18Feb
Coluna Dominical

Conectados com o mundo ou com o “nosso” mundo?

– 18 de fevereiro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Assisti uma entrevista do Obama na qual ele dizia que as notícias da Fox são completamente diferentes das dos outros canais e que o Google nos dá as respostas que gostaríamos de receber. Depois assisti o TED com Eli Parisier em que ele diz “Tenha cuidado com os filtros-bolhas online” (https://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles/up-next?language=pt-br). Perguntei ao próprio Google como ele encontra as respostas para as minhas perguntas e ele me disse: “Você quer a resposta e não trilhões de páginas da web. Os algoritmos são programas de computador que buscam pistas para retornar exatamente o que você procura… a meta é oferecer as informações mais importantes e o mais rápido possível…” (https://www.google.com/intl/pt-BR_ALL/insidesearch/howsearchworks/algorithms.html). Mas, afinal, o Google responde às minhas perguntas considerando as informações mais importantes ou aquelas que ele entende que eu gostaria de receber? Será que existe alguma influência da localização, perfil e nacionalidade da pessoa que faz a pergunta? Tentando responder essas questões, resolvi fazer uma rápida pesquisa: entrei em contato com 20 amigos próximos e que possuem perfis diferentes no que se refere ao poder econômico, às opiniões políticas, sendo uns de 3 nacionalidades diferentes e brasileiros que se encontravam em 6 diferentes cidades do Brasil ou espalhados por 5 outros países. Solicitei a eles que digitassem no site de busca Google, a seguinte frase: “O que as pessoas dizem do Lula?” em português, mesmo para os estrangeiros e que fizessem um print da tela com os links dos 5 primeiros resultados. Tudo isto ocorreu na tarde do dia 14 de fevereiro de 2018, sendo que as consultas foram feitas quase que simultaneamente.

Para tabular os dados, postei a mesma questão no Google e copiei as 30 primeiras notícias que apareceram na minha tela e as numerei por ordem de aparição. Depois colei a respostas dos amigos na minha tabela da seguinte forma: se a primeira notícia que apareceu para um amigo correspondesse a minha quinta notícia, postava a sua resposta na 5ª. linha da tabela, sendo Amigo1 /nome da cidade/notícia 1 (aquela foi a primeira resposta que o Google deu ao Amigo 1). Os 20 amigos que responderam, reencaminharam 5 respostas cada um, totalizando 100 respostas.

Analisando os resultados, percebi que, para a mesma pergunta, ninguém recebeu a mesma ordem de respostas. As 5 primeiras linhas (notícias) da minha tabela concentraram 80% das respostas, mas alternando as posições. O que apareceu em 1º. lugar para um, equivalia à resposta que apareceu na 5ª. posição para outro, e assim sucessivamente. Dos 20 respondentes, 15 tiveram pelo menos uma das suas respostas fora das 5 primeiras linhas da minha tabela. O que chamou a minha atenção foi o fato de que, para duas argentinas que estavam na Argentina e para uma brasileira que estava no Brasil, a primeira resposta que apareceu para elas correspondia à 27ª. da minha tabela. Para uma uruguaia, que estava no Uruguai, e para um brasileiro residente no Brasil, uma das 5 notícias que apareceu para eles, não constava na minha listagem de 30 notícias. Para a mesma pessoa, a ordem das respostas muda de um dia para outro ou até no mesmo dia. Repeti a mesma pergunta nos dias seguintes e 48 horas depois, a notícia, com data de 11 de janeiro de 2018, que inicialmente estava em terceira posição, caiu para a 140ª posição e as 4 primeiras notícias passaram a ser todas de 2017. Não era minha intenção entender o algoritmo do Google, mas me certifiquei de que a ordem das respostas não considera a melhor resposta e nem a data de publicação. Por outro lado, não identifiquei que as respostas dadas pelo Google aos amigos tenham considerado a opinião deles sobre o Lula. Talvez ampliando a amostra ou reformulando a pergunta, se obtenha outros resultados.

Segundo Eli Parisier, temos a sensação de que, ao acessarmos a internet, estaremos conectados com o mundo, mas na verdade, estamos nos conectando com o “nosso mundo” e com quem quisermos que faça parte dele. Os que não compartilham das mesmas opiniões, acabam desaparecendo da nossa linha do tempo ou de outras redes de mídia social. Talvez por isto é que venha aumentando a intolerância com o diferente e com as ideias contrárias às nossas. Antigamente, aprendíamos a conviver com pessoas diferentes de nós tanto no pátio da escola como no campinho de futebol ou em outros ambientes. Parece-me que hoje queremos estar e nos comunicar com os que mais se assemelham conosco. A grande mídia só nos mostra o que eles consideram importantes para nós e as redes sociais estão fazendo algo semelhante. Se quisermos saber o que está acontecendo no mundo ou termos acesso a opiniões diferentes das que nos são ofertadas, teremos que buscar em Podcasts ou em outros canais de informação. Acessando somente as redes sociais ou sites de busca, estaremos conectados sim, mas vivendo como se estivéssemos num mundo a parte ou, quem sabe, numa bolha. Parece que a Lei de Coulomb não vale para os relacionamentos, pois nesse caso “os opostos não se atraem!”

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com

12Feb
Coluna Dominical

Ascensão e Queda de Profissões 

– 11 de fevereiro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Santa Maria é uma cidade localizada no coração do Rio Grande do Sul e já passou por diferentes períodos em seu desenvolvimento. Ao longo de boa parte do século XX, a cidade ficou conhecida como “centro ferroviário do Rio Grande do Sul”, pois todos os trens que iam de Porto Alegre para Uruguaiana, de Passo Fundo para Livramento ou de Pelotas para Ijuí, passavam por Santa Maria. Ser ferroviário foi o sonho daquela geração, pois a categoria era muito forte, possuía uma cooperativa, um clube social e um sindicado poderoso. Além de tudo isso, ainda ganhavam moradia, um bom salário e gozavam de boa reputação na sociedade. 

Na segunda metade do século XX, houve um aumento significativo no contingente de militares na cidade, transformando-a na segunda maior concentração de militares do Brasil, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro. Semelhantemente ao período de ouro dos ferroviários, os militares recebiam um bom soldo, possuíam muitos benefícios e eram muito respeitados na sociedade civil. Seguir a carreira militar era o sonho de muitos jovens daquela época. 

Com a criação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), cabe lembrar que foi a primeira universidade federal estabelecida fora das capitais, a cidade adquiriu o status de cidade universitária, pois começou a atrair estudantes de diferentes regiões do estado e do país, bem como de diferentes países sul-americanos. Tudo isso levou muitos jovens a sonhar em trabalhar na UFSM, vislumbrando um emprego federal bem remunerado nesta respeitada instituição de ensino. 

Tanto os ferroviários, como os militares e os funcionários de universidades federais viveram a ascensão e queda do seu poder aquisitivo. Santa Maria talvez seja a cidade que melhor registre esta história, pois o seu desenvolvimento sempre esteve atrelado às épocas de ouro destas categorias. Mas estas não foram as únicas, outras profissões também passaram pela ascensão e queda, como por exemplo, a de bancário. Eu tive colegas de faculdade que desistirem do curso para ser caixa no Banco do Brasil, pois mesmo sem ter nível superior completo, o funcionário ganhava um salário bem maior do que muitas outras profissões. Em pequenas cidades, o gerente do banco era uma autoridade com status semelhante ao do Prefeito, do médico e do pároco. 

Hoje em dia estão anunciando o declínio de algumas profissões. Consultorias especializadas recomendam que os jovens não cursem a faculdade de Direito, argumentando que futuramente existirão apenas advogados especialistas e as outras demandas serão resolvidas por softwares. Se isto for verdade, o Brasil será o país que sofrerá o maior impacto, pois sozinho, possui o maior número de faculdades de direito que todos os outros países juntos (1.200 faculdades no Brasil, contra 1.100 do restante do mundo). O judiciário brasileiro, considerado o mais caro do mundo, é uma das profissões mais bem pagas e que goza dos maiores benefícios. Hoje, talvez seja ele a “bola da vez”, pois perdeu sua reputação e “caiu na desgraça do povo”. Por quanto tempo o judiciário vai conseguir manter estes altos salários e as tais regalias?

Em função do avanço tecnológicas e das mudanças no estilo de vida, provavelmente várias outras profissões irão perder a sua importância ou até mesmo desaparecer. Se os carros que podem andar sem motorista se tornarem populares, não precisaremos mais aprender a dirigir. Agora imagine o que acontecerá com as autoescolas, com os professores, com os guardas de trânsito e suas multas? Um carro sem motorista não cometerá infrações e também não será multado! 

Qual será a profissão que será aquela dos sonhos dos nossos netos? E qual substituirá a medicina, a carreira do judiciário ou alguma outra que ainda hoje desperta tanto interesse? Sim, eu espero que nossos netos sejam mais saudáveis física e mentalmente e que, no futuro, não precisem tanto de médicos e também que não tenhamos mais 3 ou 4 farmácias por quarteirão! Talvez não venha mais existir “a profissão dos sonhos”, mas sim várias profissões que despertarão o interesse das futuras gerações. Sejam quais forem, acredito que serão profissões que exigirão muita criatividade, talento e conhecimento. O restante será feito pelos robôs…

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor na Escola de Administração da UFRGS

Contato: nascimentolf@gmail.com

04Feb
Coluna Dominical

Código Mar

– 4 de fevereiro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Há uns 300 anos AC, o matemático Pingala já utilizava um código de comunicação semelhante ao Código desenvolvido por Samuel Morse em 1835, que é transmitido utilizando apenas dois estados: ligado e desligado. Curiosamente, os nossos complexos computadores utilizam o chamado sistema binário, que também funciona utilizando “zero ou um”. Ou seja, a comunicação complexa e rápida, é feita de forma simples, precisamos apenas decodificá-la.

Mas essas informações teriam alguma coisa a ver com o Mar? Sim, pois o som das ondas parece binário… por vezes baixo e por vezes mais alto, com intervalos de tempo diferentes. Ouvindo o Mar, fiquei imaginando quando chegar o dia em que alguém decifre as mensagens do mar, nós ficaremos até chateados por não termos “dado ouvidos” ao que ele nos falava sempre que nos aproximávamos dele…

A primeira questão seria: que mensagem o Mar estaria transmitindo? E mais: seria a mesma mensagem para milhares de pessoas que estão na praia? Ora, assim como um cabo de fibra ótica consegue, ao mesmo tempo, transmitir milhões de mensagens para diferentes computadores, por que o Mar não seria capaz de transmitir mensagens particulares às pessoas que quisessem lhe ouvir?

O que o Mar estaria nos dizendo e que, até hoje, não ouvimos? Bem, se o movimento das marés é regido pela força gravitacional do Sol e da Lua, provavelmente seja a natureza, ou quem a rege, que estaria nos enviando tais mensagens. Talvez quem rege a natureza, utilize o “Código Mar” para nos enviar mensagens sobre a nossa missão nesta vida, ou ainda, por meio dele passe dicas de como podemos viver melhor aqui na Terra. Se a vida surgiu no Mar, não poderia ter deixado algum canal de comunicação aberto com as suas origens?

Já sei, você deve estar pensando: “E as pessoas que estão longe do mar, não receberiam tais mensagens?” Uma boa pergunta! Lembre-se de que o Código Morse, Código Binário e tantos outros, não são acessados por todos, mas ajudam milhões de pessoas. Talvez quem decifre estas mensagens possa repassá-las, ou quem sabe existam outros códigos que possam levar essas mensagens para quem não pode ouvir o Mar.

Isto tudo pode ser “uma viagem”, mas fica aqui o convite para uma reflexão. Não estaria na hora de afinarmos nossos ouvidos para os códigos já decifrados e que podem estar nos enviando mensagens que não estamos ouvindo? Deus, o Universo, a Natureza ou até, quem sabe, quem está ao nosso lado, pode estar querendo nos dizer algo que nossos ouvidos ainda não estejam ouvindo. Escute com mais atenção!

(*) Luis Felipe Nascimento é Professor da Escola de Administração da UFRGS.

Contato: nascimentolf@gmail.com