17Mar
Coluna Dominical

Dá para separar a arte do artista?

– 17 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

O documentário recentemente divulgado que acusa Michael Jackson de abuso sexual de menores, entre outros impactos, fez com que algumas rádios deixassem de tocar suas músicas e que a marca Louis Vuitton resolvesse apagar as referências ao ídolo que estavam na sua última coleção. Já existiam acusações contra Michael, mas mesmo sendo divulgado uma década depois da sua morte, este documentário parece que causou mais estragos à sua imagem do que as acusações anteriores. 

No livro “Malva”, a escritora Hagar Peeters conta que Pablo Neruda abandonou sua filha Malva Marina, porque ela tinha hidrocefalia, e se afastou da esposa Maruca. Segundo a autora, Neruda chamava sua filha de “vampiresa de 3 kg”. Mãe e filha foram viver na Holanda onde passaram fome. Maruca suplicou a Neruda que mandasse dinheiro para que ela pudesse alimentar a filha, mas ele não a atendeu. O poeta que fez versos de amor tão lindos, não foi sensível ao sofrimento da filha e da mulher. 

Estes e outros exemplos nos questionam sobre a possibilidade de separar ou não a obra do autor. Será que Michael Jackson compôs algumas de suas canções inspirado em possíveis relações com menores? Teriam os poemas de Neruda feito o sucesso que fizeram e ele ganho o Prêmio Nobel de Literatura se esta história tivesse sido revelada naquela época? Se pesquisarmos a fundo a vida pessoal de Michael Jackson e de Neruda entenderíamos os respectivos comportamentos? O artista precisa ser uma “boa pessoa” para admirarmos a sua obra? 

Existe ainda o caso inverso, quando o artista se mantém coerente e os seus fãs trocam de opinião e passam a criticá-lo. Exemplo disto foi o que ocorreu em  2018 no Brasil, em consequência do acirramento dos conflitos ideológicos, várias pessoas deixaram de gostar de Chico Buarque por considerá-lo de esquerda, coisa que ele sempre foi.  Roger Waters foi vaiado no Brasil por dizer o que ele sempre disse. Não foram os artistas que mudaram de posição, mas sim os fãs das suas obras que se tornaram intolerantes às suas condutas.

Me parece que o problema da nossa relação com os artistas que admiramos começa quando os transformamos em ídolos, em “seres quase divinos”. Por admirar a sua obra ou o seu talento, esquecemos que eles são seres humanos como nós, cheios de virtudes e de defeitos. Este endeusamento é estimulado pelos seus patrocinadores e pela mídia que os transformam em super-heróis para vender seus produtos. O ídolo deixa de ser dono da sua vida, ele precisa usar a roupa do patrocinador, fazer merchandising, se comportar como recomendam os seus couches, etc. Alguns não aguentam a pressão e adoecem, outros se rebelam e adotam “atitudes estranhas”, e tudo isto se transforma em escândalos, que é uma outra fonte de renda para a mídia sensacionalista. 

Dá para separar a arte do artista? Eu não tenho resposta para esta pergunta. Me parece que somos muito tolerantes com quem gostamos, e muito críticos com quem não admiramos. Falando por mim, eu não gosto do comportamento de pessoas que se auto-elogiam e que menosprezam os demais, mas a minha identificação com o conteúdo da obra me faz ser tolerante com Raul Seixas, de quem eu sempre gostei, mesmo sendo ele um dos compositores que mais se auto-elogia e que chama os demais de burros. Incoerência minha? 

A arte é o que nos diferencia dos demais seres vivos. Ela é uma manifestação da alma. O artista consegue manifestar o que sente e o que observa os outros sentirem. A sua sensibilidade e o seu talento permite que ele expresse algo especial que chama a atenção das demais pessoas. Gosto da definição de arte “como aquilo que causa admiração dos demais”. Esta manifestação, para ter valor, precisa estar coerente com a trajetória de vida do artista? Em alguns casos sim, em outros não? Sempre? Nunca? Qual a sua opinião? 

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara

Contato: nascimentolf@gmail.com

10Mar
Coluna Dominical

Melhor bem acompanhado do que só!

– 10 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Ao longo da vida vamos nos transformando e mudando a forma de ver a vida. Alguns conceitos são melhor compreendidos, reinterpretados ou mesmo descartados. Eu continuo gostando de ouvir Tom Jobim cantar “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”, mas este verso hoje tem um outro sentido. No passado, eu não conseguiria imaginar uma pessoa feliz sozinha numa ilha. Hoje, ser o único humano numa ilha não significa mais estar sozinho. Onde estivermos, podemos nos sentir acompanhados, amados e amando. O conceito de “impossível ser feliz sozinho” continua valendo, mas mudou o meu entendimento do que significa estar só. Eu explico!
Muitos de nós nasceu, cresceu e vive sempre acompanhado e tem medo de ficar só. Ficar só representa olhar para nós mesmos e enxergarmos no espelho o que tem dentro de nós. Isto assusta, então tapamos o espelho e buscamos alguém para olhar. Allan Dias Castro gravou um vídeo em que ele diz: “Só anda bem acompanhado quem antes foi boa companhia”. Se não conseguirmos ser boa companhia para nós mesmos, não seremos para os outros. Só ajuda o outro, quem está bem. Nesta perspectiva, “ser feliz sozinho” é fundamental para ser mais feliz, juntos.
Nós somos seres dependentes, precisamos do amor e do afeto dos outros. A felicidade necessita sim da presença do outro, de alguém para compartilhar nossas alegrias e tristezas. Felizes os que têm amigos e amores. Felizes os que doam e recebem, pois nestas trocas é que vão perceber que a felicidade é maior ao dar, do que ao receber.
Karen Curi diz que alguém pode usar um outro coração para fazer pulsar o seu, ou, ao caminhar juntos, sincronizar as batidas dos dois corações (https://www.revistabula.com/6213-que-me-perdoem-os-solitarios-mas-e-impossivel-ser-feliz-sozinho/). Portanto, o desafio é saber o limite entre a capacidade do estar bem só e de nos transformarmos em seres solitários. De sabermos desfrutar de boa companhia sem nos tornamos excessivamente dependentes dela. A vida poderá ser boa se estivermos só, mas potencialmente será melhor se for compartilhada. De acordo?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara
Contato: nascimentolf@gmail.com

03Mar
Coluna Dominical

A vida da classe média americana serviria pra você?

– 3 de março de 2019

Luis Felipe Nascimento (*)

Você lembra daquelas cenas de filmes americanos em que aparecem casas enormes, sem muros, com dois carros grandes na garagem, um casal com duas crianças e um cachorro? Parece uma família margarina, não é mesmo? Pois elas existem sim, mas a vida de uma família americana de classe média não é tão fácil quanto parece. Quero compartilhar neste texto a minha percepção sobre as condições financeiras de uma família de classe média americana.
Conversando com americanos e brasileiros que vivem nos EUA, eu percebi que a família classe média americana vive endividada e trabalha a vida toda para pagar dívidas. Para as famílias mais simples, a situação é pior ainda. Isto não quer dizer que eles não possam ter suas casas, carros grandes e muito consumo.
Para exemplificar, vou citar a história que me contou um amigo americano que é doutorando na UCSB. Seus pais são classe média. A renda da família é suficiente para pagar a prestação da casa, o plano de saúde, o plano de aposentadoria, além de poder viver confortavelmente. Maravilha! Eles não tiveram despesas com a educação dos filhos, pois as escolas são gratuitas nos EUA. Como eles moravam num bairro onde tinha uma boa escola, os filhos tiveram uma boa formação. Muitas pessoas escolhem onde morar em função da qualidade da escola, pois só quem mora na área da escola pode estudar nela. Sendo um bom aluno numa boa escola, aumentam as chances de conseguir uma bolsa para ir para a universidade, que mesmo que seja pública, caso não se tenha bolsa ela será paga e custará muito caro.
Ao concluir o ensino médio, os alunos podem ir para o mercado de trabalho recebendo um salário que não difere muito do que recebem os que concluírem o nível superior. A diferença é que, não sendo muito qualificados, eles não poderão escolher onde trabalhar e o que fazer. Se eles resolverem ir para a universidade, terão que pagar as taxas ou conseguir uma bolsa de estudos. As bolsas geralmente são para pagar apenas as taxas da universidade e nem sempre cobrem 100% do valor. Ou seja, muitos estudantes universitários assumem empréstimos junto às empresas privadas para pagar em 30 anos. Vale lembrar que a maioria dos estudantes universitários não vive na casa dos pais. Geralmente eles mudam de cidade ou de estado para seguir seus estudos. Então precisam trabalhar para custear a sua sobrevivência.
Retomando o exemplo do meu amigo, ele era um dos melhores alunos da sua classe e obteve uma nota muito boa no GPA, que é a média de todas as matérias dos quatro anos do ensino médio americano (High School). Ele resolveu ir para a universidade e conseguiu uma bolsa que pagaria 50% dos 200 mil dólares que custaria o curso. Para poder entrar na universidade, com 18 anos ele teve que assumir um endividamento de 100 mil dólares. Geralmente os pais não assumem as dívidas dos filhos, faz parte da cultura americana.
Concluída a graduação, ele conseguiu um bom emprego e começou a pagar o financiamento. Depois resolveu voltar para a universidade para fazer mestrado e doutorado, então conseguiu uma bolsa integral e não precisou pagar seus estudos. Ao largar o trabalho, o pagamento do financiamento foi suspenso até ele voltar a ter renda. Quando concluir o seu doutorado, provavelmente conseguirá um bom emprego e irá comprar uma casa. Para tanto, assumirá novo financiamento de mais uns 30 anos. Terá também que iniciar a pagar um plano de aposentadoria privada, pois mesmo que trabalhe por 35 anos, não terá direito a aposentadoria.
Se ele for trabalhar numa universidade, receberá o salário para 9 meses, tendo 3 meses livres para fazer o que desejar, podendo inclusive oferecer cursos de férias na própria universidade que estiver trabalhando e receberá um valor extra por isto. Ou seja, embora tenha três meses livres, nenhum professor universitário tira três meses de férias. Eles buscam trabalho para complementar a renda. Porém, se o meu amigo resolver ir trabalhar numa empresa, provavelmente terá um salário mais alto, mas apenas 10 dias úteis de férias por ano. Terá direito a 7 dias de faltas justificadas por ano. Se ele adoecer por duas semanas, não adiantará apresentar atestado médico, terá desconto no salário.
Se analisarmos a vida de uma família mais simples, com menor qualificação e menor renda, que mora num bairro mais popular, onde a escola talvez não seja tão boa, as chances de seus filhos conseguirem um bom escore GPA será bem menor. Ir para a universidade e ter uma ascensão social é muito mais difícil. Existe sim meritocracia, mas ela é bastante injusta. O filho do pobre terá que ser um atleta talentoso ou um excelente aluno para poder competir com quem estudou nas melhores escolas. São muito poucos destas escolas que chegam nas boas universidades.
Em resumo, o americano classe média trabalha muito e vive toda sua vida endividado. Eles possuem poucos dias de férias por ano, se aposentam com bastante idade e, não raramente precisam complementar sua renda na aposentadoria com mais alguma atividade ou locando o quarto dos filhos para o airbnb.
Além das questões financeiras, há outros aspectos que me chamaram atenção. Os filhos saem cedo de casa para estudar e/ou trabalhar, e visitam os pais apenas uma ou duas vezes por ano, por isso os casais vivem muito solitários. Os que não se envolverem em atividades da comunidade, tendem a viver em função do trabalho e do consumo. As relações familiares e de amizades são bem diferentes das nossas.
E aí, esta vida serviria pra você?

(*) Luis Felipe Nascimento é “aluno titular” na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara
Contato: nascimentolf@gmail.com