05May
Coluna Dominical

Música – tem algum remédio mais eficiente?

– 4 de maio de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

O que você sente quando escuta uma música? Ou quando dança? Ou quando canta? Eu sei, você vai me dizer que depende da música, do momento, de isto ou daquilo, … mas acredito que ela provoca muitos sentimentos em você, certo? Li que a música é capaz de curar ou de amenizar a dor. Capaz de recuperar memórias e de provocar alegria ou tristeza de forma quase instantânea. Que outra atividade teria semelhante efeito sobre nós? Acredito que por melhor que seja a companhia, a comida, a bebida ou o lugar onde estivermos, a música tem efeitos muito mais poderosos sobre as nossas emoções. Será que a paixão, que provoca sentimentos tão fortes, teria a capacidade de levar alguém do céu ao inferno e devolvê-lo ao céu em poucos minutos, como pode ocorrer ao mudar de uma canção para outra?  Mas afinal, por que uma música provoca alegria, tristeza, mal-estar, êxtase, arrepios, saudades, prazeres, lágrimas, vontade de dançar ou de relaxar? 

Eu resolvi ouvir outras opiniões e questionei alguns amigos sobre como eles se relacionam com a música: ouvindo, cantando, dançando, tocando um instrumento, compondo canções ou algumas destas alternativas juntas? Percebi que existem ainda outras possibilidades, pois uma pessoa me disse que a música provoca aprendizado, confessou que ela aprendeu a falar inglês ouvindo música no rádio e traduzindo as letras. Outras me disseram que sonham em trabalhar com música, seja produzindo espetáculos, numa rádio ou num estúdio de gravação. 

E o que faz você gostar de uma música especificamente? Alguns citaram o ritmo e os instrumentos utilizados, outros disseram que o lhes faz gostar é a mensagem que é transmitida pela letra. Uma música instrumental ou uma canção numa língua desconhecida não lhes toca tanto quanto aquelas em que entendem o conteúdo. Curiosa foi a resposta de um amigo que é músico e compositor quando disse que gosta de toda a forma de se relacionar com a música, sendo que a mais difícil para ele é dançar, pois se sente a vontade quanto está tocando no palco, mas envergonhado quando dançando no meio do salão. 

Ouvimos mais música hoje do que no passado? Mudou a forma e o tempo dedicado a ouvir música.  Antigamente se ouvia música coletivamente, pelo rádio ou na vitrola da sala. Quando estávamos a sós, o som ocupava todo o ambiente, não era exclusivo dos nossos ouvidos. Depois passamos para o consumo individual, metemos nos ouvidos os fones do walkman, dos ipods, até chegarmos nos spotifys de hoje. Me arrisco a dizer que a geração que nasceu no século XXI (Milênios, Alfa, M, Z, Nutella) ouve mais música, mas dança menos do que as gerações Baby Boomers, X, Y ou W. Quem gostava de música na minha geração sonhava em ser vocalista de uma banda, depois a moçada passou a sonhar em ser DJ e hoje me parece que o sonho da meninada é ser um blogueiro, youtuber ou alguma forma de influenciador digital.

As pesquisas cientificas comprovam que a música é capaz de alterar o funcionamento do cérebro, liberar dopamina, alterar o humor e está sendo utilizada até durante cirurgias. Ela é capaz de diminuir a dor e a ansiedade, ajudar no tratamento de Alzheimer, etc. Será que teria algum remédio mais eficiente? Mas isto não é novidade, os nossos avós já diziam: “quem canta, seus males espanta”.

Eu já tentei me aproximar da música de várias formas. Quando adolescente arrumei um violão emprestado e peguei umas aulas com um amigo. Chegava em casa e deixava o violão abandonado. O meu irmão menor pegava o violão e ficava batendo nas cordas. Resultado, ele aprendeu sozinho a tocar, gravou discos e eu não sai do “dó, ré, mí, fá, sol, lá, sí”. Depois dos 50 anos resolvi aprender a tocar teclado. Apesar de todo estímulo e dedicação da professora, eu nunca toquei no teclado fora do horário das aulas. Tinha mais interesse em saber como se fazia música do que em tocar. O resultado foi que, junto com a professora, compusemos 16 músicas e montamos o “Musical Canta-bilidade” com temas relacionados as questões sociais e ambientais. O musical foi encenado pelos meus alunos. Outra tentativa de aproximação foi quando fiz umas aulas de canto. Uma experiência interessante, mas eu fiquei com muita pena da professora, pois percebi que a vontade dela era de colocar uns protetores auriculares durante as aulas. Portanto, a minha relação com a música se restringiu ao ouvir, dançar e a compor letras. 

Não sei responder por que uma música pode provocar tantos sentimentos. O que eu aprendi é que podemos manipular nossos sentimentos escolhendo a música que irá provocar os sentimentos desejados. Então, deixe este som misterioso entrar pelos seus ouvidos e use como fundo dos seus pensamentos, das atividades que está fazendo, para se exercitar, para relaxar, para amar ou simplesmente para se deliciar com o ritmo e as mensagens que mais lhe tocam. Se a música é capaz de aliviar a dor e ajudar na cura, será que não seria capaz de evitar a doença? E o melhor, ela é de fácil acesso, baixo custo, tem para todos os gostos e não tem contra indicações!

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.

Contato:nascimentolf@gmail.com

27Apr
Coluna Dominical

Dia da Terra – 50 anos cuidando da nossa casa

– 28 de abril de 2019

Luis Felipe Nascimento (*) 

No dia do aniversário de uma pessoa querida costumamos felicitá-la e desejar saúde e felicidades. No dia 22 de abril, no Dia do “aniversário” da Terra, ocorrem mobilizações pelo mundo todo para desejar saúde, felicidade e harmonia ao Planeta. Mas por que dia 22 de abril? Como surgiu esta data? Esta semana vivi três dias de celebração deste aniversário no local onde nasceu o Dia da Terra. Quero compartilhar com vocês um pouco da história e mostrar como se pode fazer do limão uma limonada. 

Em 28 de janeiro de 1969 apareceu uma mancha de petróleo na costa de Santa Bárbara. A empresa Union Oil tinha economizado na construção de uma plataforma de petróleo, o que levou a um vazamento equivalente a 4,5 piscinas olímpicas de petróleo, espalhados por cerca de 50 km. Os estudantes de Santa Bárbara iniciaram seus protestos e criaram a “Get Oil Out!”, pressionando o Governo a parar com a exploração de petróleo na região. Eles não atingiram o seu objetivo, mas deram início a um movimento mundial de conscientização ambiental. 

A repercussão do vazamento de petróleo trouxe o Presidente Nixon à Santa Bárbara, e ele classificou o então maior derramamento de petróleo dos EUA de “incidente de Santa Bárbara”. Outros políticos também visitaram a região, entre eles o Senador de Wisconsin Gaylord Nelson, que já possuía engajamento com questões ambientais. Naquela época estavam ocorrendo mobilizações contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos civis. Ao retornar desta visita o Senador teve a ideia de fazer uma mobilização em defesa do meio ambiente e propôs o “Dia da Terra”, que ocorreu em 22 de abril de 1970. Antes disto já existiam movimentos ambientalistas, mas o Dia da Terra foi um catalisador e conseguiu mobilizar ativistas, liberais e conservadores. Um grito que foi ouvido pelos quatro cantos do Planeta. Os americanos passaram a questionar a poluição como um “mal necessário” para o desenvolvimento. Naquele 22 de abril de 1970 ocorreram mobilizações em mais de 1500 campus universitários e mais de 10 mil escolas, envolvendo cerca de 20 milhões de americanos. As notícias na mídia sobre as questões ambientais se quadruplicaram e no final de 1970 Nixon criou a Agência de Proteção Ambiental (EPA). Dois anos depois foi realizada a primeira Conferência da ONU para discutir questões ambientais em Estocolmo. Em 2009 a ONU reconheceu o dia 22 de abril como o Dia Internacional do Planeta da Terra. 

Nesta semana ocorreram em Santa Bárbara manifestações com shows, palestras e muitas atividades para relembrar os 50 anos do chamado “incidente” do derramamento de petróleo nas suas praias. O Dia da Terra se transformou num movimento internacional “sem dono”, uma festa sem conotação política ou religiosa, que foca na defesa da nossa casa. Como disse o astrônomo Carl Sagan: “Olhe para este ponto. Isso é aqui. Isso é a nossa casa. Isso é nós. Nesta casa estão todos que você ama, todo mundo que você conhece, todo mundo que você tenha ouvido falar, cada ser humano que já se foi. Isto é o Planeta Terra.”

Fazendo uma analogia com os cuidados que temos com a nossa saúde, imagine uma situação trágica em que uma pessoa que você ama morre durante um tratamento médico e depois você descobre que o médico/hospital economizou no tratamento, não utilizando todos os recursos disponíveis para salvar a vida desta pessoa. Você chamaria isto de “incidente”? Toda vez que ocorrem fatos como o derramamento de petróleo em Santa Bárbara porque não foram utilizados os melhores recursos disponíveis, trata-se de crime ambiental e uma agressão a todos nós que moramos e dependemos desta casa chamada Planeta Terra. 

O vazamento de óleo em Santa Barbara resultou na conscientização da população e no desenvolvimento de tecnologias para minimizar os impactos ambientais. A Califórnia fez do limão uma limonada e se transformou numa das regiões mais avançadas nas questões ambientais do mundo. Falando nisto, que lições aprendemos com os crimes ambientais cometidos em Mariana e em Brumadinho?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com

21Apr
Coluna Dominical

Você viveria sem Google, Whatsapp, Facebook, Instagram, Gmail, Netflix…?

– 21 abril de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Hoje, mesmo as pessoas que dizem não serem “viciadas em internet” acessam redes sociais, usam aplicativos, enviam e-mails, assistem vídeos no Youtube, filmes no Netflix ou buscam informações na internet. Observe que no ônibus, no metrô, no bar ou em qualquer lugar que as pessoas parem por alguns segundos, certamente mais da metade delas estará usando o celular. Parece que grande parte das pessoas não conseguiria passar uma semana sem acessar o WhatsApp, Google, Gmail, Google Maps, Facebook, Youtube, Yahoo, Wikipedia, Twitter, Netflix, Vimeo, Reddit, Instagram, Tumblr, Dropbox, BBC, New York Times, Times, Le Mond, Reuters, Blogspot, etc.? Pois eu fiquei sabendo que os chineses “conseguem”, pois tudo isto é proibido ou tem uso limitado na China! Estima-se que a China bloqueou cerca de 12 mil sites e plataformas. (https://www.instagram.com/p/Bt95M3TgKBd/). Quando soube disto pensei: pobres dos chineses, não podem acessar WhatsApp, Facebook, Netflix, … mas, na verdade, eles não acessam estes sites e plataformas, mas acessam os deles. Por falar nisto, você já ouviu falar em Baidu, Alibaba, Tencent, Xiaomi, Huawei, … ? Se você não é da área de tecnologia, provavelmente não saiba que estas são empresas chinesas que oferecem serviços semelhantes a Google, Facebook, PayPal, Netflix, Amazon, etc. Eu conheci um pessoal da área de tecnológica de informação e aprendi muitas coisas com eles. Compartilho aqui algumas informações sobre as empresas chinesas que competem com as americanas e sigo com minhas reflexões sobre o que consumimos hoje na nossa vida cibernética.  

– O Baidu é conhecido como o “Google Chinês”, atua de 2013 no Brasil (br.baidu.com). Na China, já colocou nas ruas carros sem motoristas e possui produtos que rivalizam com a Alexa da Amazon e com o assistente da Google. 

– O Alipay é uma plataforma de pagamentos pela internet do Alibaba que popularizou os pagamentos feitos pela internet na China. O QR Code é mais utilizado na China do que nos EUA. 

– O Wechat é um aplicativo do Tencent que combina os serviços similares aos oferecidos pelo WhatsApp, Facebook, iMessage, PayPal, UberEats, Instagram, Skype, entre outros. O aplicativo é gratuito e disponível para as versões IOS e Android e já está disponível em inglês e português.

Aprendemos que nos países em que existe livre mercado, os consumidores podem escolher o que comprar e buscam os melhores produtos que ofereçam o menor preço. Considerando que existem celulares melhores e mais baratos na China, a lógica seria de que nós iríamos preferir os produtos chineses.  Isto não ocorre porque a decisão de compra depende de vários outros fatores. A influência da cultura americana ainda é muito forte no ocidente. Você já se perguntou por que compra roupas e calçados da China e não celulares? Você lembra da última série ou filme que assistiu em que os atores usavam produtos chineses? 

Um fator importante na decisão de compra é a confiança. Você confiaria numa empresa americana que opera numa democracia e é conhecida por ser inovadora, ou numa empresa pouco conhecida de um país dito comunista? Provavelmente a maioria escolheria a empresa americana! Quando acessamos uma rede social ou compramos algo pela internet, queremos garantir nossa privacidade e ter certeza de que não irão roubar nossos dados. Confiamos mais no Google do que no Baidu. Quem já usou o Alibaba para fazer um pagamento? Mas, segundo a galera da tecnologia, “nem aqui e nem na China” estamos seguros. Existe uma tal de “porta dos fundos”, pela qual as empresas que nos “dão de graça” e-mail, ligações telefônicas, buscas na internet, redes sociais, podem acessar tudo o que fizermos. Os órgãos de inteligência (FBI, CIA, polícias) acessam dados privados para identificar criminosos, etc. O governo americano é um dos principais clientes do Facebook, Google, entre outros. Portanto, o argumento de que as empresas americanas são seguras já caiu por terra. 

O Vale do Silício, uma pequena região nas proximidades de San Francisco – Califórnia, concentra a maior parte das empresas que nos oferecem serviços gratuitos (Google, WhatsApp, Facebook, …). Será que o resto do mundo não tem nada para nos oferecer? Por que só conhecemos e utilizamos os serviços destas empresas?

Os chineses são proibidos de acessar as empresas ocidentais. Nós temos liberdade para escolher as mesmas marcas. Parece que existe uma espécie de “muralha” que nos impede de enxergar o que o existe de equipamentos e tecnologias em outras partes do mundo. Acredito que nos próximos 10 à 20 anos seremos cada vez mais dependentes da tecnologia e não vamos passar um dia sem nos conectarmos, mas eu gostaria de ver cair esta muralha. Imagino que possa haver uma maior “diversidade tecnológica” e que o conhecimento e a tecnologia não se concentrem em poucos Vales. E você, na hora de comprar um novo celular ou usar um serviço na internet, considera a possibilidade de recorrer as empresas chinesas ou de algum outro país? 

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com