); consistência pastosa (sair sem machucar); frequência de três vezes ao dia até uma vez a cada três dias; e, peso que o faça afundar (quando boia significa que tem muita gordura). Quanto ao odor, depende do que foi ingerido (quando muito forte, pode indicar infecções). Veja mais em http://super.abril.com.br/saude/ciencia-coco-721106.shtml.
Por fim, não podemos negar o prazer de ingerir uma “boa comida”, mas e se ela causar danos ao organismo e dores ao sair, será uma “boa comida”? Segundo os especialistas, também é possível sentir muito prazer ao se livrar dos alimentos. Segundo tais estudos, se pode chegar a um estado de êxtase quando se vai ao banheiro, semelhante ao orgasmo. Portanto, alimentos saudáveis podem causar um prazer na entrada e outro na saída, além de equilibrar a flora intestinal, deixar a sua pele mais bonita e melhorar o seu humor. Experimente!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração/UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Obs: Agradecimentos a Profa Mirian Knorst – do Curso de Farmácia da Universidade de Passo Fundo, minha fonte de informações.

Os Pelados na Natureza

– 5 de abril de 2015
Nilo Barcelos Alves (*)
Nós não vivemos mais o ciclo da natureza. Na clausura das nossas casas ou apartamentos não vemos mais as folhas das árvores cobrirem o chão no outono, não vemos mais as flores desabrocharem na primavera. Quais são as frutas da estação?
Nosso corpo está se desconectando da alma da natureza, mas há um cordão invisível que liga o corpo e a alma e que nos puxa de volta, as vezes de supetão. Como num sonho em que você cai e acorda num suspiro. Essa separação entre o homem e a natureza está acontecendo de forma rápida e ainda está em processo.
As gerações anteriores já sofriam desse mal, mas a cada nova geração essa desconexão é mais radical. Pense, hoje, qual é a sua ligação com a natureza? Será que cultivar uma planta em casa, caminhar no parque, tomar suco natural em vez de refrigerante, pode ser considerado um contato com a natureza? Mais do que isso, o quão próximo nós estamos das outras pessoas? Tem coisa mais natural do que o contato com pais, irmão, primos, parentes e amigos? Mas na cidade grande raramente você visita alguém. A correria e o trabalho não permitem. Porém, quando você vai na casa de alguém, é a convite. Antes de ir, liga para ver se está confirmado. Ainda liga do carro antes de chegar, para esperarem na porta, por que não é seguro ficar esperando na rua. Antigamente não era assim, mas agora é regra, e as pessoas aceitam.
As pessoas aceitaram viver no olho desse furacão, correndo atrás de coisas que não precisariam se não estivessem nele. Nosso instinto animal, de correr ou lutar para salvar a vida em situações de stress, foi adaptado para correr atrás do dinheiro e lutar para consegui-lo. Vivemos em permanente stress e nos esquecemos de olhar para os lados para ver quem está conosco nessa tempestade.
Está bem, todos já perceberam onde quero chegar. Pode ser que essa crítica não encontre eco em todas as consciências. Justificativas para que a vida seja assim são muitas, e que assim seja. No fundo é uma questão de escolha e nós, sempre, justificamos nossas escolhas (depois de fazê-las). Mas se por acaso você já se sentiu assim, no olho do furacão, sabe do que eu estou falando.
Olhe pela janela (agora!). Como está o tempo? Tem sol? Tem algum furacão passando. Não, né? Ele está na nossa imaginação, na rotina do trabalho, na correria do dia-a-dia, ou na televisão, a TV adora um furacão! Viver conectado com a natureza é um estado de espírito e é uma forma de escapar desse furacão imaginário. Olhe pela janela novamente.
Se você prestar bastante atenção, vai perceber que a natureza está chamando. O cordão que liga nosso corpo com a alma da natureza está mais esticado do que nunca. Nos últimos meses vimos alguns episódios de pessoas andando ou correndo pelados pela cidade de Porto Alegre. Talvez isso seja o resultado deste chamado da natureza. Atender a este chamado é urgente para escapar do furacão do dia-a-dia. Não estou defendendo que todos saiam correndo pelados pela rua. Esta é a forma doentia que resulta dessa nossa desconexão com a natureza. Mas que tal começar a reconectar com a natureza hoje? Olhe pela janela!
(*) Nilo Barcelos Alves é Professor no IFRS de Viamão, RS.
Contato: nilobarcelos@gmail.com

Qual o seu estágio de consciência?

– 29 de Março de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Frequentemente discutimos se somos ou não conscientes e criticamos a falta de consciência dos brasileiros. Geralmente nos referimos a nós mesmos, ou aos outros, considerando que existam apenas dois estágios: “é” ou “não é” consciente. Fulano é consciente porque compra produtos ecológicos. Beltrano não é consciente porque votou em tal candidato. Nestas discussões, não levamos em conta que existem diversos estágios de consciência, e que podemos estar mais avançados numa área e menos em outras.
O psicólogo Lawrence Kohlberg estabeleceu seis estágios do desenvolvimento moral de uma pessoa. Nos primeiros estágios a pessoa está preocupada apenas com a sua sobrevivência, enquanto que nos estágios mais avançados, a pessoa se preocupa com os destinos da humanidade. Nos estágios intermediários, a pessoa se preocupa com a sua família, com o emprego e com as questões do cotidiano. Ao longo da vida as pessoas podem passar de um estágio para outro, ou até mesmo regredir, mas elas não pulam estágios.
Considerando “consciência” como “estar ciente de” ou “ter conhecimento sobre alguma coisa”, como você classificaria a sua consciência política? E a sua consciência como cidadão? E a sua consciência como consumidor? Em que estágio você estaria em cada uma delas: iniciais, intermediário ou avançado?
Agora analise os seus chefes e governantes, em que estágio você os colocaria? Se você teve oportunidade de influenciar na escolha destas pessoas, você considerou o nível de consciência delas?
Achei interessante o post que li sobre as “pequenas corrupções”:
“Diga não as pequenas corrupções”:
▪ falsificar a carteirinha de estudante
▪ roubar TV a cabo
▪ comprar produtos falsificados
▪ furar fila
▪ tentar subornar o guarda para evitar a multa
▪ colar na prova
▪ bater ponto pelo colega de trabalho
▪ apresentar atestado médico falso
Algumas vêzes nos apoiamos na lei, ou nas brechas da lei, para justificar algumas ações, nossas ou de outros. Nos estágios mais avançados de Kohlberg, valores como “vida” e “liberdade”, precisam ser defendidos, independentemente da opinião da maioria. E, se as leis não estiverem de acordo com estes princípios, segue-se os princípios, e a lei deve ser alterada. As pessoas fazem o que é correto, não porque é o que a lei manda, mas porque foi previamente acordado.
Difícil né! Fica aqui o convite para uma reflexão.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Obs: Agradeço ao meu amigo Prof. Alfredo Culleton (Filosofia/UNISINOS), inspirador deste texto.

Estágios de Desenvolvimento Moral de Kohlberg
Nível 1 É típico de crianças.
Estágio 1 Não existe o certo e o errado, o indivíduo obedece as regras para evitar punições. Prevalece o castigo e a obediência.
Estágio 2 Deve obedecer as regras, somente quando interessa ao indivíduo.
Nível 2 É típico de adolescentes e de alguns adultos.
Estágio 3 Obedece as normas sociais e valoriza o respeito e a gratidão. A justificativa para isto é a necessidade de, aos olhos dos outros, ser uma boa pessoa.
Estágio 4 é correto cumprir as obrigações assumidas. As leis precisam ser respeitadas, exceto quando elas entram em conflito com outras normas sociais.
Nível 3 O indivíduo define seus valores segundo princípios universais.
Estágio 5 As leis são consideradas contratos sociais e, se não promoverem o bem máximo para o maior número de pessoas, devem ser modificadas.
Estágio 6 Se as leis não estiverem de acordo com os princípios universais, segue-se os princípios, e a lei deve ser alterada. As pessoas fazem o que é correto, não porque é o que a lei manda, mas porque foi previamente acordado.
Fonte: Adaptado de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822011000200003
Entre tempestades, refregas e calmarias…

– 29 de Março de 2015
Lafayette Dantas da Luz (*)
Já foi dito que “A vida vem em ondas, como o mar…” Quantos momentos passamos, de sustos, surpresas, reviravoltas, mas também de constância e rotinas? E também de repetições de maus e bons momentos? “E as ondas vêm e vão, assim como o tempo…”, completando.
Na rotina, ou calmaria, frequentemente enfrentamos o tédio, a ansiedade, o desejo de que algo mágico, novo, aconteça. Mas há também as boas rotinas, os portos seguros, que não queremos que acabem jamais. As reviravoltas, as turbulências, sejam na forma de refregas, rápidas e passageiras, sejam na forma das tempestades, mais longas e com maiores dificuldades, quaisquer destas podem ser mudanças desejadas, prazerosas e positivas, assim como podem vir carregadas de tristezas e dificuldades. Assim é a vida, assim é o mar.
Como é que se aprende a viver, se não vivendo? Outro poeta nos brindou com a clássica frase “navegar é preciso, viver não é preciso”. Há quem passe anos a fio, e frequentemente toda uma vida, buscando um curso, um trajeto, um destino seguro e calmo. Guiado pelo máximo de certezas e poucos, digamos…, solavancos. Como, se a vida não é precisa? Sabemos que, por outro lado, não são poucos que têm fome de adrenalina ou, pelo menos, não temem e até desejam as aventuras. Mesmo quem surfa em ondas altas, produzindo a adrenalina que muitos recusariam, tem também seus cálculos, sua precisão. Apenas assumem e gostam de chegar mais perto dos limites, das surpresas, dos riscos. A imprecisão da vida, na verdade, brinda a todos, indistintamente, independente de gostos ou personalidades, com os momentos de desafios, de reviravoltas, das tempestades.
Quando penso na vida, não consigo tirar da cabeça a relação com o mar. Deu pra notar, não? São anos vividos para ver as coisas dessa forma. Assim como foram anos para viver um sonho e finalmente realizá-lo. Nascido no Alto da Serra do Botucaraí, na famosíssima cidade do Soledade, num divisor de águas dos rios Jacuí e Taquari, a léguas de “um tal de mar”… E então, como eu poderia ter esse sonho interno? Mas a vida vem em ondas e, assim, fui parar na cidade do Salvador, na Bahia. E mais, era uma “baía” com “h”. Anos depois de me encantar, calmamente, com o orquestramento dos cabos em mastros de alumínio em portos desta cidade e de outros cantos do mundo, veio a refrega. Alterei planos, refiz contas, mudei rumos e, mais importante, tomei a coragem de viver o mar!
Mas não era só o mar que me encantava, era na verdade a arte de viver na interface. Entre as águas e o ar. A arte do velejar.
Entre cabos (nunca cordas!) e adriças, escotas e escotilhas, gaiútas e moitões, borestes e bombordos, orças e arribagens, jaibes e amarras, ou seja, aprendendo outro idioma quase, fiz um grande amigo. Mais que um professor ou mestre, o Mitunga (chamando-o pelo nome de seu barco) me fez admirar ainda mais a arte de velejar, até adquirir o meu Ybytucatu. Sim, em bom tupi! E o medo de estar no mar, de ter 20, 30, 50 ou mais metros de água abaixo do casco, sem saber e ver o que há? Perguntam-me com frequência. Hoje penso que é nada mais do que termos 50, 30, 20 ou menos anos de vida pela frente.
Num mar fantástico de águas abrigadas como as da Baía de Todos os Santos, vemos poucas velas no mar, embora haja barcos em marinas, em certa quantidade. Infelizmente, possuir um barco é ainda um símbolo de status para muitos. A fama de se tratar de um lazer dispendioso, certamente afasta muitos sonhadores. Aí começam interessantes lições. Como sabê-lo, se não o temos? (Tomando emprestada parte de um Poema Enjoadinho.) Há algo mais complicado e arriscado do que termos filhos? E quantos se atiram nessa aventura? Hoje não dá prá fazer as contas sobre a manutenção de uma aventura dessas, ou é desistência na certa. E os riscos? E as decepções? Então, o que nos move?
Vivemos os nossos filhos certamente apostando em mar calmo, não necessariamente calmaria. Refregas, sim, ainda mais nos dias de hoje quando um simples “não” é motivo para tantas tempestades, teses de doutorado e sessões de análise. O pior do mar é ser pego de surpresa, por isso navegar deve ser preciso. Ao se lançar às ondas, é imperdoável não ver a previsão do tempo, e a tábua das marés. É líquido (e, em parte, é mesmo!) e certo o que iremos enfrentar? Claro que não, surpresas existem, mas é preciso ler os sinais, prestar atenção aos avisos da natureza. E das pessoas. Assim, menores serão as surpresas e uma tempestade pode ser evitada, ou, se for inevitável, enfrentada apropriadamente. Tempestade formada, melhor ficar no porto. Tempestade na água, arriar as velas. Não significa ficarmos impassíveis diante das turbulências, mas nesses casos, aprendi, se turbulento o marinheiro ficar, arrisca, perde-se tudo, provavelmente perdem todos. Muito vento, pouco pano. Menos vulneráveis ficamos à ação da tempestade. Menor a resistência, menos motivos para o embate. E as ondas? Aprender a cortar e surfar é necessário. Não se enfrenta ondas de frente, nem discussões são ganhas “no grito”. Ambas as situações, de alto risco. Ao enfrentar uma onda, ou mesmo se fosse uma marola, sobe-se na mesma com certa angulação e aumenta-se esse ângulo para surfá-la em sua direção contrária. Se a onda vier de trás, faz-se manobra similar. Nunca deixar-se em posição de tombar, nunca perder a direção que melhor se ajusta ao formato daquilo que nos balança. Nada como ouvir mais, ao invés de falar à toa. Ao falar, fazer como quem navega, com precisão. Se alguém perguntasse se isso garante sucesso? Certamente que não. Viver não é preciso.
Ainda aprendiz na arte da vela (e da vida, como sempre seremos!), é nas necessidades de manobras constantes que se aprende a navegar. O mais incrível de contar com os ventos é que, além de ser “combustível” altamente sustentável e mudar o tempo todo de direção e intensidade, desperta em nós o sentido da vigilância, da atenção. Não dá pra cochilar. Não se enfrenta os ventos, nos adaptamos a eles, usando-os ao nosso favor. Para isso, se devem ajustar velas, tesar ou soltar cabos, mudar o rumo, a direção. Mas se temos um objetivo, um porto a alcançar, mudamos a direção? Sim, pois afinal, quem foi que disse que os melhores caminhos são retilíneos?… A capacidade de não perdermos a orientação geral, o nosso destino ou porto desejado, esta vem dos nossos princípios. Ou seja, onde quer que estamos, jamais podemos deixar de saber quem somos. De nos ajustarmos a situações que mudam a toda hora ou repentinamente, seja por falta de ventos, seja por uma refrega, seja por tempestade que se avizinha. Jamais desistirmos de sempre buscar a precisão na navegada. É isso que nos fará chegar inteiros a algum porto. Tenho aprendido que não necessariamente chegamos numa só navegada ao porto desejado. Mas que o importante é estarmos inteiros, íntegros. O barco, nós, nossas convicções. Constatei também que é possível navegarmos no contravento! Mas, e o porto desejado? Ah! O tal “porto desejado”… Bem, aí já é mais outra viagem! E la nave va…

(*) Lafayette Dantas da Luz é Professor na UFBA
Contato: lafayette.luz123@gmail.com
Manifestações de 15 de março 2015: Quem é contra o quê?

– 22 de Março de 2015
Luis Felipe Nascimento(*)
Todo o dia recebo mensagens de amigos e falo com os colegas com posições pró e contrárias ao atual governo. Fico sem entender por que pessoas inteligentes, honestas, gente boa, estão se digladiando com tantas acusações. Estou tentando entender os argumentos de cada lado.
De um lado, estão os que participaram ou que apoiaram as manifestações do domingo – 15 de março. Estes são os querem o impeachment da Dilma, certo? Errado! O impeachment não foi consenso neste grupo. Algumas pessoas declararam que queriam exercer o seu direito de protestar sem serem chamadas de “golpistas”. Talvez o ponto que unificou estes manifestantes foi o combate a corrupção. As pessoas estão indignadas com a roubalheira na Petrobrás, etc, etc. Segundo as pesquisas, os que participaram destas manifestações eram eleitores do Aécio e são claramente contrários ao PT e ao Governo Dilma.
Do outro lado, os que não apoiaram estas manifestações, são os petistas certo? Errado! Em sua maioria são os que votaram na Dilma, e que hoje estão descontentes, ou decepcionados, com o atual governo, mas que são contrários ao impeachment.
Quais seriam os pontos de convergência e de divergência entre estes dois grupos? Diria que todos são contra a corrupção. Não conheço nenhuma pessoa das minhas relações que seja favorável a corrupção, ou que tenha sido favorecida pela roubalheira. Neste momento, a divergência não é sobre o melhor projeto para o Brasil, o foco da discussão é sobre quem são os “mais” corruptos: os políticos do PT ou os do PSDB? Os contrários ao atual governo, dizem que nunca se roubou tanto neste país como nos governos do PT. Os que apoiam o atual governo, dizem que roubalheira do PSDB foi maior, mas não apareceu porque não foi investigada como se faz hoje. Acusações para cá, agressões para lá, e não se chega a lugar algum.
As manifestações e o debate que politiza o cidadão fazem muito bem para a democracia. Por outro lado, criticar os manifestantes do dia 15 de março alegando que eram os “ricos e a classe média alta”, é esquecer que os “caras pintadas” e muita gente que participou das manifestações do PT, também eram da classe média alta. Da mesma forma, acusar quem votou na Dilma de “PeTralha” ou de qualquer outro termo pejorativo, é considerar que os eleitores da Dilma apoiaram o roubo na Petrobrás. Tais acusações despolitizadas e raivosas, serve para quê?
Vamos imaginar que seja declarado o impeachment da Dilma. O que aconteceria? O Vice-presidente Michel Temer assumiria! Se a Dilma está envolvida nos escândalos, seria difícil imaginar que o seu vice também não esteja. E se os dois perderem o mandato? Segundo a Constituição Brasileira, os sucessores seriam: o Presidente da Câmara Eduardo Cunha (está na lista da Operação Lava Jato), seguido pelo Presidente do Senado Renan Calheiros (que também está na lista da Lava Jato) e por fim, o Presidente do Supremo Tribunal, Ministro Ricardo Lewandowski. Um destes três últimos assumiria provisoriamente a Presidência do País, por um período de 90 dias, até a realização de novas eleições. E o Congresso continuaria o mesmo? Vamos supor que a conjuntura levasse a novas eleições gerais, elegendo novos governantes e um novo congresso, 90 dias após o impeachment. Quem seriam os deputados eleitos? Surgiriam novas lideranças em 90 dias?
Nas últimas eleições, mesmo com denúncias e processos em andamento, muitos dos deputados acusados de corrupção, foram reeleitos. Vale lembrar que Maluf, mesmo com o registro cassado, foi o oitavo deputado mais votado em São Paulo e ganhou o direito de assumir como Deputado Federal. Não é só nos estados pobres e despolitizados que estas coisas ocorrem! Será que numa nova eleição não reelegeríamos os mesmos deputados que estão hoje no Congresso? E com estes deputados, os novos governantes conseguiriam mudar o rumo do país?
Na minha opinião, estamos fazendo mau uso da nossa indignação. A crise vai ser superada, assim como foram as anteriores. O mais importante, neste momento, seria unir esforços para minimizar os impactos desta crise, tirar lições e adotar medidas que coloquem a gestão pública num patamar superior. Se somos todos contra a corrupção, então algo tem que ser feito para isto não mais aconteça. Roubar dinheiro público é roubar o remédio do doente, a merenda das crianças e merece sim ser considerado crime hediondo. A mobilização social de junho de 2013 barrou a PEC 37 (que retirava o poder de investigação do Ministério Público) e resultou em medidas pró saúde e educação, mas não conseguiu aprovar a reforma política. Espero que as mobilizações de março de 2015 evoluam e resultem na aprovação da reforma política e no sepultamento da corrupção sistêmica. Esperança nunca é demais, principalmente em épocas de crise.
Como diz Jânio de Freitas: “quem quer desfrutar da democracia deve exigir a reforma que a salve”
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Política Cognitiva

22 de Março 2015
Eliane Marfiza Braga Machado Trevisan (*)
Estamos em um ano de eleições no Brasil (2014). Penso que seja um bom momento para falar sobre Política Cognitiva. Política Cognitiva consiste “no uso consciente ou inconsciente de uma imagem distorcida, cuja finalidade é levar as pessoas a interpretar a realidade em termos adequados aos interesses dos agentes diretos e/ou indiretos de tal distorção”. O tema da política cognitiva é tratado nos clássicos. “É um fenômeno perene. É uma questão exposta em Platão, em muitos de seus diálogos sobre a natureza e o uso da retórica” (Ramos, 1981, p. 87). A arte da persuasão faz parte da prática do retórico, ou melhor, ele é um especialista em persuadir, considerando que a moralidade substantiva é uma qualidade das pessoas. Quando o individuo é levado a violar essa orientação, terá sua conduta desviada da tensão constitutiva da Razão Substantiva, reduzindo suas considerações éticas e critérios instrumentais de avaliação.
O envolvimento de toda a sociedade aos imperativos do mercado faz com que a política cognitiva se torne moeda psicológica corrente, nesse tipo de sociedade, de tal maneira que seja facilmente entendido o uso de expressões como “política de petróleo”, “política de poluição”, “política de transportes”. Mas com a expressão “política cognitiva”, o processo de compreensão não é o mesmo.
Faz parte da política cognitiva obscurecer o significado daquilo que pretende designar. Não possibilitar o entendimento das referidas políticas é intencional por parte dos seus responsáveis, ou seja, daqueles que usufruem dos benefícios dessas políticas. Caso contrário, poderiam surgir problemas éticos, fragilizando o efeito de suas políticas através do entendimento real, verdadeiro, por parte da sociedade.
Portanto, o ser humano fica limitado na sua capacidade de criticar ou reagir a imposições do sistema, pois ele fica de tal modo envolvido que nem sequer o percebe. Além disso, ele para de imaginar alternativas, encara as regras como verdades, internaliza-as e vai sendo um “bom” instrumento para o Sistema. O ser humano perdeu a sua capacidade de criar, pois tudo é apresentado pela publicidade (persuasivamente e com abundância), e é oferecido para quem dispõe de poder aquisitivo. Quem não dispõe deste, vai em busca do que (presume que) lhe falte, a qualquer custo e com qualquer desgaste psíquico, pressionado pelo consumo e pela aparente liberdade, felicidade e conforto em adquirir coisas materiais.
Capra cita o trabalho de Laing, que aponta uma visão da obsessão dos cientistas pela medição e quantificação, ao longo dos últimos quatrocentos anos. Disse Laing: “Perderam-se a visão, o som, o gosto, o tato e o olfato, e com eles foram-se também a sensibilidade ética e estética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciência, o espírito. A experiência como tal foi expulsa do domínio do discurso científico” (Capra, 1982, p. 51).
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.
RAMOS, Alberto Guerreiro. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1981.
(*) Eliane Marfiza Braga Machado Trevisan é Professora na UFSC.
Contato: eliane.trevisan@ufsc.br
Natureza não combina com Limpeza!

– 15 de março de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Quando um empreendimento imobiliário anuncia que as casas/prédios serão construídos no meio da natureza, como é a imagem que é mostrada? Quando um produto de higiene ou limpeza diz que seu produto é natural, qual a foto que representa a natureza? Quando planejamos uma viagem para um ambiente em que a natureza é o principal atrativo, o que esperamos encontrar lá?
A natureza é retratada nas novelas e na mídia em geral, como um lugar “paradisíaco”, limpo e higienizado. A floresta não tem insetos, folhas ou galhos caídos. Os lagos são azuis, a areia amarela e o mar é verde. Os seres vivos da floresta são “humanizados”, são nossos amiguinhos, como nos filmes infantis.
Na civilização ocidental, a “limpeza” se tornou sinônimo de um ambiente asséptico. Numa residência limpa, o piso deve brilhar, não pode ter poeira, bolor, mofo, mau odor e muito menos mosquitos e baratas. Estamos sempre atentos para eliminar as ácaros, fungos e bactérias. Em países como a Alemanha, é comum as pessoas deixarem os calçados na porta de entrada. Até as visitas são convidadas a deixarem os seus calçados e usarem os chinelos para visitantes. Tudo para não sujar a casa.
Certa vez, um curso para executivos de empresas levou seus alunos para passar um dia na natureza. Quando chegaram lá, a primeira reação dos alunos foi a de pedir para que alguém retirasse os cocôs das vacas das proximidades, pois estavam causando um mau odor.
Na natureza que idealizamos, o bicho maior não come o bicho menor. Os animais não fazem cocô, não existe mau odor e sempre sopra um vento que mantém a temperatura como a do nosso ar condicionado. Quando vamos a um parque, para a mata ou para algum lugar não urbanizado, gostaríamos que os habitantes destes ambientes saíssem e o deixassem só para nós. Por exemplo, no piquenique não queremos que apareçam formigas e moscas. Na trilha no meio da mata, ficamos horrorizados se encontramos uma cobra ou uma aranha. Se vamos acampar no mato, nos assustamos com os barulhos a noite, pois nos damos conta que existem seres vivos habitando este local.
Geralmente, quando nos referimos a “natureza limpa”, nos referimos a ausência de lixo, de resíduos levados pelo homem para o ambiente natural. Na verdade, a natureza é “auto limpante”, ela gera seus resíduos e os absorve. A fruta que cai da árvore, se decompõe e vira adubo para a própria árvore. O que ela não consegue é degradar rapidamente são os plásticos, vidros, alumínio e tudo mais que o homem produziu e jogou na natureza.
Portanto, existem dois tipos de “limpeza” na natureza. A que não tem lixo produzido pelo homem, esta agrada a todos. Já a “limpeza” semelhante a nossas casas (sem insetos, animais peçonhentos e venenosos), esta desagrada aos urbanos. Na selva, a vida é “selvagem”. Este é o seu modo “natural” de viver. Os fenômenos naturais derrubam árvores e extinguem espécies. O predador é quem mantem o equilíbrio para que outra espécie não se prolifere e se torne uma praga. Assim funciona a natureza, sujando e limpando o seu ambiente.
Algumas pessoas perguntam por que precisamos dos insetos e dos demais seres indesejados? Alguém já perguntou “por que Noé levou os mosquitos, ratos e baratas para a Arca”? Deveríamos responder estes questionamentos com outra pergunta: O que aconteceria com os restos dos alimentos, frutas e outros compostos orgânicos se não existissem fungos e bactérias? Eles continuariam existindo por muito mais tempo e nós teríamos muito mais lixo! Sem fungos e bactérias, que são os principais decompositores na natureza, o lixo ficaria acumulado. Seria pior do que uma greve indeterminada dos garis! Ah! E você sabe de onde vem a penicilina, que já salvou milhões de pessoas? Do fungo “Penicillium”. Os fungos são usados para a produção de antibióticos. E as bactérias? Elas são como homens, existem as do bem e as do mal. Quem sabe, em breve, vamos descobrir que também as baratas, moscas e mosquitos podem ser a cura de algum mal importante? Pense nisto, os seres indesejados de hoje poderão ser muito desejados no futuro.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Planeta das Formigas

– 15 de março de 2015
Elaine Melo de Oliveira (*)
O homem é, do ponto de vista da Ciência, um animal. O que nos distingue dos outros, teoricamente, seria a racionalidade. Mas realmente é isso? Talvez fôssemos iguais, no que se refere à busca por importância dentro de um grupo, como muitos outros bandos encontrados na natureza. Cães elegem o cão dominante da matilha, macacos possuem chefes por ser o mais forte, algumas aves possuem líderes que voam mais rapidamente… Seria para nós a inteligência a forma mais valorizada e respeitada dentro de “nossos bandos”? Segundo Aristóteles, o homem é um animal social e carente de outros. Talvez por esse motivo o homem precise tanto se afirmar perante aos outros e as outras espécies. O exagero dessa afirmação torna o homem prepotente. Tão prepotente que julgamos nossa racionalidade superior à outras espécies, mesmo não conseguindo ainda compreender o quão racionais (ou não) sejam as outras espécies. Formigueiros por exemplo, possuem uma complexa organização, com estruturas que a engenharia humana acabou por copiar pela perfeição e simplicidade (como a arquitetura, o sistema de ventilação de seus habitats, drenagem de resíduos, formas de transportes como as nossas rodovias, etc.). Então, o que nos distingue dos outros seres é mesmo ser racional? Comparando com o último exemplo, podemos ver uma sociedade bem mais evoluída. A distribuição de funções não isola qualquer integrante. Na sociedade das formigas, (até onde se saiba) não existe marginalidade, não há corrupção, não existe fome e todos têm trabalho.
A prepotência humana e a necessidade da superioridade (ou, talvez, de aceitação) fazem a nossa espécie destrua as outras, a si própria e talvez as condições de vida no planeta. Em diversas espécies de indivíduos egoístas – que procuram o benefício individual de reproduzir o seu DNA, e conseguir alimento em quantidade abundante só visando a sobrevivência individual – acabam comprometendo o grupo todo, diminuindo, por exemplo, a variabilidade genética da população, e favorecendo a sua extinção. As mesmas populações não são consideradas racionais, e até consideramos uma certa “burrice” em termos estratégicos. Apesar de termos certeza da nossa racionalidade, não parecemos tão diferentes assim, pois, no fim das contas, estamos extinguindo os recursos que nos mantém vivos por motivos individualistas. E também o fazemos às outras espécies. Isso é mesmo “ser racional”? Coletivamente, não seriam, então, as formigas ou as abelhas mais racionais do que nós?
A verdade é que somos tão brilhantes quanto autodestrutivos, quando comparados a outras espécies. Temos capacidades impressionantes, mas ainda não somos capazes de usar nossa inteligência para o bem comum. Todas as áreas do conhecimento avançaram, mas cada vez parecem mais fragmentadas, mais especializadas e mais distantes umas das outras.
A saída está em uma educação que integre a humanidade, com o sentido de buscar um objetivo comum. Assim como as formigas se unem para que todos consigam alimento e trabalho, a educação deve coordenar a sociedade para que sejam supridas primeiro as necessidades mais importantes. A educação deve servir para preparar os indivíduos para fins sociais, mais do que para os individuais. E isto não significaria ausência de individualidade, pois cabe a ela fornecer apoio para os talentos de cada um. Talvez, se copiássemos a estrutura de outras espécies, conseguiríamos uma real racionalidade.
“A nossa prepotência tem nos impedido de aceitar o quão simples nós somos, e isso tem dificultado ainda mais o nosso conhecimento de nós mesmos” (Felipe Caxeiro)
(*) Elaine Melo de Oliveira é graduada em Ciências Biológicas na UFRGS.
Contato: elaineme5@yahoo.com.br

Herança – faz bem ou mal para o herdeiro?

– 8 de Março de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Você conhece o provérbio “pai rico, filho nobre, neto pobre”? Ele quer dizer que o pai trabalha para juntar o dinheiro e deixa para o filho, que vive como um nobre e não deixa nada para a próxima geração. Ouvi a entrevista de um técnico de futebol que disse ter dinheiro suficiente para que os seus netos não precisem trabalhar. Provavelmente este técnico não acredita no tal provérbio, ou que isto possa acontecer com a sua família.
Algumas heranças não há como evitar, como por exemplo, a herança genética. No caso da herança material (dinheiro, patrimônio), ela é acumulada com muito esforço por parte dos pais, que fazem isto pensando no futuro dos filhos, para que eles não passem pelas dificuldades que os pais passaram. Os pais não percebem que eles chegaram onde chegaram, por não ter tido as facilidades que querem oferecer aos seus filhos.
As famílias com baixo poder aquisitivo criam os filhos desejando que eles “subam na vida”, que consigam empregos melhores do que os que pais tiveram. Já as famílias de classe média tendem a induzir os filhos a seguirem a profissão dos pais. Não é por acaso que o filho do médico estuda medicina, que o filho do dentista segue a odontologia e herda o consultório do pai; que o filho do político, herda o eleitorado do pai; que o filho do artista vai ser artista, etc. E nas famílias ricas, os filhos são pressionados desde criança para se prepararem para assumir a gestão das empresas da família.
Os filhos que nascem com a “vida ganha”, não por eles, mas pelo que os seus pais ganharam, geralmente não valorizam a herança. Eles são conhecidos, não pelo seu nome, mas como “filho do fulano de tal”, ou como o “herdeiro de tal empresa”. Ou seja, mesmo que tenham capacidade e uma trajetória exitosa, o êxito é atribuído as facilidades criadas pelos pais.
Vamos imaginar uma sociedade em que fosse proibido deixar herança para os filhos. Por exemplo, os pais seriam responsáveis pela formação e manutenção dos filhos até, no máximo, 25 anos. Depois disto, eles teriam que prover o seu próprio sustento. Que os filhos que seguissem a profissão dos pais, não ingressassem no mercado de trabalho com “selo de qualidade”. Quando os pais se aposentassem, os pacientes, as empresas, o eleitorado, etc., não passariam automaticamente para os seus herdeiros. E quando os pais morressem, o seu patrimônio seria destinado para a educação de crianças carentes, não ficando nada para os filhos.
Imagine agora como tais medidas impactariam a vida das pessoas? Provavelmente os pais se preocupariam em juntar apenas o dinheiro necessário para garantir a sua velhice. Os filhos, sabendo que não teriam herança, iriam aproveitar ao máximo a sua formação profissional, pois dependeriam dela para ter sucesso profissional. Portanto, o famoso “pé de meia” seria para garantir o conforto na velhice e não para o conforto das próximas gerações.
No livro ‪”Cartas a um jovem herdeiro: a herança não vem com manual de instruções”, o consultor de empresas familiares ensina que o herdeiro tem que dar continuidade a sonhos (de quem lhe deixou a herança). Portanto, o herdeiro nasce com o seu destino traçado e sofre pressões, desde criança, para ser o que a família espera dele. Existem exceções, como por exemplo, Bill Gates, que já anunciou que vai deixar uma parte minúscula da sua fortuna para os seus filhos, e que eles terão de escolher um trabalho de que gostem e ir à luta.‬
Na minha opinião, se você não deixou, não pretende deixar ou não tem patrimônio para deixar aos seus filhos, está fazendo um bem para eles. A melhor herança que podes deixar é a educação, o afeto, o exemplo de vida. Com esta herança é provável que eles irão batalhar e se orgulhar das suas conquistas e serão muito gratos a você.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Felicidade

– 8 de Março de 2015
Cristina Valdez Borgmann(*)
Você se considera uma mulher feliz… – isto não é uma pergunta, e nem uma afirmação.
Para começarmos, podemos lembrar o que é a tal felicidade… Felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.
Seria mais simples se fosse somente isso, mas para cada uma de nós, felicidade tem um significado diferente. Tecnicamente, com todas as atribuições diárias, é difícil que nos sintamos felizes todos os dias… Fácil seria também dizer que se não nos sentimos felizes, certamente é porque algo nos causa infelicidade. Hã sei… Mas e aí? Aí, é só acabar com aquilo que nos causa infelicidade. Só que especialistas revelaram muitas coisas – como a relação surpreendente entre o poder das mulheres e a quantidade de sexo que elas praticam ou sobre o erro que o feminismo cometeu ao subordinar a maternidade à realização profissional. Mas nada se compara à experiência das próprias mulheres em organizar melhor suas vidas. E eu como professora em um Studio de Pilates, já ouvi muitos, mas muitos relatos de mulheres. Sim, porque a grande maioria das minhas alunas (e alunos também) buscam alguém com quem se identificar e que, este alguém esteja disposto a ouvir suas historias, suas experiências. Buscam ser acolhidas e ouvidas com atenção, num momento que é seu. Nós mulheres somos muito inconstantes, carregadas de emoção, e olha… É difícil encontrar uma mulher que se autodefina como “feliz”.
“Toda mulher é uma rebelde, normalmente em revolta selvagem contra ela mesma”, escreveu o escritor irlandês Oscar Wilde. Em resumo, para sermos mulheres felizes, ou melhor, para eliminar o que nos causa infelicidade é relativamente simples: basta não sermos contrariadas; estarmos bonitas e satisfeitas com o que o espelho reflete. Como certa vez já disse um grande amigo meu: “O espelho é terrível, pois poucas pessoas suportam olhar para si mesmas por longos períodos de tempo, já que, quanto mais olhamos para nós mesmos, mais defeitos encontramos, só que lamentavelmente esses defeitos vêm de dentro, e nada mais são do que as cicatrizes da alma”. Sermos bem sucedidas profissionalmente; termos um marido que nos auxilie em casa, com a casa e com os filhos; termos tempo para ir ao salão, à Academia; termos noites de sono bem dormidas; tempo para lazer no shopping; um bom restaurante; amor e carinho daquele que divide a cama conosco. Uma vez, ouvi a “receita” de uma amiga: já avisei o fulano, pra mim, sexo é pelo menos 3x por semana, com ele ou sem ele – e parece que funciona! (Óbvio, ela falou brincando). Homens, por falar neles, para que nos façam felizes, basta que sejam atenciosos, que saibam ouvir e dar atenção aos nossos medos, anseios e preocupações, que valorizem os momentos a dois, que sejam carinhosos, porque carinho faz bem… – e que, principalmente, esses momentos carinhosos não sejam demonstrados somente na hora do sexo. Que abracem, beijem e que gostem de andar de mãos dadas. Que reconheçam todo nosso esforço em manter a organização do lar, dos filhos, que celebrem junto as grandes e pequenas conquistas, que peçam desculpas, mas que também saibam perdoar… Creeedo, eu que não queria ser homem…
Mas há quem leia e possa pensar: “Nossa, quanta bobagem…” Mas algumas mulheres, se fossem questionadas, diriam que uma casa própria seria capaz de fazê-las felizes. Outras mulheres, daquele tipo que têm tudo, mas absolutamente TUDO, que podem entrar no shopping e ir de loja em loja, comprando o que quiser sem ao menos olhar os preços, diriam que trocariam tudo isso por amor. Sim, porque, na grande maioria das vezes, “comprar” serve para suprir a falta DE… Outras simplesmente diriam que saúde as faria plenamente felizes.
Para algumas mulheres, o segredo da felicidade é trabalhar muito, mesmo que isso signifique menos do precioso tempo ao lado dos filhos. Para outras, é viver à moda antiga, cuidando da casa, do marido e dos filhos. Há quem diga também que é um equilíbrio entre o trabalho e a família, já que é ótimo produzir e ser reconhecida profissionalmente. Outrora, ouvir um filho dizer que sua mãe é “demais” porque ela o faz dormir ou porque o seu carinho é o melhor de todos, ah… Isto não tem preço…
Enfim, a felicidade depende de uma serie de fatores, inclusive do momento que estamos vivendo. Encontrar equilíbrio é o maior anseio das mulheres adultas. A felicidade é um tema central do budismo, doutrina religiosa criada na Índia por Sidarta Gautama por volta do século VI a.C. Para o budismo, a felicidade é a liberação do sofrimento. Segundo o ensinamento budista, a suprema felicidade só é obtida pela superação do desejo em todas as suas formas. A felicidade é uma questão primordialmente mental, no sentido de ser necessário, primeiramente, se identificar os fatores que causam a nossa infelicidade e os fatores que causam a nossa felicidade. Uma vez identificados esses fatores, para se atingir a felicidade, bastaria extinguir os primeiros e estimular os segundos.
Pensando bem, será que vale a pena ser totalmente feliz? Nesse contexto de inquietudes, há quem diga que quem não se preocupa, quem não tem perturbação alguma, seja de que esfera for, pode se tornar uma pessoa sem objetivos, sem anseios e sem metas. Já que a dificuldade é descrita como um degrau para o sucesso, desconfortos, tropeços e momentos de infelicidade sempre farão parte de nossas vidas. Para esses e tantos outros momentos, existem aqueles que nos apoiam, nos ouvem e nos estendem a mão. São esses, os nossos amigos, que farão a grande diferença na busca da felicidade, pois, como, um dia desses, me disse o meu filho Luiz Arthur, de 4 anos: “Mamãe, quem encontra um amigo encontra um tesouro e o tesouro dá felicidade!”
Desejo a todas as mulheres que, além de esposas, namoradas, mães e profissionais, tenham a árdua tarefa de educar, ensinar, sensibilizar e encantar, proporcionando momentos ímpares de felicidade, que sobreviverão unicamente na memória daqueles que tiveram o privilégio de vivenciá-los.
(*) Cristina Valdez Borgmann é empresária em Porto Alegre.
Contato: cris@cvpilates.com.br
Ruídos do Cotidiano

– 1 de Março de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Ruído é um som indesejado, popularmente conhecido como “barulho”. Nem sempre é a intensidade do ruído (os decibéis) que nos incomoda, mas sim a sua repetição, ou a expectativa da repetição. Por exemplo, o “plim” (pingo de água de uma torneira) pode tirar o sono de uma pessoa, devido a sua repetição. Não é o barulho em si, mas a expectativa de ouvir o barulho do próximo pingo caindo que mantém a pessoa acordada.
Eu morei num apartamento numa esquina movimentada em que os carros passavam em alta velocidade e onde ocorriam muitos acidentes, pois muitos motoristas não respeitavam o sinal vermelho. Nas madrugadas de noites chuvosas eu acordava com o “screeech! Iéee!” (freada do carro) e naquele segundo rezava para não ouvir o “brrr booom!” (batida dos carros). Ficava acordado mais uns minutos torcendo para não ouvir o “nee naw, nee naw” (som da ambulância), pois isto era sinal de que o acidente tinha sido grave.
Mas os ruídos não vinham só da rua. O vizinho que morava no andar de cima, chegava no prédio pontualmente a meia noite e quinze minutos, quando eu havia recém deitado. A sequência de ruídos era rotineira e cronometrável. Começava com o “plimmm” (batida do portão de ferro na frente do prédio), depois o “plamm” da porta de madeira da entrada do prédio. Alguns minutos depois ouvia o “tec-tec-tec-tec” (som do sapato da sua esposa andando pela casa) e mais alguns minutos, bem acima da minha cabeça, começava o “nhec-nhec-nhec-nhec” (ruído da cama do casal). Se não quisesse ouvir esta sequencia de ruídos, de segunda a sexta-feira, precisaria dormir mais tarde ou colocar um tapa ouvidos. Nos sábados e domingos o vizinho dava uma folga, mas então aumentavam os acidentes na esquina. Nunca descobri se o casal não transava nos finais de semana ou se utilizavam o sofá da sala, pois eu não ouvia nenhum ruído!
Este apartamento despertou meu interesse pelos sons onomatopaicos e passei a observar com mais atenção a repetição de ruídos. Certa vez estava num evento acadêmico e uma das pessoas que estava lá na frente apresentando um trabalho, após concluir sua apresentação permaneceu em pé aguardando as perguntas. Ela estava com um vestido solto e repetidamente puxava o elástico da calcinha e soltava fazendo um “plac”. Resultado, não consegui mais me concentrar nas perguntas e respostas, pois estava sempre aguardando o próximo “plac”.
Eu não havia percebido que muitos dos sons onomatopaicos que utilizamos se originam na língua inglesa e nós os reproduzimos como se fossem nossos, como por exemplo: “smack” para representar um beijo (vem do verbo beijar “to smack”), “sniff-sniff” para farejar/fungar (do verbo “to sniff”), “splash” para borrifar água (do verbo “to splash”).
Os ruídos do cotidiano podem ser os mesmos, mas a sua representação varia de acordo com o “ouvido” de cada língua. Veja alguns exemplos:
▪ Choro: buá (português), wah (inglês), ouin (francês) e shikushiku (japonês);
▪ Som do ressonar ou roncar: zzzz (inglês), ron pchi (francês), hurrr (búlgaro), kho kho (vietnamês) e gu gu (japonês)
▪ Pedido de silêncio: shhh (inglês), chut (francês), pscht (alemão) e chu chu (tailandês);
▪ Sirene de ambulância: “nee naw” (inglês), pin pon (francês), tatü tata (alemão) e babu babu (dinamarquês);
▪ Som do telefone fixo: trimm (português), ring ring (inglês), klingeling (alemão), drin drin (italiano) e jiririririri (japonês).
Precisamos urgentemente de “sons onomatopaicos brasileiros”. Resolvi então escrever um texto onomatopaico com sons em português. Veja se você consegue decifrar o que ocorreu na cena a seguir:
Ronque, ronque,ronque
Tique-taque, tique-taque, tique-taque
Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!
Achhhhhh!
Clique!
Toque, toque, toque, toque
Clique!
Chiiiiiiiiii, Chiiiiiiiiii
Pumm!
Achhhhhh!
Chuáááááááááá
Toque, toque
Chuá, chuá
Chique, chique, chique, chique
Grrrrrrrrrr
Ptufff
Chilam, chilam
Toque, toque, toque ….
Entendeu?
(*) Luis Felipe Nascimento
Contato: nascimentolf@gmail.com

Cusco em dia de mudança

– 1 de Março de 2015
Silvia Generali da Costa (*)
Uma expressão gauchesca bastante conhecida é “mais perdido que cusco em dia de mudança”, o que quer dizer que alguém está desnorteado, desorientado, atrapalhado. Um dia de mudança é o início de um período no qual nada se encontra aonde se imagina que possa estar, nada funciona como antes, o piloto-automático foi desligado. Gestos simples como tomar um café geram questões difíceis como: “aonde está o café? As xícaras foram lavadas? O fogão já foi instalado? Qual será o melhor lugar da nova casa para saborear um bom cafezinho? Os hábitos nos são subitamente arrancados e tentamos reproduzir na nova morada um pouco dos antigos cenários e costumes, tão familiares e preciosos. Fico pensando se a repetição e a previsibilidade viajam conosco no caminhão de mudança ou se mudar de casa é mudar a vida.
Uma amiga, que auxiliava a filha na mudança de residência em Israel, postou no Face que uma mudança é sempre uma oportunidade de renovação. De se desfazer das coisas que não são usadas, das roupas que não servem mais (e que achávamos que, quem sabe, poderiam voltar a servir algum dia), da louça quebrada, das lembranças que não são boas. Também é uma chance de relembrar e decidir que algumas coisas são para se guardar e se fazer e tornar a se fazer: rever fotos antigas, reencontrar bons livros, encontrar o cartão com o telefone da amiga que há muito não se vê.
Mas mudança é momento principalmente de fazer escolhas e de colocar as coisas em perspectiva. Qual o estilo de vida que pretendemos adotar? A casa com cerquinha branca, representação clássica da grande família, com suas crianças e cachorros? O loft descolado para o qual são levados apenas os CDs de jazz e uns poucos livros? O apartamento minúsculo em um prédio-clube, que nos obrigará a interagir com a vizinhança como se nossa família fosse? No bairro tranqüilo ou no bairro dos bares e restaurantes? Perto ou longe do trabalho, ou da escola dos filhos, da mãe e da sogra? Muito longe? Uma casa mais simples que cabe bem no bolso ou uma mais sofisticada que apertará o orçamento? Perto de uma praça para poder caminhar ou de um shopping para poder comprar com mais freqüência e conforto?
A escolha da casa reflete a escolha do modo de vida que se pretende ter, ou que se necessita ter, ou, finalmente, que se terá de fato. E reflete também a passagem inexorável do tempo, o ciclo da vida, as fases, as perdas e os ganhos. Primeiro passo: a independência. Apartamento alugado, pequeno, perto da faculdade, barato e meio improvisado. Depois a entrada para aquele apartamento mais ajeitadinho, comprado com suor e esforço e com a ajuda de pais e sogros: agora somos dois. De repente, o apartamento de um quarto ficou pequeno em meio a fraldas, mamadeiras e brinquedos. A chegada dos filhos obriga a expandir a área útil. Mais um filho, empregada doméstica, talvez a sogra que precisa de cuidados e o indefectível cachorro (depois de tentativas frustradas de acalmar as crianças com hamsters, calopsitas, porquinhos da índia, tartarugas e outros bichinhos abaixo do cão na escala de preferência infantil). A casa cresce. Também de inopino, como se fosse de repente e surpreendente, a sogra nos deixa, o cachorro se foi de tão velhinho, os filhos cresceram.
Como? O teu filho está na Austrália fazendo intercâmbio? – pergunta a amiga espantada. Mas ele era tão pequeninho! Sim, você responde. Ele foi passar um ano na Austrália. E a menina vai no ano que vem para os Estados Unidos. Sim, a casa de uma hora para outra ficou enorme, silenciosa, em qualquer estado entre o chato e o tranqüilo, entre o alívio e a saudade desesperadora.
Os mais afoitos já transformam o quarto do mais velho em sala de TV. Os esperançosos arrumam com cuidado cada cantinho da peça na esperança de que a cria volte a se aninhar como antes. Outros esperam. Esperam que os filhos casem, que os netos cheguem, e que a casa volte a ficar cheia e desarrumada, que a pia transborde de louça do almoço de domingo.
Torço para que os velhos hábitos nunca possam se reestabelecer, a não ser a mania de abraçar e beijar as pessoas queridas, ficar próximo dos amigos, ter sempre um cantinho para os filhos, para os netos, para os mais velhos e para os mais moços.
A casa dos que amam sempre é grande o suficiente, é quente o suficiente, é acolhedora. A casa dos pais é protetora, a casa dos avós um território selvagem para grandes descobertas. A casa dos filhos, motivo de orgulho. Sejam mansões, sejam choupanas.
(*) Silvia Generali da Costa é Professora na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: sgeneralicosta@gmail.com
O Brasil vai melhorar!

– 22 de Fevereiro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Passadas as férias e o carnaval é hora de começar o ano e voltar a trabalhar para valer. Com que espírito voltamos ao trabalho? Escândalos, corrupção, inflação, recessão… Os especialistas dizem que a economia vai mal. A conta da luz subiu… tudo isto gera um “mau humor nacional”.
Não resta dúvidas que estamos em crise! Óbvio que todos gostaríamos que a situação fosse outra, mas entrar na onda do mau humor nacional não vai resolver nada. Em primeiro lugar é preciso entender que as crises são cíclicas. Independente de quem está governo, a economia alterna períodos de crescimento e épocas de crises. Então, logo após a crise que estamos vivendo agora, virá um período de crescimento (e depois mais uma crise).
Quanto tempo vai demorar para sair da crise? Depende do que fizermos! Podemos começar hoje, no próximo ano ou daqui há 4 anos! O Brasil tem alta capacidade de “resiliência”. Eu explico! Resiliência é a capacidade de sofrer os abalos e voltar ao estado normal. Em poucas décadas passamos por uma ditatura, por hiperinflação, fome e falta de escola para milhões de brasileiros e superamos tudo isto! O nosso mau humor de hoje é porque olhamos para onde gostaríamos de estar e não para onde estávamos. Independente de você ter votado na Dilma ou no Aécio, analise a situação do Brasil hoje:
– Quem são os responsáveis pela atual crise? O PT, os políticos, os empreiteiros,…
– Quais as instituições mais confiáveis atualmente? Polícia Federal, a Justiça, o Ministério Público …
Ora, país subdesenvolvido não confia na polícia e na justiça! Nestes países se manda matar os juízes e chefes de polícia. Se acreditamos nestas instituições é porque evoluímos, pois nem sempre foi assim.
Quem viveu o tempo da ditadura vai lembrar que os integrantes da Policia Federal eram chamados de “ratos” e a PF era um aparelho da ditadura para bisbilhotar a vida dos cidadãos. Tinha policial infiltrado nos centros acadêmicos, nos sindicatos e em todo lugar que pudesse ter alguém que discordasse do governo. Não era permitido “mau humor nacional”, o lema era “Ame-o, ou deixe-o”.
Vejam que, em poucas décadas a Polícia Federal deixou de ser um aparelho para manter os governantes no poder e passou a prender os governantes. A Justiça deixou de fechar os olhos para os crimes dos governantes, para condenar os governantes. Obvio que ainda existem muitos problemas na Polícia e na Justiça, mas é inegável a credibilidade de juízes como Joaquim Barbosa e Sérgio Moro. As instituições conseguem recuperar sua reputação. Em mais alguns anos talvez venhamos a confiar no Congresso Nacional!
Os corruptos e os corruptores de hoje são responsáveis por parte atual crise. A corrupção e os pequenos atos ilegais entraram na nossa cultura ao longo de décadas com a “lei do Gérson” (gostar de levar vantagem em tudo), com o “jeitinho brasileiro”, com o estilo “malandro” e outras formas de burlar a lei e de enganar os outros. Reúna um grupo de pessoas para tomar uma decisão e logo aparecerá alguém querendo tirar vantagem. Isto ocorre em Brasília, na sua cidade, no seu condomínio e talvez na sua própria família.
Para se eleger, um político gasta uma fortuna e obviamente depois de eleito quer recuperar o investimento. Num depoimento, um diretor da Petrobrás disse que ninguém chega a diretor sem indicação política e que o partido que o apoiou, depois cobra a conta. Certa vez um gestor público relatou que nos primeiros dias da sua gestão recebeu a visita de um fornecedor que lhe disse: “Eu sou fornecedor desta instituição há décadas e sempre funcionou assim, a cada compra, eu lhe entrego o percentual para a “caixinha”, da forma e onde você quiser. Se você não aceitar a propina, os teus funcionários vão te boicotar e logo você vai cair. O próximo diretor vai aceitar a propina”.
Esta crise é diferente das anteriores, pois questiona a nossa autoestima. A toda hora tem alguém explicando “porque somos corruptos”. Alguns argumentam que isto vem desde o descobrimento do Brasil, outros falam que “este país não tem jeito”. Eu discordo! Acho que o Brasil vai melhor! De uma forma simplificada diria que precisamos de duas mudanças:
▪ Uma mudança cultural – mudar do “jeitinho” para o “jeito certo e honesto” de fazer as coisas;
▪ Uma reforma política – que mude as “regras do jogo”. Com esta reforma, outras reformas serão viabilizadas.
Tenho certeza que tem muita gente honesta neste país, bem como políticos e gestores públicos honestos e competentes. Não somos um país de ladrões. A reforma política em breve entrará em pauta e, se tiver pressão popular, ela poderá ser aprovada. E a mudança cultural, esta começa com cada um dando o exemplo para os seus filhos. Então, mãos-a-obra!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com

Tudo é possível e vai dar certo
– 22 de Fevereiro de 2015
Clandia Maffini Gomes (*)
Tenho uma amiga que assim me define: “ela leu Alice no País das Maravilhas e Poliana e misturou tudo… Ela acredita que tudo é possível e que vai dar certo”….
A despeito da amizade que confere um certo exagero a essa definição, ela pode estar certa (será mesmo?). Algumas explicações creiam que sejam necessárias. A primeira delas consiste nas características do ambiente em que convivo: o ambiente acadêmico. Como sobreviver em um ambiente tão complexo, sem a fé na concretização do impossível? Não quero tornar esse espaço em um mar de lamentações, mas temos que reconhecer que tudo converge para o não dar certo…. Remar contra a maré se constitui por si só em um ato heroico…
O segredo está em pensar diferente… Mas como pensar diferente e acreditar que é possível mudar em um ambiente que não nos estimula a isso?
Outro aspecto importante a ser lembrado, se refere ao convívio interpessoal. Em um ambiente repleto de “humanidade” enfrentamos homens e mulheres que se sentem ameaçadas pelas Alices e Polianas, o que me leva a pensar no quanto é difícil interpretar tais personagens: pensar diferente não é regra.
Será que vale a pena assumir uma postura de alice e poliana, ser um outlier, ao enfrentar os desafios cotidianos?
Embora difícil de responder a esse questionamento, creio que’ Fazer a diferença’ seja o principal objetivo de nossa existência. Então, embora mais difícil e trabalhosa, adotar uma atitude mais empreendedora (suicida?) e positiva (louca?) seja o melhor caminho (ou não?).
Seja como for quem nasceu para ser alice ou poliana jamais terá outro codinome… É da sua natureza… A satisfação ou a frustação só dura até a próxima ideia ou projeto … Que venha o próximo desafio louco que muito provavelmente dará certo…
E por falar nisso, ainda não fui à lua? Você já foi? Boa ideia…
(*) Clandia Maffini Gomes é Professora na UFSM.
Contato: clandiamg@gmail.com
Perdas Tragicômicas

– 15 de Fev 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
É lamentável perder qualquer que seja o objeto, e quando isto acontece ficamos apreensivos, mas depois que passa, não tem como não rir da situação. Soube de histórias contadas por amigos, que considero trágicas, e ao mesmo tempo, cômicas. Confira a seguir cinco histórias “tragicômicas”:
▪ Os meus tios vivem lá no interior do interior, e costumam sentar no pátio da casa para tomar mate (chimarrão) e comer pipocas, sempre rodeados por um bando de galinhas soltas no terreiro. A minha tia gosta de encher a boca de pipoca e cuspir fora os grãos que não estouraram ou que são muito duros. Cada grão que cai no chão é disputado pelas galinhas. Certo dia, quando ela cuspiu fora um grão de pipoca, percebeu que havia saltado junto um dente da dentadura. Foi tudo muito rápido, quando ela se mexeu na cadeira, uma galinha já havia engolido o dente. A tia não teve dúvidas, correu atrás da galinha e, com a ajuda do tio, mataram a galinha e recuperaram o dente. Pouco tempo depois da perda do dente, lá estavam os dois tomando mate e comendo pipoca. Foram ao dentista? Que nada! O tio mesmo que colou o dente fujão com super bond e garantiu “este não foge mais”. A vida continuou como se nada tivesse acontecido, só mudou o rumo da prosa, pois o tio não parou mais de falar da galinhada que iria comer no jantar.
▪ O meu amigo teve a infelicidade de perder a visão de um olho e teve que colocar um olho de vidro. Provisoriamente, até que ficasse pronto o olho de vidro, ele usou um olho, digamos que de plástico. Neste período ele foi para a praia e quando veio uma onda, perdeu o olho provisório. Chamou a família para ajudar a procurar, mas “nunca mais o olho foi visto”. Permaneceu o resto das férias como um pirata, mas hoje vive bem e o olho de vidro, que é imperceptível para quem não sabe da sua história.
▪ Fui a um congresso e deixei meu carro no estacionamento do terminal 1 do aeroporto de Porto Alegre. Retornei alguns dias depois, já era tarde da noite, e levei um susto quando procurei o ticket do estacionamento (aquele branco com código de barras) para pagar e não o encontrei. Revirei a carteira, depois a bolsa, depois a mala e nada. Pronto, perdi o ticket! Fui orientado a preencher um formulário, pagar uma taxa e procurar o carro, que eu tinha certeza que estava no terceiro andar do estacionamento. Quando estava preenchendo o tal formulário veio um flash de memória: “no dia que embarquei, eu estacionei o carro no terceiro andar do terminal 1, mas depois descobri que a companhia pela qual eu iria viajar, havia mudado para o terminal 2. Então retirei o carro e o estacionei junto ao terminal 2. Na volta, viajei por outra companhia, que utiliza o terminal 1”. Não sei como, mas eu havia deletado a troca de terminais. Como os tickets dos estacionamentos são diferentes, não percebi que aquele papel amarelo que estava na minha carteira, que se parecia uma nota fiscal, era o ticket do outro estacionamento. Este flash de memória me salvou, pois eu iria procurar o carro no terceiro andar, que não estava lá, e depois faria uma queixa de roubo do carro. Escapei de um mico ainda maior! Nestas ocasiões sempre tem uma testemunha que não nos deixa omitir os fatos. Eu havia prometido carona para uma colega que estava no mesmo voo. Ela acompanhou tudo e ora torcia para que eu encontrasse o ticket, ora para que eu lembrasse onde estava o carro, depois para que o carro realmente estivesse no estacionamento, e já descrente de um final feliz, sugeriu: “não seria melhor a gente pegar um táxi e resolver isto amanhã?”
▪ No interior do Rio Grande do Sul, dois vizinhos brigaram feio. Era soco para cá, soco para lá, rolaram na terra até que chegou a “turma do deixa disto” e os separou. Na briga, os dois perderam as dentaduras, que caíram e ficaram tapadas de pó. Depois de encerrada a briga, cada um pegou a dentadura que estava mais próxima e foi para a sua casa prometendo ao outro que “isto não vai ficar assim”. E não ficou mesmo! Depois de lavar as dentaduras, perceberam que elas haviam sido trocadas, não encaixavam na boca! O que fazer? A solução foi pedir para as esposas destrocarem, pois pior do que aparecer no trabalho no dia seguinte com o olho roxo, seria chegar “banguela” (faltando os dentes da frente).
▪ Uma colega desceu do avião e colocou o seu notebook na parte superior do carrinho do aeroporto. Aguardou sua mala chegar e, quando retirou a mala da esteira, em vez de colocá-la no carrinho, resolveu levá-la empurrando. Resultado: esqueceu o notebook no carrinho junto a esteira. Apanhou um táxi e após andar alguns quilômetros, ela percebeu que havia esquecido o notebook no carrinho. Voltou ao aeroporto e encontrou o notebook no mesmo lugar. Ao sair do aeroporto, não encontrou mais o táxi com a sua mala. Foi até as autoridades competentes e registrou o que havia ocorrido. Após preencher um longo formulário e ser liberada, foi tomar outro táxi e percebeu que estava no pavimento térreo (área de desembarque) e que o táxi com a sua mala tinha estacionado no andar superior (área de embarque). Subiu as escadas correndo e lá estava o taxista com a sua mala lhe aguardando. Envergonhada, não comentou nada. Foi o taxista quem lhe contou um caso curioso: “sabe moça, hoje em dia não dá para confiar em mais ninguém. Ouvi agora no rádio que um colega fugiu daqui do aeroporto com a mala de uma passageira. Tome cuidado! ”
Provavelmente você nunca tenha perdido os dentes, o olho, o carro ou o seu notebook, mas algum dia poderá ter uma perda tragicômica. Fica a dica, quando perder alguma coisa, peça logo ajuda para São Longuinho dizendo: “São Longuinho, São Longuinho, se eu achar o que perdi, darei três pulinhos”. Me garantiram que este milagre saltitante acontece até para as pessoas de pouca fé. Dizem que entre os “santos achadores”, São Longuinho é o cara!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
O lusco-fusco do carnaval, ou o ocaso do acaso

– 15 de Fev 2015
Pedro Costa(*)
Sempre gostei muito de um horário especial do dia, em que ele vai dando lugar à noite, bem aos poucos. Nós gaúchos chamamos essa hora de lusco-fusco (que não sei o significa nem de onde saiu…), e Mia Couto refere-se a ela, num conto, como o momento em que “os farrapos de poeira demoravam o último sol”. Escrevo essas linhas nessa hora.
Talvez o rescaldo do carnaval seja um momento desse lusco-fusco, meio folia, meio razão, costurado pela melancolia e pela madorra da volta para um tempo de ordem. Mais do que uma crônica das possíveis concessões que podem sustentar a ordem, esse momento transitório, difuso e impreciso me lembra exatamente os movimentos de vida que estão nessa faixa do incompreensível e que o nosso pensamento ocidental típico, maniqueísta e dicotômico, tem tanta dificuldade de entender.
Sim, gosto das zonas sombrias em que a nossa total humanidade se manifesta, ou poderíamos até ousar dizer que só somos verdadeiramente humanos nessa meia-luz (ou meia noite?) em que se costura o diálogo entre nosso modo de viver lógico e a nossa sensibilidade. Lembro e evoco aqui as reflexões entre experiência e vivência, a primeira mediada pela razão e a segunda como forma sensível de apreender a realidade. Há duas realidades? Uma captada pela razão e outra pela sensibilidade? E quando essa “realidade” se manifesta em nós? O que está certo? A tese ou a poesia? O discurso ou o corpo que dança? O retrato ou a pintura surreal?
Eu fico com o lusco-fusco da vida, do ir e vir entre as duas coisas que sou e as diferentes realidades que me assaltam. Não quero ser capturado por nenhuma delas, quero chorar ouvindo música e também fazer revolução. Adoro ler, estudar e lecionar, estou a todo tempo pensando e descobrindo minha eterna e infinita ignorância, que, obviamente, me dá mais sede ler, estudar e pensar. Depois paro no batuque do tambor, no olhar enamorado, no desejo incontido de rir ou de amar, embora eu não saiba a diferença entre os dois.
Não quero ser uma crônica de auto-ajuda: quero convidar o leitor à confusão e ao desafio do desassossego que nos impulsiona. Acho que o fim do carnaval – como ocaso do acaso, quando finda a concessão aos sonhos e o planejamento vira a pauta da vida – reforça minha convicção irrefletida de que é na força desse espaço impreciso que está a potência de viver. Ao menos o viver que eu quero ter.
Deixo vocês então com um poema, o “poema do desenredo”, produzido nesse clima de (fim de?) carnaval:
Cantei um carnaval de desenredo que me enreda em ti
Preso pela língua-serpentina que me serpenteia o corpo e me joga pro chão
onde bate o pé e arrasta o cordão do bloco incabido e disforme da paixão
Sonhei com beijos que caíam como confetes em uma chuva pipocante e desarmônica de si
Meu sorriso invisível se regojiza calado e se faz estandarte do que vivo
O passo evoluído pelas pedras da rua samba na direção do abraço saudoso
Abraço que puxa teu corpo suado de sonho
como se meu sentimento corporificado quisesse bumbar a batida do teu coração
amor sem ritmo, desarmonizado de tudo que escurece a vida
construído na respiração do tambor
e na cadência do desejo
Amor sem quarta feira
Sem cinzas
Só fogo
(*) Pedro Costa é Professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: pedrodealmeidacosta@gmail.com
Como danifiquei meu celular

– 8 de Fev 2015

Luis Felipe Nascimento (*)
Solicitei aos amigos que me contassem histórias sobre a perda ou danos causados aos seus celulares. Como meus amigos não mentem, considero as histórias como verídicas. Conto o milagre, mas não revelo o santo:
▪ Eu estava fazendo as unhas dos pés com o celular no colo. Tive que levantar e esqueci do celular, só ouvi um “ploft”, era o celular dentro da bacia!
▪ Eu recém havia comprado um i-phone 5 e estava feliz com ele. Andava com o celular no bolso da calça. Um dia, quando levantei do vaso ele caiu lá dentro. Olhei para ele se afogando no meio do “número um” e do “número dois”. Não tive dúvidas, meti a mão e salvei o coitadinho. Mas infelizmente, ele não resistiu e veio a emudecer!
▪ A minha bolsa estava numa mesa próxima a piscina e, não sei como, quando fui pegar a bolsa, o celular pulou na piscina. Eu pulei atrás e retirei logo ele da água, mas ele não funcionou mais. No dia seguinte fui na loja e, com uma cara de ingênua, e disse que o celular estava na garantia e que não sabia por que havia parado de funcionar. O balconista foi educado: “a senhora não deve ter notado, mas que o seu celular caiu dentro água. Olhando por este buraquinho dá para ver que mudou a cor lá dentro, isto é sinal que entrou água. Nestes casos, a garantia não cobre”. Com a mesma cara que entrei, disse: “Ah! Então foi isto! Muito obrigado”. Sai de lá morta de vergonha!
▪ Eu tinha certeza que havia deixado o celular com a minha mulher e, depois de alguns mergulhos coloquei a mão no bolso …. e ele estava ali comigo, furando ondas! Foi-se!
▪ Quando sai do carro na garagem, ele caiu debaixo do carro, de modo que quando voltei, não o vi e passei com o pneu por cima dele. Quando retornei novamente a garagem, lá estava ele, com o display esmagado. Era um Nokia, aquele “tijolinho”, e o danado ainda funcionava, só conseguia saber quem estava ligando, pois não tinha mais display.
▪ Tenho a mania de falar ao celular caminhando pela casa. Eu costumo levar o celular para o banheiro quando estou sozinha. Quando toca, eu seco a cabeça e atendo a ligação. Um certo dia, atendi o telefone, caminhei por dentro do box e passei por baixo do chuveiro com ele! Foi só o susto, graças a Deus ele continuou funcionando!
▪ Nunca estraguei um celular. É verdade que vários já escorregaram da minha mão, mas continuaram funcionando. Um dia esqueci o celular em cima da mesa. Soube que ele recebeu várias chamadas, pulou, pulou e se atirou da mesa. Trincou a tela e ficou tudo azul. A minha mãe disse que a culpa foi minha! Pôde?
Além dos acidentes, curiosos também foram as reações das pessoas para tentar salvar o celular.
▪ Depois de retirar o meu celular da água, eu coloquei dentro do forno do fogão para ver se a água evaporava. Funcionou, água evaporou. O que não funcionou mais foi o meu celular!
▪ Eu aprendi que, quando molha um celular, o melhor a fazer e colocar ele dentro de um saco de arroz. Eu não sei o que acontece, mas eu testei e funcionou. Acho que dentro do saco de arroz tem um monte de chinesinhos que consertam os celulares molhados!
▪ Quando ele caiu na privada, fiz o que haviam me recomendado. Dei descarga e deixei que ele fosse para o lugar certo!
▪ Meu acidente com o celular, foi causado pelo celular. Estava dirigindo e falando e não vi o outro carro!
Agradeço a todos que relataram os acidentes e as medidas tomadas para tentar recuperar seus celulares. Em breve, estas histórias não farão mais sentido, pois os celulares já estão vindo a prova de água. No carro, podemos falar sem pegar o celular na mão. Eles estão cada vez mais resistentes nas quedas. Nossos filhos e netos não vão entender este texto. Então, feliz de nós que podemos contar e rir destas histórias!
(*) Luis Felipe Nascimento
Contato: nascimentolf@gmail.com
Obs: Se você sabe de alguma “perda tragicômica”, me conte. Numa próxima coluna pretendo escrever sobre as perdas de objetos que, apesar de lamentáveis, foram engraçadas. Envie esta semana esta historia para nascimentolf@gmail.com

“Alô, quem está falando?”

– 8 de Fev 2015

Roberto Patrus (*)
Até há bem pouco tempo, quando se fazia uma ligação para um telefone residencial, a pergunta que se fazia ao ouvir “alô” do outro lado da linha era “quem está falando?” Em famílias mais cerimoniosas, o pai recomendava não fazer essa pergunta por considerá-la pouco educada, sem a civilidade considerada ideal. Aconselhava, no máximo, identificar-se antes de se perguntar quem está falando: “aqui é o fulano de tal, com quem eu falo?” Também orientava os filhos para, quando atender chamadas, nunca dizer quem está falando antes de saber quem é que fala do outro lado. À pergunta quem está falando respondia-se um seco número; “você ligou para 3486-8686”. Na era da informação, a pergunta mudou. Quando se liga para um telefone celular, não se pergunta mais quem está falando. A pergunta agora é “Alô! Onde você está?”
A razão desta mudança é clara. Com o advento do celular, o telefone deixou de ser um aparelho de uso coletivo e se transformou em um aparelho de uso exclusivamente pessoal. Certa vez, um indivíduo ligou para o meu celular. Como eu não podia atendê-lo, pedi a minha mulher que o fizesse. Ao ouvir o alô, pronunciado por uma voz de mulher, ele disse: Desculpe, foi engano. O telefone tocou em seguida, ela atendeu novamente e o rapaz lhe disse: “Estou ligando para o Roberto e aqui na loja me deram esse número, desculpe de novo”. Antes de desligar, minha mulher lhe informou que de fato o telefone era o meu.
O telefone fixo é da casa. Seu uso é coletivo. Todos os residentes fazem e recebem chamadas. O telefone celular é pessoal. Seu uso é individual. Ele vai aonde o sujeito vai, no bolso, no cinto, na pasta, na bolsa. Se tocar, alguém o acha, mesmo sem saber se a hora é apropriada. As pessoas mais educadas costumam perguntar: “Você está podendo falar agora?” Como outros não fazem essa pergunta, muitos preferem deixar o aparelho desligado para não atender ligações.
Parece claro que a pergunta não poderia continuar a mesma. Não faz sentido perguntar quem que está falando quando se liga para o celular, se seu uso é praticamente exclusivo. Embora essa pergunta, que alguns consideram uma intromissão indevida na privacidade do outro, tenha dado lugar a outra, o curioso é que a pergunta que a substitui – onde você está? – mantém a mesma falta de cerimônia da primeira.
Vivemos em um mundo cada vez mais individualista. O consumismo anda de mãos dadas com o individualismo. Se em uma casa vivem 5 adultos, um telefone fixo serve para todos eles. Se a moderna tecnologia passa a oferecer a possibilidade de você fazer e receber ligações de onde estiver, todos vão querer um telefone celular. O benefício é grande, pois o telefone nunca estará ocupado se o próprio dono não o estiver usando. No entanto, serão vendidos cinco aparelhos móveis, ao invés de apenas um, fixo. E mais, são cinco novas contas. Como a ligação do telefone celular é mais cara que a ligação do telefone fixo, ninguém manda desligar o telefone fixo. Resultado: na verdade são agora seis contas.
Do ponto de vista individual, desconsiderando-se os custos e a rápida obsolescência dos aparelhos de telefonia móvel, cada um ter seu próprio telefone é uma grande vantagem, pois ninguém vai precisar esperar que o telefone se desocupe para fazer sua ligação. Ao descrever a ansiedade pela espera do telefonema do amado, Roland Barthes dizia que o apaixonado é aquele que espera. No caso de um telefonema, a espera exigia de um sujeito apaixonado que ele ficasse imóvel, ao lado do telefone. Agora já não é mais preciso. O homem ganhou mais liberdade. Pode ir e vir como bem entender, desde que seja com o seu telefone a tiracolo, claro. Viva a tecnologia!
O apaixonado de Barthes ganha mais liberdade para procurar se distrair da sua ansiedade de espera, mas ela continua ali, incomodando, lembrando-lhe que o outro também é livre para abandoná-lo, até mesmo para esquecê-lo. A sua ansiedade não foi resolvida. Cada vez mais livre, cada vez mais dono de novas tecnologias, cada vez mais consumidor, mas nem por isso menos ansioso. A atomização da família, ilustrada pela individualização da posse e do uso do telefone celular, não deu maior autonomia para os indivíduos também serem donos de si mesmos, capazes de administrar a própria ansiedade e respeitar o espaço e a privacidade do outro.
Se o respeito à própria individualidade é um valor, também o é o respeito à individualidade do outro. O telefone celular é um fantástico instrumento que confere maior autonomia ao indivíduo, no entanto, não implica necessariamente respeito à individualidade do outro. Desconfio que a tecnologia tem mudado muito rapidamente as relações sociais, mas o indivíduo continua o mesmo. A falta de educação, revelada pela pergunta “quem está falando” ainda resiste diante de uma nova tecnologia, transformada em uma nova pergunta – “onde você está” – que mantêm a mesma essência.
A diferença é que quando a família ainda era um grupo, havia um pai para orientar o seu filho a como fazer e como atender uma ligação. Na família atomizada de hoje, temo pela ausência deste educador. Não que ele não esteja ali para ensinar o modo correto de se proceder em diferentes situações sociais. São as situações sociais que estão se transformando em problemas privados, sobre os quais os pais não têm mais a liberdade de interferir, sob o pretexto de estar respeitando a individualidade do outro.
A consciência da civilidade, no sentido de respeitar o espaço do outro e ter para com ele e o ambiente o mínimo de educação para conviver, não cresce a reboque das novidades tecnológicas. Pelo contrário, parece que as inovações tecnológicas podem fazer novos desafios éticos, mas com a agravante de passaram despercebidos.

(*) Roberto Patrus é Professor na PUCMinas.
Contato: robertopatrus@pucminas.br
O Rei Mandou

– 1 de fev 2015
▪ Hoje a Coluna se prepara para o carnaval e homenageia com uma marchinha de nossa autoria, os que vão pular carnaval, os que vão para a praia e os que ficarão nas cidades vazias. 
Confira em http://youtu.be/8UCwulzJE9c

Responda: Você já perdeu ou estragou algum celular? E o que você fez para consertar o aparelho? Envie nesta semana a sua história, ou alguma que você saiba, para nascimentolf@gmail.com. Este será o tema de uma próxima coluna. Contarei o milagre, mas não direi o nome do santo.
Bom fevereiro para todos nós.
Abraços. Felipe
O que mais lhe surpreendeu nos últimos 25 anos?

– 25 de Janeiro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Os nativos digitais não conseguem imaginar como era o mundo antes de 1995, antes da difusão da internet no Brasil. Quem tem mais de 30 anos, vai lembrar das muitas mudanças que ocorreram nos últimos 25 anos. Algumas eram previsíveis, mas outras foram surpreendentes. É difícil dizer quais foram as que mais nos impressionaram? Quais você diria que “jamais imaginaria” que viessem a ocorrer?
E por que falar em 25 anos? Porque 25 anos é o tempo de uma geração. Fazem 25 anos que caiu o muro de Berlim. Fazem duas gerações, mais de 50 anos, que iniciou o bloqueio de Cuba pelos EUA. Todos nós sabíamos que algum dia o muro iria cair e que o bloqueio a Cuba iria acabar. Ou seja, a maioria das coisas podem durar uma ou várias gerações, e por mais difíceis ou absurdas que sejam, a gente sabe que um dia eles vão acabar. Mas tem outras, que parecem eternas, ou pelo menos a gente não imagina o que virá depois delas, não é verdade?
Então, vamos fazer um exercício para lembrar das mudanças que mais nos surpreenderam nos últimos 25 anos. Eu relacionei algumas das coisas que mais me impressionaram, veja se confere com a sua lista:
– Oficina mecânica – hoje, nas oficinas das concessionárias, os mecânicos usam avental branco, possuem todos os dentes e ainda apertam a mão dos clientes. Antigamente o mecânico cumprimentava os clientes com o cotovelo, pois as mãos estavam sempre sujas de graxa. Ah! Sem falar do piso das oficinas de hoje, que se parece com o piso de um shopping.
– Discos – Quem colecionava os discos de vinil sabia que eles seriam substituídos pelo CDs e que depois viriam outras mídias, mas não imaginava que eles fossem desaparecer e que as poderosas gravadoras fossem ser reduzidas ao que são hoje. Adquirir músicas de graça? Comprar músicas pela internet? Isto não fazia parte da minha imaginação.
– Netflix – Em 1990 já tínhamos locadoras de fitas VHS, depois de DVDs, Blue-Ray, Blue Ray 3D e a expectativa era de que viriam novos “tipos de discos”. Quando não existia TV a cabo já se falava em programação paga. Isto era previsível, mas o Netflix, a preço irrisório, era inimaginável. Ver quantos filmes e séries desejar ao longo de um mês, no computador ou na TV, pelo preço equivalente a uma entrada de cinema! Bah!
– Roberto Carlos e Raul Seixas – estes dois me surpreenderam. Roberto Carlos por passar 40 anos fazendo o mesmo show (primeiro especial de fim de ano na Globo foi em 1974) e com a mesma cara. Ele não envelhece! Outra surpresa, a gurizada de hoje não gosta das músicas do passado, mas, 25 anos depois da morte de Raul Seixas, continuam curtindo as suas músicas. Onde tem música ao vivo, tem alguém para pedir: “toca Raul!”
Cada geração se impressionou com alguma inovação. O meu avô achava que a máquina de debulhar milho seria a maior invenção de todos os tempos. O meu pai era impressionado com o aparelho de fax, e eu, fico impressionado com o mundo da internet. E os nativos digitais, acham a internet uma coisa tão simples!
Se alguém previsse tudo o que aconteceu nos últimos 25 anos, seria considerado louco. Os economistas diriam que, se tais previsões se confirmassem, a economia global iria a falência! Imagine só, se ninguém mais comprar os discos e tiver acesso aos filmes, será o fim destes mercados! Do que viverão os músicos e o povo de Hollywood? Pois as mudanças aconteceram e só acabaram com as empresas que não souberam se adaptar. O mercado da música e do cinema continua bem obrigado.
Olhar para o passado é olhar para um lado. Isto dá uma vontade danada de olhar para o outro, para o futuro. Será que nós conseguimos imaginar como será a vida e os recursos tecnológicos que existirão em 2040? Quais serão as principais mudanças nos próximos 25 anos? Faça um exercício e imagine os seus filhos e netos vivendo em 2040: Como será a casa deles, o trabalho, os meios de transporte, o lazer, os alimentos, as relações entre familiares e amigos? Tomara que você esteja lá para conferir tudo isto. E não se surpreenda se, no final do ano de 2040, a programação da TV do futuro for o “Especial do Roberto Carlos” (e ele com a mesma cara de hoje, ou a de 40 anos atrás!).
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
O impermanente indo e vindo infinito

– 25 de Janeiro de 2015
Cláudio Senna Venzke (*)
Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã… A música “Cotidiano”, de Chico Buarque, retrata um ritmo repetitivo, que nos acostumamos a viver e muitas vezes não queremos sair dele por nos sentirmos confortáveis, a velha história da zona de conforto. Mas o quanto previsível é a vida? Muito menos do que acreditamos, ou na verdade nos iludimos, para nos sentirmos confortáveis. Vivemos num mundo completamente mutável, de uma impermanência inquestionável, porém esquecida pelo apego à ideia ilusória de que as coisas podem ser permanentes. Talvez uma das formas mais fáceis que entendermos isso é observarmos a natureza com as suas infinitas mudanças, como nas trocas de cores do Outono. Recentemente tive a oportunidade de vivenciar mais fortemente isto, numa região onde as cores outonais se mostram – e se transformam – de uma maneira tão intensa que a cada dia podemos ver uma paisagem nova num mesmo local, paisagem esta que logo em seguida se transforma de uma forma tão intensa que é possível acharmos que se tudo tornou estéril, mas volta logo em seguida com toda a sua força.
A impermanência é um ensinamento básico do budismo, este ensinamento aponta que sofremos pelo simples motivo de não conseguirmos aceitar a verdade da impermanência. O sofrimento é amplificado por ele mesmo, num ciclo de realimentação negativa: quanto menos aceitamos a impermanência mais sofremos, e este sofrimento gera um apego maior à ideia de permanência, o que gera mais sofrimento. Consequentemente, a causa básica do sofrimento é o apego a não aceitação dessa verdade. Apego às coisas físicas, às relações ou estilo de vida torna-se então a materialização deste sofrimento. Sofremos com medo de perdê-los ou por ainda não tê-los.
Então, se sofremos nunca seremos felizes? O ensinamento budista coloca que não devemos buscar nada externo a nós mesmos. Podemos por meio das nossas dificuldades, ou sofrimentos, crescer e encontrar a nossa verdadeira missão neste mundo. Então devemos aproveitar cada instante como ele é: único para o aprendizado. Viver no momento presente, sem apegos ao passado e principalmente ao futuro, os quais não existem.
Assim, esta história toda pode ser traduzida pela linda musica/poesia de Lulu Santos “Como uma Onda”: Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará. Pois se há tanta vida lá fora, dentro de nós deve ser sempre como uma onda no mar.
(*) Cláudio Senna Venzke é Professor na UNISINOS, em São Leopoldo/RS.
Contato: senna@portoweb.com.br
Não é o que você está pensando!

– 18 de Janeiro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Imagine aquela cena clássica de traição, em que um dos amantes é pego em flagrante pelo outro e, após alguns segundos de perplexidade, a pessoa que está traindo pronuncia: “não é o que você está pensando!” Ora! Como não é? Quem foi traído está vendo com seus próprios olhos! Para entender esta frase é preciso voltar ao passado, quando o amor e o sexo eram muito diferentes da concepção que temos hoje. Bisbilhotando a história se percebe que amor e sexo não andavam juntos e encontra-se a origem de expressões como “cara metade”, “alma gêmea”, “perder a cabeça por uma mulher”, ou ainda, explicações para mitos e brincadeiras como a de dizer para os adolescentes de que a masturbação provoca espinhas no rosto e calo/pelos nas mãos, ou que transar com mulher durante o período da menstruação fará azedar o vinho.
Temos a sensação de que nossos valores e hábitos de hoje, existem há muitos e muitos anos, mas isto não é verdade. O amor romântico é um construção social muito recente como também é a união de amor e o sexo. Ou seja, o modo de amar e de fazer sexo não foram sempre assim, apesar de alguns autores afirmarem que o amor é universal e que sua origem coincide com a descoberta do fogo, quando o homens e mulheres se reuniam nas cavernas. A história da humanidade mostra que os relacionamentos afetivos passaram por muitas alterações, e algumas formas ultraconservadoras ainda persistem. Convido você leitor para um passeio pela história para melhor entender as relações entre o amor e o sexo.
▪ Por milhões de anos o homem não associava sexo com procriação, imaginava-se que era o vento que colocava as crianças dentro da barriga das mulheres. Há cerca de 12 mil anos, quando o homem deixou de ser nômade e passou a criar animais, ele percebeu que a ovelha desgarrada não dava cria. Da observação da natureza, descobriu como eram feitos os bebês;
▪ Há autores que dizem que o amor foi inventado cerca de 300 AC na Grécia. Lá sugiram palavras como afrodisíaco, poligamia, erotismo, como também “almas gêmeas” e “cara-metade”. Segundo a mitologia grega, o homem possuía duas cabeças, quatro pernas e quatro braços. Temendo o poder destas criaturas, Zeus as dividiu em duas. Por isto, até hoje temos a sensação de sermos seres incompletos e buscamos a outra metade;
▪ Os gregos acreditavam que o amor só seria possível entre pessoas iguais, ou seja, pessoas do mesmo sexo e do mesmo nível intelectual. Aristóteles defendia que o amor e a amizade só existiam entre os homens. Platão acreditava no amor baseado na parceria intelectual e espiritual. O “amor platônico” não excluía o contato físico. Sócrates era homossexual e as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo eram muito comuns na antiga Grécia;
▪ Os romanos gostavam muito de festas e consideravam que a paixão era uma forma de escravidão. Quando um amigo se apaixonava, diziam que ele teria “perdido a cabeça por uma mulher”. Apesar disto, uma das obras mais conhecidas do Império Romano é a “Arte de Amar”, de Ovídio, um manual de sedução datado no ano 2 DC;
▪ Os casais não mostravam o corpo um para o outro, transavam de roupa. Os mais conservadores, faziam um buraco no lençol para que houvesse o mínimo contato possível;
▪ No ano 391 Santo Agostinho defendia que o homem deveria renunciar ao desejo e ao sexo. O amor era apenas com Deus e que o sexo seria só para a procriação. Quem fizesse sexo apenas por prazer ou por amor, seria considerado um pecador;
▪ Para inibir o prazer sexual solitário, a sociedade da época espalhou mitos de que os meninos ganhariam espinhas no rosto e calos/pelos nas mãos, enquanto as meninas que se tocassem, seriam enfeitiçadas pelas bruxas. Para evitar tais pecados, meninos e meninas costumavam tomar banho vestidos;
▪ No século 12 surgiu o “amor cortês”, onde o cavaleiro da corte levava o lenço da mulher amada. Era um amor platônico e infeliz, pois os casamentos eram arranjados e os apaixonados quase nunca ficavam juntos;
▪ No século 14, os médicos acreditavam que a fecundação só ocorria se o homem e a mulher obtivessem o orgasmo, e recomendavam como método contraceptivo, inibir o orgasmo;
▪ Estima-se que o cinto de castidade tenha sido inventado em 1405. Ele era feito de metal, com aberturas que permitiam a mulher urinar, mas não copular enquanto o senhor feudal viajava;
▪ No século 15 difundiu-se uma teoria de que o desejo sexual era influenciado pelos planetas, especialmente por Vênus;
▪ O amor romântico não incluía o sexo. No romance de Romeu e Julieta escrito por Shakespeare em 1562, os dois jovens morrem tentando viver um amor impossível. Nos grandes amores da literatura não eram descritas cenas de sexo. Se a Julieta encontrasse o Romeu transando com outra mulher e o Romeu lhe dissesse “não é o que você está pensando”, a frase faria sentido. Ou seja, “eu não amo ela (com quem estou transando) como amo você (Julieta)”!
▪ No Renascimento foram valorizados os desejos individuais. Nos relacionamentos entre casais, esperava-se que o homem fosse provedor das necessidades da casa e que a mulher fosse uma boa mãe e uma boa dona de casa. O amor não era importante nestas relações;
▪ A partir de 1760, com o início da Revolução Industrial e a ascenção do capitalismo, foram estimuladas as relações monogâmicas. Cada um deveria cuidar da sua casa e da sua família. O objetivo era fazer o trabalhador concentrar-se no trabalho para produzir mais. Foi consolidado o final de semana como tempo para o descanso e para o lazer;
▪ No século 20 ocorreram muitas transformações: a popularização da pílula nos anos 50, movimentos de minorias, feminismo, corpo exposto nas prograpagandas, igualdade entre homens e mulheres, liberação sexual, etc. Tudo isto mudou a maneira de ver o amor.
▪ No século 21 o amor e o sexo se apropriam da tecnologia. Difundem-se novas formas de relacionamento: namoro virtual, telesexo, sexo pela internet e outras formas aparentemente “inovadoras”, mas que na verdade são “conservadoras” e representam um retrocesso nas relações. Este tipo de relação se assemelha as relações do século 12, onde os amantes não ficavam juntos e o amor e sexo eram solitários.
Se considerarmos que o amor teria sido inventado há cerca 40 mil anos, nas cavernas, ou há cerca de 2.300 anos na antiga Grécia, percebemos que evoluímos muito nestes dois séculos, pós-revolução industrial e com as conquistas do século 20. Evoluímos muito, mas ainda hoje, quem ouve da pessoa amada um “não é o que você está pensando”, reage de forma primitiva e irracional, como os nossos antepassados. Nestas situações, a racionalidade só está presente na literatura, como no conto de Luis Fernando Veríssimo, em que o marido pega a esposa com outro na sua cama e, quando se prepara para quebrar a cara do traidor, este lhe apresenta o seguinte argumento: “se você me bater, eu vou reagir e nós dois vamos ficar machucados. Quanto mais brigarmos, maiores serão os estragos e mais gente ficará sabendo que você é corno. Mas, se você deixar eu sair sem violência, nunca mais voltarei aqui e ninguém ficará sabendo de nada. Depois você se acerta com a sua mulher”. O marido traído respira fundo e, sem apertar as mãos, diz: “negócio fechado”.
Luis Felipe Nascimento
Obs: Agradeço as contribuições do meu amigo Alfredo Culleton.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
O Moralismo da Rapaziada

– 18 de Janeiro de 2015
Téo – Armindo dos Santos de Sousa Teodósio (*)
É preciso avançar na compreensão da diferença entre ética e moral, para não se incorrer no moralismo na sociedade civil, em detrimento da ética. Os fundamentos da ética são a liberdade, a discussão democrática de valores no espaço público (esfera de direitos e deveres de todos) e o questionamento de valores tradicionais que possam não incorrer em efetivo benefício para a vida humana.
Moral remete a costumes, valores e tradições de um povo, que reproduzem noções de certo e errado, bem e mal, coletivamente definidas e que se reproduzem através de sanções contra aqueles que se desviam dos valores compartilhados. A Moral resulta em moralismo quando os códigos morais se tornam rígidos e limitam as liberdades.
Pode-se ter uma sociedade que seja moralista e pouco ética. Esse moralismo pode se expressar, por exemplo, na adoção de mecanismos controle social que viram fins em si mesmos e não alternativas para se ampliar a liberdade de discussão de ideias, métodos e propostas de viver bem coletivamente. Eles podem se tornar uma imposição ou mera obrigação e não um mecanismo de modernização social construído de forma compartilhada a partir de diferentes visões e debates efetivamente democráticos, inclusive com a liberdade para se questionar a própria ideia de controle social.
É matéria cara à ética o debate de ideias controversas e o conflito entre diferentes compreensões sobre o bem viver em coletividade. Cabe à sociedade civil, através de uma autocrítica sistemática, indagar se está caminhando para o apego cego a regras de boa conduta ou se está percorrendo bem sua trilha de dramas e tramas em direção às metas de liberdade, igualdade e inclusão social que a Ética exige das sociedades.
A modernização da sociedade traz as promessas de se superar o assistencialismo, o nepotismo, a baixa transparência institucional e o paternalismo nos projetos sociais. Isso não é tarefa fácil, simples, linear ou obtida pela simples adoção de boas práticas de conduta e, sobretudo, traz grandes conflitos para todos os envolvidos.
Trilhar o caminho da ética implica em lidar com conflitos, inerentes ao sue maior fundamento, a liberdade. Mas conflitos não são vistos como algo positivo na vida social atual, e sim como problemas. Com isso, caminha-se para o moralismo, em detrimento do avanço da ética. Você, querido leitor, por onde escolherá caminhar: pelo vale sereno do moralismo ou pelo caminho pedregoso da ética?
(*) Téo – Armindo dos Santos de Sousa Teodósio – é Professor na PUC-Minas.
Contato: armindo.teodosio@gmail.com

Largar tudo !

– 11 de Janeiro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
Em algum momento da sua vida, você não teve vontade de largar tudo e mudar de vida, de cidade ou até de país? Pois eu encontrei na Praia da Pipa, localizada a 85 km de Natal (RN), a maior concentração que já vi de gente que largou tudo! Me disseram que 95% dos negócios na Pipa são de gente de fora, e destes, um grande contingente é de estrangeiros.
Fiquei pensando: por que alguém larga o seu emprego na Europa, Estados Unidos, Austrália ou em qualquer outro país ou região do Brasil para ir trabalhar na Praia da Pipa? Conversei com alguns gaúchos que me disseram que largaram tudo para ir viver na Pipa. Dizem eles que tem tanto gaúcho que daria para formar um CTG na Pipa.
Mas afinal, o que significa “largar tudo”? Existem diferentes modalidades de “largar tudo”. Por exemplo:
▪ “Dar um tempo” – este é o caso do estudante que resolveu “fazer um mochilão” e viajar pelo mundo. Ele está apenas dando um tempo, trancando a sua faculdade e buscando novas experiências de vida. Ele pode voltar e dar continuidade a sua carreira.
▪ “Mudança” – caso típico de quem emigra para outro país ou se muda para outra cidade/região. As pessoas fazem isto visando melhorar de vida, ganhar mais dinheiro, subir na carreira, etc.
▪ “Abandonar uma carreira” – geralmente são pessoas com um bom emprego ou com um negócio que lhes estressa muito. Algumas vezes esta decisão está associada algum problema pessoal (separação, problema de saúde, algum trauma, etc).
Estas três modalidades englobam a maioria dos casos de “largar tudo”. A modalidade que mais me chama a atenção é a de abandonar uma carreira promissora. Já ouvi relatos de profissionais talentosos, nos mais diversos setores, que resolveram abandonar a sua carreira. Me pergunto, por que eles fazem isto? A resposta parece simples: eles buscam uma vida tranquila, sem estresse! Esta é uma parte da resposta, mas existem outras motivações. Analisando o pefil das pessoas que abandonaram a profissão/carreira/negócio, percebi que existem algumas similaridades:
▪ Elas largam o emprego/negócio e mudam seu estilo de vida. Portanto, não é um dar um tempo ou apenas uma mudança de endereço;
▪ Predomina a faixa etária de 30 a 40 anos;
▪ A maioria já possuía alguma reserva financeira ou imóveis;
▪ Procuram lugares agradáveis para morar, geralmente praias paradisíacas;
▪ Mesmo que tenham boa reserva financeira, não ficam sem fazer nada. Costumam usar o seu conhecimento e suas habilidades para empreender ou para trabalhar em atividades muito abaixo da sua capacidade;
▪ Os empreendedores criam o negócio dos seus sonhos, que geralmente está associado com suas habilidades. Na Pipa, tem a sorveteria do italiano, o restaurante do árabe, a pousada do fulano, etc;
▪ Mesmo em lugares paradisíacos, as pessoas trabalham duro, talvez mais horas do que no seu antigo trabalho, e ganham pouco;
▪ Quem empreende, não espera ficar rico ou ampliar a sua rede de restaurantes/sorveteria/pousadas, eles querem apenas viver e fazer pequenas melhorarias no seu negócio. Querem inovar no cardápio, fazer uma pequena reforma, etc;
Interessante observar o comportamento dos que largaram a profissão/carreira/negócio ao longo dos anos. Nos primeiros tempos, elas se sentem aliviadas e felizes por terem tomado tal decisão. Depois de uma meia dúzia de anos nesta nova vida, as pessoas se estruturam para ficar de verdade nos lugares que escolheram para viver. Compram casa, constituem família, levam a mãe para morar junto e outras coisas do tipo. Passados mais uns anos, depois de uns 15 a 20 anos longe da terra e do restante da família, parece que bate uma saudade retardada. Algo que dá uma vontade danada de voltar a terra natal. Quem passar por esta fase, não volta mais. Os que voltam, geralmente não se dão bem, pois muita coisa mudou nos dois lados. A família e os amigos estão muito diferentes. Quem volta, não é mais o mesmo. Se tentar retomar a antiga profissão, então é fracasso na certa!
Uma pessoa me disse que, quando alguém vai viver em lugares como a Praia da Pipa, a primeira coisa que precisa fazer é esquecer o que é pressa, prazos e eficiência. Quem largou tudo para ir viver lá, precisa saber que isto é semelhante as pessoas que entram nos programas de proteção a testemunhas, pois a pessoa terá que assumir uma nova identidade. Não precisará trocar de nome e se isolar dos amigos e da família, mas precisará esquecer alguns valores e o modo de vida que levava antes de largar tudo.
E os filhos? E se ficar doente? E a aposentadoria? Estas questões não são preocupações de quem larga tudo. Eles deixam a vida lhes levar. Coisa que é quase impossível para quem vive no mundo dos que “continuam com tudo”. Se é bom ou ruim, não sei! Mas o importante é saber que existem pessoas felizes vivendo de outra forma e que este nosso estilo de vida não é a única alternativa.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Tolerância

– 11 de Janeiro de 2015
Milton Campanario (*)
Escrevo sobre tolerância. Não sei o que aconteceu, mas a Claudia, minha mulher, liderou com amigos uma força cósmica pela minha recuperação de um acidente com fogo, que deu uma boa chamuscada. Tudo aconteceu ao lado da minha casa de praia, em Cambury. Fizeram-me acreditar em reza para mais bem tolerar o sofrimento. Deixei o meu ateísmo de lado. Escrevo a agradecer o apoio espiritual dos amigos e anjos. Mas há um contexto para tudo.
Ainda estudante da USP ia explorar, com colegas, o Litoral Norte de São Paulo. Praias idílicas como Cambury, Maresias, Toque-Toque, Paúba, Juqueí e outras acolhem o mergulho da serra no mar, fazendo recortes geográficos maravilhosos. Não havia a Rio-Santos. Para ir lá era na raça, atravessando pontes de madeira e riachos, estradas de barro e praias. No mais, ficávamos buscando aventuras nas pequenas vilas e na natureza, tomando banho pelado nas cachoeiras, descobrindo curiosidades locais. Afinal tínhamos como referência a irreverência de Woodstock.
Não sem frequência ficávamos hospedados em casas de taipa, comendo aquele peixinho feito na hora, mandioca, arroz e feijão. Por algumas vezes fomos até a praia de Trindade, em Parati, um destes paraísos brasileiros, destruídos na troca de terras dos caiçaras por geladeiras, fogões, móveis e outras quinquilharias. Não muito diferente do que ainda fazem com as comunidades indígenas. Os índios Guaranis em Boracéia, na Rio-Santos, ainda hoje esperam a demarcação pela FUNAI. São só quinhentos anos de atraso. Uma imoralidade que caracteriza a nossa desumanidade.
Casado, duas filhas e já de volta das aventuras acadêmicas no exterior, procuramos um local para construir nossa pequena casa de veraneio. Tinha que ser no Litoral Norte. Juntamos uma turma do IPT e da USP e cada um ficou com um lote na mesma rua, registrado na prefeitura e tudo o mais. Cambury era a praia alternativa, com lances de nudismo provocativo. Esta atração era simplesmente irresistível pela quebra de normas, a liberdade e o anarquismo que representava. Baleia e Barra do Say eram praias família, uma quadradura emoldurada nas curvas das praias e morros da Mata Atlântica. Minha geração tinha que quebrar protocolos. E assim Cambury foi eleita.
Por que toda esta introdução? Para vencer a dor dilacerante das queimaduras e o sofrimento de uma UTI por duas semanas há que ter tolerância. Tolerância à dor é possível, com a ajuda de nossos enfermeiros e médicos que trabalham arduamente. Ainda mais contando com a torcida de amigos. Mas, tolerar o acúmulo de entulho de jardim em frente da casa, o meu sonho de garoto, não dá. Not in my backyard.
Foi aí que o imbecil aqui resolveu botar fogo neste entulho, utilizando gasolina que respira e solta seu vapor incandescente que me pegou. Desculpem o reducionismo, mas o que houve de fato foi resultado de uma reação irracional minha para resolver as coisas que as nossas autoridades não resolvem. Mas, a culpa é da Prefeitura que deixa tudo para nós fazermos, mesmo pagando impostos e brigando contra a atitude de descuido, assistindo o descalabro nosso de cada dia.
Hoje este nosso litoral, de norte a sul, virou um entulho agressivo à natureza e às pessoas que ali residem. Inconformado com o descaso, eu e meus queridos vizinhos fazemos de tudo para arrumar as coisas, desde a retirada de entulho, a limpeza de ruas, a canalização, a drenagem e o fornecimento de água, até hoje irrigado com dutos privados. O saneamento está já construído, mas enterrado e sem uso há vinte anos pela SABESP. Os amigos locais, que vivem de mil e uma utilidades, armam uma associação da qual participo, com prazer, sem a presença dos condôminos de Maresias, agora famosa por conta do nosso campeão Medina, que desliza sublime sobre fractais indecifráveis.
O descaso da prefeitura é total. Uma Petrobras em miniatura. A coisa fica literalmente preta quando se adentra no Pronto Socorro de Boiçucanga no primeiro atendimento. A cena do Inferno de Dante está lá. Lá me arrancaram a pele queimada, com direito a pedido de desculpa das amáveis enfermeiras sobre as condições de trabalho. O intolerável foi ficar no Pronto Socorro local, justo ao lado de um gigantesco esqueleto de concreto há anos projetado para ser o hospital da região. De ambulância fui a São Paulo no Hospital dos Queimados. Ali tive coleguinhas na UTI, por acidente de trabalho, todos evitáveis se houvesse melhor prevenção. Claramente sofriam muito mais que eu. Quem sofre junto fica mais forte. Entendo melhor os grupos anônimos. Ajuda a tolerar.
Retido em um quarto sozinho para evitar a infecção, tinha como divertimento fazer contas de cabeça, pensar na vida, apreciar as ataduras e ver televisão, sem canais fechados funcionando. Mais uma pegadinha das operadoras de TV a cabo. Ler não dava devido ao peeling no rosto. Já viram Esquenta da Globo, no domingo a tarde? O Salvador Dalí ficaria com inveja das cenas surreais do espetáculo. Seguem o Faustão e o Fantástico, que ainda existem. Uma tortura para a qual não pode haver tolerância. Na segunda feira, começa a tarde uma sequencia de sete (digo 7) novelas, para terminar com Sexo e as Negas. Intolerável. A dramaturgia de novelas no Brasil é de ótima qualidade em si, mas aguentar sete em seguida é equivalente a um pau de arrara que a Comissão da Verdade passou por cima. Na falta do que fazer fiquei fã de Império, que mostra a psicopatia que cerca a gestão empresarial de nosso país. Belas interpretações em cima do capitalismo de rapina. Roubar diamante translúcido ou negro é a mesma coisa. Uma boa metáfora do autor.
Após muita reflexão, minha contribuição para as políticas públicas de saúde se resume a pedir um estoque maior de gaze ao Pronto Socorro de Boçucanga e proibir a Globo de transmitir tanta novela em sequencia, o que torna a vida dos internos um inferno. Mais que isto, mesmo sendo contra qualquer censura, eu eliminaria Esquenta, que só serve para dar inveja aos iluminados surreais. Queimado não suporta o nome deste programa. Intolerável.
Um abração aos amigos e boas festas neste triste final de 2014. Vou colocar um rock clássico para terminar a minha recuperação ao lado do filhote Lucas, que estava presente em meus pesadelos de Dante por estar perto e ter visto o que ocorreu na hora do acidente. Acima de tudo toleramos estas situações na certeza de ter muitas amizades acolhedoras.
(*) Milton Campanario, vulgo Tocha – é Professor na USP.
Contato: macampanario@uol.com.br
O Novo Umbigo do Mundo

– 4 de Janeiro de 2015
Luis Felipe Nascimento (*)
“Umbigo do Mundo” significa o centro do Mundo, para onde são atraídos os olhares, os astros, as personalidades, os ricos e os famosos. Ao longo da história já tivemos várias regiões que foram o umbigo do mundo.
▪ E hoje, qual região seria o “novo umbigo do mundo”?
Há quem diga que é a região logo acima do púbis do mundo!
▪ Ótimo, esta é daquelas respostas que não responde!
Falando sério, o antropólogo Gutierre Tibon (1905-1998) em suas pesquisas encontrou 27 lugares, nos quais os seus habitantes imaginavam que aquele lugar teria sido ou é o “umbigo do mundo”. Se ele tivesse continuado suas pesquisas, provavelmente descobriria o 28° lugar, o “novo umbigo do mundo”, que é a microrregião que liga as cidades de “Boa Vista do Buricá – Horizontina – Três de Maio – Santa Rosa”, localizada no interior do Rio Grande do Sul, distante cerca de 500 km de Porto Alegre.
▪ No extremo sul do Brasil, no interior do Rio Grande do Sul, há 500 km de Porto Alegre, isto pode ser outra parte do mundo, mas não o umbigo!
Veja bem! Emigrantes alemães, russos, italianos, japoneses e portugueses deixam a Europa para viver nesta região, por quê?
▪ Sei lá! Isto também ocorreu em outras regiões. E qual a conexão entre Santa Rosa e Horizontina?
Muito simples. Santa Rosa é o berço da soja e Horizontina o berço das colheitadeiras. A colheitadeira colhe a soja!
▪ Tá e daí? O que isto tem a ver com o umbigo do mundo?
Não muito, mas existe sim similaridades desta microrregião com os mais famosos umbigos do mundo, por exemplo:
O Oráculo de Delfos (Templo de Apolo) na Grécia. Neste local as sacerdotisas de Apolo faziam profecias em transes. Suspeita-se que os transes eram provocados por gases emitidos por uma fenda subterrânea ou pelo hábito de mascar folhas de louro. Por lá passavam peregrinos e pessoas famosas, entre elas Hércules, que foi consultar o Oráculo sobre o seu destino;
Cusco no Peru. “Qosco” na língua quéchua significa “umbigo do mundo”. A cidade foi a capital de dois impérios, o Inca e o Espanhol. Para não deixar a cabeça tonta na altitude de 2,6 mil metros, os Incas e visitantes bebem muito chá de coca e mastigam a folha, deixando aquele suco amargo descer pela garganta;
Jerusalém, Ilha da Páscoa e a Mina Mir (mina de diamante na Sibéria) são outros lugares conhecidos como umbigo do mundo. Todos eles atraem personalidades, aventureiros e peregrinos de muito longe. E, em alguns dos 27 umbigos, tinha alguma erva estranha que era ingerida pelos visitantes.
Na tal microrregião do Rio Grande do Sul se tem o hábito de tomar o chimarrão, que é um erva (estranha para muitos visitantes) e que resulta num suco amargo que desce pela garganta.
▪ Só por isto seria o novo umbigo do mundo?
Espere, esta região tem uma peculiaridade! Nenhuma outra microrregião do mundo fez tantas conexões com astros como esta. Me responda:
Qual é o melhor jogador de futebol de todos os tempos?
▪ Pelé! Menos para os argentinos;
Qual é o melhor piloto da Fórmula 1 de todos os tempos?
▪ Ayrton Senna! Menos para os argentinos;
Qual é o maior surfista de todos os tempos?
▪ Kelly Slater! Até para os argentinos! Ele foi 11 vezes campeão mundial de surfe;
Qual é um dos melhores quarterbacks do futebol americano de todos os tempos?
▪ Tom Brady! Ele continua jogando e batendo recordes. Joe Montana e outros já pararam.
Viu só, estes são os principais astros de quatro importantes modalidades do esporte mundial!
▪ Mas o que Pelé, Ayrton Senna, Kelly Slater e Tom Brady possuem em comum? O que eles tem a ver com tal microrregião do interior do RS?
Todos foram atraídos pela energia desta microrregião! Pelé e Ayrton Senna foram namorados de Xuxa, que nasceu em Santa Rosa. Kelly Slater é ex-namorado e Tom Brady o atual marido de Gisele Bündchen, que nasceu em Três de Maio e cresceu em Horizontina. Além destes astros do esporte, a Gisele ainda tem no seu currículo de ex-namorados os atores Rodrigo Santoro, Josh Hartnett e Leonardo DiCaprio e a Xuxa tem o Luciano Szafir.
▪ Caramba!!!
A energia da microrregião não foi só para atrair astros, mas também para produzir estrelas. A Gisele (34 anos) é considerada a modelo mais bonita, a mais rica e uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo. Com mais de 500 capas de revistas, ela só perde para a Princesa Diana (por enquanto!). Em 2014 Gisele ultrapassou o craque Neymar no ranking dos que mais aparecem em intervalos comerciais na TV aberta brasileira.
A Xuxa Meneghel (51 anos), conhecida como a “Rainha dos Baixinhos” foi um dos maiores ícones da TV Brasileira. Além de cantora, atriz, modelo e empresária, esteve na lista da Forbes como a 37º mais rica atração do show business internacional. Até então, nenhuma artista brasileira tinha conseguido ganhar 19 milhões de dólares num único ano. Fez carreira internacional com programas na Argentina e na Espanha. Foram mais de 2000 programas e 130 discos que venderam 18 milhões de cópias.
Leonardo Dicaprio e Tom Brady foram vistos nas ruas de Horizontina, cidade onde reside a família de Gisele. Os demais, se não foram até o oráculo da microrregião, usufruiram das suas energias.
▪ Será que ainda tem algumas Xuxas e Giseles por lá?
Quem conhece, diz que as mais bonitas ainda estão lá! Como diria Daniela Mercury: “Isso aqui é o umbigo do mundo, onde a beleza tem muitas caras, cores e raças…”
▪ E Boa Vista do Buricá?
Pois é… esta eu fico te devendo… não sei por que Boa Vista do Buricá apareceu nesta história!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Pintando o Sete

– 4 de Janeiro de 2015
Alfredo Culleton (*)
Vamos fazer aqui algumas digressões sobre o “número sete”, sem nenhuma fundamentação científica ou filosófica, apenas considerações. O número sete se tornou um tanto misterioso devido a frequência com que aparece no nosso quotidiano. Vemos que são sete os dias da semana, sete os pecados capitais, sete os sacramentos, sete as cores, sete as notas musicais, assim como são sete os ‘Considerandos’ na introdução à Declaração Universal do Direitos Humanos da ONU de 1948. Assim como no imaginário popular, os números seis e o treze são considerados números imperfeitos ou incompletos, já o número sete aparece como o número perfeito, completo e escolhido por Deus.
Algo semelhante acontece com o número “doze”: doze são as tribos de Israel, doze os discípulos, doze os meses do ano, as horas do dia, inclusive doze é uma unidade de medida: a dúzia. Esta unidade não tem nenhuma referencia objetiva, como poderia ter o número dez, pois são dez os dedos das mãos. A dúzia é extremamente incômoda para calcular. Mas o número doze, assim como o sete, nos fascinam.
A cultura ocidental é marcada pela tradição judaico-cristã que tem como fundamento da sua fé a revelação bíblica. Mesmo os que não se identificam com a religião, recebem a influencia da cultura e da tradição destes monoteísmos. Na tradição bíblica os números têm uma importância destacada, com muitos enigmas e interpretações para cada número. Ou seja, eles teriam um outro significado, que não o literal. Podemos nos perguntar qual o significado de Deus ter criado o mundo em sete dias? Por que são sete os pecados, assim como os sacramentos? Por que no Antigo Testamento o povo devia perdoar sete vezes e, no Novo Testamento são sete vezes sete? Por que são sete os anos de vacas magras e sete os de vacas gordas? Poderíamos continuar com muitas outras perguntas como estas.
De fato há um sentido especial nos números “sete” e “doze”. Na verdade, estes dois números resultam de operações com os números “três” e o “quatro”: somados (3+4=7) resultam no sete, e quando multiplicados um pelo outro (3×4=12), resultam no doze. Vejamos agora o sentido dos números três e quatro.
O número “três” nos remete a noção de espaço (largura-altura-profundidade). Nos lembra o universo incomensurável, ao Deus Trino, às três Pessoas da Trindade, à eternidade: presente-passado-futuro. Resumindo, refere ao que os antigos chamavam de supra-lunar, o que está para lá da Lua: o Uno, o Eterno e o Imutável. Já o número “quatro”, nos remete ao mundo sub-lunar: às quatro estações do ano, aos pontos cardiais, ao quadrado, ao par, ao limitado, ao que se fecha sobre si mesmo.
Portanto, o número “sete” reúne estas duas dimensões, a eterna e a temporal. Representa a união do perfeito com o imperfeito, buscando uma nova perfeição, um ciclo. Desta perspectiva entendemos mais claramente porque o seis é imperfeito, porque ele é incompleto. Satã, a Besta, no Apocalipse, é apresentado como o meia-meia-meia, a perfeição da imperfeição. Já o número treze pode ser visto como o excesso.
Certo é que os mistérios fascinam, e os números, por não terem nenhuma materialidade e ao mesmo tempo serem tão precisos e exatos, nos enchem de curiosidade. Podemos brincar com eles e relacioná-los às coisas da nossa vida dando a eles os mais diversos significados sociais, como por exemplo, o de que o número sete é um “número amigo”, pois ele nos lembra o descanso semanal, o encontro e a reflexão.
(*) Alfredo Culleton é Filósofo e Professor na UNISINOS.
Contato: alfredoculleton@hotmail.com
Desejos para 2015!

– 28 de dezembro de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Ao final de cada ano as videntes fazem as previsões para o próximo ano e cada um de nós faz a sua lista de desejos. Desde que a Mãe Dináh não conseguiu prever a sua morte em 2014, muita gente anda meio descrente das videntes, mas continua com a lista de desejos. Os meus desejos para 2014 foram quase todos atendidos. Vejam só:
– Que o Sarney se aposentasse (atendido);
– Que o Inter se classificasse para a Libertadores e que o Grêmio desse o seu melhor. Resultado: Inter classificado e Grêmio foi sétimo colocado – “deu o seu melhor!” (atendido);
– Que o Brasil fosse campeão mundial usando a sua habilidade com os pés. Este pedido não foi bem “entendido”, mas foi “atendido”. Obrigado Gabriel Medina, campeão mundial no Surfe;
– Que a justiça lavasse a sujeira deste país! E veio a operação “lava-jato” (parcialmente atendido);
– Que a COP 20 – Convenção das Mudanças Climáticas – tivesse sucesso. Pintou um “clima” de esperança para a COP 21 em Paris-2015 (parcialmente atendida);
– Que os líderes mundiais fizessem alguma coisa boa pelo Mundo. Além de ajudar o San Lorenzo, o Papa Chico intermediou a aproximação dos EUA e Cuba (atendido);
Mas, para que ninguém duvide de que os meus votos foram realmente feitos na virada do ano de 2013/2014, vou divulgar na virada de 2014/2015 os meus votos para 2015:
– Fazer exercícios físicos com regularidade;
– Emagrecer mediante uma reeducação alimentar;
– Encontrar os amigos com mais frequência;
– Dedicar mais tempo ao lazer;
– Ser mais eficaz, eficiente e efetivo no trabalho;
– Fazer a minha parte para melhorar o mundo;
– Lutar contra toda forma de preconceitos;
– Ser mais solidário;
– Escutar mais os outros;
– Que os leitores da Coluna Dominical sejam muito felizes e que tenham seus desejos atendidos.
Com todo o respeito a numerologia, astrologia e todas as ciências, crenças e religiões, “2015” é o 2º (= vinte) ano da “C-o-l-u-n-a D-o-m-i-n-i-c-a-l”, que tem 15 letras. Segundo a astrologia chinesa, 2015 é o ano do carneiro, que é imaginativo e criativo. Então, sendo imaginativo, podemos concluir que 2015 é o ano para ler a Coluna Dominical e que, se os meus desejos forem atendidos, os seus também serão! Agora, se você não acredita em nada disto, veja da seguinte forma: independente das condições, as coisas poderão dar certo ou errado para você em 2015, então, por que não acreditar e batalhar para que elas deem certo? Acredite, este é o ano, você vai bombar! (veja nossa mensagem caseira – https://www.youtube.com/watch?v=GW_5xUv0iyI ).
Um Feliz 2015 para todos nós!
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Obs 1: Obrigado amiga Neusa Cavedon pelas dicas para esta Coluna;
Obs 2: Leia “Ano Novo – Lentilha e roupa branca?” em http://luisfelipenascimento.net/?p=1416
Viagem a Los Roques

– 28 de Dez 2014
Ilse Maria Beuren(*)
Nas minhas últimas férias de verão procurei um destino para viajar. A condição de busca em sites era um destino que não tivesse um roteiro de compromissos de visitas e de horários programados. O alvo era algum lugar nas Américas, já que recentemente retornei de uma viagem da Europa que combinou interesses acadêmicos e turísticos.
Encontrei um local com este perfil bastante comentado em páginas sociais, Los Roques. Um arquipélago com cerca de 50 ilhas, no Mar do Caribe, a aproximadamente 170 quilômetros da costa note da Venezuela, declarado Parque Nacional em 1972. A ilha maior, denominada Gran Roque, abriga o aeroporto de acesso, para voos com aeronaves pequenas.
É um local ideal para pessoas que gostam de fazer mergulhos ou simplesmente apreciar as praias calmas, tomar banho de mar e aproveitar o sol. A beleza do local é indescritível, com areias brancas, um mar com águas cristalinas e fauna marinha em abundância. A natureza conservada, a beleza natural do arquipélago e a mansidão do entorno torna o local um paraíso.
As ilhas mais visitadas são Francisquí, Madrisquí e Crasquí. Diariamente pequenos barcos, seja de propriedade das pousadas ou barqueiros autônomos, levam os turistas de Gran Roque para ilhas do arquipélago. A distância varia, desde 10 minutos a uma hora, nada muito distante. O horário de retorno é informal, conforme combinado com o condutor do barco. Algumas ilhas tem ancoragem de grandes barcos particulares, com pessoas que vem praticar esportes dependentes de ventos e de águas rasas e límpidas como as do mar caribenho.
A diversidade de turistas do mundo todo que visitam Los Roques torna a ilha de Gran Roque poliglota e única. Suas ruas são todas de areia e o único veículo que nelas circula é o caminhão que recolhe o lixo. O transporte de mantimentos, materiais de mergulho e pesca, malas de turistas, entre outros objetos de uso dos moradores, é realizado com carregadores manuais de duas rodas.
A ilha é habitada por um pequeno povoado, com um número de pessoas e características das habitações definidos em lei. A igreja, a escola e o hospital foram dimensionados para atendimento dessa população. Não há muitas opções alternativas para algum programa diferente, seja durante o dia ou para diversão à noite, como um restaurante ou uma balada.
Não existem hotéis na ilha, apenas pousadas. Como a estrutura da ilha é simples e sem muitas alternativas, os visitantes contratam pensão completa nas pousadas, que inclui café da manhã, um lanche-almoço com bebidas que se leva acondicionado em proteção térmica para a praia. A principal refeição da pensão completa é servida à noite, entre 19 e 20 horas, para que os turistas possam se recolher aos seus aposentos cedo e recuperar as energias para o passeio do dia seguinte.
As opções de pousadas são variadas, desde aquelas mais simples, que custam fora de temporada em torno de 100 dólares, até as melhores, as com água quente para banho, que oscilam entre 300 a 500 dólares dia. Eu e meu marido ficamos hospedados na pousada La Cigala, tudo muito simples, mas limpo, com água quente para banho e as pessoas muito atenciosas conosco. Pagamos 300 dólares por dia, com pensão completa e os passeios diários de barco para outras ilhas incluídos.
As pousadas, em geral, oferecem o café da manhã entre 8 e 9 horas. Em seguida levam o lanche-almoço acondicionado em vasilhame térmico para o barco, conforme a programação comunicada pelo hóspede. Ao chegar na ilha de destino, o barqueiro deixa instalado na areia o guarda-sol e as cadeiras e deixa o vasilhame térmico ao seu lado. No final do dia recolhe tudo e leva o material para o barco, portanto, é de sua responsabilidade não fazer nada, apenas curtir sua folga.
A chegada ao aeroporto de Gran Roque já lhe diz tudo sobre a tranquilidade da ilha. Se desembarca em uma pista de pouso para pequenas aeronaves, tipo teco-teco, mas não há aeroporto, apenas um local que cobra uma taxa de 214 Bolívares Fuertes (Bs) por pessoa para ingressar no Parque Nacional. O check-in é feito em uma casa situada no meio do povoado, que fica distante da pista de embarque entre 5 a 10 minutos caminhando. Só se vai ao aeroporto quando se vê o comandante e a comissária de bordo passar, bem como o carrinho que leva as malas.
Do Brasil ao aeroporto da Venezuela a viagem foi com a Gol, cerca de cinco horas do aeroporto de Guarulhos, São Paulo, até o aeroporto de Maiquetia, Venezuela. A lógica de proximidade de ambos os aeroportos (Guarulhos / Maiquetia) da capital (São Paulo / Caracas) é a mesma. Em virtude do horário de chega em Maiquetia, às 15 horas no horário local, 17 horas no horário de verão do Brasil, não se consegue viajar no mesmo dia para Los Roques.
As informações sobre os riscos no aeroporto internacional de Maiquetia, seja ao fazer o câmbio ou ao tomar um táxi, levam as pessoas a contratar o transporte do hotel, disponível em alguns deles, como é o caso do Eurobuilding Express. Este hotel está estabelecido em Maiquetia, não muito distante do aeroporto. É um hotel bom, mas não é barato em se considerando que é apenas para dormir. No entanto, é uma opção frente ao medo de ter as malas roubadas no transporte para hotéis do entorno.
O embarque no dia seguinte para Los Roques é cedo, no aeroporto nacional, ao lado do internacional. Mesmo o hotel ficando próximo, é preciso chegar pelo menos duas horas antes no aeroporto. A instrução que nos passaram é que os voos tendem a sair no horário agendado, mas podem também ser facilmente cancelados, assim novas alternativas precisam ser encontradas para viajar. Entre as companhias aéreas se pode optar pela ChapiAir, Aerotuy ou LTA, pagando cerca de 70 dólares.
No Brasil não consegui comprar passagens nacionais da Venezuela. A alternativa que encontrei foi solicitar para a pousada comprar as passagens. Fiz uma transferência para a conta da proprietária da pousada pelo sistema paypal no valor de 300 dólares, para as passagens de Maiquetia/Los Roques/Maiquetia para mim e meu marido. Um alerta foi passado no sentido de não sair do aeroporto nacional para se deslocar ao internacional, a opção foi utilizar um corredor de acesso interno.
Além dos riscos inerentes a uma cidade do porte de Caracas, a situação instável da Venezuela tem contribuído para os diversos tipos de alerta para evitar problemas na viagem. O que chama atenção é a disparidade entre o câmbio oficial e o paralelo. No câmbio oficial 1 dólar = 6,80 Bs, no paralelo 1 dólar pode chegar a equivaler a 70 Bs. No entanto, não há outro meio de viajar do Brasil para Los Roques, sem passar pela Venezuela, isto é, se hospedar uma noite em Maiquetia ou Caracas.
Apesar das preocupações com a inevitável passagem por Caracas para chegar ao arquipélago de Los Roques, é uma viagem que recomendo a todos os que apreciam as maravilhas que natureza nos oferece. É um arquipélago muito diferente de outros do Mar do Caribe, por exemplo, Aruba, ele ainda guarda muito das suas origens, parece que parou no tempo. Embora lembre um pouco de Fernando de Noronha, no Brasil, possui particularidades distintas, que vale a pena conhecer.
Boa Leitura
(*) Ilse Maria Beuren é Professora na UFPR.
Contato: ilse.beuren@gmail.com
O que fazer e o que não fazer entre o Natal e o Ano Novo

– 21 dez 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Uma semana diferente, para alguns é férias “do” trabalho e para outros é férias “no” trabalho. Sim, quem trabalha entre o Natal e o Ano Novo, trabalha em ritmo de férias, pois neste período quase nada funciona no Brasil. Claro, você é uma exceção! Você vai fazer muita coisa importante nestes dias. O que você sugere para “fazer” e o “que não fazer” nesta semana? Algo a acrescentar ou retirar da lista a seguir?
O que fazer entre o Natal e o Ano Novo:
▪ Visitar os familiares no interior ou em outra cidade distante. Lá você vai poder dormir e comer bem, pois afinal, você é visita, veio de longe e teve um ano muito estressante! Geralmente o hóspede esquece que os donos da casa também tiveram um ano estressante e, em vez de descansar nestes dias, precisam hospedar o parente que imagina estar dando muito prazer com a sua visita;
▪ Ir para a praia. Esta semana é verão em todo o Brasil e, quem não mora na praia, sonha em ir para a praia. A primeira alternativa seria um bom hotel numa praia paradisíaca. Não sendo possível, uma pousada simples numa praia tranquila já agradaria. E, em último caso, amontoe-se na casa de algum parente ou amigo, repartindo um quarto com beliche com mais 5 pessoas. Não esqueça que alguém precisa fazer as compras, preparar a comida e dar uma limpada na casa. Embora você se sinta de férias, lembre os demais também estão em férias;
▪ Ficar em casa e ir passear no shopping. Infelizmente todos que ficaram na cidade tiveram a mesma ideia. Você vai ter que esperar na fila do estacionamento, na fila do caixa e até na fila do banheiro;
▪ Fazer faxina e concluir as tarefas atrasadas – esta é uma boa medida para ocupar esta semana, deixando você cansada e com a sensação de que cumpriu seus objetivos. Vai entrar o ano com tudo em ordem (pelo menos por uma semana!).
▪ Lavar o carro, polir o carro, equipar o carro, trocar de carro ou qualquer coisa relacionada ao carro, isto vai fazer você esquecer o resto e elevar a sua autoestima (se você for um apaixonado por carro);
▪ Se for estudante, concluir o artigo, dissertação ou tese que está atrasada. Se vestibulando, revisar toda a matéria nos dias que restam.
O que NÃO fazer entre o Natal e o Ano Novo:
▪ Iniciar uma nova atividade pensando em concluir antes do final do ano;
▪ Ir ao shopping trocar os presentes de Natal que não serviram;
▪ Fazer dieta com a esperança de perder as gordurinhas que ganhou ao longo do ano;
▪ Verificar o saldo bancário e analisar onde foi que você extrapolou o orçamento;
▪ Prometer para a pessoa amada ou para a família que no próximo Natal/próximas férias vai levá-los para tal lugar;
▪ Jurar que nunca mais vai acontecer o que ocorreu neste ano!
Em resumo, esta é a semana indicada para não fazer nada, mas se você insistir em fazer alguma coisa e não der certo, console-se, no final do próximo ano terás outra chance. Boa semana e Feliz Natal !!!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Não troco minha chupeta por nada!
Charge de Paula Izumi – designer e ilustradora.
Contato: correaapaula@gmail.com
Profissão do Futuro: Conhecimento !

– 14 de dezembro de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Quem viveu as últimas quatro ou cinco décadas vai lembrar das mudanças que ocorreram nas organizações e na atratividade das profissões. Por exemplo, nos anos 80, trabalhar num banco era o desejo de muitos jovens. Entrar no Banco do Brasil era sonho dos universitários! Estudantes dos últimos anos de engenharia largavam os seus cursos para trabalhar no Banco do Brasil. Os gerentes de bancos nas cidades do interior eram considerados autoridades, com importância semelhante ao padre, ao prefeito e ao médico. Na época da hiperinflação, existia uma agência bancária em cada esquina e elas se assemelhavam as lojas populares de hoje, com um exército de funcionários, alguns na porta de entrada disputando clientes. Hoje, as poucas agências bancárias que restam, possuem poucos funcionários e muitos espaços vazios. Trabalhar em banco deixou de ser o sonho de consumo dos jovens universitários.
A profissão de engenheiro já foi e deixou de ser atrativa ao longo das últimas décadas. Nos anos 70 os estudantes eram procurados pelas empresas que lhes ofereciam estágios e emprego antes mesmo deles concluírem os seus cursos. Depois veio a época em que se acreditava que o Brasil não precisava de engenheiros, pois as tecnologias e o desenvolvimento de produtos era todo feito nas matrizes, localizadas nos países desenvolvidos. Os engenheiros foram buscar emprego em outras áreas, pois pouco se fazia de engenharia no Brasil. Recentemente, tivemos uma nova onda de desenvolvimento e voltou a faltar engenheiros no mercado.
Assim como as profissões, grandes empresas multinacionais passaram por oscilações ou desapareceram. Na década de 80 ninguém poderia imaginar que a gigante IBM perderia o seu poderio. Seria como, hoje, alguém dizer que o Google ou a Apple irão fracassar em breve. Quem acreditaria numa previsão destas?
Apesar de sabermos que a economia alterna ciclos de crises com períodos de crescimento, e que isto influencia nas demandas por profissionais, continuamos falando que tais e tais profissões oferecem alta empregabilidade, que dão muito dinheiro, que tem muito futuro! Os pais e amigos recomendam ao vestibulando que se inscreva para tal curso pois esta profissão “paga muito bem”. O critério quase sempre é o quanto a pessoa poderá ganhar, não importando muito o que ela fará ou se tem afinidades com tal profissão.
Quem aconselha alguém a seguir uma profissão deveria ter mais cuidado e considerar que nos próximos anos vamos ter mudanças radicais. As atividades que podem ser substituídas por máquinas, desaparecerão. Atividades e profissões que sobrevivem hoje por força política de algum grupo, também desaparecerão. Não faz sentido situações como a da “placa” (direito de explorar o serviço) de um táxi valer várias vezes o valor do carro! Para ter um táxi nos aeroportos em São Paulo, o dono do táxi deve pagar cerca de R$ 800.000,00 pela placa, o que obriga os taxistas a trabalharem 16 horas por dia. Outro exemplo são alguns serviços dos cartórios. Um estrangeiro que morou no Brasil voltou para o seu país sem entender por que alguém que não lhe conhecia, podia reconhecer a sua assinatura e atestar para outra pessoa, que também não conhece, garantindo que ela é verdadeira! Nos EUA, um funcionário de um banco, ao olhar a ficha do seu cliente, tem poder para atestar que a assinatura do cliente em outro documento é semelhante a da sua ficha cadastral, e faz isto sem cobrar nada. Por que então temos que pagar para alguém dizer que a nossa assinatura é nossa? As assinaturas eletrônicas e outras tecnologias irão acabar em breve com este tipo de serviços.
Muitos dos universitários brasileiros de hoje trabalham 8 horas por dia e, depois que estão exaustos de uma jornada de trabalho e de mais algumas horas no trânsito, vão assistir aulas. Os professores ficam muito satisfeitos se conseguem manter os alunos acordados durante as aulas. Qual será o aprendizado destes alunos? Eles são jovens e obviamente usam os finais de semana para sua vida social. Qual o tempo que lhes resta para estudar e desenvolver a sua capacidade intelectual? Para se adequar a esta realidade, a maioria das faculdades reduziu a exigência e passou a formar profissionais sem o conhecimento necessário. Obviamente que ainda existem instituições mais exigentes e que oferecem um diploma mais valorizado no mercado. A tendência é que o “diploma” não ateste mais a capacidade do aluno egresso. A capacidade será medida pelos exames específicos das áreas de conhecimento. Ou seja, assim como os exames de conhecimento em línguas (TOEFL, IELTS, etc), da OAB ou de exames sobre temas específicos como a gestão de projetos (PMI), que é um exame internacional. O mercado quer saber se o egresso da faculdade “X” sabe tanto quanto o egresso de uma faculdade dos EUA, Europa, China ou Japão? Não importa se a faculdade é boa, cara ou famosa, o aluno terá que provar que tem conhecimento sobre o tema que irá trabalhar.
Resumindo, teremos nos próximos anos um exército de consumidores de tecnologias e de profissionais que só saberão apertar botões. Serão poucos os profissionais com alta capacidade intelectual, capazes de desenvolver tecnologias e resolverem problemas complexos. A profissão do futuro, é o conhecimento! Quem tiver conhecimento vai poder escolher onde deseja trabalhar e ganhar muito bem. Os demais, vão fazer as atividades que os competentes não querem fazer e que não podem ser feita por robôs.
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Escrever é um ótimo exercício
– 14 de dezembro de 2014
Roberto Guedes de Nonohay (*)
Quando recebi o convite (por sinal, muito bem vindo) para escrever um texto, pensei muito sobre o que poderia discutir nessas breves páginas. Muitos assuntos me vieram à cabeça. A questão da greve dos rodoviários, as obras da Copa, o temeroso cenário político atual, o jogo do time do Inter, e por aí vai. A verdade é que, apesar de todos serem interessantes, nenhum deles, de fato, me motivou o suficiente para escrever. Seria isso um caso de bloqueio criativo? Pode ser… Então, tentei outra maneira para encontrar um tema que fosse suficientemente interessante e que me motivasse para escrever sobre ele. Pensei não em um tema, mas no processo de redação e nos itens que um texto deveria ter, foi que me veio a ideia. Quis falar sobre a escrita em si. A sua importância não só para a vida profissional e pessoal, mas também para a saúde mental.
Saber escrever de forma correta, hoje em dia, é algo raro de se encontrar. Muitos alunos, em minhas disciplinas, têm muita dificuldade com a ortografia. Até seria possível entender muitos dos erros que vejo, como em um termo técnico ou em um que a pessoa não use com tanta frequência. Contudo, errar na escrita de palavras corriqueiras, e até mesmo em acentos agudos (sem nem falar nos circunflexos) é algo que não gostaria de ver, mas que encontro muito em provas e trabalhos. Por exemplo, certa vez corrigi uma redação cujo tema era justamente a importância da língua portuguesa, e que foi escrita em quatro parágrafos curtos (com, no máximo, três frases cada), em menos de 25 linhas e com 41 (isso mesmo, quarenta e um!) erros de ortografia.
Esse problema, atualmente, atinge não só alunos dos ensinos médio e superior, mas infelizmente também está presente em profissionais já graduados. Noutra vez, recebi um e-mail do diretor de uma grande empresa, com absurdos erros de português. A concordância era praticamente inexistente, e os erros de ortografia eram crassos. Outro caso foi em um e-mail vindo de uma advogada, onde a palavra “peço” foi redigida com duas letras “s” (sim, a advogada escreveu “pesso”). Estes, obviamente, não são os únicos casos. Anualmente, são mostrados casos parecidos em provas do ENEM, em petições judiciais e em outdoors e páginas de jornal. Não consigo conceber como isso pode acontecer! Antes de enviar um e-mail, sempre o reviso várias vezes, para garantir que não existam destes erros. Ainda, mesmo que o autor esteja com pressa, ainda seria possível utilizar o corretor ortográfico dos processadores de texto. Com certeza, isso não tomaria mais do que 5 minutos.
Acredito que isso seja não só decorrente de uma pesada herança de um sistema educacional básico falho, como em muitas escolas no Brasil, mas também da pressa em escrever. Quando vejo, em textos de alunos, que as vírgulas e pontos quase não aparecem, ou que cada frase contém duas ou três ideias diferentes, penso que todos estão com a mente tão assoberbada, pensando sempre em escrever o mais rápido possível, para poder responder o próximo e-mail ou a última mensagem recebida via Facebook ou WhatsApp, que a qualidade exigida para a redação de uma boa mensagem acaba esquecida e que acaba perdido o treinamento necessário para uma boa escrita.
Por isso, aceitei de muito bom grado o desafio de escrever este texto. Não sou perfeito, cometo algumas vezes alguns deslizes, mas treino o máximo possível para que eles não aconteçam, e para que eu consiga corrigi-los antes que eles cheguem ao seu destinatário. Acredito que, assim como a leitura, a escrita é um ótimo exercício para o cérebro. Devemos, para dissertar sobre um assunto, pensar em várias possibilidades ou cenários, e em como eles se relacionam com o tema central. Também convém que nos posicionemos frente a esse tema, e que reflitamos sobre ele, para dar uma opinião coerente, o que exige, no mínimo, a leitura e o entendimento de diversos pontos de vista, até que possamos formar o nosso. Sem contar com o fato de que escrever pode ser uma bela maneira de aliviar o estresse e de expressar emoções na forma de palavras.
Só nesse processo já utilizamos muitas áreas do cérebro, além de termos praticado o nosso entendimento da língua portuguesa. Atualmente, com os blogs, temos grandes ferramentas para praticar a escrita. Se todos escrevermos um texto, pelo menos uma vez por semana, na hora em que precisarmos escrever mais rápido, os erros serão menores. Ainda, muitos estudos relacionam o benefício da leitura com a saúde humana. Recentemente, um estudo comprovou que as pessoas que têm o hábito da leitura tendem a não sofrer tanto com os sintomas de doenças degenerativas, além de isto atrasar o desenvolvimento das mesmas.
Então, seja por “exercício cerebral” ou como uma maneira de evitarmos embaraços em mensagens profissionais e pessoais, fica aberto o convite para desenvolvermos nosso lado escritor, que muitas vezes fica latente durante anos ou mesmo uma vida inteira. É um ótimo passatempo, além de ser um belo treinamento.

(*) Roberto Nonohay é Professor Universitário.
Contato: nonohay@hotmail.com

Este é o Ano

– 7 dez 2014.
Hoje a coluna sugere que você esqueça o fracasso da Copa, a corrupção e tudo que lhe desagradou em 2014. Estou com sentimento de que em 2015 nós vamos bombar! Compartilhe esta mensagem e batalhe para que 2015 seja “o ano” da sua vida!
Feliz Natal e que venha o 2015.
Um abração
Felipe
Obs: Personalize esta mensagem usando as suas fotos ou apenas o áudio. Faça download do power-point que está com áudio sincronizado, ou apenas o áudio nos formatos mp3 e WAV, o vídeo e a letra da música com as cifras, tudo isto está disponível em http://luisfelipenascimento.net/?page_id=1682

Letra da Música “Este é o Ano” com as cifras
Letra: Luis Felipe Nascimento
Música: Adriana Lia Duarte dos Santos
———
Introdução: C G Dm F
C (Dó M)

Este é o ano

Prá estarmos juntos
G (Sol M)
Prá acolher
Dm (Ré m)
Prá fortalecer

F (Fá M) G (Sol M)
Vem com a gente
C (Dó M)
Vamos prá frente
C (Dó M)
Eu mais você

Seremos o quê?
G (Sol M) Dm (Ré m)
A mudança que queremos ver
F (Fá M)
Força e energia
Bb (Sib M)
Amor e alegria
F G C
Seremos o novo dia
C (Dó M)
Este é o ano

Vamos participar
G (Sol M)
Vamos transformar
Dm (Ré m)
Vamos compartilhar
F G C (Dó M)
Nós vamos bombar!
Os nossos são ladrões e os deles são tarados!

– 30 de novembro 2014
Luis Felipe Nascimento (*)

Mas que barbaridade este escândalo da Petrobrás, não é compadre?
▪ Uma vergonha! Será que um dia esta roubalheira vai acabar?
Eu acho que o Brasil tinha que fazer como aqueles países árabes em que cortam a mão de quem rouba.
Deus nos livre! Isto aqui iria virar uma país de manetas! Imagina os custos da Previdência com estes “inválidos”?
Verdade… coitado de quem não tem uma mão, seria confundido com político corrupto.
▪ E o que fazer então?
Pois é…. quem sabe um dia os políticos brasileiros vão seguir o exemplo dos japoneses, que quando se envolvem num escândalo, de tanta vergonha, cometem suicídio!
▪ Será que isto iria funcionar no Brasil? No Brasil é proibido divulgar os casos de suicídio, ninguém ficaria nem sabendo. Imagine o repórter perguntar pelo deputado fulano de tal e a sua assessoria responder: “Ele teve um mal súbito!”
Será que estes escândalos também acontecem nos países desenvolvidos?
▪ Olha, os escândalos nos EUA e Europa que eu me lembro, geralmente foram sexuais!
Sexuais?
▪ Sim, lembras do Bill Clinton com a Monica Lewinsky? E do Silvio Berlusconi com as meninas menores de 18 anos? E o Governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer que renunciou após revelaram que ele era cliente de uma rede de prostituição de luxo? E o Príncipe Charles que ….
Chega compadre! Já tô enjoado de lembrar destes pervertidos! Pelo menos os nossos políticos são ladrões, mas não são tarados como os deles!
▪ Pensando bem, não lembro de um político brasileiro ter renunciado por estar envolvido em algum escândalo sexual. Teve aquele caso do Itamar com a modelo sem calcinhas no carnaval do Rio, mas isto lhe rendeu mais prestígio do que desgaste!
Coitado do Itamar, nem sabia que a moça tinha esquecido de colocar as calcinhas!
▪ É mesmo, nossos políticos podem dar uma ou outra escapadinha, mas nada de escâaandalos como nestes países desenvolvidos!
Pois é compadre, graças a Deus o nosso problema é apenas o roubo!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Poesias do cotidiano

– 30 de novembro 2014
Neusa Rolita Cavedon (*)

Dia frio
Vento gelado
Corpo dobrado

Neblina
Imagem fugidia
Olhar de quem tem miopia

Lajota solta
Jovem tropeça
Do sonho desperta

Dia cinza
Cortina de água
Só sai fantasma

Ipê florido
Caminho colorido
Passageiro distraído

Algodão doce
Nuvem rosa
Céu da boca encosta

Casa pobre
Árvore nobre
Moleque dorme

No meio da calçada
Guarda-chuvas esquivos
Olhares furtivos

Janela com grade
Verde da árvore
Aula invade

Velho andarilho
Triste mendigo
Olhar sem brilho

Pássaro de latão
Céu azulão
Bolinhas de algodão

Comandante fala
Ninguém se abala
Preocupante é a mala

(*) Neusa Rolita Cavedon – é Professora na Escola de Administração da UFRGS
Contato: cavedon.neusa@gmail.com

Quanto você pagaria pelas suas emoções?

– 23 de novembro de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Nós sabemos o valor dos produtos e dos serviços, mas não estimamos o valor das nossas emoções. Quando você vai ao teatro, a um show ou ao futebol, vai em busca de emoções, certo? Você paga para ter a emoção esperada. Algumas vezes sai decepcionado e gostaria de receber o seu dinheiro de volta. Outras vezes o espetáculo supera a sua expectativa e você acha que valeu muito a pena, que saiu barato. Concordas? Então, seria mais adequado que o pagamento fosse feito ao sair de um evento como estes, onde o cliente pagaria pela emoção que sentiu, pela experiência agradável que o evento lhe proporcionou. Se não gostasse, não pagaria nada!
Isto é inviável? Ninguém pagaria? Todo mundo diria que não gostou, mesmo tendo gostado? Não é bem assim! Descobri que isto já é realidade em alguns lugares. O Projeto “Pague Quanto Vale” (http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/podcasts/962249-publico-decide-quanto-vale-show-no-teatro-da-vila.shtml ) no Teatro da Vila, em São Paulo, o público decide o valor do espetáculo. Um espetáculo de stand-up comedy em Barcelona, a entrada é livre, mas a pessoa paga US$ 0.38 por risada, sendo trinta dólares o valor máximo. Quanto mais ela ri, mais ela paga. Ou seja, o cliente paga pela emoção, pela experiência que teve ao longo do show. (http://www.washingtonpost.com/blogs/innovations/wp/2014/10/14/an-innovative-new-payment-model-thats-no-laughing-matter/).
Dar opção ao cliente para que ele pague o quanto acha que vale não é novidade. Em 2009 um restaurante espanhol já fazia isto. Os brasileiros que por lá passavam comentavam que isto nunca daria certo no Brasil. Na verdade, as pessoas são melhores do que imaginamos. Estas experiências já estão sendo implantadas no Brasil. Em 2011, ao queimar um estoque para encerrar a atividade, um empresário ofereceu livros nas “máquina de livros” no Metrô de São Paulo com a propostas de “pague quanto acha que vale”. As vendas aumentaram oito vezes e ele saiu do prejuízo.
O “Curto Café” (http://www.hypeness.com.br/2014/05/neste-cafe-no-rio-de-janeiro-voce-decide-quanto-paga/), localizado no centro do Rio de Janeiro, informa ao cliente a sua contabilidade do mês, deixando que o cliente determine quanto deseja pagar pelo café que tomou. Se o mês tá fechando muito positivo, o cliente tende a pagar menos, mas quando precisa, ele ajuda. Um restaurante chic em São Paulo está fazendo algo semelhante, deixando que o cliente atribua o valor aos pratos (http://vejasp.abril.com.br/materia/le-bou-novo-menu-cliente-paga-quanto-quiser ).
Portanto, geralmente os produtos e serviços produzem emoções que não correspondem diretamente ao valor pago. Afinal, quanto você pagaria pelas suas emoções? Quanto você pagaria para assistir um espetáculo que lhe faz chorar de emoção ou rir às gargalhadas? Qual o valor que você atribuiria aquele espetáculo inesquecível, que você achou o máximo? Imagine um valor, independente do fato de você ter ou não este dinheiro para pagar.
Fiquei feliz ao ver os comentários expressando as emoções que as pessoas sentiram ao assistir o vídeo (clip) com a música “Gene do Amor”, uma composição minha e da Adriana Santos. Alguns disseram que foram às lágrimas, outros dedicaram a música ao seu amor, compartilharam com os amigos, ficaram felizes, etc. O vídeo postado no meu blog, no Facebook, na Fanpage Coluna Dominical e no Youtube, em uma semana, teve mais de 1700 visualizações, mais de 200 compartilhamentos, com 84 comentários (veja comentários em anexo). Nós não compusemos “Gene do Amor” para ganhar dinheiro e nem queremos cobrar nada pelas emoções que as pessoas sentiram ao assistir o clip. Apenas como um exercício, pediria para você que assistiu o clip, atribuir um valor monetário para a emoção provocada ao ver este clip. Quanto seria? Mais ou menos do que o valor de um café? Mais ou menos do que o valor do estacionamento do carro ou do que o ingresso no cinema? Provavelmente ninguém saberá estimar o valor monetário da sua emoção, porque emoção…
Humm… e se usássemos outra moeda? Pagar a emoção recebida gerando emoção em outra pessoa! Mas, ao gerar emoção, também sentimos novas emoções. Logo, isto parece ser um grande negócio! Quanto mais emoção a pessoa gera em outras pessoas, mais emoções ela ganha, não é mesmo? Vamos imaginar um “emocionômetro”, um aparelho que mede o tamanho da emoção, e com ele poderíamos estimar as nossas emoções. Que tal você estimar o tamanho da emoção gerada em você pelo “Gene do Amor”, e doar esta emoção para quem precisa de um carinho e de uma emoção neste Natal? Você escolhe a forma de gerar esta emoção, que pode ser com a sua presença física num local onde tem pessoas precisando de carinho, ou por meio de um presente que gere emoções para as crianças carentes, para os velhinhos de um asilo ou para algum projeto legal. Faça isto ainda este ano, pode ser na sua cidade ou para qualquer lugar do Mundo, a solidariedade não tem fronteiras.
Se você não souber onde ir ou para quem doar, sugiro instituições como:
▪ Instituto do Câncer Infantil – http://www.ici-rs.org.br/como-ajudar
▪ SPAAN – Sociedade Porto-alegrense de auxilio aos necessitados – http://www.spaan.org.br
▪ Lar Santo Antônio dos excepcionais – http://www.larsantoantonio.com.br/doacoes.htm
▪ Projetos da Plataforma de Crowdfunding Catarse – http://catarse.me/pt/projects
Para que a sua ação estimule outras pessoas a fazer o mesmo, por favor, informe para nascimentolf@gmail.com a instituição que você visitou e/ou o valor que você doou . O seu nome será mantido no anonimato, mas a sua ação não. Ela vai se multiplicar quando outras pessoas souberem que alguém fez isto!
Obrigado a todos os amigos, bem como as pessoas que não tive ainda o prazer de conhecer, que curtiram, compartilharam e comentaram o “Gene do Amor”. Para quem ainda não assistiu, clique em https://www.youtube.com/watch?v=yD27a2LXnNQ .
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
84 Comentários do Gene do Amor (no Facebook e na Fanpage Coluna Dominical) – entre 15 – 22 nov 2014.
‪Adelaide Pustai‬‪ Inspirado!! Que bom viver um grande amor…‬
‪Alessandra Ceolin‬‪ Lindo. Adorei. Parabéns por essa linda composição Luis Felipe Nascimento‬
‪Alice Falleiro‬‪ Viva o amor!!‬
‪Aneliese Klering‬‪ Sem dúvida uma linda declaraçao de amor!!!‬
‪Ana Paula Labes Licodiedoff‬‪ Demais‬
Anna Tarcila Amantino‪ Muito lindo!!!!!!!!‬
Anna Tarcila Amantino‪ Parabéns´és um belo letrista‬
‪Anna Tarcila Amantino‬‪ Já comentei que é lindo, todos temos ou tivemos os nossos amores, e enquanto duraram fomos felizes.Sou muito româmatica sempre espero que os. amores sejam aternos.Casada há 53 anos e ainda sou romântica.‬
Andreia Morello compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Muitoooooo bom…..
‪Bruna Gomes‬‪ Feliiiiipe!! Demaaaais!! Que amor… *.* Adorei!! Parabéns pra vocês… Beijão!!‬
‪Camila Luconi Viana‬‪ Muito bom professor Luis Felipe !‬
‪Cecilia Pires‬‪ Criatividade a mil caro compadre! Lindo, delicado, emocionante, lúcido. Adorei! Cumprimentos aos autores!Abração grande Felipe.‬
Cid Alledi Filho compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
O hipersupermega criativo e multimídia Luis Felipe Nascimento no seu mais novo hit sobre o amor. Para os apaixonados e não apaixonados.
‪Debora Lira‬‪ Muito lindo! Amei.‬
‪Deise Luiza‬‪ Adorei Luis Felipe Nascimento! Parabéns!‬
Deise Luiza compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Porque acadêmicos, além de ciência, também fazem arte!
Letra do Prof. Luis Felipe Nascimento! Obrigada por compartilhar conosco!
Divulgando…
‪Denise Del Pra Machado‬‪ Luis Felipe Nascimento, é lindo!!!‬
Denise Del Pra Machado compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.Clip de um amigo, que compôs a música. Muito bonito!!!
‪Dilma Delaide‬‪ maravilhoso‬
Edith Sauer‪ Dlindo, ameiEliane Magnan compartilhou o vídeo de Coluna Dominical.‬
Adorei !!
‪Elizabeth Viana Amorim‬‪ Amei.♡♡‬
‪Eloina Caon‬‪ Que lindo !!!!!!!!!‬
‪Elza de Andrade‬‪ Legal Amatusa, carinhos fraternos.‬
‪Fabiola Gonçalves‬‪ Q jóia Luis Felipe Nascimento!!! Parabéns…. mais um dom…compositor!!! Abração‬
‪Fátima Elisabete Polimeno‬‪ Muito lindo.‬
‪Fernanda Reichert‬‪ Q maravilha!!!‬
‪Gabriela Pesce‬‪ Muito obrigada Felipe!! Adorei!‬
Gabriela Pinheiro‪ Que lindo professor Felipe!!! Parabéns‬
‪Genezy Borba‬‪ lindo ameii.‪‬‬
Giana Mores‪ Lindas palavras, prof. Luis!! Obrigada por compartilhar o vídeo. Parabéns pela dedicação neste trabalho! Grande abraços‬
Greice De Rossi‪ Muito lindoooo Luis Felipe Nascimento!‬
Guilherme Pustai‪ Muito bom o arranjo musical!!‬
‪Inez Martins‬‪ ‪Lindo!‬‬
Isadora Soeiro de Souza‪ Adorei ficou maravilhoso parabens tio gatinho‬
Luis Felipe Nascimento‪ Que bom saber isto, mas ainda é muito cedo para se apaixonar! Espere mais um pouco!!!!!‬
‪Jane Borondi de Brum‬‪ Sensacional!‬
‪Jane Borondi de Brum‬‪ Maravilhoso meu primo querido Luis Felipe Nascimento‬
Janice Helena Oliveira Dias compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Silvio, está é para você.
‪Halina Carnelosso‬‪ Que lindo muito emocionante !!!!!!‬
Katiane Roxo compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Muito bom mesmo!!!!
‪Kelly Spier‬‪ Sensível e especial! Obrigada.‪‬‬
Lafayette Luz‪ Obrigado!!! Mais um alinda produção do amigão multitarefa, multi-inspirado, e multi-inspirador, Luis Felipe Nascimento. Parabéns e um baita abração pros autores!!!‬
‪Lilia Mendes‬‪ Muito lindo, amei.‬
‪Lilian Regina Sartor‬‪ Muito lindo! De qual filme é a última cena? Parabéns pelo talento! Luis Felipe Nascimento, poeta!!!‬
‪Louise Freitas‬‪ q lindo…nem imaginava, parabéns!‬
‪Lucas Veiga‬‪ Muito bom Felipe. Um abração‬
‪Luciana Paula Adamatti‬‪ Muito lindo… Fiquei com os olhos rasos d´água…‬
‪Luciana Nunes‬‪ Linda música, Professor Luis Felipe Nascimento!!‬
‪Lucimar Carmo‬‪ Meu Deus q lindo…‬
‪Luis Alberto De Boni‬‪ Lindo, e trazendo à memória “Casablanca”,”E o vento levou”, dois dos filmes que sempre revejo!‬
‪Malu Braghirolli‬‪ Lindo!!!‬
‪Marco Antonio De Almeida Penna‬‪ Grato. Algo bom para mim neste momento.‬
‪Maria Da Conceição Menin‬‪ Adorei‬
Mário Schwarzer compartilhou o vídeo de Coluna Dominical.
FORÇA DO AMOR …
‪Marisa da Costa‬‪ Lindo . Adorei !!!‬
Maro Klein compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Viva o amor!
‪Marta Tocchetto‬‪ Bem lindo … verdadeiro mestre!! Parabéns Luis Felipe Nascimento e Adriana.‬
Milena Cavalli‪ Luis Felipe Nascimento! Show!!! Uma nova carreira se inicia!!‬
Milto Fronza compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Professor Sérgio Oliveira, “não sei porque” lembrei de você, O professor autor da letra é contemporânea dos tempos de Universidade Federal de Santa Maria
‪Myriam Brandão‬‪ Que vídeo lindo ! Adorei ! Valeu João Carlos .Abrssss‬
‪Natália Rohenkohl Do Canto‬‪ Que legal, Felipe! Parabéns pela música!‬
‪Noemia Antoniazzi Abaid‬‪ Lindo!‬
‪Olivanda Mesquita‬‪ · Amigo(a) de Socorro Mesquita‬
‪Ótimo!!!!‬
‪Paulo Korff‬‪ Eita musiquinha chata.‬
Paulo Meira compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Do Prof. Luis Felipe Nascimento, da UFRGS,
‪Patricia Tometich‬‪ Show! Vida longa à paixão!‬
Raíssa Silveira de Farias compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Amor! Amo você! com Guilherme Cassales
Rani Costa compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Vale a pena compartilhar! Viva o amor!
‪Rodrigo Santolin‬‪ Olá professor, meus parabéns pela letra. Eu já ouvi o som antes e gostei muito. Achei bem alto astral e divertido. A propósito, tenho acompanhado a tua trajetória musical, a primeira música e esta. Percebo uma evolução musical e uma tendência de melhoria continua. Continues assim que terás sucesso não só como professor, mas igualmente como músico. ehehe Abração‬
‪Rosângela Melgaço‬‪ Lindo!!!!‬
‪Rosita Heusi‬‪ Lindo..‬
‪Sandra Menezes‬‪ nossa sem comentario‬
Sara Giuliani Fattah compartilhou o vídeo de Coluna Dominical.
Emocionante
‪Schröeder Christine‬‪ Que bonito…‬
Silvia Generali da Costa compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Para os apaixonados de plantão…
‪Silvana Giacobo‬‪ Obrigada Luis Felipe,adorei! Como diz o poeta: “de amor estamos todos precisando…” Bj‬
‪Simone Leticia Raimundini Sanches‬‪ Sensacional! Simplesmente emocionante!!!!!!!!‬
‪Simone Sehnem‬‪ Muito bom Luis Felipe Nascimento! Abraços,‬
Socorro Mesquita‪ Inspirador!!‬
‪Socorro Mesquita‬‪ Parabéns!!!‬
Socorro Mesquita compartilhou o vídeo de Luis Felipe Nascimento.
Para os apaixonados…
‪Stefânia Ordovás de Almeida‬‪ Talentos múltiplos! Ficou muito inspirador! Parabéns!!‬
‪Suellen Moreira de Oliveira‬‪ Amei….lindo…….emocionei..parabéns‬
‪Suélen Zanotelli‬‪ Linda letra‬
‪Suely Melchior‬‪ Nossa tudo de bom esse video, amei, parabéns!‬
Susana Pereira‪ Linda!!! Não sabia que era compositor. Parabéns!!‬
‪Tereza Betania Lopes Bezerra‬‪ Adorei, lindo!‬
‪Valdelice Washington‬‪ Washington Valdelice‬
Valéria Da Veiga Dias‪ Lindooo professor!!!
‪‬‬
Vania Oliveira‪ Amei‬
Vera Mazza‪ Lindo professor!! Parabéns!! Abraço‬
Cinema e música boa, achei a tua cara Aninha!! Bjão saudades
Vera Mazza shared a vídeo to Branca Mazza‘s timeline.
Olha que lindo mana!! Bjos
Soltando as mãos
– 23 de novembro de 2014
Gabriela Ferreira (*)
Hoje, pela primeira vez, soltei as duas mãos ao andar de bicicleta. Pedalar segurando-se com apenas uma mão é fácil, embora seja até incômodo. Uma mão no guidão e a outra livre: é o que conseguimos fazer, na ilusão de que seja grande coisa. A liberdade de um lado; a garantia do controle do outro. E seguimos sempre invejando quem passa por nós guiando o veículo apenas com o equilíbrio do corpo. Como conseguem fazê-lo, e parecendo tão fácil?
Mas hoje eu soltei as duas mãos. Desafio, medo, conquista. Uma sequência de sentimentos em poucos segundos. Felicidade, muita. E um tanto de vergonha de ser infantil no meio da rua, na frente dos outros. Mas é disso o que precisamos, não? O desprendimento das crianças para encarar o desconhecido, para tentar o que nunca foi feito.
Somos movidos por desafios, embora às vezes fujamos deles. Uns mais, outros menos, somos todos instigados pelo que parece impossível. Como lidamos com isso é que pode variar: pânico, recuo, motivação para seguir em frente. Não fazia parte das minhas “coisas a fazer antes de morrer” mas, pedalando, de repente, surgiu a dúvida: será que consigo soltar as mãos? E a vontade de arriscar se apresentou.
Temos medo. De cair, de nos machucar, de passar vergonha, de falhar e também de desistir. Temer faz parte do processo, só não pode nos impedir de ir adiante. Nessa hora senti medo só da vergonha – imaginem me estatelar no chão? Mas cair seria a consequência, e quem condenaria alguém querendo esticar seus limites? E, sem muito pensamento, lá fui eu me superar. E essa é sempre a melhor das disputas.
A conquista vem pra quem aceita os desafios e ultrapassa o medo. É a recompensa de quem se atreve, mas, principalmente, de quem se permite a possibilidade de errar. Sim, nem sempre o resultado é o esperado e aí vale a dica: precisamos dar espaço ao imprevisto, pois tudo pode acontecer quando soltamos as mãos.
A experiência da bicicleta é muito simples, mas de grande simbolismo. Hoje eu andei poucos metros, mas quero mais. Por enquanto andei em pista fácil, mas estou curiosa por outros terrenos. E só penso em soltar a mãos.
(*) Gabriela Cardozo Ferreira é professora na PUCRS.
Contato: gabi.cardozoferreira@gmail.com
Gene do Amor

– 16 Nov 2014
Luis Felipe Nascimento(*)
Adriana Lia Duarte dos Santos(**)
Hoje a Coluna Dominical publica uma canção composta em parceria com a minha amiga Adriana Santos.
Todos nós já vivemos, estamos vivendo ou sonhamos em viver um grande amor.
Para você não esquecer deste amor, compusemos “Gene do Amor”, um clip de 3 minutos, em que uma história de amor que é ilustrada pelos grandes amores da história do cinema. E, se você achar que esta canção reforça o que temos de bom, compartilhe com seus amigos. Confira em http://luisfelipenascimento.net/?page_id=33
Abraços
Felipe e Adriana.
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração na UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
(**) Adriana Lia Duarte dos Santos é professora de música
Contato: liasantosd@gmail.com
Como será o seu mundo sem você ?

– 9 de novembro de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Você é uma pessoa importante para a sua família? Importante para os seus amigos? Importante para a sociedade? Importante para o Mundo? Claro que é! Todos somos importantes para alguém. Alguém precisa de nós, sejam nossos filhos, nossos pais, nossos amigos, o cachorro, o gato ou as folhagens.
Tudo o que você faz parece importante, urgente ou fundamental para a sua sobrevivência e para a dos demais. Quantas vezes você se sentiu “imprescindível” no seu trabalho? Em determinadas situações familiares, você é “o cara” para resolver aquele problema. A sensação de que somos importantes para alguém e o medo do futuro são as forças que nos movem. Fomos educados a nos preocupar com o futuro, a estudar para ter um futuro melhor, a fazer uma poupança para o futuro ou fazer um plano de aposentadoria privada. Nos preocupamos muito mais com o futuro do que com o presente.
Quando tratamos do presente, não fazemos isto para viver este momento da melhor forma possível, mas sim preocupados com os impactos do presente sobre o futuro. Quantas vezes você já disse “não posso agora, estou fazendo algo para amanhã”. Preciso trabalhar duro hoje para ter direito a férias e aposentadoria. O cotidiano também evidencia a importância dada a cada coisa. Se você estiver arrumando a casa ou fazendo qualquer outra tarefa, e for chamado pelo seu filho ou pela sua mãe para sentar juntos no sofá e assistir alguma coisa que está passando na TV, provavelmente dirá que está ocupado. Logo, a sua tarefa é mais importante do que aquele pedido.
E as suas coisas, aqueles objetos que você adquiriu e os cuida com tanto zelo? Sabe o vaso aquele que trouxe não sei de onde? E os cristais que eram da sua avó? E o sofá, o tapete, a cadeira que custaram uma fortuna? Deus nos livre alguém estraga-los. Imagine emprestar aquela roupa ou os sapatos que você adora e voltarem estragados? Um desastre! Tudo isto tem a importância que você atribuir a estes objetos.
Sem dúvidas que o futuro e a preservação dos bens materiais são importantes, mas talvez estejamos exagerando na dose. Nós e nossos bens somos importantes, mas muito menos do que imaginamos. Para verificar isto, imagine um cenário de como será o seu mundo, sem você, 5 anos após a sua morte?
▪ Como estaria vivendo sua família sem você?
▪ Como teria sido equacionada a questão financeira da família?
▪ Com estariam os seus amigos sem você?
▪ Como estariam sendo resolvidas aquelas tarefas que “só você” é capaz de fazer na sua casa ou no seu trabalho?
▪ Como estariam as pessoas, animais e plantas que dependiam de você?
▪ O que teria acontecido com todas as suas roupas, sapatos, objetos tão valiosos e que hoje lhe causam tantas preocupações?
Moral da história, tudo o que outra pessoa pode fazer no seu lugar, não é tão importante. Alguém pode arrumar a casa, fazer a comida, educar o seu filho, fazer o seu trabalho, cuidar do seu cachorro! Mas, ninguém conseguirá dar o seu sorriso, falar com as pessoas como você fala, escrever o que você escreve, cantar/dançar/jogar/… como você, abraçar os seus familiares e amigos, como você os abraça. O importante é aquilo que você é na essência e o que você transmite para os outros. O resto vai logo virar pó ou será esquecido. “Como será o seu mundo sem você?” não é uma pergunta para mostrar a nossa insignificância, mas para nos questionar se o que estamos fazendo hoje é significante, se faz sentido para nós e para os outros.
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Tempo, tempo, tempo …

– 9 de novembro de 2014
Marta Tocchetto (*)
A cada ano que se inicia fazemos muitas promessas e estabelecemos novos propósitos. Porém, frequentemente essas promessas são quebradas à medida que o tempo vai passando.
Ontem conversei com uma amiga que encontro apenas uma vez por ano, devido a intensa atividade do dia-dia. Depois deste encontro casual fiquei pensando sobre minhas promessas, dentre as quais estava encontrar com mais frequência esta amiga.
Existem pessoas que sempre se mostram disponíveis. Disponíveis até demais. Não recusam novos convites. Estão sempre assoberbadas de compromissos e atividades. Eu sei e acredito que dizer é sempre uma tarefa difícil.
Há outras que sempre impõem uma série de restrições para assumir novos afazeres. Difícil dizer o que é melhor ou o que é pior. A diferença pode ser uma questão de estilo pessoal ou até uma imposição social. Sempre ouvi dizer que quando precisamos que algo se realize, a gente deve atribuir a quem tem bastante coisas para fazer. Caso contrário, dar a tarefa para alguém que tem poucas coisas a fazer, a chance de não ver o trabalho concluído é grande, porque como sempre há tempo de sobra, o adiamento é inevitável.
Pessoas com muitas atividades geralmente, são mais pró-ativas. Este tipo de pessoa evita, como se diz popularmente “correr atrás da máquina” ou “ficar apagando incêndios”. É importante a antecipação aos problemas, o planejamento de estratégias para que os objetivos sejam atingidos. E quando falamos em pró-atividade, saber planejar o tempo é fundamental.
Alguns animais como, os ursos-polares dividem seu tempo em hibernar, por praticamente seis meses, e a outra metade para procriar, explorar novos lugares, se alimentar e cuidar dos filhotes. Outros como os babuínos, passam cerca de um terço do seu tempo dormindo, e quando acordam dividem o seu tempo entre encontrar alimento, viajar e momentos de lazer, que basicamente consiste na interação ou em catar pulgas nos pelos uns dos outros.
E como nós gerenciamos nosso tempo? Bem mais fácil seria ser um babuíno ou mesmo um urso. O desafio para nós homens, consiste em sabermos usar o tempo com qualidade a serviço de nós mesmos e dos que nos cercam, por mais limitado ou escasso que seja.
Comumente dizemos:
– queria que o dia tivesse no mínimo 48 horas para fazer tudo o que preciso e para cumprir com todos os compromissos;
– não vejo hora de tirar férias e dormir, dormir, dormir;
– queria ter mais tempo para minha família;
– se eu tivesse mais tempo faria um curso, iria viajar, ler um livro, ir mais ao cinema, fazer uma atividade física.
Enfim, queixar-se da falta de tempo é uma consequência da vida moderna. Frequentemente essas e outras oportunidades aparecem e, por falta de saber planejar e gerenciar o tempo, elas acabam se perdendo e continuamos nos queixando das dificuldades para concretizá-las. E quase sempre, a justificativa é a mesma “por falta de tempo”.
É preciso termos consciência que se não assumirmos os espaços que surgem, outros o farão. Precisamos ser efetivos e eficientes. Para sermos efetivos é preciso planejar. É preciso, sobretudo, equilíbrio. Assim, faz-se necessário o estabelecimento de prioridades. Priorizar significa hierarquizar, estabelecer grau de importância, ou seja, representa fazer escolhas. A priorização de alguma atividade em detrimento de outra certamente abrirá lacunas e deixará algumas áreas a descoberto. É o risco das escolhas, porém o planejamento é a forma de minimiza-lo.
De acordo com alguns modelos para um melhor gerenciamento do tempo, como o estabelecido por Seiwert1, podemos equilibrar a nossa vida considerando quatro grandes áreas principais:
Corpo: saúde, nutrição, descanso, descontração, condicionamento físico.
Desempenho, trabalho: carreira, dinheiro, bem estar, sucesso.
Contato: amigos, família.
Sentido: satisfação, filosofia, amor, religião, planos para o futuro.
Estabelecer o equilíbrio, dividir com equidade as áreas, muitas vezes, é difícil, em virtude de vivermos numa sociedade que prioriza mais o ter do que o ser. Assim, é comum a priorização da carreira, do dinheiro, do sucesso em vez do convívio com a família e com os amigos. E como fazer para encontrar este equilíbrio?
As respostas exigem novas atitudes diante da vida. Exigem o estabelecimento de valores para o que nos cerca. Exigem uma ressignificação do que realmente tem importância. A definição de prioridades e o planejamento do tempo asseguram a intensidade e a qualidade com que os momentos serão vivenciados. Muitas vezes para isso é necessário aprender a dizer não. Dizer não para os sacrifícios desnecessários e para aqueles que comprometerão nossos propósitos e o sentido da nossa vida.
(*) Marta Tocchetto é professora na Universidade Federal de Santa Maria, RS.
Contato: marta@tocchetto.com
obs: texto originalmente publicado no livro “Lia, mas não escrevia: contos, crônicas e poesias”, p. 177-178.
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[1] Seiwert, L. J. Se tiver pressa, ande devagar. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004.
O povo mais bonito do mundo!

– 2 de novembro de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Qual seria o povo mais bonito do mundo? Na sua opinião, quais são os cinco povos mais bonitos? Uma pesquisa com 5000 britânicos indicou os cinco países com os povos mais bonitos, na seguinte ordem: Estados Unidos, Brasil, Espanha, Austrália e Itália. Você concorda com esta indicação?
Ao falar em beleza, é necessário deixar claro que o “padrão de beleza” atual foi inventado pelo comércio da moda e vendido pela mídia. Este padrão tende a escravizar a maioria, pois de cada 1000 pessoas, apenas 1 atende ao padrão e as outras 999 estarão fora, e muitas querendo estar dentro. Neste padrão, as mulheres devem ser magras, os homens musculosos e ambos devem permanecer sempre jovens e bonitos. Parece que todos fomos produzidos pela mesma máquina e que precisamos lapidar nossos corpos para nos tornarmos o mais parecido possível com o modelo padrão.
Você certamente já ouviu a expressão de que “não existe gente feia, existem pessoas mal arrumadas”. Pois bem, vamos analisar alguns aspectos que influenciam no padrão de beleza do presente e que poderão influenciar nos padrões do futuro.
▪ Consumo de perfumaria e cosméticos – significa que o povo se preocupa com o seu embelezamento, cuidados com a pele, cabelos, etc.
Nos últimos anos, a indústria brasileira de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos cresceu 10% ao ano, contra cerca de 3% do PIB. O consumo interno no Brasil, em relação ao consumo global, ocupa o primeiro lugar em perfumaria e desodorantes, a segunda posição em produtos para cabelos, proteção solar, produtos masculinos, e a terceira posição em cosméticos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e Japão.
Academias de ginástica – entre 2006 e 2012, o número de alunos no Brasil dobrou e o número de academias triplicou. Em número de academias, o Brasil só perde para os EUA, mas é o primeiro colocado na relação academias per capita. Em 2012 eram 6,7 milhões de pessoas se exercitando, e as academias vislumbram um mercado potencial de 100 milhões de clientes.
Cirurgia plástica estética – o Brasil é líder mundial. Cirurgias que vão da correção da orelha de abano até colocar próteses nos glúteos. A cirurgia mais praticada é a lipoaspiração.
Miscigenação de índios, portugueses, negros, espanhóis, alemães, italianos, poloneses, ucranianos e povos asiáticos e do oriente médio, formou o povo brasileiro. Muitos outros países no mundo receberam imigrantes, mas não conseguiram promover a mesma miscigenação. Nestes países, as etnias preservam suas tradições, língua e religião, sem se misturar com as demais.
Outros critérios poderiam ser considerados, mas estes quatro apresentados, já demonstram que o Brasil está em destaque. O Brasil é um país com dimensões continentais, que fala a mesma língua, sem conflitos internos e que apresenta unidade na diversidade. Aqui tem negro de olho verde, tem alemão casado com indígena, judeu com árabe, etc.
A rede de TV americana CNN já elegeu o povo brasileiro como o mais simpático do mundo, talvez no futuro também o eleja como o povo mais bonito!
Por outro lado, são preocupantes os padrões de beleza que surgiram nos últimos anos, como o padrão das “mulheres frutas”. Gloria Kalil diz que atualmente existem três tipos de padrões: a “miss”, a “modelo” e a “mulherão”. O padrão miss continua sendo o de Ieda Maria Vargas, que foi miss universo em 1963. Este padrão não sofreu mudanças. O padrão modelo hoje é Gisele Bundchen e o de mulherão é representado por Valesca Popozuda.
Qual será o próximo padrão de beleza? Num país com tanta diversidade, faz sentido ter “um padrão” de beleza? O Brasil já exportou modelos como Gisele Bundchen e Rodrigo Santoro, não poderia desenvolver e exportar o padrão de beleza amazônica? Por que não valorizar a beleza do homem pantaneiro, da mulher nordestina, do negro ou do japonês “made in Brazil”?
Além de exportar jogadores de futebol, o Brasil poderá exportar modelos de beleza para o mundo. Pode escrever, ainda vamos ver Hollywood e o mercado da moda contratando nossos filhos e netos!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Somos todos vira-latas ?

– 2 de novembro de 2014
Werno Edwin Lunge(*)
A expressão, cunhada por Nelson Rodrigues, de “Complexo de vira-latas”, na década de 50, parece que foi definitivamente incorporada por nós brasileiros. É óbvio que nosso desenvolvimento está muito aquém de nações, principalmente as da Europa Ocidental, Norte-americanas e algumas da Ásia mas, daí a nos considerarmos os últimos do planeta vai uma longa distância.
Somos uma nação nova com todos os problemas da miscigenação, assim como a explosão demográfica, com todas as suas consequências. Só para termos uma ideia, a nossa população na virada dos séculos XIX para o XX era cerca de 17 milhões, hoje 200 milhões, ou crescimento de 11,35 vezes, enquanto a França cresceu de 38 milhões para 65 milhões e a Alemanha de 56 milhões para 81 milhões.
Por outro lado, queixamo-nos de que os impostos no Brasil são muito elevados quando comparados com os demais países. Os impostos no Brasil não são muito elevados, mas muito mal distribuídos. A carga tributária recai praticamente sobre o assalariado e o consumo. Onde está o pobre? Podemos exemplificar. O imposto de renda aqui, já é cobrado quando atinge, vejam só, 2,5 salários mínimos, aos R$ 4.000,00 já se desconta 27,5% e este é o teto. Teto nos países desenvolvidos ficam em torno de 50%. Na França chega a estratosféricos 75% , quando o rendimento anual ultrapassa um milhão de euros (lembram do caso Gerard Depardieu?). Outra fonte fortemente gravada nos países desenvolvidos é o patrimônio. As alíquotas são progressivas e, em caso de sucessão (morte, por exemplo) e o este for muito expressivo, os impostos vão às alturas. Aqui, são muito baixos, para não dizer irrisórios.
Temos que considerar, também, as dimensões continentais de nosso país, além do que, aqui está tudo por fazer. Geralmente nos comparamos com países pequenos, desenvolvidos e todo o sistema básico e, muito mais, já feito. Tomemos como exemplo a Bélgica que tem um território pouco maior do que a nossa Lagoa dos Patos (30.000 Km2 x 27.000 Km2), população praticamente igual ao Rio Grande do Sul. Pois bem, ela tem uma arrecadação de tributos de quase 1/3 da do Brasil.
Para finalizar, trazemos cargas tributárias “per capita” de alguns países a fim de que possamos comparar. Brasil US$ 4,400.00; Bélgica 24,000.00; Canadá 16,000.00; Dinamarca 32,000.00; Noruega 39,000.00; México 2,800,00; Argentina 4,400.00; Estados Unidos 12,800.00. Valores meramente indicativos, pois se modificam ano a ano, além de outras variáveis a serem consideradas, mas servem para termos uma noção.
Não, não somos vira-latas. Temos muito o que fazer. Acreditamos na força do nosso povo e na sua união, pois toda mudança ocorre basicamente de baixo para cima e não ao contrário. Repetimos aqui as palavras de Kennedy, quando presidente dos EUA: “Não pergunte o que a nação possa fazer por ti, pergunte o que podes fazer por ela.
(*) Werno Edwin Lunge é Administrador de Empresas.
Contato: wlunge@terra.com.br
Quanto custa?

– 26 de outubro de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Quando o consumidor vai comprar um produto, ele quer saber “quanto custa?”. Ao saber o preço, avalia se aquele valor é justo, se vale a pena ou se está muito caro. Com que critérios faz esta avaliação? Ora, basta comparar com o preço de um produto similar, ou do mesmo produto em outro local. Não é assim que funciona?
Não precisamos ser especialistas para saber que no custo dos produtos está embutido o valor da matéria-prima, mão-de-obra, energia, transporte, embalagem, os impostos e obviamente que uma parte é o lucro de quem produziu e de quem vendeu. Geralmente o produtor vende para um distribuidor, que vende para um atacadista, que vende para um comerciante, que vende para o consumidor. Cada um deles ganha um pouco, sendo que quem mais ganha é o comerciante, e quem menos ganha é o produtor. Assim funciona nossa economia!
Certamente você soube de casos de empresas que fecharam as portas no Brasil, ou reduziram muito sua produção aqui, para comprar da China. O argumento é simples: “Lá custa muito mais barato!” O “Custo Brasil” é muito grande! Se continuarmos produzindo aqui vamos quebrar, blá, blá, blá. Este é um discurso comum e muito bem aceito. Dizem que os produtos feitos na China são baratos porque lá tem mão de obra escrava, que as empresas poluem muito o meio ambiente, … Humm! Mas isto é problema deles. Fabricado no Brasil ou na China, quem se importa? Nós queremos é produtos baratos!
Conheci duas empresas que trabalham de forma diferente da maioria, e são lucrativas, apesar de produzirem no Brasil e de terem custos de produção mais altos. Além disto, elas assumiram espontaneamente compromissos éticos, valorizam os seus colaboradores, preservam o meio ambiente e de fazem coisas que outras empresas dizem que fazem, mas não fazem. O mais curioso, é que estas duas empresas não fazem propaganda, não investem em marketing! Você deve estar pensando: “Como assim? Como os consumidores vão conhecer e comprar os produtos sem a propaganda?” Pois é, a Mercur e a VERT são diferentes!
A Mercur é uma empresa que produz a famosa borrachinha de apagar, material escolar e tem também a linha de produtos para a saúde: bolsas de água quente, bolas para a prática de Pilates, bengalas, etc. Esta empresa é de Santa Cruz do Sul, e nos últimos anos mudou a sua estratégia e resolveu trabalhar para ajudar os clientes a resolverem os seus problemas. Ela não quer vender produtos que o cliente não precisa, e nem usar estratégias para enganar o cliente. Por exemplo, no passado, ela vendia o mesmo tubo de cola, que com a marca Mercur custava “X”, e outro com a figura do Mickey na embalagem, que custava o triplo. Adivinhe qual que as crianças queriam? Isto é uma prática comum no mercado, não tem nada de ilegal, mas é sim uma enganação. A criança é que força os pais pagarem o triplo pelo caderno que tem o seu ídolo na capa. A Mercur não faz mais isto e também parou de vender os seus produtos para clientes que não possuem os mesmos valores da empresa. Novamente você está pensando: “Não pode ser! Isto aí é conversa! Escolher para quem vai vender? Isto é loucura!”
A VERT é uma empresa de dois franceses que pagam o dobro do preço de mercado pela borracha que compram diretamente dos seringueiros do Acre. Pagam um preço justo pelo algodão agroecológico para os agricultores do Ceará. Respeitam os direitos trabalhistas e estimulam o desenvolvimento dos trabalhadores na fábrica de tênis no Vale dos Sinos. Com isto, o custo de produção deles é cerca de 5 vezes maior do que o dos concorrentes que produzem na China. E como eles conseguem vender o produto pelo mesmo preço dos concorrentes? Que magia é esta? Simples, eles não gastam com propagandas, não possuem estoques, não tem lojas e vendem pela internet. As grandes marcas economizam na produção para gastar mais com o marketing. Quer saber quanto custa o tênis daquela marca famosa? Uns 20% a 30% do custo foi com a produção e o restante, 70% a 80% foi com o marketing. Que interessante! Nós pagamos mais caro pelo produto, para que a empresa possa gastar mais para nos convencer a comprar aquele produto! Faz sentido isto?
Os clientes da Mercur e da VERT compram seus produtos porque os produtos são bons e porque se identificam com os valores destas empresas. São eles que fazem a propaganda gratuitamente. Personalidades e formadores de opinião estão usando e divulgando os seus produtos. É muito mais convincente, o consumidor ouvir de alguém, em quem confia, de que estas empresas causam impactos positivos, do que ver uma propaganda delas se auto-promovendo, não é mesmo?
Mas os produtos não são caros apenas pelos custos em propaganda, e nem todas empresas investem tanto assim em marketing. Em alguns produtos, a embalagem custa mais caro do que o produto. Verdade! Você sabia que ao comprar um refrigerante em lata, cerca de 90% do custo corresponde a embalagem de alumínio? Em muitos produtos de limpeza, de higiene, amaciantes e tantos outros, a embalagem custa mais caro do que o produto. A caixa de leite custa mais caro do que o leite! A garrafa de água custa mais caro do que a água! Para tomar a mesma quantidade de água, pagamos 20.000 vezes mais do que o valor do mesmo produto, que sai da torneira, e que em alguns casos é de melhor qualidade.
Péra aí! É muita informação! De onde vem estes dados? Não acredite no que está lendo, faça você mesmo uma pesquisa. Busque mais informações sobre os produtos que você compra! Devemos nos perguntar: Será que não há como comprar os mesmos produtos, com a mesma qualidade, pagando menos? Se os consumidores tivessem a opção de comprar o produto bem mais barato, sem a embalagem, será que eles não fariam isto? Na Holanda o consumidor pode levar a embalagem e comprar o leite diretamente de uma máquina. E se esquecer a embalagem? Então pagará caro por uma, a opção é do consumidor!
Nós trabalhamos duro para ganhar o nosso dinheiro. Na hora de gastar, temos que lembrar disto e fazer as melhores escolhas. Ao comprar um produto estamos estimulando determinado tipo de prática. Se podemos comprar produtos de boa qualidade, saudáveis, e ainda ajudar empresas, com as quais nos identificamos, que fazem coisas legais, porque então vamos dar o nosso dinheiro para quem faz o mal para outras pessoas, para a natureza, e que nos engana? Se nós mudarmos, as empresas irão mudar!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
A vida é bela e Outubro é Rosa!

– 26 de outubro de 2014
Alice de Moraes Falleiro (*)
Pessoal, estamos em outubro, mês dedicado a campanhas para alertar a todos sobre o câncer de mama e tudo que pode ser feito para combatê-lo. Apesar de ter maior incidência entre as mulheres, o danadinho também atinge os homens. O Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro são os Estados com maior incidência da doença, segundo matéria publicada no caderno Donna da Zero Hora do dia 19 de outubro de 2014.
Desde que descobri o câncer no sistema linfático, também conhecido como linfoma, no meu caso, linfoma de Hodgkin, me deparei de perto com o experiência de quem está passando ou já passou por esse “tsunami”, conhecido como câncer. Nós juntamente com a família, os amigos, periquito, papagaio… estremecemos ao ouvir a frase e o diagnóstico que ninguém imaginou um dia receber: É câncer.
Eis que no meio desse divisor de águas na minha vida e impulsionada pela premissa de ficar perto de pessoas positivas, de procurar informações e suporte de pessoas que vivenciam essa experiência como sendo uma fase, um período, uma situação que precisamos passar, mas tendo como “mantra” que a nossa vida é muito maior do que essa doença (se eu puder dar um conselho para alguém, eu diria: façam isso sempre!), conheci guerreiras que enfrentaram ou enfrentam o câncer antes dos 50 anos mantendo o foco, a determinação, o bom humor e muita alegria. Hum, nada fácil, alguém dirá, mas é possível.
Somos a prova viva disso! E eu que achava que estava sozinha! Que nada! Infelizmente, outras pessoas estão passando por isso. Bendita seja a tecnologia, que nos proporciona essa troca. No entanto, confesso que me espantei com o número de meninas jovens com câncer, principalmente, o de mama. E é por isso que resolvi escrever esse texto. Não é para gerar desespero nem alarde, mas informação. Meu objetivo é alertar e acima de tudo dizer que o câncer tem CURA, se diagnosticado precocemente.
Façam o autoexame independente da idade! Sim, ele salva vidas. Nesse site tem instruções de como fazer isso e muito mais! http://www.alemdocabelo.com/se-toque/#.VERBPvldWYE.
Assim como meu olho clínico enxergou uma “bolinha” no pescoço onde ninguém enxergava, através do autoexame de mama você pode sentir modificações nos seios que podem salvar a sua vida. Deixo aqui registrado minha admiração e gratidão por ter conhecido meninas tão especiais nessa caminhada. Sigo na luta, ainda em tratamento, mas muito bem. De verdade! Quero dizer a tod@s que estamos juntas, porque no final das contas… A VIDA É BELA E OUTUBRO É ROSA! J!
(*) Alice de Moraes Falleiro é mestranda na UFSM.
Contato: alice.falleiro@gmail.com
Sites para se informar sobre o assunto:
http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/inca/portal/home
http://www.femama.org.br/novo/
http://www.institutodamama.org.br/

Português politicamente correto: vem aí a nova reforma!

19 de out de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Atenção: Este texto não é recomendado pelos filólogos, lexicógrafos e demais especialistas. O conteúdo não é verdadeiro e não é recomendado para menores de 18 anos.
Se você gosta de falar um português politicamente correto, leia este texto com atenção, pois vem aí a nova reforma do português. Por exemplo, o termo “velho”, foi substituído por “idoso”, depois por “pessoa da terceira idade”, e hoje o politicamente correto é dizer “pessoa na melhor idade”. Com a reforma, esta expressão receberá outra denominação.
A reforma prevê a retirada do dicionário de termos politicamente incorretos, de gírias e de palavras de baixo calão, bem como de termos utilizados de forma inadequada, como por exemplo:
▪ Degringolar – utilizado para “cair, desabar”. Mas, o seu verdadeiro sentido é “tornar-se gringo, fazer o que os gringos fazem”, tem um caráter xenófobo [RETIRADO];
▪ Judiar/Judiaria – utilizado com o sentido de “maltratar, atormentar”. No entanto, o seu verdadeiro sentido é “fazer como os judeus, que mataram Jesus Cristo” [RETIRADO].
▪ Coitado – utilizado no sentido de “infeliz, digno de dó”. O sentido correto é a “pessoa que sofreu a ação do coito” [RETIRADO];
▪ Indiada – utilizado com o sentido de “fazer um programa de índio, algo desagradável, cansativo”. O sentido verdadeiro é “fazer um programa de índio, algo desagradável, cansativo” [RETIRADO]. Ops! Esta palavra já está sendo utilizada com o sentido verdadeiro, mas denigre a imagem dos índios. Ops! Denegrir também é um termo politicamente incorreto! Ops! As civilizações pré-colombianas não deveriam ser chamadas de “índios” pois nunca habitaram a India, este termo também deveria ser retirado! Ops! Mas se “indiada” não se relaciona com as civilizações pré-colombianas, seria então politicamente incorreto? Ops! Ops! Ops!…
▪ Denegrir – utilizado no sentido de “difamar, manchar a reputação”. O sentido correto é “tornar-se negro, fazer como os negros”, no sentido pejorativo [RETIRADO].
▪ Barbeiro: utilizado para definir “motorista sem habilidade”. O sentido correto é “profissional da barbearia” [RETIRADO para definir motorista sem habilidade].
▪ Minorias – utilizado para grupos sociais, mulheres, negros, etc. Quando estas minorias (mulheres no Brasil, negros na Bahia) se tornam maioria, além de politicamente, está matematicamente incorreto! [RETIRADO para definir maiorias].
Expressões regionais com sentido discriminatório, também serão retiradas do dicionário, como por exemplo:
▪ Negrinho – termo utilizado no Rio Grande do Sul para descrever o “doce de leite condensado com chocolate” [RETIRADO];
▪ Brigadeiro – utilizado para descrever o doce de leite condensado com chocolate. Os oficiais da aeronáutica reivindicam a não utilização deste termo para a denominação do tal docinho, pois não querem mais que alguém diga: “adoro comer um brigadeiro” [RETIRADO];
▪ Cacetinho – termo utilizado no Rio Grande do Sul para descrever o pão francês, pequeno. Costuma causar constrangimento para os gaúchos em padarias de outros estados [RETIRADO];
▪ A coisa tá preta – utilizada para descrever uma “situação difícil, indesejada”. Indiretamente quer dizer que “a situação se parece com a dos negros”, no sentido pejorativo [RETIRADO].
Por fim, gírias e termos de baixo calão serão substituídos por termos científicos:
▪ Saco cheio – será substituído por “bolsa escrotal aumentada”;
▪ Puto da cara – substituído por “pederasta da face”;
▪ Pentelho (no sentido de pessoa chata) – substituído por “pelo pélvico”;
▪ Filho da Puta – será substituído por “filho de uma provedora de serviços de cunho sexual”;
▪ Empregada – será chamada de “assistente multifuncional”;
▪ Anão – doravante denominado de “pessoa verticalmente prejudicada”.
Fazendo uma simulação da aplicação das novas regras, uma conversa entre dois universitários, na saída de uma prova, ficaria assim:
▪ Como foi na prova?
Acho que me fiz sexo comigo mesmo!
▪ Eu também. Fiquei pederasta da face com este professor, ele é um pelo pélvico encravado!
Que fezes! Eu estudei prá pão francês, dos grandes, e não adiantou nada!
Bem, a reforma ainda está em debate. Qual a sua opinião? Você é favorável a atualização do português politicamente correto? Ou você está com a bolsa escrotal aumentada desta discussão?
(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Dia do Professor – Homenagem ao meu colega Klering

19 de Out de 2014

Dia 15 out foi o Dia do Professor. Resolvi homenagear um colega que admiro e que merece o reconhecimento de todos, reproduzindo aqui o texto por ele publicado. Parabéns Klering pela sua trajetória como docente e pelas inovações que desenvolveste.
Felipe
Luis Roque Klering (*)
Hoje é dia do professor, entre os quais me incluo desde 1986, quando entrei inicialmente como professor horista na UFRGS. Na época, atuava com a profissão principal de analista de sistemas na PROCERGS. Em seguida, passei a também lecionar como professor horista na PUCRS. Em 1989, fui estimulado a cursar o doutorado em Administração na USP e solicitar Dedicação Exclusiva na UFRGS. Desde então passei a ter intensa atuação acadêmica na graduação e pós-graduação em Administração da Universidade, com a produção de mais de 50 artigos científicos, orientação de 48 dissertações de mestrado e doutorado, 52 orientações de especialização; 18 bancas de doutorado, 17 qualificações de doutorado, 216 bancas de mestrado, 68 bancas de especialização e dezenas de outros tipos: de bancas de graduação, de seleção de professores, de escritas de capítulos de livros, e-books, artigos em jornais, apoio a matérias em jornais, e outras produções, especialmente na internet; uma síntese das produções pode ser acessada nesse endereço: http://www.terragaucha.com.br/artigos_de_lrk.htm
Passei a valorizar muito a carreira da educação por inspiração da mãe, para quem a educação era tudo. Mesmo morando no interior, na então vila de Bom Princípio, deu um jeito de encaminhar todos os filhos em lugares onde pudessem estudar além do ensino fundamental. Também contou muito o exemplo de um tio, Ignácio Neis, que já era professor conceituado na UFRGS.
Considero a educação como a “mãe de todas as políticas”. Nenhum investimento valerá alguma coisa para o desenvolvimento se não tiver como base a educação. Já em 1997 defendia que o Estado do RS deveria aproveitar os recursos da venda da CRT (cerca de R$ 5,9 bilhões em valor atual) na compra de um computador por família gaúcha, na infraestrutura de informática e internet, na estruturação de cursos técnicos e avançados de computação, na informatização de estruturas e escolas públicas, empresas etc. ao invés de investir na vinda e isentar de impostos por dezenas de anos montadoras de automóveis, sem compromissos locais efetivos com o desenvolvimento do Estado. Como regra geral, vale muito mais a pena estimular atividades não fordistas (baseadas em atividades mais inteligentes, que não sejam simplesmente repetitivas), em que as pessoas possam pensar, empreender, evoluir nas suas capacidades. Progresso se constrói sobre a crescente capacitação e educação das pessoas; não se consegue simplesmente transferir ou transportar de um lugar para outro, como se fosse uma mera mercadoria. Mantenho e reafirmo essa convicção da época, de que essa teria sido uma estratégia muito mais sábia e efetiva para o desenvolvimento do Estado do RS, porque a informática (e a internet) estimulam a troca e o avanço dos conhecimentos, o empreendimento, e o desenvolvimento das pessoas e das organizações. Uma criança frente a um computador é ativa-proativa, experimentadora, exploradora, criativa, que não fica parada e contemplativa; acontece até mesmo com crianças com menos de dois anos de idade, que mal sabem mover um mouse; mas também com idosos, de idade bem avançada; um computador (e agora também incluídos os tablets e celulares inteligentes) cria uma fascinação nas crianças, adolescentes, jovens e pessoas em geral como nenhuma outra coisa nesse mundo. Frente a um equipamento inteligente como um computador, uma pessoa aprende a experimentar, a inventar, a ver outras realidades e pontos de vista, a ler, a dialogar, a interagir, a expor ideias e pensamentos, a ser contrariada em suas posições pessoais relativas ao mundo; aprende outros idiomas, é estimulada a raciocinar; enfim, a ser uma pessoa mais inteligente, mais completa. É bem diferente do que ficar passivamente assistindo programas quaisquer despejados unilateralmente por uma televisão, ou mesmo de uma aula em que os assuntos são simplesmente “dados”, sem criação de diálogo, participação, construção de conhecimento. A informática (e a internet) é capaz de promover profundas transformações nas organizações, na sua organização e atuação interna; nos seus sistemas e trato das informações; na gestão dos seus processos, das suas tecnologias e de seu conhecimento; na busca de soluções mais efetivas; na interação com outras organizações, pessoas e a sociedade; na capacidade de controle; no desenvolvimento das suas pessoas e delas mesmas; na forma de administração (por exemplo, via governo eletrônico) e na forma de sua administração geral (mais virtual e inteligente, que real e simplista). Atualmente deve-se pensar em organizações inteligentes, cidades e soluções inteligentes, cidades do futuro, governo eletrônico, ensino a distância; e não com o retrovisor ligado focando em soluções fordistas do passado; em progresso comprado e transportado, como se fosse mercadoria adquirível de forma milagrosa por governos e empresas, sem o pressuposto do autodesenvolvimento real. E não devemos simplesmente constituir território para outros produzirem a menor custo, aproveitando somente a oferta de benesses públicas, sem que a nossa gente seja a real protagonista dos processos das organizações que aqui se instalam. Outrossim, os custos sociais do país devem ser igualmente partilhados, não devendo haver privilégios e discriminações “entre os daqui e os de lá”, sejam as organizações pequenas ou grandes. Ou seja, “a mala deve ser carregada por todos”. Os investimentos e esforços da sociedade devem ter esse norte. Porque, o que foi feito com os recursos da venda da CRT e de outras estatais, assim como do pedagiamento de estradas? terminou a gestão de governo na época e a dívida do Estado mais do que duplicou (naquela gestão). E, desde então, o Estado não preparou sua infraestrutura, sua administração pública e social, as empresas e a sociedade para enfrentar um novo quadro e contexto social, com pessoas vivendo mais, exigindo mais direitos sociais, e tendo o Estado mais compromissos (despesas) em diferentes áreas (da saúde, educação, segurança, justiça, previdência social, direitos sociais, transportes etc.); para fazer frente, tem que crescer, ampliar a base geral de contribuição (taxas e impostos) das empresas e das pessoas da sociedade. Ainda bem que a montadora de automóveis que ficou no Estado (GM, na cidade de Gravataí) tem tido uma relação mais compreensiva e flexível, mas poderia estabelecer melhores parcerias com instituições como as Universidades; e desenvolver mais as tecnologias e soluções aqui no Estado (uma vez que empreendimentos do tipo não empregam mais milhares de trabalhadores, como se previa na época de sua vinda, mas essencialmente projetos de desenho, engenharia, sistemas e robôs, contratados de outros centros tecnológicos do mundo), de modo a enraizar e desenvolver de fato o Estado que a subsidia. Em conjunto com as 17 empresas sistemistas, constitui um excelente empreendimento, com potencial para exercer um papel mais importante e decisivo para o desenvolvimento do Estado. O caso novamente ilustra a ideia de que o Estado deve focar para um novo tipo de produção e capacitação de pessoas: mecatrônica, sistemas, produção de chips, de robôs. Nessa linha de pensamento, já temos avanços: temos recebido nos últimos anos excelentes investimentos externos, como a instalação da SAP e da HT-Micron (joint venture entre a coreana Hana Micron e a brasileira PARIT para a fabricação de semicondutores) junto ao Parque Tecnológico da UNISINOS, e da DELL junto ao TECNOPUC, desenvolvendo de fato novas tecnologias e soluções localmente, em ambiente universitário. Assim como a produção de chips pela CEITEC, empreendimento do governo federal, que deveríamos considerar a nossa “jóia da coroa”. Esses empreendimentos vão na linha da máxima de que o progresso se constrói inequivocamente na base da educação. Vejam o dever de casa que fez a Coréia do Sul com base na educação em cerca de 60 anos, constituindo atualmente um dos 3 países mais desenvolvidos do mundo.
Tenho muito orgulho de pertencer à UFRGS, que é uma das melhores Universidades do Brasil (nos rankings, geralmente aparece entre as cinco melhores do Brasil). Via seu PDI, ela reafirma princípios norteadores a seus servidores, que considero altamente expressivos e tento seguir tanto quanto possível no cotidiano das atividades, e que são: liberdade acadêmica; excelência acadêmica; autonomia universitária; integração entre ensino, pesquisa e extensão, interdisciplinaridade, aperfeiçoamento pedagógico; respeito às diferenças; ampliação da oferta; responsabilidade social; internacionalização. Especialmente, tento respeitar as diferenças de ideologias, credos, formações, etnias, cores, origens, preferências e valores pessoais, e outros aspectos, que é até mais avançado e atualizado nas ideias do PDI da UFRGS do que o previsto na nossa Constituição. Nunca bati porta, xinguei ou ralhei com aluno, tenho procurado dar pronta-resposta em qualquer hora ou dia da semana, assim como considerar as reclamações deles. E especialmente transmitir os valores da ética, do respeito e da verdadeira ideia de justiça. Lembro como, num final de semestre, um aluno não tinha alcançado média suficiente para passar na disciplina porque não tinha entregue um trabalho final. Via mensagens e contatos com colegas, soube que já tinha viajado para as férias e se encontrava em Uruguaiana (morava numa fazenda do interior). Consegui contato e assim foi possível que entregasse seu trabalho e não perdesse todo semestre. Digo isso porque, como servidores públicos, somos servidores de Estado, não devendo privilegiar ou discriminar por quaisquer motivos, devendo seguir rigorosamente os princípios constitucionais gerais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência na administração pública, assim como dos princípios complementares da supremacia do interesse público sobre os interesses pessoais, da presunção da legitimidade, da finalidade (do interesse púbico), da autotutela (de um autocontrole dos próprios atos), da continuidade do serviço público, e da razoabilidade. Nosso dever é servir a sociedade, com o melhor dos esforços. Felizmente, a grande maioria dos colegas com quem convivo é altamente dedicada e comprometida, ao contrário do que normalmente se difunde. Vejam, por exemplo, a incrível produção acadêmica de professores da nossa Escola de Administração. Trabalha-se muito mais do que 40 horas semanais, em atividades presenciais e a distância (via internet), participando de comissões, orientando alunos, respondendo a demandas e processos, atendendo (a distância) a perguntas de alunos, preparando aulas e provas, avaliando trabalhos, realizando pesquisas, respondendo a entrevistas, participando de atividades a distância (tais como fóruns e chats), revisando trabalhos, escrevendo e avaliando artigos científicos, participando de eventos etc. Antes de entrar em licença-saúde (por breve período) há cerca de um mês, eu mesmo estava com a responsabilidade de conduzir aulas (presenciais e a distância) para mais de 270 alunos.
Afora as atividades acadêmicas diretas na Universidade, tenho muito orgulho da minha atuação (com estímulo da UFRGS) junto aos municípios, especialmente os pequenos. Via Comissão de Assuntos Municipais da Assembleia Legislativa do RS, apoiei a emancipação de mais de 200 localidades, onde a qualidade de vida e o desenvolvimento hoje floresce, especialmente em áreas como educação, saúde, renda, cultura, participação política etc. Onde há um pequeno município, perto ou distante, ali está um pedaço vivo do Brasil. Há exemplos extraordinários no RS. Pena que, desde 1995, o Brasil se tornou mais insensível a essas causas, e praticamente só pensa em resolver mais e mais problemas urbanos, quando deveria prevenir e valorizar melhor as comunidades do interior, criando uma maior cultura e estratégia de sustentabilidade. Não vai crescer se não fizer isso. Ainda bem que, pelo menos, nas décadas de 80 e 90, conseguimos aqui no Estado emancipar 273 localidades, que hoje contribuem e fazem diferença para a economia e a qualidade de vida do Estado (num único pequeno município do RS, localiza-se atualmente o maior polo moveleiro da América Latina, que contribui com muitos milhões de impostos anuais). Fui também assessor por vários anos da FAMURS (onde estimulei a compra do primeiro microcomputador em 1989) e da CNM. Durante mais de 20 anos (de 1984 até 2009), produzi estudos anuais sobre o crescimento dos municípios do RS, que era bastante utilizado e considerado por estudantes, pesquisadores, servidores públicos, legisladores e profissionais em geral para conhecer melhor o Estado e seus municípios, e tomar decisões. O estudo foi suspenso em função de dificuldades de saúde surgidos em 2009, mas será retomado em breve.
Me orgulho muito, ainda, de ter conduzido por cerca de 10 anos as atividades de EAD na Escola de Administração da UFRGS, e ali ter desenvolvido com cerca de 40 colaboradores a Plataforma de EAD NAVI, que constitui uma das 3 plataformas de EAD oficiais da Universidade (e constituiu base para a geração de uma 4a. opção de plataforma de EAD da Universidade, mais simples, para iniciantes) e um dos cerca de 70 Softwares Públicos Brasileiros (mais informações podem ser acessadas aqui: http://www.terragaucha.com.br/artigos/artigo_lrk_017.htm).
Também tenho muito orgulho pelos esforços que sempre fiz para ampliar o uso da informática e da internet de forma geral (via artigos, entrevistas, palestras, projetos-piloto etc.) e pelos esforços de inclusão digital de dezenas de pessoas, alguns casos altamente ilustrativos e expressivos.
A profissão de professor é uma das mais nobres que existe. Gosto da frase de Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”; mas também da frase “O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e os humildes”.
Sou muito grato aos professores que me repassaram conhecimentos, a pensar, e a formar a vida. Não há nada que compense. Mas não lembro de todos dessa jornada da vida. Porque muitos foram professores não em salas de aula, mas no cotidiano da vida, ensinando o que é ser correto, justo com os humildes, ético em todas as situações, ter empatia, de colocar-se na situação do outro, de respeitar. Muito obrigado, mestres da vida!
(*) Luis Roque Klering é Professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: lrklering@via-rs.net
Uma análise das eleições e a proposta de uma nova política!

12 de outubro de 2014
Luis Felipe Nascimento(*)
Em quase toda eleição, são eleitos candidatos bizarros, existe o voto de protesto e candidatos eleitos sem o perfil desejado. Em eleições recentes surgiram as bancadas suprapartidárias dos ruralistas, dos evangélicos, dos comunicadores, dos jogadores de futebol, etc. Agora aumentou a bancada dos “político filho” (Lobão Filho, Renan Filho, Covatti Filho) e dos “político neto” (ACM Neto, Mario Covas Neto, Leonel Brizola Neto). Os votos se tornaram patrimônio da família, e ela destina a quem desejar. Os eleitores são como os escravos ou como um bem de sua propriedade. Votar no avô, no filho ou no neto, dá no mesmo! Supostamente todos tem a mesma representatividade e farão o mesmo trabalho. O pai diz: “no meu filho eu confio”, e os seus eleitores elegem o seu filho! Em pleno século XXI, continuamos com “currais eleitorais”.
Nos últimos anos o Brasil avançou em diversos setores: melhorou nos indicadores de renda, educação, garantiu direitos de minorias, etc. Tivemos as manifestações de rua em junho de 2014 que assustaram os poderes executivo e legislativo. Lembram da placa: “Desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil”? Parecia que emergiria um novo Brasil. Se esperava que a eleição de 2014 fosse uma das mais politizadas e que elegeria candidatos progressistas. Não foi o que aconteceu. Esta eleição foi umas das mais conservadoras. Tivemos a eleição dos senadores Fernando Collor de Melo, Ronaldo Caiado, Kátia Abreu, etc. Os quatro Deputados Federais mais votados no país foram: Celso Russomano (PRB-SP), Tiririca (PR-SP) e Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP).
Passadas as eleições para deputados, devemos nos perguntar por que isto aconteceu? A culpa é dos políticos? Dos partidos? Do poder econômico? Da mídia? Do povo que não sabe escolher? Reconheço o atual processo de escolha dos nossos representantes como democrático do ponto de vista formal. Portanto, quem foi eleito, representa a vontade do povo, certo? Errado! O desencanto e as decepções com os políticos levaram ao desinteresse pela política, e por consequência, com a democracia. Me diga, quantos dos seus amigos e familiares, nas vésperas da eleição, não sabiam ainda em quem votar? Certamente foram vários! Eles são pessoas esclarecidas, conscientes, mas não tinham candidato! Estas pessoas não venderam o voto, elas “pegaram emprestado”! Elas pediram “emprestado” o voto de outra pessoa apenas para cumprir uma obrigação, pois estão de saco cheio com os políticos. Se o voto não fosse obrigatório, certamente estas eleições teria baixíssima participação. A “festa da democracia” se tornou um funeral, aquele momento que as pessoas comparecem por obrigação.
Tem como ser diferente? Tem sim! Em países como a Inglaterra, o voto é distrital. Lá, cada 68.000 eleitores têm o direito de eleger um representante. Não importa quantos candidatos existem no distrito e nem quantos votos receberam, o mais votado será o representante. Os moradores do distrito sabem quem é o seu representante. Se escolherem mal, o distrito será prejudicado em relação aos demais distritos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, dividindo os 8,4 milhões de eleitores pelas 55 cadeiras para deputados estaduais, o resultado seria 152 mil, ou seja, 152 mil eleitores elegeriam um deputado. Porto Alegre seria dividida em 9 distritos, e cada um elegeria um deputado. Os eleitores da zona sul teriam o seu deputado, assim como os da zona norte, do centro e a população de cada distrito saberia quem é o seu representante e o deputado saberia onde vivem e quais são as demandas dos seus eleitores. Ao final de 4 anos, saberiam o que fez, ou o que não fez, o seu representante.
As regras do jogo definem o que é permitido e o que é proibido. Nosso atual sistema eleitoral facilita a eleição dos candidatos com mais dinheiro, mais tempo de TV e com um sobrenome conhecido. Representatividade, ideias, propostas, currículo, tudo isto deixou de ser importante. Depois de eleitos, candidatos honestos não conseguem aprovar seus projetos se não “negociarem” o apoio com os demais deputados e atenderem aos interesses dos lobistas.
Jânio de Freitas, em sua coluna na Folha de São Paulo de 05/10/2014, ao analisar o processo eleitoral e a democracia no Brasil afirma: “A conclusão é clara: ou a reforma política ou a continuidade da deterioração que terminará como terminaram, até hoje e em toda parte, todas as deteriorações institucionais. Mas os políticos e, em especial, os do Congresso nada farão contra o seu paraíso. A quem quer desfrutar da democracia cabe exigir a reforma que a salve.”
Você sabia que de 1 a 7 de setembro de 2014, 8 milhões de pessoas votaram num plebiscito informal sobre a necessidade de uma reforma política? Pois é, não recebeu destaque na mídia e não teve apoio da maioria dos políticos, mas algumas coisas estão acontecendo. A internet mudou tudo, menos a política. Podemos interagir e saber o que está acontecendo em qualquer lugar do mundo, mas sabemos muito pouco sobre o que acontece no congresso brasileiro. Sites como “democracyos.org” propõem que os eleitores discutam os projetos e interajam com seus representantes.
Existe sim a possibilidade de se construir uma nova política, de usar a tecnologia para fortalecer a democracia e construir um sistema que escolha representantes que nos representem de verdade. Esta nova política inicia com uma constituinte exclusiva para fazer a reforma política; com financiamento público de campanha, com debates em rede nacional em horário nobre, com o voto distrital e uma série de outras medidas poderão tornar as eleições verdadeiramente democráticas. Como diz Jânio de Freitas, quem quer desfrutar da democracia deve exigir a reforma que a salve.

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

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Onde você estava na longa noite de 64?

12 de outubro de 2014
Sonia Porto Machado (*)
Outro dia, uma pessoa bem jovem perguntou a um grupo o que fizemos durante a ditadura militar. Isso abriu minha caixa de lembranças, aquelas que nunca haviam sido esquecidas. Uma pessoa que estava junto respondeu que “éramos muito novinhos nessa época”. E é verdade mesmo. Éramos muito novinhos.
Caso pudesse classificar as reações das pessoas frente a ditadura militar, eu diria, de maneira muito rígida, que uns nem viram a ditadura passar. Outros viram e ignoraram. Alguns viram e atuaram, tanto a favor quanto contra.
Nasci 6 meses antes do Golpe Militar de março de 64. O que me habilita a dizer que fizemos 50 anos ao mesmo tempo. O que me permite lamentar ter nascido na mesma época. Já que como irmã mais velha, em 6 meses, posso afirmar que perdi muito com esse nascimento.
Cresci e entrei na escola durante o período chamado Anos de Chumbo (chamamos assim o período do Governo Médici). Período mais difícil dos 21 anos onde faltou democracia. Durante anos tive um pesadelo repetitivo com o mesmo personagem. Ele aparecia sempre pra acabar com minhas noites. Sonhava com meu conterrâneo que, por acaso, era o presidente do país nesse período e que chegou ao poder de uma maneira nada recomendável. General Médici, figura ilustre durante muitas décadas em minha cidade natal e alvo dos meus maiores medos. Sim, sonhava com ele. Ou melhor, ele invadia minhas noites até poucos anos quando a casa em que vivia foi transformada em Museu Emílio Garrastazu Médici. Hoje, rebatizada, para alívio de minhas noites e de muitos bageenses.
Muito cedo me interessei pela política. Isso não é coisa fácil quando se vive em um país em que o autoritarismo vigora. Quando tinha 12 anos e estudava em uma escola religiosa, conheci dois irmãos Maristas (Irmão Fábio e o Irmão Chico) que me convidaram a participar de um grupo de jovens da escola e da Igreja Católica. Na época, a Igreja Católica tinha uma forte atuação política e duas orientações distintas: um grupo extremamente conservador chamado CLJ (entre outros) e um grupo contestador e ligado a Teologia da Libertação, chamado CETA (entre outros grupos). Para minha sorte, os irmãos que me convidaram era ligados a Teologia da Libertação. Ali fiz minha formação política. Junto aos Maristas e, depois com os Jesuítas do Colégio Anchieta, quando comecei a participar de um curso anual, que ocorria no Seminário Maior de Viamão, durante o verão, de formação de jovens lideranças. Durante 3 anos de CETA, nos anos 76, 77 e 78 ( com 13, 14 e 15 anos) ali era o lugar, ligado a Igreja Católica, de onde saíram jovens que aprenderam a compreender a realidade com intensas aulas de História, Sociologia, Filosofia e Teologia. Eram intensos 10 dias, em cada etapa. Ensinavam a usar um método chamado Ver-Julgar- Agir e, acima de tudo, a olhar os pobres e oprimidos do país. Ali também foi ensinado que as fronteiras do mundo eram apenas convenções e que a luta era internacional. Nesse lugar se preparou uma parte considerável de militantes que atuam em várias frentes hoje.
Fiquei nesse grupo dos 12 anos aos 16 anos, fazendo o que hoje se chama de trabalhos sociais acrescidos de uma visão política baseada na conscientização do papel do individuo e da comunidade (eram as Comunidades Eclesiásticas de Base). Por isso, um trabalho mal visto por quem estava no poder. E a pressão recebida para romper com esse grupo era constante. Meu pai pressionava porque era pressionado pela burguesia da cidade. Eu resistia.
Aos 17 anos, passei no vestibular e fui para Universidade. Fui morar em Santa Maria para estudar. Claro, que havia um mesmo grupo por lá e comecei a participar. Em pouco tempo, fui abordada por outro tipo de grupo. Um grupo que não era baseado na Teologia e que pensava em ações mais radicais. Isso já era 1981, governo do Figueiredo, aquele que dizia que preferia cheiro de bosta a cheiro de povo. Não eram mais os Anos de Chumbo embora ainda fosse uma Ditadura. Meu novo grupo era um partido clandestino. Sim, clandestino porque era a época do bipartidarismo (ARENA e MDB). Os militares não permitiam outros partidos muito menos um partido comunista como o PRC ( Partido Revolucionário Comunista).
Sair de um grupo de Teologia da Libertação para o PRC teve grandes impactos na minha vida. Uma delas foi começar a militar de maneira organizada e clandestina. Militar em um partido que desejava, entre outras coisas, apenas derrubar a ditadura militar, é algo que produz grandes marcas. Esse partido, espalhado por todo o país, atuou de maneira intensa até o fim dos anos 80. Com nomes fictícios, reuniões e congressos clandestinos conquistamos espaços possíveis e impossíveis.
Na Universidade, o PRC (junto com outras organizações) organizou e liderou de passeatas com direito a repressão policial até a invasão e ocupação do Restaurante Universitário; da ocupação do Conselho Universitário(encerramos e mantivemos todos o conselho preso em uma sala durante horas) a ocupação da Reitoria. Fundou e conquistou os diretórios acadêmicos e os DCEs de várias cidades mesmo sendo proibido. Organizou eventos culturais importantes como o Cio da Terra, em Caxias do Sul e, depois, o Nossas Expressões, em SM. Criou grupos feministas como o Germinal, fundamental para uma geração inteira. Elegeu vereadores e deputados por todo o país.
Fiquei em Santa Maria por 4 anos. Formada fui morar em Porto Alegre no ano seguinte a derrota das Diretas-Já. Em 85, no Governo Sarney, oficialmente fim da Ditadura embora governada por um legítimo representante da ARENA, já se respirava novos ares. Em Porto Alegre, continuei a militância, agora de maneira exclusiva, em duas frentes: campanha política para deputado constituinte e prefeitura de Canoas e, ao mesmo tempo, trabalhando no Jornal Fazendo O Amanhã (jornal do PRC).
Isso foi até 1989 quando as mudanças democráticas começam a tomar mais forma. E a nova Constituição tira da clandestinidade todos os partidos proscritos. E teremos, pela primeira vez, desde 1961, a primeira eleição para presidência do Brasil. Mas ai é outra história.
Assim, respondendo a pergunta do título “Onde você estava na longa noite de 64?”, eu estava tentando derrubar a Ditadura, mesmo sendo tão novinha.
(para meus amigos e camaradas de lutas)
(*) Sonia Porto Machado é professora e reside em Novo Hamburgo, RS.
Texto publicado no livro “Lia, mas não escrevia: contos, crônicas e poesias”.
Contato: https://www.facebook.com/soniaportomachado
Coluna Dominical completa 1 aninho!

– 5 de out de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Hoje a Coluna Dominical está completando “um aninho”. Em 5 de outubro de 2013 publicamos no blog os três primeiros textos, dois que já haviam sido publicados no Jornal Zero Hora e, em o terceiro, em co-autoria com o meu amigo Alfredo Culleton: “As Fases e as Dimensões da Vida”.
Foram 52 semanas, sem nunca falhar, estivesse no Brasil ou no exterior, em férias ou trabalhando. Publicamos nos sábados ou nos domingos. Apenas uma vez, por problemas técnicos, publicamos a Coluna Dominical na segunda-feira.
Foram 55 textos na Coluna Dominical – FELIPE, falando de amor, de humor, muita ficção, relacionamentos, literatura, amizade, futebol, fotografia. Analisamos as datas importantes do ano (Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa), de aspectos históricos e culturais dos países por onde passamos. Na Coluna Dominical – AMIGOS, foram publicados 41 textos, de amigos muito queridos. Mais do que um texto, foram presentes que todos nós ganhamos.
Neste período de 12 meses reunimos nossos textos, e juntamente os dos amigos, e publicamos o livro “Lia, mas não escrevia: contos, crônicas e poesias” (com acesso gratuito em http://luisfelipenascimento.net/?page_id=862 ). Compusemos algumas músicas e publicamos os clips em http://luisfelipenascimento.net/?page_id=1301
Fechado 12 meses, temos muitas perguntas: “Continuar com a Coluna Dominical? Fazer outras coisas? Dar um tempo?” A divulgação dos textos publicados foi feita utilizando uma lista de e-mails, pelo Facebook, pela Fanpage da Coluna Dominical – https://www.facebook.com/colunadominical e pelo blog www.luisfelipenascimento.net que obteve mais de 12.000 acessos.
Percebi que alguns amigos são fiéis leitores e curtem toda a semana os textos no Face ou na Fanpage. Outros leem os textos esporadicamente. Já recebi relatos do tipo: “leio de vez em quando, mas leio vários textos de uma única vez”. Há também os que ignoram a Coluna: “amigos, amigos, textos a parte!”. Entendo! Confesso que eu gosto muito dos textos do Veríssimo, mas nem sempre os leio e, algumas vezes leio e não gosto. Se isto acontece com a Coluna do Veríssimo no Jornal Zero Hora, imaginem com a Coluna Dominical? Certamente os amigos leitores não lerão toda semana e nem gostarão de todos os textos.
Manter o blog dá trabalho? Dá sim! Mas isto não me preocupa, e sim duas questões:
▪ Não molestar os amigos com os textos e nem fazer nenhum tipo de pressão para que acessem a Coluna;
▪ Manter a Coluna e continuar escrevendo regularmente enquanto esta for uma atividade prazerosa.
A Coluna não é um trabalho, mas mesmo que fosse, deve fazer sentido, alegrar a quem escreve e a quem lê. Como diz uma amiga, nesta fase da vida, o “trabalho deve dar prazer, pois o prazer dá trabalho!”
Agradeço aos autores, co-autores, leitores e incentivadores da Coluna Dominical. Seus comentários, curtidas, votos, tudo isto estimula a mim e aos demais autores. Toda vez que recebo um comentário, repasso para os autores, que se sentem estimulados a continuarem escrevendo e compartilhando seus textos.
Por tudo isto, quero dizer muito obrigado por estarem conosco. A Coluna Dominical tem sido um bom pretexto para manter contato semanal com os amigos. De alguma forma, me sinto mais próximo dos amigos leitores.
Um abração.
Felipe

Obs 1: Vamos fazer um recadastramento dos que desejarem continuar recebendo os e-mails com o link dos textos publicados. Portanto, se você deseja passar a receber, ou continuar recebendo o e-mail com o link das postagens dos novos textos, envie um e-mail para nascimentolf@gmail.com confirmando seu interesse em “ser assinante”. Os que não responderem nas próximas duas semanas, vou considerar a não resposta, como uma resposta negativa. Não quero encher a sua caixa com mensagens não lidas.

Obs 2: Veja a seguir o sumário de textos publicados na Coluna Dominical – FELIPE e na Coluna Dominical – AMIGOS, com os temas e as respectivas datas em que foram publicados.

Coluna Dominical Felipe – Publicados entre Out 2013 e Set 2014

Núm Titulo Publicado em Tema
55 Os limites do amor e da paixão!
28/09/2014 Amor
54 Alimentos – o fim do desperdício 21/09/2014 Ficção
53 Piadas: para rir ou para discriminar? 14/09/2014 Humor
52 Risos e Sorrisos no Trabalho 07/09/2014 Humor
51 Jovem ou Idoso – quem você escolhe para lhe prestar um serviço? 31/08/2014 Comportamento
50 Tu não tens vergonha? 24/08/2014 Comportamento
49 Somos muito diferentes 24/08/2014 Música
48 Deus, o Diabo e a Comida 17/08/2014 Ficção
47 Deu errado! E agora? O que é que eu faço? 10/08/2014 Comportamento
46 Se caminhar, não navegue! 03/08/2014 Tecnologia
45 Foi um engano lamentável! 27/07/2014 Política
44 Obrigado Rubem Alves 20/07/2014 Literatura
43 Quem são os seus amigos? – Parte I – 13/07/2014 Amizade
42 Mudanças nas Regras do Futebol 06/07/2014 Futebol
41 Imagina se nós acreditássemos mais no Brasil? 29/06/2014 Comportamento
40 Muito além do lançamento de um livro! 22/06/2014 Literatura
39 Vamos fazer uma vaquinha! 15/06/2014 Consumo
38 Por que o Futebol é diferente dos outros esportes? 08/06/2014 Futebol
37 Romão e Cotinha 01/06/2014 Humor
36 Ninguém gosta do que não conhece! 25/05/2014 Preconceito
35 A Aula Ideal – na Visão do Professor
18/05/2014 Ensino
34 Foi mal! Desculpa aí Mãe!
11/05/2014 Comportamento
33 Trabalho ou Lazer ?
04/05/2014 Lazer
32 Geração Moleza!
27/04/2014 Comportamento
31 Repaginando a Páscoa
20/04/2014 Datas
30 O Dia do Aniversário! 13/04/2014 Datas
29 Faz de conta que eu não sei ! 06/04/2014 Comportamento
28 O Futuro dos Chatos 30/03/2014 Humor
27 Alemanha ou EUA, onde é melhor viver? 23/03/2014 Mundo
26 Eles são muito estranhos! 16/03/2014 Comportamento
25 Histórias da Vó Gelcy 09/03/2014 Humor
24 Carnaval – Adeus à carne 02/03/2014 Datas
23 A Beira de Entrar na Escola 23/02/2014 Ensino
22 Quer reduzir a dependência da internet? Pergunte-me como! 16/02/2014 Comportamento
21 Hoje, somos mais ou menos apaixonados pela fotografia? 09/02/2014 Fotografia
20 Tailândia – Sem Polícia e Sem Assaltos ! 02/02/2014 Mundo
19 Camboja – uma historia rica e pouco conhecida! 26/01/2014 Mundo
18 Stop! Com Rolling Stones. Stop! Com Beatles songs! 19/01/2014 Mundo
17 Diferenças Culturais 12/01/2014 Mundo
16 Férias é… 05/01/2014 Férias
15 Ano Novo – Lentilha e roupa branca?
29/12/2013 Datas
14 Três coisas que não podem faltar no Natal ! 22/12/2013 Datas
13 Só Jesus Salva ! 15/12/2013 Humor
12 Uma Barriga no Divã 08/12/2013 Ficção
11 Uma Barata no Divã 01/12/2013 Ficção
10 O Maior Prazer do Mundo 24/11/2013 Humor
9 Epitáfio no Presente ? 17/11/2013 Comportamento
8 Eu sei que você me quer! 10/11/2013 Humor
7 The Best One ! 03/11/2013 Ficção
6 Um futuro sem conflitos familiares 27/10/2013 Ficção
5 A mais recente descoberta da Medicina: nossos órgãos conversam entre si 20/10/2013 Ficção
4 Cuidamos mais de nossos carros do que de nós mesmos – exagero ou realidade? 13/10/2013 Comportamento
3 As Fases e as Dimensões da Vida 05/10/2013 Saúde
2 O prazer é gordo, a beleza é magra 05/10/2013 Comportamento
1 Para entender os conflitos da Rio+20 05/10/2013 Sustentabilidade

Coluna Dominical AMIGOS – Publicados entre Out 2013 e Set 2014

Num Título e Autor Publicado em
41 A utilidade e o amorDébora Löf Figueiredo
28/09/2014
40 Selecionar Alquimia da cozinhaAdelaide Kreutz Pustai 21/09/2014
39 O Dente PerdidoRicardo Dunker 07/09/2014
38 Selecionar A fila andaRosane Augustin Mendes 31/08/2014
37 Sobre nadar contra a corrente e caminhar contra o ventoAlice de Moraes Falleiro 24/08/2014
36 PausaGraziana Fraga dos Santos 17/08/2014
35 Qual a importância de um professor?Gustavo Borba 20/07/2014
34 Abraço é amor! Aida Maria Lovison 12/07/2014
33 Os estádios de futebol no Brasil estão morrendoJosé Antonio Gomes de Pinho 05/07/2014
32 Os cortes de cordão e o estranhamentoRaquel Janissek-Muniz 29/06/2014
31 A Deschurrascalização da VidaJuliano Ferrari 15/06/2014
30 Campanha sobre o trânsito no BrasilHamilton Belbute e Ângela Denise da Cunha Lemos Belbute 08/06/2014
29 Velhinhos sapecasSilvia Zilber 01/06/2014
28 Um Tsunami chamado Linfoma de HodgkinAlice de Moraes Falleiro 24/05/2014
27 A Aula Ideal – na Visão do Aluno Sofia Azevedo Bastian Cortese 17/05/2014
26 Avó NáuticaInes Isaia Splettstosser 10/05/2014
25 Entre carreira e lazer, fiquei com os dois!Melissa Irala 03/05/2014
24 Sete PilaresJosé Pacheco 26/04/2014
23 A pedagogia da morteSoraia Schutel 19/04/2014
22 Pássaro QuixotescoLuis Binotto 12/04/2014
21 Doutor, tem cura ?Celso Funcia Lemme
05/04/2014
20 Vício bom? Será Possível?Paula Licodiedoff 29/03/2014
19 TriangulaçãoRoberto Patrus 22/03/2014
18 A “viagem” que é viajar!!Lucila Maria de Souza Campos 15/03/2014
17 Essa Mania de Contar HistóriaPaulo Nascimento 08/03/2014
16 Fevereiro e a Curva do Choque CulturalBárbara Basso 01/03/2014
15 A chegada da CarolinaMárcia Dutra de Barcellos 22/02/2014
14 Laos: arroz, monges e elefantesIsabel Cristina de Moura Carvalho 15/02/2014
13 Vida Instantânea – Parte 3: Celular emagreceMaria Tereza Saraiva de Souza 08/02/2014
12 Vida Instantânea Parte 2: Não estou na vibeMaria Tereza Saraiva de Souza 01/02/2014
11 Vida Instantânea -Parte 1: Celulite e AplicativosMaria Tereza Saraiva de Souza 26/01/2014
10 Querido Papai Noel José Mauro C. Hernnandez 12/01/2014
9 O que você faria se pudesse dar um tempo no tempo?Sandra Regina Cela 04/01/2014
8 Reflexões sobre o autorretratoCristiane Pizzutti 22/12/2013
7 Achados e Perdidos: um GPS na AugustaDaniela Callegaro Menezes, Deisi Becker e Sandra Regina Cela 14/12/2013
6 Toda Família tem um Tio DoidoRicardo Dunker Haubert 08/12/2013
5 Quem ela pensa que é?Cristiane Pizzutti 30/11/2013
4 O que as mulheres querem?Luisa Dutra 24/11/2013
3 Quantos babacas fazem um cara legal?Cristiane Pizzutti 17/11/2013
2 Há preconceito contra mulheres no mercado de trabalho?Eduardo Comerlato 02/11/2013
1 Um Administrador pode ser um Ambientalista?Volnei Alves Corrêa
14/10/2013

Homenagem à rotatória: uma mandala urbana

5 de out 2014
Roberto Patrus (*)
O trânsito tem sido objeto de inúmeros debates nos dias de hoje. Nas grandes cidades, os congestionamentos são a ilustração da irracionalidade da mobilidade urbana na pós-modernidade. A violência dos acidentes nas estradas é causa de mortos e feridos em número maior que o de muitas guerras. Até a virtude da gentileza tem recebido atenção quando se discute o carro como símbolo de individualismo e status. Entretanto, uma solução para o cruzamento de ruas nas cidades não vem sendo analisada em sua riqueza simbólica nem em sua eficácia: a rotatória. Também chamada de rotunda, balão, círculo, rótula, joelho, queijinho ou girador, dependendo da região do nosso imenso país, a rotatória é o tema deste artigo.
Rotatória é uma praça ou largo, de forma circular, onde desembocam várias ruas e o trânsito se processa em sentido giratório. O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa não registrou o verbete na sua primeira edição de 2001. Preferiu o termo “rotunda”. Ela não deve ser confundida com uma ilha, aquele obstáculo físico colocado na pista de rolamento, destinado à orientação dos fluxos em uma interseção. Diante da ilha, o condutor é obrigado a fazer um desvio. Diante da rotatória, ele se vê obrigado a fazer um deslocamento circular. Quando o diâmetro da ilha é maior do que quinze metros, é de supor-se que se trata de uma rotatória, visto que nesse caso, impõe-se ao condutor o deslocamento circular.
Desde a virada do milênio que o símbolo do círculo passou a predominar no design dos automóveis. No lugar das linhas retas do Monza, do Scort, do Fiat 147 e do Gol, chegaram as formas arredondadas que tiveram no Corsa o marco do pioneirismo. Até a marca Volvo, conhecida por sua geometria quadrada se rendeu ao poder do círculo. Logotipos foram arredondados por empresas e marcas para valorizar a ideia de movimento, de transformação, de abertura a mudanças. Até uma marca de cerveja se valeu do poder do redondo para promover suas vendas. No trânsito, a construção das rotatórias segue a mesma tendência, somando-se à arquitetura dos anéis rodoviários (rodoanel, para utilizar a expressão paulista) e dos viadutos que lançam as suas alças circulares sobre as avenidas a fim de impedir cruzamentos em cruz.
Existem rotatórias com duas faixas ou até mais, em geral, no cruzamento de avenidas. Neste artigo, vamos nos ater àquelas de apenas uma faixa, construídas no cruzamento de ruas urbanas de mão dupla. Presentes nas vias do charmoso bairro de Lourdes em Belo Horizonte, elas revelam a beleza do círculo e a utopia de um trânsito mais humano e democrático.
Do ponto de vista simbólico, a rotatória é uma mandala urbana, círculo desenhado no meio de um cruzamento de ruas. A mandala na tradição oriental serve de suporte para a meditação a fim de conduzir quem a contempla à iluminação. “A contemplação de uma mandala supostamente inspira serenidade, o sentimento de que a vida reencontrou seu sentido e sua ordem” – escrevem Chevalier e Gheerbant no Dicionário de Símbolos quando comentam a concepção junguiana de que a mandala é utilizada para consolidar o eu interior. Como mandala urbana, podemos dizer que a rotatória é uma ilustração da mitologia camuflada e dos ritualismos degradados presentes na cultura moderna de um ser humano que se sente e se pretende a-religioso, como afirmou Mircea Eliade em “O sagrado e o profano”.
A rotatória dispensa o semáforo ou o farol. De acordo com a legislação de trânsito, o condutor que está na rotatória tem a preferência, exceto se a sinalização estabelecer o contrário. Via de regra, podemos dizer que quem está no círculo tem prioridade sobre quem está na reta. No lugar da arbitrariedade de um sinal luminoso para indicar a preferência, a mandala urbana convida a uma parada diante do círculo, momento precioso da meditação, da consciência alerta, quase uma reverência do motorista ao espaço sagrado que inspira a iluminação interior.
Além da metáfora com o símbolo da mandala, a rotatória pode ser interpretada como o símbolo logístico da democracia entre os automóveis. Não importa o tamanho do carro, nem tampouco o seu valor como como bem. No espírito democrático da rotatória, todos os carros são iguais. Para ter a preferência, é necessário respeitar a preferência do outro. Para entrar no círculo, primeiro é preciso reconhecer o direito do outro. A aceitação desse propósito, tal qual o juramento de um dever, habilita o condutor a ter a preferência assim que entra no círculo. Para se fazer merecedor do direito, é preciso cumprir com o dever de dar a preferência. Primeiro o dever, depois o direito.
A riqueza simbólica da rotatória não é por si só capaz de se transformar em realidade. Ela tem potencial para humanizar o trânsito, mas não o faz automaticamente. Ela inspira a meditação – atributo fundamentalmente humano – mas não tem o poder de humanizar o trânsito. Isso depende de cada pessoa que está ao volante. Cada vez mais, os motoristas se tornam invisíveis por detrás da película escurecedora colocada nos vidros da maioria dos carros. Não vemos a pessoa que guia o automóvel, mas o carro. A gentileza no trânsito é facilitada pelo olho no olho, pelo reconhecimento de que estamos nos relacionando com pessoas e não com coisas. É o olhar que permite a comunicação educada entre motoristas, facilitando tanto o gesto do “pode ir” como o ainda raro gesto do polegar para cima, como quem diz, “valeu, obrigado”. Chega de dizer que a camionete estava errada ou que o fusca estava imprudente. Que nos comuniquemos com a senhora da van e com o barbudo do táxi. Para isso, podemos sugerir que todos os retrovisores esquerdos dos automóveis sejam grandes e verticais como os de ônibus e caminhões. E que as películas escurecedoras sejam banidas dos vidros dos carros. Que o trânsito permita um relacionamento entre pessoas e não entre carros. A humanização do trânsito um dia há de chegar também à palavra. À linguagem simbólica, ela já chegou.
(*) Roberto Patrus é professor na PUCMinas, Belo Horizonte
Contato: robertopatrus@pucminas.br

Os limites do amor e da paixão!

28 de Set de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Nós tínhamos como vizinhos um jovem casal que brigava muito, em alto e bom tom. Certa vez ouvimos a mulher falar: “Agora chega! Você passou dos limites!” No dia seguinte encontramos os dois abraçadinhos na entrada do prédio. Lembrei do refrão do “Forró e Paixão” do Trio Virgulino:
“Será que é amor, não sei,
será que é paixão, talvez,
só sei que é bom de mais”
Fiquei pensando se aquela relação seria amor ou uma paixão intensa? Aliás, paixão é sempre intensa, aguda. Algumas pessoas dizem que quando a paixão perde a sua força, o amor se estabelece. Se este raciocínio está certo, qual seria o limite entre a paixão e o amor? Será que tem uma linha, ou algum indicativo, que permita as pessoas perceberem que deixaram de viver a paixão e estão vivendo o amor? Eu arriscaria dizer que, quando se troca um jantar romântico no dia do aniversário de namoro/casamento por comer pizza assistindo a novela, a paixão já deu adeus!
Mas o amor também tem seus limites. Se a perda do fogo da paixão é o limite superior, deve haver também um limite inferior. Aquele momento em que alguém diz: “Acabou!” Qual seria e como se chega neste limite inferior? A partir deste limite, a relação vira amizade ou inimizade, não é mais amor.
O amor acaba por um desgaste gradativo ou por uma ruptura. A ruptura é facilmente identificada: revelação de uma traição, uma decepção ou coisa parecida. Mas e o desgaste gradativo, como se identifica que chegou no limite? O enfraquecimento gradativo da relação ocorre por falta de retroalimentações. O casal esquece de como era o seu comportamento nos tempos de namoro, quando existia atração, desejo, respeito e um certo medo de perder o outro. Os namorados se preocupam em saber e fazer o que é importante para o outro. Se isto se perde ao longo do tempo, o amor enfraquece e se acomoda. Geralmente as separações ocorrem depois de ter passado do limite, sem perceber.
Os escritores costumam dizer que pessoas boas e relações tranquilas não geram boas histórias. Uma boa história precisa de conflito, de extremos, de paixão e de ódio, de disputas, de suspense e de revelações bombásticas. A vida das pessoas comuns geralmente não é assim. Talvez por isto é que os limites da paixão e do amor sejam mais claros na literatura, nas telas da TV e do cinema, do que na vida real. Fique ligado!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
A utilidade e o amor

28 de Set de 2014
Débora Löf Figueiredo (*)
Recebi um vídeo do Padre Fabio de Melo pelo whatsapp que me tocou muito. Já o ouvi várias vezes, é profundo demais, por isso, tomo a liberdade de compartilhá-lo com vocês:
‘A utilidade é uma coisa muito cansativa, você ter utilidade para alguém é uma coisa muito cansativa, tá certo, realiza, humanamente falando é interessante você saber fazer as coisas, mas eu acredito que a utilidade é um território muito perigoso, porque muitas vezes a gente acha que o outro gosta da gente, mas não, ele está interessado naquilo que a gente faz por ele. É por isso que a velhice é este tempo, que passa a utilidade e aí fica só o seu significado como pessoa. Eu acho que é momento que a gente purifica né, é o momento em que a gente vai ter oportunidade de saber quem nos ama de verdade, porque só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que depois da nossa utilidade, descobriu o nosso significado. Por isso, eu sempre peço a Deus sabe, sempre faço a ele a oração de poder envelhecer ao lado das pessoas que me amem. Aquelas pessoas que possam me proporcionar a tranquilidade de ser inútil, mas ao mesmo tempo sem perder o valor. Quando viver aquela fase na vida, ‘põe o Padre Fabio no sol, tira o Padre Fabio do sol, aí eu peço sempre a graça de ter alguém que me coloque ao sol, mas sobretudo alguém que venha tirar depois’. Alguém que saiba acolher a minha inutilidade, alguém que olhe pra mim assim, que possa saber que eu já não sirvo mais para muita coisa, mas eu continuo tendo o meu valor. Que a vida é assim minha gente, fique esperto. Se você quiser saber se outro te ama de verdade, é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Quer saber se você ama alguém, pergunte a si mesmo. Quem nesta vida já pode ficar inútil pra você, sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora.É assim que nós descobrimos o significado do amor, só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. Por isso, eu digo, feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir a fala que diz: ‘Você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você’.
Em algum momento de nossas vidas, às vezes, pode pairar na nossa mente, a dúvida, se vivemos uma relação utilitária para outro ou se realmente somos amados pelo que somos, como pessoa, do nosso jeito, com qualidades e defeitos, acertos e erros, coragem em determinados momentos e fragilidade em outros. Enfim, que este outro possa reconhecer o nosso significado, valor, a nossa essência. Isso sim é o que todos nós buscamos na vida, ser amados de verdade, na sua plenitude, seja na vida familiar, entre o casal, entre amigos. O importante é acreditar no amor, não desistir jamais, pois é ele quem impulsiona a nossa vida, que nos faz feliz, nos faz melhores, nos faz crescer… O verdadeiro amor deve trazer tranqüilidade ao outro, segurança e proteção, mas também respeito a individualidade do outro. O amor não pode anular a outra pessoa, a ponto de fazer com que ela não seja mais ela mesma. Ao contrário, só podemos ter o ‘nós’, quando formos cada um, uma pessoa única, com os seus pensamentos e convicções, com a sua maneira de agir, de encarar a vida, que nem sempre são iguais ao da outra pessoa. Devemos aceitar as diferenças para poder conviver quando há amor. Parece tão óbvio, mas se formos a sombra de outra pessoa, não seremos nós e por conseqüência, não estamos sendo valorizados pelo que somos. Assim, como o autor do vídeo, acredito que o que as pessoas mais desejam é terem a graça, (que Deus permita), de viver um amor verdadeiro, na sua plenitude. Isso é tudo! Que possamos nos imaginar ‘inútil’ para outra pessoa e mesmo assim, nos sentirmos amados, admirados, aceitos, pelo nosso valor.
(*) Débora Löf Figueiredo é funcionária pública e reside em Porto Alegre.
Contato: deboralf23@gmail.com
Alimentos – o fim do desperdício !

21 de set de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Conversando com um amigo que pesquisa a produção de suínos, fiquei sabendo que, no Brasil, já estão sendo utilizadas tecnologias sofisticadas no manejo de suínos. Em uma fazenda no interior de Goiás, cada suíno possui um chip na orelha. Eles recebem um treinamento para saber onde conseguir sua ração. Quando o suíno identificado como “suíno 3715” sentir fome, ele irá até uma baia e uma porta se abrirá mediante a sua aproximação, e fechará assim que ele entrar, de modo que não possa entrar mais de um suíno de cada vez na baia. Uma vez dentro da baia, um equipamento irá identificar quanto o suíno 3715 já comeu no dia e quanto ele ainda precisa comer. Só então liberará a quantidade necessária de ração, com os nutrientes prescritos para o suíno 3715. Se ele não comer tudo, a ração que sobrar, será oferecida na próxima vez que ele voltar na baia. Se este suíno não aparecer para comer durante um dia, um aviso será encaminhado para a sala de controle, informando que o suíno 3715 deve estar doente ou com algum problema, pois não se alimentou como deveria. O sistema oferece apenas o que o suíno deve comer e com desperdício zero de alimentos.
Se funciona para suínos, será que este sistema não funcionaria para os humanos? Descobri que a NASA está pesquisando algo parecido. Não sei os detalhes do projeto da NASA, mas fiquei imaginando como será o funcionamento. Um chip na orelha dos humanos seria facilmente burlado. Se os prisioneiros conseguem se livrar da tornozeleira eletrônica, imaginem o que não fariam com um chip na orelha? O ser humano será identificado pela leitura da sua retina ou algum outro mecanismo que não possa ser burlado. O rastreamento dos alimentos será do início ao final do seu ciclo de vida, desde a produção na lavoura até os seus nutrientes serem absorvidos pelo organismo humano.
Hoje, basta umas moedas ou um cartão de créditos para que as máquinas nos entreguem tantas e quantas porcarias quisermos. Podemos comprar nas máquinas: refrigerantes, café, salgadinhos e diversos outros tipos de alimentos. Como será nossa relação com uma máquina que não nos obedece? Que não nos entrega os alimentos que desejamos em troca de algumas moedas? Imagine você chegar na frente de uma máquina de refrigerantes e ouvir a seguinte mensagem: “Você já ingeriu muitas calorias no dia de hoje, não posso lhe fornecer mais nenhum alimento!”.
Num restaurante o garçom terá uma maquininha, semelhante as dos cartões de crédito, que fará a identificação do suíno, digo, do ser “humano BXKLY” e registrará o pedido Z, que conterá tantas substâncias do grupo A, tantas do B e mais tantas do grupo C. Se o pedido estiver dentro da cota permitida, a máquina irá autorizar e informar a central de controles de consumo alimentar global. Será tudo integrado. Todos os alimentos serão “temperados” com um pó, uma substâncias que causa efeitos semelhantes aos do contraste injetado em tomografias. A própria maquininha fará o “check out alimentar”, ou seja, fará um Raio X do estômago do cliente e irá certificar que o alimento pedido foi ingerido, bem como se houve ou não a ingestão de outros alimentos. Quando der o “bip”, aparecerá na tela o registro, que será encaminhado para a conta alimentar do ser “humano BXKLY”. Sair do restaurante sem fazer o check out alimentar, corresponderá aos dias de hoje, ao sair sem pagar a conta.
Os alimentos disponíveis nos supermercados terão um marcador que os acompanhará ao longo da sua vida e permitirá a sua rastreabilidade. Hoje o caixa do supermercado pergunta se queremos colocar o nosso CPF na nota fiscal. No futuro, ao passar pelo caixa, o ser “humano BXKLY” será identificado e as suas compras serão debitadas na sua conta alimentar. Ao abrir uma embalagem terá que usar a leitora alimentar pessoal para registrar o momento do consumo daquele alimento. Após ingeri-lo, novamente terá que aproximar a leitora alimentar pessoal do estômago, para registrar o encerramento da vida útil daquele alimento. Ou seja, será registrado que o alimento X, comprado no supermercado Y, encontra-se no estômago do ser “humano BXKLY”.
No futuro, os alimentos serão considerados patrimônio da humanidade. Quem comer demais ou desperdiçar alimentos estará cometendo um crime contra a humanidade. Haverá muito controle, muita tecnologia, tudo isto para fazer com que o cidadão do futuro não seja obeso e não desperdice comida. Em paralelo ao desenvolvimento deste sistema de controle, está em teste um método antigo, mas que os cientista acreditam que ainda possa funcionar. Eles acreditam que o ser “humano BXKLY” possa utilizar o seu cérebro para tomar as decisões sobre quais alimentos lhe fazem bem e qual a quantidade necessária para o seu bem estar. Se eles conseguirem despertar o cérebro do ser “humano BXKLY”, será adotado o sistema denominado de “educação alimentar”. Neste sistema, mesmo sem o controle de máquinas, o ser humano não irá comer junk food e nem tudo que der no seu dinheiro. Mas, caso falhe esta última tentativa, a tendência é que o ser “humano BXKLY” receba o mesmo tratamento do “suíno 3715”.
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS
Contato: nascimentolf@gmail.com
Alquimia da cozinha

21 de set de 2014
Adelaide Kreutz Pustai (*)
Desde pequena me sinto atraída pela cozinha. Talvez porque, no meu tempo de criança, a cozinha era um local de importante convívio familiar – não servia apenas para cozinhar. Era o local onde fazíamos todas as refeições em família. Quase sempre o fogão a lenha estava aceso, e era ao redor dele que acompanhávamos a mãe fazendo quitutes e o pai, à noite, nos contando histórias antes de dormir.
Entre os quitutes que a mãe preparava, os doces eram meus preferidos. As bolachas recheadas com coco eram um verdadeiro deleite, e eu tinha uma fissura pelo puxa-puxa de melado que ela fazia. Lembro que, quando tinha 8 ou 9 anos, achei que já poderia me aventurar a fazer esta guloseima, auxiliada por um dos meus irmãos que tinha apenas 4 ou 5 anos. Assim, lá fomos nós para a cozinha enquanto o pai e a mãe sesteavam. Só que eu não contava com o peso da caçarola de ferro e, ao tentar derramar o melado borbulhando em uma forma, um pingo gigante caiu no meu braço. Foram algumas árduas semanas para curar esta arteirice de criança.
Conto isto porque é uma das minhas primeiras memórias afetivas de incursões pela cozinha. Ainda bem que este pequeno acidente não me deixou traumatizada, porque, desde então, sempre me aventuro em meio às panelas. Minha mãe sempre teve (e continua tendo) a maior paciência para ensinar. Outra lembrança que guardo com muito carinho são as cucas que ela fazia no forno a lenha, no pátio dos fundos da casa. Fecho os olhos e, além de visualizar aquela fornada dourada de cucas, sinto o seu sabor maravilhoso. Nunca consegui imitar a cuca da mãe: este sabor será sempre inigualável.
Certa vez, o famoso chef peruano Gastón Acurio falou que o cozinheiro é um “caçador” de sabores. Achei esta definição perfeita, porque quem cozinha por prazer está sempre buscando o sabor que vai impactar o paladar daqueles para quem se está cozinhando.
Acho que a cozinha é um primoroso laboratório de sabores, aromas e “alquimias”. Quando preparo um prato, fico pensando: será que vai ficar bom? Impactar o paladar do outro despertando ou criando novas memórias, para mim, é o maior prazer. Aliás, sinto mais prazer e felicidade interior quando o que cozinheiagradou, do que prazer em saborear o prato que preparei. Estes são momentos que guardo na alma! Aliás, esta é a verdadeira cozinha da alma, onde fica implícita a celebração da vida, de bons momentos, do convívio, da alegria de estar com o outro, de partilhar. Observar as reações e o prazer que os sabores despertam são as gotas de felicidade que servem de energia para a vida.
Por estas razões que a cozinha e o ato de cozinhar acabam sendo um pontode encontro, onde a boa comida é como um abraço apertado, envolvente, trazendo conforto para os comensais. Não deixa de ser uma forma de carinho, carregado de uma certa magia. Acho que esta é a magia que vai contagiando os filhos e, quem sabe, perpasse gerações!
(*) Adelaide Kreutz Pustai é enfermeira e grande cozinheira.
Contato: apustai@yahoo.com.br
Piadas: para rir ou para discriminar?

– 14 de set 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Uma roda de amigos num bar, e lá tem alguém contando piada.
Um jantar chic, homens engravatados e mulheres de vestido longo, e lá tem alguém contando piada.
Uma conferência científica, e lá tem alguém contando piada.
Diria que as pessoas se dividem entre as que gostam de contar piadas, as que gostam de ouvir piadas e as que não gostam de piadas e de piadistas. Aliás, “piadista” é um termo que pode ser usado para elogiar ou para criticar alguém. Fulano é muito agradável, adora contar piadas, blá, blá, blá. Ou, Fulano, é uma pessoa desagradável, conta piadas, blá, blá, blá. Em qual deste grupos você se enquadra? E qual a sua opinião sobre os piadistas?
Você vai dizer que existem “piadas” e “piadas”. Existem piadistas engraçados e piadistas sem graça. Que precisa analisar o contexto, e mais…. Correto, são muitas as variáveis a serem consideradas. Observe que, mesmo nas rodas do bar, amigos tomando cerveja, é preciso que existam determinadas condições para se crie o “ambiente apropriado” para contar piadas e para todos rirem. Que condições são estas?
– alguém que inicie fazendo um link com alguma situação engraçada do momento, algo que foi dito na conversa. O piadista dirá: “isto me lembra o caso aquele,…ou a piada aquela do…” e inicia a sessão;
– se for apenas uma pessoa a contar piadas, a tendência é a sessão não dure muito. São necessários pelos menos duas ou três pessoas se alternando ao contar piadas;
– ter pessoas que gostam de rir e que soltam gargalhadas. Isto faz rir até quem não gostou do piada. Ou seja, se pode rir da piada, ou dos que estão rindo da piada;
– ajuda muito se tiver alguém que já conhece o piadista e o lembre das piadas que ainda não contou: “conta aquela do …”
As rodas de piada geralmente começam com piadas “de salão” e terminam com piadas pesadas, racistas, anti-éticas, sexistas, consideradas politicamente incorretas. A piada é uma sátira ou um exagero de alguma coisa. Mesmo as piadas “inocentes”, elas estão de alguma forma satirizando alguém. As piadas exploram temas conhecidos: se o piadista disser que vai contar uma piada de judeu, pode saber que será de algo relacionado a dinheiro. Se for de padre ou freira, será sobre sexo. Se for sobre papagaio, certamente terá algum palavrão. Se for do Joãozinho/Zezinho, vai ser falar dos pais ou da professora. Se for de português, irá mostrar alguma “burrice”. Se for de gaúcho, contado por alguém que não é gaúcho, chamará o gaúcho de veado. Se for contado por gaúcho, falará de algum ato de bravura do gaúcho ou sobre um pênis enorme. Todas exploram estereótipos.
A graça da piada não está na piada em si. Depende de quem conta e principalmente, do ambiente, das condições a que me referi anteriormente. Um bom piadista não faz rir pessoas que não estão dispostas a rir. Por isto é que, em determinadas festas, algumas mesas são organizadas para criar o ambiente para se contar piadas. Os organizadores destas festas escolhem as pessoas certas para estas mesas: uns dois ou três piadistas, pessoas que gostam de rir e alguém engraçado para, no meio das piadas fazer relações exóticas, contar histórias pessoais que, embora não sejam piadas, façam todos rirem. Tudo perfeitamente planejado, porque uma festa em que muitas pessoas riem, será considerada uma festa boa, inesquecível!
Por outro lado, existem pessoas que não gostam de piadas bagaceiras, discriminatórias, sexistas, etc, e argumentam que contar este tipo de piadas é reforçar os preconceitos. Eu acho que contar piadas é como a criança que brinca de mocinho e bandido. Ela dá um tiro com a boca e diz: “te matei”. Se sabe que aquilo não é verdade e não acredito que tenha consequências futuras. Quem conta piada não acredita na história que está contando.
Será que em breve haverá penalidades para quem contar piadas politicamente incorretas? Quais as piadas que serão permitidas? Quem irá definir isto? Quer saber, na minha opinião, devemos combater toda forma de discriminação, mas continuar contando piadas politicamente incorretas, sabendo que a piada é apenas uma forma de provocar o riso, sem ofensa. Não me sinto agredido quando alguém conta piada de gaúcho veado. Até porque, se me ofender, eu é que estarei fazendo a discriminação. Temos que ter a capacidade de diferenciar quando alguém diz algo para agredir e quando está brincando. Se não for assim, a vida vai ficar muito chata, sem graça. De acordo? Deixe seus comentários no blog.
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Risos e Sorrisos no Trabalho

– 7 de set 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Duas fotos de um grupo de pessoas em volta de uma mesa. As mesmas pessoas, com as mesmas roupas, no mesmo ambiente, tudo igual. A única diferença é que na primeira foto, todas as pessoas estão sérias e o ambiente parece pesado. Na segunda, estão todos rindo e o ambiente parece descontraído. Qual delas representa um local de trabalho? Obvio que pessoas sérias estão trabalhando e que as pessoas rindo estão num momento de happy hour, porque riso e descontração não combinam com ambiente de trabalho!!!
Por outro lado, se perguntarmos para as pessoas, se elas tivessem a opção para trabalhar num local onde as pessoas são sérias e o ambiente é formal, ou num local onde as pessoas sorriem, brincam umas com as outras e ambiente é descontraído, qual ambiente elas escolheriam? Obvio a maioria das pessoas preferiria um ambiente mais descontraído.
Logo, a foto de ambiente de trabalho sério e formal, é que não combina com o ambiente de trabalho desejado pela maioria das pessoas. O mesmo ocorre com as salas de aula e nos ambientes acadêmicos. Nestes ambientes, é comum ouvir alguém dizer frases como: “Aqui não é local para brincadeira”, “eu estou falando sério”, “tu estas brincando comigo!”, “Vão acabar com esta chacrinha!”. Estas e outras expressões demonstram que o “sério” e o “formal” representam o trabalho, a produção de alguma coisa útil e importante. A “brincadeira” e o “riso” representam um desvio do trabalho, uma ineficiência, algo que atrapalha o atingimento dos objetivos daquela atividade ou da organização.
Existem exceções. As indústrias criativas e algumas escolas propiciam ambientes descontraídos e estimulam que as pessoas trabalhem/aprendam/produzam como se estivessem num ambiente de lazer. Estas organizações acreditam que a criatividade e a inovação precisam deste tipo de ambiente e que, pessoas alegres, que tenham motivos para rir, são mais produtivas. Assisti uma palestra de um especialista em que ele falava da importância do riso na sala de aula para aumentar a aprendizagem dos alunos. Hoje tem muita gente falando da importância do riso, terapia do riso, riso é o melhor remédio, etc. Dizem que rir é de graça, não tem efeitos colaterais, está disponível para qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar e, não precisa de nenhum equipamento. O pesquisador Sushil Bhatia criou o “Clube Americano do Riso” e lançou o livro “Laughing Your Way to Fitness with Yoga and Meditation (and that’s no joke).”
Por que então algumas pessoas não gostam de rir? Você conhece alguém que não ri? Eu conheço uma pessoa há muitos anos e nunca a vi dar uma risada, no máximo um sorriso, que mais parece um espasmo facial. Me pergunto se esta pessoa não tem motivos para rir ou se ela se policia para não fazer isto e manter a sua imagem de pessoa séria?
O brasileiro tem a fama no exterior de ser um povo alegre e descontraído, mas não é isto que se vê em muitos ambientes. Participei de um evento científico em que a Coordenadora anunciou: “este é um evento alegre” e criou situações para as pessoas rirem. Foi um sucesso! Quem participou, quer voltar, pois se tornou um evento em que os participantes apresentam os resultados das suas pesquisas, interagem, tudo com muito bom humor e num ambiente descontraído.
A pergunta é, risos e sorrisos no trabalho são só para as indústrias criativas e para eventos como o Ecoinovar, ou podem se estender para outros ambientes? Podemos rir e sorrir nos nossos ambientes de aprendizagem ou só em algumas disciplinas? Existe um limite? E não existe um limite para ser sério e chato? Bem, se nem todos gostam de rir e sorrir, temos que respeitar a maneira de ser de cada um. Mas, temos o direito de, sempre que possível, escolher os ambientes e as pessoas com quem conviver. Cada um com a sua turma e todo mundo feliz ao seu modo, sério ou brincando.
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com



O Dente Perdido

– 7 de Set 2014
Ricardo Dunker (*)
Lembram da história do tio Ari, o tio doido? Aquele que usava alho como remédio para todos os males e que lavava o cabelo com vinho? Pois o tio Ari é casado com a tia Ane (**), que para dar certo com ele, não poderia ser muito diferente dele. A tia Ane é uma mulher que adora ser bem tratada e sente-se uma rainha quando o marido lhe prepara uma suculenta cabeça de porco no forno à lenha, acompanhado de um copo de vinho tinto suave colonial.
Como qualquer casal que está junto por muito tempo, o tio Ari e a tia Ane, eventualmente trocam farpas, brigam um pouco e às vezes lançam aquela indireta um para o outro na frente dos convidados, mas tudo muito civilizado, afinal, ela é uma pessoa muito religiosa e teme que Deus pode estar vendo o que ela faz.
Certa vez a tia Ane adotou um, nem um pouco discreto, hábito de mastigar a comida com os dentes da frente. Não que lhe faltassem os lá do final do corredor, é que ela também tinha as suas teorias, e uma delas é que os dentes da frente eram mais fortes dos que os dentes de trás. Almoçar sentado na frente dela, não era a coisa mais recomendada.
Uns dois meses antes da partida do tio Ari para o Mato Grosso, num fim de tarde qualquer, estavam o tio Ari com a tia Ane na varanda de casa comendo pipoca e tomando chimarrão. Enquanto um comia pipoca, o outro tomava chimarrão e depois trocavam.
Sentada numa cadeira, a tia comia a pipoca e cuspia (sim, cuspia) a parte do milho que não estourava para as galinhas que ficavam na volta. Era quase uma dúzia delas. De todas as cores, tamanhos e temperamentos. Desde a mais calminha até a mais gritona e espalhafosa.
Num desses arremessos à distância de grãos de pipoca não estourados, a tia Ane viu que cuspiu algo brilhoso, que não era grão de pipoca, mas não teve tempo de conferir, pois o tal objeto brilhoso foi imediatamente engolido por uma galinha. Ela logo se deu conta da falta de um dos dentes da frente. Apavorada, pulou da cadeira e jogou o pote cheio de pipoca para o alto e gritou para o tio Ari:
– “Naaarrrr, Ari, meu tente! A calinha cumeu!”
– !?!?!?!?. Pensou o tio.
– “Foi aquela ali!” Apontou, sem dúvida alguma, para a mais calma das galinhas.
A galinha, por sua vez, pensou:
– “Có, có. Me fú! Có, có.”
Numa tentativa inútil, a galinha foi saindo de mansinho, disfarçando e ciscando atrás de uma minhoca qualquer para que figurasse a sua inocência. Mas não foi convincente, pois em poucos segundos foi pega pelo tio Ari, que num golpe seco destroncou o pescoço e findou-se ali mesmo a breve vida daquela trombadinha.
Com a chaleira do mate numa mão e a galinha desfalecida na outra, o tio Ari foi em direção do tanque de lavar roupas com o intuito de depenar a trombadinha e recuperar o dente roubado. Em meio às penas e à água quente, uma nuvem negra pousou sobre a cabeça do tio:
“ Qué sabê, daqui dois meses vô ta lá no Mato Grosso, aquela lá passou anos enchendo meu saco… é hoje que deixo essa velha banguela!”
Mas de novo apareceu Deus. Bateu o medo de um castigo e ele achou melhor não fazer isto. O cultivador de alhos voltou atrás e abriu a galinha até recuperar o dente da dedicada esposa. De volta à varanda e com o dente em mãos, ele lhe entrega o dente limpinho e escovado e recebeu um obrigado.
Não satisfeita, a tia Ane pediu mais um favorzinho:
– “Me pega lá na xeladera o bonder”.
– “O bonder!?!?”
– “Ahãm, o bonder. Vô tê que repetir? O bonder!“ Disse a esposa, que a essa altura, já tapava a boca com a palma da mão para que o marido não a enxergasse sem um dos dentes.
O tio Ari foi e voltou da cozinha sem entender muito bem o que a tia poderia querer com uma cola super bonder numa situação como aquela, mas sem deixar de pensar:
– “Ahhh, porque não deixei o dente cair no ralo do tanque?”
– “Segura esse espelho!” Ordenou a esposa.
Com dois pingos de bonder ela resolveu ali mesmo toda a história. Colou o dente de volta e pressionou por um meio minuto contra o céu da boca. Depois bateu as mãos e disse: “feito, qué mais pipoca?”
Sem acreditar naquela cena, que era forte até mesmo para o próprio tio Ari, só lhe restou sentar no banquinho e tomar o resto do chimarrão com a água havia sobrado do depenamento da galinha. E enquanto esperava uma nova bacia de pipoca, pensava: “ma que muié”.
Reza a lenda que, hoje em dia, quando a tia Ane sai de casa, leva consigo, em sua bolsa, muitas coisas que todas as mulheres levam: carteira, batom, lenço, escova, espelhinho e … por prevenção, um tubo de Super Bonder!
** o nome original da Tia em questão foi trocado para evitar possíveis retaliações ao sobrinho dedo duro.
(*) Ricardo Dunker é educador físico.
Contato: ricardodunker@yahoo.com.br
Jovem ou Idoso – quem você escolhe para lhe prestar um serviço?

– 31 Ago de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)

A resposta para esta pergunta provavelmente seriam várias perguntas do tipo: “depende do serviço”, “depende da qualificação”, “depende disto ou daquilo”. Eu explico a razão da pergunta! Certo dia eu estava na fila dos Correios e percebi que o caixa, um senhor com cabelos grisalhos estava indignado com o seu computador. Dizia ele: “De novo! Toda vez que aparece este “off” na tela, não funciona mais nada!” Uma jovem na minha frente virou-se e, falando baixinho me disse: “cabelo branco e computador não combinam!”. Curiosamente, poucos dias depois entrei num avião e ouvi um comentário contrário. Os pilotos estavam na porta da sua cabine cumprimentando as pessoas que entravam. Logo após passar pelos pilotos, ouvi o comentário de um casal: “você não achou muito novos estes nossos pilotos? Eu preferia um mais grisalho!”
A conclusão poderia ser de que um jovem é mais confiável para ser caixa nos Correios e um grisalho, leia-se alguém com mais de 50 anos, é mais confiável para pilotar um avião! Se fosse correta a afirmação de que “computador não combina com cabelos brancos”, esta conclusão seria ilógica, pois sabe-se que pilotar um avião exige mais intimidade com a tecnologia do que pilotar um caixa nos Correios!
Comecei a pensar sobre a prestação de serviços em outras atividades. Considerando dois profissionais com a mesma capacidade, um com 30 e o outro com 60 anos, qual deles você escolheria para lhe prestar os seguintes serviços?
– Médico – para lhe examinar diante da suspeita de uma doença grave?
– Professor – de disciplinas como de línguas, filosofia, literatura? E se as disciplinas fossem de computação, design, jogos criativos?
– Motorista – para levar seus filhos ao colégio?
– Babá – para cuidar dos seus filhos pequenos?
– Personal Trainer – para lhe ajudar a manter sua boa forma física?
– Técnico – para consertar seu computador?
Se fizéssemos uma enquete com um grande número de pessoas, provavelmente a preferência fosse por um médico mais experiente e por um professor de computação, design e jogos criativos, mais jovem. A conclusão novamente seria de que, para atividades que exigem experiência, “mais horas de voo”, confie em alguém com cabelos grisalhos. Para atividades que exigem mais intimidade com as novas tecnologias, confie num jovem. Interessante observar que, a valorização de profissionais como pilotos, está muito associado a sua experiência prática. Ninguém está interessado se o piloto estudou na melhor escola de aviação ou se ele é o chefe dos pilotos, o que importa são as horas de voo, a sua experiência com aquele tipo de aeronave. Um jovem muito competente não terá as horas de voo do piloto grisalho.
Obviamente estas conclusões são superficiais, mas servem para provocar uma reflexão sobre o papel dos grisalhos no futuro? Considerando a tendência de que homens e mulheres, elas grisalhas mas com cabelos de todas as cores, se aposentam e continuam trabalhando, pergunto: No futuro, que tipo de trabalho será realizado pelos “grisalhos”?
Recentemente conheci o Prof. Claude Machline, aposentado na FGV, e com seus 92 anos, continua com muita vivacidade, com boa visão e audição, e vai todos os dias trabalhar na universidade. Ele estava num congresso apresentando um artigo e nos falou dos seus planos de pesquisas futuras. Certamente ele é uma exceção. Será que nas próximas décadas, alguém com 92 anos conseguirá falar algo de novo para os jovens de 20 a 30 anos? Os grisalhos vão conseguir acompanhar a velocidade das inovações, das novas tecnologias e da produção de conhecimento?
Li que a “neuróbia” – uma espécie de aeróbica para o pensamento – é capaz de treinar o cérebro. Dizem que muitas pessoas aposentam o cérebro antes mesmo de se aposentar e que precisamos “malhar” o cérebro. Os resultados das pesquisas do Instituto do Cérebro (InsCer) mostram que, quando fazemos algo que nos dá prazer, ativamos as conexões neuronais. Fazer as coisas com paixão, é a melhor forma para aumentar a nossa vida útil.
Enfim, são muitas dúvidas sobre o futuro, mas espero que sejamos feliz o suficiente para nos mantermos ativos, produtivos e com ideias claras como nossos cabelos!

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
A fila anda

– 31 de Ago de 2014
Rosane Augustin Mendes (*)

A vida da gente é dividida em capítulos: “Capítulo Faculdade”, “Capítulo Estágio”, “Capítulo Morando Sozinho”. Cada um deles com seus próprios desafios e prazeres. A gente vai mudando, vai adicionando tarefas na nossa rotina e quando percebe, estamos em um capítulo novo da nossa própria história. Assim, eu fui me aproximando do capítulo “Aposentadoria”. E tinha algo sobre esse capítulo que me deixava bem desconfortável.
Quando se está perto da aposentadoria acontece um fenômeno curioso. Você é o funcionário mais experiente, especializado como nenhum outro em sua função. Já dominou (e inclusive criou) muitos dos processos da empresa e sente que nenhum desafio ali é capaz de te intimidar. Mas não é assim que os seus colegas te vêem. Aos poucos, reuniões começam a acontecer sem você. Decisões importantes são tomadas sem você. Quando chega um funcionário novo eles te apresentam dizendo: “Essa é a Fulana, vai nos deixar, está se aposentando”. E a partir disso, esse funcionário nem te vê mais como um colega, para ele você está só ocupando espaço – porque na prática, você já saiu.
A sensação de rejeição vai tomando conta. Você se sente desvalorizado. E percebe que para muitas das pessoas ali, o “Capítulo Aposentadoria” poderia muito bem ser o último capítulo. Isso vai entrando na cabeça da gente de forma muito dolorida. A insegurança de não saber o que fazer depois, o medo de acabar não fazendo mais nada. Foram momentos difíceis de administrar.
E foi aí que percebi que eu mesma estava vendo essas mudanças da forma errada. Era eu que estava me despedindo da empresa, não o oposto. A eles não restava outra opção: logo uma pessoa nova estaria no meu lugar. A fila anda. E com ela, eu devia andar também. Entregar-me ao desânimo e à insegurança não era mais uma opção, afinal, eu nunca fui assim! Decidi que faria disso uma oportunidade. E fiz.
Tendo trabalhado a vida inteira com Tecnologia da Informação, já estava farta disso. Não queria mais saber de usuários. Queria clientes! Fui para a internet e comecei a buscar informações sobre as coisas que eu realmente gostava de fazer. Sempre adorei mexer com madeira, cores, decoração, criatividade. Era com isso que eu me envolvia no tempo livre. Encontrei um curso tecnólogo em Design de Interiores em uma faculdade particular e a sensação de desvalorização foi dando lugar a euforia de um novo começo.
Comecei a estudar um ano antes de me aposentar. Como todo começo, tive dificuldades e me deparei com desafios que ainda não conhecia – muitos impostos por mim mesma, pois ainda me sentia muito velha para estar em sala de aula. Pura bobagem! Fui vencendo cada nova etapa, aprendendo muito e fazendo novas amizades. Conheci pessoas maravilhosas, como a Cláudia, Neida, Neiva e Patrícia – que nunca estariam no meu caminho se eu não tivesse decidido lutar por mim mesma. Essas descobertas abriram meus horizontes, me trouxeram ideias que jamais teriam me ocorrido não fosse essa virada em minha vida.
Hoje estou aposentada há um ano e vou colar grau daqui a quatro meses. Tudo foi muito rápido e gratificante. Estou totalmente realizada na minha nova profissão, me sentindo jovem aos 54 anos e pronta pra começar um capítulo novo na minha vida. E a fila, anda.

(*) Rosane Augustin Mendes é Técnica Aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Contato: Rosane.Mendes@ufrgs.br

Tu não tens vergonha?

– 24 Ago de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Certamente alguma vez você já ouviu alguém dizer: “tu não tens vergonha?”. Ela parece ser uma pergunta, mas na verdade é uma afirmação, uma crítica à alguém. Um dos significados do “tu não tens vergonha?” seria: “como tens coragem de fazer isto?” ou, “eu jamais faria isto!” A crítica é feita para alguém que fez algo que não é o esperado, ou algo que é considerado ruim, feio, ridículo. Por exemplo, se alguém usar uma roupa fora do seu estilo ou adotar algum comportamento inesperado, vai ouvir de alguém o “tu não tens vergonha?”. Esta é a expressão utilizada pelos amigos e pessoas íntimas, que de alguma forma se sentem incomodadas com tal procedimento. Pode ser utilizada no sentido de proteger a outra pessoa, de aconselhá-la para evitar críticas, “passar vergonha”.
O temor de ouvir um “tu não tens vergonha?”, faz com que deixemos de fazer algumas coisas que gostaríamos de fazer, mas que temos uma certa insegurança. Quando numa festa alguém convida: “vamos dançar?” e ouve a resposta “eu não estou a fim”, não significa necessariamente que a outra pessoa não gostaria de dançar. Ela pode estar “a fim”, mas com vergonha, medo de se expor. Algumas pessoas superam este temor quando mudam de cidade, de país, ou mesmo de amizades. Quando estão longe das condições que o pressionam, então criam coragem para fazer o que gostariam de fazer.
Tenho um amigo que adotou como lema para a sua vida o “vai lá e faz”, o que significa: “não dá bola para o que os outros pensam”, “acredita em ti”, “não fica aí só pensando/reclamando”. O “vai lá e faz” é o oposto ao “Tu não tens vergonha?”
Mas por que estou escrevendo isto? Porque eu também deixei de fazer algumas coisas temendo passar por ridículo, por “ter vergonha”. Por muito tempo tive vergonha de divulgar os textos que eu escrevia, pois não os considerava bons o suficiente para publicá-los. Sempre gostei de música e quando guri tentei aprender a tocar violão e percebi que não tinha talento para tocar e cantar. Passadas algumas décadas, resolvi aprender a tocar teclado. Graças a paciência da minha professora Adriana, aprendi a tocar o “Pica Pau”. Minha vontade não era exatamente aprender a tocar, mas queria entender como se compõe uma música? O que vem primeiro, a letra ou a música? Como faz para ajustar as rimas com as notas musicais? Um certo dia surpreendi a professora ao dizer que eu gostaria de compor uma música. A resposta de qualquer outra pessoa seria: “então aprenda primeiro a tocar!”. Mas a Adriana tomou isto como uma oportunidade de me ensinar novas coisas. Abandonamos o dó-ré-mi-fa-sol-la-si e passamos a pesquisar sons que eu gostava, analisar músicas, e brincar com o “som que combina bem com aquela sílaba”.
Resultado, destas aulas já saíram algumas canções, numa parceria onde a Adriana contribuiu com 99% para a composição da música e eu tive uma maior participação na produção do texto. Compor não é tão difícil quanto mostrar nossas composições para os outros. Quando fizemos uma música que exigia duas vozes, imediatamente passei a pensar em que poderia convidar para fazer a voz masculina.
Vocês já ouviram a voz de vocês numa gravação? Geralmente a gente acha a voz mais feia do que imaginamos, não é mesmo? Mais um motivo para termos vergonha para não gravar uma entrevista ou não cantarmos em público. No caso das minhas aulas de teclado, não teve outro jeito, tive que superar a vergonha da exposição e cantar para poder mostrar a música.
Deixo claro aos amigos que não pretendo tentar a carreira de cantor ou compositor, isto tudo é apenas um hobby, mas que me dá muito prazer em conseguir fazer algo que por muito tempo eu achei que eu não teria capacidade de fazê-lo. Eu não sei ainda o que vou fazer com estas composições, mas espero que elas sirvam para ajudar alguém. E, assim como os contos, crônicas e poesias, resolvi divulgar as músicas que estamos compondo.
Convido você para verem o clip da composição “Somos muito diferentes”, postado no Youtube (http://youtu.be/GIpWiwGtk24). Um forró para acabar com a vergonha de dançar. O clip contou com a participação de dois amigos corajosos, Bárbara e Adriano, que aceitaram fazer uma maquiagem e fazer umas fotos, interpretando o namorado que é “meio feioso, mas é fofo, querido e carinhoso” e o seu amor, que “é tudo de bom, mas só pensa em rímel e batom”.
Pronto, falei! Agora já estou preparado para ouvir alguns “tu não tens vergonha?”

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Somos muito diferentes

– 24 Ago de 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
“Somos muito diferentes” é um forró gostoso que mostra que as diferenças não são suficientes para separar os que se amam, pois o amor é cego e surdo. Com letra de Luis Felipe Nascimento e música de Adriana Santos, o clip contou com a participação dos atores Bárbara Basso e Adriano Santos. Mais uma produção caseira de pessoas que fazem música para se divertir e compartilhar com os amigos.
Assista o clip da música em http://youtu.be/GIpWiwGtk24
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Deus, o Diabo e a Comida

– 17 de Ago 2014
Luis Felipe Nascimento (*)
Deus utilizou da melhor tecnologia disponível de hard e de software para desenvolver o projeto “homem”. A rede neural instalada no homem impressionou a todos, pois foi realmente revolucionária. Era um projeto inviolável, que nem um hacker como o Diabo conseguiria invadir.
O projeto era tão perfeito que permitia que o próprio homem produzisse o seu próprio combustível (cultivar os alimentos), não precisando viver só da caça, da pesca e do extrativismo. O homem poderia produzir e consumir alimentos saudáveis para alimentar o seu corpo. Poderia produzir calçados e vestuário para se proteger das condições climáticas. Poderia construir abrigos, não dependendo mais das cavernas, ou ter que subir numa árvore para se proteger dos seus predadores. Vejam como este projeto foi de vanguarda, pois ainda hoje não temos robôs que consigam produzir energia para o seu funcionamento. Não conseguimos ainda desenvolver o movimento contínuo, algo que ande sozinho.
O antagonismo entre Deus e o Diabo é muito antigo. O Diabo adora estragar as criações de Deus. Percebendo que o homem tinha a capacidade de discernir o certo do errado, o bom do ruim, o Diabo se desesperou! “Como vou conseguir estragar esta criatura?”
Deus, prevendo que o Diabo não iria se dar por vencido, chamou de “pecado” tudo o que viesse do Diabo e avisou o homem para não pecar. O Diabo reuniu seus assessores, analisou detalhadamente o projeto homem e percebeu que este era uma evolução do macaco, e portanto deveria ter mantido algumas características do projeto anterior. Logo, o homem deveria gostar de copiar o que os outros fazem, assim como fazem os macacos.
O homem, tanto na versão masculina como na feminina, era saudável e feliz com as suas características físicas, não existia um padrão único de beleza.
Foi então que o Diabo organizou um desfile com mulheres magérrimas e homens musculosos e passou a divulgar que aquele era o novo padrão de beleza universal! Quem quisesse ser bonito, teria que ter aquele padrão. O desejo de copiar logo se manifestou nos homens e mulheres. O Diabo aproveitou o momento e lançou produtos para perder peso em poucos dias e ficar com o corpo dos “seus” sonhos. Quem seguir a receita, vai ficar igual a moça da novela e ao saradão que aparece sem camisa! Os demais serão feios e fora de moda.
O projeto teve sucesso e muita gente passou a comprar os produtos recomendados. O Diabo resolveu então incrementar o seu negócio e criou os alimentos junk food (porcaria), que fazem as pessoas engordarem, para depois oferecer tratamentos para elas emagrecerem. Para confundir a capacidade de discernimento do homem, passou a desenvolver produtos que parecem bons, mas são ruins. Todo produto bom, tem alguma coisa que não é tão boa. O Diabo identificou os pontos fracos dos produtos bons e mostrou que aquele produto saudável, ecológico,… não era tudo aquilo que se imaginava e que também causava tais e tais danos. Depois de algum tempo, ninguém mais sabia o que era bom ou ruim, se desconfiava de tudo. Então recomendou, na dúvida, consuma o que está na moda.
Vendo a jogada do Diabo, Deus reuniu os seus assessores para discutir o que fazer? Surgiram várias propostas. São Pedro sugeriu que só entrasse no céu quem estivesse fora do padrão da moda. Proposta esta logo rejeitada, pois alguém lembrou que os que estão na moda também são filhos de Deus. Reconhecendo a gravidade da situação, Deus chamou o Expedito, o Santo das causas impossíveis, e pediu uma sugestão. Santo Expedito pensou, pensou e disse: por que o Senhor não usa a mesma estratégia do Diabo? Deus fez cara de “como assim?”. Santo Expedito explicou: Ora, lance a moda do ser feliz com novos valores, de consumo colaborativo, de vida saudável, pregue a preservação da natureza e a sustentabilidade, … Deus retomou a palavra: Humm! Interessante! Mas primeiro eu vou consultar o Chico e o Ban Ki-moon e pedir uma nova avaliação da situação, depois voltamos a discutir.
Do fundo da sala ouve-se uma voz de um Santo: “Novos valores? Consumo colaborativo? Com o homem de hoje? Quero ver para crer!”
Outra voz responde: “Primeiro tens que crer, para ver!”

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Deu errado! E agora? O que é que eu faço?

10 de agosto de 2014:

Luis Felipe Nascimento (*)

Na vida, sempre algo vai dar errado e nós teremos que fazer alguma coisa nestas horas. O brasileiro tem a fama de sempre “dar um jeitinho”, de ser criativo para resolver problemas. Mas será que a nova geração conserva esta habilidade? Fiquei surpreso ao ver a reação de um adolescente quando o professor explicava que a bússola ajuda quem está perdido a se localizar. O aluno comentou: “seu eu estiver perdido, ligo e meu pai vai me buscar!” Isto foi uma brincadeira, mas revela como a juventude encara as dificuldades, como ela reage frente a algo que “deu errado”.
Antigamente, no interior do Rio Grande do Sul, costumava-se dizer que um homem com um alicate e um rolinho de arame resolveria qualquer problema. Obviamente que os problemas de hoje estão mais complexos, mas continuam exigindo criatividade e capacidade de improvisação. A improvisação não é coisa do passado. Dizem que, se você convidar um(a) alemão/ã para ir ao cinema e combinar o encontro na frente do cinema, e não aparecer no exato horário marcado, esta pessoa ficará sem saber o que fazer. Possivelmente não entre no cinema e vá para casa muito brabo com você. Ou seja, um povo que tem a fama de fazer tudo certinho e pouca capacidade de improvisar.
Muitas vezes a capacidade de improvisar é usada para burlar as regras. Certa vez uma equipe de futebol excursionava pela Europa e os jogadores perceberam que as fichas usadas nas máquinas de refrigerante e lanches de um hotel eram do tamanho de uma tampa de garrafa, e então passaram a fabricar fichas congelando água. Resultado, o hotel não entendeu como houve consumo sem fichas, mas passou a conta para os dirigentes do clube. Não é deste tipo de improvisação que me refiro.
Relato a seguir dois exemplos de improvisações que ouvi de amigos, que ilustram esta capacidade dos brasileiros com mais de 30 anos. Um amigo estava no exterior e tinha o endereço para onde iria no seu celular. Quando chegou na cidade, percebeu que não tinha mais carga na bateria e que ele havia esquecido o carregador do celular. E agora? O que é que eu faço? Ao passar por uma barbearia, viu um telefone semelhante ao seu conectado na tomada. Não teve dúvidas, entrou para cortar o cabelo e pediu para o barbeiro lhe emprestar o cabo para carregar o seu celular enquanto ele cortava o cabelo. Problema resolvido!!!
Outro caso curioso foi de uma amiga de um amigo que, estava no metrô em Nova Iorque indo para assistir um show na Broadway, quando resolveu tirar o sapato apertado. Na hora de sair, alguém chutou o seu sapato, que saltou pela porta e caiu no trilho. E agora? O que é que eu faço? Mesmo estando com só um pé de sapato, a pessoa não desistiu de ir ao show. Passou numa farmácia, comprou uma atadura e entrou no teatro mancando, com o pé enfaixado, como se tivesse machucado o pé. Recebeu tratamento privilegiado. Problema resolvido!!!
Não vejo mais esta capacidade de improvisação na juventude de hoje. Me parece que eles estão mais parecidos com os alemães do que com os brasileiros que viveram numa época em que a vida era mais difícil, em que não existia Google, celular e as facilidades de hoje.
Será que as facilidades inibem a criatividade e a capacidade de improvisação? As escolas e universidades deveriam ensinar seus alunos a improvisar, a resolver problemas de forma criativa. Os alunos, com diferentes idades, precisam passar por situações em que se perguntem: “E agora? O que é que eu faço?”
Fora das escolas e universidades, conheço pessoas que exercitam a improvisação. Muitos de nós já assistimos shows de improvisação em que o público escolhe uma palavra e os artistas improvisam, contam uma história com esta palavra. Alguns treinamentos de executivos são utilizadas técnicas em que os expõem a situações que exigem improvisações. Existem experiência interessantes, mas elas não fazem parte da forma de ensinar tradicional. A escola, universidade e também os pais, poderiam criar situações para que nossas crianças e adolescentes vivenciassem situações que lhes exigissem improvisações e soluções criativas. A educação de hoje os torna eles cada vez mais “Google dependentes”. Diante do “deu errado”, eles ficarão na frente do cinema sem saber o que fazer, ou vão ligar para o pais irem buscá-los. Se desenvolver a capacidade de improvisar é importante para enfrentar os problemas da vida, por que não fazemos isto?
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Se caminhar, não navegue!

3 de agosto de 2014:

Luis Felipe Nascimento (*)
Hi, eu sou Tony, estou indo para o trabalho e escrevendo esta mensagem para vocês. Faço sempre isto, aliás, faça isto desde que comecei a caminhar, não largo nunca o celular da mão. Quando estou longe do celular, me sinto inseguro, não sei o que fazer com as mãos.
Hoje estou feliz, pois estou voltando a trabalhar. É o meu primeiro dia após meu último acidente. Sim, foram vários acidentes com o celular na mão,… deixa eu ver… péra ai, agora estou entrando no bus…. continuando… o primeiro foi aquele que eu cai na escada, depois fui atropelado ao atravessar a rua com o sinal fechado e… este último, o que eu, caminhando, atropelei uma velhinha cadeirante. Felizmente nós dois tivemos ferimentos leves.
Bueno, na verdade, a culpa dos meus acidentes foi da tecnologia. Não, não! Não foi do celular! Tudo isto não teria acontecido se já estivesse disponível a nova tecnologia para celulares, conhecida como best friend (melhor amigo), que vai orientar o pedestre que caminha navegando. Será tipo um GPS, que irá informar os buracos, obstáculos e se tem alguém na minha frente ou se aproximando para me ultrapassar.
Com a tecnologia best friend meus problemas acabaram! Além das funções já existentes, o celular permitirá que eu navegue enquanto caminho, enquanto dirijo e até mesmo enquanto tomo banho. Mas o mais inovador é a sua capacidade de responder perguntas e de dar conselhos. Por exemplo, posso perguntar qual a roupa que deve vestir? Ele, após analisar as condições climáticas e a minha agenda para aquele dia, vai me dizer a roupa mais adequada, e ainda vai informar a última vez que eu a usei e quem me viu com ela. Humm… a próxima parada é a minha, tenho que descer do bus, mas vou continuar escrevendo enquanto caminho.
Não sei se faço isto ou aquilo? O best friend vai me dar um conselho! Ele vai mostrar as alternativas, custos e consequências de cada escolha, bem como qual seria a minha escolha se eu tomasse a decisão por impulso ou de forma racional.
Hoje, muita gente fica num bar, junto com a galera, e mandando mensagem para os amigos que não estão no bar. Com a tecnologia best friend tudo vai ficar mais simples. Posso estar sozinho em casa, ou no bar, bebendo uma cerveja e conversando com o meu celular. Para tanto, basta eu escolher o tema da conversa e o timbre da voz que vai bater papo comigo, que pode ser de um amigo meu ou de uma celebridade.
Cara, se você acha isto ficção, então aguarde a geração que virá depois desta, que está sendo desenvolvida e levará o nome de Brain Replace(substituição do cérebro), que irá assumir funções hoje exercidas pelo nosso cérebro… bii-biii…. putz, não vi este carro quando atravessei a rua. Faltam duas quadras, tenho que terminar este texto antes de chegar no trabalho.
Portanto, esta é a última geração que usou o cérebro, que caiu num buraco enquanto navegava e que conversou com um amigo enquanto tomava uma cerveja. Logo logo, tudo isto será coisa do passado! A gente vai poder se comunicar a todo o momento e não vai mais esquentar a cabeça, vai ser…. Hei! Cuidado! Plaft!

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Foi um engano lamentável!

27 de julho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Imagine alguém enviando uma mensagem com o seguinte conteúdo: “Abatemos o avião onde estava a sua família, desculpe, foi um engano lamentável!” Como os familiares e amigos das 298 vítimas do MH17 (Malaysia Airlines) deveriam responder?
Nos acidentes aéreos, a culpa sempre recai sobre os pilotos, sobre a companhia aérea, sobre o aeroporto ou devido as condições climáticas, e o tal acidente serve como aprendizado para se tentar evitar novas tragédias. Mas, e desta vez, que lições vamos tirar da tragédia do MH17 ocorrida em 17 de julho de 2014? A tragédia foi provocada por um ato terrorista, “por engano”. Os aviões civis, estes que nós viajamos, possuem um equipamento que emite um sinal avisando: “eu sou um avião civil – não atirem em mim!” Os sofisticados equipamentos que lançam mísseis recebem este sinal e sabem que aquele não é um alvo militar. Supostamente um avião civil pode passar por uma área de conflito sem ser atacado.
Acontece que, os russos equiparam os rebeldes ucranianos, ensinaram eles a lançar mísseis, mas não ensinaram bem a lição. Para lançar um míssil, é necessário uma equipe de cerca de 20 pessoas e três veículos com equipamentos sofisticados. Mas, neste dia, faltou comunicação entre quem recebeu o sinal dizendo que aquele era um avião civil, com quem apertou o botão para disparar o míssil. Um probleminha operacional!
A tragédia do MH17 evidencia que sim, estamos todos ao alcance dos mísseis, mesmos estando a 10 km de altura, numa viagem a trabalho ou em férias com a família. Os conflitos e as armas, seja onde estiverem, nos afetam de alguma forma. A morte dos cerca de 100 pesquisadores sobre a AIDS que estavam no avião, vai afetar as nossas vidas e de toda a humanidade. E as crianças que estavam no avião? Se fossem executadas numa escola por um maluco com um arma na mão, teria uma repercussão muito maior. Mas elas morreram por engano, os “rebeldes” não tinham a intenção de matá-las! Ah! Então tá! Fazer o quê, né?
Vejam que interessante a declaração do Vladimir Putin (Presidente da Rússia), que disse que a responsabilidade foi da Ucrânia, pois, se houvesse paz na região, nada disto teria acontecido!!! Eu esperava esta declaração do Papa ou de um representante da ONU, mas não de quem fabrica e exporta os mísseis.
A comunidade internacional está preocupada pois estas armas estão caindo em “mãos erradas”. Será que existem “mãos certas” para lançar mísseis? Eles sempre acertam escolas, residências de civis, matam crianças, idosos, inocentes e pessoas alheias aos conflitos. Se nas últimas décadas a ONU, os líderes mundiais, acordos internacionais, etc, não obtiveram sucesso – o Mundo continua em guerra, entre países e dentro dos próprios países – talvez seja a hora de pensar em novas estratégias!
Não quero tomar o lugar do Secretário Geral da ONU, do Papa ou dos líderes mundiais, mas me atrevo a pensar em medidas que possam mudar esta situação e sonhar com um Mundo diferente. Em primeiro lugar, precisamos mudar nossa forma de pensar: “armas não são para defender, armas são para atacar, para matar!”. Quem se sente seguro por ter uma arma, está enganado. O país que está bem armado, não estará mais seguro. Basta analisar a história. Os mais bem armados, foram os que mais provocaram e se envolveram em conflitos bélicos.
Se fosse feito um plebiscito com a população mundial, certamente ganharia a proposta de mais armas para que as pessoas possam se defender. Venceria a proposta de mais armas e mais bombas para que os exércitos possam defender suas pátrias dos inimigos. No Brasil a proposta do desarmamento foi derrotada num plebiscito, com muitos formadores de opinião defendendo as armas. Agora, analise o seguinte: O ladrão, assim como os rebeldes, não têm muito a perder! Além disto, eles são treinados e planejam o ataque. Já o cidadão comum é pego de surpresa. Quem terá mais chance de, nesta “operação surpresa”, levar vantagem?
Ladrões e rebeldes não fabricam armas. De onde elas vêm? Quem as fabrica? Ah, sim! Armas são o negócio mais lucrativo do mundo. Mas, drogas, tráfico de crianças, de animais exóticos, entre outros, também são muito lucrativos! Oh! Esqueci que estes são negócios “ilegais” e que fabricar armas é “legal”. Temos um estoque de armamento que pode ser utilizado por várias décadas. Por que então não parar de produzir armas? Por que não tornar a fabricação de armamentos um negócio ilegal? Impacto na economia? Bom, então poderia ter um plano de reconversão das fábricas de armamentos para, a redução da produção gradativamente. Por exemplo, em 5 anos elas terão que parar de produzir armamentos e fabricar algo útil para a humanidade. Ah! Não venham dizer que o automóvel, cigarro, álcool,… também matam. Matam sim, mas um míssil não tem outra finalidade que não seja matar!
Vão continuar existindo fabricantes clandestinos? Provavelmente sim! Mas ninguém fabrica míssil no fundo do quintal. Se algum país continuar fabricando, ou alguma empresa específica continuar produzindo armamento, caberá a comunidade internacional encontrar medidas para inibir tais ações. A população mundial e movimentos independentes estão muito mais empoderados do que na época do “faça amor não faça guerra”. Imaginem uma campanha pelas redes sociais do tipo: “Copa, Olimpíadas, shows, grandes eventos, não devem ocorrer em países que produzem armas, ou que não estão cumprindo tal acordo pela paz”. Um movimento internacional pela paz, que envolva todos os lados. Quem for favorável ao desarmamento e contra as guerras, tá dentro, seja judeu ou palestino, russo ou ucraniano.
Sou dos que acham que todo problema tem solução. Para curar uma doença, o primeiro passo é identificar a causa e interromper o mecanismo que está agravando a saúde. Feito o diagnóstico, inicia-se o tratamento que vai recuperar o corpo e torná-lo novamente saudável. Obviamente que a causa da violência não são as armas, mas elas são o mecanismo que operacionaliza. Rebeldes sem mísseis não derrubariam aviões. Ladrões desarmados ou mal equipados, não teriam o mesmo poder que possuem hoje.
Então, qual a lição que tiramos da tragédia com o MH17? Que estamos todos ao alcance de um míssil, enquanto existirem mísseis! Assim como estamos todos ao alcance de uma arma, enquanto existirem armas! Se você concorda que o Mundo pode ser melhor sem armas, faça alguma coisa. Temos muitas oportunidades: eleger representantes que defendam esta bandeira, apoiar movimentos pacifistas, boicotar quem ganha dinheiro investindo em armamentos e, o mais fácil e mais eficiente – converse com os seus amigos sobre isto, provavelmente muitos deles acreditam que armas defendem e protegem as pessoas. Ou ainda, podemos dizer que isto não funciona, que nada disto vai dar certo e aguardar a próxima tragédia para lamentar.
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Obrigado Rubem Alves

20 de julho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Há tempo para nascer e tempo para morrer. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A reverência pela vida exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir (Rubem Alves)
Sabemos que a vida é um ciclo e portanto não devemos reclamar da perda de pessoas, mas vamos sentir muitas saudades delas, em especial de quem tanto falou da saudade, Rubem Alves. Devemos é agradecer pela herança que ele nos deixou. No dia 19 de julho de 2014 faleceu Rubem Alves. Pouco antes disto, convidamos ele para uma atividade e fomos informado que seu estado de saúde não era bom. Lamentamos não poder conhecer pessoalmente uma pessoa que foi e continuará sendo tão importante para a educação e inspiradora para os professores. Um dos precursores da Teologia da Libertação. Um pensador, psicanalista, educador, teólogo e autor de muitos livros sobre filosofia, teologia, educação, crônicas e livros infantis.
A forma que encontramos de fazer a nossa homenagem, foi a de divulgar algumas das suas frases e convidar nossos leitores para assistirem os seus vídeos, em especial o que ele fala sobre “A escola ideal e o papel do professor” – https://www.youtube.com/watch?v=qjyNv42g2XU
Obrigado Rubem Alves.
Luis Felipe Nascimento

Frases de Rubem Alves:
“Todo conhecimento começa com o sonho.
O sonho nada mais é que a aventura pelo mar desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que não se ensina, brota das profundezas do corpo, como a alegria brota das profundezas da terra. Como mestre só posso então lhe dizer uma coisa. Contem-me os seus sonhos para que sonhemos juntos.”
“Na verdade, o intelecto puro odeia a repetição. Está sempre atrás de novidades. Uma vez de posse de um determinado conhecimento ele não o fica repassando e repassando. Já sei, ele diz, e prossegue para coisas diferentes.”
“Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor, mas não tem poder.”
“Toda alma é música que se toca… descobri que posso fazer música com palavras. Assim, toco a minha música.”
“O que faço é tentar pintar com palavras as minhas fantasias diante do assombro que é a vida.”
“Talvez eu seja um pouco de tudo que já li. Um pouco de tudo que meu olhar já aprendeu do mundo. Um pouco das belas músicas. Um pouco daqueles que me são queridos. Um pouco de múltiplos sentimentos e algumas fraquezas. Talvez eu seja um pouco do que você deixou em mim, mas em essência, o muito da minha essência, é algo delicado e misterioso.”
“Amar é ter um pássaro pousado no dedo. 
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, 
a qualquer momento, ele pode voar”
“Mais fundamental que o amor é a liberdade. A liberdade é o alimento do amor. O amor é pássaro que não vive em gaiola! Basta engaiolá-lo para que ele morra! Ter ciúme é reconhecer a liberdade do amor. O desejo de liberdade é mais forte que a paixão. Pássaro eu não amaria quem me cortasse as asas. Barco eu não amaria quem me amarrasse no cais.”
“A paixão é emoção gratuita. Não há causas que a expliquem. Mas, quando acontece, ela age como uma artista: da paixão surgem cenas de beleza. Os amantes se imaginam andando de mãos dadas por campos floridos; abraçados numa rede; silenciosos, diante do fogo da lareira; contemplando o rosto de um nenezinho adormecido… Paisagens de paixão.”
“Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel”
“Toda separação é triste.
Ela guarda memória de tempos felizes (ou de tempos que poderiam ter sido felizes….)
e nela mora a saudade”
“Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar: continuarei a ter prazer em conversar com esta pessoa daqui a 30 anos?”
“A alma é uma borboleta…há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose.”
“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
“A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente”
“Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de mini-sonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência complete que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.”
“O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo os sonhos estão cheios de jardins. O que faz um jardim são os sonhos do jardineiro.”
“Deus existe para tranquilizar a saudade”
“Deus é alegria. Uma criança é alegria. Deus e uma criança têm isso em comum: ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos. Deus vê o mundo com os olhos de uma criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar”
“Aquilo que está
escrito no coraçao não
necessita de agendas
porque a gente não
esquece. O que a
memória ama fica eterno”
“Aprenda a gostar, mas gostar mesmo, das coisas que deve fazer e das pessoas que o cercam. Em pouco tempo descobrirá que a vida é muito boa e que você é uma pessoa querida por todos”
“Mas na profissão, além de amar tem de saber. E o saber leva tempo pra crescer”
“A esperança é uma droga alucinógena”
“Toda saudade é uma espécie de velhice. É por isso que os olhos dos velhos vão se enchendo de ausências.”
“A saudade não deseja ir para a frente. Ela deseja voltar”
“Mas nós somos como as lagartixas que perdem o rabo: logo um rabo novo cresce no lugar do velho. Assim é com a gente: logo a vida volta à normalidade e estamos prontos a amar de novo.
A saudade doída passa a ser só uma dorzinha gostosa”

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Quem são os seus amigos? – Parte I –

13 de julho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
O Facebook nos mostra quantos amigos “virtuais” temos. E quantos são os amigos “presenciais”? No meu tempo de criança, não contávamos o número de amigos, mas tínhamos o hábito de escolher “o melhor amigo”. E ser o melhor amigo de alguém era motivo de muito orgulho. O melhor amigo era alguém com quem compartilhávamos nossos segredos e que sabíamos que poderíamos contar com a sua ajuda em qualquer situação.
Depois crescemos e ampliamos nossos círculos de amizades. Hoje temos 300, 600 ou mais de 1000 amigos no Face e mais os que não estão nesta lista. Aparentemente temos centenas de amigos, mas será que com alguns destes, ou pelo menos com uma destas pessoas, temos uma relação como a que tínhamos com o nosso “melhor amigo”, dos tempos de criança?
Seria um exagero dizer que algumas pessoas não têm um amigo sequer? Ou seja, não tem uma pessoa com quem conversar sobre a sua vida, compartilhar suas alegrias e tristezas? Por incrível que pareça, a amizade é algo que nos toma tempo e exige compromissos, e nem todos estão dispostos a dedicar este tempo e assumir estes compromissos.
Nós brasileiros somos conhecidos como um povo alegre e amigável. Mas diferentemente dos europeus e outros povos que cultivam as amizades com compromisso, nós cultivamos o descompromisso. Frequentemente passamos longos períodos sem encontrar nossos amigos queridos. Dedicamos mais tempo para o nosso amigo celular (ou computador), do que ao convívio com amigos. Estar presente, cultivar a amizade é necessário para mantê-la e fortalecê-la.
Certo dia ouvi uma pessoa dizer que “não vai porque não gosta de ir a velórios”. Me perguntei: será que alguém gosta? Percebi que muitas pessoas não comparecem a eventos (casamento, batizado, formatura, etc) por não considera-los importante. Elas comparecem aos eventos que se sentem motivadas a comparecer, aos que elas julgam importantes. Pode parecer coerente, mas é um comportamento egoísta.
Ora, estar presente em eventos que a pessoa gostaria de estar, é fácil. O difícil é estar presente nos que ela não gostaria de estar. Não é fácil ir a um velório. Assim como não é fácil viajar, ou fazer um grande esforço, para participar um evento que não vemos muito sentido, mas que é importante para quem é importante para nós. É verdade que nem sempre é possível estar presente. Mas é verdade também que uma boa desculpa justifica a nossa ausência. Afinal, estar presente não é uma obrigação.
Olhe as fotos dos principais momentos da sua vida e veja quem estava lá com você. Relembre dos momentos mais difíceis da sua vida, e veja quem estava com você ou a quem você recorreu? Estes são seus amigos!
Guardo comigo sentimentos e frases que ouvi (e que disse) em momentos importantes da vida de outras pessoas. Certa vez, uma amiga me disse que eu era especial para ela porque estive presente nos principais momentos da sua vida. Em outra ocasião, ao encontrar uma amiga chorando, lhe disse: “não sei o que aconteceu contigo, mas seja o que for, estou do teu lado”. Foi um sentimento que se verbalizou, sem pensar, simplesmente saiu. Fiquei triste por vê-la sofrendo, mas contente por poder, naquele momento, dar-lhe um abraço, estar junto.
Acredito que, quem chora conosco nos momentos tristes, e que ri e vibra junto nos momentos alegres, penetra de alguma forma no nosso coração, que nem o tempo consegue apagar este sentimento do estar juntos. Este momento se transforma num ato de solidariedade, numa ação fraternal inesquecível.
Escrever sobre “amizade”, pode parecer coisa de adolescente, mas penso que é uma reflexão importante para pessoas de todas as idades. A felicidade está associada a nossa capacidade de nos relacionarmos e cultivarmos amizades. Acredito que podemos ser felizes sem ter um grande amor, mas será que conseguiremos ser feliz sem ter amigos?
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Não viva para que a sua presença seja notada,
mas para que a sua falta seja sentida…
Bob Marley
Mudanças nas Regras do Futebol

06 de julho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Cada vez que acontece alguma tragédia ou algo que impacta a opinião pública, surgem novas regras ou leis para tentar impedir que tal fato se repita. Isto acontece em todos os setores da sociedade e também no futebol. O chamado “gol fantasma”, quando a bola entrava no gol e o juiz não validava, como aconteceu no jogo Inglaterra x Alemanha em 2010, levou em 2014, a introdução da tecnologia que avisa o juiz quando a bola passar pela goleira. A mordida do Luis Suárez e a agressão ao Neymar devem resultar em novas regras. Ou seja, a FIFA, como os outros setores, é sempre reativa. Depois que acontece o que já se esperava que iria acontecer, então ela toma alguma atitude.
Será que isto vai ser sempre assim? Será que as regras vão mudar para as próximas copas? Quais as regras e quais as tecnologias que serão utilizadas nas copas da Rússia (2018) e do Catar (2022)? Refletindo sobre estas questões, faço uma viagem ao passado e ao futuro.
Para quem acompanha futebol, vai lembrar que no passado se falava do “homem da mala preta”, que era a pessoa que aparecia nas vésperas de um jogo importante, com uma mala cheia de dinheiro para “comprar” o time todo, ou algum jogar específico. Comprar significava receber uma grana para entregar o jogo e favorecer outro time. Dizia-se que o jogador comprado estava “na gaveta”. Diz a lenda, que num clássico de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, os torcedores de um time “compraram” o goleiro do time adversário, para que ele deixasse a bola entrar. Por outro lado, os torcedores do time adversário compraram o goleador deste time, para que ele não fizesse gol. Resultado, o tal goleador passou quase todo o jogo sem entrar na área, sem chutar uma bola no gol. Quase no final do jogo, sobrou uma bola na entrada da área e o goleador, esqueceu do tal acordo, e entrou na área, ficando cara a cara com o goleiro. Quando se deu conta que não poderia fazer o gol, gritou para o goleiro: “vem ne mim que eu tô comprado”, e ouviu a resposta do goleiro, que estava com os braços abertos como uma águia: “eu também tou, eu também tou!” As duas torcidas não entenderam o que estava acontecendo, pois o goleador estava sozinho, parado na frente do goleiro, e não chutava, e goleiro não saia ao seu encontro. Nada acontecia porque os dois estavam “na gaveta”.
Esta fase de comprar jogadores, ou o time todo, foi superada. Depois vieram os sites de apostas que passaram a comprar juízes e jogadores para acertar as combinações de resultados. Na Itália, times foram rebaixados por participar das falcatruas. Não era mais o amor pelo time que motivava o ato ilícito, mas sim o interesse em ganhar a aposta e muito dinheiro.
O futebol evoluiu, mas não na mesma velocidade de que outros esportes. Por exemplo, jamais se aceitaria que na Fórmula 1, ou numa corrida de 100 m, que o juiz dê a vitória para o segundo colocado, mesmo que eles cheguem praticamente juntos. Mas no futebol, é plenamente aceitável que o jogador impedido faça o gol, ou que um pênalti não seja marcado. Quase todo o escanteio o juiz pode ou não marcar um pênalti, depende da sua vontade, pois sempre tem jogadores se agarrando. As câmeras conseguem pegar tudo, até as conversas dos jogadores, por isto é que eles põem a mão na frente da boca quando falam. Tudo passa no telão e para as TV do mundo todo, somente o juiz não pode ver. Foi pênalti sim, diz o narrador, a câmera comprova, mas o juiz não deu, e nada pode ser feito!!!!
A copa de 2014 foi a copa das redes sociais, das pessoas se vendo nos telões e de celulares filmando e transmitindo imagens para o mundo todo. Nas próximas copas a tecnologia vai estar ainda mais desenvolvida. Será que a torcida vai aceitar ver os erros do juiz pacientemente? A bola já tem um chip. As goleiras já tem chip. Por que não colocar um chip nos jogadores e saber se eles estão ou não impedidos? As câmeras podem, quase que instantaneamente, mostrar se foi ou não pênalti. Por que não se usa a tecnologia disponível? Não se usa porque os dirigentes do futebol são velhos conservadores.
Se você acha que Sarney, Renan Calheiros, Lobão, estão muito tempo no Congresso Brasileiro, então veja os tempos de mandatos dos presidentes da FIFA: Jules Rimet foi presidente por 33 anos, o brasileiro João Havelange dirigiu a FIFA por 24 anos, e Joseph Blatter já está lá há 15 anos. Em 2011, Blatter era candidato único e foi reeleito para o seu quarto mandato, com 186 das 203 confederações presentes, foi quase uma unanimidade!!! Como será que se consegue todo este apoio?
Aparentemente eleições na FIFA são democráticas, pois cada confederação tem um voto. Acontece que confederações como as de Liechtenstein, Curaçao, Vanuatu, Comores, Ilhas Faroé ou Djibuti, que nunca participaram de uma copa, possuem o mesmo peso para decidir o futuro da FIFA do que Brasil (5 vezes campeão), Itália ( 4 vezes campeã), Alemanha (3 vezes campeã), Argentina e Uruguai (2 vezes campeãs). Convenhamos, é mais fácil conseguir o voto da confederação das Ilhas de Faroé, um arquipélago com cerca de 50 mil habitantes, ou de Djibuti, que está na 204 posição no ranking da FIFA, do que conseguir os votos das confederações da Alemanha, Itália, Holanda, França, que não gostam do Blatter.
Como mudar a FIFA e as regras do futebol? Ora, se os patrocinadoras da FIFA perceberem que os fãs estão descontentes, perdendo o interesse pelo futebol, etc, eles pressionarão por mudanças. Imagino que já na copa da Rússia ou do Catar, teremos novidades.
Como será o futebol no futuro? É possível que no futuro tenhamos um árbitro virtual. A comunicação com os jogadores poderá ser feita por pontos de escuta colocados nos seus ouvidos. A TV, games e todo o tipo de participação do público tende a ser cada mais interativo. Os fãs do futebol não vão querer apenas assistir uma partida sem interagir de alguma forma. Talvez a torcida irá opinar sobre os lances do jogo, se foi ou não falta. Ou ainda, irá votar sobre qual jogador deva ser substituído. Se a FIFA decidiu fazer uma copa no meio do deserto (Catar, 2022), por que não imaginar que ocorra uma copa num campo itinerante? Quem sabe a copa de 2026 será realizada num navio que irá percorrer o mundo. A copa não será mais de um país, mas será “do mundo”.
Não sei bem o quê e quando, mas tenho certeza que teremos mudanças na FIFA e nas regras do futebol. O futebol como é hoje, está com os dias contados. Mas, se nada disto acontecer, me cobrem em 2026!!!
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Imagina se nós acreditássemos mais no Brasil?

29 de junho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Os estrangeiros vão invadir a nossa cidade, meu Deus!!!!! Não vai dar para sair na rua! Vai ser muito perigoso! Vão quebrar tudo! Não vai ter hotel para toda esta gente. Aqui ninguém fala inglês. Imagina o caos que será! Etc, etc.
Você já leu ou ouviu isto de alguém? Para quem mora em cidades que não têm um fluxo massivo de turistas, como Porto Alegre, isto sempre foi uma preocupação. Quando foi anunciado que Porto Alegre iria receber cem mil pessoas para o Fórum Social Mundial, muita gente se horrorizou. A resposta imediata foi: “não temos infraestrutura para receber tanta gente. Vai ser um caos!”
Na Copa, apesar das obras concluídas e das inacabadas, era quase consenso que a cidade não estava preparada para receber os turistas. Quando se soube que viriam os “Barra Bravas”, torcedores argentinos considerados violentos, o medo cresceu. “Meus Deus, eles vão quebrar tudo!”
A expressão “imagina na copa!” foi assimilada pela população e pela mídia, e significa: “se está ruim agora, imagina durante a copa!” A rejeição a realização da Copa do Mundo no Brasil tem diferentes motivações, desde a posição dos que questionam os investimentos feitos, o superfaturamento e a corrupção, até os que torceram pelo fracasso da Copa para enfraquecer a candidatura Dilma.
A mídia mostrou os assaltos aos turistas, os problemas que eles enfrentaram no Brasil. Porém, a maioria dos turistas entrevistados, mostrou outra percepção. Os turistas não se cansaram em elogiar a hospitalidade brasileira e disseram que pretendem voltar ao Brasil.
Tem alguma coisa errada nisto tudo, não tem? Nós achamos que está ruim e eles acham que está bom? Como assim? Me parece que ficamos todos surpresos pelo fato do caos previsto, não ter se estabelecido. O estádio ficou pronto. O aeroporto funcionou. A segurança foi razoável. Houve assaltos e algumas coisas não funcionaram como deveriam. Sim, é verdade! Na invasão de mais de cem mil torcedores argentinos em Porto Alegre, a TV filmou dois argentinos roubando os ingressos de um brasileiro. Foram presos 17 argentinos porque não tinham permissão para entrar no Brasil. Teve mais aquele outro fato… Mas, será que na Romaria da Medianeira, na Celebração da Fé da Igreja tal, na passeata pacifista, ou em qualquer outro evento de massa não ocorrem roubos e assaltos nestas proporções?
Soube de um brasileiro que foi participar de um evento em Los Angeles e foi ferido num assaltado. Na saída do hospital, foi chamado numa sala e lhe pediram para que não repercutisse o acontecido, pois isto seria muito negativo para a imagem da cidade. Enquanto os americanos tentam minimizar as repercussões das coisas ruins que acontecem por lá, parece que nós fazemos questão de maximizar a repercussão das coisas negativas que acontecem por aqui.
Falar mal do Brasil e torcer contra a seleção para prejudicar o governo vigente não é nenhuma novidade. Lembro da época da ditadura militar, em que se estimulava os cidadãos conscientes a torcerem contra o Brasil, pois o futebol era considerado o ópio do povo, que a vitória do Brasil iria fortalecer os militares, etc. Portanto, não acreditar que pode dar certo e torcer contra é uma prática antiga nossa, seja contra um evento esportivo, como a Copa da corrupta FIFA, seja contra o Fórum Social Mundial, dos anti-capitalistas. Nós não sabemos separar o “Estado” de “Governo”. Se não gostamos dos governantes ou de um partido, falamos mal do Estado, da nação brasileira como um todo.
Os eventos globais que tem ocorrido no Brasil nos obrigam a fazer algumas reflexões. Independentemente de ser contra a Copa, ao governo vigente, de questionar a má gestão dos recursos públicos, tem algo mais, que precisa ser discutido. Precisamos aprender com o que a realidade mostra. Em Porto Alegre é comum falar mal de argentinos e dizer que brasileiro não gosta de argentino. Não foi o que se viu, pois a população os saudava nas ruas e eles tiveram um tratamento muito melhor do que os gremistas costumam dar aos colorados e vice-versa.
Apesar dos protestos, da descrença do povo brasileiro, dos alertas para que os turistas não viajassem ao Brasil, pois é um país muito perigoso, apesar disto tudo, o número de turistas na Copa superou as expectativas. Eu gosto da diversidade de opiniões, de protestos nas ruas, de ver pessoas que não concordam com o status quo. Acho importante que isto continue existindo, mas, me pergunto, sem nenhum nacionalismo exacerbado: Apesar de tudo, somos capazes de organizar eventos globais e de receber bem os turistas. Imagina se nós acreditássemos mais no Brasil?

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Muito além do lançamento de um livro!

22 de junho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
No dia 21 de junho era para ser apenas o lançamento do livro “Lia, mas não escrevia: contos, crônicas e poesias”, mas ele foi muito mais do que isto, foi um momento de muito alegria, um reencontro de amigos, um espetáculo teatral, um evento que reuniu cerca de 250 pessoas, com a presença de mais de 70 autores. Amigos vieram de longe, outros que fizeram um enorme esforço para estar presente.
Em apenas 4 meses transformamos uma ideia num produto, um livro com 600 páginas, com 238 textos de 188 autores. Tudo isto produzido e financiado de forma colaborativa (crowdfunding).
No livro faço os agradecimentos aos que contribuíram direta ou indiretamente para o sucesso deste projeto, mas não havia feito ainda o meu agradecimento especial aos quatro “autores atores”: Adriano Santos, Bárbara Basso, Bruno Bittencourt e Patrícia Tometich, que enceraram e deram ainda mais vida para o conteúdo do livro. Uma atuação profissional que emocionou a todos os presentes.
Não tenho como agradecer a amizade e solidariedade recebida ao longo da execução deste projeto. Foram muitas pessoas que fizeram tudo isto acontecer, só posso dizer que o evento de lançamento vai ficar para sempre na minha memória como um dos momentos mais lindos da minha vida.
Um abração
Felipe
Obs:
1. As fotos e o vídeo do lançamento serão disponibilizados em breve nos blogs abaixo.
2. A tiragem impressa foi de 450 exemplares, feita sob encomenda. Portanto, não há exemplares a venda, mas você pode ter acesso gratuito ao livro nas versões: “e-pub” (para tablets, Androids, computadores), “Mobi” (para Kindle) e em “PDF” para baixar como arquivo para ler no seu computador e/ou para enviar para os seus amigos. Por favor, nos ajude na divulgação.
Acesse estes arquivos em:
http://luisfelipenascimento.net/download-livro-lia-mas-nao-escrevia/
e
http://livroliamasnaoescrevia.wordpress.com

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Vamos fazer uma vaquinha!

15 de junho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Nos meus tempos de guri, era comum alguém propor uma “vaquinha” para dar um presente para um aniversariante, para comprar bebida para uma festa, para ajudar um amigo, ou para qualquer outra coisa. Fazer uma vaquinha significava juntar dinheiro para viabilizar algum propósito, sendo que cada um contribuia com a quantidade que desejasse, ou que pudesse.
Mas por que o termo “vaquinha”? Dizem que o termo surgiu na década de 20, quando a torcida do Vasco da Gama começou a juntar dinheiro para incentivar os seus jogadores, que no início da profissionalização do futebol, recebiam muito pouco. Os valores pagos aos jogadores eram de chamado de “bicho” e era nos valores 5 mil réis pelo empate, 10 mil réis pela vitória e 25 mil réis como prêmio pelos títulos e vitórias importantes. Os valores pagos no “bicho” eram associados aos números do jogo do bicho, onde o 25 é o número da vaca. Com o passar dos anos, “fazer uma vaquinha” se tornou uma expressão idiomática do português com o sentido que conhecemos hoje.
Não lembro de ter feito alguma vaquinha para apoiar alguma iniciativa de desconhecidos. Vaquinha era feita pelos amigos e para ajudar os amigos! Recentemente conheci o conceito de Crowdfunding – Crowd (multidão) e funding (financiamento), ou seja, o financiamento feito por meio da coletividade. Há quem diga que financiamento é coisa de banco, que estas iniciativas como o crowdfunding deveriam ser chamadas de “incentivo coletivo”, pois pessoas não financiam projetos, elas incentivam a execução de projetos. Em relação a denominação de quem contribui com recursos, são utilizados os termos como “apoiador”, “financiador” ou mesmo “investidor” no projeto.
Pesquisei sobre este tema e encontrei informações que dizem que o termo “crowdfunding” teria sido criado por Michael Sullivan em 2006. O certo é que a prática de financiamento coletivo é muito antiga, antes mesmo dos meus tempos de colégio, já era utilizada para arrecadar fundos. Até hoje, campanhas como “Criança Esperança”, promovida pela Rede Globo e UNESCO, são exemplos de financiamento coletivo.
Então, o que tem de novo? O novo é que a internet e a facilidade de fazer pagamentos de pequenos valores com segurança e baixo custo, viabilizaram o financiamento de projetos como o nosso livro “Lia, mas não escrevia: contos, crônicas e poesias”. Em 4 meses transformamos uma ideia num livro impresso e no formato e-book, que arrecadou mais de vinte mil reais e contou com o apoio de 260 pessoas, sendo algumas desconhecidas para mim. Algumas pessoas apoiaram este projeto porque gostaram dos objetivos do projeto que era o de estimular as pessoas a escrever. Este tipo de vaquinha não existia no passado e é diferente de uma campanha de uma grande empresa, ou de uma ação filantrópica.
No crowdfunding, o autor da ideia elabora um projeto e geralmente anexa um vídeo de poucos minutos explicando o projeto. Depois submete para uma plataforma online, informando quanto precisa captar para viabilizar o seu projeto. A plataforma publica no seu site o projeto e, se o projeto conseguir atingir a sua meta, a plataforma cobra um percentual do valor arrecadado. Cabe ao autor do projeto fazer a divulgação para a sua rede de contatos em busca de apoiadores, as pessoas que farão doações. Se o projeto não conseguir captar o valor orçado no prazo estipulado, todo o valor arrecadado será devolvido aos doadores.
Ao submeter um projeto, o coordenador estipula recompensas aos apoiadores. As recompensas variam conforme o valor da contribuição. Em projetos como o nosso, de publicação de um livro, os autores costumam oferecer como recompensa, exemplares do próprio livro, ou, para valores expressivos, uma consultoria sobre a temática do livro. No livro “Uma breve história de amor”, o autor oferecia uma consultoria sobre “como encontrar o verdadeiro amor” para quem doasse mil reais ou mais. No nosso livro, a recompensa para quem contribuísse com menos de R$ 50,00 era de divulgar o nome do apoiador no livro. Como o valor de um exemplar era de R$ 50,00, as recompensas eram proporcionais ao múltiplos de R$ 50,00, ou seja, quem contribuísse com R$ 100,00 receberia dois exemplares, com R$ 150,00 receberia três exemplares e assim sucessivamente. Teve pessoas que contribuíram com R$ 500,00 e receberam dez exemplares do livro.
No Brasil não se tem a cultura de fazer doações como ocorre nos EUA, onde a plataforma Kickstarter (https://www.kickstarter.com) arrecadou 40 milhões de dólares em dois anos. Apesar disto, nos últimos anos surgiram muitas plataformas no Brasil e aumentou muito o volume de recursos e de projetos financiados de forma colaborativa. O sucesso depende muito do poder de articulação do idealizador, ou coordenador do projeto, que precisa sensibilizar as pessoas e mostrar que o projeto depende delas para funcionar. No exterior, as estatísticas mostram que 80% dos apoiadores são pessoas das relações do coordenador, ou amigo do amigo. Mas a concretização do apoio não depende só disto, as pessoas apoiam os projetos por os considerarem relevantes, ou ainda, pelas recompensas oferecidas.
No site http://benfeitoria.com encontrei o conceito de “Weconomia”, que significa uma nova economia baseada na colaboração. Uma economia que não é feita de poucos para muitos, mas de muitos para poucos. Uma proposta de uma nova forma das pessoas se relacionarem, de aprenderem e de produzirem.
A experiência de publicar um livro usando o financiamento coletivo me colocou em contato com uma realidade pouco conhecida para mim. Vejo nos meus alunos e nas pessoas que compartilham estes valores, uma esperança. Eles falam numa nova era, em que para alguém ganhar, ninguém precisa perder! Que a coletividade começa no indivíduos, em mim, nele, em você…
Fico me perguntando se tudo isto é coisa da idade, de sonhadores? Ou pelo fato desta garotada não conhecer ainda a dura realidade da vida? Ou será que é nós que acreditamos que só existe a forma que conhecemos de produzir e de consumir? Por não utilizarmos, desaprendemos o verbo “compartilhar”?
Quero acreditar que, não só na nova geração, mas também em todas as faixas etárias, tem gente querendo dar sentido para suas vidas, querendo fazer coisas boas, que lhes faça feliz e que também promova alegria, bem estar e felicidade para os demais.
Acho que vale a pena acreditar e experimentar. O projeto do livro “Lia, mas não escrevia: contos, crônicas e poesias” foi muito mais do que arrecadar fundos, ele se transformou numa rede de contatos que reaproximou pessoas e mostrou que quando se trabalha com gente do bem, nada é impossível. Como diz o vídeo da Benfeitoria.com, com o seu talento, com a minha contribuição, com o apoio de tantas pessoas, com a divulgação feito por todos, o projeto se viabiliza e causa um impacto positivo!

Luis Felipe Nascimento

A seguir reproduzo a relação de plataformas de crowdfunding no Brasil que encontrei em vários sites. Algumas com finalidades “menos nobres”:

Adote essa Ideia – http://adoteessaideia.com.br – Projetos religiosos
Apoio em Rede – http://www.apoioemrede.com.br/pt – Projetos ligados à Rede Sustentabilidade
Arrekade – arrekade.com.br
Ativa Aí – ativaai.com.br – entretenimento, shows e eventos
Benfeitoria – http://benfeitoria.com
– realização coletiva de projetos, sem cobrança de comissão
Bicharia – http://www.bicharia.com.br
– iniciativas de animais carentes
Catarse – http://catarse.me
– primeira plataforma de financiamento colaborativo de projetos criativos do Brasil
Causa Coletiva – causacoletiva.com – projetos socioambientais
Cineasta.cc – – projetos de cinema e audiovisual (apenas cadastro)
Clique Incentivo – cliqueincentivo.com.br – cultura, esporte e as ações sociais, ganhando descontos e benefícios no imposto de renda
Clube FC – clubefc.com.br – Clube do Financiamento Coletivo, agregador de projetos em crowdfunding
Começa Aki – comecaki.com.br – meio ambiente, esportes, social, pessoal
Cultivo.cc – projetos com incentivos da Lei Rouanet, Lei do Esporte
Despindo – despindo.com.br – compras coletivas para fotos de mulher pelada.
Embolacha – embolacha.com.br – para músicos, artistas, público e fãs
EmVista – emvista.me – para boas ideias e talentos
Eupatrocino – www.eupatrocino.com.br – geral
Eusocio.com – eusocio.com– startups e empresas iniciantes
Garupa – http://garupa.juntos.com.vc
– turismo sustentável
Guigoo – http://www.guigoo.com.br – Projetos criativos, inovadores e ambiciosos
Ideia.me – associou-se ao Movere
Impulso – http://www.impulso.org.br
- microempreendedores
Incentivador – incentivador.com.br – cinema, livros, teatro, etc
It’s Noon – https://www.itsnoon.net/home – co-criação colaborativa
Juntos.com.vc – http://www.juntos.com.vc – organizações sem fins lucrativos, união dos sites GiveOn.org.br e Tzedaka.com.br
Kickante – http://www.kickante.com.br – para todos os tipos de projetos.
Kolmea.me – http://www.kolmea.me – Projetos sustentáveis
Lets.bt – apoio a projetos sociais, ambientais, educacionais, esportivos, culturais, etc.
Make it Open – makeitopen.com.br – software open source (atualmente fora do ar)
Mediafoundmarket.com – comercialização de conteúdo audiovisual em escala mundial
Minimecenas – minimecenas.com.br – mesada para artistas
Mob Social – mobsocial.com.br – mobilizações para shows de música
Mobilize – facebook.com/mobilizecf/
Motiva.me – motiva.me
Movere.me – movere.me– associou-se ao Ideia.me
Multidão – multidao.art.br – produção cultural colaborativa, uniu com o Catarse
Muito Nós – muitonos.com.br – cultura e entretenimento colaborativo
My Own Player – mopbr.com – financiamento coletivo de jogadores de futebol
Nake it – nakeit.com – para fotos de mulher pelada
Nexmo – nexmo.com.br – shows e eventos pré-selecionados
NosAcuda – nosacuda.com.br – projetos criativos com prioridade para recompensa emocional
O Pote – opote.com.br – para boas ideias
Partio – https://partio.com.br – revertendo imposto em cultura
Playbook – http://www.playbook.com.br – música
Podio Brasil – http://www.podiobrasil.com.br – Esportes
Pontapés – https://www.pontapes.com – Projetos de tecnologia e design
Queremos – queremos.com.br – shows internacionais de música
Quero Incentivar – queroincentivar.com.br – projetos com leis de incentivo
Rio+ – riomais.benfeitoria.com – para a cidade do Rio com apoio da Natura
Salve Sport – http://www.salvesport.com – movimento para salvar ideias e incentivar o esporte
Senso Incomum – sensoincomum.com.br – para causas inclusivas, juntou-se a Itsnoon.net
Showzasso – showzasso.com– para produção de shows
Show Mambembe – showmambembe.com.br – narrativa envolvendo artista, música e lugar
Sibite – http://www.sibite.com.br
– projetos são pré-selecionados por uma curadoria
Soul Social – soulsocial.com.br – cursos e serviços de apoio para ongs
Startando – http://www.startando.com.br
 – para boas ideias se tornarem projetos incríveis
Torcemos.net – torcemos.net – projetos de esportes
Tragaseushow – tragaseushow.com.br – shows e projetos de música
Ulule – br.ulule.com – versão brasileira de site internacional
Vamos Agir – vamosagir.com – mudou o nome para Lets.bt
Vamos Trazer – vamostrazer.com.br – demanda coletiva de eventos e artistas
Vakinha – http://www.vakinha.com.br – #sharegifting, vaquinhas online
Variável 5 – variavel5.com.br – projetos culturais em Belo Horizonte
Vasco Dívida Zero – www.vascodividazero.com.br – de torcedores com pagamento descentralizado de dívida com a Receita Federal
Viabilizza – www.viabilizza.com.br – Esportivo
When You Wish Brasil – whenyouwish.com.br – capitalismo independente
Zarpante – zarpante.com – criação colaborativa para os países de língua portuguesa
(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Por que o Futebol é diferente dos outros esportes?

8 de junho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Muito já foi escrito sobre a história e a paixão pelo futebol, mas fiquei pensando “como” e “por quê” o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo? Por que a ONU tem 189 países filiados e a FIFA possui 203 países associados? Afinal, o que o futebol tem de diferente dos demais esportes?
Pesquisando, encontrei fontes que dizem que a origem do futebol foi na antiga China (sempre a China!!!), cerca de 3000 a.C, quando após as guerras, os militares chutavam a cabeça dos inimigos mortos. Mais tarde, substituíram a cabeça do inimigo por uma bola de couro. Ainda no período antes de Cristo, encontrei registros de esportes semelhantes ao futebol no Japão, na Grécia e em Roma. Na Itália medieval um jogo em que se chutava uma bola e havia contato físico chegou a ser proibido devido a violência utilizada na prática deste esporte. Na América também se “jogava futebol”, dos nativos da Patagônia ao esquimós no Alasca, todos gostavam de chutar uma bola. Mas foi na Inglaterra, no século XVII, que o futebol ganhou regras e transformou-se no esporte que conhecemos hoje.
O campo onde se praticava o futebol em 1863 não tinha nenhuma marcação e as goleiras eram apenas duas traves em cada ponta do campo. O desenho de campo de futebol e as goleiras que temos hoje são resultados das alterações feitas em 1937. O termo “gol”, vem do inglês “goal”, que significa “objetivo” a ser alcançado. Ou seja, joga-se 90 minutos visando atingir o objetivo, que é fazer a bola entrar dentro daquele arco que chamamos de goleira. Seria muito estranho, mas se um narrador resolvesse traduzir corretamente o termo “goal”, na hora de narrar um gol teria que gritar: “é objetiiiiiivoooooo, um objetivo de craque, um objetivaçççooo do Neymar!!!!”
Em 2002 a Revista Super Interessante publicou a matéria “Onze homens e um segredo” onde tenta explicar o sucesso do futebol. A justificativa apresentada foi de que o futebol possui apenas 17 regras e são simples; que o futebol pode se adaptado para qualquer lugar e pode ser jogado com qualquer número de pessoas; que ele não requer equipamentos caros ou sofisticados e, o melhor de tudo, é que no futebol existe a chance do time mais fraco ganhar do mais forte, coisa muito rara em esportes como o basquete, vôlei, etc.
A difusão do futebol, com as regras dos ingleses, começou antes mesmo da formação da FIFA em 1904, ocorreu por meio dos missionários e colonizadores ingleses. O futebol chegou no Brasil por meio de Charles Miller em 1895. Podemos dizer que os ingleses criaram as regras e difundiram o futebol principalmente na Europa e América Latina, mas a sua globalização ocorreu a partir de 1974 quando o brasileiro João Havelange assumiu a presidência da FIFA. Havelange se elegeu com os votos da África e da Ásia e retribuiu estes votos com o aumento de vagas para estes continentes. Em 1978 foi a última Copa disputada por 16 seleções, sendo 10 europeias, 4 americanas, 1 africana e 1 asiática. Em 1982 passou para 24 seleções e em 1998, última copa organizada por Havelange, foi disputada por 32 seleções: 15 europeias, 8 americanas, 5 africanas e 4 asiáticas, além disto, Coréia e Japão foram contemplados com a Copa de 2002.
Estas ações nos ajudam a entender como o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo, sendo praticado por cerca de 260 milhões de pessoas e tendo 3,5 bilhões de fãs, a metade da população do mundo. Estima-se que no Brasil existam mais de 30 milhões de praticantes. Todos estes dados não são oficiais e podem ser questionados. Analisando os dez esportes com maior número de fãs no mundo, encontra-se os seguintes dados:
▪ Futebol – 3,5 bilhões de fãs (esporte nacional na maioria dos países e em expansão nos EUA);
▪ Críquete – 2,5 bilhões de fãs (Ásia, Oriente Médio, África do Sul e Austrália);
▪ Hóquei em campo – 2 bilhões de fãs – praticado em mais de 100 países;
▪ Tênis – 1 bilhões de fãs – esporte individual mais popular no mundo.
▪ Voleibol – 0,9 bilhões de fãs – popular no Brasil, Cuba, nas modalidades de vôlei masculino, feminino e de praia.
▪ Rugby – difícil de saber o número de fãs, mas 4,2 milhões de pessoas assistiram o Campeonato Mundial na Nova Zelândia.
▪ Beisebol – é praticado nos países onde o Críquete não pegou (EUA, Japão, Coreia do Sul, Canadá, Cuba e México. – 0,5 bilhão de fãs;
▪ Golfe – 0,4 bilhão de fãs – 35 mil campos espalhados pelo mundo, sendo a metade nos EUA. Considerado uns dos esportes mais caros;
▪ Basquete – 0,4 bilhão de fãs – é apreciado por jovens de todo o mundo, famoso pela a NBA, que tem um nível técnico muito superior ao dos demais países;
10. Futebol Americano – 0,4 bilhão de fãs – visto principalmente nos EUA e divulgado para o mundo por eventos como o Super Bowl.
Porém, se o critério fosse o número de praticantes, talvez o xadrez, natação, skyte, tênis de mesa, etc, figurassem logo após o futebol. Tudo isto explica a globalização do futebol, mas não explica por que o futebol consegue provocar ou fazer cessar guerras. Em 1969, uma briga entre El Salvador x Honduras serviu de pretexto para as tropas de El Salvador atacassem Honduras. Por outro lado, o jogo entre Santos e a seleção nigeriana, fez cessar a guerra civil para que os dois lados do conflito pudessem assistir o jogo e ver o Pelé jogar.
A paixão pelo futebol é analisada por Gilberto Freyre e por muitos outros autores. Cláudia Laitano, na sua coluna no Jornal Zero Hora (31/5/2014) diz que o time do coração é passado para os filhos como um bastão, por isto eles se apressam em pendurar a camiseta do seu clube na porta do quarto na maternidade.
Para a metade da população do Planeta que não gosta de futebol, talvez seja difícil de entender qual a graça em passar 90 minutos assistindo um jogo em que, na maioria das partidas, ocorrem apenas um, dois ou três gols? O basquete, onde cada equipe faz uma centena de gols (pontos) não seria mais interessante?
Talvez esta seja uma das explicações! O gol é o momento onde se extravasa a emoção contida ao longo do jogo. Toda a tensão, toda a ansiedade é liberada com o grito do gol. Se o jogo resultar numa goleada, um 4 x 0, os últimos gols não têm mais o mesmo sabor. Além disto, a sorte ou o “desejo dos deuses”, tem maior influência no futebol do que num jogo de basquete, pois se a bola bater no aro da cesta de baquete e não entrar, isto pouca influência terá no resultado final. Já no futebol, uma bola na trave que vai para fora, fará muita diferença. Ou seja, o imponderável tem um peso maior no futebol pelo fato do número de gols ser pequeno. Um gol basta para garantir a vitória. Aquela bola que bateu na trave e entrou, ou que não entrou na goleira, faz muita diferença.
Talvez o futebol seja o esporte que mais permita ascensão social dos seus praticantes, principalmente na América Latina e África, pois muitos jogadores talentosos tiveram sua infância em favelas ou em famílias humildes. Enquanto o basquete e outros esportes, recrutam os jovens talentos nas escolas e nas universidades, o futebol seleciona os futuros craques por meio das chamadas “peneiras”, onde os candidatos não precisam sequer estar na escola.
A mídia certamente tem um papel fundamental na popularização do futebol e na construção deste “somos todos apaixonados por futebol”. Observe a programação esportiva dos canais de TV e as notícias nos jornais e nos sites. Você vai encontrar informação sobre o amistoso entre San Marino x Albânia, mas não vai saber que neste domingo vai ocorrer, na sua cidade, uma competição internacional de judô, ou uma etapa do campeonato nacional de vela, de golfe ou de qualquer outra competição esportiva.
O futebol atrai mídia, atrai investidores, está se conectando com outras paixões como as escolas de samba (Gaviões da Fiel, Mancha Verde, etc), se associa com produtos que vão de material esportivo aos planos de telefonia. O “jogo” é muito maior do que aquele que ocorre no gramado. O futebol hoje é isto, um misto de organização, profissionalismo, paixão e grandes investimentos, que ainda convive com a corrupção, lavagem de dinheiro, jogadores fazendo corpo mole em campo, conflitos no vestiário, dirigentes mal preparados, investidores comprando jogadores ou o próprio clube. É difícil criticar o político Silvio Berlusconi e ser apaixonado pelo Milan, “uma das suas empresas”. Ou apoiar o Chelsea e criticar o mafioso russo Roman Abramovich, dono do Chelsea.
O futebol é diferente dos outros esportes! Mas será que esta engrenagem toda vai conseguir transformar em fãs a outra metade da população do Planeta que não gosta de futebol? Ou o futebol já chegou ao seu ápice e a tendência é de reduzir o número de fãs? Eu sei de tudo isto e mesmo assim adoro futebol, assisto todos os jogos do Inter, e sofro quando ele perde. Mas, não sei se esta paixão será eterna, pois a cada dia está mais difícil de gostar do futebol.

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Romão e Cotinha

– 1 de junho de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Romão era um homem de 1,90 e pesava 110 quilos. Cotinha, uma mulher miudinha, de 1,50 m. Quando os dois estavam juntos ninguém imaginava que eles eram casados há quase 40 anos. As diferenças não ficavam apenas nas dimensões físicas, pois Cotinha era uma intelectual, com um passado de militância política e defensora do meio ambiente, enquanto que Romão pegava o jornal apenas para ler o esporte e a página policial, e manifestava uma certa saudade dos tempos da ditadura. Para ele, este papo de defesa do meio ambiente era coisa de veado ou de quem não tem o que fazer. Cotinha, professora aposentada, continuava muito ativa, gostava de teatro, cinema e tinha mais de 600 amigos no Facebook. Romão também usava o computador da casa, mas para jogar paciência. Recém aposentado, seu plano era de dedicar-se com mais intensidade para atividades como jogar cartas, pescarias e assistir as novelas e os programas do domingo a tarde da TV. Filmes, só os que que não precisasse ler aquelas letrinhas miúdas em baixo na tela. Quando Cotinha passava pela sala e via Romão roncando, lhe acordava e dizia para ele ir dormir na cama. A resposta era sempre a mesma:
– Se for para a cama, eu perco o sono!
Desde o início a relação deles chamou a atenção dos amigos e das suas famílias. Quando começaram a namorar, os amigos questionavam Romão sobre a relação dele com Cotinha.
– Como vais fazer Romão? Será que encaixa?
– Ora, é só ajustar no meio e deixar sobrar nas pontas!!! Respondia Romão.
– E o peso? Vais amassar a pobre mulher!, diziam os amigos.
– E tu achas que os meus joelhos e os meus cotovelos não seguram este corpinho?
Ao longo dos anos, Romão e Cotinha reclamavam um do outro, mas tocavam a vida juntos. Nas conversas com os amigos, quando o assunto era falar mal das mulheres, Romão dizia:
– Eu já peguei a manha! A Cotinha sempre quer ir embora cedo das festas. Lá pelas dez horas ela começa a me convidar para ir embora. Eu sempre digo “sim”. Me movimento na cadeira, mas continuo sentado. Dali uns 20 minutos, ela volta e diz: “Vamos!” Dai eu dou alguma tarefa para ela e digo: “Vamos, mas você já se despediu de todo mundo?”. Meia hora mais tarde, já um tanto irritada, ela volta com cara de braba e diz: “Vão embora Romão!” Então eu levanto da cadeira e respondo: “Vamos, mas deixa eu ir no banheiro antes de sair”. Na ida e na volta ao banheiro, vou conversando com os amigos, tomo mais uma cerveja e lá se vai mais uma meia hora. Acabamos saindo a meia noite, a hora que eu queria!
Mas, quando Romão exagerava nas críticas a Cotinha, era interrompido por algum dos antigos amigos, com conselhos do tipo:
– Para com isto Romão, se não fosse a Cotinha, tu serias um bêbado e estaria metido em jogatina. Foi a Cotinha que te ajeitou na vida! Agradeça a ela!
– É, não larga dela, pois com este teu corpinho e com o teu saldo bancário, quem vai te querer? Só mesmo a Cotinha!
Nas rodas de conversa das mulheres, algo semelhante acontecia. Cada uma falava mal do seu marido, e Cotinha se esforçava, mas quase sempre perdia para as amigas:
– O meu marido só é violento quando bebe, mas ele bebe, bebe, bebe, uma coisa de louco!
– Vocês não vão acreditar, mas eu acho que o João tem outra mulher! Eu achei uma marca de batom na camisa dele!
– E você Cotinha, o que conta do Romão?
– Ah! O Romão não me ajuda em nada, nem a louça lava! Ele não sabe o que é vassoura e ainda entra em casa com os sapatos sujos!
Cotinha ficava furiosa quando ouvia das amigas comentários do tipo:
– Feliz de ti Cotinha em ter um homem assim!
Apesar dos 40 anos de casados, o relacionamento deles piorou muito após a aposentadoria do Romão. Com os dois em casa, era briga todo o dia. Um certo dia Cotinha chegou em casa e encontrou uma TV de 60 polegadas instalada na sala. Logo percebeu que Romão teria gasto o dinheiro da poupança deles, que estava sendo guardado para a reforma da cozinha.
– Tu usou o dinheiro da nossa poupança, não foi? Seu ¤v✜θϖæζ⌘!!!
Cotinha bateu as portas e trancou-se no quarto. Passadas três horas, Romão continuava preocupado e resolveu pedir ajuda para a Dona Maria, vizinha e grande amiga de Cotinha, e além disto, levava jeito para psicóloga. Depois de bater várias vezes na porta do quarto, Cotinha a deixou entrar. Dona Maria perguntou a Cotinha:
– E agora, o que você pretende fazer?
– Amanhã mesmos vou procurar o meu cunhado advogado para ele encaminhar os papéis da separação!
– Você não gosta mais do Romão?
– Não aguento mais este traste, autoritário, truculento! Quero viver sozinha e ter um pouco de paz!
– Calma Cotinha, lembras de quando estavas doente, como o Romão cuidou de ti?
– Sim, mas ele fez isto para que eu voltasse logo a cozinhar para ele!
– E as viagens que vocês fizeram juntos? Não foram boas?
– Sim, mas eu ajudei a pagar!
Todo o argumento de Dona Maria, tinha logo uma resposta de Cotinha, mas apesar disto, ela foi se acalmando. Enquanto Dona Maria estava trancada no quarto com a Cotinha, Romão resolveu sair para se aconselhar com o Padre da Paróquia, seu parceiro de carteado. A conversa iniciou, obviamente, com um sermão do Padre:
– Porque fizeste isto Romão, vocês não haviam combinado de usar o dinheiro da poupança para reformar a cozinha?
– É… não foi bem um “combinado”, a Cotinha que decidiu isto, eu nem queria reformar a cozinha!
– Você ainda gosta da Cotinha?
– Sim!
– Do que você mais gosta na Cotinha?
– Da comida! … Da comida da panela, Seu Padre!
– Eu entendi Romão! Eu perguntei do que você admira na pessoa dela? Ela te faz falta?
– Faz sim, senti muita falta quando ela foi visitar os parentes dela!
– Então Romão, diga isto para ela!
– Dizer que sinto falta dela para esquentar a cama?
– Pelo amor de Deus Romão, diga algo que a deixe feliz!!!!
– Que vou reformar a cozinha?
A conversa se prolongou até que o Padre pinçou uma boa frase de Romão e sugeriu que ele a dissesse para Cotinha:
– Repita isto para ela, que você quer envelhecer ao lado dela, sentado numa cadeira de balanço e tomando mate na frente da casa!
– Se eu disser isto será que ela me perdoa por ter comprado a TV?
– Não sei, mas tente, tome a iniciativa de fazer uma reaproximação.
De volta para casa, Romão encontrou Cotinha sentada no sofá assistindo TV com cara de braba. Sentou ao seu lado e por meia hora só se ouviu o som da TV. Então Romão seguiu os conselhos do Padre e quebrou o gelo.
– A TV é um presente prá ti!
– Mentira, tu comprou a TV foi para assistir a Copa!
– Não foi não! Comprei porque quero assistir TV junto contigo, sentados aqui no sofá, em baixo de um cobertor e tu pegando na minha mão, como fazias quando éramos namorados!
Cotinha não conseguiu segurar as lágrimas e começou a soluçar, sendo logo abraçada por Romão. Depois disto, vieram cenas impróprias… só se pode dizer que o sofá ficou pequeno para tanto amor. Romão e Cotinha foram feliz para sempre, ou melhor, até a próxima briga! Estas brigas que quase se justificam para renovar uma relação.

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Ninguém gosta do que não conhece!

– 25 de maio de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*) e Gabriela Pesce (**)
“Não provei e não gostei!” As crianças costumam dizer isto para alimentos, simplesmente pela aparência. Quando adultos, algumas vezes reproduzimos este comportamento, ao não gostar de coisas que não conhecemos. Ou seja, parece os preconceitos, estereótipos e as influências são capazes de nos fazerem não gostar de alguma coisa ou de alguém que não conhecemos. Mas, para gostar de algo ou de alguém, precisamos conhecer. É muito difícil gostar de algo ou de alguém que não conhecemos, concordam?
A rivalidade é uma forma aparente de não gostar, mas na prática sabemos que não. Podemos ser fanáticos por um clube de futebol e a pessoa que mais amamos, ser fanática pelo clube rival, e não será por isto que deixaremos de amá-la. Podemos até discutir na hora do jogo, mas logo depois retomamos a racionalidade e nos damos conta que precisamos respeitar as diferenças de opinião.
A rivalidade entre argentinos e brasileiros é muito grande. Se inicia no futebol e continua em outros campos. Estive ministrando um curso na Universidad Nacional del Sur em Bahía Blanca, Argentina, e aprendi muitas coisas, entre elas de que argentinos e brasileiros não se conhecem, e portanto, alimentam os preconceitos e estereótipos um do outro. Talvez os brasileiros mais do que os argentinos. Exemplo disto é que em qualquer grande cidade na Europa e EUA existe um restaurante explicitamente identificado como “Restaurante Argentino”, mas em Porto Alegre não. Existem vários restaurante identificados como uruguaios, mas desconheço que exista algum argentino. Existem restaurantes de argentinos ou de cozinha argentina, mas eles não mostram a bandeira!
Durante as aulas do curso em Bahia Blanca e nos happy hours, sempre brincávamos com esta rivalidade. Ora eram os argentinos contando dos seus feitos e dos seus heróis, ora era eu contando do Brasil.
– Gardel es argentino!…. Nada disto, ele nasceu no Uruguay.
– E quem inventou o avião foi um brasileiro!…. No, este sólo los brasileños creen.
– Argentina exporta el CQC….. E o Brasil exporta as telenovelas!
Passamos por várias áreas, mas não chegamos ao ponto de discutir quem era melhor, se Pelé ou Maradona, Messi ou Neymar? Nestas conversas me dei conta que apesar das TVs a cabo oferecerem centenas de canais, nem argentinos e nem brasileiros podem assistir um canal do país vizinho. Nos nossos países é praticamente impossível encontrar um jornal ou revista do outro país. Sabemos mais do que ocorre na Ucrânia ou no Haiti do que está acontecendo do outro lado da nossa fronteira.
Diante disto, convidei minha amiga argentina, Gabriela Pesce para, em vez de falarmos do que não gostamos uns nos outros, identificarmos o que admiramos uns nos outros. Como brasileiro, não foi difícil identificar na Argentina e nos argentinos, muitos aspectos a serem admirados.
– um povo educado, hospitaleiro e com um bom nível intelectual;
– uma natureza exuberante, com glaciais, desertos, montanhas, praias, a patagônia e um pampa maravilhoso;
– cidades limpas, seguras, bem cuidadas e apesar da crise, com poucos mendigos pelas ruas;
– os vinhos, assados de tiras, doce de leite e a culinária em geral dispensa comentários;
– uma diversidade de espetáculos culturais. Buenos Aires, em especial, oferece espetáculos de teatro, música e dança em grande quantidade e a preços populares.
Além do futebol e de esportistas como Gabriela Sabatini (tênis) ou Fangio (o Ayrton Senna deles), nós brasileiros ficamos impressionados com a qualidade de obras contemporâneas como “El secreto de sus ojos” (segundo filme argentino a ganhar um Oscar) e “Fuerza Bruta” (um espetáculo que se assiste olhando para cima). Pouco conhecemos dos expoentes da música argentina, que vai do tango de Piazzolla e Gardel ao rock de Charly García e Fito Páez. Quão conhecidas nos são as obras literárias de Jorge Luís Borges, Julio Cortazar e Ernesto Sabato? Talvez poucos brasileiros saibam que a Argentina tem cinco prêmios Nobel, sendo dois Prêmio Nobel da Paz (Adolfo Pérez Esquivel e Carlos Saavedra Lamas). Impossível não gostar da Mafalda de Quino, ou reconhecer a importância histórica de personalidades como Perón, Evita, Che Guevara, San Martín, etc. E agora, até Papa eles têm!!!! Como não admirar um vizinho com tanta diversidade e tantas qualidades?
A los argentinos nos encanta Brasil. Es cálido, extenso, tiene paisajes exóticos y muchos habitantes. La gente sonríe en la calle y llevan el ritmo en la sangre, así los vemos en la Argentina: los brasileros son más alegres. Los habitantes del país vecino más grande de Latinoamérica tienen un espíritu crítico, sentido común y son desestructurados. Son reconocidos mundialmente por sus fiestas de carnaval, la feijoada, y por supuesto, el fútbol. “Cidade de Deus” nos cautivó en la pantalla grande y “Avenida Brasil” es actualmente uno de los programas con más rating en TV de la semana! La música brasilera invade de alegría nuestras fiestas y bossa nova acompaña las cenas de charla. Brasil es parte de nuestros vidas a diario, solo que no valoramos conscientemente todo lo que nos brindan!
Los brasileros a los que he tenido la suerte de conocer son realmente personas sensacionales: gente de buen corazón, perspicaces, sencillos, generosos, trabajadores, no tienen necesidad de demostrarle nada a nadie. De cada conversación con ellos, aprendo, nos enriquecen con sus ideas y experiencias, me encanta escucharlos y preguntarles de sus vidas, y en ese proceso despierto y valorizo todo lo que podemos generar si estuviésemos menos enfrentados.
A pesar de existir una barrera idiomática que delimita geográficamente la frontera de nuestros países, logramos comunicarnos. Nos entendemos sin hablar el idioma de nuestro país vecino, y comprendemos que nuestros gestos, miradas, sonrisas son universales y muchas veces, dicen más que nuestras palabras.
La historia común de los países latinoamericanos atraviesa transversalmente todas las características que potencialmente nos podrían diferenciar. Esto hace que nos parezcamos más de los que creemos. Pois então, Brasil e Argentina são os principais parceiros comerciais e aliados políticos na América Latina, mas o povo brasileiro e argentino são como dois vizinhos que estão de costas um para o outro. O incrível é que os brasileiro adoram viajar para a Argentina e os argentinos adoram veranear no Brasil. Como diz a Gabriela, somos mais parecidos e temos mais coisas em comum do que pensamos. A solução talvez seja mesmo nos conhecermos melhor para nos tornarmos melhores vizinhos. No nos gustamos más porque no nos conocemos suficiente!

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
(**) Gabriela Pesce é professora na Universidad Nacional del Sur, em Baia Blanca, Argentina.
Contato: gabipesce@gmail.com

A Aula Ideal – na Visão do Professor

– 18 de maio de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Você deve ter assistido muitas aulas na sua vida, mas talvez nunca tenha parado para pensar como seria a “aula ideal”. Eu provoquei meus alunos sobre como seria a aula ideal e recebi um texto com a visão da Sofia Cortese (publicado na Coluna dos Amigos). Ao final ela sugere que o Professor também manifeste a sua visão sobre a aula ideal. Então este texto é o resultado de provocações e reflexões de ambos os lados.
A Sofia fala da necessidade de envolvimento, inovação e surpresa, de modo que o aluno seja surpreendido a cada aula. Para ter envolvimento é preciso de comprometimento, respeito e ter objetivos comuns. Se um dos atores envolvidos não estiver motivado, interessado naquela relação, não haverá envolvimento. A inovação talvez seja a parte mais fácil, pois existem muitas técnicas, ferramentas, jogos e atividades que podem ser utilizadas para inovar, mas nem sempre isto vai conseguir surpreender os alunos.
Eu vejo a aula como um relacionamento entre um grupo de pessoas. Este relacionamento pode ser superficial e descomprometido ou pode ter diferentes níveis de envolvimento. O resultado final depende de vários fatores, entre eles:
– A postura do professor – ele pode influenciar no comportamento dos alunos. O professor pode assumir um papel semelhante a de um cirurgião, que é aquele que na sala de cirurgia tem uma equipe para lhe ajudar. O sucesso da cirurgia depende muito mais do cirurgião do que do esforço da equipe. Por outro lado, o professor pode assumir um papel semelhante a de um regente de uma orquestra. Neste caso ele precisa estimular cada membro da orquestra a fazer o seu melhor, e o resultado final é o somatório do desempenho de todos.
– A postura do aluno – embora não se possa generalizar, constata-se que a geração “multitarefas” faz muitas coisas ao mesmo tempo. Quando estão na aula, frequentemente os alunos usam seu computador ou celular para navegar na internet. As vezes o celular está visível em cima da mesa, outras vezes meio escondido na mão ou no colo do aluno. Quando questionei um aluno se aula estava muito chata para ele estar todo o tempo olhando para o celular, ele respondeu dizendo que a aula até que estava legal, mas que entre a aula e a conversa com a namorada, ele preferia a namorada! Será que a aula ideal conseguiria ser mais interessante que a conversa com a namorada?
– A construção do conhecimento – A aula é um momento de construção do conhecimento. Não é o local onde os alunos chegam com suas cabeças vazias e o professor as enche de conhecimento. O conhecimento assimilado é o resultado das interações, do que cada um aporta nas discussões e nas vivências práticas. Segundo o psiquiatra americano Willian Glasser, a memória humana retém apenas 10% do que lê e 20% do que ouve. Por outro lado, é capaz de reter 70% do que discute com os outros, 80% do que pratica e 90% do que ensina para os outros.
– O sistema de ensino brasileiro – atualmente o aluno tem uma série de disciplinas obrigatórias que terá que cursar, esteja ou não interessado. Isto também poderia explicar o desinteresse de alguns alunos em sala de aula.
– Aluno Part Time – Em cursos com o de Administração os alunos são part time, ou seja, estudam e trabalham. Eles assistem aula as 7h30min da manhã e saem correndo da aula para enfrentar uma jornada de 6 ou 8 horas de trabalho nas empresas e voltam a noite, chegando atrasados para mais 2 ou 4 horas de aula. Chegam em casa tarde da noite e ainda precisam fazer as tarefas das aulas. Portanto, é compreensível que os alunos tenham sono nas aulas da manhã e que estejam cansados na aula da noite. Fato semelhante ocorre nas faculdades privadas.
Por fim, é preciso estar ciente de que o relacionamento dentro de uma sala de aula, assim com qualquer relacionamento, tende a se desgastar com o tempo. O que era interessante no início, pode se tornar um tanto monótono do meio para o final do semestre, pois os alunos vão enjoando da voz do professor, dos comentários repetitivos de alguns colegas ou da repetição das dinâmicas, etc. O aluno vai para a aula esperando encontrar a mesma rotina e perde um pouco do seu interesse.
Eu tive oportunidade de fazer um curso duas semanas na Harvard Business School, em Boston, com aulas muito interessantes. Os organizadores do curso sugeriram que os alunos chegassem com dois dias de antecedência para visitar a cidade, fazer compras, etc, pois durante as semanas do curso não haveria possibilidade de sair da universidade. O curso era uma imersão, sendo que os alunos ficavam hospedados na própria universidade, a poucos metros do restaurante e da sala de aula. As aulas eram ministradas na parte da manhã, as tardes eram dedicadas `as leituras e pesquisas, e as noites para as reuniões dos grupos de trabalho, que preparavam as atividades para a aula do dia seguinte. Os professores dedicavam muitas horas de preparação para as aulas e não admitiam que algum aluno dissesse que não fez o “tema de casa”. Na hora do intervalo havia assistentes convidando os alunos para retornarem a sala antes do professor, de modo que era praticamente impossível algum aluno chegar atrasado ou sair antes do final da aula. Obviamente que esta não é a nossa realidade e tão pouco penso que a imersão seja adequada para cursos longos.
Apesar de todas as limitações que temos hoje no Brasil, acredito que podemos atender muitos dos pontos sugeridos pela Sofia. Podemos sim compartilhar responsabilidades, desenvolver atividades criativas, convidar palestrantes, e ter algumas surpresas. Para isto funcionar, precisamos do envolvimento do professor, dos alunos, de uma infraestrutura adequada e liberdade para inovar. Alunos envolvidos e comprometidos, se tornam ativos, propositivos e passam por cima do cansaço.
Sou favorável que não exista disciplinas obrigatórias e nem a obrigação de comparecer as aulas. No primeiro semestre de 2014 estamos desenvolvendo uma experiência com uma turma de graduação no curso de Administração. No primeiro dia de aula discutimos e elaboramos um “contrato” sobre o que pode e o que não pode ser feito nas aulas. Dentre uma lista de temas, escolheram os que mais lhes interessava. Eles não são obrigados a comparecer as aulas e a cada duas semanas fazem uma auto-avaliação de quanto aprenderam e de quanto contribuíram para o aprendizado dos colegas. Esta auto avaliação é feita perante os colegas. Os resultados parciais mostram que os alunos são mais rigorosos com eles mesmos do que a tradicionais avaliações dos professores.
Espero que, com o acúmulo destas experiências e com o seu compartilhamento com colegas interessados nesta temática, a cada semestre possamos avançar um pouco mais em direção a aula sonhada pela Sofia.

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Foi mal! Desculpa aí, mãe!

– 11 de maio de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
A nossa relação com as nossas mães varia em cada fase da vida. Na fase intrauterina, nós nos alimentamos das coisas que a mãe se alimenta, sentimos o que a mãe sente e tudo o que ela faz nos afeta de alguma forma. As mães deixam de fumar, de beber, de comer isto ou aquilo para não prejudicar o bebê que está na sua barriga. Além disso, nos carregam por nove meses na barriga, sacrificando sua coluna e todo o seu organismo. Inconscientemente, na nossa cabeça, tem a seguinte mensagem: “mãe, você é tudo pra mim!”
Quando saímos de dentro da barriga, nós, filhos, continuamos muito ligados às nossas mães. Mamamos no peito, nos acalmamos ao sentir o cheiro dela ou ao ouvir a sua voz, e retribuímos todo o seu carinho com um sorriso. A mensagem, ainda inconsciente, é de “amor eterno, nunca vou te abandonar!”
Mas, já nos primeiros anos, começamos a desafiar as ordens das mães. Mesmo sabendo que não devemos fazer tal coisa, que não devemos colocar o dedo na tomada, que não devemos subir a escada, etc., adoramos tentar fazer tudo isso, e, de preferência, na frente da mãe, olhando para ela, como quem diz: “Olha só o que eu vou fazer!” A mensagem é: “Você não me controla mais! Bu-buuu!”.
E aí chega a adolescência, quando nós sentimos vergonha de ter mãe, como se o legal fosse não ter mãe. As mães precisam nos deixar algumas quadras antes da escola e do local das festas, para que os colegas não nos vejam junto com a nossa mãe. Na rua, num shopping, mantemos a distância suficiente para ninguém perceber que aquela mulher possa ser a nossa mãe. A mensagem já não está mais só na nossa cabeça, a expressamos para os amigos: “A minha mãe é um saco!”, ou, “Imagina se alguém me vê junto com a minha mãe, que mico!!!”
Na idade adulta, conquistamos a nossa independência financeira, saímos de casa, encontramos uma companheira/companheiro e nossa mãe perde mais ainda a sua importância. Toda vez que ela liga, atendemos com pressa. Visitar a mãe só quando for preciso. “Putz, esqueci o aniversário da minha mãe!” A mensagem na nossa cabeça não mudou muito: “Que saco, tenho que ligar ou atender o telefonema da minha mãe!”
Quando chegam os nossos filhos, a nossa mãe ressurge nas nossas vidas, mas agora com outro nome, agora ela é “avó”. Definitivamente, nos livramos da nossa mãe. Todos passam a chamar a nossa mãe, de avó. Ela vai fazer tudo para cuidar dos seus netos, vai ficar o máximo possível com eles para receber um pouquinho do que nós lhe dávamos quando criança – um sorriso, um carinho. A mensagem que temos na nossa cabeça é: “deixa ela cuidar dos netos, assim ela se ocupa!” ou “Vó deseduca!”
Um certo dia o médico nos avisa que a nossa mãe está doente, que precisa de ajuda, que não pode mais fazer tais e tais coisas. E então nos damos conta que a nossa mãe está velhinha e que poderá nos deixar. Parece que a partir deste momento voltamos a ter mãe. Agora ela precisa de nós! Como se durante toda a vida não precisasse! Passamos a lhe dar mais atenção. Nos preocupamos se ela está tomando direitinho os remédios e se não está lhe faltando nada.
Se a nossa relação com as nossas mães fosse a julgamento, certamente seríamos condenados!
– Sentença: Culpado por não retribuir o amor que recebeu.
– Pena: Fazer carinhos e dar o sorriso dos tempos de bebê, que compensava as noites sem dormir e todo o sacrifício feito pela sua mãe.
– Regime: Semiaberto – com visitas diárias a nossa mãe.
Por isso, no dia das mães, em vez de presente, o melhor que podemos fazer é pedir desculpas pelo que não fizemos e enchê-la de carinho. Na nossa consciência estará a mensagem: “Foi mal! Desculpa aí, mãe!” Se isso não nos inocenta, pode servir como um redutor da pena.

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

Trabalho ou Lazer ?

– 4 de maio de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Como você distingue “trabalho” de “lazer”? Aparentemente é fácil distinguir quando estamos trabalhando de quando estamos numa atividade de lazer. Mas, na verdade, estas atividades estão cada vez mais se mesclando e, em muitas situações, não sabemos mais se estamos trabalhando ou se estamos numa atividade de lazer. O sociólogo Dalton Conley da Universidade de Nova Iorque cunhou o termo “Weisure Time”, que significa a mistura de trabalho (work) com lazer (leisure), e diz que cada vez tá mais difícil de diferenciar trabalho de diversão.
Quais seriam os critérios para definir “trabalho” e para definir “lazer” ? Vejamos alguns:
1) Remuneração – quando a gente trabalha, é remunerado por isto. Numa atividade de lazer, não!
– O Ayrton Senna dizia que correr é para ele era um hobby, uma atividade de lazer, e era muuuiiito bem remunerado por isto.
2) Obrigação – o trabalho é obrigação, tem horários ou tarefas para cumprir e o lazer a gente faz se quiser!
– Vamos imaginar a situação de um profissional autônomo, que já acumulou a grana suficiente para viver. Ele poderia reduzir a sua carga de trabalho, mas opta por continuar trabalhando as 8 horas por dia. Faz isto porque quer! Para ele, isto seria trabalho ou lazer?
3) Prazer – no lazer a gente sente mais prazer do que no trabalho!
– Provavelmente vocês já ouviram expressões como: “eu adoro o meu trabalho” e “detesto férias em tais e tais situações”. Muitas pessoas saem cansadas e estressadas de atividades de lazer ou das férias.
4) Rotina – o trabalho é uma rotina e o lazer não!
– Depende! Imagine a rotina de um médico que, ao longo de 30 anos repetiu as seguintes atividades: As 7 horas visitava os pacientes no hospital, as 9 horas jogava tênis com os amigos, as 11 h fazia um trabalho voluntário atendendo os velhinhos de um asilo, ao meio dia almoçava com a família, a tarde trabalhava no seu consultório e a tardinha pegava os filhos, depois os netos, na escola e os levava para passear. Quais destas atividades rotineiras foram trabalho e quais foram lazer? E o trabalho voluntário, é trabalho ou é lazer?
5) Esforço – o trabalho exige algum esforço físico ou intelectual, enquanto que o lazer é um momento de relax!
– O estivador faz esforço físico para realizar o seu trabalho. O frequentador de academia faz esforço físico como lazer. Puxar ferro na academia dá mais prazer do que fazer o mesmo esforço puxando um carrinho no porto.
6) Aposentadoria – do trabalho a gente se aposenta, do lazer não!
Qualquer pessoa que “não trabalhe”, que tenha apenas “atividades de lazer”, pode fazer um plano de aposentadoria e se aposentar. Se uma pessoa tiver a pintura ou o artesanato como hobby, será uma atividade de lazer. E se ela passar a comercializar o seu “hobby”, passa a ser trabalho? Neste caso deverá pagar os encargos sociais e terá os mesmos direitos de um trabalhador qualquer.
Poderíamos elencar mais uma série de critérios tentando diferenciar trabalho de lazer, mas a cada dia encontramos mais exceções, que vão derrubar as regras. Na verdade, nós vivemos diversas situações que podem ser classificadas como trabalho ou como lazer. Por exemplo, quando você está na sua casa, fora do horário de trabalho, respondendo e-mails para um colega de trabalho ou para um cliente, você está fazendo o quê? Isto é uma relação de trabalho ou de amizade? E aquele jantar que você “tem que ir”, é trabalho ou é lazer?
Quando você está em cargos de chefia, é recomendável ter uma boa relação com os seus subordinados e com os seus superiores e frequentemente você os convida para um churrasco na sua casa ou para uma programação social. Isto é trabalho ou é lazer? E sair para jantar com o professor visitante ou com o cliente importante, é trabalho ou é lazer? Ou seja, estar em casa ou em locais de lazer não significa que você não esteja trabalhando.
Nas últimas décadas aumentou nossa expectativa de vida e mudou muito a nossa relação com o trabalho e com o lazer. Os planos de “fazer tudo o que gosta na aposentadoria” estão sendo substituídos por “trabalhar no que gosta e fazer o que gosta enquanto trabalha”. Trabalho e lazer são atividades que precisam ser feitas com prazer e elas devem sentido na vida das pessoas. A vida não para aos 60 ou aos 70 anos. Temos bons exemplos de pessoas muito ativas com mais de 80 anos, chegando até casos como o de Oscar Niemeyer que trabalhou até morrer com 104 anos.
Hoje, o trabalho ainda é visto como um castigo, como algo que somos obrigados a fazer para sobreviver, para conseguirmos o que queremos. Já o lazer é visto como um prêmio, uma recompensa. Trabalhei duro, agora mereço uma horas de lazer. Depois de 11 meses de trabalho, temos direito a um mês de férias. E como será no futuro?
Assim como no passado “não existia domingo”, no futuro “não existirá a segunda-feira”! Nossos netos não saberão mais a diferença entre trabalho e lazer. A sociedade terá recursos suficientes para garantir a sobrevivência de todos, não será necessário “trabalhar” para comer e viver razoavelmente. Mas apenas os incapacitados não irão desenvolver atividades produtivas. Os mais qualificados irão escolher onde, como e quais atividades irão realizar. Os demais, irão desenvolver atividades menos concorridas, mas serão reconhecidos e valorizados. Vai mudar a escala de valores. A sociedade do futuro vai continuar admirando as atividades realizadas por aqueles que aparecem na TV, que sobem num palco ou que entram num campo de futebol, mas será inteligente o suficiente para valorizar mais as atividades realizadas por quem é fundamental nas suas vidas: o bombeiro que salva a vida de centenas de pessoas, da enfermeira que pode salvar a sua vida, da professora que lhe ensina as lições básicas da vida. Estas profissões terão o reconhecimento e a valorização que merecem. Salvar vidas, ensinar e cuidar de pessoas não serão mais um “trabalho”, serão atividades prazerosas e bem remuneradas que terão muitos candidatos interessados em assumir tais atividades.
Uma visão otimista? Claro! Temos que ter esperança de que a sociedade será capaz de evoluir. A produtividade não está associada as horas de trabalho, mas sim ao resultado deste trabalho. Pessoas felizes, de bem com a vida, são mais produtivas. Como disse Mark Twain: “O Segredo do sucesso é fazer do seu dever o seu lazer”. Se este cenário é possível, por que não acreditar nele!

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Geração Moleza!

– 27 de abril de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
A vida da geração dos nossos avós e de nossos pais foi mais difícil do que a nossa e a dos nossos filhos está sendo mais fácil do que a da nossa geração (leia-se “nossa geração” quem está na faixa dos 40, 50 ou 60 anos). Isto parece óbvio, pois é resultado do desenvolvimento econômico e tecnológico ocorrido no país e no Mundo nas últimas décadas. Com mais desenvolvimento, mais tecnologias e mais facilidades, as pessoas desta geração irão desenvolver todo o seu potencial intelectual e irão aumentar significativamente a geração de conhecimento, certo?
Hummm…. Acho que não! Analisem o contexto em que eles cresceram e o comportamento da nova geração (quem tem entre 10 e 30 anos). Quando eles começaram a entender do Mundo, já era o período pós ditadura militar, pós-Collor de Mello, pós hiperinflação, ou seja, numa situação sócio-econômica-política mais tranquila, o que não lhes exigiu muito esforço. Em vez de dar autonomia aos alunos e de formar cidadãos atuantes, o sistema de ensino relaxou! A escola não ensina e não cobra como fazia antigamente, as universidades aumentaram as vagas, foram criadas bolsas, cotas e incentivos para quem queira frequentar um curso superior, bem como facilidades para ter uma experiência no exterior. Depois de formado, existem muitas oportunidade de emprego, pois o país tem vivido períodos de pleno emprego, ou próximo disto. Portanto, para que fazer muito esforço? Basta fazer o mínimo para passar por todas as etapas e chegar ao mercado de trabalho.
Mas afinal, o que tem de errado? Muitas coisas! Destaco a preguiça mental, a falta de objetivos e de persistência! Estamos formando a “geração moleza”, que não sabe, ou não está disposta a batalhar, a fazer muito esforço para conseguir as coisas, nem tão pouco é estimulada para isto. Diante das dificuldades, escolhe os caminhos mais fáceis. Se não conseguir resolver um problema em poucos minutos, logo desiste. Quem não ouviu dos seus filhos e alunos expressões como: “isto não é prá mim!”, “eu desisto!”, “ah, é muita mão!” Não se está pregando aqui o retorno aos sistemas de avaliação rígidos e com altos índices de reprovação, ou do acesso mais restritivo ao ensino superior. Nada disto, o questionamento se refere a falta de motivação e de autonomia para aprender e para se desenvolver que se constata na juventude.
A falta de objetivos e de persistência terá como resultado a longo prazo um subdesenvolvimento das capacidades físicas e intelectuais dos jovens. As tarefas que exigem muito esforço e disciplina estão sendo abandonadas. Isto vem ocorrendo em atividades que deveriam despertar o seu interesse, como o esporte e a música. O Brasil se destaca em diversas modalidades esportivas e vai sediar as Olimpíadas em 2016. O esperado seria de estarmos vivendo uma grande mobilização com muitos jovens praticando esportes. Mas não é isto que está ocorrendo. Os clubes que preparam atletas, selecionam crianças com potencial para a prática dos diversos esportes, mas quando eles chegam na adolescência, quando teriam que dedicar-se com mais intensidade ao esporte, abandonam os treinamentos. Algo semelhante ocorre na música, que é cada vez menor o número de jovens interessados em aprender a tocar instrumentos como piano, violino ou mesmo o violão. No passado, o sonho de um menino que gostava de música, era ser vocalista de uma banda de rock. Hoje, o menino que curte música, sonha em ser um DJ (Disc Jockey). Ser um atleta ou tocar um instrumento exige esforço e disciplina, logo… “ah, é muita mão!”
Investir em educação é a receita frequentemente dada para promover o desenvolvimento de um país. Qual a importância da educação para esta geração? Como os jovens de hoje escolhem a carreira a seguir? Eles costumam avaliar em qual dos cursos universitários eles têm mais chances de serem aprovados. Quem não fez esforço para ser um bom aluno no ensino médio, não estará disposto a fazer muito esforço para enfrentar um vestibular de um curso muito concorrido como a Medicina. Nem tão pouco fazer o vestibular para um “curso difícil”, que exija muito estudo. Geralmente a escolha ocorre em função da facilidade de acesso e do retorno que este curso poderá dar em termos financeiros. Durante as aulas nas universidades, é comum ver alunos navegando nos seus smartphones, tablets e computadores. Eles se sentem incomodados se o professor lhes fizer uma pergunta e lhe tirar a concentração do que estavam fazendo. Os professores deveriam fazer “duas chamadas” para verificar a presença, uma para o corpo e outra para o cabeça do aluno.
Qual a consequência disto tudo? Considerando que entre os 17 e 30 anos é o auge do potencial intelectual e físico do ser humano, se o jovem passar por este período da vida na poltrona jogando vídeo game, navegando nas redes sociais ou só fazendo festas, estará escolhendo os caminhos mais fáceis e agradáveis, mas terá desperdiçado a oportunidade de desenvolver suas potencialidades. Isto não é apenas uma escolha pessoal, ela terá repercussões no desenvolvimento do país, pois o desenvolvimento é resultado de qualificação, do aumento de eficiência da sua população, das inovações geradas, etc. Em vez de termos uma grande massa de jovens motivados gerando conhecimento, teremos um enorme contingente de pessoas consumindo conhecimento gerado pelos poucos que se esforçaram, ou comprando conhecimento desenvolvido pelos MITs e Harvards dos países desenvolvidos.
Numa entrevista com um rico empresário, quando questionado sobre a sua relação com os filhos, ele reconheceu a sua ausência em muitos momentos, mas disse que fez o possível para dar aos filhos o que eles precisavam. Depois ficou alguns segundos em silêncio, pensativo e complementou dizendo: “o meu maior erro foi não ter dado pobreza aos meus filhos”.
Quando refletimos e fazemos críticas ao comportamento da juventude obviamente que estamos fazendo uma generalização. Talvez isto seja um problema dos filhos da classe média. A pergunta que surge é “de quem é a culpa?” Deles mesmos? Da falta de independência? Ou seria do desenvolvimento econômico e tecnológico? Dos professores das escolas e universidades? Dos pais destas crianças? Ou quem sabe por não termos ensinado pobreza aos nossos filhos?

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com
Repaginando a Páscoa

– 20 de abril de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
O Papa Francisco está empenhado em modernizar e tornar a Igreja Católica mais popular. Para que a mensagem cristã faça sentido para a juventude e que seja melhor compreendida pelos milhões de seguidores, é necessário repaginar a linguagem e os símbolos da Páscoa.
Páscoa significa “passagem”, e na Europa a Páscoa significava a celebração da passagem do inverno para a primavera. Para os Judeus a Páscoa está relacionada com a passagem pelo Mar Vermelho, fugindo do Egito. Para os cristãos, a Páscoa é a passagem da morte para a vida, a ressurreição de Cristo.
Atualmente, quando se fala em Páscoa, a passagem que lembramos é a “aérea”, ou a “passagem pelo pedágio”, pois Páscoa está associado com feriadão, com viagens. Os símbolos mais lembrados são o “Coelho” e o “Ovo de Chocolate”. Se perguntarmos para um adolescente o que aconteceu de importante na Páscoa, talvez ele fique na dúvida se quem morreu foi Jesus Cristo ou Tiradentes? Portanto, hoje seria muito difícil recuperar o significado dos símbolos da Páscoa Cristã que são a “Cruz” (vitória sobre a morte), “Pão e Vinho” (vida eterna) e o “Cordeiro” (sacrificado para salvar a humanidade).
Mas afinal, o que coelho e os ovos de chocolate tem a ver com a Páscoa? Historicamente, o coelho foi usado como símbolo da fertilidade, pois ele se reproduz muito rapidamente. Na antiguidade, a mortalidade era altíssima e a fertilidade era sinal de preservação da espécie, de uma vida melhor. E o ovo? Algumas interpretações dizem que o “ovo” contém algo oculto, é uma capsula que tem dentro dele uma vida que em algum momento irá surgir. Por isto ele está relacionado com a ressurreição de Cristo, que estava dentro de uma capsula (túmulo) e que ressurge para a vida. Outra versão diz que a relação do ovo de chocolate com a Páscoa foi um invenção dos confeiteiros franceses no século XVIII.
Como primeiro Papa Sul-Americano, Francisco sabe que aqui a Páscoa é a passagem para o inverno, e que no nosso povo não falta fertilidade. Cordeiros são muito apreciados, principalmente a paleta. Ciente disto tudo, o Papa encomendou aos seus assessores uma nova versão para a Páscoa, tendo Jesus como um super-herói com uma linguagem popular. Leia a seguir alguns trechos da versão draft (rascunho) das sugestões propostas:
1) Quinta-feira Santa: Santa Ceia – Ao dizer que “um de vós será o traidor”, Jesus sinaliza que tinha informações da conspiração para a sua morte. Sugere-se o seguinte diálogo para a Santa Ceia:
– Jesus – “Aí moçada, tô sabendo que um de vocês tá aprontando prá cima de mim”;
– Judas – “Que isto meu brother, tu sabe que a gente somos uma comunidade, nóis tamu fechado contigo parcero!”
2) Sexta-Feira Santa: Jesus ou Barrabás ?– na nova versão, Pilatos perguntará ao povo: “Querem que eu solte, Jesus ou o Deputado Barrabás, que está no presídio da Papuda?” O povo responde: “Barrabás, Barrabás, Barrabás!”
3) Sexta-Feira Santa: Morte de Jesus – Atualmente ninguém consegue imaginar uma pessoa pregada numa cruz. Sugere-se que a morte de Jesus ocorra na viatura que o levava para a prisão. Os guardas romanos dirão que a morte foi causada por uma bala perdida.
4) Sábado de Aleluia: Flagrante de Barrabás – ele é flagrado, por uma câmera oculta, recebendo propina e colocando o dinheiro na cueca;
5) Domingo de Páscoa: Ressureição de Jesus – com uma capa vermelha, Jesus sobrevoa Jerusalém causando medo e espanto aos poderosos. O povo arrependido de ter soltado Barrabás, grita: “Jesus, Jesus, Jesus! Ele veio para nos salvar!”
6) Símbolos – em vez de coelhos para representar a fertilidade e a preservação da espécie, sugere-se falar em “sustentabilidade”. A Páscoa será o período em que os cristãos irão comprar produtos ecológicos e refletir sobre a preservação do meio ambiente, relembrando que a natureza foi criada por Deus. Será mantida a tradição de dar presentes, mas em vez de ovos de chocolate, que de surpresa têm apenas o “preço”, sugere-se que as pessoas presenteiem “horas de convivência”. Por exemplo, os pais poderão entregar para os filhos um pacote embalado para presente, com um bilhetinho escrito: “Papai e Mamãe vão brincar toda a tarde com você”, ou, “Hoje vamos te levar na pracinha”, algo que realmente surpreenda a criança! Um verdadeiro presente!
As mudanças na versão oficial da Páscoa prometem muita adrenalina e poucas calorias (contribuirá para reduzir a obesidade da população). Se depender do Papa Chico, os coelhos e ovos de chocolate estão com os dias contados. Portanto, se você gosta de pagar 6, 7 ou 10 vezes o preço da mesma quantidade de chocolate no formato de um “ovo” do que no formato de uma “barra”, aproveite esta Páscoa.

(*) Luis Felipe Nascimento é professor na Escola de Administração da UFRGS.
Contato: nascimentolf@gmail.com

O Dia do Aniversário!

– 13 de abril de 2014:
Luis Felipe Nascimento (*)
Nesta semana completei 55 anos e recebi muitos cumprimentos e muito carinho dos amigos e da família. Tudo isto me fez refletir sobre os significados destes rituais. Por exemplo, por que damos “parabéns” para quem faz aniversário?
Parabéns (para + bem) é uma felicitação, uma congratulação, um reconhecimento. Além das datas de aniversários, em que outras situações a gente costuma fazer algum reconhecimento e dar parabéns para alguém? Isto geralmente ocorre quando uma pessoa fez algo destacado, quando teve algum mérito. Então, completar mais 365 dias de vida seria o equivalente a este mérito? Fazer aniversário seria semelhante a conquistar um título, vencer alguma disputa ou se destacar em alguma coisa? Considerando que todos os que sobreviveram os últim