16Sep
Coluna Dominical

Semana tragicômica

– 16 de setembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

O cotidiano é monótono se olharmos sob um olhar cansado, depois de uma semana agitada. E será trágico se vermos os problemas como tragédias e tudo o que acontece como falta de sorte. Certamente existem muitas formas de olhar a vida. Hoje quero compartilhar com vocês as histórias da minha semana, mas sob um viés  tragicômico.

1)  Esta semana poderia ser vista como aquela em que deu tudo errado, já que ela trouxe uma sucessão de fatos não muito agradáveis e quase inexplicáveis, que eu preferi chamar de semana do “teste de resiliência”. Na segunda-feira iniciaria um curso e eu precisava pagar a inscrição. Quando fui sacar o dinheiro, a máquina engoliu o meu cartão e não pude realizar o saque. O dinheiro que eu trouxe acabou, a bolsa ainda não chegou e fiquei sem cartão, minha única “fonte de renda”. Fui abrir uma conta no BBAmericas para fazer transferência do Banco do Brasil daí para o daqui, e fui informado que demora 30 dias para conseguir abrir a tal conta. No mesmo dia o meu novo celular parou de funcionar. No dia seguinte recebi a mensagem dizendo que a CAPES não aceitou o seguro saúde que eu fiz, mesmo sendo o recomendado pela Universidade daqui. Era uma bela oportunidade para reclamar da sorte, da vida, ou perguntar “Que mal eu fiz a Deus?”. Cheguei até a pensar que tinha sido castigo pela matança das formigas! Respirei fundo e decidi então resolver um problema de cada vez. Fui até o local do curso e disse que sabia que o pagamento deveria ser a vista, mas que eu só tinha 30% do valor e expliquei o que havia ocorrido com o cartão. A secretária pediu um momento, foi falar com o seu chefe e voltou dizendo: nós confiamos em você, pode iniciar o curso e pague o restante quando resolver este problema. Lá se foram os meus últimos trocados, mas fiquei feliz em poder fazer o curso e pela confiança em mim depositada. Depois tive uma conversa com o gerente da minha conta no Banco do Brasil, que foi muito gentil, e me ajudou a encontrar um meio rápido de transferir dinheiro para cá. Por fim, fui até loja dos celulares e o atendente mexeu e mexeu até que o celular voltou a funcionar. Qual tinha sido o problema? Nem ele soube explicar, mas me disse que isto acontece… Seria o problema do tipo zebra? Por fim, chegou o dinheiro e paguei o restante do curso. Com calma, fui resolvendo os problemas. Ah, com a CAPES ainda não está resolvido o problema, mas vai ser, pois acredito no bom senso. E assim terminei a semana acreditando que o meu anjo da guarda deu uma mãozinha para que eu passasse neste teste de resiliência;

2)  Em meio aos estudos do meu pos-doc na Bren School of Environmental Science & Management da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, nessa semana recebi um convite (inusitado), para participar do “Dia da Limpeza”, que é um mutirão realizado pelos professores e funcionários para limpar o prédio. Poderia até ter pensado que não vim aqui para trabalhar como faxineiro, mas pelo contrário, vi neste convite uma oportunidade para colaborar e me integrar. Esse mutirão ocorre duas vezes por ano, na semana anterior ao início das aulas. Eles fazem isto para receber os estudantes com tudo muito limpinho. A programação iniciou com um café da manhã, momento em que foram formadas as equipes. Cada uma delas tinha uma lista de salas para limpar e um check list do que deveria ser limpo. Perguntei se não tinha faxineiros e me disseram que sim, mas que a faxina realizada pelo mutirão é melhor do que a deles. Foi muito legal ver o diretor com uma vassoura na mão limpando a escola para receber os seus alunos. O trabalho foi muito descontraído, com brincadeiras e um bom astral entre as equipes. Terminou com um almoço preparado por dois professores. Quando falo almoço, entendam “hambúrguer, saladas, milho cozido e batatas fritas, of course”. Terminado o café e o almoço, cada um se dirigia até a cozinha e colocava a sua louça na máquina para lavar. Nada de descartáveis! Imagino que todo este cuidado se reflita de alguma forma na relação dos professores e funcionários com os estudantes. Enfim, a gente não aprende só nos livros, pois esta experiência foi de grande aprendizagem, nada trágica, mas um tanto cômica;

3)  Na costa de Santa Bárbara estão as “Ilhas do Canal”, um arquipélago que é considerado uma segunda Galápagos, devido a riqueza da vida marinha. Setembro é um dos melhores momentos para ver as baleias. Resolvi então fazer o passeio de 4h30min para ver as baleias. Esqueci de que eu não tenho estômago de marinheiro, pois o meu não gosta do balanço de barco. Naquele domingo o mar estava agitado, então escolhi o lugar que me pareceu sacolejar menos, mas não teve jeito, depois de uma hora, comecei a me sentir mal. Antes mesmo de chegarmos ao local das baleias, eu já estava no banheiro. Enquanto as pessoas fotografavam as baleias, eu me abraçava ao vaso sanitário rezando para acabar logo aquele passeio. O que aliviava aquele pesadelo era a certeza de que tudo aquilo iria passar e, quando retornamos ao porto, quase fiz como o Papa: beijar o solo e agradecer por pisar em terra firme.

Foi uma semana exigente, na qual percebi que algumas coisas desagradáveis acontecem sem explicações, não são consequências diretas dos nossos atos. Mas, a imprevisibilidade de acontecer coisas boas e ruins é o que faz a vida tão interessante. O mais importante não é o tamanho do nosso problema, mas a forma como nós reagimos a eles. Devemos confiar que, em algum momento, o mar vai se acalmar e o barco parar de balançar. Acredito que a questão chave para a adquirirmos resiliência é termos fé e esperança!  

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com

09Sep
Coluna Dominical

A Gaveta e o Museu

– 9 de setembro de 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Eu estava na minha sala na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, quando alguém bateu na porta e pediu permissão para revisar se as gavetas estavam “correndo bem”. Como já estava ocupando as gavetas de baixo da minha mesa, informei que funcionavam bem e que não seria necessária a revisão. Mesmo assim, o homem insistiu e disse que precisava realizar a manutenção preventiva. E não é que ele ouviu um ruído, quase inaudível? Aí ajustou a regulagem e “azeitou” a gaveta. Fiquei pensando… se eles têm todo este cuidado com gavetas, o que não fazem com seus museus?

O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro tem sido analisado sob diferentes olhares. Além da tristeza de ver a destruição de uma parte da nossa história, penso que podemos tirar outras lições desta tragédia. Primeiro: refletir sobre qual a importância que o Museu Nacional tinha para cada um de nós, antes do ocorrido. Segundo: identificar o que existe de mais valioso na nossa cultura/na nossa história e qual o cuidado que estamos tendo com estes tesouros. E por fim, ter a consciência de que estes tesouros não são nossos, eles foram legados para cuidarmos e deixarmos para as gerações vindouras. Será que teremos a coragem de dizer para os nossos netos que eles não poderão conhecer a Luzia, um fóssil de 11.500 anos, um dos esqueletos mais antigos das Américas, porque a nossa geração se descuidou e deixou o fogo acabar com ela? 

Fazendo uma analogia do acervo cultural com os nossos outros tesouros, que são os sentimentos e as relações com as pessoas que amamos, temos a tendência de achar que “se a coisa funciona”, deixa como está, como eu disse ao homem da manutenção. O valor dos sentimentos e das relações não depende dos anos de vida, mas da profundidade que existe nelas, o que os torna tão valiosos que deveriam ser protegidos como os tesouros do Louvre.

Para muitos de nós, o amor pelo Museu Nacional apareceu depois da tragédia. Enquanto ele estava lá cambaleando e entrando em colapso, estávamos preocupados com outras coisas, pois a aparência dele estava boa e agora acabamos perdendo esse bem, pela nossa falta de cuidado. Nossa preocupação foi tardia. E assim acontece com algumas das nossas relações, que ganham valor quando acabam. Outras vezes, reconhecíamos o seu valor, mas não externávamos o que sentíamos, porque parecia desnecessário, estava tudo bem!

A faísca se torna incêndio quando alimentada pelo descuido. Cuidar do que temos de valioso, seja na nossa cultura ou nos valores pessoais é condição deles continuarem existindo. Um descuido pode matar uma Luzia. Um cuidado pode salvar um amor. Lembre-se que “estar funcionando” não garante que continue. Se não desocuparmos a gaveta para que seja feita a manutenção dos nossos sentimentos e das nossas relações, um dia ela irá travar, se romper ou pegar fogo. Seja como o homem que bateu na minha porta: identifique o ruído quase inaudível, regule e “azeite” tudo o que é valioso para você!

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com

Santa Bárbara News: Lembram da norueguesa, minha colega de sala? Sumiu! Desconfio que ela anda fazendo yoga pelos gramados da universidade. Em compensação, veio para a minha sala uma italiana que gosta de conversar.  

02Sep
Coluna Dominical

A Revolta das Formigas

 – 2 de setembro 2018

Luis Felipe Nascimento (*)

Estou morando em Santa Bárbara/Califórnia numa residência estudantil com sala/cozinha no térreo e dois quartos e um banheiro no andar superior. Moram na casa: o “dono” da casa, as formigas, as aranhas e eu. As aranhas são muito discretas, ficam quietinhas nos cantos, mas as formigas, estas são muuuuito ativas.

Quando entrei na casa pela primeira vez, recebi as boas vindas de um comitê de formigas. Elas me mostraram o caminho para chegar até a cozinha e subiram na lata do lixo como quem sobe na Torre Eiffel e até tive a sensação de que elas me saudavam do alto daquela lata. Fui informado pelo dono da casa de que o verão é a época delas, mas que no inverno elas irão embora. Creio que seja algo parecido com o que ocorre com os pássaros, que no inverno migram para o sul.

Com a minha chegada na casa, aumentou o lixo orgânico e a nossa lixeira se tornou o sonho de consumo das formigas. E como elas são muito unidas, logo chamaram as amigas para a abastança, tornando a nossa cozinha um formigueiro. Tentamos conter o fluxo migratório, primeiro com medidas diplomáticas, não obtendo sucesso, usamos um método estilo Trump: colocamos a lixeira dentro de uma das cubas da pia com água, formando uma espécie de fosso ao seu redor, apostando que formigas não soubessem nadar. Percebendo que criamos o tal fosso para impedir o seu acesso ao banquete à moda “festa de Babette”, as formigas circulavam em volta da pia estudando a área. Fiquei imaginando qual seria a estratégia que elas estariam tramando. Pensei até que fosse uma catapulta para o lançamento de uma guerreira que passasse por cima do fosso ou talvez optassem por construir uma ponte. Errei nas minhas previsões, pois a reação foi outra.

Revoltadas por não terem acesso a lata de lixo, elas resolveram atacar outros locais da casa. Descobrimos que existem formigas que exercem a função de operárias e outras de soldados. Pois não é que um pelotão subiu para o andar superior e ocupou a banheira! Até aqui eu não sabia que formiga sente muita sede (também pudera… comendo tanto açúcar!). Elas vão para as pias e locais em que tem água para beber. Resultado, a cada vez que abrimos o chuveiro desencadeamos um tsunami, afogando algumas dezenas delas. Algumas se agarram na beira do ralo tentando se salvar, mas acabam sendo levadas pela enxurrada de água. Não dá nem para olhar, são cenas de partir o coração, uma verdadeira tragédia! Se elas também são filhas de Deus, fico imaginando o tamanho do meu pecado!

Como uma espécie de vingança, um pequeno grupo resolveu atacar o meu celular. Quando percebi, elas já estavam tentando penetrar no buraquinho da entrada do cabo de energia. Sabe aquela história de que as formigas se comunicam por substâncias químicas chamadas feromonas? Isto deve ser coisa do passado, pelo visto hoje em dia elas estão preferindo usar o celular e mandar um Whats para as amigas tipo: “Tem boca livre aqui e vai rolar uma balada. Venham pra cá!”

Identificamos também um grupo de guerrilheiras que se esconde no carpete. Como essa casa é toda acarpetada, se tornou mais difícil encontrar as formigas no carpete do que foi para os americanos encontrarem vietcongues nos seus túneis. Elas usam a tática de guerrilha que é o súbito aparecimento, uma ligeira picada no pé da gente e o rápido desaparecimento, voltando ao esconderijo. Como não temos nenhum agente laranja para “desfolhar o carpete”, estamos em desvantagem nesse combate. Ah! Ontem as kamikazes se aproveitaram do momento que a porta do congelador estava aberta para tentar penetrar e conseguir comida. Morreram congeladas! 

Estamos em fase de revisão das nossas estratégias: o dono da casa acha que não temos o que fazer e que só o General Inverno poderá acabar com esta guerra. De minha parte, acredito que caberia uma negociação, tipo: colocarmos algumas cascas de frutas e um potinho de água do lado de fora da porta e tentar atraí-las para lá. Seria um acordo de paz, já que acabaríamos com este “formiguicídeo”. Porém, temo que tenha algum grupo de formigas black blocs que queiram o protestar contra o sistema e permaneçam na casa, descumprindo o acordo.  

A situação é difícil, os ânimos estão acirrados, mas nesta hora precisamos ter bom senso. A alegação de que as formigas também são filhas de Deus não é um consenso, mas tem muitos defensores. Portanto, se o dono da casa usar armas químicas como vem ameaçando, poderemos sofrer pressões dos grupos ambientalistas. E você sabe como é este povo… Deus me livre! Além disto, as formigas-rainhas geram 300 novas formigas por semana, ou seja, não adianta tentar exterminá-las. Você mata uma e vem outra em seu lugar! (toca Raauuulllll !!!).  Aliás, você sabia que o peso dos dez quatrilhões de formigas do Planeta supera o peso de toda a humanidade? Portanto, mesmo sendo maiores do que elas, estamos em minoria. Por outro lado, eu entendo que elas também têm o direito ao alimento que estamos enviando para um aterro, e que não será aproveitado. Portanto, uma reinvindicação justa delas.

Resumindo, este conflito já se configurou num Apartheit: queremos as formigas no lugar delas e nós na nossa casa. Temos cascas de frutas na lata do lixo suficiente para alimentar todo o formigueiro e estamos oferecendo uma ajuda humanitária (ou seria formigária?), mas precisa ficar claro de que não queremos viver no mesmo espaço. O dono da casa já disse que este negócio de biodiversidade, igualdade de direitos, conviver com formigas, pode ser legal na casa dos outros, but NIMBY (não no meu quintal)!

(*) Luis Felipe Nascimento é “estudante titular” na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

Contato: nascimentolf@gmail.com