19Jun
Coluna Dominical

A diferença entre igualdade e justiça

– 18 de junho de 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

Todos nós, independente do papel que exercemos na sociedade, temos um entendimento do que significa ser justo. Os pais, frequentemente, se questionam se estão sendo justos com os filhos, os professores buscam parâmetros para serem justos com seus alunos, os juízes, os políticos e religiosos alegam que suas decisões são justas. Mas, afinal, o que significa “ser justo”? Para uns, justiça é aplicar a mesma lei a todos. O artigo quinto da Constituição Brasileira diz:  “Todos são iguais perante a lei”. Porém, esta igualdade não é praticada nem nas famílias, nem nas escolas e muito menos na sociedade, como um todo. Por que será que não tratamos a todos, igualmente? Veja por exemplo: na família, a avó tem um neto preferido, na escola, o professor tem o aluno para o qual dispensa maior atenção, na sociedade, temos os cotistas. Pergunte a esta avó ou a este professor, quais os motivos que os levaram a dispensar um tratamento diferenciado a esse neto ou àquele aluno. Eles lhe dirão que os escolhidos são os que precisam de mais apoio ou maior atenção. E assim nos deparamos com o dilema: seria injusto apoiar ou atender a quem precisa mais do que os outros? Mas… e os outros, ao verem este tratamento diferenciado, não se sentiriam preteridos? 

Nas universidades se utiliza o princípio da meritocracia, ou seja, quem tem mais méritos, deve ter algumas vantagens, como por exemplo: conseguir uma bolsa de estudos, recursos para um projeto de pesquisa, ser o escolhido para determinada função, entre outros. Para reforçar este princípio se utiliza a expressão: “não podemos tratar de forma igual os diferentes”, o que significa dizer, quem se destaca e se torna diferente dos seus pares, deve receber um tratamento diferenciado. Este princípio é questionado por colegas que alegam que nem todos tiveram as mesmas oportunidades e um debate interminável se segue. 

Se por um lado estamos vivendo um momento na história em que a atuação de alguns juízes nos traz muita indignação, por outro, nos surpreendemos quando vemos uma empresa privada, que visa lucro, ter entre seus pilares, advogar apaixonadamente pela justiça social, interna e externamente aos seus limites. Exceção? Talvez! Isto tem sido um diferencial, um atrativo para recrutar os melhores talentos, pois pessoas talentosas querem trabalhar em ambientes que sejam respeitadas e que seja justo. Os gestores desta empresa dizem que a justiça não está em dar as mesmas oportunidades a todos, mas em oferecer condições para que todos se tornem iguais. Os seus colaboradores trabalham em pares e a avaliação do resultado é feita pelo desempenho do par. Quem sabe mais deve ensinar quem sabe menos, pois isto também faz parte da sua avaliação.

A figura dos três meninos, com diferentes alturas, querendo assistir uma partida de basebol ilustra a diferença entre igualdade e justiça. Os três estão atrás de um muro e querem assistir o jogo, mas somente o mais alto consegue ver por cima do muro. Ao do meio faltam alguns centímetros para conseguir olhar por cima do muro. E ao menorzinho, faltam muitos centímetros. Usando o princípio da igualdade, todos receberiam o mesmo banquinho. O maior nem precisaria do banquinho. O do meio, com o banquinho conseguiria assistir o jogo. E o menor deles, mesmo com um banquinho, não alcançaria o topo do muro. Logo, “dar as mesmas oportunidades a todos” não significa que “todos terão condições de alcançar seus objetivos”– o de assistir ao jogo. 

Outro exemplo que ilustra a confusão que se faz entre “ser justo” e “aplicar o mesmo critério a todos”, é o do professor quando diz que “para garantir uma seleção justa, vocês farão o mesmo teste: subir naquela árvore”. Entre os candidatos estão o macaco, o elefante, o peixe, a foca, o gato, o passarinho e o sapo. Talvez a frase que melhor explique esta ideia é a de que devemos cobrar “de cada qual, segundo sua capacidade; e a cada qual, segundo as suas necessidades”, frase que se tornou um dos princípios dos marxistas e anarquistas.

Tudo isto pode parecer utópico, mas é no mínimo questionador ver uma empresa capitalista usar um princípio marxista e compatibilizar justiça social com geração de lucro. Independente de concordarmos ou não com tais princípios, o exemplo dos meninos com os banquinhos e o teste de subir na árvore deixam claro que igualdade é diferente de justiça. Para promover a igualdade basta usar o mesmo critério para todos. Para sermos justos, precisamos ser éticos e olharmos o mundo na perspectiva do mais fraco.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

 

 

11Jun
Coluna Dominical

Para ser feliz é preciso ter propósito e amigos 

– 11 de junho 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

As coisas boas, geralmente, exigem esforço individual, pois uma conquista é o resultado de muito empenho. Para ser aprovado num exame, para ser selecionado num processo com muitos candidatos, para vencer uma competição esportiva, para conseguir comprar um bem desejado ou para uma mãe ter um filho, tudo exige esforço, pois “custa caro”. 

Por outro lado, muitas coisas ruins que nos acontecem, independem de nossas ações individuais. Ninguém é culpado por um acidente provocado por outros, por um assalto num local seguro, por heranças genéticas que causam dor e sofrimento, pelas catástrofes ambientais e suas consequências ou por outras coisas desse mesmo tipo, pois essas “vêm de graça”. 

Como consequência disto tudo, muitas tristezas são inevitáveis e precisamos entender que elas fazem parte da vida. Já as alegrias, são quase que uma opção, pois podemos escolher, ou não, fazer algo que nos provoque imensa alegria. 

Quem não fizer um grande esforço e não estiver determinado a conquistar ou realizar alguma coisa, não irá viver essa intensa felicidade, nem por um momento. Faça uma retrospectiva na sua vida e identifique alguns dos momentos felizes que você já viveu. Procure se lembrar dos detalhes: de como eles aconteceram e do que você sentiu. E agora identifique: quanto esforço foi necessário para que esta coisa boa acontecesse? 

Pensando nisto, compus a canção “Por que não?”, que nos leva à uma reflexão sobre… “Por que não fazer algo incrível, fora da rotina e do previsível, seja ele fácil ou quase impossível, mas que seja inesquecível?”. A resposta, até óbvia, poderia ser: “Porque isto exige um esforço que nem todos estão dispostos a fazer”, até porque ainda corremos o risco de fazermos esse esforço e não conquistarmos o objetivo. Porém, na minha opinião, a resposta é: “A falta de propósito e de amigos”. Eu explico! Se as pessoas não forem estimuladas a fazer algo incrível, a querer mudar o mundo, a ter um propósito, um desejo, elas vão imaginar que isto é coisa para ser feito por outros que sejam “mais isto” ou “mais aquilo”, não por elas mesmas. E se não tiverem amigos, com quem compartilhar bons momentos, as suas conquistas perderão o sentido. Imagine você voltar da sua viagem dos sonhos e não ter para quem contar?! Não ter “uma única pessoa” interessada em ouvir as suas histórias e ver as suas fotos?! Mas será que tem alguém não tenha “pelo menos” um amigo? 

Leandro Karnal diz que o fracasso, a dor e a doença provocam solidariedade, enquanto que o sucesso gera inveja, pois somente um amigo verdadeiro vai sorrir e se emocionar com suas vitórias. O que mais vemos hoje são umas pessoas desestimuladas, que não estão dispostas a sair da sua zona de conforto para viver algo incrível e outras que buscam ser felizes, mas só pensam nelas, parece que querem ser feliz sozinhas. A verdade é que para sermos felizes, precisamos estar com amigos que se alegrem com as nossas conquistas, pois a felicidade, para ser completa, tem que ser compartilhada. 

Assista o clipe “Por que não?” e outros nove vídeos na playlist “Give me five”, clicando em https://www.youtube.com/watch?v=bZX2Uty7CMc&list=PLgUOB7lbjqeGOQKDX6jn9cZNYowQo8wCH

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

31May
Coluna Dominical

Boicotar as más ou promover as boas empresas?

– 28 de maio 2017

Luis Felipe Nascimento (*)

A pessoa física tem CPF, a pessoa jurídica tem CNPJ e ambas têm direitos e responsabilidades e gozam de uma certa reputação na sociedade. Assim como nos enganamos com as pessoas físicas, frequentemente nos enganamos com as pessoas jurídicas, conhecidas como “Empresas”.  Nos últimos tempos nos diziam que as empresas multinacionais brasileiras seriam a força propulsora do desenvolvimento brasileiro. Chegamos a ter o oitavo homem mais rico do mundo… Enfim, as empresas e os empresários brasileiros estavam aparecendo nos rankings dos maiores do mundo. Isto era noticiado como motivo de orgulho para os brasileiros, lembram disto?

Os analistas diziam que em poucos anos a Petrobrás seria a maior empresa do mundo. E o que aconteceu? Tá quebrada! A Odebrecht era uma potência, fazia obras pela América Latina, África e também nos EUA. E o que aconteceu? Confessou que há décadas compra deputados para fazer leis em seu favor. Assinou um acordo de leniência. O grupo JBS se transformou rapidamente no líder mundial em processamento de carne bovina, ovina e avícola. E o que aconteceu? O valor da empresa caiu quando os donos contaram como manipulavam os políticos e as decisões dos governos. Tudo isto afetou não só o orgulho dos brasileiros que acreditavam na competência das empresas brasileiras, mas afetou também o bolso dos brasileiros, pois o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e “Social”, que é uma empresa pública – não é um banco comercial – é dono 21,32% das ações (R$ 8,1 bilhões) da JBS e lhe emprestou 3 bilhões (entre 2005 e 2016) a juros subsidiados. Quando uma empresa pública tem prejuízo, quem paga a conta? O público, é claro!

Recebi várias mensagens com apelos para boicotar as marcas do grupo JBS, como forma de demonstrar a indignação do povo brasileiro para com os proprietários. Ora, é difícil decorar os nomes das 38 marcas do grupo, pois só de proteína animal são 13 diferentes e ainda tem os laticínios, os cosméticos, a marca de tênis e até de chinelos de dedo. Não creio que este boicote terá sucesso, assim como outras tentativas também não tiveram. Penso que é mais eficiente apoiarmos empresas com boas práticas, que causam impactos positivos na sociedade do que boicotar as que causam danos para a sociedade. Como fazer isto? Como saber quem tem boas práticas de governança corporativa? Ora, podemos criar uma rede de credibilidade, como existem em serviços como o AirBnB. Existem sites como o ReclameAQUI  (www.reclameaqui.com.br) que indica as melhores empresas. Além disto, existem organizações sérias que avaliam a responsabilidade social das empresas. Podemos e devemos nos informar sobre quem é quem.

Conheci uma empresa que se perguntou: “e se nós desaparecêssemos hoje, qual a falta que faríamos para a sociedade?” Depois desta reflexão, a empresa mudou a sua conduta e deixou de produzir alguns produtos e de vender outros produtos para quem ela não queria como parceiros. Assim como esta, existem muitas outras que não pensam apenas no lucro, mas também em como fazer o bem para a sociedade, como um todo.

Por fim, o dinheiro é seu, ao decidir comprar alguma coisa, invista seu dinheiro em empresas com valores com os quais você se identifica. E quanto maiores forem suas exigências, mais as empresas terão que melhorar as suas boas práticas para tê-lo em seu rol de clientes. O ato de comprar, quase sempre, é uma escolha. Você poderá optar pela carne do açougue da esquina, do seu José, seu velho conhecido há 30 anos, ou escolher comprar da empresa multinacional que rouba o seu dinheiro e ri da sua cara, mas que aparece nas mídias se dizendo preocupada conosco e com o meio ambiente. Que este momento sirva para refletirmos sobre tudo isto. Não basta só denunciar e nos indignarmos com quem faz o mal, precisamos agora a falar e destacar quem faz o bem. Assim se cria uma rede de credibilidade que irá diferenciar o joio do trigo.

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

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