15Apr
Coluna Dominical

Nunca paramos de nascer!

– 15 de abril de 2018

Luis Felipe Nascimento (*) e Christiane Ganzo (**)

Aquele feto que vive confortavelmente no útero da mãe, recebe facilmente o alimento, vai crescendo e o espaço vai ficando tão apertado que para ele espichar uma perna, é preciso empurrar a barriga da mãe. Quando ele está pronto, o ambiente já está desconfortável, então ele nasce! Mas nascer não é fácil, pois é um ato que exige passar por um estreito, fazendo muito esforço para chegar ao outro lado. E quando chega, encontra um mundo totalmente diferente, frio, cheio de ruídos diferentes e luzes que ele ainda não tinha vivenciado. Pior ainda, cortam o cordão umbilical e cessa o alimento “fácil”, e a partir daí, ele precisará aprender a sugar o leite materno, ou seja, um novo aprendizado para o qual ele terá que fazer muito esforço. O recém-nascido vai sentir fome, angústia e vai chorar para avisar que não está gostando de alguma coisa desse novo mundo. 

Nascer é sair do ventre, do ovo, da terra, de um espaço que ficou pequeno, passar por uma situação de angústia, por um estreito, para chegar no outro lado, num mundo desconhecido. Esse termo “angústia” derivou de angustus no latim, que significa estreitamento, redução do espaço ou de tempo, carência, falta, estado de ansiedade, sofrimento.  Interessante perceber que não existe a opção de continuar sempre pequeninho, no conforto do útero. Ou o embrião germina e cresce, ou morre. 

Nós associamos o nascimento ao “sair do ventre”, mas situações semelhantes ocorrem ao longo de nossa existência. Quando saímos da bolha, que é a nossa casa, para irmos para escola, é um momento de muita apreensão, pois ocorre um certo desligamento dos vínculos com a nossa família, para uma outra conexão: a escola. E nós continuamos renascendo e novas energias são ativadas. Quando iniciamos uma relação com alguém, entramos num mundo, até então, desconhecido. Deixamos a nossa situação cômoda do “estar só”, para assumirmos os riscos do “estar junto”. Um encontro que pode nos adoecer ou nos curar. Para entramos no mundo do trabalho, passamos por um exigente processo de seleção que causa preocupações e ansiedades. Sentimos a necessidade de estabelecer novas ligações para sobreviver e crescer neste novo ambiente e estamos sempre atravessando estreitos, passando por situações angustiantes, para chegar do outro lado e podermos conhecer o novo. Neste processo o nosso cordão umbilical é cortado e precisamos nos alimentar por outras fontes. Quando estamos numa situação de ansiedade, parece que ela será eterna, não percebemos que ela faz parte de uma transição para uma nova fase, como num game, no caso, o jogo da vida.

Como humanos, nascemos e morremos sozinhos e não existe a possibilidade de alguém nascer ou morrer no nosso lugar. Ninguém pode assumir as nossas dores, mas a vida é o resultado de encontros. Nós nascemos do encontro do masculino e feminino e vivemos nos conectando e desconectando para nos reconectarmos. Cada conexão produz uma nova quantidade de afetos. Estamos sempre cortando um laço e nos ligando a outro. Nunca paramos de (re)nascer!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

(**) Christiane Ganzo é Psicoterapeuta no Espaço Bororó e no Bororó Educação.

Contato: christianeganzo@gmail.com    

15Apr
Coluna Dominical

Síndrome do antagonismo crônico 

– 15 de abril de 2018

Lisiane Mota (*)

Vivemos historicamente de antagonismos: GRENAL, FLAFLU, Arena x MDB, PT X PSDB, PSDB X PMDB, Escravocratas x Alforristas, Homens x Mulheres, Machistas x Feministas, Pobres x Ricos, Iluminados x Iletrados, Coxinhas x Mortadelas, Iniciativa privada x Iniciativa pública, Capitalismo x Comunismo, Gosto x Não gosto, Gosto “se” x Não gosto “porque”, Loiras x Morenas, Bombados x Nerds, Magros x Gordos…a lista é sem fim, mas sempre coloca as pessoas em lados opostos.

Presos nesse loop do antagonismo fechamos os olhos ao vasto manancial de opções que se encontram nos caminhos do meio. Se a vida não é linear, eis que dá muitas voltas, os caminhos também não o são, e estão espalhados, em todas as opções desse vasto espaço entre os opostos.

Desde que o mundo é mundo o antagonismo exerce um papel fundamental aos que dele se servem, o de manter afastadas pessoas que poderiam encontrar pontos de intersecção. Enquanto aceitarmos sermos colocados em extremos, afastados do outro extremo de tal modo que não consigamos encontrar pontos em comum e de modo que não consigamos nos unir com base nesses pontos harmônicos, seguiremos sendo instrumentos da velha máxima do “dividir para conquistar”. Divididos somos mais úteis aos que efetivamente se beneficiam dos extremos.

Isso, contudo, não significa que os beneficiários desses extremos não possam se beneficiar dos caminhos do meio, mas o sentimento de insegurança e ameaça faz com que bloqueiem caminhos e sigam utilizando trilhas já conhecidas. É sempre mais fácil costear o terreno do que se arriscar mata a dentro. 

A questão de fundo é que a diferença entre os homens e os desbravadores é a disposição de lançar-se ao desconhecido. Sair de sua zona de coforto, conhecer ao desconhecido, e dar-se a conhecer. Seja na política, nas relações pessoais, o crescimento vem dos desafios e quanto mais presos ficarmos as nossas posições menos crescimento efetivo teremos. Nos tornamos pessoas melhores pelo exercício diário, e sempre difícil, de dar-se a conhecer e de realmente desejarmos conhecer e compreender o mundo do outro. Se nosso mundo não será como idealizado, precisamos compreender que ele será como for possível. Sair do estado de comodidade, pensar fora da caixa, olhar com outros olhos, são maneiras análogas de se fazer o que é fundamental para crescer, arriscar-se.

Entender que o antagonismo é inexperto, que nos afasta do mundo e nos cerceia o crescimento é o primeiro passo para entender que ele serve a qualquer outro fim que não o nosso próprio bem. Somente começaremos a sair desse antagonismo crônico e incrustado em nossos hábitos quando, como seres sociais que somos, buscarmos a proximidade, o contato e exercitarmos a empatia, desenvolvermos o ouvir mais do que o falar. Muito mais do que exercícios sociais, são exercícios políticos, sociológicos e culturais, é entender o mundo como ele de fato é, e entender-se parte desse mundo, e nele situar-se de maneira harmônica e produtiva. Entender que não somos sozinhos. Somos melhores em grupo, e somos melhores unidos, jamais antagonizados. 

(*) Lisiane Mota é representante comercial e mediadora judicial.

Contato: lisianeb@terra.com.br

08Apr
Coluna Dominical

Fofoqueiros do Futuro

– 8 de abril de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

O ser humano sempre gostou de saber e comentar a vida do outro. A ideia de privacidade surgiu no século XVIII, pois antes disto era coisa só dos nobres, mas de uns tempos para cá, percebemos que não existe mais essa tal de privacidade em nenhum lugar do mundo. O recente escândalo da Cambridge Analytica mostrou que, além de saber da nossa vida, as grandes empresas e os governos são capazes de manipular nossas opiniões e nossos sentimentos.

Cambridge Analytica é uma empresa que trabalha com Big Data e comunicação estratégica na política. A empresa diz que ajudou a eleger Trump, que influenciou no plebiscito para a saída do Reino Unido da Comunidade Europeia e que interferiu em mais de 200 eleições pelo mundo. Talvez eles estejam exagerando no seu poder de influência, mas a fofoca com eles, é da pesada! Como que eles fizeram isto? Depois de 4 anos, foi revelada a teoria desenvolvida por um professor de Cambridge que, por meio do aplicativo “Esta é sua vida digital”, conseguia traçar o perfil psicológico das pessoas. Os usuários do Facebook que acessaram este aplicativo, interessados em saber mais sobre sua personalidade, permitiram o acesso a sua lista de amigos e responderam perguntas, tais como: se gostavam de arte, se eram extrovertidos, se costumavam concluir os projetos que iniciaram, se eram vingativos, entre outras. O aplicativo foi acessado por 270 mil usuários e que tinham, em média 200 amigos, o que permitiu o mapeamento do perfil de mais de 50 milhões de pessoas.

E o que eles fizeram com essas informações? Para resumir: o dono dessa empresa é amigo do Trump, que contratou um cara, que falou com o tal professor e usaram a tal teoria para convencer os eleitores americanos a votarem no Trump. Por exemplo, um eleitor que adorava gatinhos, recebia noticias sutis e fotos insinuando que a Hillary maltratava gatinhos. As tais mensagens não eram enviadas pelo Trump, elas apareciam “por acaso” ou eram encaminhadas por alguém que este eleitor confiava. Um dos diretores da Cambridge disse para um jornalista, que se passou por político querendo contratar os seus serviços: “… as pessoas processam as informações através da esperança e do medo, muitas vezes inconscientemente. Nosso trabalho é descobrir quais são os seus medos…. Não adianta disputar uma eleição com fatos, mas sim com emoções e tudo precisa acontecer sem que pareça propaganda. No momento que as pessoas percebem que é propaganda, vão perguntar quem produziu. Precisamos ser sutis. Colocamos informações na corrente sanguínea da internet e vamos crescer”.

Tudo isso ocorreu na política, mas como “eu não estou na política” isso não me afeta, certo? Errado!!! Você já se perguntou o que o Google ganha em lhe oferecer informações gratuitas? O que o WhatsApp ganha em fazer, de graça, ligações para qualquer parte do mundo, que antes eram caríssimas? E quando você entra num site de uma loja para comprar uma bolsa, precisará preencher um cadastro, mas poderá se livrar de todo o preenchimento, se entrar com o seu perfil do Facebook. Embora pareça que o Face não ganhe nada, ele ganha para vender seus dados para outros, e a partir daquele momento o Face vai controlar todas as suas compras naquela loja. Ele poderá informar outras lojas, que as pessoas que compram aquela bolsa, costumam também adquirir sapatos. E daí você começa a receber mensagens, fotos, vídeos em que aparecem mulheres lindas com uma bolsa parecida com a sua, usando sapatos lindos, despertando o seu desejo de comprar aqueles sapatos.

A Comunidade Europeia está discutindo novas leis para restringir esta invasão de privacidade, mas mesmo que essas novas leis funcionem, ainda restarão os hackers… que poderão ser os próximos a bisbilhotar nossas vidas. Tudo isto ocorre porque as pessoas e organizações querem mais poder e dinheiro. A publicidade constrói desejos e necessidades prometendo que elas serão sanadas se o consumidor comprar determinado produto, e assim ele se sentirá feliz. Até quando vamos aceitar tudo isto? Será que as empresas não conseguem lucrar fazendo o bem? Será que elas não se sentiriam poderosas ao ajudar milhões de pessoas?  Já imaginou que bom seria se, uma vez identificado os nossos medos e as nossas necessidades, o Facebook, Google, Apple, Amazon, Microsoft, etc, atuassem para nos ajudar a superá-los? Se nos conscientizarmos que as empresas e os governos dependem de nós, talvez a fofoca no futuro seja para ajudar os cidadãos a serem mais saudáveis e a viverem num mundo mais sustentável. 

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

Saiba mais em:

  • The Gardian – https://www.theguardian.com/news/series/cambridge-analytica-files 

  • Podcast: Mamilos 141 – Quem Quer Privacidade? – http://www.b9.com.br/89010/mamilos-141-quem-quer-privacidade/