22Apr
Coluna Dominical

Dona Pulga e a Pulguinha

– 22 de abril 2012 (Dia Mundial da Terra)

Luis Felipe Nascimento (*)

Mãe, mãe, quem criou o mundo?

– Eu acredito que foi Deus.

Então foi Deus que criou a vida?

– Sim, todas as criaturas vivas do planeta terra são filhas de Deus.

Se nós, pulgas, somos filhas de Deus, por que ninguém gosta de nós?

– Humm… pois é…. acho que é por que nós não temos utilidade para ninguém!

Quem não tem utilidade não merece amor? Quando as pessoas e os cachorros perdem a utilidade, os outros deixam de gostar deles?

– Não! Mesmo quando velhinhos, tem gente que gosta e que cuida deles.

Então não entendi! Me explica mãe, por que os humanos não gostam de nós?

– Veja bem… talvez porque nós somos os parasitas e eles os hospedeiros. Nós sugamos o sangue deles!

Mas eles têm bastante sangue e a gente tira só uma gotinha deles, só para nossa sobrevivência.

– É, a nossa picada não dói, mas dá coceira e eles não gostam.

Será que a nossa picada é pior do que a cravada de uma agulha para tirar o seu sangue?

– Não, mas aí a picada faz algum sentido, já que é para fazer exame do sangue.

Os humanos só fazem coisas que faz sentido?

– Ah, eu acho que não!

Então mãe, a gente também é filha de Deus e precisa de uma ajudinha deles para sobreviver. Uma gotinha de sangue, é pedir demais?

– Filhinha, ao picar alguém, a gente também pode transmitir doenças.

“Transmitir” é picar um doente e depois picar quem está sadio?

– Isso mesmo!

Não seria melhor curar o que está doente do que querer matar a gente, que só transmite?

– Ai meu Deus, que pulguinha chata! Você parece o vizinho, aquele piolho chato!

Mas mãe, se Deus criou os parasitas, é porque nós temos alguma função ecológica neste mundo. Por que ele iria criar umas criaturas só para sugar o sangue dos outros?

 – Minha pequena Pulex irritansDeixe de querer se sentir útil e querida pelos humanos.

Tá bom, mãe, mas eu ainda acho que um dia os cientistas vão descobrir que nós temos algo a ensinar aos humanos ou que somos importantes para o equilíbrio do sistema natural. Daí eles vão aprovar uma lei de proteção às pulgas… Você vai ver!

– kkkk… mas enquanto isso não acontece, vai pulando e brincando por aí, minha querida, mas tome cuidado, se um humano te apanhar, não tente explicar  a tua função ecológica neste mundo. Pule fora!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

15Apr
Coluna Dominical

Nunca paramos de nascer!

– 15 de abril de 2018

Luis Felipe Nascimento (*) e Christiane Ganzo (**)

Aquele feto que vive confortavelmente no útero da mãe, recebe facilmente o alimento, vai crescendo e o espaço vai ficando tão apertado que para ele espichar uma perna, é preciso empurrar a barriga da mãe. Quando ele está pronto, o ambiente já está desconfortável, então ele nasce! Mas nascer não é fácil, pois é um ato que exige passar por um estreito, fazendo muito esforço para chegar ao outro lado. E quando chega, encontra um mundo totalmente diferente, frio, cheio de ruídos diferentes e luzes que ele ainda não tinha vivenciado. Pior ainda, cortam o cordão umbilical e cessa o alimento “fácil”, e a partir daí, ele precisará aprender a sugar o leite materno, ou seja, um novo aprendizado para o qual ele terá que fazer muito esforço. O recém-nascido vai sentir fome, angústia e vai chorar para avisar que não está gostando de alguma coisa desse novo mundo. 

Nascer é sair do ventre, do ovo, da terra, de um espaço que ficou pequeno, passar por uma situação de angústia, por um estreito, para chegar no outro lado, num mundo desconhecido. Esse termo “angústia” derivou de angustus no latim, que significa estreitamento, redução do espaço ou de tempo, carência, falta, estado de ansiedade, sofrimento.  Interessante perceber que não existe a opção de continuar sempre pequeninho, no conforto do útero. Ou o embrião germina e cresce, ou morre. 

Nós associamos o nascimento ao “sair do ventre”, mas situações semelhantes ocorrem ao longo de nossa existência. Quando saímos da bolha, que é a nossa casa, para irmos para escola, é um momento de muita apreensão, pois ocorre um certo desligamento dos vínculos com a nossa família, para uma outra conexão: a escola. E nós continuamos renascendo e novas energias são ativadas. Quando iniciamos uma relação com alguém, entramos num mundo, até então, desconhecido. Deixamos a nossa situação cômoda do “estar só”, para assumirmos os riscos do “estar junto”. Um encontro que pode nos adoecer ou nos curar. Para entramos no mundo do trabalho, passamos por um exigente processo de seleção que causa preocupações e ansiedades. Sentimos a necessidade de estabelecer novas ligações para sobreviver e crescer neste novo ambiente e estamos sempre atravessando estreitos, passando por situações angustiantes, para chegar do outro lado e podermos conhecer o novo. Neste processo o nosso cordão umbilical é cortado e precisamos nos alimentar por outras fontes. Quando estamos numa situação de ansiedade, parece que ela será eterna, não percebemos que ela faz parte de uma transição para uma nova fase, como num game, no caso, o jogo da vida.

Como humanos, nascemos e morremos sozinhos e não existe a possibilidade de alguém nascer ou morrer no nosso lugar. Ninguém pode assumir as nossas dores, mas a vida é o resultado de encontros. Nós nascemos do encontro do masculino e feminino e vivemos nos conectando e desconectando para nos reconectarmos. Cada conexão produz uma nova quantidade de afetos. Estamos sempre cortando um laço e nos ligando a outro. Nunca paramos de (re)nascer!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

(**) Christiane Ganzo é Psicoterapeuta no Espaço Bororó e no Bororó Educação.

Contato: christianeganzo@gmail.com    

15Apr
Coluna Dominical

Síndrome do antagonismo crônico 

– 15 de abril de 2018

Lisiane Mota (*)

Vivemos historicamente de antagonismos: GRENAL, FLAFLU, Arena x MDB, PT X PSDB, PSDB X PMDB, Escravocratas x Alforristas, Homens x Mulheres, Machistas x Feministas, Pobres x Ricos, Iluminados x Iletrados, Coxinhas x Mortadelas, Iniciativa privada x Iniciativa pública, Capitalismo x Comunismo, Gosto x Não gosto, Gosto “se” x Não gosto “porque”, Loiras x Morenas, Bombados x Nerds, Magros x Gordos…a lista é sem fim, mas sempre coloca as pessoas em lados opostos.

Presos nesse loop do antagonismo fechamos os olhos ao vasto manancial de opções que se encontram nos caminhos do meio. Se a vida não é linear, eis que dá muitas voltas, os caminhos também não o são, e estão espalhados, em todas as opções desse vasto espaço entre os opostos.

Desde que o mundo é mundo o antagonismo exerce um papel fundamental aos que dele se servem, o de manter afastadas pessoas que poderiam encontrar pontos de intersecção. Enquanto aceitarmos sermos colocados em extremos, afastados do outro extremo de tal modo que não consigamos encontrar pontos em comum e de modo que não consigamos nos unir com base nesses pontos harmônicos, seguiremos sendo instrumentos da velha máxima do “dividir para conquistar”. Divididos somos mais úteis aos que efetivamente se beneficiam dos extremos.

Isso, contudo, não significa que os beneficiários desses extremos não possam se beneficiar dos caminhos do meio, mas o sentimento de insegurança e ameaça faz com que bloqueiem caminhos e sigam utilizando trilhas já conhecidas. É sempre mais fácil costear o terreno do que se arriscar mata a dentro. 

A questão de fundo é que a diferença entre os homens e os desbravadores é a disposição de lançar-se ao desconhecido. Sair de sua zona de coforto, conhecer ao desconhecido, e dar-se a conhecer. Seja na política, nas relações pessoais, o crescimento vem dos desafios e quanto mais presos ficarmos as nossas posições menos crescimento efetivo teremos. Nos tornamos pessoas melhores pelo exercício diário, e sempre difícil, de dar-se a conhecer e de realmente desejarmos conhecer e compreender o mundo do outro. Se nosso mundo não será como idealizado, precisamos compreender que ele será como for possível. Sair do estado de comodidade, pensar fora da caixa, olhar com outros olhos, são maneiras análogas de se fazer o que é fundamental para crescer, arriscar-se.

Entender que o antagonismo é inexperto, que nos afasta do mundo e nos cerceia o crescimento é o primeiro passo para entender que ele serve a qualquer outro fim que não o nosso próprio bem. Somente começaremos a sair desse antagonismo crônico e incrustado em nossos hábitos quando, como seres sociais que somos, buscarmos a proximidade, o contato e exercitarmos a empatia, desenvolvermos o ouvir mais do que o falar. Muito mais do que exercícios sociais, são exercícios políticos, sociológicos e culturais, é entender o mundo como ele de fato é, e entender-se parte desse mundo, e nele situar-se de maneira harmônica e produtiva. Entender que não somos sozinhos. Somos melhores em grupo, e somos melhores unidos, jamais antagonizados. 

(*) Lisiane Mota é representante comercial e mediadora judicial.

Contato: lisianeb@terra.com.br