18Nov
Coluna Dominical

Incêndios na Califórnia

– 18 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

No Brasil estamos acostumados a ver inundações de bairros ou de cidades inteiras, mas não lembro de que alguma cidade tenha sido devastada pelo fogo. Talvez esta seja umas das razões que mais nos choca: como que o fogo pode ter destruído 12.263 prédios da cidade Paradise? Ironicamente, o fogo do inferno queimou o “paraíso” e causou 71 mortes. A pequena cidade de Paradise, com 27 mil habitantes, fica aos pés da Sierra Nevada, ao norte de San Francisco. Nos últimos 50 anos atraiu muitos aposentados, triplicando sua população. “Camp Fire” como é chamado o local deste incêndio, está sendo considerado o pior da história dos incêndios da Califórnia, hoje já está 55% controlado e tende a ser extinto em alguns dias, mesmo sem a presença da chuva. Outro foco que ainda queima é o “Woosley Fire”, onde está Malibu, nas proximidades de Los Angeles. Este incêndio já está com 82% controlado, deixando 2 mortes e destruído 836 prédios. Ambos incêndios começaram no dia 8 de novembro e onze dias depois ainda estão em chamas. Além destes, na última semana existiram cerca de 70 focos de incêndios, todos os demais já controlados. O ano de 2018 está tendo a temporada de incêndios mais destrutiva da história, só neste ano já foram 7.579 incêndios na Califórnia, que destruíram cerca de 7 mil km² e causaram prejuízos de 3 bilhões de dólares.

Mas por que estes incêndios acontecem? Segundo o Presidente Trump foi má gestão das florestas e ameaçou cortar as verbas para a recuperação das áreas atingidas. Esta é uma estratégia para atacar um estado que sempre vota contra ele, mas ele esqueceu de dizer que 60% das florestas na Califórnia são “florestas nacionais” e administradas por Washington. Ontem, Trump visitou Paradise, dois dias depois de dizer que o aquecimento global é uma farsa.

Imagine um verão quente e seco, com chuvas previstas para o outono, mas elas resolvem não aparecer. A vegetação está seca, e então alguém distraído joga fora uma bituca de cigarro.  Os incêndios sempre iniciam com faíscas provocadas pelo homem. Na verdade, existem duas temporadas de incêndios, os no verão, em função das altas temperaturas, que geralmente ocorrem nas florestas, em áreas mais afastadas das cidades. A segunda temporada são os incêndios no outono, os mais perigosos, pois se propagam devido aos ventos e atingem áreas próximas das cidades. Vale lembrar que Malibu é um lugar lindo onde a floresta chega próximo à praia, lugar onde vivem muitas celebridades. Neste local vive gente rica e que pode pagar um seguro contra incêndio. Em Paradise, provavelmente muitas pessoas não tinham seguro e perderam tudo mesmo. Uma realidade muito mais dura.

Por que morrem tantas pessoas? Em Paradise o fogo chegou muito rápido em função do vento. Além das 71 mortes comprovadas, existem mais de 1000 pessoas desaparecidas, a maioria idosos. Apesar dos avisos, algumas pessoas insistem em permanecer nas suas residências tentando evitar que o fogo se aproxime.

Qual a relação do aquecimento global com os incêndios? Segundo os especialistas, o aquecimento global fez aumentar 2 a 3 graus Fahrenheit na Califórnia, o que facilita os incêndios. Os registros dos incêndios começaram em 1932, desde então, nove entre os dez maiores incêndios ocorreram neste século, sendo cinco deles depois de 2010.

As consequências do fogo vão muito além das regiões dos incêndios. Segundo uma rede de monitoramento, na última quinta-feira, a qualidade do ar na região de San Francisco foi a pior do mundo, pior do que as das cidades mais poluídas da Índia e China.

Esperamos que milagrosamente essas mais de 1000 pessoas desaparecidas estejam vivas e que a população e nossos governantes se convençam que estes desastres não estão ocorrendo por acaso. Tenho repetido, cuidar da natureza é um ato de sobrevivência da nossa espécie. O custo destas tragédias supera em muito o que seria necessário para reduzir o crescente aquecimento global. Quantas tragédias ainda precisarão acontecer para que os  governantes deixem de dizer que o aquecimento global é uma farsa?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

11Nov
Coluna Dominical

As complicadas eleições Americanas

– 11 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

No último 6 de novembro ocorreram as eleições de “meio de mandato” nos Estados Unidos, onde foram eleitos os 435 deputados federais, metade do senado e governadores de 36 dos 50 estados americanos, deputados e senadores estaduais, além de outros cargos que são eleitos pelo voto direto: advogado geral, secretário de estado e a suprema corte estadual. Ah! Os eleitores votam ainda em proposições, que se aprovadas, viram lei. Confesso que ainda não entendi como funcionam algumas coisas na democracia americana, e fiquei surpreso com outras tantas. E o sistema de votação, então? Nada de urna eletrônica, a cédula tem duas páginas e, de tão complicada que é, são distribuídos manuais aos eleitores explicando como votar.

Quem venceu as eleições? Depois de 8 anos, os Democratas recuperaram a maioria na Câmara e prometem fiscalizar o Trump. Eles poderão impedir medidas como a construção do muro na fronteira com o México. Trump terá que governar por decreto, como fez Obama quando tinha minoria na Câmara. No Senado, os Republicanos continuaram com a maioria, com 51 dos 100 senadores. Em vários estados ocorreu uma disputa acirrada nas eleições dos governadores e dos senadores, por exemplo, para governador na Flórida, venceu a candidato Republicano por uma diferença de 0,4%, o que vai levar a uma recontagem dos votos.

A maioria dos eleitores americanos são fiéis aos partidos. Quando os eleitores de um determinado partido não gostam do candidato do seu partido, eles simplesmente não votam. Portanto, os esforços de campanha dos candidatos é para convencer os indecisos e para chamar os eleitores de seu partido para votarem, pois o voto não é obrigatório. O que ocorreu na eleição de Trump foi que os democratas não se empolgaram com a Hillary e não foram votar. Alguns imaginavam que a eleição já estava ganha e que o seu voto não faria falta. Do outro lado, Trump conseguiu motivar os eleitores republicanos mais conservadores, que compareceram em peso as urnas. Existem estados que são tradicionalmente Democratas e outros que são Republicanos. Alguns poucos estados são flutuantes, onde pode ganhar um outro partido. Interessante verificar que independente da tendência do estado, nas grandes cidades predomina o voto democrata e na “zona da mata”, o voto republicano. Mesmo na democrata Califórnia, os republicanos são fortes na região das fazendas e dos vinhedos. As eleições para presidente são indiretas, o partido que vencer as eleições num determinado estado, indicará todos os delegados deste estado para a escolha do presidente. Os partidos derrotados neste estado não terão direito a nenhum delegado.  

Nas eleições de 6 de novembro de 2018, houve grandes novidades: pela primeira vez foram eleitas duas deputadas representantes dos povos indígenas, duas deputadas muçulmanas, um governador assumidamente gay, e as mulheres conquistaram a marca histórica de mais de 100 das 435 cadeiras da Câmara. A percentagem de 23% de mulheres ainda é pouca, mas é bem maior do que os 15% de mulheres na Câmara Federal no Brasil. Por outro lado, quem já elegeu Juruna em 1982, estranha que só agora os representantes indígenas conquistem espaço no parlamento da “maior democracia do mundo”.

Os candidatos ao senado passam por uma espécie de “prévia”, e os dois mais votados disputam os votos dos eleitores, podendo inclusive os dois candidatos serem do mesmo partido. Na Califórnia os dois candidatos ao Senado eram Democratas. 

Entre outras curiosidades, está o fato das pessoas poderem votar pelos Correios, inclusive astronauta que estiver no espaço poderá votar. O dia das eleições não é feriado. Os eleitores votam em candidatos e também nas tais “proposições”, que vão desde reduzir a taxa cobrada na gasolina até obrigar empresas de alta tecnologia a ajudarem os moradores de rua. As proposições são uma espécie de plebiscito, que uma vez aprovado, vira lei.

Enfim, um sistema eleitoral bem diferente do brasileiro, mas temos um ponto em comum, o partido que arrecadar mais dinheiro terá mais chance de vencer as eleições. Eu gosto da ideia das proposições, pois é uma forma de democracia direta. Fiquei imaginando se existisse esta possibilidade no Brasil, que proposição eu faria? Acho que iria propor que os carros que trafegam com apenas uma pessoa no centro das cidades pagassem pedágio e que este recurso fosse utilizado para subsidiar o transporte público e construir mais espaços para o uso de bicicletas. E você, qual seria a sua proposição?

Santa Bárbara Bad News: Em três dias de incêndios na Califórnia foram destruídas cerca de 6500 casas e 260 estabelecimentos comerciais. Trinta e sete pessoas morreram e 300 mil pessoas estão sendo evacuadas da região. A cidade de Paradise com 27000 habitantes foi totalmente destruída. O fogo está do outro lado de Santa Bárbara, cerca de 50 km de onde eu moro. Além da preocupação em deter o fogo, existe o controle da qualidade do ar. Se aumentar muito a fumaça serão distribuídas máscaras para a população. A principal rodovia que liga Santa Bárbara à Los Angeles foi fechada. Rezemos pela chuva.  

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

04Nov
Coluna Dominical

Amazônia: Produzir alimentos e energia ou preservá-la?

– 4 de novembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Talvez você já tenha se perguntado: “o que é mais importante, a produção de alimentos e de energia ou preservar a Amazônia?” A resposta parece óbvia, precisamos comer e de energia para viver, se pudermos fazer isto preservando o meio ambiente melhor, mas caso contrário, vamos garantir a nossa sobrevivência! Este é um grande equívoco que se propaga por desconhecimento ou por interesse econômico de quem quer plantar soja, criar gado ou extrair madeira da Amazônia. As construções de grandes usinas hidroelétricas nesta região são um desastre. Basta analisar o funcionamento da Amazônia para entender que muito mais importante que a energia e os alimentos produzidos nesta região, são os rios voadores que garantem as chuvas e enchem os reservatórios de água nas regiões sul e sudestes. Assim como alguns dos seus antecessores, o presidente eleito promete acelerar projetos de hidroelétricas na Amazônia e declarou que o ICMbio e o IBAMA prejudicam os que querem produzir.

Antes de analisar estas questões, é preciso nos darmos conta de que “cuidar do meio ambiente” não é um ato de bondade nossa, é uma necessidade para salvar a nossa pele. O Planeta Terra não precisa do nosso cuidado, ele existe há 4,5 bilhões de anos e neste tempo já ocorreram cinco extinções em massa das espécies. Algumas espécies desapareceram, surgiram outras e o Planeta continua vivo. Como homo sapiens existimos há apenas 150 mil anos, mas nos últimos 250 anos, após revolução industrial, conseguimos alterar a temperatura média do Planeta. Somos uma das espécies mais frágeis e a que mais sofrerá as consequências das alterações climáticas. Ah! E a que se declara inteligente!

A anexação do Ministério do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura foi uma promessa de campanha do presidente eleito e que só não será efetivada por razões econômicas, pois o presidente foi alertado pelos ruralistas de que isto trará prejuízos para o agronegócios brasileiro, ou seja, se isto ocorrer, alguns países deixarão de comprar grãos e carne do Brasil. Mas este não é o maior problema na área ambiental, pois os planos de ocupação da Amazônia continuam. Já foi anunciado que o Ministro do Meio Ambiente será alguém que não “atrapalhe” a rápida emissão de licenças ambientais, etc. Óbvio que a gestão do Ministério do Meio Ambiente precisa ser aprimorada, que a licenças precisam ser mais ágeis e transparentes, etc., mas elas não devem ser “flexibilizadas” para atender interesses econômicos.

Em 2011-212 o Congresso Nacional reduziu a proteção da Amazônia e anistiou os proprietários de terra que desmataram ilegalmente. Agora se anunciam novas investidas para reduzir o tamanho das reservas indígenas, construir hidroelétricas, etc. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a Hidroelétrica de Balbina alagou 3.000 km2 e que anualmente, a emissão de metano decorrente da decomposição das árvores que foram afogadas representa o equivalente a 90% do gás carbônico resultante da queima de combustível fóssil na cidade de São Paulo (http://bdtd.inpa.gov.br/handle/tede/1506#preview-link0), portanto não é uma “energia limpa”. A Amazônia é uma “usina de serviços ambientais”, que abastece o sul e o sudeste com chuvas para as lavouras, enche os rios e alimenta as hidroelétricas. Assista o vídeo “Rios Voadores” e entenda como isto funciona. https://www.youtube.com/watch?v=Hlgk-rf0uZ8. Estima-se que já foi desmatado cerca de 20% à 30%. Um pouco mais do que isto poderá romper o equilíbrio necessário e esta região tornar-se um deserto. Além disto, a Amazônia produz alimentos naturalmente que poderiam ser explorados preservando a mata e gerando emprego e renda. Por que não exportar água da Amazônia se ela é melhor do que a Perrier? Pouco conhecemos da sua biodiversidade e o seu potencial de geração de riquezas. Basta buscarmos informações para percebermos o quão absurdo são os projetos de produzir soja, criar gado e construir grandes hidroelétricas na Amazônia.

É legítimo que o presidente eleito tente implantar o que prometeu na campanha, mas é legítimo também o protesto de que quem discorda das suas propostas, independente de ter votado nele ou não, de ser de direita, de centro ou de esquerda. Imagine que um candidato que durante a sua campanha anunciasse que iria taxar as grandes fortunas e ao ser eleito tentasse implantar tal medida. Parece óbvio de que os proprietários das grandes fortunas iriam protestar e usar de todos os mecanismos para que tal proposta não fosse implantada. Isto faz parte da democracia. Se você não concorda com os projetos que irão resultar no desmatamento da Amazônia e que o presidente retire o Brasil dos acordos internacionais de preservação ambiental, busque mais informações e comente sobre as consequências destas medidas com os seus amigos, sua família e no seu trabalho. Exerça o seu papel de cidadão consciente. Podemos fazer muito mais do que assinar petições. Tenhamos coragem para defender a nossa sobrevivência e a dos nossos filhos e netos. Como dizia Santo Agostinho: “A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão, e a coragem, a mudá-las!”

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com