21Oct
Coluna Dominical

Chamamos para o embarque: Professores, portadores do cartão …

– 21 de outubro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

No dia 15 de outubro foi comemorado o “Dia dos Professores” e muitos de nós professores receberam mensagens carinhosas neste dia. É muito bom saber que algumas pessoas reconhecem que os professores estimulam uma criança ou um adolescente a descobrir o seu potencial, que é o “profe” que os leva a viajar pelo mundo do conhecimento, a refletir e a ser crítico com fatos. No ensino superior, o professor prepara o futuro profissional. Mas, o reconhecimento do valor dos professores não é um sentimento geral da sociedade brasileira. Quando em campanha, os candidatos de todos os partidos afirmam que a educação terá prioridade no seu governo, mas isto não tem se confirmado na prática. 

Você já imaginou uma sociedade sem professores?  O que seria de uma sociedade sem ensino, cultura e informação? Se não existissem professores não existiriam as outras profissões. A qualidade dos serviços prestados pelos profissionais depende muito da qualidade do ensino que eles receberam. Segundo o ranking da OCDE**, entre 40 países analisados em 2017, os quatro países com melhor qualidade de ensino nas escolas são Finlândia, Coréia do Sul, Hong Kong e Japão. E o Brasil? O Brasil ocupou a penúltima colocação! Nos países top, os professores são bem pagos, mas não são os mais altos salários. Muitas pessoas desejam ingressar nesta profissão pelo reconhecimento que ela possui na sociedade.

Como que uma sociedade expressa o seu reconhecimento a determinada profissão? Observei que nos aeroportos americanos é dada prioridade de embarque aos portadores do cartão tal, aos idosos, as grávidas, as pessoas acompanhadas de crianças, da mesma forma que nos aeroportos brasileiros, mas além destes, os norte-americanos dão prioridade também para os militares. Aliás, os militares nos EUA possuem uma série de regalias, como entrada gratuita em museus, financiamento especial em bancos, etc. O que isto significa? Que a sociedade norte-americana valoriza os militares, independentemente de eles terem ido ou não para a guerra, de terem sido heróis ou não. No entendimento dos norte-americanos, os militares dedicam as suas vidas para defender a pátria e a vida dos outros e, por isso, merecem o reconhecimento da sociedade.

No Brasil, os professores já foram mais reconhecidos pela sociedade, eles eram pessoas influentes e respeitadas, principalmente nas pequenas cidades. Nos anos 60 e 70 o CPERS/Sindicato promoveu mobilizações dos professores do Rio Grande do Sul em defesa da educação e dos direitos dos professores do Estado do RS. Em 1981 foi criada a ANDES, e foram se intensificando as lutas contra a precarização do trabalho no ensino superior.  Apesar destas lutas, nas últimas décadas ocorreu a expansão do ensino privado, aumentaram as diferenças salariais e as condições de trabalho de uma escola para outra, de uma faculdade para outra. A diferença salarial entre o professor com maior salário para o de menor salário no Brasil é muitas vezes superior a diferença salarial que existe entre professores da Finlândia, Coréia do Sul, Hong Kong e Japão. Portanto, não se trata apenas de diferenças de níveis de qualificação, mas sim de enormes diferenças para professores que exercem a mesma função em diferentes instituições. Mesmo nos EUA, país mais capitalista do mundo, no qual os salários dos professores universitários são negociados caso a caso, não existe uma diferença tão grande como no Brasil. 

Me arrisco a dizer que a superação da crise na educação no Brasil precisaria ser atacada em diferentes frentes: por meio de políticas públicas de valorização dos professores, usando critérios semelhantes aos utilizados nos países top do ranking. E, como os alunos mudaram, os professores precisarão se reinventar para trabalhar com alunos que estão, a maior parte do tempo, com o indicador grudado na tela do celular ou do tablet. E por fim a sociedade que, em boa parte, vê a escola como o local onde descarregar os filhos e repassar aos professores a responsabilidade pela educação que não deram em casa. Portanto, os pais precisarão assumir as responsabilidades que são suas. Existe ainda, pais que veem os professores como seus funcionários e querem controlar o que os professores podem ou não dizer em sala de aula. Enquanto este processo não ocorre nas diferentes frentes, os líderes do amanhã continuam hoje, sendo formados em escolas iguais as que estudamos no passado. 

(*) Luis Felipe Nascimento é “estudante titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com 

 (**) OCDE = Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – https://guiadoestudante.abril.com.br/universidades/brasil-esta-em-penultimo-lugar-em-ranking-de-qualidade-na-educacao/ 

14Oct
Coluna Dominical

O que temos em comum com alguns dos que estão do outro lado?

– 14 de outubro 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Eu sou colorado e adoro meus amigos gremistas. Sou heterossexual e me relaciono muito bem com os meus amigos gays. Gosto de Chico Buarque, Roger Waters… e respeito quem não gosta da posição política deles. Tenho fé e admiro quem se proclama ateu. Da mesma forma, neste segundo turno, apoio Haddad e respeito quem apoia Bolsonaro, ou que não vai votar em nenhum dos dois. Eu defendo a preservação da natureza e os acordos internacionais para reduzir a poluição. Bolsonaro diz que, se eleito, pode retirar o Brasil do acordo de Paris, assinado por 195 países. Eu não teria como votar nele e no General Mourão, pois eles propõem o oposto do que eu penso em muitas áreas. Mas, se você se identifica com o que eles propõem, vote neles. Agora, se você não gosta de nenhum dos dois, deixe eu lhe dar uma dica: escolha o que mais se aproxima dos seus princípios. Não votar é deixar para os outros decidirem por você. Lembro de uma eleição em que os candidatos eram muito ruins e o Macaco Tião recebeu os votos de protesto. Resultado, o pior candidato foi o eleito. Sim! Temos opiniões divergentes e visões de mundo diferentes, mas temos algumas coisas em comum que nos fez amigos, ou que faz você ler este texto. A biodiversidade da vida se fortalece quando convivemos com as diferenças. Eu não quero que ninguém omita ou mude suas opiniões para ser meu amigo, da mesma forma que, se alguém não me aceitar como eu sou, talvez não queira ser meu amigo.

Analisando os argumentos dos eleitores dos dois lados, percebi que parte dos eleitores de Bolsonaro temem que o Haddad e seus apoiadores transformem o Brasil numa Venezuela e instalem uma ditadura de esquerda. No outro lado, parte dos eleitores de Haddad temem que Bolsonaro e seus apoiadores transformem o Brasil numa ditadura de direita. Para quem acha que não temos risco de ditadura, vale lembrar que o percentual de brasileiros que acreditam que a democracia é sempre o melhor sistema de governo caiu de 77% em 2010 para 56% em 2018, menos de 20% estão satisfeitos com a democracia e quase a metade da população aceitaria um golpe, em certas circunstâncias (Como morrem as democracias – Steven Levitsky) . Quem flerta com sistemas ditatoriais acredita que seria a forma de acabar com a corrupção e promover o desenvolvimento. Porém, desconhece que em todas as ditaduras existe corrupção e que, é raro o país com ditadura que consegue ter um desenvolvimento econômico comparado com o desenvolvimento das democracias.

As ditaduras modernas foram implantadas por governantes legitimamente eleitos: Chaves (Venezuela), Puttin (Rússia), Daniel Ortega (Nicarágua), Erdogan (Turquia), etc. Se boa parte dos eleitores dos dois candidatos temem ditaduras, temos aqui um ponto de interesse comum. Por que não unir os que defendem a democracia?
Como fazer isto? Primeiro, identificar quem dos que estão do outro lado, defendem a democracia. Estes devem ser vistos como potenciais aliados contra qualquer tentativa do governo eleito em restringir os direitos e os valores democráticos. Segundo, fiscalizar e cobrar dos parlamentares recém eleitos a defesa da democracia. Terceiro, usar formas democráticas, inteligentes e criativas para pressionar os setores da sociedade que se manifestarem favoráveis às medidas antidemocráticas. A polarização permitiu identificar as diferenças, agora é a hora de encontrar as semelhanças. O que temos em comum? Quem está interessado em salvar a democracia e o que podemos fazer juntos?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

07Oct
Coluna Dominical

Erupções da Vida

7 de outubro de 2018

Luís Felipe Nascimento (*)

Andei pesquisando sobre os vulcões e percebi que muitas vezes nos comportamos como vulcões em erupção. Os vulcões são as válvulas de escape da lava (magma). Tudo começa quando as placas tectônicas entram em conflito e se chocam uma com as outras aumentando assim a temperatura e a pressão no interior da terra. A lava que habita o interior da Terra, fica indignada com estes choques e rompe um ponto fraco na crosta terrestre para aliviar aquela tensão. Quando ocorre a erupção são ejetados, junto com a lava, gases, poeira e aerossóis, considerados poluentes ao meio ambiente. O que pouca gente sabe é que as erupções são benéficas para a natureza, pois na base dos vulcões estão as terras mais férteis do Planeta, ricas em minerais. No início da história do Planeta, graças às erupções vulcânicas, o oxigênio se formou na atmosfera. 

E nós, humanos, também temos nossas “placas tectônicas”, que quando se chocam, aumentam as angústias. A sociedade e os nossos relacionamentos nos transformam em quem não somos. Aumentam os nossos conflitos.  Assim como a lava, a angústia busca uma fenda para uma possível erupção, mas se depara com outros sentimentos: o “medo” de que lá fora seja pior e a “esperança” de diminuir essa pressão, ao sair.

As erupções humanas jogam para fora uma lava composta de sentimentos reprimidos, rancores, dores, afetos e amores que não se realizaram na forma desejada, e que, após expelidos, demoram algum tempo para se sedimentar, mas depois se tornam um solo fértil para o surgimento de novas relações, de novos jeitos de estar no mundo. A região atingida pela erupção de um vulcão nunca mais será a mesma. Da mesma forma, a pessoa que “entrar em erupção”, se transformará em outra, até então desconhecida.

Ilhas e arquipélagos como Fernando de Noronha, Havaí, Japão e Islândia são resultados de erupções vulcânicas. Foi a instabilidade das placas tectônicas que gerou esses lugares maravilhosos. Os nossos “abalos sísmicos” também podem resultar em experiências surpreendentemente belas ou em nuvens de cinza e fumaça capazes de tapar o nosso sol. Enfim, nas erupções da vida podemos nos remoldar do pó que restou ou seremos remoldados pela lava que escorre dos desejos dos outros.  

(*) Luís Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. 

Contato: nascimentolf@gmail.com